{"id":18559,"date":"2017-01-20T17:00:55","date_gmt":"2017-01-20T19:00:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=18559"},"modified":"2017-01-17T17:21:24","modified_gmt":"2017-01-17T19:21:24","slug":"o-senhor-das-batatas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-senhor-das-batatas\/","title":{"rendered":"O senhor das batatas"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/batataspublica.jpg\" width=\"794\" height=\"529\" \/><em>Foto: Alonso Molina\/Etiqueta Verde<\/em><\/p>\n<p><strong>Ao longo dos s\u00e9culos, os camponeses dos Andes aprenderam a cultivar mais de 3 mil variedades de batatas. Elas s\u00e3o mais gostosas e mais saud\u00e1veis e podem nos salvar da fome em climas extremos. Por que ent\u00e3o s\u00f3 falamos em batatas fritas?<\/strong><\/p>\n<p>Julio Hancco \u00e9 um campon\u00eas dos Andes que cultiva 300 variedades de batatas e reconhece cada uma delas pelo nome: a \u201cque faz chorar a nora\u201d, a \u201ccocozinho vermelho de porco\u201d, a \u201cchifre de vaca\u201d, a \u201cgorro velho remendado\u201d, a \u201csapatilha dura\u201d, a \u201cpata manchada de puma\u201d, a \u201cnariz de lhama negra\u201d, a \u201covo de porco\u201d, a \u201ccomida para beb\u00ea desmamar\u201d e a \u201cfeto de <em>cuy<\/em>\u201d (<em>cuy<\/em> \u00e9 um roedor que se come nos pa\u00edses andinos). S\u00e3o nomes escolhidos pelos camponeses para classificar as batatas de acordo com a sua apar\u00eancia, seu sabor, sua personalidade.<\/p>\n<p>Quase todas as variedades que Julio produz a mais de 4 mil metros de altura, nas suas terras em Cuzco, na parte sudeste do Peru, j\u00e1 t\u00eam nome pr\u00f3prio. Mas \u00e0s vezes ele planta uma nova, ou alguma que perdeu a identidade com o tempo, e ent\u00e3o \u201co Senhor das Batatas\u201d pode nome\u00e1-la. Ele chamou assim a <em>puka<\/em> Ambr\u00f3sio \u2013 em qu\u00edchua,<em> puka<\/em> significa \u201cvermelho\u201d \u2013, em homenagem a um sobrinho que morreu ao cair de uma ponte. Ambrosio Huahuasonqo era um campon\u00eas am\u00e1vel, d\u00f3cil como um pur\u00ea de batatas, que seguia o seu tio aonde ele fosse e conquistava as pessoas fazendo piadas. Dizem que o seu sobrenome qu\u00edchua definia seu temperamento: Huahuasonqo significa \u201ccora\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a\u201d. Depois da morte, Julio deu um destino ao seu outro nome, grego: Ambrosio significa \u201cimortal\u201d. A batata que agora leva seu nome \u00e9 alargada, suave, ligeiramente doce, com uma polpa amarelo-clara e um anel vermelho no centro. \u00c9 uma das favoritas de Julio, um campon\u00eas que s\u00f3 fala \u00a0qu\u00edchua, mas cujo nome, latino, tem entre seus poss\u00edveis significados: \u201cde fortes ra\u00edzes\u201d.<\/p>\n<p>Uma tarde na primavera de 2014, na sua casa, dias depois da semeadura, Julio Hancco levanta sua m\u00e3o grande e enrugada como a casca de uma \u00e1rvore:<\/p>\n<p>\u2013 Como um filho \u2013 diz \u2013, como filho, \u00e9 a batata.<\/p>\n<p>Na casa de Julio \u2013 um quarto de pedra sem janelas com uma mesa velha e um fog\u00e3o \u2013 est\u00e1 t\u00e3o escuro que n\u00e3o se consegue ver se ele diz isso sorrindo ou com um gesto solene. Sua esposa, sentada sobre um banquinho no ch\u00e3o de terra, revolve uma sopa no fog\u00e3o. Sobre a mesa da cozinha, um punhado de batatas <em>puka<\/em> Ambrosio come\u00e7a a esfriar. S\u00e3o deliciosas, mas a grande maioria dos peruanos nunca chegar\u00e1 a prov\u00e1-las. Sabemos que a batata nasceu no Peru e que os agricultores dos Andes cultivam mais de 3 mil variedades, mas n\u00e3o sabemos quase nada sobre elas.