{"id":15259,"date":"2015-11-05T10:00:14","date_gmt":"2015-11-05T13:00:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=15259"},"modified":"2015-11-05T09:41:54","modified_gmt":"2015-11-05T12:41:54","slug":"pais-podera-viver-drama-climatico-em-2040","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/pais-podera-viver-drama-climatico-em-2040\/","title":{"rendered":"Pa\u00eds poder\u00e1 viver drama clim\u00e1tico em 2040"},"content":{"rendered":"<p><strong>Em 25 anos, Brasil conviver\u00e1 com calor extremo, falta d\u2019\u00e1gua e de energia, queda na produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria, doen\u00e7as e preju\u00edzo por ressacas, sugere maior estudo j\u00e1 feito sobre impactos do clima.<\/strong><\/p>\n<p>Daqui a apenas 25 anos, no tempo de vida da maior parte dos leitores deste texto, o Brasil poder\u00e1 ter seu cotidiano e sua economia transformados \u2013 para pior \u2013 pela mudan\u00e7a do clima. Secas violentas impedir\u00e3o o parque hidrel\u00e9trico de gerar energia para atender \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e tornar\u00e3o f\u00fateis investimentos bilion\u00e1rios em barragens na Amaz\u00f4nia. Culturas como a soja poder\u00e3o ter redu\u00e7\u00e3o de at\u00e9 39% em sua \u00e1rea. A eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar deixar\u00e1 exposto a alto risco de destrui\u00e7\u00e3o um patrim\u00f4nio imobili\u00e1rio de at\u00e9 R$ 124 bilh\u00f5es apenas na cidade do Rio de Janeiro. Mais idosos morrer\u00e3o por ondas de calor, especialmente no Norte e no Nordeste.<\/p>\n<p>As m\u00e1s not\u00edcias v\u00eam do maior estudo j\u00e1 realizado sobre impactos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica no Brasil. Trata-se do \u201cBrasil 2040 \u2013 Alternativas de Adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas\u201d, encomendado pela Secretaria de Estudos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica a diversos grupos de pesquisa do pa\u00eds e divulgado nesta quinta-feira (29\/10), sem alarde, na p\u00e1gina do extinto minist\u00e9rio na internet. O Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, que herdara o estudo ap\u00f3s a demiss\u00e3o de seus idealizadores pela SAE em mar\u00e7o, se preparava para public\u00e1-lo nos pr\u00f3ximos dias.<\/p>\n<p>O trabalho busca entender como o clima poder\u00e1 variar no Brasil nos pr\u00f3ximos 25, 55 e 85 anos, de forma a embasar pol\u00edticas p\u00fablicas de adapta\u00e7\u00e3o em cinco grandes \u00e1reas: sa\u00fade, recursos h\u00eddricos, energia, agricultura e infraestrutura (costeira e de transportes). Os cen\u00e1rios para os diversos setores foram constru\u00eddos a partir de dois modelos clim\u00e1ticos globais usados pelo IPCC, o painel do clima das Na\u00e7\u00f5es Unidas, e regionalizados para o Brasil pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).<\/p>\n<p>Esses modelos s\u00e3o grandes simula\u00e7\u00f5es da Terra, onde s\u00e3o inclu\u00eddas vari\u00e1veis como vento, oceanos e florestas. Alimentando-os com dados sobre a taxa de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, eles conseguem estimar como o clima vai variar nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas ou s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Os modelos do IPCC t\u00eam a vantagem de enxergar o planeta inteiro, por\u00e9m s\u00e3o \u201cm\u00edopes\u201d: eles dividem o mundo em c\u00e9lulas de 200 km x 200 km, grandes demais para permitir investigar varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas dentro de uma regi\u00e3o geogr\u00e1fica menor ou um pa\u00eds. O que o Inpe fez foi usar dois desses modelos e aumentar sua resolu\u00e7\u00e3o para 20 km x 20 km, dando um zoom na Am\u00e9rica do Sul. Isso permitiu montar pela primeira vez cen\u00e1rios detalhados de chuva e temperatura para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas no Brasil.