{"id":17749,"date":"2016-10-31T17:00:02","date_gmt":"2016-10-31T19:00:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=17749"},"modified":"2016-10-26T11:44:51","modified_gmt":"2016-10-26T13:44:51","slug":"quem-tem-a-forca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/quem-tem-a-forca\/","title":{"rendered":"Quem tem a for\u00e7a?"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/6\/5737\/29947832194_714032d587_z.jpg\" width=\"600\" height=\"689\" \/><\/p>\n<p><strong>Como em um cabo de guerra, de um lado h\u00e1 o grande esfor\u00e7o das fontes renov\u00e1veis de energia para ganhar escala; de outro, o poder monumental das fontes f\u00f3sseis<\/strong><\/p>\n<p>Os su\u00ed\u00e7os Bertrand Piccard e Andr\u00e9 Borschberg passaram dez anos construindo um avi\u00e3o e em julho passado finalmente deram uma volta ao mundo. Sa\u00edram de Nagoya, no Jap\u00e3o, sobrevoaram quatro continentes (\u00c1sia, \u00c1frica, Europa e Am\u00e9rica), mais o Oceano Atl\u00e2ntico, e 5 dias e 5 noites depois pousaram no Hava\u00ed (EUA), bem no meio do Pac\u00edfico \u2013 o \u00faltimo ponto de aterrissagem antes de alcan\u00e7ar Nagoya pela outra costa. At\u00e9 a\u00ed nada demais. S\u00f3 que, para percorrer esses mais de 40 mil quil\u00f4metros, o avi\u00e3o dos su\u00ed\u00e7os n\u00e3o usou nenhuma gota de combust\u00edvel sequer. Consumiu apenas energia solar, mesmo durante a noite.<\/p>\n<p>O projeto <a href=\"http:\/\/www.solarimpulse.com\/\" target=\"_blank\">Solar Impulse<\/a> \u2013 Clean Technologies to Fly Around the World, com todo o seu arrojo e ineditismo, \u00e9 uma entre as incont\u00e1veis inova\u00e7\u00f5es em energia renov\u00e1vel que pipocam todos os dias mundo afora, seja no setor automotivo, seja em green building (edifica\u00e7\u00f5es verdes), em comunica\u00e7\u00e3o etc. Toda essa fertilidade mostra que a barreira tecnol\u00f3gica, que poderia ser o grande impeditivo para os pa\u00edses alcan\u00e7arem a t\u00e3o urgente transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica de fontes f\u00f3sseis para fontes renov\u00e1veis a tempo de manter o aquecimento global abaixo de 2 graus, praticamente j\u00e1 n\u00e3o existe. Ou seja, hoje, os dois maiores desafios para se promover uma revolu\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica no mundo s\u00e3o: vontade pol\u00edtica para implementar os instrumentos necess\u00e1rios \u00e0 descarboniza\u00e7\u00e3o das matrizes geradoras de energia e dinheiro, muito dinheiro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/6\/5828\/30462647252_e7d6564042_z.jpg\" \/><\/p>\n<p><strong>O andar da carruagem<\/strong><\/p>\n<p>O WWF da Fran\u00e7a publicou recentemente um estudo em que aponta <a href=\"http:\/\/www.wwf.fr\/?9641\/Les-signaux-de-la-transition-energetique\" target=\"_blank\">15 sinais<\/a> de que o planeta j\u00e1 est\u00e1 vivenciando essa transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. O mais impactante deles \u00e9 o fato de que 90% de toda a nova produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica adicionada no mundo em 2015 s\u00e3o de fontes renov\u00e1veis \u2013 contra 50% no ano anterior. Outro sinal importante \u00e9 a queda em mais de 80%, acumulada desde 2009, nos custos operacionais das tecnologias fotovoltaicas. A unidade francesa do WWF estima que esses custos seguir\u00e3o em tend\u00eancia de queda e estar\u00e3o cerca de 60% mais baixos at\u00e9 2025.<\/p>\n<p>S\u00e3o dados nada desprez\u00edveis. Mas, como nos filmes de suspense, o secret\u00e1rio-executivo do Observat\u00f3rio do Clima (OC), Carlos Rittl, teme que haja um descompasso entre o timing de toda essa efervesc\u00eancia das renov\u00e1veis e o efetivo cumprimento das metas de redu\u00e7\u00e3o dos gases de efeito estufa estabelecidas na COP 21, de Paris, em 2015. \u201cNa China, a cada hora sobe mais uma turbina e\u00f3lica, a cada hora, 10 mil metros de pain\u00e9is solares s\u00e3o instalados. O que a China instalou em solar s\u00f3 nos primeiros seis meses deste ano equivale ao total de toda a matriz de eletricidade brasileira. \u00c9 uma escala impressionante!