<\/p>\n<p>Sabemos onde se fabrica um iPhone, quem \u00e9 o homem mais rico do mundo, de que cor \u00e9 a superf\u00edcie de Marte, como se chama o filho de Messi, mas n\u00e3o sabemos quase nada dos alimentos que comemos diariamente. Se \u00e9 verdade que somos o que comemos, a maioria n\u00e3o sabe o que somos. Para quem vai a qualquer mercado peruano, o maior dilema hoje \u00e9 escolher entre batatas brancas ou amarelas. Em 2016, no Peru, pa\u00eds que produz a maior variedade de batatas no mundo, se importaram mais de 33 mil toneladas de batatas pr\u00e9-cozidas: as que s\u00e3o usadas em redes de <em>fast-foods<\/em> para fazer batatas fritas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/13115714\/D9A1709-as-Smart-Object-1.jpg\" \/><em>Foto: Alonso Molina\/Etiqueta Verde<\/em><\/p>\n<p><strong>Guardi\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Quando olha o morro nevado em frente \u00e0 sua casa, Julio Hancco se det\u00e9m do mesmo jeito que alguns param diante de uma igreja: com uma rever\u00eancia impercept\u00edvel. Julio \u00e9 um agricultor de quase 65 anos que j\u00e1 foi chamado de protetor do conhecimento, guardi\u00e3o da biodiversidade, produtor-estrela. Foi premiado com a Pimenta de Prata no famoso festival gastron\u00f4mico Mistura, na capital peruana, Lima, e recebeu pesquisadores da It\u00e1lia, Jap\u00e3o, Fran\u00e7a, B\u00e9lgica, R\u00fassia, Estados Unidos e produtores de Bol\u00edvia e Equador que viajaram at\u00e9 as suas terras na comunidade camponesa Pampacorral para saber como ele consegue produzir tantas variedades de batatas. Vive a 4.200 metros acima do n\u00edvel do mar, aos p\u00e9s do monte nevado Sawasiray, em uma paisagem com solos amarelos, colinas \u00e1ridas e rochas gigantes aonde podem chegar uns pesquisadores europeus, mas n\u00e3o chegam nem os autom\u00f3veis nem a luz el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Para chegar at\u00e9 sua casa, \u00e9 preciso descer na estrada e subir quase um quil\u00f4metro a p\u00e9 por uma ladeira \u00edngreme como uma montanha. Quem viaja para v\u00ea-lo desde a cidade anda devagar, ofega, arqueja e se sente mareado pela falta de oxig\u00eanio. L\u00e1 em cima o sangue corre mais lento e os ventos s\u00e3o mais violentos. No ver\u00e3o, as \u00e1guas de degelo esfriam tanto que \u00e9 doloroso lavar o rosto. No inverno, o frio alcan\u00e7a dez graus abaixo de zero, uma temperatura que pode congelar a pele em uma hora.<\/p>\n<p>Para conseguir lenha, Julio tem de percorrer a cavalo cerca de cinco quil\u00f4metros at\u00e9 um lugar onde as \u00e1rvores podem crescer, para da\u00ed cortar seus troncos e lev\u00e1-los \u00e0 sua casa. Para conseguir g\u00e1s, tem de descer at\u00e9 a estrada asfaltada e tomar uma Kombi at\u00e9 Lares, o povoado mais pr\u00f3ximo, a vinte quil\u00f4metros, onde \u00e0s vezes compra tamb\u00e9m p\u00e3o, arroz, verduras e frutas \u2013 tudo o que n\u00e3o pode produzir na terra que herdou dos pais. A \u00fanica coisa que floresce \u00e0quela altitude \u00e9 a batata.<\/p>\n<p>A batata foi o primeiro vegetal cultivado pela Nasa no espa\u00e7o, por sua capacidade de adaptar-se a distintos ambientes. \u00c9 o n\u00e3o cereal mais cultivado e mais importante do mundo. \u00c9 a planta que produz a maior quantidade de alimento por hectare do que qualquer outra. O tesouro-enterrado-dos-Andes que salvou a Europa da fome. O alimento principal das tropas de Napole\u00e3o. \u00c9 a base da tortilha espanhola, dos nhoques italianos, dos <em>knishes<\/em> judeus, do pur\u00ea franc\u00eas, da primitiva vodca russa. O manjar que no s\u00e9culo 19 Thomas Jefferson servia frito, cortado em bast\u00f5es, aos seus convidados na Casa Branca. A raiz da flor roxa que