{"id":16348,"date":"2016-06-24T09:00:08","date_gmt":"2016-06-24T12:00:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=16348"},"modified":"2016-06-24T10:39:25","modified_gmt":"2016-06-24T13:39:25","slug":"economia-circular-quando-o-lixo-e-fonte-de-lucro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/economia-circular-quando-o-lixo-e-fonte-de-lucro\/","title":{"rendered":"Economia circular: quando o lixo \u00e9 fonte de lucro"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.cleantechdelta.nl\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Circular-Economy.jpg\" alt=\"\" width=\"610\" height=\"610\" \/><\/p>\n<p>Em 2008, Mark Bowles, de San Diego, 48 anos com o rosto de um menino, teve uma ideia ao conversar com um amigo: por que n\u00e3o pagar aos consumidores que decidissem abrir m\u00e3o do seu celular em desuso para que fosse recondicionado, reciclado e revendido? Na \u00e9poca, apenas 3% dos dispositivos no mundo eram reciclados. No entanto, os celulares, como se sabe, cont\u00eam materiais t\u00f3xicos, tais como ars\u00eanio, l\u00edtio, c\u00e1dmio, merc\u00fario e zinco. Assim, Mark teve a ideia de criar alguns quiosques de reciclagem por todos os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Locais equipados com um sistema de intelig\u00eancia artificial, capaz de escanear e avaliar mais de quatro mil modelos e emitir um or\u00e7amento que o cliente podia aceitar ou n\u00e3o: de um a 300 d\u00f3lares. Nasceram assim as ecoATM, os caixas eletr\u00f4nicos da reciclagem, que, at\u00e9 o dia 31 de julho de 2014, recuperaram em todo o pa\u00eds 250 toneladas de dispositivos, 30 toneladas de cobre (o suficiente para construir outra Est\u00e1tua da Liberdade) e 700 quilos de prata (o suficiente para cunhar 22.540 moedas de um d\u00f3lar).<\/p>\n<p>Procedimentos semelhantes hoje s\u00e3o adotados tamb\u00e9m pelos gigantes hi-tech como a Apple, mas Mark talvez n\u00e3o soubesse que a sua ideia trazia a data at\u00e9 mesmo do s\u00e9culo XVIII: em 1798, Thomas Malthus publicou um ensaio considerado como uma das bases da economia circular. Em 1931, foi a vez do economista Harold Hotelling, que escreveu sobre &#8220;produtos econ\u00f4micos demais, explorados egoisticamente em um ritmo excessivo, e produzidos e consumidos de modo a gerar muitos res\u00edduos&#8221;. N\u00e3o soa familiar?<\/p>\n<p><strong>A economia do &#8220;pegar, produzir e jogar fora&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>No entanto, a economia baseada nos princ\u00edpios do &#8220;pegar, produzir, jogar fora&#8221; continuou reinando incontest\u00e1vel por anos em todo o mundo ocidental. Mas o desenvolvimento econ\u00f4mico como o conhecemos est\u00e1 destinado a entrar em rota de colis\u00e3o com a disponibilidade de recursos e com um n\u00famero: o mundo est\u00e1 inundado por 11 bilh\u00f5es de toneladas de res\u00edduos, e apenas 25% s\u00e3o recuperados e reinseridos no sistema produtivo.<\/p>\n<p>O resto \u2013 como explica bem o livro Circular Economy, dallo spreco al valore, Edi\u00e7\u00f5es Egea, 2016 \u2013 \u00e9 uma oportunidade perdida que enche as latas de lixo e entope os aterros. Por um valor anual perdido que pode chegar at\u00e9 a um bilh\u00e3o de d\u00f3lares (300 para os res\u00edduos urbanos, 700 para os industriais).<\/p>\n<p>Quem sabe muito bem disso s\u00e3o os cidad\u00e3os de Capannori, 46 mil habitantes, na prov\u00edncia de Lucca, que aderiram h\u00e1 anos \u00e0 estrat\u00e9gia &#8220;Lixo zero&#8221;, junto com outros 223 munic\u00edpios de toda a It\u00e1lia com mais de quatro milh\u00f5es de habitantes envolvidos. O objetivo: coleta seletiva em grande escala, com percentuais superiores a 70%, reutiliza\u00e7\u00e3o e repara\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos, servi\u00e7os p\u00fablicos pagos com base na produ\u00e7\u00e3o efetiva dos res\u00edduos. E eles tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos.<\/p>\n<p><strong>Onde a coleta seletiva \u00e9 de 90%<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Infelizmente, no imagin\u00e1rio coletivo, a It\u00e1lia ainda \u00e9 o pa\u00eds dos aterros, das emerg\u00eancias do lixo e das imagens chocantes da imund\u00edcie em N\u00e1poles&#8221;, explica Stefano Ciafani, diretor geral da Legambiente. &#8220;Em vez disso, deixamos para tr\u00e1s essas \u00e9pocas vergonhosas, e hoje o nosso pa\u00eds pode contar com 1.500 munic\u00edpios onde vivem mais de 10 milh\u00f5es de habitantes, onde a coleta seletiva supera os 65%.&#8221;<\/p>\n<p>Em 2015, o munic\u00edpio vencedor foi Ponte nelle Alpi, cidadezinha de 8.500 habitantes, perto de Belluno. Ele passou pelo projeto de transformar uma antiga pedreira em um aterro sanit\u00e1rio de um milh\u00e3o de toneladas de lixo por ano, tornando-se o vilarejo italiano mais virtuoso onde a coleta seletiva chega a taxas pr\u00f3ximas de 90%. Um sonho? N\u00e3o exatamente.<\/p>\n<p><strong>A surpresa do Sul<\/strong><\/p>\n<p>Se \u00e9 verdade que os munic\u00edpios italianos s\u00e3o pouco mais de 8.000, e apenas 1.500 participam da iniciativa Legambiente, \u00e9 igualmente verdade que, de acordo com o \u00faltimo relat\u00f3rio do Instituto Superior para a Prote\u00e7\u00e3o e a Pesquisa sobre o Ambiente, entre 2011 e 2013, a It\u00e1lia conseguiu reduzir em 6,9% os res\u00edduos destinados ao aterro. E, de acordo com o Eurostat, a taxa de reciclagem da It\u00e1lia passou de 17,6% em 2004 para 42,5% em 2014.<\/p>\n<p>&#8220;No fim dos anos 1990, n\u00f3s recicl\u00e1vamos 5% dos res\u00edduos urbanos \u2013 acrescenta Stefano Ciafani \u2013 e chegamos a multiplicar por oito a taxa de reciclagem em menos de 20 anos.&#8221;<\/p>\n<p>Com casos particularmente virtuosos e algumas surpresas. De acordo com a Legambiente, todas as regi\u00f5es, excepto o Val d&#8217;Aosta, podem se orgulhar de um munic\u00edpio como exemplo virtuoso de boa gest\u00e3o do servi\u00e7o de coleta e de envio \u00e0 reciclagem.<\/p>\n<p>Mas as regi\u00f5es do Norte da It\u00e1lia n\u00e3o brilham mais como antes: a Lombardia e o Piemonte, por exemplo, &#8220;s\u00e3o abundantemente ultrapassadas pelas Marche e pela Camp\u00e2nia e pisoteadas pela Umbria&#8221;. E a maior surpresa \u00e9 precisamente a Camp\u00e2nia, onde a maioria dos munic\u00edpios se aproxima do limiar de coleta seletiva de 65%, com a exce\u00e7\u00e3o quase \u00fanica da capital.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e1poles tem n\u00fameros interessantes em rela\u00e7\u00e3o ao passado \u2013 explica Walter Facciotto, diretor-geral do CONAI, Cons\u00f3rcio Nacional de Embalagens \u2013, mas ainda tem um longo caminho a fazer. Em vez disso, munic\u00edpios como Bari, Catanzaro, Potenza, Matera come\u00e7aram a realizar sistemas de coleta qualitativa. Em Cat\u00e2nia, em alguns bairros, no arco de alguns meses, passou-se de 11% para 60% de coleta seletiva. N\u00e3o se trata \u2013 detalha Facciotto \u2013 de um problema cultural, mas de organiza\u00e7\u00e3o e vontade pol\u00edtica.&#8221; E de retorno econ\u00f4mico. Porque a ret\u00f3rica ambientalista, por anos, produziu uma discreta indiferen\u00e7a sobre a a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica dos consumidores.<\/p>\n<p><strong>Cascas de laranja que se tornam tecidos<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Hoje, ao contr\u00e1rio, por um lado, as empresas perceberam que a economia circular traz uma clara vantagem em termos de custos \u2013 explica Beatrice Lamonica, respons\u00e1vel pela pr\u00e1tica de sustentabilidade da Accenture Strategy \u2013 e, por outro lado, os usu\u00e1rios finais mudaram de abordagem em rela\u00e7\u00e3o ao consumo e agora, mais do que a posse, por exemplo, pensam na partilha de alguns servi\u00e7os e produtos, o que tamb\u00e9m permite poupar.&#8221;<\/p>\n<p>Como no fen\u00f4meno da sharing economy, em que o princ\u00edpio da propriedade cede espa\u00e7o ao desempenho e \u00e0 utilidade. Mas falar de economia circular significa, acima de tudo, falar de res\u00edduos que se tornam recursos. Tamb\u00e9m atrav\u00e9s da criatividade.