\u201d, avalia. Para ele, mesmo que a temperatura global venha a ultrapassar os limites almejados, o ganho em redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es, ainda assim, ter\u00e1 sido extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>O professor do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Energia do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de S\u00e3o Paulo (IEE\/ USP), C\u00e9lio Bermann, discorda totalmente dessa percep\u00e7\u00e3o de que o mundo estaria vivenciando uma revolu\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, embora admita que, no contexto mundial, v\u00e1rias regi\u00f5es de alguma forma t\u00eam procurado aumentar a participa\u00e7\u00e3o das fontes denominadas renov\u00e1veis na oferta energ\u00e9tica. \u201cExiste um esfor\u00e7o nessa dire\u00e7\u00e3o, mas, sob um ponto de vista concreto, a escala de inser\u00e7\u00e3o de energias renov\u00e1veis na oferta energ\u00e9tica mundial \u00e9 extremamente reduzida quando comparada com os combust\u00edveis f\u00f3sseis\u201d, afirma. Segundo ele, 87% da energia produzida no mundo ainda t\u00eam origem nos combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria China, ao mesmo tempo que reduz drasticamente o consumo interno de energia f\u00f3ssil, financia usinas de carv\u00e3o mineral em v\u00e1rios pa\u00edses asi\u00e1ticos. E, de quebra, aproveita para exportar o min\u00e9rio. A informa\u00e7\u00e3o \u00e9 do diretor-executivo do Centro Brasil no Clima, Alfredo Sirkis, que lan\u00e7ou recentemente, com outros participantes, o livro <a href=\"http:\/\/www.centrobrasilnoclima.org\/PDFs\/Book_Moving-in-the-Trillions_final.pdf\" target=\"_blank\">Moving the Trillions<\/a>, sobre precifica\u00e7\u00e3o de carbono e a\u00e7\u00f5es de mitiga\u00e7\u00e3o. \u201cA \u00cdndia, por sua vez, embora tenha interesse em elevar a participa\u00e7\u00e3o de solar na sua matriz energ\u00e9tica, mant\u00e9m ainda uma previs\u00e3o de aumento de consumo de carv\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para Sirkis, o que h\u00e1 de mais importante neste cen\u00e1rio de transi\u00e7\u00e3o s\u00e3o as campanhas de desinvestimento. \u201cMuitos investidores importantes, como o Fundo Soberano da Noruega, grandes universidades americanas e fundos de pens\u00e3o est\u00e3o retirando seus investimentos da ind\u00fastria de carv\u00e3o\u201d, afirma. No m\u00ednimo, essas a\u00e7\u00f5es sugerem um movimento de regress\u00e3o da fonte que mais emite carbono.\u00a0Mas n\u00e3o \u00e9 suficiente. De onde vir\u00e3o os trilh\u00f5es necess\u00e1rios \u00e0 transi\u00e7\u00e3o? Os governos est\u00e3o todos endividados e com d\u00e9ficits p\u00fablicos, portanto um novo Plano Marshall (Programa de Recupera\u00e7\u00e3o Europeia elaborado pelos Estados Unidos para reconstru\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses aliados da Europa ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial) injetando recursos a fundo perdido, como nos anos 1940, est\u00e1 descartado. \u201cO dinheiro do mundo est\u00e1 no circuito do mercado financeiro. L\u00e1 voc\u00ea encontra cerca de US$ 220 trilh\u00f5es que dificilmente chegariam ao setor produtivo\u201d.<\/p>\n<p>Para tirar dinheiro da bolha financeira a fim de frear o avan\u00e7o dos f\u00f3sseis, al\u00e9m do corte de subs\u00eddios aos combust\u00edveis f\u00f3sseis, existem os instrumentos econ\u00f4micos da <a href=\"http:\/\/www.p22on.com.br\/precificacao-de-carbono\/\" target=\"_blank\">precifica\u00e7\u00e3o de carbono<\/a> \u2013 os principais s\u00e3o a taxa\u00e7\u00e3o da intensidade de carbono e o sistema de com\u00e9rcio de emiss\u00f5es. S\u00e3o mecanismos que operam segundo os princ\u00edpios do poluidor- -pagador e do conservador-recebedor: quem polui remunera aqueles que conservam. O artigo 108 do Acordo de Paris estabelece que os pa\u00edses desenvolvam novos mecanismos que atribuam valor econ\u00f4mico \u00e0s atividades de mitiga\u00e7\u00e3o, privilegiando o conservador- -pagador. A isso o Acordo de Paris chamou de \u201cprecifica\u00e7\u00e3o positiva de carbono\u201d.