{"id":17533,"date":"2016-10-16T17:00:05","date_gmt":"2016-10-16T19:00:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=17533"},"modified":"2016-10-13T17:27:39","modified_gmt":"2016-10-13T20:27:39","slug":"oitenta-e-oito-mil-litros-de-calda-toxica-sao-utilizados-todas-as-noites-no-cultivo-de-fruticultura-no-ceara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/oitenta-e-oito-mil-litros-de-calda-toxica-sao-utilizados-todas-as-noites-no-cultivo-de-fruticultura-no-ceara\/","title":{"rendered":"Oitenta e oito mil litros de calda t\u00f3xica s\u00e3o utilizados todas as noites no cultivo de fruticultura no Cear\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2016\/10\/06_10_mapa_apodi_raphael_lorenzeto_abreu_commons.jpg\" alt=\"\" width=\"586\" height=\"366\" \/><em>Mapa: Raphael Abreu | Wikimedia Commons<\/em><\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito dif\u00edcil vermos a gravidade dos <strong>impactos \u00e0 sa\u00fade<\/strong> desse modelo de desenvolvimento\u201d. O desabafo \u00e9 da pesquisadora <strong>Raquel Rigotto<\/strong>, que h\u00e1 dez anos, junto ao <strong>N\u00facleo Trabalho, Meio Ambiente e Sa\u00fade<\/strong> \u2013 <strong>Tramas<\/strong>, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Cear\u00e1, tem estudado as implica\u00e7\u00f5es do uso de agrot\u00f3xicos\u00a0no cultivo de fruticultura irrigada para a exporta\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o do baixo<strong> Vale do Rio Jaguaribe<\/strong>, localizada na fronteira do <strong>Cear\u00e1<\/strong> com o <strong>Rio Grande do Norte<\/strong>. Segundo ela, depois de uma s\u00e9rie de evid\u00eancias de que o uso de agrot\u00f3xicos tem causado problemas ambientais e \u00e0 sa\u00fade dos trabalhadores e da popula\u00e7\u00e3o local, \u201ctem sido muito dif\u00edcil constatarmos que o Estado tem sido muito eficiente para atrair os empreendimentos, para produzir material de divulga\u00e7\u00e3o, mas incapaz de produzir um material de informa\u00e7\u00e3o para os agentes comunit\u00e1rios de sa\u00fade, para os profissionais das Unidades B\u00e1sicas e para os profissionais da vigil\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong> por Skype, <strong>Raquel<\/strong> informa que o programa governamental de fruticultura desenvolvido na regi\u00e3o desde os anos 2000, desapropriou \u201cmais de 13 mil hectares de terra do<strong> Jaguaribe\/Apodi<\/strong> e uma \u00e1rea semelhante tamb\u00e9m em <strong>Tabuleiro de Russas<\/strong>, com a promessa de que os agricultores familiares seriam depois inseridos no per\u00edmetro irrigado\u201d, mas \u201capenas 19% dos desapropriados conseguiram se instalar no per\u00edmetro e tiveram muitas dificuldades de sobreviver ali em fun\u00e7\u00e3o das taxas que tinham que ser pagas, da manuten\u00e7\u00e3o da estrutura do per\u00edmetro etc.\u201d<\/p>\n<p>Entre os dados da pesquisa desenvolvida por <strong>Raquel Rigotto<\/strong>, destacam-se ainda a contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua do <strong>aqu\u00edfero Janda\u00edra<\/strong>, casos de m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita em pessoas da comunidade, mortalidade por c\u00e2ncer associada \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos. \u201cN\u00f3s estamos em fase de investiga\u00e7\u00e3o, neste momento, de cinco casos de crian\u00e7as com m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita, que nasceram em uma das comunidades do entorno dessas empresas na<strong> Chapada do Apodi<\/strong> no ano de 2015. As m\u00e1s-forma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas s\u00e3o agravos de preval\u00eancia muito baixa, e ter cinco casos, em um \u00fanico ano, em uma comunidade que tem em torno de 2.600 pessoas, \u00e9 um n\u00famero que chama muito aten\u00e7\u00e3o\u201d. Outros estudos, relata a pesquisadora, t\u00eam demonstrado \u201caltera\u00e7\u00f5es citogen\u00f4micas no DNA das c\u00e9lulas sangu\u00edneas na medula \u00f3ssea de trabalhadores que atuavam no cultivo da banana expostos a <strong>agrot\u00f3xicos organofosforados<\/strong>. Dos 50 trabalhadores analisados, 25% j\u00e1 apresentaram altera\u00e7\u00f5es no DNA das c\u00e9lulas sangu\u00edneas, o que nos alerta para a possibilidade do desenvolvimento de neoplasias nesses trabalhadores\u201d.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Em que consiste sua pesquisa sobre o uso de agrot\u00f3xicos na regi\u00e3o da Chapada do Apodi?