{"id":18467,"date":"2017-01-20T09:00:25","date_gmt":"2017-01-20T11:00:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=18467"},"modified":"2017-01-20T16:31:27","modified_gmt":"2017-01-20T18:31:27","slug":"belo-monte-a-sociedade-brasileira-nao-tem-consciencia-do-seu-custo-social-e-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/belo-monte-a-sociedade-brasileira-nao-tem-consciencia-do-seu-custo-social-e-ambiental\/","title":{"rendered":"Belo Monte &#8211; A sociedade brasileira n\u00e3o tem consci\u00eancia do seu custo social e ambiental"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/politica.estadao.com.br\/blogs\/fausto-macedo\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2016\/04\/belomontediv.jpg\" \/><em>Foto &#8211; Estad\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Entre todas as <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562511-sbpc-aponta-novas-violacoes-de-direitos-no-retorno-dos-ribeirinhos-expulsos-por-belo-monte\" target=\"_blank\">viola\u00e7\u00f5es geradas pela constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte<\/a> nos \u00faltimos cinco anos, quando as obras foram iniciadas no Rio Xingu, a maior delas, \u201ca partir da qual v\u00e1rias outras foram desencadeadas, eu diria que \u00e9 o n\u00e3o reconhecimento da popula\u00e7\u00e3o tradicional\u201d, diz a antrop\u00f3loga <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/40381-impactos-e-licenciamento-de-belo-monte-serao-discutidos-pelo-movimento-social-em-brasilia\" target=\"_blank\">S\u00f4nia Magalh\u00e3es<\/a>, membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia \u2013 SBPC, que coordenou, em conjunto com a professora Manuela Carneiro da Cunha, o relat\u00f3rio \u201cEstudo sobre o deslocamento compuls\u00f3rio de ribeirinhos do rio Xingu provocado pela constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte\u201d, conclu\u00eddo no final do ano passado. Este estudo ser\u00e1 publicado pela SBPC nas pr\u00f3ximas semanas. \u201cO fato de n\u00e3o haver esse reconhecimento gerou uma cadeia de viola\u00e7\u00f5es de direitos que at\u00e9 o momento n\u00e3o foi sanada\u201d, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida \u00e0 IHU On-Line por telefone, S\u00f4nia explica que a \u201crecomenda\u00e7\u00e3o fundamental\u201d do relat\u00f3rio produzido pela SBPC para resolver os conflitos gerados pela constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica de Belo Monte \u00e9 a necessidade de reconhecer a condi\u00e7\u00e3o dos ribeirinhos como tais, o que tem sido violado pelo <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/527366-comeca-expulsao-das-familias-urbanas-atingidas-por-belo-monte\" target=\"_blank\">Plano B\u00e1sico Ambiental \u2013 PBA<\/a>. \u201cO reconhecimento dessa condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 da empresa Norte Energia nem do Ibama. Ao contr\u00e1rio, o reconhecimento \u00e9 do indiv\u00edduo e da sociedade da qual ele faz parte, ou seja, dos ribeirinhos. Essa \u00e9 a recomenda\u00e7\u00e3o pilar do estudo da SBPC\u201d, frisa.<\/p>\n<p>S\u00f4nia lembra que a obra de Belo Monte, desde o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/561021-documentario-belo-monte-depois-da-inundacao-mostra-impactos-da-hidreletrica-para-populacao-local\" target=\"_blank\">in\u00edcio de sua constru\u00e7\u00e3o<\/a>, tem sido \u201cmarcada pelas condicionantes\u201d, as quais v\u00eam se acumulando ano ap\u00f3s ano. \u201cUm bom diagn\u00f3stico do que s\u00e3o os problemas de Altamira \u00e9 o n\u00famero de a\u00e7\u00f5es civis p\u00fablicas que est\u00e3o em vigor atualmente. No caso da cidade, entre todas as a\u00e7\u00f5es civis, diria que a principal delas