<\/p>\n<p>Entre avan\u00e7os e dificuldades, a energia solar fotovoltaica no momento parece ser a grande l\u00edder desse movimento que, no entanto, para deslanchar e ter alguma chance de vit\u00f3ria, conta com a retaguarda dos moinhos de vento, das usinas hidrel\u00e9tricas, das biomassas, das mar\u00e9s, entre tantas outras fontes alternativas, limpas e renov\u00e1veis.<\/p>\n<p>Em meio a toda essa efervesc\u00eancia e nesse momento crucial de turning point da mudan\u00e7a do clima, o que dizer do papel das usinas nucleares, cujo processo de gera\u00e7\u00e3o de energia n\u00e3o emite gases de efeito estufa? Dado o risco que representam para a vida (a exemplo de Fukushima e Chernobyl) e os rejeitos perigos\u00edssimos e duradouro que geram, as nucleares v\u00eam sendo substitu\u00eddas na Alemanha em boa parte por termel\u00e9tricas movidas a carv\u00e3o mineral, o grande vil\u00e3o do aquecimento global (mais sobre energia nuclear na se\u00e7\u00e3o Olha Isso).<\/p>\n<p>Se for para substituir por termel\u00e9tricas, o consultor em energia Joaquim Carvalho (foi pesquisador associado ao Instituto de Energia e Ambiente da USP e diretor industrial da Nuclen), embora seja contra a instala\u00e7\u00e3o de novas usinas nucleares, acha razo\u00e1vel que pa\u00edses com pouca op\u00e7\u00e3o em suas matrizes, e que j\u00e1 possuem infraestrutura nuclear, encarem essa fonte como uma esp\u00e9cie ponte de emerg\u00eancia at\u00e9 a renova\u00e7\u00e3o total de suas matrizes.<\/p>\n<p><em>&#8220;Com tanto potencial para renov\u00e1veis,\u00a0somos, no momento, apenas um grande\u00a0mercado para companhias que exploram\u00a0energia e\u00f3lica, solar, entre outras fontes&#8221;<\/em><\/p>\n<p>E o que dizer tamb\u00e9m da retomada dos investimentos no pr\u00e9-sal brasileiro, quando o mundo j\u00e1 debate e em alguma medida pratica desinvestimentos em petr\u00f3leo? Ali\u00e1s, aos mais empolgados com a ideia da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, o soci\u00f3logo Ricardo Abramovay, professor s\u00eanior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de S\u00e3o Paulo (IEE\/ USP), manda a seguinte mensagem: \u201cCuidado com a ideia de que a era dos f\u00f3sseis terminou, porque os gigantes do petr\u00f3leo n\u00e3o v\u00e3o desistir t\u00e3o f\u00e1cil das explora\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Independentemente do que aconte\u00e7a com o clima do planeta nos pr\u00f3ximos anos, no cap\u00edtulo que trata das energias haver\u00e1 o time dos protagonistas e o dos coadjuvantes. O Brasil, contrariando expectativas, est\u00e1 se integrando ao segundo. Gilberto Jannuzzi, professor do Departamento de Energia da Faculdade de Engenharia Mec\u00e2nica da Universidade de Campinas (Unicamp), enxerga uma mudan\u00e7a robusta no panorama energ\u00e9tico mundial e lamenta que o Pa\u00eds siga passivo diante dos acontecimentos no setor, apenas recebendo influ\u00eancias. \u201cCom tanto potencial para fontes renov\u00e1veis, n\u00e3o conseguimos alavancar uma economia baseada nelas. Na verdade somos, no momento, apenas um grande mercado para companhias que exploram energia e\u00f3lica, solar, entre outras fontes.