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Raquel Rigotto \u2013<\/strong> A pesquisa iniciou em 2006, a partir de uma demanda trazida ao <strong>N\u00facleo Trabalho, Meio Ambiente e Sa\u00fade \u2013<\/strong> <strong>Tramas<\/strong>, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Cear\u00e1 \u2013 <strong>UFC<\/strong>, para estudar a quest\u00e3o dos<strong>agrot\u00f3xicos<\/strong> na regi\u00e3o do baixo <strong>Vale do Rio Jaguaribe<\/strong>, que fica na fronteira do <strong>Cear\u00e1<\/strong> com o <strong>Rio Grande do Norte<\/strong>. Essa \u00e9 uma regi\u00e3o na qual, desde os anos 2000, v\u00eam se instalando empresas de<strong> fruticultura irrigada para a exporta\u00e7\u00e3o<\/strong>, que s\u00e3o tamb\u00e9m empresas transnacionais, que fazem parte da cadeia produtiva da ind\u00fastria agroalimentar. Essas empresas tiveram sua instala\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o facilitada pela exist\u00eancia de per\u00edmetros irrigados, que s\u00e3o pol\u00edticas p\u00fablicas implementadas pelo departamento nacional de obras contra as secas, especialmente a partir dos anos 1970 e que tinham como objetivo levar a chamada \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola\u201d para o campo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, foram instalados 38 <strong>per\u00edmetros irrigados<\/strong> no <strong>Nordeste<\/strong>, e dois deles est\u00e3o nos locais onde foram realizadas nossas pesquisas \u2014 o per\u00edmetro irrigado <strong>Jaguaribe\/Apodi<\/strong> e o per\u00edmetro irrigado <strong>Tabuleiro de Russas<\/strong>. Essas \u00e1reas foram oferecidas pelo Governo Estadual atrav\u00e9s de uma pol\u00edtica ativa de atra\u00e7\u00e3o de investimentos, que disponibilizava um solo de qualidade para o cultivo de frutos; m\u00e3o de obra barata; \u00e1gua, que era o que faltava na regi\u00e3o, por ser parte da <strong>regi\u00e3o Semi\u00e1rida<\/strong>; e insola\u00e7\u00e3o garantida durante quase todos os dias do ano, o que \u00e9 muito importante para a qualidade das frutas. Esses incentivos resultaram na instala\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de empresas na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que esse programa governamental esteve associado tamb\u00e9m a um processo de <strong>expropria\u00e7\u00e3o das terras<\/strong>, porque para instalar o per\u00edmetro foram desapropriados mais de 13 mil hectares de terra do <strong>Jaguaribe\/Apodi<\/strong> e uma \u00e1rea semelhante tamb\u00e9m em<strong> Tabuleiro de Russas<\/strong>, com a promessa de que os agricultores familiares seriam depois inseridos no per\u00edmetro irrigado. Entretanto, como a pol\u00edtica p\u00fablica n\u00e3o era adequada \u00e0s caracter\u00edsticas desse segmento da<strong>agricultura familiar<\/strong>, apenas 19% dos desapropriados conseguiram se instalar no per\u00edmetro e tiveram muitas dificuldades de sobreviver ali, em fun\u00e7\u00e3o das taxas que tinham que ser pagas, da manuten\u00e7\u00e3o da estrutura do per\u00edmetro etc.<\/p>\n<p>Com isso foi se desenvolvendo um processo em que as pr\u00f3prias empresas foram arrendando os terrenos dos pequenos produtores que tinham conseguido se instalar no per\u00edmetro e\/ou submetendo esses agricultores ao seu modelo produtivo, que \u00e9 baseado no monocultivo. \u00c1reas de quatro mil hectares foram desmatadas, removeu-se toda a biodiversidade e implantou-se ali o cultivo de uma \u00fanica esp\u00e9cie, cuja produtividade \u00e9 cuidada ao m\u00e1ximo, com todo o saber da agronomia e das ci\u00eancias agr\u00e1rias ligadas \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, na perspectiva da mecaniza\u00e7\u00e3o, da introdu\u00e7\u00e3o de insumos \u2014 especialmente fertilizantes qu\u00edmicos e agrot\u00f3xicos \u2014 e tamb\u00e9m de tecnologias agr\u00edcolas, que t\u00eam sido, inclusive, facilitadas pela <strong>Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria \u2013<\/strong> <strong>Embrapa<\/strong>.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\"><strong>Problemas de sa\u00fade<\/strong><\/div>\n<div class=\"news-image-credits\"><\/div>\n<p>Com isso essas empresas modificaram profundamente as caracter\u00edsticas da regi\u00e3o, desde a paisagem at\u00e9 a distribui\u00e7\u00e3o da terra, as formas de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, as formas de divis\u00e3o no mundo do trabalho. Assim, os <strong>agricultores familiares\u00a0<\/strong>passaram a ser, em parte, empregados das grandes empresas ou integrados a elas na medida em que produzem dentro desse mesmo modelo produtivo, que \u00e9 imposto aos agricultores, e disponibilizam seus produtos para comercializa\u00e7\u00e3o via a grande empresa. Isso tem gerado um contexto de muitos problemas relacionados \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>Primeiro, as amea\u00e7as \u00e0 seguran\u00e7a alimentar, porque as pessoas, de certa forma, tendo acesso \u00e0 terra, possuem um saber e uma cultura tradicional que permitia \u2014 e ainda permite, felizmente, em alguns casos \u2014 a persist\u00eancia de uma agricultura familiar de<strong> base