{"id":18491,"date":"2017-01-30T09:00:13","date_gmt":"2017-01-30T11:00:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=18491"},"modified":"2017-01-10T11:06:54","modified_gmt":"2017-01-10T13:06:54","slug":"nordeste-enfrenta-maior-seca-em-100-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/nordeste-enfrenta-maior-seca-em-100-anos\/","title":{"rendered":"Nordeste enfrenta maior seca em 100 anos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img.estadao.com.br\/resources\/jpg\/9\/2\/1483915274329.jpg\" alt=\"Sert\u00e3o de Petrolina\" \/><em>Animais que morreram de fome e foram colocados em uma \u00e1rea perto de sua casa, pelo agricultor Valdecir\u00a0da Silva, em Serrinha, na \u00e1rea rural de Petrolina<\/em><\/p>\n<p><strong>Reservat\u00f3rios de \u00e1gua da regi\u00e3o t\u00eam, em m\u00e9dia, 16,3% da capacidade de armazenamento; rios e a\u00e7udes est\u00e3o secos<\/strong><\/p>\n<p>Valdecir Jo\u00e3o da Silva, de 53 anos, conta os cad\u00e1veres do seu pequeno rebanho que n\u00e3o resistiu \u00e0 fome, \u00e0 falta de \u00e1gua e \u00e0s doen\u00e7as causadas pela desnutri\u00e7\u00e3o. Em uma \u00e1rea afastada da pequena casa onde vive com a fam\u00edlia, ele juntou 12 animais mortos ao longo dos \u00faltimos meses. De alguns, restam os ossos. De outros, mais recentes, os corpos inchados. \u201cMorreram de fome\u201d, resume ele, que prefere deix\u00e1-los aos urubus a enterr\u00e1-los. Ele tenta salvar os 20 animais que restam com mandacaru, a planta s\u00edmbolo do Nordeste. \u201cRa\u00e7\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 para comprar, pois est\u00e1 muito cara. O saco de milho que custava R$ 18 h\u00e1 dois anos hoje sai por R$ 65.\u201d<\/p>\n<p>No sert\u00e3o de Petrolina, quinta maior cidade de Pernambuco, n\u00e3o choveu por 11 meses. Em meados de dezembro, caiu uma chuva forte, mas logo parou. O receio dos sertanejos do semi\u00e1rido \u00e9 de que se repita o ocorrido em janeiro passado, quando a chuva veio forte, \u201csangrou\u201d a\u00e7udes, mas durou s\u00f3 duas semanas.<\/p>\n<p>\u201cPlantei 60 quilos de milho e de feij\u00e3o, mas n\u00e3o choveu mais e perdi tudo. N\u00e3o deu nem palha\u201d, diz Josilane Rodrigues, de 25 anos, enquanto exp\u00f5e 11 ovelhas em uma feira em Dormentes, a 130 km de Petrolina. Quer vend\u00ea-las, mesmo a pre\u00e7o baixo, por n\u00e3o ter como aliment\u00e1-las.<\/p>\n<p>\u201cVou vender a qualquer pre\u00e7o porque n\u00e3o quero voltar com eles\u201d, afirma Francisco Agostinho Rodrigues, de 64 anos, que levou \u00e0 feira 23 de seus 60 animais. \u201cA gente vende algumas para dar de comer \u00e0s outras\u201d. A feira semanal de Dormentes re\u00fane, em m\u00e9dia, 3,6 mil animais e atrai compradores da regi\u00e3o e de outros Estados. Em tempos bons, tudo \u00e9 vendido. Agora, em raz\u00e3o da crise e da seca, o n\u00famero de animais expostos caiu \u00e0 metade e muitos voltam para casa por falta de interessados, diz Jo\u00e3o Batista Coelho, da Ag\u00eancia de Defesa e Fiscaliza\u00e7\u00e3o Agropecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s cinco anos seguidos de volume de chuvas abaixo da m\u00e9dia hist\u00f3rica, a seca do semi\u00e1rido j\u00e1 \u00e9 considerada a maior do s\u00e9culo. A regi\u00e3o inclui Alagoas, Bahia, Cear\u00e1, Para\u00edba, Pernambuco, Piau\u00ed, Rio Grande do Norte, Sergipe e o norte de Minas Gerais e conta com cerca de 23 milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p><strong>\u00c1gua<\/strong><\/p>\n<p>Grandes reservat\u00f3rios do Nordeste \u2013 com potencial de armazenar mais de 10 bilh\u00f5es de litros de \u00e1gua \u2013 operam, em m\u00e9dia, com 16, 3% da capacidade, porcentual que era de 46,3% h\u00e1 cinco anos. Dos 533 reservat\u00f3rios da regi\u00e3o monitorados pela Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (ANA), 142 est\u00e3o secos.