{"id":15443,"date":"2015-12-10T12:00:50","date_gmt":"2015-12-10T15:00:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=15443"},"modified":"2015-12-10T09:25:17","modified_gmt":"2015-12-10T12:25:17","slug":"vamos-reduzir-o-desmatamento-a-zero-saiba-como","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/vamos-reduzir-o-desmatamento-a-zero-saiba-como\/","title":{"rendered":"Vamos reduzir o desmatamento a zero. Saiba como."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/1\/734\/21190301020_b7d64e510f_b.jpg\" alt=\"\" width=\"610\" height=\"813\" \/><\/p>\n<p><strong>Por que proteger a Amaz\u00f4nia e deixar a floresta intacta faz mais sentido para a economia?<\/strong><\/p>\n<p>Quando Theodore Roosevelt explo\u00adrou a Amaz\u00f4nia um s\u00e9culo atr\u00e1s, ele fi\u00adcou encantado com o poderoso rio que corria \u201cde oeste a leste, do poente \u00e0 au\u00adrora, dos Andes ao Atl\u00e2ntico\u201d. No di\u00e1rio de viagem do ex-presidente americano, Nas selvas do Brasil, de 1914, ele descreve poeticamente \u201cas frondosas \u00e1rvores, o ema\u00adranhado de cip\u00f3s, as cavernas formadas por vegeta\u00e7\u00e3o, onde trepadeiras de folha espessa cobrem todas as ou\u00adtras coisas\u201d.<\/p>\n<p>Roosevelt concluiu que a Amaz\u00f4nia era \u201ca \u00faltima fronteira\u201d do mundo [&#8230;] \u201ce d\u00e9cadas passar\u00e3o antes que ela desapare\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, provavelmente Teddy n\u00e3o se sentiria t\u00e3o con\u00adfiante. Enquanto voc\u00ea l\u00ea este artigo, uma \u00e1rea aproxi\u00admadamente do tamanho de um campo de futebol est\u00e1 sendo devastada a cada minuto s\u00f3 na Amaz\u00f4nia brasi\u00adleira. Quase 20 por cento da Amaz\u00f4nia brasileira foram desmatados nos \u00faltimos quarenta anos. Pelo menos ou\u00adtros 20 por cento sofrem de \u201cdegrada\u00e7\u00e3o\u201d \u2014 termo que \u00e9 amplamente definido como uma floresta que perde par\u00adcialmente a capacidade de produzir madeira, conservar a biodiversidade e armazenar carbono \u2014 por causa da ex\u00adplora\u00e7\u00e3o madeireira e inc\u00eandios florestais.<\/p>\n<p>Como acontece com qualquer ecossistema, a Amaz\u00f4\u00adnia tem um limite natural que, depois de cruzado, ser\u00e1 imposs\u00edvel reverter. Alguns cientistas temem que, se o desmatamento subir para 40 por cento de seu territ\u00f3\u00adrio, a Amaz\u00f4nia come\u00e7ar\u00e1 um processo irrevers\u00edvel de transforma\u00e7\u00e3o em cerrados. As implica\u00e7\u00f5es para o aque\u00adcimento global, padr\u00f5es clim\u00e1ticos e a biodiversidade se\u00adriam catastr\u00f3ficas.<\/p>\n<p>Houve uma \u00e9poca, n\u00e3o muito tempo atr\u00e1s, em que parec\u00edamos caminhar precisamente nessa dire\u00e7\u00e3o. S\u00f3 em 2004, cerca de 27 mil quil\u00f4metros quadrados de flo\u00adresta \u2014 uma \u00e1rea equivalente ao Estado de Alagoas \u2014 fo\u00adram destru\u00eddos apenas no Brasil. Naquele ano, por causa dessa destrui\u00e7\u00e3o desenfreada, o pa\u00eds ficou entre os cinco maiores emissores mundiais de gases de efeito estufa, algo especialmente vexat\u00f3rio porque, embora o desma\u00adtamento da Amaz\u00f4nia fosse respons\u00e1vel por mais da me\u00adtade das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa do Brasil, a regi\u00e3o gerou apenas 8 por cento do produto interno bruto do pa\u00eds. Pior ainda, a regi\u00e3o tinha alguns dos piores indi\u00adcadores do Brasil em sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>Em outras palavras, est\u00e1vamos perdendo um dos nossos maiores tesouros em troca de nada.