{"id":17901,"date":"2016-11-16T09:00:35","date_gmt":"2016-11-16T11:00:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=17901"},"modified":"2016-11-15T11:19:31","modified_gmt":"2016-11-15T13:19:31","slug":"amazonia-a-floresta-que-arde-em-chamas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/amazonia-a-floresta-que-arde-em-chamas\/","title":{"rendered":"Amaz\u00f4nia: A floresta que arde em chamas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-QujKFvkNOFU\/WCr83xAZ7zI\/AAAAAAAAGUc\/_fife-wE3TQT9LW6Yqs9gptApBP2OPIMwCLcB\/s640\/1.png\" \/><\/p>\n<p>O ano de 2016 caminha para ser o mais quente j\u00e1 registrado. Enquanto isso, no Brasil, um dos El Ni\u00f1o mais intensos das \u00faltimas d\u00e9cadas exacerbou a esta\u00e7\u00e3o seca em boa parte da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Quando esses dois quadros se juntaram ao uso inadequado do fogo nos \u00faltimos meses, vastos quinh\u00f5es da Amaz\u00f4nia arderam, com graves consequ\u00eancias para as popula\u00e7\u00f5es, para a economia e para a natureza.<\/p>\n<p>Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a \u00e1rea queimada na regi\u00e3o em setembro chegou a 54,5 mil quil\u00f4metros quadrados, maior do que o Estado do Rio \u2013 mas em extens\u00e3o foi um pouco menor do que em setembro de 2015, contrariando previs\u00f5es iniciais de potencial recorde neste ano.<\/p>\n<p>Nem por isso h\u00e1 o que se comemorar: largas \u00e1reas de vegeta\u00e7\u00e3o foram incendiadas. \u201cSabemos que est\u00e1 ocorrendo o aumento da esta\u00e7\u00e3o seca na Amaz\u00f4nia e uma altera\u00e7\u00e3o no ciclo hidrol\u00f3gico, mas ainda n\u00e3o sabemos direito as causas\u201d, diz o cientista Paulo Artaxo, professor na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p><strong>Estresse<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com dados da NASA (Ag\u00eancia Espacial Norte-Americana), o solo da floresta amaz\u00f4nica est\u00e1 menos \u00famido em 2016 do que em 2005 e 2010, dois anos que tamb\u00e9m registraram secas extremas.<\/p>\n<p>A \u00e1rea queimada no bioma aumentou 110% em 2015 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1rea queimada em 2006, segundo c\u00e1lculo baseado em informa\u00e7\u00f5es do Inpe. A \u00e1rea de corte raso caiu 56%, ficando estacionada ao redor de 5.000 km2.<\/p>\n<p>Em todo o mundo, as regi\u00f5es de floresta tropical t\u00eam aquecido em m\u00e9dia 0,26\u00b0C por d\u00e9cada desde meados de 1970. \u201cA Amaz\u00f4nia est\u00e1 sofrendo um processo de estresse h\u00eddrico devido ao aumento de 1,5\u00b0C no \u00faltimo s\u00e9culo\u201d, explica Artaxo. \u201cAo ter um ambiente com uma temperatura alta se aproximando de limiares, isso pode trazer uma fragilidade maior para a regi\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Quando diferentes for\u00e7as \u2013 atividades humanas, como mudan\u00e7a no uso do solo e emiss\u00f5es de CO2, mais fatores naturais, como El Ni\u00f1o, atuam sobre uma mesma regi\u00e3o ao mesmo tempo, pesquisas cient\u00edficas combinadas a pol\u00edticas p\u00fablicas precisam ser priorit\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u201cPol\u00edticas p\u00fablicas de longo prazo, monitoramento, presen\u00e7a do Estado e governabilidade estadual s\u00e3o essenciais para definir os pr\u00f3ximos rumos do ambiente e da popula\u00e7\u00e3o como um todo\u201d, diz o cientista. \u201cUma estrat\u00e9gia muito importante para o pa\u00eds \u00e9 melhorar o monitoramento ambiental dos processos que est\u00e3o acontecendo na Amaz\u00f4nia. Mudan\u00e7as no uso do solo s\u00e3o s\u00f3 a primeira altera\u00e7\u00e3o ambiental numa cadeia muito grande \u2013 \u00e9 preciso monitor\u00e1-la