{"id":18141,"date":"2016-12-15T17:00:40","date_gmt":"2016-12-15T19:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=18141"},"modified":"2016-12-07T11:16:54","modified_gmt":"2016-12-07T13:16:54","slug":"a-questao-hidrica-atual-do-nordeste-seco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-questao-hidrica-atual-do-nordeste-seco\/","title":{"rendered":"A quest\u00e3o h\u00eddrica atual do Nordeste seco"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/_agenciabrasil2013\/files\/styles\/interna_grande\/public\/fotos\/1047489-1_img_20160926_153205.jpg?itok=VNHLt_9R\" \/>O <em>maior reservat\u00f3rio de \u00e1gua do agreste de Pernambuco opera com volume morto. O n\u00edvel de \u00e1gua na Barragem de Jucazinho, no munic\u00edpio de Surubim, atingiu 0,01% da capacidade.\u00a0Foto &#8211;\u00a0Compesa\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&#8220;A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/549172-maior-reservatorio-do-nordeste-sobradinho-tem-seca-historica\" target=\"_blank\">represa de Sobradinho<\/a>\u00a0est\u00e1 atualmente (novembro de 2016) com cerca de 5% da sua capacidade, e j\u00e1 h\u00e1 previs\u00e3o de hidroge\u00f3logos de que a represa entrar\u00e1 em volume morto no final de dezembro, caso n\u00e3o haja chuvas satisfat\u00f3rias na bacia hidrogr\u00e1fica do rio, principalmente nas regi\u00f5es do Alto e do M\u00e9dio S\u00e3o Francisco&#8221;<\/p>\n<p>O setentrional nordestino, que h\u00e1 cinco anos vem enfrentando situa\u00e7\u00f5es de seca, est\u00e1 em \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/548065-crise-hidrica-e-uma-nova-cultura-de-cuidado-com-a-agua-um-novo-modelo-e-preciso\" target=\"_blank\">estado de emerg\u00eancia<\/a>\u201d e muitos dos munic\u00edpios da regi\u00e3o, como o de Campina Grande, na Para\u00edba, que tem aproximadamente 355 mil habitantes, e Caruaru, em Pernambuco, com 300 mil habitantes, enfrentam problemas de abastecimento de \u00e1gua para o consumo de suas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/544787-crise-hidrica-a-solucao-esta-no-estudo-das-bacias-hidrograficas-entrevista-especial-com-osvaldo-ferreira-valente\" target=\"_blank\">maior problema da seca \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 gest\u00e3o dos recursos h\u00eddricos<\/a>\u00a0e, em muitos munic\u00edpios, se n\u00e3o chover o volume esperado para este m\u00eas de novembro, \u201cn\u00e3o h\u00e1 um plano B para o abastecimento do povo\u201d. \u201cPara se ter uma ideia dessa problem\u00e1tica, represas do porte de Boqueir\u00e3o, na Para\u00edba, que abastece Campina Grande, est\u00e1 atuando com 6% da sua capacidade. Represas enormes no interior da Para\u00edba, como Coremas e M\u00e3e D\u2019\u00c1gua, que juntas acumulam um bilh\u00e3o e 200 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos de \u00e1gua, hoje atuam, respectivamente, com 2% e 7% de suas capacidades. Uma delas (Coremas) j\u00e1 est\u00e1 em colapso, e a tend\u00eancia \u00e9 que at\u00e9 o final do ano, essas represas venham a secar\u201d completamente. A represa de Sobradinho, na Bahia, que tem capacidade de armazenar 34,1 bilh\u00f5es de metros c\u00fabicos de \u00e1gua, e que h\u00e1 quatro meses atuava com 25% da sua capacidade, hoje atua com 5% e j\u00e1 h\u00e1 uma previs\u00e3o de hidroge\u00f3logos de que a represa, caso n\u00e3o chova o suficiente, entrar\u00e1 em volume morto at\u00e9 o final de dezembro.