{"id":14966,"date":"2015-09-16T14:00:22","date_gmt":"2015-09-16T17:00:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=14966"},"modified":"2015-09-16T13:27:12","modified_gmt":"2015-09-16T16:27:12","slug":"fantasmas-dos-climas-passados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/fantasmas-dos-climas-passados\/","title":{"rendered":"Fantasmas dos Climas Passados"},"content":{"rendered":"<p>Sua careca resplandecia quente sob o sol do inverno. Enquanto observava a bela paisagem, uma constru\u00e7\u00e3o dos homens e desconstru\u00e7\u00e3o da natureza, nem ao menos percebeu que sua secret\u00e1ria o esperava aflita.<\/p>\n<p>-As not\u00edcias do dia, senhor. O dia mais quente do ano. De novo. \u2013 Afirmou categoricamente, refletindo se ao menos na v\u00e9spera de Natal ele conseguiria compreender a gravidade da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>-Sabe o que \u00e9 estranho? Parece que eu ouvi voc\u00ea falando quase todos os dias que aqueles eram os mais quentes. Um ano de grandes recordes, n\u00e3o? \u2013 Sorriu, novamente sem entender a gravidade da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Sim senhor, ano de grandes recordes. Quinhentas pessoas morreram ontem de insola\u00e7\u00e3o. Aquele projeto para regula\u00e7\u00e3o dos poluentes emitidos pelas empresas espera pela vota\u00e7\u00e3o, na verdade esse projeto ficou esperando o ano todo\u2026 Seus eleitores fizeram um abaixo-assinado para\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o quero saber! J\u00e1 fiz demais hoje! Deixe os eleitores para o ano que vem. Com certeza eles sabem esperar, n\u00e3o \u00e9 mesmo, linda?<\/p>\n<p>Na falta de resposta, ele continuou:<\/p>\n<p>-Era para eu estar de recesso, e, no entanto aqui estou batendo ponto. Viu como sou um bom pol\u00edtico? Vir aqui \u00e9 mais que o necess\u00e1rio, o resto fica para o ano que vem! Dispensada. Eu n\u00e3o quero me aborrecer com aqueles cientistas e ativistas chatos que s\u00f3 sabem falar do meio-ambiente. Por acaso eles acham que s\u00f3 existe o meio-ambiente? E como fica a economia? Em que mundo eles vivem?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a n\u00e3o estava nada surpresa. Antes de sair pela porta, se virou abruptamente para o pol\u00edtico careca:<\/p>\n<p>-Feliz Natal.<\/p>\n<p>-Com certeza! Irei para a Su\u00ed\u00e7a aproveitar a neve. Aquilo sim que \u00e9 Natal de verdade.<\/p>\n<p>A secret\u00e1ria saiu revirando os olhos: se ainda houver neve por l\u00e1\u2026 Eu espero que n\u00e3o tenha! Pergunta onde os cientistas e ativistas chatos pensam que vivem, mas quem n\u00e3o percebe que vivemos em um mundo s\u00f3 \u00e9 ele! A economia n\u00e3o est\u00e1 em um mundo paralelo.<\/p>\n<p>Assim que ela se foi, o pol\u00edtico pegou o celular e ligou para seu chofer:<\/p>\n<p>-Prepare o carro. \u2013 Curto e grosso. \u2013 Sairei agora para o aeroporto.<\/p>\n<p>Pegou sua mala de trabalho, cheia de pap\u00e9is com reivindica\u00e7\u00f5es de empresas e de outros pol\u00edticos, e saiu de seu escrit\u00f3rio com ar-condicionado para seu carro com ar-condicionado a caminho de seu jatinho com ar-condicionado, nem ligou ou percebeu a polui\u00e7\u00e3o, alta temperatura, seca. Em sua bolha de falsa riqueza n\u00e3o percebeu a perda do mundo que o cercava. O mundo a sua volta poderia acabar em \u00e1gua ou fogo que ele n\u00e3o notaria.<\/p>\n<p>Ao chegar ao aeroporto foi direto para seu jatinho, sem nem precisar sentir um pouco da confus\u00e3o de hor\u00e1rios gra\u00e7as \u00e0 confus\u00e3o de climas. Sentou-se em sua poltrona de couro animal, ligou o r\u00e1dio e fechou os olhos.