<\/p>\n<p>Dois modelos foram utilizados: o brit\u00e2nico HadGEM-2 e o japon\u00eas Miroc-5. Por uma quest\u00e3o de personalidade matem\u00e1tica, por assim dizer, ambos \u201cenxergam\u201d o clima no futuro de jeitos diferentes: o brit\u00e2nico tende a apontar um mundo mais seco no futuro, enquanto o japon\u00eas v\u00ea um mundo mais chuvoso.<\/p>\n<p>Cada modelo, por sua vez, foi rodado em dois cen\u00e1rios de emiss\u00e3o de gases de efeito estufa do IPCC, as chamadas \u201ctrajet\u00f3rias representativas de concentra\u00e7\u00e3o\u201d: o RCP 8,5, que assume que a humanidade n\u00e3o far\u00e1 nada para controlar as emiss\u00f5es de CO2; e o RCP 4,5, que assume esfor\u00e7os limitados de controle de emiss\u00f5es, mas ainda fora da trajet\u00f3ria dos 2oC considerados o limite m\u00e1ximo \u201cseguro\u201d de aquecimento.<\/p>\n<p>O que a modelagem revelou foi que, em todos os cen\u00e1rios, o Brasil de 2040 ser\u00e1 um pa\u00eds mais quente e mais seco. As temperaturas m\u00e9dias nos meses mais quentes do ano podem subir at\u00e9 3oC em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00e9dias atuais no Centro-Oeste. A regi\u00e3o Sul tende a ficar mais chuvosa, enquanto o Sudeste, o Centro-Oeste e partes do Norte e Nordeste teriam redu\u00e7\u00f5es as chuvas, em especial nos meses de ver\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/6\/5704\/22788500422_8d2fab0696_o.png\" alt=\"\" width=\"610\" height=\"432\" \/><\/p>\n<p><em>Esses conjuntos de imagens dos modelos do Inpe mostram o que acontece com temperatura (no alto) e chuvas (acima) no Brasil nos quatro cen\u00e1rios analisados pelo Brasil 2040. O mapa superior esquerdo em cada s\u00e9rie mostra o melhor cen\u00e1rio; o inferior direito, o pior.<\/em><\/p>\n<p><strong>Falta d&#8217;\u00e1gua permanente<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro efeito disso \u00e9 uma redu\u00e7\u00e3o na vaz\u00e3o dos rios que abastecem a maior parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira, como mostraram os estudos sobre recursos h\u00eddricos do \u201cBrasil 2040\u201d.<\/p>\n<p>Um grupo liderado por Francisco de Assis Souza e Eduardo Martins, da Universidade Federal do Cear\u00e1 e da Funda\u00e7\u00e3o Cearense de Meteorologia, usou os dados de chuva para construir um modelo de vaz\u00e3o \u2013 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estimar quanto um rio enche ou seca apenas olhando para a m\u00e9dia de chuvas. O resultado \u00e9 dram\u00e1tico para quem acha que o Sudeste do Brasil j\u00e1 sofreu o suficiente com falta d\u2019\u00e1gua e amea\u00e7a de racionamento de energia nos \u00faltimos tr\u00eas anos: no melhor cen\u00e1rio, v\u00e1rios rios de Minas Gerais, S\u00e3o Paulo, Goi\u00e1s, Tocantins, Bahia e Par\u00e1 ter\u00e3o redu\u00e7\u00f5es de vaz\u00e3o de 10% a 30%.