<\/p>\n<p>O Brasil, que abriga cerca de 65 por cento da floresta amaz\u00f4nica, sempre teve uma responsabilidade especial para defend\u00ea-la. Naquele mesmo ano, em 2004, o go\u00adverno do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva anunciou um ambicioso plano para conter o desmatamento. Da\u00addos os fracassos de pol\u00edticas anteriores, ningu\u00e9m pre\u00advia que esse iria funcionar. Mas, surpreendentemente, ele funcionou. Em 2014, a \u00e1rea da Amaz\u00f4nia brasileira desmatada a cada ano caiu para cerca de 5 mil quil\u00f4metros quadrados, um de\u00adcl\u00ednio de mais de 75 por cento em re\u00adla\u00e7\u00e3o a 2004.<\/p>\n<p>O plano tinha v\u00e1rios mecanismos que, em conjunto, provaram-se muito efi\u00adcazes. Ele inclu\u00eda iniciativas para mo\u00adnitorar a floresta quase em tempo real, usando imagens de sat\u00e9lite para deter agressores antes que eles derrubassem a floresta. E implementou puni\u00ad\u00e7\u00f5es eficazes para os violadores, levando-os \u00e0 pris\u00e3o e confiscando bens relacionados aos crimes ambientais. Tamb\u00e9m criou uma vasta rede de Unidades de Con\u00adserva\u00e7\u00e3o \u2014 uma \u00e1rea de mais de meio milh\u00e3o de quil\u00f4\u00admetros quadrados, aproximadamente do tamanho da Fran\u00e7a, em apenas tr\u00eas anos. A redu\u00e7\u00e3o do desmata\u00admento da Amaz\u00f4nia resultante \u00e9 considerada a maior conquista da humanidade at\u00e9 agora em termos de re\u00addu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa \u2014 impedindo que mais de 3 giga\u00adtoneladas de di\u00f3xido de carbono equi\u00advalente fossem lan\u00e7adas na atmosfera.<\/p>\n<p>Isso \u00e9, de fato, um feito a ser come\u00admorado. Mas n\u00e3o \u00e9 suficiente. Mesmo que o desmatamento tenha ca\u00eddo mais de 75 por cento, o ritmo de perda de \u00e1rvores na Amaz\u00f4nia ainda \u00e9 considerado, junto com a In\u00addon\u00e9sia, o mais acelerado do mundo. Isso significa que n\u00f3s apenas adiamos o risco de uma cat\u00e1strofe ambien\u00adtal e econ\u00f4mica, em vez de evit\u00e1-la completamente. En\u00adt\u00e3o, em vez de se conformar com o status quo, \u00e9 hora de perseguir uma meta mais ousada e necess\u00e1ria: desmata\u00admento zero na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Alguns consideram essa meta radical, ou mesmo ut\u00f3\u00adpica. A verdade, por\u00e9m, \u00e9 que uma meta de desmata\u00admento zero n\u00e3o \u00e9 apenas poss\u00edvel, mas desej\u00e1vel. Ela seria favor\u00e1vel para o ambiente, obviamente, mas isso \u00e9 apenas um dos motivos para faz\u00ea-lo. O desmatamento zero tam\u00adb\u00e9m traria enormes benef\u00edcios para a economia da Ama\u00adz\u00f4nia e seu povo. Aqui, quatro raz\u00f5es que explicam isso.<\/p>\n<p><strong>1. J\u00e1 desmatamos toda a terra de que precisamos.<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil cortou, ao longo dos \u00faltimos 40 anos, uma \u00e1rea florestal maior que os Estados de Minas Gerais e Paran\u00e1 somados. No entanto, quase 70 por cento da \u00e1rea desmatada \u00e9 subutilizada, e mais de 10 milh\u00f5es de hec\u00adtares est\u00e3o simplesmente abandonados (uma \u00e1rea supe\u00adrior ao territ\u00f3rio de Pernambuco).<\/p>\n<p>Na verdade, a terra que j\u00e1 foi devastada \u00e9 mais que o ne\u00adcess\u00e1rio para sustentar novas fazendas, empreendimen\u00adtos hidrel\u00e9tricos, projetos de minera\u00e7\u00e3o e cidades para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Seria inteiramente poss\u00edvel aumentar a produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Amaz\u00f4nia e fornecer trabalho e riqueza para os seus cerca de 33 milh\u00f5es de habitantes (24 milh\u00f5es se considerarmos apenas a Amaz\u00f4nia bra\u00adsileira) sem desmatar novas \u00e1reas. Alcan\u00e7ar essa meta depende principalmente de desenvolvimento e imple\u00admenta\u00e7\u00e3o de tecnologias e t\u00e9cnicas, muitas das quais j\u00e1 existem, para fazer melhor uso da terra j\u00e1 desflorestada.