diz respeito ao esgotamento sanit\u00e1rio. (&#8230;) Segundo o licenciamento previsto, antes de a barragem entrar em opera\u00e7\u00e3o, deveria ter sido feito um sistema de tratamento de esgoto sanit\u00e1rio, antes de os dejetos serem lan\u00e7ados no rio, mas isso n\u00e3o foi feito. Portanto, a barragem entrou em opera\u00e7\u00e3o sem que isso tivesse ocorrido, o que gerou um problema extremamente s\u00e9rio na cidade, com repercuss\u00f5es sobre a qualidade da \u00e1gua\u201d. E adverte: \u201cHoje, em <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/551288-altamira-uma-cidade-fatiada-pela-usina-hidreletrica-de-belo-monte-entrevista-especial-com-carolina-piwowarczyk-reis\" target=\"_blank\">Altamira<\/a>, h\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p>S\u00f4nia Magalh\u00e3es \u00e9 graduada e mestra em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade Federal da Bahia &#8211; UFBA, doutora em Antropologia pela Universidade Federal do Par\u00e1 \u2013 UFPA e em Sociologia pela Universit\u00e9 Paris 13. Atualmente leciona na UFPA, onde est\u00e1 vinculada ao N\u00facleo de Ci\u00eancias Agr\u00e1rias e Desenvolvimento Rural. Tamb\u00e9m leciona nos Programas de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais, P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Agriculturas Amaz\u00f4nicas e P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Gest\u00e3o dos Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia \u2013 SBPC divulgou recentemente um relat\u00f3rio intitulado \u201cEstudo sobre o deslocamento compuls\u00f3rio de ribeirinhos do rio Xingu provocado pela constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte\u201d, no qual aponta que foram feitas novas viola\u00e7\u00f5es de direitos dos ribeirinhos expulsos por conta de Belo Monte. Em que consistem essas viola\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00f4nia Magalh\u00e3es \u2013<\/strong> A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/561192-desastre-em-belo-monte-e-iminente-diz-conselho-de-direitos-humanos\" target=\"_blank\">viola\u00e7\u00e3o de direitos dos ribeirinhos<\/a> \u00e9 muito anterior ao estudo da SBPC, o qual vem constatar, mais uma vez, que existe essa viola\u00e7\u00e3o. Com base no conhecimento dos pesquisadores que fazem parte do grupo, o estudo aponta uma s\u00e9rie de impropriedades do ponto de vista t\u00e9cnico, social e jur\u00eddico. Se pud\u00e9ssemos eleger uma viola\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o que seja a \u00fanica -, a partir da qual v\u00e1rias outras foram desencadeadas, eu diria que \u00e9 o n\u00e3o reconhecimento da popula\u00e7\u00e3o tradicional. O fato de n\u00e3o haver esse reconhecimento gerou uma cadeia de viola\u00e7\u00f5es de direitos que at\u00e9 o momento n\u00e3o foi sanada.<\/p>\n<p>Os ribeirinhos, mesmo morando historicamente nessas \u00e1reas, n\u00e3o foram reconhecidos como tais. Tamb\u00e9m n\u00e3o foram levados em conta os aspectos sociol\u00f3gicos, e os ribeirinhos, literalmente, foram expulsos de suas \u00e1reas sem nenhum di\u00e1logo, sem nenhuma medida que tentasse, de alguma forma, minimizar a viol\u00eancia que \u00e9 um deslocamento compuls\u00f3rio. Por outro lado, h\u00e1 v\u00e1rias quest\u00f5es t\u00e9cnicas relativas \u00e0 fauna, \u00e0 flora e ao ecossistema em geral que repercutem sobre o modo de vida e as rela\u00e7\u00f5es sociais dos ribeirinhos, porque eles t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o especial com o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o estudo aponta um conjunto de recomenda\u00e7\u00f5es fundamentais para que os <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/559454-por-que-lutam-os-ribeirinhos-atingidos-por-belo-monte\" target=\"_blank\">ribeirinhos<\/a> consigam ter condi\u00e7\u00f5es de reestruturarem o seu modo de vida. A primeira recomenda\u00e7\u00e3o que aparece como pre\u00e2mbulo do relat\u00f3rio \u00e9 o reconhecimento da condi\u00e7\u00e3o de ribeirinho, o qual \u00e9 prerrogativa dos pr\u00f3prios ribeirinhos. Ou seja, o reconhecimento dessa condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 da empresa Norte Energia nem do Ibama. Ao contr\u00e1rio, o reconhecimento \u00e9 do indiv\u00edduo e da sociedade da qual ele faz parte, ou seja, dos ribeirinhos. Essa \u00e9 a recomenda\u00e7\u00e3o pilar do estudo da <strong>SBPC<\/strong>. A partir da\u00ed h\u00e1 recomenda\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 reterritorializa\u00e7\u00e3o dos ribeirinhos sumariamente desterritorializados, porque foram expulsos. Eles n\u00e3o tiveram nenhum protocolo de deslocamento.<\/p>\n<p><em>&#8220;Os ribeirinhos, mesmo morando historicamente nessas \u00e1reas, n\u00e3o foram reconhecidos como tais&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Para quais regi\u00f5es do Par\u00e1 eles foram deslocados?<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00f4nia Magalh\u00e3es \u2013<\/strong> Eles tiveram que procurar outro lugar qualquer, como as casas dos parentes ou dos amigos. Muitos deles, apesar de serem ribeirinhos, tamb\u00e9m tinham casas na cidade, porque essa \u00e9 uma caracter\u00edstica das popula\u00e7\u00f5es tradicionais da Amaz\u00f4nia, mas alguns deles foram, inclusive, deslocados de suas casas da cidade. Antigos pescadores est\u00e3o se empregando em fazendas como vaqueiros e h\u00e1 uma esp\u00e9cie de di\u00e1spora, intensa, que, naquele momento em que fizemos o estudo, era dif\u00edcil de quantificar. Apesar disso, conseguimos localizar tanto redes de localidade quanto de parentescos e conseguimos identificar aqueles que permaneceram em Altamira e outros que migraram.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Uma das conclus\u00f5es do relat\u00f3rio da SBPC \u00e9 sobre a maneira como a Norte Energia est\u00e1 conduzindo o processo dos ribeirinhos que sa\u00edram das suas localidades. Pode nos falar como tem sido feito esse processo? A Norte Energia tinha algum tipo de responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o aos ribeirinhos ap\u00f3s a constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte?<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00f4nia Magalh\u00e3es \u2013<\/strong> N\u00e3o foi feito um acordo entre ribeirinhos e a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/500637-belo-monte-norte-energia-s-a-responde-aos-questionamentos-dos-bispos\" target=\"_blank\">Norte Energia<\/a>, mas existe uma legisla\u00e7\u00e3o que diz respeito ao licenciamento ambiental, a qual tem um instrumento chamado Plano B\u00e1sico Ambiental &#8211; PBA, no qual n\u00e3o est\u00e1 explicitamente colocada a quest\u00e3o dos ribeirinhos pelo simples fato de que eles n\u00e3o foram reconhecidos como tais, ao contr\u00e1rio, eles foram invisibilizados. No entanto, o pr\u00f3prio PBA aponta que todos os deslocados por conta do empreendimento devem ter seus modos de vida recompostos. Desse ponto de vista, o Plano est\u00e1 sendo violado, e os instrumentos do licenciamento n\u00e3o est\u00e3o sendo cumpridos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais s\u00e3o os argumentos utilizados para n\u00e3o se reconhecer os ribeirinhos como tais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00f4nia Magalh\u00e3es \u2013<\/strong> Os ribeirinhos se autoidentificam, e a popula\u00e7\u00e3o de Altamira sabe quem s\u00e3o os ribeirinhos, vivem na beira do rio e os conhece pelo nome. Alguns ribeirinhos, inclusive, s\u00e3o casados com ind\u00edgenas, e a sociedade local os reconhece. Al\u00e9m disso, eles existem historicamente, est\u00e3o presentes na bibliografia sobre a regi\u00e3o e toda a sociedade altamirense interage com eles. Mas mesmo assim os ribeirinhos n\u00e3o aparecem no licenciamento ambiental.