completamente. \u201d<\/p>\n<p><strong>El ni\u00f1o<\/strong><\/p>\n<p>Em agosto e setembro, o Inpe detectou 425.178 focos de calor no bioma amaz\u00f4nico. Nos mesmos meses de 2015, foram registrados 444.942 focos, cerca de 4% a mais. J\u00e1 a \u00e1rea queimada cresceu pouco mais de 5%, de 102.965 para 108.655 quil\u00f4metros quadrados, na mesma compara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse fogar\u00e9u todo responde pelo nome de El Ni\u00f1o (\u201cO Menino\u201d, em espanhol), que come\u00e7ou no ano passado e s\u00f3 foi perder for\u00e7a no primeiro semestre de 2016.<\/p>\n<p>El Ni\u00f1o \u00e9 um fen\u00f4meno natural clim\u00e1tico como consequ\u00eancia do aquecimento fora do normal das \u00e1guas do Oceano Pac\u00edfico na altura da costa do Peru.<\/p>\n<p>Conhecido por alterar globalmente os \u00edndices pluviom\u00e9tricos e os padr\u00f5es de vento, no Brasil ele atinge as regi\u00f5es de formas diferentes. Ao modificar a distribui\u00e7\u00e3o de calor e umidade, El Ni\u00f1o geralmente causa excesso de chuva no Sul do pa\u00eds e redu\u00e7\u00e3o no Nordeste e no Leste da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>No per\u00edodo de 2015\u20132016, a temperatura da superf\u00edcie do Oceano Pac\u00edfico foi a mais alta registrada desde 2001, quando come\u00e7ou o monitoramento de queimadas por sat\u00e9lite. Para piorar, a temperatura da superf\u00edcie do Oceano Atl\u00e2ntico tamb\u00e9m esteve acima do normal, o que intensificou a seca e, por consequ\u00eancia, as queimadas na Amaz\u00f4nia este ano.<\/p>\n<p><strong>Alta intensidade<\/strong><\/p>\n<p>O \u00faltimo grande El Ni\u00f1o foi registrado entre 1997 e 1998. O fen\u00f4meno causou uma intensa seca na Amaz\u00f4nia, o que aumentou significativamente as queimadas.<\/p>\n<p>Naquele per\u00edodo, estudos do IPAM com o IPEA (Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada) mostraram que na Amaz\u00f4nia os preju\u00edzos com o fogo chegaram a quase 10% de PIB (cerca de US$ 5 bilh\u00f5es na \u00e9poca).<\/p>\n<p>Em 1998, s\u00f3 o SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade) gastou mais de US$ 10 milh\u00f5es com tratamento de problemas respirat\u00f3rios na regi\u00e3o devido \u00e0 fuma\u00e7a das queimadas. No Nordeste, a estiagem provocou uma perda de R$ 1,8 bilh\u00e3o devido a quebras de produ\u00e7\u00e3o. No Sul, as chuvas ficaram acima da m\u00e9dia hist\u00f3rica, causando tempestades e enchentes.<\/p>\n<p>Neste ano, o El Ni\u00f1o foi, al\u00e9m de intenso, extenso. \u201cAinda n\u00e3o podemos atribuir essa intensidade do fen\u00f4meno ao aquecimento global; ser\u00e1 necess\u00e1rio um pouco mais investiga\u00e7\u00f5es\u201d, explica o pesquisador s\u00eanior do IPAM, Paulo Moutinho. \u201cMas o que se pode j\u00e1 dizer \u00e9 que, se o avan\u00e7o do desmatamento e das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas continuarem, o cen\u00e1rio de grandes secas em boa parte da Amaz\u00f4nia poder\u00e1 ser algo bem comum no futuro.\u201d<\/p>\n<p><strong>O (des) controle do fogo<\/strong><\/p>\n<p>O fen\u00f4meno El Ni\u00f1o forneceu o ambiente para as queimadas proliferarem em 2015 e 2016. Mas ele sozinho n\u00e3o explica por que tantos focos de calor surgiram na Amaz\u00f4nia. Essa conta \u00e9 do homem.<\/p>\n<p>Na Amaz\u00f4nia, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel que o fogo apare\u00e7a por causas naturais. Raios, por exemplo. Se o n\u00famero de focos de calor aumentou neste ano \u00e9 porque algu\u00e9m riscou o f\u00f3sforo em uma situa\u00e7\u00e3o altamente favor\u00e1vel a propaga\u00e7\u00e3o das chamas.