<\/p>\n<p>Segundo Raul Fritz, da Funda\u00e7\u00e3o Cearense de Meteorologia e Recursos H\u00eddricos (Funceme), \u201cn\u00e3o se via seca t\u00e3o severa para um per\u00edodo consecutivo desde 1910\u201d, quando dados sobre as chuvas passaram a ser coletados. O Cear\u00e1 \u00e9 o Estado em pior situa\u00e7\u00e3o. Seus reservat\u00f3rios t\u00eam apenas 7% da capacidade armazenada. Nos \u00faltimos cinco anos, choveu em m\u00e9dia 516 mil\u00edmetros no territ\u00f3rio, enquanto a m\u00e9dia m\u00ednima \u00e9 de 600 mil\u00edmetros. \u201cE o Cear\u00e1 \u00e9 o retrato do que ocorre nos demais Estados\u201d, diz Fritz.<\/p>\n<p>V\u00e1rios rios e a\u00e7udes tamb\u00e9m secaram. Muitos moradores, inclusive em grandes cidades, s\u00f3 t\u00eam acesso \u00e0 \u00e1gua fornecida por caminh\u00f5es-pipa bancados pelos governos federal e estaduais.<\/p>\n<p>De 2012 a 2015, o Nordeste registrou preju\u00edzos de R$ 104 bilh\u00f5es com a seca. O valor equivale a quase 70% das perdas em raz\u00e3o desse fen\u00f4meno em todo o Brasil, segundo a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional de Munic\u00edpios (CNM). Os valores de 2016 ainda n\u00e3o foram contabilizados.<\/p>\n<p>Em Pernambuco, onde boa parte dos 185 munic\u00edpios est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia, a perda chega a R$ 1,5 bilh\u00e3o s\u00f3 na pecu\u00e1ria. O rebanho bovino, formado por 2,5 milh\u00f5es de cabe\u00e7as em 2011, diminuiu em 554 mil cabe\u00e7as no ano passado.<\/p>\n<p>Ainda que caprinos e ovinos tenham sofrido com a estiagem, como os do criador Silva, o rebanho cresceu por ter substitu\u00eddo o gado, que \u00e9 menos resistente \u00e0 seca. O n\u00famero de cabras, bodes e cabritos passou de 1,9 milh\u00e3o para 2,4 milh\u00f5es em quatro anos. O de ovinos saltou de 1,8 milh\u00e3o para 2,4 milh\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Programas sociais reduzem migra\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img.estadao.com.br\/resources\/jpg\/6\/6\/1483912933166.jpg\" alt=\"Casal Souza\" \/><em>Manoel Granja de Souza e Maria Elisie e\u00a02 dos 10 filhos: sem Bolsa teriam de pedir ajuda<\/em><\/p>\n<p><strong>Engenheiro agr\u00f4nomo da ONG Caatinga conta que, nos \u00faltimos 15 anos, n\u00e3o se v\u00ea mais um grande n\u00famero de pessoas indo para as capitais ou outros Estados, nem mercados com alimentos sendo saqueados ou crian\u00e7as morrendo de fome<\/strong><\/p>\n<p>A longa estiagem deixa os tradicionais tra\u00e7os de terra arrasada, planta\u00e7\u00e3o cinza, como se tivesse sido queimada, e animais magros, mas a situa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente de anos atr\u00e1s, quando a seca expulsava os habitantes do sert\u00e3o. Hoje as pessoas permanecem no Nordeste porque s\u00e3o atendidas por programas sociais, como Bolsa Fam\u00edlia, Bolsa Estiagem, aposentadoria rural, instala\u00e7\u00e3o de cisternas e Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar.<\/p>\n<p>\u201cNos \u00faltimos 15 anos n\u00e3o se v\u00ea mais um grande n\u00famero de pessoas indo para as capitais ou outros Estados, nem mercados e caminh\u00f5es com alimentos sendo saqueados ou crian\u00e7as morrendo de fome\u201d, diz o engenheiro agr\u00f4nomo Giovanne Xenofonte, da ONG Caatinga, que mant\u00e9m projetos de agroecologia em Araripe, \u00e1rea formada por dez cidades do interior de Pernambuco.