agroecol\u00f3gica<\/strong>, que produz alimentos, mas que hoje est\u00e1 amea\u00e7ada pela pr\u00f3pria perda da terra e pela diminui\u00e7\u00e3o do <strong>acesso \u00e0 \u00e1gua<\/strong>, na medida em que esses plantios demandam volumes muito intensos de \u00e1gua. As empresas t\u00eam tecnologias que permitem o seu acesso \u00e0s \u00e1guas do <strong>aqu\u00edfero Janda\u00edra<\/strong>, que s\u00e3o \u00e1guas profundas \u2014 a mais de 100 metros de profundidade \u2014, instalaram po\u00e7os e se utilizam dessa \u00e1gua, al\u00e9m da pr\u00f3pria \u00e1gua ofertada no per\u00edmetro irrigado. Portanto, isso tem levado a uma situa\u00e7\u00e3o em que os po\u00e7os das comunidades est\u00e3o secando, comprometendo a seguran\u00e7a alimentar e h\u00eddrica dessas fam\u00edlias e, logicamente, a sua sa\u00fade e o estado nutricional, especialmente das crian\u00e7as, gestantes e idosos.<\/p>\n<p>Outro problema muito importante \u00e9 que alguns dos <strong>cultivos do agroneg\u00f3cio<\/strong> s\u00e3o sazonais, como o mel\u00e3o, por exemplo, que \u00e9 cultivado na metade seca do ano, quando n\u00e3o h\u00e1 chuva; esse cultivo demanda um volume de m\u00e3o de obra muito intenso, e por conta disso, de repente, uma empresa abre quatro mil postos de trabalho. Isso atrai a <strong>migra\u00e7\u00e3o de trabalhadores<\/strong>, especialmente do sexo masculino, para essas regi\u00f5es, na perspectiva de permanecerem ali por quatro ou seis meses apenas. Logo, s\u00e3o trabalhadores que migram sem suas fam\u00edlias e isso tem causado altera\u00e7\u00f5es nas rela\u00e7\u00f5es sociais, nas comunidades, sobretudo as relacionadas \u00e0 quest\u00e3o do ass\u00e9dio, da prostitui\u00e7\u00e3o, inclusive infanto-juvenil, e da gravidez na adolesc\u00eancia. No distrito de <strong>Lagoinha<\/strong>, que pertence ao munic\u00edpio de <strong>Quixer\u00e9<\/strong>, a preval\u00eancia de <strong>gravidez na adolesc\u00eancia<\/strong> \u00e9 tr\u00eas vezes superior \u00e0 m\u00e9dia nacional. Al\u00e9m disso, a esses processos de migra\u00e7\u00e3o se costuma associar a difus\u00e3o do uso de drogas somado \u00e0 viol\u00eancia; esse \u00e9 um fen\u00f4meno que come\u00e7a a aparecer em comunidades que at\u00e9 ent\u00e3o desconheciam esse tipo de problema.<\/p>\n<p><strong>O caso de Vanderlei Matos da Silva<\/strong><\/p>\n<div class=\"news-citacao\">No cultivo de abacaxi de 1.200 hectares, s\u00e3o aspergidos, por noite, cerca de 88 mil litros de agrot\u00f3xicos.<\/div>\n<div class=\"news-citacao\"><\/div>\n<div class=\"news-citacao\">No que diz respeito especialmente aos <strong>agrot\u00f3xicos<\/strong>, o uso deles pelas empresas \u00e9 intensivo: no cultivo de abacaxi de 1.200 hectares, s\u00e3o aspergidos, por noite, cerca de 88 mil litros de agrot\u00f3xicos. E era exatamente nessa tarefa que estava envolvido Vanderlei Matos da Silva, que faleceu em 2008. Ele tinha 29 anos e trabalhou durante tr\u00eas anos e meio no almoxarifado qu\u00edmico da empresa <strong>Del Monte Fresh Produce Brasil Ltda<\/strong>. Ele adoeceu em agosto de 2008 e em novembro do mesmo ano veio a \u00f3bito em fun\u00e7\u00e3o de uma doen\u00e7a hep\u00e1tica, a qual, de acordo com a empresa, teria sido viral. Mas, segundo um estudo que n\u00f3s conduzimos junto a quatro professores da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Cear\u00e1 \u2014 fizemos a rela\u00e7\u00e3o entre o \u00f3bito e a exposi\u00e7\u00e3o ocupacional aos agrot\u00f3xicos \u2014, evidenciamos que uma hepatopatia teria sido a causa da morte.<\/div>\n<div class=\"news-citacao\"><\/div>\n<p>O caso do <strong>Vanderlei<\/strong> foi reconhecido como origem ocupacional no <strong>Tribunal Regional do Trabalho<\/strong> em <strong>Limoeiro do Norte<\/strong> e tamb\u00e9m, em segunda inst\u00e2ncia, no <strong>Tribunal Regional do Trabalho do Cear\u00e1<\/strong>. A empresa foi condenada, e \u00e9 poss\u00edvel que ela recorra, mas \u00e9 um caso que foi reconhecido e que \u00e9 apenas um exemplo de muitos outros que devem existir por a\u00ed. Esse caso chegou a n\u00f3s atrav\u00e9s daquilo que estamos chamando de \u201c<strong>vigil\u00e2ncia popular da sa\u00fade<\/strong>\u201d, ou seja, as pr\u00f3prias comunidades, \u00e0 medida que est\u00e3o percebendo o contexto de <strong>contamina\u00e7\u00e3o ambiental<\/strong> e que est\u00e3o tendo acesso a mais informa\u00e7\u00f5es sobre os danos \u00e0 sa\u00fade causados pelos agrot\u00f3xicos, levantam a suspeita de que problemas de sa\u00fade est\u00e3o relacionados aos agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Antes desse projeto de cultivo de fruticultura, como se dava a organiza\u00e7\u00e3o dos agricultores na regi\u00e3o? Segundo seu relato, o governo estadual investiu no cultivo de fruticultura, mas poderia ter investido