<\/p>\n<p>\u201cA frequ\u00eancia do fogo natural na Amaz\u00f4nia, ou seja, de quanto em quanto tempo uma mesma \u00e1rea queima sem interfer\u00eancia humana, \u00e9 de 500 a 1.000 anos\u201d, explica a pesquisadora Ane Alencar, diretora do IPAM.<\/p>\n<p>\u201cPela a\u00e7\u00e3o humana, n\u00f3s diminu\u00edmos essa frequ\u00eancia para 24 anos, sendo que h\u00e1 lugares que j\u00e1 queimaram at\u00e9 12 vezes nesse mesmo per\u00edodo.\u201d \u00c9 uma alta frequ\u00eancia de queima a qual a vegeta\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem tempo para se adaptar\u201d. O resultado \u00e9 uma mortalidade elevada de \u00e1rvores, mesmo quando o fogo \u00e9 rasteiro.<\/p>\n<p>Alencar mapeou o hist\u00f3rico do fogo em 24 anos no Sudeste da regi\u00e3o, utilizando dados de sensoriamento remoto e identificando qualidade de material no solo. Sua conclus\u00e3o \u00e9 que, apesar de o fogo ser considerado um dist\u00farbio natural da floresta, a forma que se faz o manejo est\u00e1 alterando seu regime na Amaz\u00f4nia, pois ele mexe na din\u00e2mica da regi\u00e3o, enquanto as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas potencializam seus efeitos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/4.bp.blogspot.com\/-bPMqZxmoT5U\/WCr9wevR-aI\/AAAAAAAAGUo\/R0ftG1HgACYiUclNMBrTrkR2buDJWdHEgCLcB\/s640\/3.png\" \/><\/p>\n<p>\u201cA floresta tem a capacidade de reten\u00e7\u00e3o de \u00e1gua no solo, mas n\u00e3o est\u00e1 se recuperando desse processo de seca intensa\u201d, diz a diretora do IPAM. H\u00e1 um d\u00e9ficit de \u00e1gua acumulada na floresta, que parece aumentar ano ap\u00f3s ano. Por isso, qualquer fagulha tem potencial de virar labaredas. \u201cS\u00e3o v\u00e1rios eventos que se sobrep\u00f5em, sem que haja um tempo de recupera\u00e7\u00e3o do solo.\u201d<\/p>\n<p>Um desses eventos \u00e9 a convers\u00e3o de uma \u00e1rea florestada para um campo de soja ou de pasto. Um estudo realizado pelo tamb\u00e9m pesquisador do IPAM Divino Silv\u00e9rio ao redor do Parque Ind\u00edgena do Xingu (MT) aponta que \u00e1reas de produ\u00e7\u00e3o t\u00eam a temperatura da superf\u00edcie de 4\u00b0C a 6\u00b0C, em m\u00e9dia, mais alta em compara\u00e7\u00e3o a uma \u00e1rea florestada.<\/p>\n<p>\u201cAo desmatar, o sistema perde capacidade de retirar \u00e1gua do solo mais profundo, assim, a energia do Sol que seria utilizada para gerar vapor d\u2019\u00e1gua passa a ser utilizada para aquecer o solo. Desta forma, o sistema se torna muito mais quente e mais seco\u201d, explica Silv\u00e9rio.<\/p>\n<p><strong>Combate<\/strong><\/p>\n<p>Justamente num ano que se previa cr\u00edtico, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis) teve menos dinheiro para combater inc\u00eandios florestais na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>O Prevfogo, um programa do Ibama que todo ano contrata brigadistas para combater queimadas sobretudo em terras ind\u00edgenas e assentamentos, teve R$ 24,2 milh\u00f5es no ano passado e contratou 1.400 pessoas. Neste ano, ap\u00f3s dois cortes or\u00e7ament\u00e1rios e uma complementa\u00e7\u00e3o, foram R$ 22 milh\u00f5es, gastos para contratar 900 pessoas.<\/p>\n<p>\u201cCom o aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo, a despesa total cresceu,<br \/>\nmas o or\u00e7amento n\u00e3o acompanhou. Por isso contratamos menos brigadistas\u201d, explica Gabriel Zacharias, chefe do Prevfogo.<\/p>\n<p>Segundo ele, uma estrat\u00e9gia que o programa tem usado nos \u00faltimos anos \u00e9 tentar fazer o manejo do fogo usando o conhecimento tradicional dos \u00edndios (23 das 49 brigadas do Prevfogo s\u00e3o ind\u00edgenas).<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o d\u00e1 para simplesmente dizer para n\u00e3o queimar. O que n\u00f3s estamos fazendo \u00e9 buscar resgatar, por exemplo, a informa\u00e7\u00e3o de quando os av\u00f3s dos \u00edndios queimavam\u201d, diz Zacharias. \u201cO hor\u00e1rio da queimada, por exemplo, importa muito na dissemina\u00e7\u00e3o do fogo.