<\/p>\n<p>O abastecimento de \u00e1gua na regi\u00e3o est\u00e1 sendo feito por frotas de caminh\u00f5es-pipas, mas n\u00e3o se sabe qual \u00e9 a origem dessa \u00e1gua que tem sido utilizada para o consumo humano. Temos que nos perguntar de onde essas \u00e1guas est\u00e3o sendo retiradas para o abastecimento do povo, j\u00e1 que o Nordeste inteiro est\u00e1 desidratado e com <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/560243-maior-seca-dos-ultimos-100-anos-provoca-crise-hidrica-no-ceara-e-gera-restricoes-de-consumo\" target=\"_blank\">baixos volumes em suas represas<\/a>. Temos que questionar a origem dessas \u00e1guas que est\u00e3o sendo trazidas pelos caminh\u00f5es pipas. Essas \u00e1guas, de origem duvidosa, s\u00e3o realmente imprest\u00e1veis para o consumo humano, mas s\u00e3o as \u00fanicas de que se disp\u00f5e no momento. Certamente iremos ter problemas s\u00e9rios de sa\u00fade p\u00fablica, porque popula\u00e7\u00f5es inteiras est\u00e3o tendo acesso a essa \u00e1gua de p\u00e9ssima qualidade. Provavelmente, elas ser\u00e3o acometidas por hepatites, esquistossomoses, schistosomose [barriga d\u2019\u00e1gua], isto \u00e9, doen\u00e7as veiculadas pela \u00e1gua.<\/p>\n<p>A seca no Nordeste normalmente se d\u00e1 de forma lenta e gradual, mas a atual agravou-se porque houve secas sucessivas nos \u00faltimos anos. Desde 2012 as<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/535774-crise-da-agua-coloca-a-gestao-de-recursos-hidricos-como-o-problema-do-seculo\" target=\"_blank\"> chuvas est\u00e3o ocorrendo abaixo da m\u00e9dia<\/a>, e quando isso acontece os a\u00e7udes secam e a agricultura sofre um impacto muito forte: colheitas de milho e feij\u00e3o (culturas de subsist\u00eancia) s\u00e3o perdidas e a pecu\u00e1ria tamb\u00e9m sofre um impacto consider\u00e1vel. A seca de 2013, por exemplo, diminuiu, em cerca de 70%, a pecu\u00e1ria paraibana.<\/p>\n<p>Atualmente, o maior problema da seca \u00e9 que, no Nordeste, n\u00e3o h\u00e1 g<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/gest%C3%A3o%20dos%20recursos%20h%C3%ADdricos\" target=\"_blank\">est\u00e3o dos recursos h\u00eddricos<\/a>. Para se ter uma ideia dessa problem\u00e1tica, represas interanuais (aquelas que alcan\u00e7am a quadra chuvosa do ano seguinte, mesmo com o uso continuado de suas \u00e1guas), como \u00e9 o caso de Boqueir\u00e3o, na Para\u00edba, que abastece a cidade de Campina Grande, est\u00e1 atuando com cerca de 6% da sua capacidade. Represas igualmente interanuais no interior da Para\u00edba, como Coremas e M\u00e3e D\u2019\u00c1gua, que juntas acumulam um bilh\u00e3o e 200 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos de \u00e1gua, hoje atuam, respectivamente, com 2% e 7% de suas capacidades. Uma delas j\u00e1 entrou em colapso (Coremas), e a tend\u00eancia \u00e9 que, at\u00e9 o final do ano, essas represas venham a secar por completo.<\/p>\n<p>Represas como a de Jucazinho, que abastece a cidade de Santa Cruz do Capibaribee Caruaru, em Pernambuco, entraram em exaust\u00e3o. Mas por que isso acontece? Por falta de gest\u00e3o no uso das \u00e1guas. Quando uma represa \u00e9 constru\u00edda, ela pereniza o rio por ela represado, numa determinada vaz\u00e3o, chamada de \u201cvaz\u00e3o de regulariza\u00e7\u00e3o\u201d, com 100% de garantia. Essa vaz\u00e3o de regulariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser utilizada em volumes superiores aos determinados e garantidos por essa represa. Se isso for