<\/p>\n<p><em>&#8220;A terceira situa\u00e7\u00e3o extremamente grave, que envolve os munic\u00edpios de Altamira, Vit\u00f3ria do Xingu e Senador Jos\u00e9 Porf\u00edrio, \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o do estoque pesqueiro&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 \u00c9 poss\u00edvel contabilizar quantos ribeirinhos j\u00e1 foram deslocados?<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00f4nia Magalh\u00e3es \u2013<\/strong> Aproximadamente 800 fam\u00edlias. H\u00e1 levantamentos feitos pela Norte Energia, mas n\u00e3o posso coment\u00e1-los porque n\u00e3o tenho conhecimento desse material. N\u00f3s o solicitamos, mas n\u00e3o conseguimos acess\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o em Altamira desde que Belo Monte recebeu a licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00f4nia Magalh\u00e3es \u2013<\/strong> O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562928-mpf-pede-suspensao-da-licenca-de-belo-monte-ate-que-impactos-a-pesca-sejam-atenuados\" target=\"_blank\">licenciamento de Belo Monte<\/a> \u00e9 marcado pelas condicionantes, as quais v\u00eam se acumulando desde a licen\u00e7a pr\u00e9via, a licen\u00e7a de instala\u00e7\u00e3o e depois a de opera\u00e7\u00e3o. Essas condicionantes dizem respeito a v\u00e1rias \u00e1reas, ao pr\u00f3prio deslocamento urbano, \u00e0s impropriedades relativas \u00e0s \u00e1reas que foram deslocadas e foram inundadas em raz\u00e3o do comportamento do len\u00e7ol fre\u00e1tico, at\u00e9 rela\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 sa\u00fade. Um bom diagn\u00f3stico do que s\u00e3o os problemas de Altamira \u00e9 o n\u00famero de a\u00e7\u00f5es civis p\u00fablicas que est\u00e3o em vigor atualmente. Entre todas as a\u00e7\u00f5es civis relativas \u00e0 cidade de Altamira, diria que a principal delas diz respeito ao esgotamento sanit\u00e1rio. Altamira, como v\u00e1rias cidades do Brasil e da Amaz\u00f4nia, n\u00e3o tinha tratamento de esgoto sanit\u00e1rio e, portanto, todo o esgoto era lan\u00e7ado diretamente no rio. Isso por si j\u00e1 \u00e9 algo problem\u00e1tico, mas era parcialmente aceit\u00e1vel porque o Rio Xingu tem uns per\u00edodos de vaz\u00e3o muito extremos, acima de 20 mil metros c\u00fabicos por segundo, al\u00e9m de ter vaz\u00f5es m\u00e9dias bastante altas, o que garantia a circula\u00e7\u00e3o da \u00e1gua do rio e, por consequ\u00eancia, gerava uma esp\u00e9cie de \u201ctratamento natural\u201d do esgoto, porque o rio levava os dejetos da cidade de Altamira.<\/p>\n<p><strong>Impactos<\/strong><\/p>\n<p>Acontece que <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562062-belo-monte-depois-da-inundacao-2\" target=\"_blank\">a barragem transformou toda essa \u00e1rea do rio<\/a> onde o esgoto sanit\u00e1rio de toda a cidade \u00e9 jogado at\u00e9 hoje, de tal modo que a \u00e1gua passou a ficar parada em frente \u00e0 cidade de Altamira, sem nenhuma renova\u00e7\u00e3o. Portanto, teve-se, subitamente, em um r\u00e1pido espa\u00e7o de tempo, um ac\u00famulo de res\u00edduos e dejetos, que aumentou r\u00e1pida e acentuadamente a polui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, reduzindo a sua qualidade e oxigena\u00e7\u00e3o. Essas s\u00e3o consequ\u00eancias observ\u00e1veis em todos os reservat\u00f3rios, mas no caso de Altamira a situa\u00e7\u00e3o se agravou porque gerou tamb\u00e9m um esgotamento sanit\u00e1rio.