\u201d<\/p>\n<p><strong>Mais fogo, menos comida<\/strong><\/p>\n<p>O fogo \u00e9 uma t\u00e9cnica antiga utilizada pelos \u00edndios, para limpar a \u00e1rea e preparar a terra antes do cultivo. No passado, quando usado, o fogo n\u00e3o causava tantos problemas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em um ambiente cada vez mais seco, as condi\u00e7\u00f5es naturais do clima que os ind\u00edgenas estavam acostumados n\u00e3o s\u00e3o mais as mesmas. O risco de se perder o controle do fogo \u2013 porque a chuva atrasou, por exemplo \u2013 \u00e9 bem maior agora. Consequentemente, h\u00e1 mais inc\u00eandios florestais e muitos ind\u00edgenas est\u00e3o perdendo seu cultivo de subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora do IPAM, Ane Alencar, \u00e9 preciso entender como as pol\u00edticas p\u00fablicas podem auxiliar em ano de seca extrema e trabalhar com os \u00edndios a melhor forma de manejo para enfrentar o problema. \u201c\u00c9 preciso criar os mecanismos para que eles tenham essa vis\u00e3o de m\u00e9dio prazo e possam se adequar \u00e0s novas condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas\u201d, afirma Alencar.<\/p>\n<p>Uma alternativa para a cria\u00e7\u00e3o desta vis\u00e3o mais abrangente do problema est\u00e1 na plataforma SOMAI (Sistema de Observa\u00e7\u00e3o e Monitoramento da Amaz\u00f4nia Ind\u00edgena), desenvolvida pelo IPAM.<\/p>\n<p>Por meio dela, os povos tradicionais t\u00eam acesso a informa\u00e7\u00f5es que impactam suas terras. Com o apoio do Google, nos pr\u00f3ximos meses, um boletim digital, o Alerta Clima Ind\u00edgena, ser\u00e1 lan\u00e7ado para levar dados clim\u00e1ticos com mais anteced\u00eancia aos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>\u201cMuitos povos ind\u00edgenas j\u00e1 relatam mudan\u00e7as nos seus calend\u00e1rios agr\u00edcolas, afetando diretamente a seguran\u00e7a alimentar. Ferramenta como o SOMAI e o Alerta Clima Ind\u00edgena apoiar\u00e3o tomadas de decis\u00e3o importantes na gest\u00e3o territorial, visando a a\u00e7\u00f5es de adapta\u00e7\u00e3o para esses povos\u201d, afirma a coordenadora do n\u00facleo ind\u00edgena do IPAM, Fernanda Bortolotto.<\/p>\n<p><strong>Produ\u00e7\u00e3o em risco<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 o cultivo de subsist\u00eancia precisa de adapta\u00e7\u00e3o. No Par\u00e1, o segundo estado que mais produz cacau no Brasil, os agricultores est\u00e3o sentindo os impactos da seca.<\/p>\n<p>No ver\u00e3o de 2015, diversos produtores relataram a mortalidade de cacaueiros. Este ano, a safra que deveria ser colhida at\u00e9 agosto atrasou e \u00e9 esperada uma perda de 50% da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 os produtores mais antigos est\u00e3o surpresos com a situa\u00e7\u00e3o deste ano. \u00c9lido Trevisan \u00e9 um m\u00e9dio produtor em Medicil\u00e2ndia (PA), que produz cacau desde 1977. Ele conta que, em uma safra normal, sua produ\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1.500 quilos por hectare, mas este ano vai cair para 900 quilos.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma queda muito grande na colheita do cacau, ainda mais considerando que essa foi a \u00fanica safra do ano. Estamos sofrendo, porque ficamos nove meses sem produ\u00e7\u00e3o\u201d, disse.<\/p>\n<p><strong>Os efeitos invis\u00edveis do fogo<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m das labaredas e grandes colunas de fuma\u00e7a, as queimadas provocam efeitos danosos e de longo prazo que n\u00e3o s\u00e3o imediatamente vis\u00edveis.