feito, as represas secam, como secaram as mencionadas acima (Jucazinho e Coremas\/M\u00e3e D\u00b4\u00e1gua), como,\u00a0tamb\u00e9m, os a\u00e7udes de Itans e Gargalheiras, no RN, por falta de gest\u00e3o de suas \u00e1guas. O problema \u00e9 que os volumes de regulariza\u00e7\u00e3o das represas est\u00e3o sendo superutilizados na irriga\u00e7\u00e3o, perdidos nos vazamentos, nas infiltra\u00e7\u00f5es e no pr\u00f3prio abastecimento das popula\u00e7\u00f5es. Essa regra de uso dos volumes das represas tem que ser cumprida sistematicamente e com muita determina\u00e7\u00e3o porque, agindo-se de forma contr\u00e1ria, elas v\u00eam a secar.<\/p>\n<p>A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/549172-maior-reservatorio-do-nordeste-sobradinho-tem-seca-historica\" target=\"_blank\">represa de Sobradinho<\/a>\u00a0est\u00e1 atualmente (novembro de 2016) com cerca de 5% da sua capacidade, e j\u00e1 h\u00e1 previs\u00e3o de hidroge\u00f3logos de que a represa entrar\u00e1 em volume morto no final de dezembro, caso n\u00e3o haja chuvas satisfat\u00f3rias na bacia hidrogr\u00e1fica do rio, principalmente nas regi\u00f5es do Alto e do M\u00e9dio S\u00e3o Francisco. A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/549169-a-perenidade-do-rio-sao-francisco-cada-vez-mais-ameacada-entrevista-com-roberto-malvezzi-gogo\" target=\"_blank\">Companhia Hidrel\u00e9trica do S\u00e3o Francisco<\/a>\u00a0\u2013 Chesf e a Companhia Energ\u00e9tica de Minas Gerais\u2013 Cemig, que gerenciam os volumes de regulariza\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco na regi\u00e3o deTr\u00eas Marias e de Sobradinho, est\u00e3o fazendo de tudo para que Sobradinho n\u00e3o entre em volume morto. Est\u00e3o liberando volumes expressivos da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/46154-hidreletricas-construidas-em-areas-tropicais-emitem-mais-gases-de-efeito-estufa-entrevista-especial-com-philip-fearnside\" target=\"_blank\">hidrel\u00e9trica de Tr\u00eas Marias<\/a>\u00a0(cerca de 600 m\u00b3\/s), prejudicando a capacidade de armazenamento da pr\u00f3pria hidrel\u00e9trica, para salvar a represa de Sobradinho. Os t\u00e9cnicos est\u00e3o com muita esperan\u00e7a de que, adotando essas manobras arriscadas, a entrada da nova quadra chuvosa possa salvar, n\u00e3o s\u00f3 a represa de Tr\u00eas Marias, mas, tamb\u00e9m, a de Sobradinho. Ent\u00e3o, estamos vivenciando um momento cr\u00edtico no qual se depende da provid\u00eancia divina para a solu\u00e7\u00e3o definitiva dessa situa\u00e7\u00e3o. A depend\u00eancia agora \u00e9 por chuvas! No atual momento, as chuvas est\u00e3o sendo por demais esperadas, e se constituem no fiel da balan\u00e7a para a salva\u00e7\u00e3o do abastecimento do povo.<\/p>\n<p>O Rio S\u00e3o Francisco tem aqu\u00edferos importantes, sendo o mais importante deles o Urucuia, localizado no Oeste da Bahia, na regi\u00e3o do munic\u00edpio de Barreiras. Esses aqu\u00edferos desempenham um papel fundamental no regime volum\u00e9trico do S\u00e3o Francisco, porque t\u00eam geologia sediment\u00e1ria, de solos porosos, e quando chove h\u00e1 uma grande infiltra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, formando os len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos em seus subsolos. Com isso, h\u00e1 tamb\u00e9m os chamados fluxos de base, que s\u00e3o emiss\u00f5es de \u00e1gua que saem dos subsolos dos aqu\u00edferos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 