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 faltando? \u2013 Ele poderia responder: minha \u00e9tica! Mas em vez disso lembrou-se de sua bebida preferida.<\/p>\n<p>A bebida estava a apenas alguns passos de seu alcance, por isso ele entrou na despensa de seu avi\u00e3o e pegou o objeto de seu desejo. Um bafo sombrio penetrou no agrad\u00e1vel ambiente assim que tivera em m\u00e3os a bebida.<\/p>\n<p>As gotas dentro harmonizaram-se na forma\u00e7\u00e3o perfeita da face brava de um homem idoso. O medroso imediatamente largou a garrafa, que rolou pelo ch\u00e3o aveludado do avi\u00e3o, sumindo de sua vista.<br \/>\nLembrou-se de sua fam\u00edlia, que o esperava nos Alpes para as f\u00e9rias. Deixou a m\u00fasica tocando e dormiu at\u00e9 que o som parou abruptamente. V\u00e1rios chiados come\u00e7aram quando a m\u00fasica parou. A garrafa voltou aos seus p\u00e9s, e, sozinha, se abriu.<\/p>\n<p>Um fantasma molhado e triste saiu de l\u00e1. Preso por correntes de trov\u00f5es, com a face quebrada da seca, cabelos de \u00e1gua verde e olhos abrangendo a escurid\u00e3o de um poss\u00edvel fim. O pol\u00edtico encolheu-se em sua poltrona e gritou. Seus gritos, por\u00e9m, foram abafados pelo trov\u00e3o que ressoava das correntes.<\/p>\n<p>-Quem \u00e9 voc\u00ea?- Conseguiu perguntar.<\/p>\n<p>-Pergunte quem eu era. \u2013 A sua voz ressoava como a tristeza da Terra.<\/p>\n<p>Ele chegou mais perto do pol\u00edtico, que se encolheu mais ainda.<\/p>\n<p>-Eu era como voc\u00ea. Fui um pol\u00edtico inconsequente e irrespons\u00e1vel que morreu em um acidente de avi\u00e3o.<\/p>\n<p>-Eu vou morrer?!<\/p>\n<p>-Talvez\u2026 Voc\u00ea ser\u00e1 visitado por tr\u00eas fantasmas, tr\u00eas climas, tr\u00eas tempos. \u00c9 o meu presente para voc\u00ea.<\/p>\n<p>-Eu n\u00e3o quero seu presente! S\u00f3 eu estou recebendo esse presente?!<\/p>\n<p>A risada cavernosa fez o avi\u00e3o tremer.<\/p>\n<p>-N\u00e3o. Milhares de pol\u00edticos, de todas as etnias e regi\u00f5es do mundo est\u00e3o recebendo visitas parecidas neste mesmo momento.<\/p>\n<p>O fantasma se foi, deixando como tra\u00e7o um seco suspiro, uma brisa fria, e garrafa da bebida preferida do pol\u00edtico rachada e vazando aos seus p\u00e9s. O pol\u00edtico n\u00e3o conseguiu mais dormir, observando cada som. Um momento, por\u00e9m, ele cochilou, e no exato instante um raio quase atingiu o avi\u00e3o, fazendo um som que lhe lembrou da voz fantasmag\u00f3rica que o visitara.<\/p>\n<p>O bafo sombrio que se manifestara quando abrira a despensa se materializou: era um fantasma branco como a neve e frio. Ele usava luvas pretas de couro artesanal e uma coroa brilhante, dourada.<br \/>\nVestia um comprido manto vermelho, e se n\u00e3o fosse pela falta de barba e sua cor t\u00e3o branca que beirava o doente, poderia muito bem ser o Papai Noel.<\/p>\n<p>-Sou o fantasma do Clima Passado, antes da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.<\/p>\n<p>-Mas antes da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial o Clima n\u00e3o era saud\u00e1vel? Sem ofensa, mas voc\u00ea me parece um pouco an\u00eamico.<\/p>\n<p>O fantasma gritou, levantando o escasso cabelo do pol\u00edtico quase careca.<\/p>\n<p>\u2013 Pol\u00edtico idiota, eu represento o Clima e o Tempo, e o meu tempo n\u00e3o era saud\u00e1vel para o povo. Eu represento um bom Clima e p\u00e9ssimos monarcas absolutistas. Pol\u00edticos t\u00e3o ruins quanto voc\u00eas de hoje.