<\/p>\n<p><em>&#8220;Os impactos de Belo Monte s\u00e3o irrevers\u00edveis e, at\u00e9 agora, incontorn\u00e1veis&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Segundo o licenciamento previsto, antes de a barragem entrar em opera\u00e7\u00e3o, deveria ter sido feito um sistema de tratamento de esgoto sanit\u00e1rio, antes de os dejetos serem lan\u00e7ados no rio, mas isso n\u00e3o foi feito. Portanto, a barragem entrou em opera\u00e7\u00e3o sem que isso tivesse ocorrido, o que gerou um problema extremamente s\u00e9rio na cidade, com repercuss\u00f5es sobre a qualidade da \u00e1gua e sobre a sa\u00fade de toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Redu\u00e7\u00e3o da vaz\u00e3o do Rio Xingu<\/strong><\/p>\n<p>A segunda situa\u00e7\u00e3o extremamente grave, que n\u00e3o ocorre no munic\u00edpio de Altamira, mas no munic\u00edpio de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/517816-prostibulo-estava-em-area-declarada-de-interesse-publico-para-belo-monte\" target=\"_blank\">Vit\u00f3ria do Xingu<\/a>, diz respeito \u00e0 outra parte do rio que foi represada: como o rio, al\u00e9m de ser represado, foi desviado perenemente, houve uma redu\u00e7\u00e3o de vaz\u00e3o num trecho de 100 quil\u00f4metros do rio. Em geral, a vaz\u00e3o do rio tem uma varia\u00e7\u00e3o que vai ao m\u00e1ximo, algo em torno de 28 a 30 mil metros c\u00fabicos por segundo. Como essa vaz\u00e3o foi reduzida \u00e0 vaz\u00e3o m\u00ednima j\u00e1 registrada historicamente, todo esse trecho abaixo da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/538687-de-2003-a-2014-as-hidreletricas-de-lula-e-dilma\" target=\"_blank\">barragem de Pimental<\/a> teve sua vaz\u00e3o reduzida. A popula\u00e7\u00e3o que mora nesse trecho em que houve a redu\u00e7\u00e3o da vaz\u00e3o, por conta disso, passou a enfrentar uma situa\u00e7\u00e3o de altera\u00e7\u00e3o brusca em seu territ\u00f3rio, ou seja, essa \u00e9 outra forma de desastre sobre o territ\u00f3rio. Essa popula\u00e7\u00e3o ribeirinha n\u00e3o tem nenhuma previs\u00e3o de como ser\u00e3o minimizados os efeitos que est\u00e3o acontecendo e tampouco tem alternativas. Isso inclui tanto a popula\u00e7\u00e3o ribeirinha, como outra fra\u00e7\u00e3o importante de popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o ribeirinha e que tamb\u00e9m mora abaixo da barragem de Pimental, no trecho de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562871-usina-do-sitio-pimental-e-concluida-no-complexo-de-belo-monte\" target=\"_blank\">vaz\u00e3o reduzida<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Redu\u00e7\u00e3o da pesca<\/strong><\/p>\n<p>A terceira situa\u00e7\u00e3o extremamente grave, que envolve os munic\u00edpios de Altamira, Vit\u00f3ria do Xingu e Senador Jos\u00e9 Porf\u00edrio, \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o do estoque pesqueiro. Nessa regi\u00e3o existe uma popula\u00e7\u00e3o muito grande de pescadores, e a pesca, al\u00e9m de ser uma importante fonte comercial de gera\u00e7\u00e3o de renda, \u00e9, sobretudo, a principal fonte de seguran\u00e7a alimentar. Portanto, hoje existe uma popula\u00e7\u00e3o de pescadores sem peixe, e uma \u00e1rea de cerca de 250 quil\u00f4metros sem peixes. Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia n\u00e3o apenas da inunda\u00e7\u00e3o, mas da redu\u00e7\u00e3o da vaz\u00e3o, que tamb\u00e9m repercute sobre os ber\u00e7\u00e1rios de peixes, sobre \u00e1rea de piracema e \u00e1reas de alimenta\u00e7\u00e3o dos peixes.