calha dos rios. O aqu\u00edfero Urucuia \u00e9 respons\u00e1vel por mais da metade da vaz\u00e3o regularizada do S\u00e3o Francisco, em Sobradinho. No entanto, a \u00e1gua do aqu\u00edfero est\u00e1 sendo super utilizada para produzir soja e milho irrigados, por interm\u00e9dio de equipamentos de irriga\u00e7\u00e3o, os chamados piv\u00f4s centrais, que consomem uma quantidade expressiva de \u00e1gua. S\u00f3 na regi\u00e3o Oeste da Bahia existem mais de cem piv\u00f4s centrais, que chegam a retirar, do subsolo, cerca de 2600 metros c\u00fabicos de \u00e1gua por hora. Multiplique esse volume por 100, que \u00e9 a quantidade de piv\u00f4s existentes na regi\u00e3o, e tem-se ideia da quantidade de \u00e1gua que \u00e9 destinada para fins da irriga\u00e7\u00e3o dos plantios.<\/p>\n<p>Quando a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/46154-hidreletricas-construidas-em-areas-tropicais-emitem-mais-gases-de-efeito-estufa-entrevista-especial-com-philip-fearnside\" target=\"_blank\">represa de Sobradinho<\/a> foi constru\u00edda em 1979, foi regularizada a vaz\u00e3o do S\u00e3o Francisco em uma m\u00e9dia de 2060 metros c\u00fabicos por segundo. Se, atualmente, for feita uma mensura\u00e7\u00e3o de vaz\u00e3o na foz do rio, veremos que esta \u00e9 de 1850 m\u00b3\/s. E essa vaz\u00e3o vai diminuir mais ainda por conta do uso indiscriminado das \u00e1guas, nas irriga\u00e7\u00f5es praticadas sobre os seus aqu\u00edferos. \u00c9 isso que est\u00e1 matando o Rio S\u00e3o Franciscoatualmente, reduzindo suas vaz\u00f5es, porque n\u00e3o se est\u00e1 obedecendo aos princ\u00edpios fundamentais da hidrologia, quais sejam, \u00e0 necess\u00e1ria gest\u00e3o dos recursos h\u00eddricos, o que se consubstancia numa quest\u00e3o fundamental, principalmente em regi\u00f5es onde ocorrem secas sevaras.<\/p>\n<p>No Nordeste existem \u00e1reas nas quais as secas ocorrem com menor intensidade, mas existe uma \u00e1rea chamada de Miol\u00e3o da Seca (descrita por Otamar de Carvalho), em que as situa\u00e7\u00f5es de estiagem s\u00e3o mais frequentes: 80% das secas do Nordeste ocorrem nessa \u00e1rea do setentrional nordestino. \u00c9 para l\u00e1 que foi planejada a chegada das \u00e1guas do Rio S\u00e3o Francisco, com o projeto da Transposi\u00e7\u00e3o. Hoje, praticamente todos os munic\u00edpios do Miol\u00e3o da Seca est\u00e3o em estado de emerg\u00eancia, por conta dos \u00faltimos cinco anos de secas sucessivas na regi\u00e3o. O pior \u00e9 que, <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/546434-crise-hidrica-de-sao-paulo-foi-negligenciada-entrevista-especial-com-marzeni-pereira\" target=\"_blank\">em cidades que enfrentam problemas de abastecimento<\/a>, como Campina Grande e Caruaru, n\u00e3o existem um plano B para o atendimento das demandas h\u00eddricas das popula\u00e7\u00f5es. O abastecimento de \u00e1gua est\u00e1 sendo feito com frotas de caminh\u00f5es-pipas. Mas como \u00e9 poss\u00edvel abastecer cidades com mais de 300 mil habitantes, a exemplos de Campina Grande e Caruaru, com frotas de caminh\u00f5es-pipas? As autoridades deixaram de pensar, porque isso tem uma implica\u00e7\u00e3o imediata no tr\u00e2nsito das cidades. J\u00e1 imaginaram uma frota de cinco mil caminh\u00f5es pipas abastecendo um munic\u00edpio sedento?