em outro modelo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Raquel Rigotto \u2013<\/strong> Exatamente, poderia ter sido feita outra op\u00e7\u00e3o. Existia ali uma <strong>agricultura de base familiar<\/strong>, caracterizada pela pluriatividade, que envolvia o cultivo do algod\u00e3o, de frutas, de ro\u00e7ados, principalmente de milho e mandioca, a extra\u00e7\u00e3o da palha de carna\u00faba e todo o trabalho que deriva dela em termos de cera e artesanato, o cultivo de caprinos, que \u00e9 bastante compat\u00edvel com as condi\u00e7\u00f5es do Semi\u00e1rido, a apicultura. Ou seja, era uma economia desafiante, mas baseada em um saber popular sobre aquele ecossistema, que vinha garantindo a vida das fam\u00edlias; n\u00e3o era uma situa\u00e7\u00e3o de pobreza.<\/p>\n<p>\u00c9 muito bonito ver como as pessoas falam desse tempo. Inclusive, tem um document\u00e1rio que produzimos como resultado de uma das pesquisas na regi\u00e3o, que se voltou especialmente para os efeitos dessa moderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola sobre as mulheres e sobre a sua sa\u00fade reprodutiva, e que est\u00e1 dispon\u00edvel no You Tube, chamado <strong>No Tempo dos Mussamb\u00eas, n\u00e3o tinha do que ter medo<\/strong>. Elas falam desse tempo com muita saudade. At\u00e9, inclusive, falam que os cheiros que existiam nas comunidades eram outros, os das floradas de cada esta\u00e7\u00e3o, e as rela\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias muito intensas, muito pr\u00f3ximas, de coopera\u00e7\u00e3o, de solidariedade, de vida comunit\u00e1ria, realmente, onde o medo n\u00e3o tinha lugar. E hoje isso est\u00e1 profundamente modificado na situa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, especialmente das mulheres.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Alguns agricultores ainda mant\u00eam essa diversidade de cultivos? Qual tem sido a dificuldade de retomar essa produ\u00e7\u00e3o diversificada? Os agricultores t\u00eam alternativas ao cultivo de fruticultura sem agrot\u00f3xicos?<\/strong><\/p>\n<div class=\"news-citacao\">Os po\u00e7os de \u00e1gua a que os agricultores t\u00eam acesso, que s\u00e3o po\u00e7os mais superficiais por conta dos custos dos po\u00e7os mais profundos, est\u00e3o secando em fun\u00e7\u00e3o da sobre-explora\u00e7\u00e3o do aqu\u00edfero Janda\u00edra pelas empresas<\/div>\n<p><strong>Raquel Rigotto \u2013<\/strong> Ainda existem experi\u00eancias muito importantes de resist\u00eancia e afirma\u00e7\u00e3o da <strong>agricultura familiar<\/strong>. Felizmente existem fam\u00edlias que, com muito esfor\u00e7o, batalham para ter esse tipo de produ\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que, neste momento, a seca \u2014 estamos entrando no quinto ano de seca no Cear\u00e1\u00a0\u2014 agudizou a situa\u00e7\u00e3o, porque os po\u00e7os de \u00e1gua a que os agricultores t\u00eam acesso, que s\u00e3o po\u00e7os mais superficiais por conta dos custos dos po\u00e7os mais profundos, est\u00e3o secando em fun\u00e7\u00e3o da sobre-explora\u00e7\u00e3o do <strong>aqu\u00edfero Janda\u00edra<\/strong> pelas empresas.<\/p>\n<p>N\u00f3s tivemos, inclusive, a oportunidade de visitar, em abril, duas propriedades de agricultores familiares absolutamente devastadas pela seca, e todo o esfor\u00e7o de cultivo foi destru\u00eddo pela falta d\u2019\u00e1gua. As fam\u00edlias est\u00e3o em uma situa\u00e7\u00e3o de muita priva\u00e7\u00e3o, o que levou, inclusive, \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o da sede da <strong>Secretaria de Recursos H\u00eddricos do Cerar\u00e1<\/strong>, em agosto, por um grupo de mais de 500 pessoas, denunciando essa injusti\u00e7a h\u00eddrica. Em um per\u00edodo de seca andamos pela regi\u00e3o e vemos a paisagem completamente cinza, com ilhas verdejantes, que s\u00e3o as ilhas das empresas de fruticultura da exporta\u00e7\u00e3o; para elas, a \u00e1gua tem sido garantida na <strong>pol\u00edtica de recursos h\u00eddricos<\/strong> do estado.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Al\u00e9m da falta d\u2019\u00e1gua, a pesquisa verificou se existe \u00e1gua contaminada por agrot\u00f3xicos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Raquel Rigotto \u2013<\/strong> Sim, n\u00f3s fizemos essa avalia\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m a<strong> Companhia de Gest\u00e3o dos Recursos H\u00eddricos \u2013 COGERH\u00a0<\/strong>fez uma avalia\u00e7\u00e3o a partir da coleta de 10 amostras de<strong> \u00e1gua do aqu\u00edfero Janda\u00edra<\/strong>, encontrando a presen\u00e7a de <strong>agrot\u00f3xico s<\/strong>em seis dessas amostras. Esse \u00e9 um dado muito grave porque s\u00e3o \u00e1guas que est\u00e3o, \u00e0s vezes, a at\u00e9 mil metros de profundidade. Encontrarmos veneno nelas \u00e9 algo