<\/p>\n<p>Transpostos para as usinas hidrel\u00e9tricas, os dados de vaz\u00e3o trazem um desafio para o setor de energia no Brasil: as mais importantes usinas do pa\u00eds \u2013 Furnas, Itaipu, Sobradinho e Tucuru\u00ed \u2013 teriam redu\u00e7\u00f5es de vaz\u00e3o de 38% a 57% no pior cen\u00e1rio. Na Amaz\u00f4nia, regi\u00e3o eleita pelo governo a nova fronteira da hidroeletricidade no pa\u00eds, as quedas tamb\u00e9m seriam significativas, como adiantou o OC em abril: a vaz\u00e3o de Belo Monte cairia de 25% a 55%, a de Santo Ant\u00f4nio, de 40% a 65%, e a da usina planejada de S\u00e3o Lu\u00eds do Tapaj\u00f3s, de 20% a 30%.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/1\/569\/22788499972_959d6cedb8_o.png\" alt=\"\" width=\"610\" height=\"290\" \/><\/p>\n<p><em>Vaz\u00f5es estimadas de algumas das principais hidrel\u00e9tricas do pa\u00eds para o per\u00edodo 2011-2040. A linha verde mostra o melhor cen\u00e1rio; a vermelha, o pior.<\/em><\/p>\n<p><strong>Hidrel\u00e9tricas em colapso<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 exce\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Lu\u00eds, a maioria das novas usinas na Amaz\u00f4nia \u00e9 a fio d\u2019\u00e1gua, ou seja, n\u00e3o possui grande reservat\u00f3rio. Isso significa que seu fator de capacidade, ou seja, a quantidade de energia constante gerada ao longo do ano, \u00e9 reduzido, j\u00e1 que a vaz\u00e3o dos rios amaz\u00f4nicos varia enormemente entre a esta\u00e7\u00e3o da seca e a da chuva. Belo Monte, por exemplo, tem um fator de capacidade de cerca de 40%, que, reduzido \u00e0 metade, daria \u00e0 hidrel\u00e9trica de R$ 30 bilh\u00f5es um fator de capacidade menor que o de usinas e\u00f3licas \u2013 para as quais os planejadores energ\u00e9ticos brasileiros e a presidente Dilma Rousseff torcem o nariz, j\u00e1 que essas usinas n\u00e3o s\u00e3o capazes de gerar \u201cenergia firme\u201d nos per\u00edodos sem vento. No total, a gera\u00e7\u00e3o hidrel\u00e9trica cai de 8% a 20% no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cO planejamento energ\u00e9tico precisa ser revisto urgentemente \u00e0 luz dos dados do \u20182040\u2019, sob pena de a sociedade enterrar bilh\u00f5es de reais em projetos que n\u00e3o se pagam\u201d, disse Carlos Rittl, secret\u00e1rio-executivo do OC.<\/p>\n<p>Os dados de Martins e Souza foram utilizados por uma equipe de pesquisadores da Coppe-URFJ liderada por Roberto Schaeffer para analisar o que acontece com a eletricidade do Brasil nos pr\u00f3ximos 25 anos caso se confirmem os cen\u00e1rios de mudan\u00e7a do clima.<\/p>\n<p>O grupo usou em sua an\u00e1lise, por sua vez, dois modelos computacionais: um deles leva em conta a matriz energ\u00e9tica, a demanda por eletricidade e o crescimento do PIB para estimar o comportamento do sistema el\u00e9trico brasileiro \u2013 que fontes crescem na matriz, que fontes diminuem, de acordo com o custo e o fator de capacidade. O outro modelo simula como as usinas hidrel\u00e9tricas e termel\u00e9tricas operam no mundo real de acordo com a disponibilidade de \u00e1gua nos reservat\u00f3rios.<\/p>\n<p>A principal conclus\u00e3o do estudo de Schaeffer e colegas \u00e9 filos\u00f3fica: o planejamento el\u00e9trico no Brasil n\u00e3o poder\u00e1 mais ser feito como vem sendo. Hoje, os respons\u00e1veis pelo setor no governo trabalham segundo a filosofia do \u201cestado estacion\u00e1rio\u201d de vari\u00e1veis clim\u00e1ticas, ou seja, o comportamento dos rios no futuro seguir\u00e1 o comportamento do passado. \u201cN\u00e3o d\u00e1 mais para fazer isso. O futuro n\u00e3o vai obrigatoriamente repetir o passado\u201d, disse Schaeffer ao OC.