\u201d<\/p>\n<p>Neste quadro geral, n\u00e3o se pode esquecer tamb\u00e9m do papel da efici\u00eancia energ\u00e9tica, a mais limpa de todas as fontes, pois representa a energia n\u00e3o gerada. Para o f\u00edsico Jos\u00e9 Goldemberg, presidente da Funda\u00e7\u00e3o Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp), a intensidade energ\u00e9tica (o consumo de energia em rela\u00e7\u00e3o ao Produto Interno Bruto) est\u00e1 diminuindo em todos os pa\u00edses desenvolvidos, que, juntos, respondem por metade de toda a energia produzida no mundo. \u201cNa medida em que o tempo passa, os pa\u00edses ricos fazem a mesma coisa com menos energia\u201d, afirma.<\/p>\n<p>No entanto, o avan\u00e7o do processo de efici\u00eancia energ\u00e9tica vai de encontro a uma situa\u00e7\u00e3o paradoxal. O aumento da efici\u00eancia,\u00a0somado \u00e0 forte transi\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses ricos para o setor de servi\u00e7os e \u00e0 entrada das energias renov\u00e1veis, puxa para baixo o consumo de derivados de petr\u00f3leo (conforme Goldemberg, nos EUA a redu\u00e7\u00e3o foi da ordem de 1% ao ano nos \u00faltimos 10 anos), e consequentemente o pre\u00e7o do f\u00f3ssil tamb\u00e9m cai. Quanto menor o pre\u00e7o, mais competitivo fica o petr\u00f3leo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s renov\u00e1veis, o que, por quest\u00f5es de competitividade, acaba dificultando o processo de descarboniza\u00e7\u00e3o das matrizes energ\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Em meio a essa disputa de gigantes, a sociedade civil vai aos poucos se empoderando na defesa das renov\u00e1veis por meio da climate justice, um tipo de a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica em que o cidad\u00e3o pode processar as empresas e governantes por causa dos impactos negativos dos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Segundo Barbara Rubim, da Campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil, no ano passado, o judici\u00e1rio da Holanda deu ganho de causa aos cidad\u00e3os e condenou o governo a ter uma meta de redu\u00e7\u00e3o de gases de efeito estufa. \u201cBarack Obama [presidente dos Estados Unidos] tamb\u00e9m est\u00e1 sendo processado por ter sido lento nas decis\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica. S\u00e3o iniciativas simb\u00f3licas, mas mostram que a sociedade civil est\u00e1 cada vez mais se envolvendo no assunto\u201d.<\/p>\n<p><strong>Um lugar ao sol<\/strong><\/p>\n<p>Se a cota\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo desceu pr\u00f3xima ao r\u00e9s do ch\u00e3o, o pre\u00e7o das placas fotovoltaicas tamb\u00e9m despencou nos \u00faltimos dois anos, seja por causa do ganho de escala, seja pela redu\u00e7\u00e3o da curva de aprendizado para lidar com o sistema. Ent\u00e3o, por que em um pa\u00eds eminentemente solar como o Brasil n\u00e3o chega a 5 mil o n\u00famero de telhados captando e gerando energia el\u00e9trica com a luz do sol? O l\u00edder do Global Strategic Communications Council (GSCC) ( Uma rede internacional de facilita\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o em mudan\u00e7a clim\u00e1tica) no Brasil, Delcio Rodrigues, aponta as tr\u00eas maiores barreiras ao desenvolvimento da energia fotovoltaica no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>A primeira diz respeito ao custo inicial da\u00a0instala\u00e7\u00e3o. Na energia el\u00e9trica convencional que chega pela rede, esse custo est\u00e1 dilu\u00eddo na tarifa do sistema e o consumidor mal o percebe. Para ter energia, o consumidor se responsabiliza apenas pela compra dos fios el\u00e9tricos da resid\u00eancia. \u201cNo caso da solar, e a\u00ed est\u00e1 toda a injusti\u00e7a, por se tratar de gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda (GD) ( Situa\u00e7\u00e3o em que o consumidor gera a sua pr\u00f3pria energia e lhe \u00e9 permitido injetar o excedente na rede, o que no Brasil foi regulamentado pela Resolu\u00e7\u00e3o Normativa Aneel n\u00ba 482\/2012), a responsabilidade com o custo inicial [todo o equipamento e a instala\u00e7\u00e3o] \u00e9 do consumidor\u201d, explica Rodrigues. Nem todo mundo tem entre R$ 20 mil e R$ 40 mil para arcar com o custo inicial de instala\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 amortizado somente em 5 ou 6 anos, com a economia na conta de energia el\u00e9trica da rede.