{"id":15261,"date":"2015-11-05T11:00:00","date_gmt":"2015-11-05T14:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=15261"},"modified":"2015-11-05T09:52:33","modified_gmt":"2015-11-05T12:52:33","slug":"a-era-da-carne","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-era-da-carne\/","title":{"rendered":"A Era da Carne"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;O consumo de animais \u00e9 um luxo recente para a humanidade. Talvez o alerta da OMS seja o in\u00edcio do fim dessa \u00e9poca&#8221;. O coment\u00e1rio \u00e9 de Mart\u00edn Caparr\u00f3s, escritor e jornalista em artigo publicado por El Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Segundo o autor de Hambre, <strong>&#8220;consumir animais \u00e9 um luxo: uma forma muito clara de concentra\u00e7\u00e3o da riqueza. A carne \u00e9 um estandarte e \u00e9 uma mensagem: que este planeta s\u00f3 pode ser usado assim se bilh\u00f5es de pessoas se resignarem a us\u00e1-lo muito menos. Se todos quiserem us\u00e1-lo igualmente n\u00e3o pode funcionar: a exclus\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u2014 e nunca suficiente&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p>A carne se tornou, de repente, ainda mais fraca. J\u00e1 era atacada por v\u00e1rios lados e agora, subitamente, veio o golpe ardiloso: causa c\u00e2ncer. Sabemos disso, tentamos ignor\u00e1-lo: viver causa muito c\u00e2ncer e essas vidas do s\u00e9culo XXI produzem principalmente paranoicos, cidad\u00e3os t\u00e3o satisfeitos com essas vidas, t\u00e3o aborrecidos com essas vidas que vivem para preserv\u00e1-las. Para tanto se entrincheiram em si mesmos \u2014 porque tudo o que vem de fora pode ser perigoso: fuma\u00e7as, sais, a\u00e7\u00facares, hidratos, gorduras, v\u00e1rias drogas, corpos estranhos ou mesmo conhecidos. E agora, claro, a carne cancer\u00edgena.<\/p>\n<p>Dizem que, no in\u00edcio, a carne fez os homens: que aquelas animaizinhos carniceiros que fomos h\u00e1 tr\u00eas milh\u00f5es de anos desenvolveram suas mentes gra\u00e7as \u00e0s gorduras e prote\u00ednas animais que comiam quando encontravam um cad\u00e1ver n\u00e3o decomposto. Assim foram melhorando, aprenderam a matar eles mesmos e melhoraram mais; descobriram o fogo, cozinharam e, lentamente, se fizeram homens e mulheres. Comiam a carne que ca\u00e7avam e frutas que coletavam at\u00e9 que, h\u00e1 poucos dias, algu\u00e9m percebeu que, se enterrasse uma semente conseguiria uma planta e o mundo foi se tornando outro, este: surgiram a agricultura, as cidades, os reis, novos deuses, a roda, os metais, milh\u00f5es de pessoas, as c\u00e1ries, as classes, a riqueza e suas diversas injusti\u00e7as.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o neol\u00edtica mudou tudo e tamb\u00e9m a alimenta\u00e7\u00e3o: desde ent\u00e3o os humanos \u2014 exceto, \u00e9 claro, os ricos e famosos \u2014 passaram a comer principalmente algum cereal, tub\u00e9rculo ou verdura, ocasionalmente acompanhados por um pedacinho ou dois de alguma carne. E assim foi, durante dez mil anos, at\u00e9 que, algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s, as sociedades mais ricas do planeta entraram na Era da Carne.<\/p>\n<p>Hoje nos parece normal, mas \u00e9 muito estranho: um bife com batatas, salsichas com pur\u00ea, frango com arroz, prote\u00edna animal com algum vegetal como acompanhamento \u00e9 uma invers\u00e3o da ordem hist\u00f3rica, uma enorme mudan\u00e7a cultural \u2014 e nem sequer pensamos nisso. E pensamos ainda menos no que isso significa como gesto econ\u00f4mico e social. N\u00e3o digam a ningu\u00e9m o que est\u00e1 dizendo um argentino: comer um bife\/chuleta\/fil\u00e9, um grande peda\u00e7o de carne, \u00e9 uma das formas mais eficazes de validar e aproveitar um mundo injusto.