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise dos pesquisadores mostra que, em todos os cen\u00e1rios analisados, h\u00e1 uma queda na vaz\u00e3o das principais bacias hidrogr\u00e1ficas brasileiras, que empurra o sistema el\u00e9trico para uma situa\u00e7\u00e3o de desequil\u00edbrio estrutural: o sistema n\u00e3o d\u00e1 conta de atender a demanda, provocando cortes de carga \u2013 em portugu\u00eas claro, apag\u00f5es.<\/p>\n<p>Sem medidas de corte de emiss\u00f5es (ou seja, no RCP 8,5), no pior cen\u00e1rio, a vaz\u00e3o dos reservat\u00f3rios cai 30% e o risco de d\u00e9ficit em alguns anos se aproxima de 100% &#8211; a margem considerada \u201csegura\u201d pelo governo para evitar apag\u00f5es \u00e9 de 5%. No melhor cen\u00e1rio, a queda de vaz\u00e3o das hidrel\u00e9tricas chega a 10%, e o risco de d\u00e9ficit, a 60% em alguns anos. O custo de opera\u00e7\u00e3o do sistema, que leva em conta inclusive o acionamento de t\u00e9rmicas, sobe em oito vezes no melhor cen\u00e1rio e em 16,7 vezes no pior.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia do colapso das hidrel\u00e9tricas \u00e9 o aumento do uso de carv\u00e3o mineral e g\u00e1s natural na matriz brasileira, o que tanto aumenta o custo de opera\u00e7\u00e3o do sistema quanto as emiss\u00f5es de carbono, agravando ainda mais o efeito estufa. Outra consequ\u00eancia pode ser o retorno das usinas com grandes reservat\u00f3rios, em especial na regi\u00e3o Sul, onde vai chover mais. Os resultados surpreenderam at\u00e9 os pesquisadores. \u201cSe isso acontecer, o pa\u00eds para se n\u00e3o tiver um seguro\u201d, disse Schaeffer.<\/p>\n<p>Parte desse \u201cseguro\u201d n\u00e3o depende apenas do Brasil: \u00e9 o corte de emiss\u00f5es dentro de um acordo global do clima. Segundo o estudo, somente o custo de expans\u00e3o do sistema el\u00e9trico cairia em R$ 122 bilh\u00f5es entre o cen\u00e1rio RCP 8,5 (sem mitiga\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a do clima) e o cen\u00e1rio RCP 4,5 (com mitiga\u00e7\u00e3o).<br \/>\nO \u201cseguro\u201d cabe ao pa\u00eds contratar, segundo o pesquisador, \u00e9 a adapta\u00e7\u00e3o do sistema. E a melhor maneira de adaptar, curiosamente, \u00e9 reduzindo emiss\u00f5es: aumentando em muito a efici\u00eancia energ\u00e9tica e o uso de renov\u00e1veis, de modo a reduzir a depend\u00eancia de termel\u00e9tricas f\u00f3sseis e de hidrel\u00e9tricas, e colocando um pre\u00e7o nas emiss\u00f5es de carbono \u2013 n\u00e3o necessariamente uma taxa, Schaeffer apressa-se a dizer.<\/p>\n<p>Os dados de energia e recursos h\u00eddricos do \u201cBrasil 2040\u201d foram apresentados ao governo federal ao longo do ano e recebidos com algumas cr\u00edticas \u2013 o estudo da UFCE foi considerado \u201calarmista\u201d pela pr\u00f3pria SAE. \u201cUma cr\u00edtica que a gente pode receber \u00e9 que h\u00e1 incerteza. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 incerteza sobre se voc\u00ea vai ficar doente, e nem por isso voc\u00ea deixa de fazer um plano de sa\u00fade\u201d, compara Roberto Schaeffer.<\/p>\n<p><strong>Mico no Mapitoba<\/strong><\/p>\n<p>Os relat\u00f3rios sobre agricultura, elaborados por equipes da Embrapa e do Agroicone, tamb\u00e9m devem causar arrepios no governo. Eles mostram que a maior aposta da ministra K\u00e1tia Abreu (Agricultura) para a futura expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, o chamado Mapitoba (uma zona de cerrados entre Maranh\u00e3o, Piau\u00ed, Tocantins e Bahia) pode virar um mico na m\u00e3o de investidores.