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de dois italianos, Antonio Di Giovanni e Vincenzo Sangiovanni, que iniciaram uma start-up para produzir cogumelos a partir das borras de caf\u00e9, com o investimento de um empres\u00e1rio japon\u00eas, Tomohiro Sato.<\/p>\n<p>Ou o caso das sicilianas Enrica Arena e Adriana Santanocito, nos arredores de Mil\u00e3o, que ficaram conhecidas em todo o mundo pelos seus tecidos criados a partir dos restos de laranjas e lim\u00f5es e, com a sua Orange Fiber, foram premiadas at\u00e9 pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>E o compromisso de estender a vida \u00fatil dos produtos tamb\u00e9m vem dos grandes grupos. O Starbucks lan\u00e7ou em T\u00f3quio um experimento com uma empresa japonesa: n\u00e3o sabendo o que fazer com as borras de caf\u00e9 descartadas nas suas lojas, em vez de se limitar \u00e0 compostagem, decidiu transform\u00e1-las em alimento para as vacas. Desse modo, os animais produzem leite de maior qualidade. O mesmo leite que, depois, \u00e9 utilizado nas lojas Starbucks de todo o Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>A Procter &amp; Gamble e a General Motors j\u00e1 operam com base em um modelo de lixo zero, e todos os res\u00edduos produtivos gerados nas suas sedes s\u00e3o reciclados, reutilizados para outros usos ou transformados em energia.<\/p>\n<p>A Timberland assinou uma parceria com uma empresa, a Omni United, que desenvolve uma linha de pneus estudados para serem regenerados no fim do ciclo de vida \u00fatil e transformados em solas de sapato.<\/p>\n<p><strong>A primeira usina de reciclagem de fraldas<\/strong><\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 preciso ir at\u00e9 o Jap\u00e3o ou aos Estados Unidos para encontrar bons exemplos de &#8220;circular economy&#8221;. Em Spresiano, na prov\u00edncia de Treviso, nasceu a primeira usina europeia de reciclagem de fraldas, a partir das quais \u00e9 poss\u00edvel criar pl\u00e1stico em gr\u00e2nulos e mat\u00e9ria org\u00e2nico-celul\u00f3sica completamente esterilizada.<\/p>\n<p>Como? Lavando e esterilizando-as por meio de vapor a press\u00e3o, que elimina tamb\u00e9m o mau cheiro. O tratamento permite a obten\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas secund\u00e1rias para reutiliza\u00e7\u00e3o em novos processos produtivos.<\/p>\n<p>O projeto, cofinanciado pela Uni\u00e3o Europeia, est\u00e1 sendo desenvolvido pela Fater (Pampers, Lines, Tampax). E hoje, a partir de uma tonelada de res\u00edduos, conseguem-se obter at\u00e9 350 quilos de celulose e 150 quilos de pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>A Aquafil, empresa l\u00edder de Trento na produ\u00e7\u00e3o de fibras sint\u00e9ticas, recupera redes de pesca no fim do uso e produz o nylon com que \u00e9 realizada uma linha de jeans da Levi&#8217;s. Embora o algod\u00e3o seja a principal mat\u00e9ria-prima para a produ\u00e7\u00e3o do denim, no futuro, n\u00e3o haver\u00e1 terra dispon\u00edvel suficiente para atender a demanda crescente. E as empresas est\u00e3o lentamente buscando alternativas: da\u00ed a parceria Aquafil Levi&#8217;s para o uso de fibras diferentes, como o nylon.<\/p>\n<p>&#8220;Com uma vantagem tripla \u2013 explica Lamonica, uma das autoras do livro Circular Economy \u2013, reduzem-se os res\u00edduos no mar, onde muitas redes s\u00e3o abandonadas no fim do uso, economiza-se no custo do descarte em aterros e utilizam-se tecidos menos poluentes.&#8221;<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Reportagem Corinna De Cesare, tradu\u00e7\u00e3o Mois\u00e9s Sbardelotto, jornal Corriere della Sera \/ IHU de 06 de junho 2016<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2008, Mark Bowles, de San Diego, 48 anos com o rosto de um menino, teve uma ideia ao conversar com um amigo: por que n\u00e3o pagar aos consumidores que decidissem abrir m\u00e3o do seu celular em desuso para que fosse recondicionado, reciclado e revendido? 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