que machuca nossa consci\u00eancia de cidad\u00e3os planet\u00e1rios, porque \u00e9 uma \u00e1gua extremamente preciosa para o <strong>Semi\u00e1rido<\/strong>, e o tratamento da contamina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica por agrot\u00f3xicos n\u00e3o \u00e9, por exemplo, algo semelhante \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica por bact\u00e9rias. \u00c9 um tipo de desafio muito mais complexo, mas, infelizmente, as \u00e1guas do aqu\u00edfero Janda\u00edra j\u00e1 mostram essa contamina\u00e7\u00e3o. A pesquisa desenvolvida pela <strong>Universidade Federal do Cear\u00e1<\/strong> coletou 23 amostras de \u00e1gua, tanto de \u00e1guas superficiais, como subterr\u00e2neas, como de consumo humano, e dessas 23 amostras, 100% estavam contaminadas. Em algumas delas, no m\u00ednimo, encontramos tr\u00eas ingredientes ativos de agrot\u00f3xicos diferentes e houve amostras em que chegamos a encontrar 12 ingredientes ativos, isto \u00e9, as amostras de \u00e1gua analisadas na regi\u00e3o s\u00e3o verdadeiros caldos qu\u00edmicos.<\/p>\n<p><strong>Dez anos e quatro milh\u00f5es de litros de calda t\u00f3xica<\/strong><\/p>\n<div class=\"news-citacao\">Esse fen\u00f4meno da implanta\u00e7\u00e3o do modelo produtivo do agroneg\u00f3cio provoca danos \u00e0 sa\u00fade n\u00e3o apenas dos trabalhadores e trabalhadoras, mas da popula\u00e7\u00e3o em geral.<\/div>\n<div class=\"news-citacao\"><\/div>\n<p>Isso vem mostrando como esse fen\u00f4meno da implanta\u00e7\u00e3o do modelo produtivo do agroneg\u00f3cio\u00a0provoca<strong> danos \u00e0 sa\u00fade\u00a0<\/strong>n\u00e3o apenas dos trabalhadores e trabalhadoras, mas da popula\u00e7\u00e3o em geral. Veja que a grande \u201cvantagem\u201d anunciada publicamente para conquistar a legitima\u00e7\u00e3o social deste tipo de pol\u00edtica p\u00fablica foi exatamente a oferta de empregos, mas temos uma s\u00e9rie de danos \u00e0 sa\u00fade dos trabalhadores e trabalhadoras e tamb\u00e9m das comunidades do entorno, porque a contamina\u00e7\u00e3o acontece n\u00e3o s\u00f3 no ambiente de trabalho, mas contamina os compartimentos ambientais \u2014 \u00e1gua, ar, solo \u2014 e essa contamina\u00e7\u00e3o pode, inclusive, atingir remotamente outras regi\u00f5es. No caso da contamina\u00e7\u00e3o do ar, al\u00e9m da dispers\u00e3o nas formas de aplica\u00e7\u00e3o terrestre, houve ali, por cerca de 10 anos, a pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea de agrot\u00f3xicos, o que levou a uma contamina\u00e7\u00e3o muito intensa, pois foram mais de quatro milh\u00f5es de litros de calda t\u00f3xica despejados na regi\u00e3o durante esse per\u00edodo para o combate \u00e0 <strong>Sigatoka-amarela<\/strong>, uma doen\u00e7a da bananeira.<\/p>\n<p>Isso, hoje, j\u00e1 repercute em altera\u00e7\u00f5es de sa\u00fade muito graves. N\u00f3s estamos em fase de investiga\u00e7\u00e3o, neste momento, de cinco casos de crian\u00e7as com m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita, que nasceram em uma das comunidades do entorno dessas empresas na <strong>Chapada do Apodi<\/strong> no ano de 2015. As m\u00e1s-forma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas s\u00e3o agravos de preval\u00eancia muito baixa, e ter cinco casos, em um \u00fanico ano, em uma comunidade que tem em torno de 2.600 pessoas, \u00e9 um n\u00famero que chama muito a aten\u00e7\u00e3o. N\u00f3s estamos investigando a poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o entre esses casos e a exposi\u00e7\u00e3o ocupacional dos pais e ambiental da fam\u00edlia aos agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>Identificamos tamb\u00e9m dois casos de crian\u00e7as, uma, na \u00e9poca do diagn\u00f3stico, de quatro anos e outra de cinco anos, com puberdade precoce e isso tem sido descrito na literatura: uma das causas desse dist\u00farbio end\u00f3crino pode ser tamb\u00e9m a exposi\u00e7\u00e3o a agrot\u00f3xicos. Identificamos, em outro estudo, que essa regi\u00e3o do <strong>Cear\u00e1<\/strong> tem 38% a mais de taxa de <strong>mortalidade por c\u00e2ncer<\/strong> do que em outras regi\u00f5es onde o agroneg\u00f3cio n\u00e3o se faz presente. Houve outro estudo realizado pelo servi\u00e7o de Hemato-Oncologia do <strong>Hospital Universit\u00e1rio Walter Cant\u00eddio<\/strong> \u2013 HUWC-UFC\u2013EBSERH, que foi coordenado pelo professor<strong>Ronald Pinheiro<\/strong> e executado pelo Dr.