<\/p>\n<p>Uma das an\u00e1lises aponta para a tend\u00eancia de desvaloriza\u00e7\u00e3o das terras por decorr\u00eancia das mudan\u00e7as na produ\u00e7\u00e3o e aumento do risco clim\u00e1tico. Em Pernambuco, as terras podem perder at\u00e9 43% do seu valor. No Par\u00e1, a perda pode ser de at\u00e9 36%. No estado do Maranh\u00e3o, as perdas podem variar de 2% a 16%, no Tocantins de 14% a 26% e de 3% a 14% no Piau\u00ed. Um dos cen\u00e1rios aponta valoriza\u00e7\u00e3o das terras na Bahia, mas esse estado tamb\u00e9m pode ter perdas de 5% no valor das terras.<\/p>\n<p>Os impactos das mudan\u00e7as do clima na agricultura podem levar a perdas de \u00e1rea agricultur\u00e1vel em quase todas as culturas avaliadas \u2013 o efeito mais grave deve recair sobre a \u00e1rea de cultivo de soja, com perdas de at\u00e9 39%. O feij\u00e3o, arroz e milho safrinha podem ter redu\u00e7\u00e3o de \u00e1rea cultiv\u00e1vel de 26%, 24% e 28%, respectivamente.<\/p>\n<p>No caso da cana-de-a\u00e7\u00facar, as \u00e1reas cultiv\u00e1veis podem aumentar, por ser um g\u00eanero que precisa de calor, em especial para a produ\u00e7\u00e3o de etanol. Por\u00e9m, o cultivo deve migrar para regi\u00f5es que hoje s\u00e3o mais frias. A produ\u00e7\u00e3o de mandioca deve sair do Nordeste, muito seco, e migrar para \u00e1reas de Cerrado e Amaz\u00f4nia. O caupi, ou feij\u00e3o-de- corda, j\u00e1 est\u00e1 migrando do Nordeste para o Centro-Oeste.<\/p>\n<p>O estudo avalia tamb\u00e9m que a regi\u00e3o amaz\u00f4nica pode ser afetada por diversas queimadas, gerando problemas para a produ\u00e7\u00e3o no Brasil central e alterando o regime de chuvas e a circula\u00e7\u00e3o de massas de ar. No semi\u00e1rido, a escassez de recursos h\u00eddricos pode se agravar.<\/p>\n<p>A pesquisa sugere que a pr\u00f3pria din\u00e2mica do mercado vai ser uma das medidas de adapta\u00e7\u00e3o: a redu\u00e7\u00e3o de \u00e1reas aptas para produ\u00e7\u00e3o deve afetar os pre\u00e7os das commodities agr\u00edcolas; as regi\u00f5es de maior aptid\u00e3o produtiva devem responder positivamente, enquanto outras regi\u00f5es dever\u00e3o perder produ\u00e7\u00e3o; haver\u00e1 impactos sobre os pre\u00e7os ao produtor e ao consumidor final; novos equil\u00edbrios de oferta, demanda e pre\u00e7os ser\u00e3o gerados, influenciando na produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Calor<\/strong><\/p>\n<p>O cap\u00edtulo de sa\u00fade, que n\u00e3o est\u00e1 entre os relat\u00f3rios disponibilizados pela SAE mas ao qual o OC teve acesso, avaliou apenas os impactos das ondas de calor sobre taxas de mortalidade. Os efeitos s\u00e3o heterog\u00eaneos, de acordo com a faixa et\u00e1ria, clima regional e as condi\u00e7\u00f5es de saneamento. Os idosos s\u00e3o o grupo populacional mais vulner\u00e1vel, enquanto na avalia\u00e7\u00e3o por regi\u00e3o, Norte e Nordeste devem ser as mais afetadas.<\/p>\n<p>No Tocantins, por exemplo, o aumento do n\u00famero de mortes entre idosos pode chegar a 9%, em decorr\u00eancia de doen\u00e7as respirat\u00f3rias agravadas por ondas de calor. Rio Grande do Norte e Para\u00edba tamb\u00e9m devem ter aumento superior a 5% nos \u00edndices de mortalidade no mesmo grupo.<\/p>\n<p>\u201cTemos o dado demogr\u00e1fico: a popula\u00e7\u00e3o vai envelhecer. Ent\u00e3o, o Brasil vai se tornar mais vulner\u00e1vel \u00e0s mudan\u00e7as do clima\u201d, diz o coordenador do estudo, Jos\u00e9 Feres, do IPEA (Instituto de Pesquisas Econ\u00f4micas Aplicadas).