<\/p>\n<p>Na seca de 1979 a 1983, por exemplo, 3,5 milh\u00f5es de pessoas morreram por subnutri\u00e7\u00e3o. Em 1915 e 1932, os governos chegaram a criar \u201ccampos de concentra\u00e7\u00e3o\u201d para evitar que popula\u00e7\u00f5es famintas chegassem \u00e0s capitais.<\/p>\n<p>Com os R$ 600 que recebe do Bolsa Fam\u00edlia, o casal Manoel Granja de Souza, de 49 anos, e Maria Elisie, de 39 anos, cuida de oito filhos com idades entre 2 e 21 anos na \u00e1rea rural de Ouricuri (PE). S\u00f3 o mais velho faz bicos ajudando um vizinho no corte de mandacaru.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s perder seis vacas, \u201ccinco por fome e uma porque comeu pl\u00e1stico\u201d, conforme explica Souza, ele vendeu as quatro que restaram, \u201cantes que tamb\u00e9m morressem\u201d. Agora cria cinco galinhas. \u201cSem o Bolsa Fam\u00edlia estar\u00edamos perdidos; teria de pedir ajuda nas ruas da cidade\u201d, diz Elisie.<\/p>\n<p>O presidente da Funda\u00e7\u00e3o Cearense de Meteorologia e Recursos H\u00eddricos, a Funceme, Eduardo Martins, diz que programas sociais evitam a migra\u00e7\u00e3o e cita a instala\u00e7\u00e3o de mais de 1 milh\u00e3o de cisternas no semi\u00e1rido para captar \u00e1gua da chuva. Elas s\u00e3o abastecidas por caminh\u00f5es-pipa pagos pelo governo. Mas algumas fam\u00edlias reclamam que ficam at\u00e9 tr\u00eas meses sem \u00e1gua. \u201cA pol\u00edtica do carro pipa \u00e9 necess\u00e1ria, mas refor\u00e7a a ind\u00fastria da seca\u201d, diz Xenofonte. H\u00e1 um com\u00e9rcio da \u00e1gua \u2013 retirada do rio S\u00e3o Francisco e de outras fontes \u2013, e os donos de caminh\u00f5es cobram de R$ 65 a R$ 130 por um carregamento.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Chuvinha pouca n\u00e3o conta&#8217;<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img.estadao.com.br\/resources\/jpg\/3\/5\/1483912632953.jpg\" alt=\"Hort\u00eancio\" \/><em>Rodrigues s\u00f3 deixa o sert\u00e3o quando for \u2018envelopado\u2019\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Senhor que 78 anos conta que aposentadoria \u00e9 que tem ajudado a manter parte das despesas da casa, principalmente com os rem\u00e9dios da esposa Luzia, de 79 anos<\/strong><\/p>\n<p>Na regi\u00e3o rural de Acau\u00e3 (PI), primeira cidade a ser beneficiada pelo programa Fome Zero junto com Guaribas, em 2003, Hort\u00eancio Francisco Rodrigues, de 78 anos, conta que, at\u00e9 2012, tinha 20 cabe\u00e7as de gado, mas hoje tem quatro: \u201cPraticamente mandei colocar no caminh\u00e3o e levar; vendi baratinho, pois ningu\u00e9m queria.\u201d<\/p>\n<p>Agora se dedica \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de 150 ovelhas e cabras, que s\u00e3o mais resistentes e comem plantas da caatinga, como mandacaru, angaroba e palma, que tamb\u00e9m come\u00e7am a escassear em algumas regi\u00f5es do Nordeste.<\/p>\n<p>Rodrigues ficou contente com a chuva de dezembro, mas ressalta que \u201cchuvinha pouca n\u00e3o conta\u201d. Desde ent\u00e3o, o sol voltou a ser \u201co mais quente da vida\u201d, como define ele.<\/p>\n<p>De sorriso f\u00e1cil, Rodrigues afirma que o valor recebido da aposentadoria \u00e9 que tem ajudado a manter parte das despesas da casa, principalmente com os rem\u00e9dios da esposa Luzia, de 79 anos. Com seis filhos (dos quais dois j\u00e1 morreram), um n\u00famero de netos que perdeu a conta e 31 bisnetos, ele diz que parte da fam\u00edlia deixou o sert\u00e3o. Alguns migraram para S\u00e3o Paulo, \u201c\u00e0 ca\u00e7a de emprego\u201d. Apesar das secas constantes, umas mais duras, outras menos, n\u00e3o pensa em ir embora. \u201cNasci aqui e s\u00f3 saio envelopado\u201d, brinca.