<\/p>\n<p>Existem sinais promissores de que isso \u00e9 poss\u00edvel. No Estado do Par\u00e1, os pecuaristas tornaram-se cinco vezes mais produtivos que os seus pares, produzindo 500 kg de carne por hectare por ano, em compara\u00e7\u00e3o com uma m\u00e9dia de apenas 100 kg no resto da Amaz\u00f4nia, gra\u00e7as \u00e0 melhoria da pastagem e ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas para melho\u00adrar o bem-estar dos animais (plantio de \u00e1rvores em pon\u00adtos estrat\u00e9gicos para garantir sombra, fornecendo \u00e1gua fresca, etc.). Os produtores de soja do Mato Grosso es\u00adt\u00e3o aumentando a produ\u00e7\u00e3o sem promover mais desma\u00adtamento, gra\u00e7as a uma melhoria na produtividade. Al\u00e9m disso, novas t\u00e9cnicas est\u00e3o permitindo que a madeira eoutros produtos florestais n\u00e3o-madeireiros , como o a\u00e7a\u00ed, sejam colhidos sem que seja necess\u00e1rio cortar a floresta.<\/p>\n<p><strong>2. Crescimento econ\u00f4mico n\u00e3o requer desmatamento.<\/strong><\/p>\n<p>Em 1970, quando o ritmo de desmatamento na Ama\u00adz\u00f4nia come\u00e7ou a realmente acelerar, a regi\u00e3o gerava pouco menos de 8 por cento do produto interno bruto do Brasil. Hoje, 45 anos mais tarde, depois de todo o des\u00admatamento ocorrido, depois do surgimento de todas as fazendas de gado e projetos de minera\u00e7\u00e3o e centros ur\u00adbanos, a regi\u00e3o amaz\u00f4nica ainda produz os mesmos 8 por cento do PIBbrasileiro.<\/p>\n<p>Dito de outra forma, o tipo de desenvolvimento ocor\u00adrido n\u00e3o fez nada para melhorar a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos habitantes da Amaz\u00f4nia em compara\u00e7\u00e3o com o resto do Brasil. As pessoas fizeram enormes sacrif\u00edcios em sua qualidade de vida, vendo seu habitat, antes uma floresta intocada, ser substitu\u00eddo por cidades ca\u00f3ticas e afetadas por fuma\u00e7a de queimadas, mas os benef\u00edcios de tal cres\u00adcimento foram colhidos apenas por um pequeno n\u00famero de indiv\u00edduos e empresas. A Amaz\u00f4nia ainda tem alguns dos piores indicadores sociais do Brasil. \u00c9 hora de bus\u00adcar um modelo mais inteligente de crescimento econ\u00f4\u00admico que n\u00e3o dependa de destruir a floresta.<\/p>\n<p><strong>3. O valor econ\u00f4mico da floresta \u00e9 grande\u2014 e continua crescendo.<\/strong><\/p>\n<p>Nossa compreens\u00e3o do valor econ\u00f4mico intr\u00ednseco da floresta foi ampliada. Ela tem um enorme valor estrat\u00e9\u00adgico no presente, e ter\u00e1 ainda mais no futuro.<\/p>\n<p>Para citar alguns exemplos: A Amaz\u00f4nia \u00e9 o maior e mais diversificado estu\u00e1rio do mundo. \u00c9 rico em recur\u00adsos pesqueiros e abriga cerca de 700 bilh\u00f5es de \u00e1rvores. A Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m tem um papel fundamental na re\u00adgula\u00e7\u00e3o do clima da regi\u00e3o e do mundo. De fato, a Ama\u00adz\u00f4nia \u00e9 o \u201cprovedor\u201d de chuvas para o centro-sul do Brasil, gerando umidade que \u00e9 ent\u00e3o transportada para o sudeste atrav\u00e9s dos chamados \u201crios voadores\u201d. Alguns cientistas acreditam que a recente seca severa em S\u00e3o Paulo e outras grandes cidades pode ter sido resultado do desmatamento na Amaz\u00f4nia. O custo econ\u00f4mico do racionamento de \u00e1gua naquele Estado, resultando em perda de produ\u00e7\u00e3o e de neg\u00f3cios, \u00e9 muito maior que tudo o que foi adquirido com a devasta\u00e7\u00e3o da floresta.