<\/p>\n<p>O estudo tamb\u00e9m alerta para a dissemina\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as infecciosas end\u00eamicas, que podem aumentar de acordo com as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, como mal\u00e1ria, dengue e leptospirose. Outra preocupa\u00e7\u00e3o s\u00e3o eventos clim\u00e1ticos extremos como tempestades, ocasionando inunda\u00e7\u00f5es, afogamentos, desabamentos, aglomera\u00e7\u00f5es, entre outros. \u201cNossa principal recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de um sistema de alerta para ondas de calor e outros eventos clim\u00e1ticos extremos. \u00c9 uma medida simples, mas que o Brasil ainda n\u00e3o tem\u201d, diz Feres.<\/p>\n<p><strong>Estradas ruins<\/strong><\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o dos impactos sobre a infraestrutura de transportes traz a informa\u00e7\u00e3o que os brasileiros que viajam de carro ou \u00f4nibus j\u00e1 sabem: nossa malha rodovi\u00e1ria j\u00e1 \u00e9 ruim. Mas pode piorar. O estresse por chuvas intensas, ac\u00famulo de umidade e altas temperaturas demanda altos investimentos em adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Combinando informa\u00e7\u00f5es sobre sinaliza\u00e7\u00e3o, qualidade do asfalto e condi\u00e7\u00f5es das rodovias, elaborou-se o \u00cdndice de Vulnerabilidade da Infraestrutura Rodovi\u00e1ria (IVIR). Quanto mais alto, mais vulner\u00e1veis s\u00e3o as rodovias. Observando os mapas, \u00e9 poss\u00edvel comparar o n\u00famero de rodovias vulner\u00e1veis hoje e em 2040.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/1\/769\/22383633167_07fcf12856_z.jpg\" alt=\"\" width=\"610\" height=\"469\" \/><\/p>\n<p><em>Mapas mostram estradas vulner\u00e1veis (em laranja e vermelho) hoje (no alto) e em 2040 (acima)<\/em><\/p>\n<p>As regi\u00f5es Sudeste e Sul, que hoje j\u00e1 apresentam estradas em boas condi\u00e7\u00f5es, ser\u00e3o as menos afetadas. Atualmente, apenas oito estados apresentam segmentos vulner\u00e1veis, contra 22 estados no cen\u00e1rio futuro, al\u00e9m do Distrito Federal. A regi\u00e3o Nordeste \u00e9 campe\u00e3 em vulnerabilidade, em especial no litoral \u2013 tanto pela possibilidade de aumento de temperaturas quanto pelas condi\u00e7\u00f5es das rodovias.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil, n\u00e3o h\u00e1 um banco de dados consistente sobre os efeitos de eventos clim\u00e1ticos na infraestrutura rodovi\u00e1ria e n\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios de que essa situa\u00e7\u00e3o ir\u00e1 mudar no curto prazo\u201d, diz o relat\u00f3rio. \u201cTal banco de dados \u00e9 importante para determinar a resili\u00eancia atual e para prover a base para estudos sobre impactos relacionados ao clima futuros.\u201d<\/p>\n<p>A an\u00e1lise ressalta que os custos de adapta\u00e7\u00e3o e reparos podem ser muito superiores \u00e0 economia feita com obras mais baratas, que n\u00e3o ser\u00e3o satisfat\u00f3rias em m\u00e9dio e longo prazo. Tamb\u00e9m recomenda o desenvolvimento de estudos sobre o risco de afogamento da infraestrutura rodovi\u00e1ria em decorr\u00eancia de chuvas fortes, em todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o solu\u00e7\u00f5es de engenharia tradicional, mas que sair\u00e3o car\u00edssimas por causa do tamanho da rede\u201d, disse S\u00e9rgio Margulis, economista carioca que idealizou o \u201cBrasil 2040\u201d.