<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, temos que nos perguntar de onde essas \u00e1guas est\u00e3o sendo retiradas, j\u00e1 que o Nordeste inteiro apresenta um problema s\u00e9rio de baixos volumes em suas represas. Temos que questionar a origem dessas \u00e1guas que est\u00e3o sendo transportadas pelos caminh\u00f5es e ofertadas ao povo. Essas \u00e1guas de origem duvidosa s\u00e3o certamente imprest\u00e1veis para o consumo humano, mas s\u00e3o as \u00fanicas que se disp\u00f5e no momento. Certamente teremos problemas muito s\u00e9rios de sa\u00fade p\u00fablica, porque popula\u00e7\u00f5es inteiras est\u00e3o bebendo dessa \u00e1gua n\u00e3o pot\u00e1vel.<\/p>\n<p>A sa\u00edda mais honrosa seria iniciar um <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/programa%20de%20gest%C3%A3o%20adequada%20dos%20recursos%20h%C3%ADdricos\" target=\"_blank\">programa de gest\u00e3o adequada dos recursos h\u00eddricos<\/a>. Mas estamos em uma situa\u00e7\u00e3o na qual n\u00e3o existem volumes suficientes nas represas para se come\u00e7ar a promover tal gest\u00e3o. Com isso, n\u00e3o se vislumbra outra sa\u00edda, a n\u00e3o ser se esperar a quadra chuvosa que j\u00e1 iniciou no m\u00eas de novembro, com chuvas significativas no Alto e no M\u00e9dio S\u00e3o Francisco. Temos que apostar que essas chuvas ir\u00e3o ocorrer com intensidades expressivas, acima da m\u00e9dia, para a solu\u00e7\u00e3o definitiva da situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica existente.<\/p>\n<p>Agora, se essas chuvas vierem abaixo da m\u00e9dia esperada, teremos um desastre muito grande no Nordeste, porque n\u00e3o iremos ter alternativas para o abastecimento do povo, j\u00e1 que as represas est\u00e3o em estado cr\u00edtico. Tamb\u00e9m n\u00e3o existe \u00e1gua de subsolo, porque temos uma geologia cristalina em 70% da superf\u00edcie da regi\u00e3o, ou seja, a rocha que d\u00e1 origem ao solo est\u00e1 praticamente aflorando em alguns pontos da superf\u00edcie e isso dificulta as infiltra\u00e7\u00f5es a e exist\u00eancia de \u00e1gua. Normalmente, essas fontes h\u00eddricas t\u00eam baixas vaz\u00f5es e, como se isso n\u00e3o bastasse, as \u00e1guas s\u00e3o extremamente salinizadas, tanto que, \u00e0s vezes, nem o gado consegue beb\u00ea-las.<\/p>\n<p>\u00c9 imperioso dar a import\u00e2ncia devida, ao trabalho que a Articula\u00e7\u00e3o do Semi\u00e1rido, a ASA Brasil, est\u00e1 fazendo no Nordeste. A ASA Brasil \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental, que trabalha congregando as a\u00e7\u00f5es de 600 outras ONGs no Nordeste, que t\u00eam trabalhos voltados para a conviv\u00eancia no Semi\u00e1rido. A ASA trabalha com cerca de 40 tecnologias no setor h\u00eddrico, a exemplo de cisternas rurais de placas, barragens subterr\u00e2neas, mandalas, entre outras. Agora, para que essas tecnologias funcionem a bom termo, \u00e9 preciso usar a \u00e1gua de forma racional.<\/p>\n<p>A ASA Brasil trabalha com cisternas rurais com capacidade de 16 mil litros e, tamb\u00e9m, com as ditas produtivas, com capacidade para 52 mil litros. Essas cisternas captam \u00e1gua\u00a0dos telhados das casas para fornecer uma \u00e1gua de boa qualidade para uma fam\u00edlia de cinco pessoas, durante os oito meses sem chuvas na regi\u00e3o. Essa \u00e9 uma tecnologia extremamente vi\u00e1vel, como vi\u00e1vel, tamb\u00e9m, \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de animais adaptados \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de secas (grandes e pequenos ruminantes). Em outros momentos de seca, era muito comum, no Nordeste, haver saques em