<\/p>\n<p>O vizinho Jos\u00e9 Teixeira de Macedo, de 64 anos, j\u00e1 viveu da planta\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o nos anos 80, mas perdeu tudo por causa da praga de bicudos. Participou de frentes de trabalho na grande seca de 1983 e agora cria ovinos e planta milho e feij\u00e3o quando chove. Diz que, sem a aposentadoria, tudo estaria muito mais dif\u00edcil. Ele e um dos filhos cuidam da ro\u00e7a e tamb\u00e9m n\u00e3o pensam em abandonar o sert\u00e3o. J\u00e1 a neta, Samara, de 16 anos, pretende mudar-se para uma cidade maior e estudar Administra\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o vou morar aqui; vejo o sofrimento dos av\u00f3s e dos pais e n\u00e3o quero isso\u201d.<\/p>\n<p><strong>Produtor sugere &#8216;seguro bode&#8217;<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img.estadao.com.br\/resources\/jpg\/3\/4\/1483912693143.jpg\" alt=\"C\u00e2ndido\" \/><em>\u201cO que a gente vende n\u00e3o d\u00e1 nem para as despesas\u201d, lamenta o produtor<\/em><\/p>\n<p><strong>Ap\u00f3s perder 20 animais, em 2012 e 2013, Ara\u00fajo passou a plantar capim no Piau\u00ed, irrigado com \u00e1gua de um po\u00e7o que construiu com verba do Bolsa Estiagem<\/strong><\/p>\n<p>O agr\u00f4nomo e criador de caprinos e ovinos em Acau\u00e3 (PI), C\u00e2ndido Roberto de Ara\u00fajo, de 49 anos, comprou um rebanho com 122 animais por R$ 50 cada. Em per\u00edodos normais, sairia por cerca de R$ 200, calcula ele. \u201cEstavam todos magros e tive de engord\u00e1-los para revender para o abate\u201d.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o predomina a cria\u00e7\u00e3o de animais para abate ou produ\u00e7\u00e3o de leite. Ara\u00fajo reclama da falta de um programa governamental voltado \u00e0 atividade. O que tem dispon\u00edvel \u00e9 o Seguro Safra, empr\u00e9stimo subsidiado para quem perde a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. \u201cPrecisamos \u00e9 de um Seguro Bode\u201d, diz, referindo-se ao animal cuja carne est\u00e1 entre as mais consumidas pela popula\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n<p>Antonio Felipe de Souza, de 60 anos, tem 80 cabe\u00e7as de gado leiteiro. Ap\u00f3s perder 20 animais, em 2012 e 2013, passou a plantar capim, irrigado com \u00e1gua de um po\u00e7o que construiu com verba do Bolsa Estiagem. Seu irm\u00e3o Norberto n\u00e3o obteve o cr\u00e9dito e, de 100 vacas, perdeu 80. Junto com familiares, Souza produz doce de leite e peta (biscoito de polvilho) e vende na regi\u00e3o. \u201cD\u00e1 para sobreviver\u201d, diz.<\/p>\n<p>Segundo a Cooperativa de Produtores de Afr\u00e2nio (PE), a produ\u00e7\u00e3o de leite caiu de 11 mil litros por dia em 2012 para 3,4 mil litros. O pre\u00e7o tamb\u00e9m caiu. \u201cO que a gente vende n\u00e3o d\u00e1 nem para as despesas\u201d, diz Fortunato Rodrigues, de 74 anos. Vender o animal n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o. \u201cO pre\u00e7o da arroba est\u00e1 l\u00e1 embaixo e quem vende n\u00e3o consegue repor o gado\u201d.<\/p>\n<p><strong>Barragem de Ouricuri est\u00e1 seca h\u00e1 dois anos<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img.estadao.com.br\/resources\/jpg\/0\/3\/1483912723030.jpg\" alt=\"Benedito\" \/><em>Dos seus dez filhos, quatro deixaram o sert\u00e3o e foram viver em grandes cidades, como S\u00e3o Paulo. \u201cEu fiquei aqui porque dou valor a esse lugar.