<strong> Luiz Evandro<\/strong>, mostrando altera\u00e7\u00f5es citogen\u00f4micas no DNA das c\u00e9lulas sangu\u00edneas na medula \u00f3ssea de trabalhadores que atuavam no cultivo da banana expostos a agrot\u00f3xicos organofosforados. Dos 50 trabalhadores analisados, 25% j\u00e1 apresentaram altera\u00e7\u00f5es no DNA das c\u00e9lulas sangu\u00edneas, o que nos alerta para a possibilidade do desenvolvimento de neoplasias nesses trabalhadores. N\u00e3o se trata ainda de uma doen\u00e7a, mas \u00e9 um indicador precoce de que altera\u00e7\u00f5es como leucemia podem vir a aparecer nesses trabalhadores, assim como em outros que tamb\u00e9m est\u00e3o expostos a esses venenos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Esses dados evidenciados nas pesquisas j\u00e1 foram comunicados ao poder p\u00fablico, \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e \u00e0s empresas? Quais s\u00e3o as rea\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o aos dados da pesquisa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Raquel Rigotto \u2013<\/strong> Essa \u00e9 uma das quest\u00f5es que tem nos feito refletir nesse contexto de pensar os 10 anos de pesquisas que estamos completando naquela regi\u00e3o. \u00c9 muito dif\u00edcil vermos a gravidade dos impactos \u00e0 sa\u00fade\u00a0desse <strong>modelo de desenvolvimento<\/strong> e saber que os dados da pesquisa foram amplamente divulgados, seja no meio acad\u00eamico, atrav\u00e9s da publica\u00e7\u00e3o de um livro e v\u00e1rios artigos cient\u00edficos, seja por outros meios de difus\u00e3o cient\u00edfica, como s\u00e3o os dossi\u00eas. N\u00f3s elaboramos um dossi\u00ea \u00e0s autoridades p\u00fablicas, em 2010, com os primeiros resultados da pesquisa, alertando para os problemas mais graves, que j\u00e1 estavam bem caracterizados e que exigiam a tomada de provid\u00eancias imediatas das autoridades p\u00fablicas. Tamb\u00e9m levamos esses dados ao Dossi\u00ea Agrot\u00f3xicos, que a <strong>Abrasco<\/strong> publicou em 2012, participamos de audi\u00eancias p\u00fablicas no Minist\u00e9rio P\u00fablico, na Assembleia Legislativa do Cear\u00e1, na C\u00e2mara de Vereadores, elaboramos a divulga\u00e7\u00e3o dos resultados da pesquisa na forma de cordel, que \u00e9 algo bastante comunicativo da cultura do Nordeste, fizemos um almanaque mais detalhado discutindo esses dados para que a popula\u00e7\u00e3o tivesse acesso a eles, e temos visto uma reposta extremamente t\u00edmida do ponto de vista das empresas e do pr\u00f3prio Estado.<\/p>\n<p>\u00c9 importante registrar que em 2009 as comunidades tinham lutado e conseguido, na C\u00e2mara Municipal de<strong> Limoeiro do Norte<\/strong>, a aprova\u00e7\u00e3o de uma lei que proibia a <strong>pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea<\/strong> do munic\u00edpio, e nessa luta teve destaque um dos l\u00edderes comunit\u00e1rios \u2014 Z\u00e9 Maria do Tom\u00e9\u00a0\u2014, que foi brutalmente assassinado cinco meses ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o dessa lei. E antes da missa de um m\u00eas da morte dele, a lei foi revogada na C\u00e2mara Municipal. Atualmente, a pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea n\u00e3o tem acontecido na regi\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da seca, porque a <strong>Sigatoka-amarela<\/strong> \u00e9 uma doen\u00e7a f\u00fangica, que acontece em fun\u00e7\u00e3o do grau de umidade, logo, a seca tem sido uma medida preventiva e uma aliada da popula\u00e7\u00e3o na prote\u00e7\u00e3o contra os agrot\u00f3xicos, j\u00e1 que o Estado e as empresas n\u00e3o se disp\u00f5em a fazer isso.<\/p>\n<p><strong>Pol\u00edticas p\u00fablicas<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista das pol\u00edticas p\u00fablicas, um centro de refer\u00eancia em<strong> sa\u00fade do trabalhador<\/strong>, como est\u00e1 previsto na legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do <strong>Sistema \u00danico de Sa\u00fade \u2013 SUS<\/strong> e na P<strong>ol\u00edtica Nacional de Sa\u00fade do Trabalhador e da Trabalhadora<\/strong>, foi conquistado para <strong>Limoeiro do Norte<\/strong>. Trata-se do Centro de Refer\u00eancia em Sa\u00fade do Trabalhador \u2013<strong>Cerest<\/strong>, instalado na regi\u00e3o justamente por conta das den\u00fancias feitas pelos movimentos sociais e pelas comunidades, que v\u00eam lutando por seu direito \u00e0 sa\u00fade. Entretanto, esse centro foi habilitado desde 2012 e at\u00e9 hoje n\u00e3o come\u00e7ou a funcionar, porque a Secretaria de Sa\u00fade n\u00e3o lotou profissionais de sa\u00fade nesse centro; locou um pr\u00e9dio, pelo qual paga mais de R$ 4 mil por m\u00eas de aluguel, nomeou tr\u00eas cargos de gest\u00e3o, que recebem para gerir esses servi\u00e7os, mas n\u00e3o tem nenhum profissional de sa\u00fade lotado l\u00e1. Ent\u00e3o, o diagn\u00f3stico, o tratamento, a preven\u00e7\u00e3o e a vigil\u00e2ncia da sa\u00fade dos trabalhadores e das trabalhadoras da regi\u00e3o, praticamente, n\u00e3o est\u00e3o sendo feitos. Nas <strong>Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade<\/strong> tamb\u00e9m h\u00e1 uma s\u00e9rie de obst\u00e1culos para que esses problemas de sa\u00fade relacionados ao trabalho e aos agrot\u00f3xicos sejam identificados, diagnosticados, notificados e tratados pelos profissionais.