<\/p>\n<p>A segunda barreira est\u00e1 no sistema financeiro brasileiro. Como os juros ao consumidor s\u00e3o elevad\u00edssimos, fica impens\u00e1vel a busca por financiamento no Brasil. Se fossem razo\u00e1veis \u2013 na Europa encontram-se financiamentos com juro negativo para GD renov\u00e1vel \u2013, a pr\u00f3pria economia na conta de luz daria conta da amortiza\u00e7\u00e3o do valor do equipamento e da instala\u00e7\u00e3o. No Brasil, com os juros ao consumidor que passam, na melhor das hip\u00f3teses, de 30% ao ano, essa conta fica imposs\u00edvel\u201d, lamenta Rodrigues.<\/p>\n<p>A terceira diz respeito \u00e0 equidade de taxa\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 est\u00e1 em vias de ser suplantada. Havia at\u00e9 pouco tempo uma dupla taxa\u00e7\u00e3o de ICMS generalizada. O sistema fazia o balan\u00e7o de quanto o consumidor usou de energia da rede e de quanto injetou de volta, e os governos estaduais cobravam o imposto n\u00e3o apenas pelo fornecimento de energia, mas tamb\u00e9m pelo recebimento. \u201cO Greenpeace atuou fortemente nessa discuss\u00e3o e conseguiu que o Confaz [Conselho Nacional de Pol\u00edtica Fazend\u00e1ria] baixasse uma resolu\u00e7\u00e3o permitindo aos secret\u00e1rios estaduais da Fazenda eliminar essa duplicidade\u201d, conta Rodrigues. A maioria dos estados j\u00e1 fez os ajustes.<\/p>\n<p>Com barreiras ou sem barreiras, o Brasil segue \u201cengatinhando\u201d quando comparado aos pa\u00edses que j\u00e1 captam a energia do sol\u00a0com bastante desenvoltura ou cujas metas s\u00e3o muito ambiciosas. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a China que est\u00e1 em ebuli\u00e7\u00e3o, as fotovoltaicas prometem entrar na \u00cdndia com for\u00e7a total. Nas palavras de Carlos Rittl, o governo indiano pretende sair do zero e chegar em 100 gigawatts de capacidade instalada em solar no prazo de oito anos. \u201cDif\u00edcil dizer se ter\u00e1 chegado a tanto em um prazo t\u00e3o curto, mas muito provavelmente ter\u00e1 se aproximado.\u201d<\/p>\n<p>E, junto a isso, a \u00cdndia tamb\u00e9m se comprometeu a n\u00e3o ter mais carros movidos a combust\u00e3o em 2030. Ou seja, o pa\u00eds pretende promover um boom na ind\u00fastria de carros el\u00e9tricos e, para chegar l\u00e1, est\u00e1 planejando um novo modelo de cr\u00e9dito ao consumidor: o valor do financiamento corresponder\u00e1 \u00e0 diferen\u00e7a entre o pre\u00e7o da gasolina e o da eletricidade consumida pelo ve\u00edculo, segundo Rittl. Se todos esses planos forem adiante, popula\u00e7\u00f5es como a de Nova D\u00e9lhi, considerada hoje a cidade mais polu\u00edda do mundo, em breve poder\u00e3o respirar aliviadas.<\/p>\n<p>Nos EUA, principalmente na Calif\u00f3rnia, a energia solar contribui para baixar a emiss\u00e3o de carbono, al\u00e9m de gerar muitos empregos. \u201cEntre 8 e 12 vezes mais do que a m\u00e9dia dos demais setores\u201d, diz o secret\u00e1rio-executivo do OC. Sem falar na facilidade para se instalar pain\u00e9is fotovoltaicos em qualquer telhado californiano. Basta ir a uma loja de material de constru\u00e7\u00e3o e energia, algu\u00e9m avaliar\u00e1 a localiza\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel, o tamanho do telhado e a capacidade de gera\u00e7\u00e3o. Os pain\u00e9is s\u00e3o ent\u00e3o instalados sem custo nenhum e a empresa que realiza o servi\u00e7o comercializar\u00e1 a energia excedente at\u00e9 conseguir amortizar o valor do investimento. \u201cO prossumidor [aquele que \u00e9 produtor e consumidor ao mesmo tempo] n\u00e3o tira um centavo do bolso\u201d, afirma Carlos Rittl.