{"id":17125,"date":"2016-09-16T18:00:01","date_gmt":"2016-09-16T21:00:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=17125"},"modified":"2016-09-09T10:34:51","modified_gmt":"2016-09-09T13:34:51","slug":"contaminacao-da-biodiversidade-por-transgenicos-parte-56","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/contaminacao-da-biodiversidade-por-transgenicos-parte-56\/","title":{"rendered":"Contamina\u00e7\u00e3o Da Biodiversidade Por Transg\u00eanicos, Parte 5\/6"},"content":{"rendered":"<p>NODARI et. al. (2010) dizem que ao contrario de contribuir, os transg\u00eanicos reduzem as inova\u00e7\u00f5es e a manuten\u00e7\u00e3o dos conhecimentos das comunidades locais e ind\u00edgenas limitando pr\u00e1ticas como a troca e a sele\u00e7\u00e3o de sementes.<\/p>\n<p>Os transg\u00eanicos podem precipitar a perda de conhecimento tradicional pela depend\u00eancia da compra de sementes e insumos associados. Isto poderia causar uma mudan\u00e7a dr\u00e1stica em termos de sustentabilidade e estabilidade das comunidades locais e ind\u00edgenas, decorrente da inseguran\u00e7a alimentar, conforme NODARI et. al. (2010).<\/p>\n<p>No M\u00e9xico, por exemplo, mesmo que n\u00e3o tenha sido liberado o cultivo comercial de milho transg\u00eanico, devido \u00e0 exist\u00eancia de extensas \u00e1reas com popula\u00e7\u00f5es ancestrais e parentes silvestres de esp\u00e9cies cultivadas, os transgenes chegaram l\u00e1.<\/p>\n<p>A primeira constata\u00e7\u00e3o foi verificada ainda em 2001 (QUIST e CHAPELA, 2001). Ap\u00f3s muitas tentativas de desmentir o fato, v\u00e1rios estudos posteriores comprovaram n\u00e3o s\u00f3 a contamina\u00e7\u00e3o na prov\u00edncia de Oaxaca, mas tamb\u00e9m em outras regi\u00f5es do M\u00e9xico (CLEVELAND et al., 2005 e PI\u00d1EYRO-NELSON et al., 2009).<\/p>\n<p>Mais recentemente, a contamina\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica foi detectada no Peru, que \u00e9 o segundo grande centro de diversidade gen\u00e9tica do milho no mundo (GUTI\u00c9RREZ-ROSATI et al., 2008).<\/p>\n<p>Nas regi\u00f5es de ocorr\u00eancia natural de alta diversidade gen\u00e9tica de uma esp\u00e9cie ou esp\u00e9cies afins, como \u00e9 o caso de algod\u00e3o no Brasil (Brasil, 2006), o cultivo de plantas transg\u00eanicas destas esp\u00e9cies merece an\u00e1lise mais rigorosa.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 ainda ber\u00e7o de v\u00e1rias esp\u00e9cies cultivadas ou apresenta regi\u00f5es com alta variabilidade gen\u00e9tica nas popula\u00e7\u00f5es crioulas ainda em cultivo (ex: milho, feij\u00e3o, mam\u00e3o e muitas outras), situa\u00e7\u00e3o esta que requer muita cautela. Como avaliar adequadamente este tipo de risco \u00e9 sem d\u00favida um grande desafio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da soja aprovada em 1998 pela CTNBio sem que nenhum estudo de impacto ambiental tivesse sido feito no pa\u00eds. Outros tr\u00eas casos foram disputados no Conselho Nacional de Biosseguran\u00e7a e em processos judiciais, ainda pendente de decis\u00e3o final. Em 2008 o CNBS decidiu n\u00e3o dar provimento aos recursos do IBAMA (nos dois primeiros casos) e da ANVISA (todos os tr\u00eas) contra a decis\u00e3o da CTNBio de liberar os milhos transg\u00eanicos.<\/p>\n<p>Dentre as raz\u00f5es apresentadas, cabe destacar a aus\u00eancia de normas efetivas de monitoramento e de coexist\u00eancia, a n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o de estudos suficientes para assegurar que n\u00e3o haver\u00e1 danos ao meio ambiente, notadamente em ecossistemas brasileiros, apresenta\u00e7\u00e3o de estudos inconclusivos ou sem sustenta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com baixa qualidade dos dados aportados e afirmativas sem comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o se apresenta dados ou informa\u00e7\u00f5es solicitadas, e n\u00e3o se inclui dados da literatura cient\u00edfica obtidos por pesquisadores independentes. A insufici\u00eancia dos dados apresentados pelos proponentes para garantir a seguran\u00e7a alimentar e a insufici\u00eancia de dados sobre a caracteriza\u00e7\u00e3o do produto de express\u00e3o g\u00eanica tamb\u00e9m se registra.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise dos riscos dos transg\u00eanicos est\u00e1 sendo ignorada ainda uma realidade fundamental, o p\u00f3len ou a semente de milho podem ser carregados por vetores (vento, insetos, animais, homem) at\u00e9 v\u00e1rios quil\u00f4metros (EMBERLIN, 1999; REUTER et al., 2008; HEINEMANN, 2007 e HOYLE e CRESSWELL, 2007).<\/p>\n<p>Segundo o professor Walter Fehr, da Iowa State University, \u201cn\u00e3o \u00e9 somente o que voc\u00ea faz. \u00c9 tamb\u00e9m o que seu vizinho faz\u201d, ressaltando que \u201cagricultura \u00e9 vizinhan\u00e7a\u201d, quando se trata de identifica\u00e7\u00e3o, segrega\u00e7\u00e3o e rotulagem de cultivos transg\u00eanicos (Declara\u00e7\u00e3o ao jornal Washington Bureau, 01\/10\/2000).