<\/p>\n<p><strong>Estado<\/strong><\/p>\n<div class=\"news-citacao\">Trata-se de um Estado capaz de oferecer \u00e1gua ao agroneg\u00f3cio, mas incapaz de garantir o acesso e o direito humano \u00e0 \u00e1gua.<\/div>\n<div class=\"news-citacao\"><\/div>\n<p>Portanto, tem sido muito dif\u00edcil para n\u00f3s constatarmos que o Estado tem sido muito eficiente para atrair os empreendimentos, para produzir material de divulga\u00e7\u00e3o \u2014 materiais bonitos, coloridos, em papel de alta qualidade, em ingl\u00eas \u2014, mas incapaz de produzir um material de informa\u00e7\u00e3o para os agentes comunit\u00e1rios de sa\u00fade, para os profissionais das Unidades B\u00e1sicas e para os profissionais da vigil\u00e2ncia. Trata-se de um Estado capaz de oferecer \u00e1gua ao agroneg\u00f3cio, mas incapaz de garantir o <strong>acesso e o direito humano \u00e0 \u00e1gua<\/strong>, que \u00e9 priorit\u00e1rio por lei, em uma situa\u00e7\u00e3o como essa de seca; um Estado que \u00e9 capaz de oferecer tecnologia para a produ\u00e7\u00e3o e produtividade do agroneg\u00f3cio, mas n\u00e3o \u00e9 capaz de fortalecer a assist\u00eancia t\u00e9cnica \u00e0 agricultura familiar, pelo contr\u00e1rio, essa assist\u00eancia t\u00e9cnica tem sido cada vez mais precarizada e desconstru\u00edda. Eu fico muito indignada de ver isso: s\u00e3o 10 anos vendo o sofrimento dessas fam\u00edlias; \u00e9 muita injusti\u00e7a!<\/p>\n<p>A <strong>Pol\u00edtica Nacional de Irriga\u00e7\u00e3o<\/strong>, que foi definida em 2013 pelo<strong> Minist\u00e9rio da Integra\u00e7\u00e3o<\/strong>, continua priorizando a \u00e1gua para o aumento da produtividade do <strong>agroneg\u00f3cio<\/strong> e pretende expandir esse modelo de \u00e1reas irrigadas para a produ\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio em milh\u00f5es e milh\u00f5es de hectares: h\u00e1 dados que falam em mais 400 mil hectares irrigados no Nordeste, outros falam em seis milh\u00f5es de hectares no <strong>Brasil<\/strong>. Ou seja, trata-se da mesma pol\u00edtica, com todas essas consequ\u00eancias negativas que ela tem de destrui\u00e7\u00e3o do movo de vida tradicional, de inviabiliza\u00e7\u00e3o da agricultura familiar camponesa e de privilegiamento desse tipo de empresa, destruindo tamb\u00e9m o ambiente e a sa\u00fade das pessoas, com essa ilus\u00e3o do progresso, do desenvolvimento e do emprego como algo muito melhor do que o trabalho aut\u00f4nomo, livre e produtivo que a agricultura familiar sup\u00f5e.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais as perspectivas e desafios de dar continuidade a sua pesquisa dada essa situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<div class=\"news-citacao\">Os agentes da transforma\u00e7\u00e3o social s\u00e3o os movimentos sociais.<\/div>\n<div class=\"news-citacao\"><\/div>\n<p><strong>Raquel Rigotto \u2013<\/strong> N\u00f3s temos nos voltado para aprofundar o estudo desses efeitos cr\u00f4nicos dos agrot\u00f3xicos\u00a0na regi\u00e3o, tendo em vista que s\u00e3o 16 anos da instala\u00e7\u00e3o das empresas. Ent\u00e3o esses efeitos cr\u00f4nicos come\u00e7am a ficar bem mais evidentes, como o c\u00e2ncer, as m\u00e1s-forma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas e os dist\u00farbios end\u00f3crinos. Mas tamb\u00e9m estamos estudando a quest\u00e3o da agroecologia\u00a0na perspectiva da justi\u00e7a ambiental, ou seja, como essas iniciativas de agroecologia potenciam a sa\u00fade e a qualidade de vida dessas popula\u00e7\u00f5es e as supera\u00e7\u00f5es das <strong>desigualdades sociais<\/strong>. Estamos tamb\u00e9m contribuindo com os movimentos sociais na discuss\u00e3o sobre injusti\u00e7a h\u00eddrica, caracterizando o privil\u00e9gio no acesso \u00e0 \u00e1gua que \u00e9 dado aos grandes empreendedores e \u00e0 priva\u00e7\u00e3o h\u00eddrica que est\u00e1 sendo imposta \u00e0s comunidades nativas e ao povo da regi\u00e3o. \u00c9 por a\u00ed que vemos alguma luz hoje: a luta dos movimentos e dos povos do campo nos abre a possibilidade de realmente incidir na produ\u00e7\u00e3o de um territ\u00f3rio saud\u00e1vel e de vida e trabalho dignos.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que o papel do Estado est\u00e1 posto, continua tendo suas atribui\u00e7\u00f5es constitucionais, legais e normativas, mas est\u00e1 muito claro para n\u00f3s \u2014 e desde o come\u00e7o da pesquisa j\u00e1 sab\u00edamos disso \u2014 que n\u00e3o \u00e9 apenas a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e de evid\u00eancias dos impactos desse modelo de desenvolvimento que pode trazer transforma\u00e7\u00f5es. Os agentes da transforma\u00e7\u00e3o social s\u00e3o os movimentos sociais; \u00e9 a luta do povo que far\u00e1 isso, e cada vez fica mais claro para n\u00f3s que compete \u00e0 universidade se associar a esses movimentos, se colocar a servi\u00e7o deles, produzindo informa\u00e7\u00f5es que alimentem e fortale\u00e7am seus processos de luta.