<\/p>\n<p>Associado a tudo isso, ele lembra que s\u00e3o crescentes tamb\u00e9m os investimentos em solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas para o armazenamento de energia em escala. Um exemplo \u00e9 o <a href=\"https:\/\/www.tesla.com\/powerwall\" target=\"_blank\">Powerwall<\/a>, uma superbateria dom\u00e9stica que arma-zena energia produzida por pain\u00e9is solares durante o dia para ser usada \u00e0 noite lan\u00e7ada pela empresa americana Tesla.<\/p>\n<p><strong>De vento em popa<\/strong><\/p>\n<p>Durante uma madrugada qualquer do ano passado, a Alemanha experimentou um feito: seu sistema gerador de energia e\u00f3lica foi a fonte com maior peso na oferta de energia durante alguns instantes. \u201cFoi s\u00f3 por um momento, no meio da madrugada, mas foi muito significativo\u201d, avalia C\u00e9lio Bermann. O feito alem\u00e3o \u00e9 resultado do r\u00e1pido crescimento dos sistemas de energia e\u00f3lica no mundo nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas. Segundo recente relat\u00f3rio do Greenpeace [R]evolu\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica, as e\u00f3licas passaram de 48 gigawatts instalados para 370 GW em 10 anos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a fonte e\u00f3lica n\u00e3o teria sido l\u00edder em oferta de energia na Alemanha (o terceiro pa\u00eds com maior capacidade instalada, depois de China e EUA), nem por aquele instante fugaz, se a rede el\u00e9trica do pa\u00eds n\u00e3o estivesse totalmente interligada. O consultor em energia Joaquim Carvalho explica que uma e\u00f3lica sozinha est\u00e1 sujeita a intermit\u00eancia do vento, mas uma vez interligadas se beneficiam do que ele chama de \u201cefeito portf\u00f3lio\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 como se fosse uma carteira de a\u00e7\u00f5es da Bolsa de Valores. Uma a\u00e7\u00e3o sozinha \u00e9 vol\u00e1til, mas um portf\u00f3lio de a\u00e7\u00f5es tem muito menos varia\u00e7\u00e3o. No entanto, no Brasil, o 10o maior pa\u00eds em energia e\u00f3lica instalada, s\u00f3 uma ou outra turbina est\u00e1 interligada entre si e na rede. \u201cFalta tamb\u00e9m um smart grid que permita injetar energia e\u00f3lica no sistema em benef\u00ed- cio da economia de \u00e1gua nos reservat\u00f3rios das usinas hidrel\u00e9tricas\u201d, atenta Carvalho.<\/p>\n<p>O caminho a percorrer para integra\u00e7\u00e3o das v\u00e1rias fontes no sistema el\u00e9trico \u00e9 longo e nada trivial, embora, de acordo com Gilberto Jannuzzi, \u201cn\u00e3o seja imposs\u00edvel\u201d. As fontes intermitentes est\u00e3o sendo um desafio em todos os pa\u00edses que v\u00eam aumentando escala. O Brasil tem a vantagem de contar com os grandes reservat\u00f3rios de \u00e1gua das usinas hidrel\u00e9tricas, que neste caso exercem a fun\u00e7\u00e3o das baterias, isto \u00e9, armazenam energia. \u201cPrecisamos desenvolver um sistema para guardar toda essa \u00e1gua e s\u00f3 us\u00e1-la quando n\u00e3o tiver vento\u201d, explica Jannuzzi. Isso evitaria o acionamento das termel\u00e9tricas, estas, sim, interligadas \u00e0s\u00a0hidrel\u00e9tricas durante os per\u00edodos de seca.<\/p>\n<p>\u201cTemos uma tradi\u00e7\u00e3o muito conservadora de planejamento e opera\u00e7\u00e3o do sistema el\u00e9trico\u201d, prossegue Jannuzzi. \u201cPrecisamos de uma gera\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos que desenvolvam sistemas capazes de gerenciar essas fontes intermitentes.\u201d<\/p>\n<p>Para acompanhar essa inser\u00e7\u00e3o das energias renov\u00e1veis no Brasil, C\u00e9lio Bermann afirma ter criado um grupo de pesquisa na USP que recentemente detectou a exist\u00eancia de 240 empreendimentos e\u00f3licos parados, cujas obras n\u00e3o foram nem sequer iniciadas, e que representariam algo em torno de 6 mil megawatts de capacidade instalada. Segundo ele, se a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o era simples por causa do quadro econ\u00f4mico que vinha provocando retra\u00e7\u00e3o dos investimentos, piorou depois da troca de governo. As expectativas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 altera\u00e7\u00e3o das regras dos leil\u00f5es s\u00e3o desestimuladoras. \u201cO quadro dif\u00edcil fica pior quando se mudam as regras\u201d.