supermercados e feiras livres, porque o povo n\u00e3o tinha o que comer e o que beber. Hoje em dia esse cen\u00e1rio mudou e, certamente, isso tem a ver com o uso e a implementa\u00e7\u00e3o dessas tecnologias que est\u00e3o dando certo no Sert\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/542848-expansao-urbana-o-calcanhar-de-aquiles-da-crise-hidrica-entrevista-especial-com-humberto-miranda\" target=\"_blank\"> tecnologia importante de conviv\u00eancia com as secas<\/a>, \u00e9 o plantio de Palma-forrageira adensada. Antigamente eram produzidas, no Nordeste, cerca de 50 toneladas de palma por hectare. Hoje, na forma adensada de plantio, que \u00e9 uma tecnologia oriunda do M\u00e9xico e dos Estados Unidos, est\u00e3o sendo colhidas, com essa cact\u00e1cea, cerca de 400 toneladas por hectare, ou seja, est\u00e1 se conseguindo um ganho 10 vezes maior nas colheitas. A palma \u00e9 um excelente alimento para os animais em \u00e9poca de estiagem e ajuda a manter a atividade de pecu\u00e1ria em regi\u00f5es secas, como \u00e9 o caso do Nordeste brasileiro.<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/539705-crise-hidrica-como-sobreviver-e-aprender-com-ela-entrevista-especial-com-pedro-telles\" target=\"_blank\"> A sa\u00edda honrosa para se conviver com as secas \u00e9 juntar todas essas experi\u00eancias que est\u00e3o dando certo e come\u00e7ar a trabalhar de forma planejada<\/a>. O planejamento \u00e9 \u00e0 sa\u00edda de tudo. Agora, temos que rezar \u2013 esse \u00e9 o termo certo \u2013 para que essa quadra chuvosa que se inicia em novembro de 2016, venha com volumes de chuvas acima da m\u00e9dia para, a partir da\u00ed, se come\u00e7ar a usar essas \u00e1guas de forma racional. Insisto mais uma vez: se a seca se prolongar por mais um sexto ano no Nordeste, ficam sombrios os cen\u00e1rios do que possa ocorrer com a sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco, <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/551677-transposicao-do-sao-francisco-o-elefante-branco-nordestino-entrevista-especial-com-joao-suassuna\" target=\"_blank\">o programa encontra-se desacelerado ou mesmo parado em alguns trechos do projeto<\/a>. Tem-se a impress\u00e3o de que, primeiro, o governo <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/553915-o-governo-temer-sera-um-governo-de-direita-qinfelizmente-vamos-provar-desse-venenoq-entrevista-especial-com-francisco-de-oliveira\" target=\"_blank\">Temer<\/a>\u00a0est\u00e1 arrumando a casa, para os ajustes necess\u00e1rios \u00e0 aloca\u00e7\u00e3o dos recursos. Houve a pretens\u00e3o inicial de se come\u00e7ar um trabalho de revitaliza\u00e7\u00e3o na bacia do rio, mas ficou somente nas pretens\u00f5es; n\u00e3o houve maiores evolu\u00e7\u00f5es nas a\u00e7\u00f5es, desde o an\u00fancio da inten\u00e7\u00e3o do governo na revitaliza\u00e7\u00e3o do Velho Chico. Ent\u00e3o, a informa\u00e7\u00e3o que se tem \u00e9 a mesma recebida no in\u00edcio do governo Temer: de que o governo est\u00e1 negociando 10 milh\u00f5es de reais para investir em a\u00e7\u00f5es de revitaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Suassuna, Engenheiro Agr\u00f4nomo e Pesquisador da Funda\u00e7\u00e3o Joaquim Nabuco<\/p>\n<p>Fonte &#8211; IHU de 06 de dezembro de 2016<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O maior reservat\u00f3rio de \u00e1gua do agreste de Pernambuco opera com volume morto. 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