<\/p>\n<p>Este alerta \u00e9 corroborado por v\u00e1rios epis\u00f3dios de contamina\u00e7\u00e3o de lavouras de milho com p\u00f3len de milho transg\u00eanico. Alguns destes casos est\u00e3o sendo analisados pela justi\u00e7a de v\u00e1rios pa\u00edses.<\/p>\n<p>Para que se pare de discutir puerilidades como velocidade dos ventos, \u00e1reas de isolamento ou de ref\u00fagio. N\u00e3o tem como fugir desta afirma\u00e7\u00e3o. Quando a gente se pega discutindo os fatores cient\u00edficos que controlam o vento, isto inspira uma sensa\u00e7\u00e3o de regress\u00e3o aos nossos antecessores na escala evolutiva.<\/p>\n<p>Mas esta coexist\u00eancia sem contamina\u00e7\u00e3o \u00e9 praticamente imposs\u00edvel por v\u00e1rias raz\u00f5es. A primeira delas refere-se as grandes dist\u00e2ncias alcan\u00e7adas pelo p\u00f3len ou sementes, conforme j\u00e1 mencionado acima.<\/p>\n<p>A segunda raz\u00e3o refere-se ao fato da troca de sementes entre agricultores e \u00e0s vezes, seguida de mistura ou cruzamentos entre variedades, onde os agricultores esperam variantes para poder fazer as inova\u00e7\u00f5es. No entanto, uma parcela deles, ou seja, nem todos, visando manter certa pureza varietal, utiliza estrat\u00e9gias de isolamento para proteger variedades, consideradas de alto valor.<\/p>\n<p>Na Regi\u00e3o Oeste de Santa Catarina 28 de 85 agricultores entrevistados n\u00e3o usam estrat\u00e9gias de isolamento e 14% tem dist\u00e2ncias superiores a 400 metros (CORDEIRO et al., 2008). Neste mesmo estudo, os agricultores familiares demonstram consci\u00eancia das variedades plantadas na circunvizinhan\u00e7a bem como do potencial de contamina\u00e7\u00e3o das mesmas.<\/p>\n<p>Neste contexto, a CTNBio para permitir a coexist\u00eancia, estabeleceu que a dist\u00e2ncia entre uma lavoura comercial de milho geneticamente modificado e outra de milho n\u00e3o geneticamente modificado, localizada em \u00e1rea vizinha, deve ser igual ou superior a 100 (cem) metros ou, alternativamente, 20 metros, desde que acrescida de bordadura com, no m\u00ednimo, 10 fileiras de plantas de milho convencional (Resolu\u00e7\u00e3o Normativa n\u00b0 4, de 16 de agosto de 2007, CTNBio).<\/p>\n<p>No entanto, conforme j\u00e1 demonstrado, esta resolu\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente in\u00f3cua. N\u00e3o s\u00f3 as dist\u00e2ncias n\u00e3o impedem a poliniza\u00e7\u00e3o cruzada, nem tampouco a norma obriga a segrega\u00e7\u00e3o de sementes.<\/p>\n<p>O contexto exposto demonstra a grande relev\u00e2ncia da diversidade gen\u00e9tica constru\u00edda e mantida pelos agricultores, pois eles contribuem para manter ou aumentar a diversidade da dieta por meio da promo\u00e7\u00e3o do uso em maior escala de v\u00e1rias esp\u00e9cies aliment\u00edcias, tanto para o consumo pr\u00f3prio dos agricultores, bem como em oferec\u00ea-los \u00e0 popula\u00e7\u00e3o urbana.<\/p>\n<p>Nesta reflex\u00e3o aqui feita, os ind\u00edcios s\u00e3o muito fortes de que a sociedade global vive hoje o alto risco de ver abalado um dos pilares de sua sobreviv\u00eancia, que s\u00e3o os bens e servi\u00e7os prestados pelos recursos gen\u00e9ticos que constituem um dos componentes da biodiversidade.<\/p>\n<p>Para tanto, a sociedade n\u00e3o necessita promover a destrui\u00e7\u00e3o ou simplifica\u00e7\u00e3o ao extremo dos sistemas naturais ou agroecologicamente manejados. Ao contrario, a ci\u00eancia e a tecnologia, bem como as pol\u00edticas p\u00fablicas, podem encontrar maneiras de manejar os agroecossistemas e a biodiversidade agr\u00edcola utilizando os princ\u00edpios e processos agroecol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Uma das formas disso acontecer \u00e9 fazer com que a \u201cind\u00fastria de mat\u00e9ria prima\u201d volte a ser agricultura, pois frente a essas amea\u00e7as, as comunidades agr\u00edcolas tradicionais e povos ind\u00edgenas podem ser parte da eficaz mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que tem diferentes materiais gen\u00e9ticos em cultivo e podem encontrar mais maneiras de manejar os agroecossistemas e a biodiversidade agr\u00edcola utilizando os princ\u00edpios e processos agroecol\u00f3gicos, que garantem a sustentabilidade, manejando, conservando e amplificando a agrobiodiversidade.<\/p>\n<p>No entanto isto s\u00f3 faz sentido se o fluxo dos transgenes para as variedades crioulas for imediatamente interrompido, pois qualquer outra atitude, incentivo ou estrat\u00e9gia ser\u00e1 in\u00f3cua, se as contamina\u00e7\u00f5es continuarem a destruir este patrim\u00f4nio gen\u00e9tico.<\/p>\n<p>Por fim, \u00e9 importante mencionar que a perversidade dos transg\u00eanicos melhor se manifesta para aqueles que n\u00e3o querem utiliz\u00e1-los.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>ABUD, S., SOUZA, P. 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