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Dos seus dez filhos, quatro deixaram o sert\u00e3o e foram viver em grandes cidades, como S\u00e3o Paulo. &#8216;Eu fiquei aqui porque dou valor a esse lugar&#8217;, diz<\/strong><\/p>\n<p>Sem plantar feij\u00e3o e milho depois de ter perdido as \u00faltimas safras em raz\u00e3o da seca, o produtor Benedito Alencar, de 53 anos, e morador do povoado de Uru\u00e1s, em Petrolina (PE), diz que ficou \u201cdeprimido\u201d nas \u00faltimas semanas por ter de pagar R$ 10 por 1 quilo de feij\u00e3o. \u201cQuando a gente planta e colhe, o produto n\u00e3o vale nada\u201d.<\/p>\n<p>Ele vive com a esposa e o filho de 19 anos, que est\u00e1 desempregado, e faz bicos. Outros dois filhos se mudaram para a cidade. Ele conta, com orgulho, que um deles \u00e9 formado em Direito, \u201cdepois de ter estudado em escola p\u00fablica.\u201d A fam\u00edlia, diz Alencar, \u201cpassa necessidades, mas n\u00e3o passa fome\u201d.<\/p>\n<p>Parte dos problemas da regi\u00e3o seria amenizada com as opera\u00e7\u00f5es do canal Pontal, para receber \u00e1gua do rio S\u00e3o Francisco. Ap\u00f3s 18 anos de obras, o canal com 7,7 mil km ficou pronto em meados deste ano. Levaria \u00e1gua para atividades de fruticultura irrigada a cerca de 35 mil fam\u00edlias. Contudo, a \u00e1rea no entorno, destinada aos sequeiros (fam\u00edlias que tiveram a terra desapropriada para a obra), foi ocupada por mais de 600 sem-terra. Segundo os moradores da regi\u00e3o, o grupo que ganhou a concess\u00e3o diz que s\u00f3 vai inaugurar o projeto quando os invasores forem retirados do local.<\/p>\n<p>Em Ouricuri, a barragem Tamboril, inaugurada nos anos 60, est\u00e1 seca h\u00e1 dois anos. O aposentado Francisco Marques da Silva, de 74 anos, foi um dos oper\u00e1rios que trabalhou na constru\u00e7\u00e3o da barragem, respons\u00e1vel pelo abastecimento de cerca de dez cidades.<\/p>\n<p>\u201cAntes, a gente conseguia plantar jerimum, feij\u00e3o, macaxeira, mas agora arriou tudo, morreu\u201d, diz Silva. Dos seus dez filhos, quatro deixaram o sert\u00e3o e foram viver em grandes cidades, como S\u00e3o Paulo. \u201cEu fiquei aqui porque dou valor a esse lugar.\u201d<\/p>\n<p><strong>Diversificar atividade \u00e9 alternativa<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img.estadao.com.br\/resources\/jpg\/8\/4\/1483912752948.jpg\" alt=\"Ad\u00e3o\" \/><em>Para evitar maiores perdas com a seca, investiu &#8216;poupan\u00e7a\u00a0de muitos anos&#8217; na constru\u00e7\u00e3o de um po\u00e7o, no valor de R$ 6 mil<\/em><\/p>\n<p><strong>Fam\u00edlia de Ad\u00e3o participa de projeto que incentiva agroecologia para pequenos produtores; assim, consegue criar 28 caprinos, vacas e \u00e9guas<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o depender de uma \u00fanica especializa\u00e7\u00e3o e diversificar atividades para poder enfrentar com menos sofrimento o per\u00edodo de estiagem \u00e9 a estrat\u00e9gia adotada pelo produtor Ad\u00e3o de Jesus Oliveira, de 40 anos. Ele, a esposa Fabiana, de 32 anos, e os filhos, de 12 e 8 anos, est\u00e3o entre as 28 mil fam\u00edlias da regi\u00e3o do Araripe atendidas pelo projeto Caatinga, que tem parcerias com entidades internacionais e o Governo Federal em trabalhos voltados \u00e0 agroecologia para pequenos produtores.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de criar 28 caprinos, vacas e \u00e9guas na \u00e1rea rural de Ouricuri (PE), Oliveira cultiva hortali\u00e7as, como coentro, e frutas \u2013 umbu e acerola, das quais faz poupa, congela e vende ao longo do ano. Planta palmas para dar aos animais e tem atividade de apicultura, embora nos \u00faltimos dois anos a falta de floradas prejudicou a produ\u00e7\u00e3o de mel. No in\u00edcio do ano passado, tamb\u00e9m plantou milho e feij\u00e3o e perdeu tudo. Em todo o Estado de Pernambuco, a produ\u00e7\u00e3o m\u00e9dia anual de milho de 2012 a 2015 foi de 31,2 mil toneladas, queda de 83% em rela\u00e7\u00e3o aos quatro anos anteriores.