<\/p>\n<p><strong>Sa\u00fade Coletiva<\/strong><\/p>\n<p>Temos tamb\u00e9m uma incid\u00eancia no campo acad\u00eamico no que diz respeito \u00e0 pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e metodol\u00f3gica do campo da <strong>Sa\u00fade Coletiva<\/strong>. A Sa\u00fade Coletiva \u00e9 algo muito especial para n\u00f3s da <strong>Am\u00e9rica Latina<\/strong>, porque \u00e9 um produto nosso, \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o das lutas sociais no continente, especialmente a partir dos anos 1970, em um di\u00e1logo profundo entre intelectuais, acad\u00eamicos e movimentos sociais, que resultou nessa forma\u00e7\u00e3o da Sa\u00fade Coletiva, que \u00e9 um campo que est\u00e1 em movimento, em permanente constru\u00e7\u00e3o. Hoje n\u00f3s estamos percebendo a pr\u00f3pria crise ecossist\u00eamica global, a gravidade da quest\u00e3o ambiental no \u00e2mbito planet\u00e1rio e muito especificamente no Brasil, com toda a sua biodiversidade.<\/p>\n<p>E nesse contexto em que a divis\u00e3o internacional do trabalho e da natureza imp\u00f5e um modelo de acumula\u00e7\u00e3o por espolia\u00e7\u00e3o para a Am\u00e9rica Latina e para a \u00c1frica, como define o David Harvey, em que se busca expropriar os<strong> bens comuns<\/strong> que d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 vida dos <strong>povos origin\u00e1rios<\/strong> \u2014 terra, territ\u00f3rios, florestas, biodiversidade, \u00e1gua, saberes e culturas \u2014, para transform\u00e1-los em empresas do <strong>agroneg\u00f3cio<\/strong> e da <strong>minera\u00e7\u00e3o<\/strong>, o Estado se coloca a servi\u00e7o desse processo mundializado do capital, oferecendo a essas empresas e a esses agentes econ\u00f4micos toda a infraestrutura que eles necessitam em termos de terra, energia, \u00e1gua, vias de transporte e tecnologias. Tamb\u00e9m h\u00e1 uma adequa\u00e7\u00e3o do aparelho legal, com a desregulamenta\u00e7\u00e3o, a flexibiliza\u00e7\u00e3o das leis.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio a <strong>Sa\u00fade Coletiva<\/strong> est\u00e1 sendo tensionada a rever suas bases te\u00f3ricas e a incorporar aquilo que pesquisadores da Fiocruz, especialmente <strong>Marcelo Firpo Porto<\/strong>, junto com outros pesquisadores v\u00eam chamando de enfoque socioambiental, cr\u00edtico e transformador da determina\u00e7\u00e3o social da sa\u00fade. Isso nos leva a incorporar outros campos disciplinares, como a Geografia da Sa\u00fade, que nos traz os conceitos de territ\u00f3rio, territorialidades, territorializa\u00e7\u00e3o, desterritorializa\u00e7\u00e3o; o campo das Ci\u00eancias Sociais, para nos ajudar a compreender toda a produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que se imp\u00f5e sobre a sociedade e que cria um contexto favor\u00e1vel \u00e0 hegemonia desse projeto neodesenvolvimentista, extrativista e colonialista; as contribui\u00e7\u00f5es das teorias descoloniais, que v\u00eam nos alertar para o enorme aporte de saberes dos povos origin\u00e1rios da Am\u00e9rica Latina e que precisam estar presentes e em di\u00e1logo com os outros conhecimentos, inclusive aqueles da Ci\u00eancia Moderna. A Sa\u00fade Coletiva pode incorporar esses debates e se aproximar um pouco mais das lutas por justi\u00e7a ambiental, das lutas nos conflitos ambientais, se situando enquanto servi\u00e7o aos movimentos sociais que defendem territ\u00f3rios, a vida e os direitos.<\/p>\n<p><strong>Raquel Rigotto<\/strong> \u00e9 graduada em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais \u2013 UFMG, especialista em Medicina do Trabalho pela Fundacentro, mestra em Educa\u00e7\u00e3o pela UFMG e doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Cear\u00e1 \u2013 UFC. Atualmente \u00e9 professora titular do Departamento de Sa\u00fade Comunit\u00e1ria da Faculdade de Medicina da UFC. \u00c9 conselheira titular do Conselho Nacional de Sa\u00fade, participa do GT Sa\u00fade e Ambiente da <strong>Abrasco<\/strong> e comp\u00f5e o Conselho Deliberativo da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva \u2013 Abrasco 2015-2018. Tamb\u00e9m \u00e9 membro da Rede Brasileira de Justi\u00e7a Ambiental.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; EcoDebate de 07 de outubro de 2016<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mapa: Raphael Abreu | Wikimedia Commons \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil vermos a gravidade dos impactos \u00e0 sa\u00fade desse modelo de desenvolvimento\u201d. 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