<\/p>\n<p>O fantasma de antes da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial sorriu enigmaticamente, puxou o pol\u00edtico pela gravata, que quase engasgou nesse processo. Ele foi com toda velocidade em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 parede, para desespero do pol\u00edtico, que pensou no fim pr\u00f3ximo. Eles ultrapassaram o avi\u00e3o e desceram das nuvens.<\/p>\n<p>Em um segundo estavam em uma vila, ele conseguia sentir o ar diferente. As pessoas se vestiam com roupas compridas, rasgadas e h\u00e1 muito tempo sem cor. Eles acompanharam uma garotinha que cantava e dan\u00e7ava, em poucos segundos a viram se tornar adulta, idosa, e morrer. Depois disso viram a filha dela, e o filho do filho, observando tamb\u00e9m as mudan\u00e7as no ambiente, que foi se degradando.<\/p>\n<p>Depois do que pareceu muito tempo, ele identificou um garotinho que corria. Era ele. Emocionado, percebera que vira a hist\u00f3ria de sua fam\u00edlia desde o come\u00e7o, e assim veria o seu fim. Viu um velho solit\u00e1rio, deixado de lado pela fam\u00edlia, e tamb\u00e9m viu seus filhos morrerem com o ambiente. A rela\u00e7\u00e3o da degrada\u00e7\u00e3o das pessoas com a degrada\u00e7\u00e3o do ambiente ficou clara.<\/p>\n<p>-Eu vou fazer diferente! Leve-me de volta e eu mudo o futuro! \u2013 Amargurou-se.<\/p>\n<p>-Voc\u00ea ainda n\u00e3o aprendeu a li\u00e7\u00e3o. \u2013 Ao dizer isso o largou, e ele se viu caindo pelos c\u00e9us, entre as nuvens, para um segundo depois estar em sua poltrona de couro.<\/p>\n<p>O pol\u00edtico dormiu, mas logo foi acordado por pingos que ca\u00edam em sua testa. Os pingos fediam, e s\u00f3 teve o tempo para chegar a essa conclus\u00e3o, pois pouco depois um fantasma de roupas futuristas caindo aos peda\u00e7os agarrou sua garganta.<\/p>\n<p>\u2013 Olhe para mim! \u2013 Exclamou o fantasma, zangado.<\/p>\n<p>O pol\u00edtico n\u00e3o queria olhar, preferia passar a noite olhando para o teto (e depois ter torcicolo), do que encarar os frutos de seu trabalho. Ele, todavia, n\u00e3o era t\u00e3o forte quanto o fantasma, que puxou com for\u00e7a e rapidez sua face para baixo, o obrigando a olhar.<\/p>\n<p>-Eu sou seu filho. \u2013 Frase inversa do Star Wars, s\u00e9rio? \u2013 Ele se conteve para n\u00e3o rir. -E tamb\u00e9m sou filho de todos os seus colegas que n\u00e3o fizeram nada para que eu fosse diferente. Para que eu fosse melhor. Fizeram de mim um monstro! Fizeram de mim o fim! Sou o fantasma do per\u00edodo da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, e tamb\u00e9m da p\u00f3s Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.<\/p>\n<p>O pol\u00edtico sentiu-se envergonhado. O futuro era realmente o pesadelo de qualquer um: a destrui\u00e7\u00e3o total, caos, apocalipse em um s\u00f3 ser. Viu-se em um campo escuro que aos poucos foi clareando, e com a luz veio o terror: a terra era seca, morta, apesar de ter certeza de que aquele lugar j\u00e1 fora verde, e conforme andava surgiam pessoas, ou o que restou delas, andando como zumbis.<\/p>\n<p>Corriam o m\u00e1ximo poss\u00edvel em seus corpos delimitados e doentios para alcan\u00e7\u00e1-lo, e o pol\u00edtico corria delas. Quando suspirou aliviado com a certeza de que tinha se livrado deles, olhou para seus p\u00e9s, e gente e mais gente subnutrida puxava sua roupa, como se pedissem socorro.<\/p>\n<p>Seu f\u00f4lego faltou e suas pernas n\u00e3o aguentavam mais, e uma gota mal cheirosa caiu em sua testa, e ele voltou ao seu tempo e ao seu avi\u00e3o. Dessa vez n\u00e3o conseguiu dormir, j\u00e1 que tinha certeza de que n\u00e3o era somente um pesadelo: O avi\u00e3o come\u00e7ou a tremer, e percebeu que o terceiro fantasma estava a caminho. Olhou pela janela e viu um fantasma surpreendente.