<\/p>\n<p>Essa <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/542761-belo-monte-paralisada-pescadores-cercam-sede-da-norte-energia-e-agricultores-fecham-transamazonica\" target=\"_blank\">situa\u00e7\u00e3o dos pescadores<\/a> tamb\u00e9m tem um efeito em cadeia: repercute sobre a situa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias e, como consequ\u00eancia, sobre a situa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio com\u00e9rcio, da circula\u00e7\u00e3o de mercadorias de modo geral, porque esses pescadores est\u00e3o sem a sua atividade. Tanto os ribeirinhos como os pescadores necessitam, com urg\u00eancia, um apoio de transi\u00e7\u00e3o &#8211; um apoio financeiro -, pois eles n\u00e3o t\u00eam onde morar, n\u00e3o t\u00eam como se alimentar e est\u00e3o em uma situa\u00e7\u00e3o emergencial. Hoje, em Altamira, h\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia p\u00fablica.<\/p>\n<p><em>&#8220;A sociedade brasileira n\u00e3o tem consci\u00eancia do que significa o custo social e ambiental de uma barragem&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Vislumbra possibilidades de reverter essa situa\u00e7\u00e3o de impacto tanto para ribeirinhos quanto para a popula\u00e7\u00e3o em geral depois da opera\u00e7\u00e3o de Belo Monte?<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00f4nia Magalh\u00e3es \u2013<\/strong> Os <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/517200-impactos-ambientais-irreversiveis\" target=\"_blank\">impactos de Belo Monte s\u00e3o irrevers\u00edveis<\/a> e, at\u00e9 agora, incontorn\u00e1veis. Al\u00e9m de serem extremamente tr\u00e1gicos \u2013 porque considero que um desastre ambiental \u00e9 uma trag\u00e9dia \u2013, eles n\u00e3o recebem a aten\u00e7\u00e3o que deveriam receber. H\u00e1 grandes quest\u00f5es que devem ser levadas em considera\u00e7\u00e3o. A primeira delas \u00e9 que a sociedade \u2013 n\u00f3s brasileiros \u2013 deve levar em considera\u00e7\u00e3o o custo social e ambiental de uma grande barragem, seja Belo Monte ou outra qualquer. Creio que a sociedade brasileira n\u00e3o tem consci\u00eancia do que significa o custo social e ambiental de uma barragem. Quando digo que n\u00e3o tem consci\u00eancia, quero dizer tamb\u00e9m que as perdas \u2013 sociais, ambientais, humanas \u2013 decorrentes de uma barragem s\u00e3o irrecuper\u00e1veis, s\u00e3o uma trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Uma met\u00e1fora que talvez possa fazer entender a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de uma grande enchente: ela destr\u00f3i tudo. \u00c9 evidente que as pessoas buscam se recompor, mas \u00e9 necess\u00e1rio muito apoio para que elas se recomponham e muitas delas jamais v\u00e3o se recompor. Logo, \u00e9 uma trag\u00e9dia que n\u00e3o tem aparato t\u00e9cnico que a controle, porque a dimens\u00e3o das perdas n\u00e3o \u00e9 controlada tecnicamente. Esse \u00e9 o primeiro ponto.<\/p>\n<p>O segundo aspecto \u00e9 que, mesmo sabendo disso, poderiam ser tomadas algumas medidas que fizessem a trag\u00e9dia suport\u00e1vel, pois \u00e9 poss\u00edvel oferecer ao ambiente e \u00e0s popula\u00e7\u00f5es humanas meios para lidar com ela e, no caso de Belo Monte, isso n\u00e3o existe. Posso afirmar que n\u00e3o conhe\u00e7o nenhum exemplo de barragem em que essas condi\u00e7\u00f5es tenham sido oferecidas. As m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es que foram obtidas foram resultado de muita luta e resist\u00eancia em um conflito onde h\u00e1 uma assimetria de poder inimagin\u00e1vel, isto \u00e9, uma assimetria que talvez n\u00e3o vejamos em outras situa\u00e7\u00f5es de conflitos, como, por exemplo, no caso que estamos tra\u00e7ando, que \u00e9 a quest\u00e3o da invisibiliza\u00e7\u00e3o de uma popula\u00e7\u00e3o inteira, ou seja, de dizer que ela n\u00e3o existe, de n\u00e3o reconhec\u00ea-la.