Maria Antonieta usava nos cabelos para passear pelos jardins de Versalhes. O vegetal que tem dedicados a ele tr\u00eas museus na Alemanha, dois na B\u00e9lgica, dois no Canad\u00e1, dois nos Estados Unidos e um na Dinamarca. O tub\u00e9rculo que inspirou uma ode de Pablo Neruda \u2013 \u201cUniversal del\u00edcia, n\u00e3o esperava meu canto\/ porque \u00e9s cega surda e enterrada\u201d \u2013, uma can\u00e7\u00e3o de James Brown \u2014 \u266b \u201cAqui estou de regresso\/ fazendo pur\u00ea de batatas\u201d \u266a \u2013, duas pinturas de Van Gogh \u2014 em uma delas, chamada \u201cOs comedores de batatas\u201d, cinco camponeses as comem ao redor de uma mesa quadrada. A origem de milhares de sementes que se guardam junto a outros milhares de sementes abaixo da terra, em uma montanha no \u00e1rtico noruegu\u00eas, para proteger essa riqueza de futuros desastres naturais. O cultivo que Julio Hancco trata como um filho, mas que os seus filhos menores n\u00e3o querem seguir produzindo, para evitar uma vida de sacrif\u00edcios em nome da subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>Julio diz que prefere ficar sozinho e que os seus sete filhos vivam na cidade, onde podem conseguir trabalhos mais leves e bem pagos. Se tivesse a idade de Hern\u00e1n, o segundo, de 29 anos, que agora se faz de tradutor ao seu lado, o Senhor das Batatas diz, brincando, que buscaria uma namorada estrangeira e se mudaria para outro pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Tradi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Numa madrugada h\u00e1 15 anos, Julio Hancco acordou Hern\u00e1n e lhe disse que deveria carregar uma pedra do tamanho de uma bola de futebol desde a sua casa at\u00e9 o porto de Calca, a uma hora e meia de caminhada em dire\u00e7\u00e3o ao sul. Hern\u00e1n Hancco tinha ent\u00e3o 13 anos e o acompanhava pela primeira vez a vender batatas naquela cidade, o centro comercial mais importante da regi\u00e3o. Para chegar a Calca \u00e0s sete da manh\u00e3, tinham de sair \u00e0s tr\u00eas e caminhar quatro horas, e o \u201cbatismo\u201d do menino consistia em carregar aquela pedra enorme at\u00e9 metade do caminho. Era uma prova de resist\u00eancia e aceita\u00e7\u00e3o que os produtores daquela regi\u00e3o repetiam com seus filhos. Uma tradi\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 seguida, explica Hern\u00e1n Hancco enquanto vende o \u00faltimo saquinho de Sumaj chips \u2014 fritas feitas com o tub\u00e9rculo nativo \u2013 em uma feira de produtos org\u00e2nicos que ocorre aos domingos em Lima.<\/p>\n<p>O segundo filho de Julio Hancco se mudou para a capital peruana h\u00e1 quase uma d\u00e9cada, quando tinha 20 anos, assim que terminou o segundo grau. Chegou a Lima com 400 <em>soles<\/em> no bolso \u2013 cerca de US$ 130 \u2013 e a determina\u00e7\u00e3o de estudar contabilidade e ingl\u00eas. Nunca conseguiu porque o trabalho consumia quase todo o seu tempo, mas se tornou uma ajuda fundamental para vender as batatas que a sua fam\u00edlia produz na capital. Com Hern\u00e1n em Lima, seu pai, sua m\u00e3e e seu irm\u00e3o mais velho Alberto evitam a comiss\u00e3o cobrada por intermedi\u00e1rios, e eles pagam apenas o transporte das batatas. Assim mesmo, o lucro \u00e9 m\u00ednimo. Mas a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 pior para os camponeses que n\u00e3o t\u00eam quem os ajude.<\/p>\n<p>\u2013 Por isso alguns produtores est\u00e3o deixando de cultivar batatas \u2013 diz \u2013 e se dedicando ao turismo em vez disso.