<\/p>\n<p><strong>Olha a onda<\/strong><\/p>\n<p>A equipe do engenheiro Wilson Cabral Jr., do ITA (Instituto Tecnol\u00f3gico de Aeron\u00e1utica) tamb\u00e9m criou um \u00edndice de vulnerabilidade para a infraestrutura costeira e portu\u00e1ria do Brasil, na tentativa de estimar o que aconteceria com o litoral em caso de eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar conforme previsto pelo IPCC.<\/p>\n<p>Os pesquisadores tiveram de lidar com um problema adicional: a absoluta falta de informa\u00e7\u00f5es sobre como o n\u00edvel do mar vem subindo no pa\u00eds nas \u00faltimas d\u00e9cadas e sobre como as ondas v\u00eam ficando mais fortes. \u201cA rede de mar\u00e9grafos no Brasil \u00e9 incipiente, e a de ond\u00f3grafos mais ainda\u201d, disse M\u00e1rcia Oliveira, coordenadora de Gerenciamento Costeiro do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente.<\/p>\n<p>Segundo Cabral, nem mesmo as bases de dados usadas para estimar a altimetria (a altura do terreno acima do n\u00edvel do mar) e a batimetria (o perfil do fundo oce\u00e2nico), dois dados que precisam ser combinados para informar a eleva\u00e7\u00e3o da l\u00e2mina d\u2019\u00e1gua e o risco de inunda\u00e7\u00e3o, conversam entre si. H\u00e1 um erro sistem\u00e1tico nas medi\u00e7\u00f5es que os pesquisadores n\u00e3o conseguem nem mesmo estimar.<\/p>\n<p>Cabral e seu aluno V\u00edtor Zanetti usaram, ent\u00e3o, as proje\u00e7\u00f5es de n\u00edvel do mar do IPCC para estimar risco de alagamento e ressacas em Santos e no Rio de Janeiro. Um outro grupo, da USP, estimou o impacto nos portos e as medidas de adapta\u00e7\u00e3o necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Os resultados mostram que quase todos os portos do pa\u00eds precisam j\u00e1 hoje de medidas de adapta\u00e7\u00e3o, seja para aumentar a chamada \u201cborda livre\u201d, o espa\u00e7o seco entre o cais e a \u00e1gua, seja para aumentar o calado por causa de assoreamento. O custo dessas medidas, que inclui a constru\u00e7\u00e3o de quebra-mares, foi calculado em R$ 7 bilh\u00f5es \u2013 mais do que o PAC (Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento) investiu em portos.<\/p>\n<p>Para Santos e para o Rio, foram mapeadas as zonas em risco alto e muito alto de deslizamento, ressaca e inunda\u00e7\u00e3o, o que inclui hospitais e a infraestrutura de transporte p\u00fablico, al\u00e9m de esta\u00e7\u00f5es de tratamento de esgotos. A Linha Vermelha, no Rio, est\u00e1 longe da praia, mas deve alagar com frequ\u00eancia ainda maior devido ao efeito de \u201cbarragem\u201d que o mar mais alto exerce sobre os canais que a rodovia cruza. O quadro que emerge nas duas cidades \u00e9 o de colapso urbano em caso de ressacas e inunda\u00e7\u00f5es muito graves no futuro. Apenas no Rio, o patrim\u00f4nio imobili\u00e1rio sob alto risco foi estimado em R$ 124 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 de se esperar que tomadores de decis\u00e3o, em seus diversos n\u00edveis, tenham conhecimento destes estudos e resultados e possam utiliz\u00e1-los em abordagens de planejamento de curto, m\u00e9dio e longo prazos\u201d, escreveram os pesquisadores.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Observat\u00f3rio do Clima \/ IHU de 03 de novembro de 2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 25 anos, Brasil conviver\u00e1 com calor extremo, falta d\u2019\u00e1gua e de energia, queda na produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria, doen\u00e7as e preju\u00edzo por ressacas, sugere maior estudo j\u00e1 feito sobre impactos do clima. 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