<\/p>\n<p>Consumir animais \u00e9 um luxo: uma forma muito clara de concentra\u00e7\u00e3o da riqueza. A carne acumula recursos que poderiam ser compartilhados: <strong>s\u00e3o necess\u00e1rias quatro calorias vegetais para produzir uma caloria de carne de frango; seis para produzir uma de porco; dez calorias vegetais para produzir uma caloria de vaca ou de cordeiro.<\/strong> A mesma coisa acontece com a \u00e1gua: <strong>s\u00e3o necess\u00e1rios 1.500 litros para produzir um quilo de milho, 15.000 para um quilo de carne de vaca.<\/strong> Isto \u00e9, <strong>quando algu\u00e9m come carne se apropria de recursos que, compartilhados, seriam suficientes para cinco, oito, dez pessoas.<\/strong> Comer carne \u00e9 estabelecer uma desigualdade brutal: sou eu quem pode engolir os recursos de que voc\u00eas precisam. A carne \u00e9 um estandarte e \u00e9 uma mensagem: que este planeta s\u00f3 pode ser usado assim se bilh\u00f5es de pessoas se resignarem a us\u00e1-lo muito menos. Se todos quiserem us\u00e1-lo igualmente n\u00e3o pode funcionar: a exclus\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u2014 e nunca suficiente.<\/p>\n<p>Cada vez mais pessoas se empurram para sentar-se \u00e0 mesa das carnes \u2014 os chineses, por exemplo, que h\u00e1 20 anos consumiam cinco quilos por pessoa por ano, e agora mais de 50 \u2014 porque comer carne te define como um predador bem-sucedido, um vencedor. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o consumo de carne aumentou o dobro da popula\u00e7\u00e3o mundial. <strong>Ao redor de 1950, o planeta produzia 50 milh\u00f5es de toneladas de carne por ano; agora, quase seis vezes mais \u2014 e a previs\u00e3o \u00e9 de que volte a dobrar em 2030.<\/strong> Enquanto isso, um bom ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o mundial continua comendo como sempre: bilh\u00f5es de pessoas n\u00e3o provam a carne quase nunca, a metade da comida que a humanidade consome diariamente \u00e9 o arroz, e um quarto mais, trigo e milho.<\/p>\n<p>E surgem rachaduras no imp\u00e9rio da carne. Primeiro foi o imperativo da sa\u00fade: quando nos disseram que o colesterol da carne nos enlameava o corpo. E agora, nos bairros mais cool das cidades ricas, cada vez mais senhoras e senhores rejeitam a carne por v\u00e1rias convic\u00e7\u00f5es: n\u00e3o querem comer cad\u00e1veres, n\u00e3o querem ser respons\u00e1veis por essas mortes, n\u00e3o querem exigir assim de seus corpos, eles n\u00e3o querem. Chove, agora, no molhado: a amea\u00e7a de c\u00e2ncer. At\u00e9 chegar <strong>a impossibilidade mais pura e dura: tantos querer\u00e3o comer seu quinh\u00e3o de carne que o planeta, esgotado, dir\u00e1 basta.<\/strong><\/p>\n<p>Vai demorar: o com\u00e9rcio mundial de alimentos est\u00e1 organizado para concentrar os recursos em benef\u00edcio de uns poucos, poderosos interesses defender\u00e3o seus interesses. Mas em algum momento, dentro de d\u00e9cadas, um s\u00e9culo, os historiadores come\u00e7ar\u00e3o a olhar para tr\u00e1s e falar\u00e3o sobre estes tempos \u2014 um lapso breve, um suspiro na hist\u00f3ria \u2014 como A Era da Carne. Que ter\u00e1, ent\u00e3o, terminado para sempre.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; IHU de 03 de novembro de 2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O consumo de animais \u00e9 um luxo recente para a humanidade. Talvez o alerta da OMS seja o in\u00edcio do fim dessa \u00e9poca&#8221;. O coment\u00e1rio \u00e9 de Mart\u00edn Caparr\u00f3s, escritor e jornalista em artigo publicado por El Pa\u00eds. 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