<\/p>\n<p>Envolver-se em turismo, explica, \u00e9 se oferecer como burro de carga dos estrangeiros que v\u00e3o a Cuzco para percorrer o Caminho do Inca. Durante tr\u00eas ou quatro dias de caminhada at\u00e9 Machu Picchu, os camponeses carregam as mochilas e a bagagem dos turistas, que assim podem subir mais comodamente. Podem receber por isso 200 <em>soles<\/em>, mais 200 de gorjeta. S\u00e3o US$ 130 no total. Por um saco de 12 quilos de batatas nativas, ganham 20 <em>soles<\/em>; cerca de US$ 6,5.<\/p>\n<p>\u2013 E aqui \u00e9 trabalhar o dia todo, todos os dias \u2013 diz.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/13120018\/D9A1977-copia-as-Smart-Object-1.jpg\" \/><em>Foto: Alonso Molina\/Etiqueta Verde<\/em><\/p>\n<p><strong>Olhos<\/strong><\/p>\n<p>As \u201ccovinhas\u201d das batatas se chamam \u201colhos\u201d em espanhol. Mas nunca olhamos as batatas nos olhos. As batatas t\u00eam \u201csobrancelhas\u201d em cima dos olhos. T\u00eam umbigo, manchas na pele, corpos de forma redonda, comprimida, oblonga, el\u00edptica, alargada. A batata mais popular no norte de Tenerife, na Espanha, \u00e9 a \u201cbonita de olhos rosados\u201d. A batata cacho negro, do Chile, tem abundantes olhos profundos e as sobrancelhas esmagadas. A batata Asterix, na Holanda, tem a pele vermelha, a carne amarela e os olhos superficiais.<\/p>\n<p>Os cat\u00e1logos descrevem as batatas do mundo pelos seus tra\u00e7os como de gente, mas uma vez ela j\u00e1 foi uma esp\u00e9cie selvagem, amarga, intrag\u00e1vel. Hoje \u00e9 a civilizada <em>Solanum tuberosum<\/em>. Assim como o tomate, a berinjela e as pimentas, pertence \u00e0 fam\u00edlia das solan\u00e1ceas, chamadas assim porque folhas, talo, frutos e brotos t\u00eam solanina, uma subst\u00e2ncia t\u00f3xica para proteger-se de doen\u00e7as, insetos e outros predadores. Em doses elevadas, a solanina pode matar uma pessoa; mas n\u00e3o h\u00e1 not\u00edcias de batatas assassinas.<\/p>\n<p>O ser humano domesticou a batata h\u00e1 mais de 8 mil anos na cordilheira dos Andes, quando a Terra sa\u00eda da Idade do Gelo e o <em>Homo sapiens<\/em> andava por a\u00ed ensaiando a agricultura, sua nova inven\u00e7\u00e3o para conseguir alimentos. Os habitantes do altiplano peruano foram os primeiros a aprender a manipular as batatas para que n\u00e3o fossem t\u00f3xicas e torn\u00e1-las maiores e mais suculentas. A batata devolveu a gentileza conquistando o mundo.<\/p>\n<p>Uma tarde o escritor estadunidense Michael Pollan estava no seu jardim plantando uma batata que havia comprado por cat\u00e1logo e se perguntou se realmente ele a havia escolhido ou a batata o seduzira para que a semeasse. Pollan, autor que mudou a forma como vemos nossa rela\u00e7\u00e3o com a comida, acredita que \u201ca inven\u00e7\u00e3o da agricultura\u201d pode ser pensada como a maneira que as plantas encontraram para fazer com que n\u00f3s nos movamos e pensemos por elas. Do ponto de vista das plantas, escreve Pollan no livro <em>A bot\u00e2nica do desejo: a vis\u00e3o do mundo atrav\u00e9s dos olhos de um planta <\/em>(ainda sem tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas), o ser humano poderia ser pensado como um instrumento de sua estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia, n\u00e3o muito distinto do zang\u00e3o que \u00e9 atra\u00eddo por uma flor e tem a fun\u00e7\u00e3o de disseminar o p\u00f3len com os seus genes.<\/p>\n<p><strong>T\u00e9cnica<\/strong><\/p>\n<p>Numa manh\u00e3 do inverno de 2014 nas terras de Julio Hancco, diante de uma pilha de esterco de lhama, \u00e9 mais justo pensar nos agricultores andinos como s\u00f3cios da batata do que como seus domesticadores. \u00c0s 7h30 de um s\u00e1bado, Julio, seus filhos mais velhos e seu vizinho Juli\u00e1n Ju\u00e1rez mastigam folhas de coca e tomam aguardente antes de come\u00e7ar a tarefa do dia: levar esterco at\u00e9 uma \u00e1rea semeada com batatas, a quase um quil\u00f4metro, para fertilizar a terra.