<\/p>\n<p>\u2013 Sou o caminho, seja para sa\u00fade ou doen\u00e7a, e o futuro \u00e9 o fim. \u2013 Sua voz vinha em forma de trov\u00f5es, e ela ainda estava do lado de fora, com metade de seu vestido verde, doentio, assim como seus p\u00e9s, e da cintura para cima era a fauna e flora, \u00e1gua, luz e esperan\u00e7a. Ela entrou lentamente no avi\u00e3o, afinal o presente n\u00e3o tem pressa.<\/p>\n<p>-O futuro est\u00e1 muito longe e o passado j\u00e1 foi. Eu sou a \u00fanica que voc\u00ea pode mudar, sou a esperan\u00e7a do futuro e o significado do passado. \u2013 Ao dizer isso, tomou as m\u00e3os dele nas suas.<\/p>\n<p>Ela o levou para o presente, e mostrou cada gesto que, naquele instante, ele poderia tomar para ser a esperan\u00e7a do futuro e o significado do passado. Desde economizar a \u00e1gua at\u00e9 as atitudes pol\u00edticas mais significativas, o presente mostrou a ele como agir: com mais amor pela Terra do que pelo dinheiro que poderia ganhar sendo corrupto e ego\u00edsta. Tamb\u00e9m visitaram cada canto do planeta em que seus atos presentes desencadeariam consequ\u00eancias, n\u00e3o viram as consequ\u00eancias, mas a degrada\u00e7\u00e3o do presente.<\/p>\n<p>O pol\u00edtico foi levado, delicadamente, de volta ao seu avi\u00e3o, e a representa\u00e7\u00e3o do presente sumiu em uma explos\u00e3o de luz e vida, mas tamb\u00e9m de morte e caos. O paradoxo da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Assim que o avi\u00e3o chegou ao seu destino, trouxe toda a fam\u00edlia para o avi\u00e3o e voltaram, quando eles chegaram o pol\u00edtico iniciou uma constituinte para colocar em vota\u00e7\u00e3o todas as leis e projetos ambientais e sociais que deixara para mais tarde.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, agora s\u00f3 ia ao trabalho de bicicleta, transformara seu avi\u00e3o no primeiro grande jatinho a funcionar por energia solar, vendera o jatinho e utilizara o dinheiro para construir uma escola sustent\u00e1vel para crian\u00e7as carentes, al\u00e9m de recuperar o carinho da fam\u00edlia e da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>La\u00eds Vit\u00f3ria Cunha de Aguiar, 19, \u00e9 ativista ambiental, estudante de Ecologia da UFPB e comunicadora popular pela Adopt a Negotiator, uma organiza\u00e7\u00e3o mundial que engloba jovens de diversos pa\u00edses com objetivo de divulgar o que ocorre nas negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Conto de La\u00eds Vit\u00f3ria Cunha de Aguiar. O presente conto \u00e9 uma livre adapta\u00e7\u00e3o do livro \u2018Christmas Carol\u2019, conhecido no Brasil como \u2018Um Conto de Natal\u2019, de Charles Dickens.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; EcoDebate de 15 de setembro de 2015<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\">\u00c9 uma pena que pol\u00edticos com consci\u00eancia e pol\u00edticos com \u00e9tica n\u00e3o existam, sejam s\u00f3 lendas e s\u00e3o encontrados s\u00f3 em hist\u00f3rias de fic\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sua careca resplandecia quente sob o sol do inverno. Enquanto observava a bela paisagem, uma constru\u00e7\u00e3o dos homens e desconstru\u00e7\u00e3o da natureza, nem ao menos percebeu que sua secret\u00e1ria o esperava aflita. -As not\u00edcias do dia, senhor. O dia mais quente do ano. 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