<\/p>\n<p>O Greenpeace tamb\u00e9m vislumbra dificuldades relacionadas aos leil\u00f5es de renov\u00e1veis: \u201cRecentemente, para a contrata\u00e7\u00e3o de novas usinas e\u00f3licas nos leil\u00f5es, passou a ser exigida a garantia de conex\u00e3o em linhas de transmiss\u00e3o. Al\u00e9m de ser um entrave para o crescimento da fonte, a medida transfere a responsabilidade e os riscos, que antes eram do setor de transmiss\u00e3o, para o setor de gera\u00e7\u00e3o\u201d, informa o relat\u00f3rio Revolu\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>Planeta \u00e1gua<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto a solar e a e\u00f3lica v\u00e3o dando um show em inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, nesse campo a hidroeletricidade sai de cena. \u201cTrata-se de um mont\u00e3o de \u00e1gua movendo uma turbina, um princ\u00edpio f\u00edsico anterior \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o dos semicondutores\u201d, descreve Ricardo Abramovay. Suas cr\u00edticas n\u00e3o se concentram tanto nos impactos socioambientais negativos (Grandes obras como as hidrel\u00e9tricas, principalmente em regi\u00f5es sens\u00edveis como a Amaz\u00f4nia, al\u00e9m de exigirem o desmatamento de extensas \u00e1reas e alterarem o fluxo dos rios, causam perturba\u00e7\u00f5es e sobrecargas de toda ordem no tecido social, podendo prejudicar principalmente os grupos populacionais vulnerabilizados, como ind\u00edgenas, mulheres e crian\u00e7as) que a instala\u00e7\u00e3o de grandes hidrel\u00e9tricas costumam provocar, mas sim no fato de que energia \u00e9 um vetor b\u00e1sico de inova\u00e7\u00f5es e, no caso da hidroeletricidade, isso n\u00e3o existe. \u201cNa literatura a hidroeletricidade j\u00e1 nem entra mais como energia renov\u00e1vel moderna, por ser uma fonte finita e por n\u00e3o ter esse processo acelerado de inova\u00e7\u00e3o que est\u00e1 presente n\u00e3o s\u00f3 no campo das renov\u00e1veis, mas inclusive no de petr\u00f3leo e g\u00e1s.\u201d<\/p>\n<p><em>A descoberta do pr\u00e9-sal brasileiro ajudou a reavivar o simbolismo de que o petr\u00f3leo representa a solu\u00e7\u00e3o dos problemas do Pa\u00eds<\/em><\/p>\n<p>Jannuzzi calcula que o Brasil n\u00e3o tenha\u00a0chegado nem a 50% de seu potencial em energia h\u00eddrica. No entanto, como a maior parte desse potencial est\u00e1 localizada na Amaz\u00f4nia, e como as reais consequ\u00eancias de altera\u00e7\u00e3o do clima e meio ambiente na regi\u00e3o s\u00e3o desconhecidas, ele se diz contr\u00e1rio \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de novas usinas hidrel\u00e9tricas. \u201cIsso \u00e9 um limitante s\u00e9rio, mas temos condi\u00e7\u00f5es de desenvolver outras fontes\u201d, afirma.<\/p>\n<p>J\u00e1 Jos\u00e9 Goldemberg \u00e9 favor\u00e1vel \u00e0 expans\u00e3o do sistema hidrel\u00e9trico como meio de evitar o avan\u00e7o dos f\u00f3sseis. \u201cO importante \u00e9 n\u00e3o permitir o retrocesso\u201d, alerta. \u201cNos \u00faltimos tempos, com a crise h\u00eddrica, o Brasil produziu 25% da sua eletricidade utilizando combust\u00edvel f\u00f3ssil.\u201d Essa experi\u00eancia mostrou, de acordo com o f\u00edsico, que o Pa\u00eds precisa combinar uma expans\u00e3o das e\u00f3licas e hidrel\u00e9tricas e interlig\u00e1-las. Na opini\u00e3o dele, h\u00e1 um certo exagero nos argumentos sobre os impactos das hidrel\u00e9tricas na Amaz\u00f4nia: \u201c\u00c9 poss\u00edvel executar projetos com impactos m\u00ednimos\u201d.