<\/p>\n<p>Para tentar evitar mais perdas, Oliveira fez um po\u00e7o de 52 metros com bomba submersa, e gastou R$ 6 mil. \u201cFoi uma poupan\u00e7a de muitos anos\u201d, diz. \u201cFoi um investimento arriscado, mas nesse per\u00edodo de seca e crise n\u00e3o passamos apertados\u201d. A esposa ajuda nos gastos da casa com a confec\u00e7\u00e3o de sabonetes de aroeira e artesanatos.<\/p>\n<p><strong>Pesquisas contra a seca avan\u00e7am<\/strong><\/p>\n<p><strong>Projetos da Embrapa na regi\u00e3o visam o desenvolvimento de variedades resistentes \u00e0 seca e de plantas da caatinga que sirvam de alimento humano e animal<\/strong><\/p>\n<p>A seca \u00e9 um problema recorrente e o produtor precisa se preparar para enfrent\u00e1-la ou sofre as consequ\u00eancias, diz o assessor t\u00e9cnico da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Agricultura, Joaci Medeiros. Ele defende o uso de tecnologias de armazenagem, a exemplo do que fazem os europeus na \u00e9poca da neve, que guardam durante o ano comida e madeira (para aquecer as casas).<\/p>\n<p>A conviv\u00eancia melhor com a seca \u00e9 o principal foco das pesquisas da Embrapa Semi\u00e1rido, com sede em Petrolina (PE). Entre os projetos do \u00f3rg\u00e3o est\u00e1 o desenvolvimento de variedades resistentes \u00e0 seca e de plantas da caatinga que sirvam de alimento humano e animal.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio Guilherme de Azevedo, chefe adjunto da \u00e1rea de transfer\u00eancia de tecnologia da Embrapa, cita o exemplo da gliric\u00eddia, planta com prote\u00edna trazida da Am\u00e9rica Central e que ajuda na engorda dos animais. O \u00f3rg\u00e3o tamb\u00e9m faz testes, h\u00e1 v\u00e1rios anos, com gado tipo Sindi, que veio do Paquist\u00e3o e tem sobrevivido apenas com feno de capim.<\/p>\n<p>Segundo Azevedo, h\u00e1 muita irregularidade nos per\u00edodos de chuva no semi\u00e1rido, que vai de novembro a maio, dependendo da regi\u00e3o. Em 2016, por exemplo, 80% das chuvas que ca\u00edram em Petrolina foram concentradas em duas semanas de janeiro. Nos \u00faltimos cinco anos, influenciada por mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e pelo fen\u00f4meno <em>El Ni\u00f1o<\/em>, a seca foi caracterizada como a pior do s\u00e9culo.<\/p>\n<p><strong>Saiba mais<\/strong><\/p>\n<p><a class=\"cor-e\" href=\"http:\/\/fotos.estadao.com.br\/galerias\/fotografia,nordeste-enfreta-maior-seca-em-100-anos,29373\" data-metric-event=\"Not\u00edcia Relacionada|Click N1|29373\">GALERIA: Nordeste enfreta maior seca em 100 anos<\/a><\/p>\n<p><a class=\"cor-e\" href=\"http:\/\/tv.estadao.com.br\/economia,a-maior-seca-do-seculo,685989\" data-metric-event=\"Not\u00edcia Relacionada|Click N2|685989\">V\u00cdDEO: A maior seca do s\u00e9culo<\/a><\/p>\n<p>Fonte &#8211;\u00a0Cleide Silva (texto) e H\u00e9lvio Romero(fotos), Estad\u00e3o de 09 de janeiro de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Animais que morreram de fome e foram colocados em uma \u00e1rea perto de sua casa, pelo agricultor Valdecir\u00a0da Silva, em Serrinha, na \u00e1rea rural de Petrolina Reservat\u00f3rios de \u00e1gua da regi\u00e3o t\u00eam, em m\u00e9dia, 16,3% da capacidade de armazenamento; rios e a\u00e7udes est\u00e3o secos Valdecir Jo\u00e3o da Silva, de 53 anos, conta os cad\u00e1veres do&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[12],"post_series":[],"class_list":["post-18491","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-aquecimento-global-global-warming-global-climate-change","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - 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