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 o empobrecimento do solo. Especialmente em \u00e1reas em que o fogo \u00e9 recorrente, ou seja, quando \u00e9 usado como ferramenta agr\u00edcola, ele degrada e afeta a fertilidade da terra e reduz tanto a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola quanto sua capacidade de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nutrientes essenciais \u00e0s plantas como nitrog\u00eanio, pot\u00e1ssio e f\u00f3sforo s\u00e3o eliminados. Al\u00e9m disso, a pr\u00e1tica reduz a umidade do solo e acarreta sua compacta\u00e7\u00e3o, resultando em um processo erosivo.<\/p>\n<p>Na Amaz\u00f4nia, as queimadas se somam ao desmatamento e a secas extremas para ampliar esse processo, uma vez que cada um desses fatores alimenta o seguinte.<\/p>\n<p>Com a crescente demanda por alimentos, a sa\u00fade do solo, que \u00e9 um recurso finito, \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o mundial. De acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO) cerca de 32% das terras do mundo est\u00e3o degradadas.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil, 40% do PIB v\u00eam do uso do solo. Se fizermos o manejo de forma equivocada, vamos comprometer o futuro e a seguran\u00e7a alimentar da popula\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e9 preciso investir na conserva\u00e7\u00e3o, na recupera\u00e7\u00e3o e no bom uso do solo,\u201d explica o diretor-executivo do IPAM, Andr\u00e9 Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p><strong>Aquecimento global<\/strong><\/p>\n<p>Outro efeito \u00e9 o impacto no clima. Al\u00e9m de reduzir a capacidade das florestas de armazenar o carbono, as queimas s\u00e3o respons\u00e1veis por liberar uma grande quantidade de CO2, o principal g\u00e1s do efeito estufa, na atmosfera.<\/p>\n<p>Estimativas globais indicam que 70% a 80% do CO2 que chega \u00e0 troposfera pela queima de biomassa em um ano v\u00eam de regi\u00f5es equatoriais e subtropicais.<\/p>\n<p>Na terceira Comunica\u00e7\u00e3o Nacional do Brasil \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o da ONU sobre Mudan\u00e7as do Clima, divulgada este ano, a emiss\u00e3o de gases estufa pelo fogo seguida de desmatamento corresponde a 350 milh\u00f5es de toneladas de CO2 equivalente (tCO2e) em 2010, que s\u00e3o 63% das emiss\u00f5es totais de uso de solo, como explica o cientista da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) Raoni Raj\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 tamb\u00e9m as emiss\u00f5es de mais de 450 milh\u00f5es de tCO2e que, por serem de fogo que n\u00e3o ocasionaram desmatamento, n\u00e3o s\u00e3o contabilizadas, j\u00e1 que parte disso pode voltar para a floresta em recupera\u00e7\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p>Quanto mais gases estufa na atmosfera, piores s\u00e3o as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e mais intensos e frequentes ser\u00e3o os eventos extremos, como as secas que, por sua vez, alimentam mais fogo, num c\u00edrculo vicioso extremamente perigoso para a Amaz\u00f4nia e para quem vive na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto desmatamento e queimadas forem uma pr\u00e1tica corrente na Amaz\u00f4nia, n\u00e3o haver\u00e1 equil\u00edbrio\u201d, diz Paulo Moutinho, do IPAM.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Karinna Matozinhos (IPAM), colabora\u00e7\u00e3o Claudio Angelo (Observat\u00f3rio do Clima), edi\u00e7\u00e3o Cristina Amorim (IPAM), Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia \u2013 IPAM de novembro de 2016<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano de 2016 caminha para ser o mais quente j\u00e1 registrado. 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