<\/p>\n<p>O OURO NEGRO<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 Ricardo Abramovay \u2013 para quem \u201co poder de mobiliza\u00e7\u00e3o de recursos da ind\u00fastria f\u00f3ssil \u00e9 muito maior do que a euforia com as renov\u00e1veis deixaria suspeitar\u201d \u2013 que v\u00ea com uma certa desconfian\u00e7a as previs\u00f5es de um desinvestimento maci\u00e7o em petr\u00f3leo nas pr\u00f3- ximas d\u00e9cadas. Seu colega da USP, C\u00e9lio Bermann, tamb\u00e9m. Para este, a depend\u00eancia que o mundo tem do petr\u00f3leo, principalmente no setor de transportes, \u00e9 extrema. \u201cA quest\u00e3o da escala \u00e9 t\u00e3o significativa que complica a possibilidade de sucesso de programas de substitui\u00e7\u00e3o por agrocombust\u00edveis [ou biocombust\u00edveis], como etanol ou biodiesel\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o que o pre\u00e7o do barril de petr\u00f3leo no mercado internacional, que cinco anos atr\u00e1s estava a US$ 150, caiu a US$ 30 e hoje estabilizou-se em US$ 45. \u201cEsse custo desestimula os investimentos em agrocombust\u00edveis\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Quest\u00f5es de mercado \u00e0 parte, a descoberta do pr\u00e9-sal brasileiro ajudou a reavivar o simbolismo de que o petr\u00f3leo representa a solu\u00e7\u00e3o de todos os problemas do Pa\u00eds. A historiadora ambiental Natascha Otoya, que recentemente defendeu disserta\u00e7\u00e3o de mestrado sobre o come\u00e7o da industrializa\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo no Brasil, na d\u00e9cada de 1930, cr\u00ea que toda a ret\u00f3rica atual em torno da defesa do pr\u00e9-sal (em decorr\u00eancia do projeto de lei proposto pelo ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Jos\u00e9 Serra, que suprime a exig\u00eancia de presen\u00e7a da Petrobras nas explora\u00e7\u00f5es) est\u00e1 muito apegada \u00e0 velha ideia de que o petr\u00f3leo \u00e9 progresso e por causa dele o Brasil ser\u00e1 grande.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o dela, esse sentimento \u201ccolou\u201d na sociedade brasileira ainda no primeiro governo Vargas, quando se encontrou o primeiro po\u00e7o de petr\u00f3leo no bairro de Lobato, em Salvador, na Bahia. \u201cA explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo no Brasil e no mundo teve consequ\u00eancias n\u00e3o antecipadas muito graves e s\u00e9rias em termos ambientais. Mas seguem sendo percebidas e filtradas por uma ideologia de progresso\u201d, diz.<\/p>\n<p><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cebri.org\/eng\/portal\/publicacoes\/cebri-dossi%C3%AA\/the-world-after-the-paris-climate-agreement-of-december-2015;jsessionid=F80CAD2C949F937244939D2B35FE504A\" target=\"_blank\">The World After the Paris Climate Agreement of December 2015<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/unepinquiry.org\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Synthesis_Report_Full_EN.pdf\" target=\"_blank\">G20 Green Finance Study Group<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/eco-financas.org.br\/2016\/08\/grandes-seguradoras-exortam-lideres-do-g20-a-eliminar-os-subsidios-aos-combustiveis-fosseis\/\" target=\"_blank\">Grandes seguradoras exortam l\u00edderes do G20 a eliminar os subs\u00eddios aos combust\u00edveis f\u00f3sseis<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/eco-financas.org.br\/2016\/08\/chineses-querem-mais-energia-renovavel-custe-o-que-custar\/\" target=\"_blank\">Chineses querem mais energia renov\u00e1vel (custe o que custar)<\/a><\/p>\n<p>Fonte &#8211; Magali Cabral, P\u00e1gina 22 out\/nov 2016<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como em um cabo de guerra, de um lado h\u00e1 o grande esfor\u00e7o das fontes renov\u00e1veis de energia para ganhar escala; de outro, o poder monumental das fontes f\u00f3sseis Os su\u00ed\u00e7os Bertrand Piccard e Andr\u00e9 Borschberg passaram dez anos construindo um avi\u00e3o e em julho passado finalmente deram uma volta ao mundo. 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