<\/p>\n<p>N\u00e3o acredito que Belo Monte venha, em algum momento, a recuperar ou restaurar aquilo que foi perdido pelas popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas. N\u00e3o estou nem me referindo \u00e0s quest\u00f5es materiais, mas culturais e simb\u00f3licas: essa \u00e9 uma perda que n\u00e3o tem reposi\u00e7\u00e3o e n\u00f3s precisamos ter consci\u00eancia disso: de que estamos impondo a uma parte da nossa sociedade uma perda que n\u00e3o tem volta.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00f4nia Magalh\u00e3es \u2013<\/strong> O esfor\u00e7o que a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/563467-do-xingu-ao-teles-pires-documentarios-retratam-os-impactos-de-grandes-hidreletricas-nas-vozes-dos-atingidos1\" target=\"_blank\">SBPC<\/a>\u00a0fez foi interessante e pode contribuir muito para se refletir sobre os efeitos das pol\u00edticas p\u00fablicas no Brasil, porque as grandes barragens s\u00e3o um caso-limite, mas h\u00e1 outros. A SBPC fez um esfor\u00e7o de mostrar para a sociedade esse caso-limite, ou seja, qual \u00e9 o significado da constru\u00e7\u00e3o de uma barragem e de dar uma contribui\u00e7\u00e3o a essa popula\u00e7\u00e3o, de dar visibilidade a essa popula\u00e7\u00e3o e \u00e0 viola\u00e7\u00e3o dos seus direitos, e de contribuir com a nossa compet\u00eancia, que \u00e9 a arma de que dispomos nesse momento, que \u00e9 a compet\u00eancia de analisar e apontar o que est\u00e1 acontecendo e indicar algumas solu\u00e7\u00f5es, apontar encaminhamentos para solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para que as popula\u00e7\u00f5es sobrevivam melhor a essa trag\u00e9dia.<\/p>\n<p><em>&#8220;N\u00f3s precisamos ter consci\u00eancia disso: de que estamos impondo a uma parte da nossa sociedade uma perda que n\u00e3o tem volta&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Tenho a esperan\u00e7a de que estudos como esse revelem a dimens\u00e3o dessa trag\u00e9dia, ao mesmo tempo que contribuam para esse momento emergencial, que seja uma demonstra\u00e7\u00e3o para situa\u00e7\u00f5es futuras, n\u00e3o do que deve ser feito, mas exatamente do que n\u00e3o deve ser feito. Eu diria que o estudo da SBPC \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/551372-estado-de-excecao-e-o-licenciamento-de-usinas-hidreletricas-na-amazonia-os-fins-justificam-os-meios-entrevista-especial-com-luis-de-camoes-lima-boaventura-\" target=\"_blank\">n\u00e3o \u00e0s hidrel\u00e9tricas<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Patricia Fachin, IHU de 09 de janeiro de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto &#8211; Estad\u00e3o Entre todas as viola\u00e7\u00f5es geradas pela constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte nos \u00faltimos cinco anos, quando as obras foram iniciadas no Rio Xingu, a maior delas, \u201ca partir da qual v\u00e1rias outras foram desencadeadas, eu diria que \u00e9 o n\u00e3o reconhecimento da popula\u00e7\u00e3o tradicional\u201d, diz a antrop\u00f3loga S\u00f4nia Magalh\u00e3es, membro da Sociedade Brasileira&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-18467","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Belo Monte - A sociedade brasileira n\u00e3o tem consci\u00eancia do seu custo social e ambiental - FUNVERDE<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/belo-monte-a-sociedade-brasileira-nao-tem-consciencia-do-seu-custo-social-e-ambiental\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Belo Monte - A sociedade brasileira n\u00e3o tem consci\u00eancia do seu custo social e ambiental - FUNVERDE\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Foto &#8211; 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