<\/p>\n<p>Analisando globalmente, alguns estimam que a regi\u00e3o amaz\u00f4nica tem quase 25 por cento das reservas de carbono acima do solo das florestas do mundo. Se esse carbono for liberado para a atmosfera, poderia tornar o aquecimento global ainda mais catastr\u00f3fico, com consequ\u00eancias econ\u00f4\u00admicas e sociais devastadoras para a humanidade<\/p>\n<p><strong>4. Os consumidores do mundo n\u00e3o v\u00e3o apoiar o desflorestamento.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma enorme press\u00e3o vinda dos mercados para eli\u00adminar produtos que venham de \u00e1reas desmatadas. \u00c9 im\u00adportante notar uma iniciativa do Consumer Goods Forum, uma alian\u00e7a entre algumas das maiores empresas globais, que adotou a meta de desmatamento zero at\u00e9 2020. Ou seja, a partir dessa data, elas deixar\u00e3o de comprar qual\u00adquer tipo de carne, soja, \u00f3leo de palma, madeira ou papel que venham de \u00e1reas rec\u00e9m-desmatadas. Essa press\u00e3o do mercado tem ajudado a mostrar ao produtores que fazem uso intensivo da terra nas \u00e1reas rurais da Amaz\u00f4nia que \u00e9 necess\u00e1rio acabar com o desmatamento para ser com\u00adpetitivo e ter sucesso em seus neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>O ingrediente final para tornar o desmata\u00admento zero vi\u00e1vel \u00e9 incentivar o governo brasileiro, e outros com territ\u00f3rio na Ama\u00adz\u00f4nia, a assumir compromissos ousados em vez de se sa\u00adtisfazerem com a situa\u00e7\u00e3o atual. H\u00e1 algumas janelas de oportunidade nesse fronte. A confer\u00eancia global sobre o clima, em Paris, no fim de 2015, \u00e9 a principal. Outro ca\u00adminho seria apoiar as iniciativas em n\u00edvel estadual. Por exemplo, o Estado do Par\u00e1, que \u00e9 maior que a Fran\u00e7a e a Espanha juntas, j\u00e1 anunciou uma meta de desmatamento l\u00edquido zero para 2020. Isso mostra que a lideran\u00e7a po\u00adl\u00edtica e vis\u00e3o sobre essa quest\u00e3o j\u00e1 est\u00e3o presentes; s\u00f3 \u00e9 preciso simplesmente que elas se espalhem para o n\u00edvel nacional e internacional.<\/p>\n<p>A Amaz\u00f4nia sempre foi um lugar para ousadia. Isso foi verdade h\u00e1 um s\u00e9culo, quando exploradores como The\u00adodore Roosevelt desbravaram seus caminhos, e continua sendo verdade hoje para os l\u00edderes que estejam dispostos a salvar o patrim\u00f4nio natural da Amaz\u00f4nia para as ge\u00adra\u00e7\u00f5es futuras. O que precisamos s\u00e3o ideias audaciosas e pessoas profundamente comprometidas para ajudar a implement\u00e1-las. Vamos dar o pr\u00f3ximo passo \u2014 e reduzir o desmatamento a zero.<\/p>\n<p>Ver\u00edssimo \u00e9 pesquisador e um dos fundadores do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amaz\u00f4nia (Imazon), uma ONG de pesquisa e a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica baseada na Amaz\u00f4nia brasileira. Ele tem um mestrado em Ecologia pela Universidade Estadual da Pensilv\u00e2nia (EUA) e \u00e9 formado em engenharia agron\u00f4mica pela Universidade Federal Rural da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Beto Ver\u00edssimo, Americas Quarterly<\/p>\n<p>Imagem &#8211;\u00a0<a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/dgbalancesrocks\/\">Dave Gorman<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que proteger a Amaz\u00f4nia e deixar a floresta intacta faz mais sentido para a economia? 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