<\/p>\n<p>As lhamas que esperam ao nosso lado j\u00e1 conhecem a rotina. Os homens pegam p\u00e1s e carregam o fertilizante em sacos que chegam at\u00e9 a cintura de t\u00e3o altos. Enchem 39 sacos, costuram para que n\u00e3o se abram, amarram cada saco sobre o lombo de uma lhama, levam os animais at\u00e9 a \u00e1rea, desatam os sacos, espalham o esterco, dobram os sacos, recolhem as cordas, enviam as lhamas de volta at\u00e9 a pilha de esterco e voltam ao ponto de partida para repetir o roteiro. Quatro homens, duas mulheres, tr\u00eas cachorros e 40 lhamas conseguem fertilizar dois hectares em seis horas de trabalho. Depois de ver como agricultores semeiam um peda\u00e7o de terra durante seis horas, qualquer um sente que deveria se p\u00f4r de joelhos toda vez que mastiga uma batata.<\/p>\n<p><strong>A natureza n\u00e3o tem cura<\/strong><\/p>\n<p>Julio Hancco descende de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de Hanccos que viveram nesta zona de Cuzco \u201cquase desde o princ\u00edpio do mundo\u201d. De seus pais herdou as terras, os animais e mais de 60 variedades de batatas. Nos \u00faltimos 15 anos, multiplicou a heran\u00e7a e chegou a produzir 300 variedades. Sua decis\u00e3o de resgatar e cultivar mais variedades foi um exerc\u00edcio de destreza. Como quase todos os camponeses nos Andes, suas terras produtivas s\u00e3o a soma de peda\u00e7os irregulares espalhados a distintas alturas. A maestria dos agricultores alto-andinos prov\u00e9m desta dificuldade: em um territ\u00f3rio governado pelas encostas, cada rinc\u00e3o cultiv\u00e1vel recebe sua parcela de sol, umidade e vento.<\/p>\n<p>A terra que \u00e9 exposta \u00e0 luz em um lado do morro permanece na sombra do outro lado. Uma rocha gigante impede a passagem de chuva em uma franja cultiv\u00e1vel, mas protege outra do vento. Para sobreviver nesse territ\u00f3rio, os camponeses tiveram de multiplicar suas chances de alimentar-se. Plantaram distintas batatas em cada peda\u00e7o de terra, aprenderam com a observa\u00e7\u00e3o minuciosa de cada planta, provaram e criaram milhares de variedades e se tornaram os reis da riqueza gen\u00e9tica em terras hostis. Foi uma forma de conjurar o futuro: mais batatas significava mais possibilidade de assegurar comida ante as pragas e doen\u00e7as, as geadas, o granizo e as secas. Em vez de tratarem de controlar a natureza, que \u00e9 o que faz a nossa agricultura industrial, os camponeses dos Andes se adaptaram a ela.<\/p>\n<p>\u2013 A natureza n\u00e3o tem cura \u2013, diz Hancco enquanto olha para o nevado Sawasiray e se agacha para recolher do solo um punhado de terra. Acaba de esvaziar o \u00faltimo saco de esterco sobre o solo semeado, numa franja coberta por um musgo verde que se afunda quando apertada. \u00c9 um peda\u00e7o em declive, no meio de uma ladeira, sem nenhuma prote\u00e7\u00e3o natural. Julio pode usar suas t\u00e9cnicas de cultivo e pesticidas naturais para as doen\u00e7as e as pragas, mas n\u00e3o tem maneira de resguardar suas batatas do granizo nem das geadas. Nos \u00faltimos anos tem sido pior, diz: o clima se tornou mais caprichoso e imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/13120123\/D9A1887-copia-as-Smart-Object-1.jpg\" \/><em>Foto: Alonso Molina\/Etiqueta Verde<\/em><\/p>\n<p><strong>Estigma<\/strong><\/p>\n<p>Nos anos 1960, quando Julio Hancco era crian\u00e7a e come\u00e7ava a cultivar batatas junto ao seu pai, o seu v\u00edcio era o p\u00e3o: o menino trabalhava os pr\u00f3prios peda\u00e7os de terra para juntar dinheiro e poder comprar sacos de p\u00e3o de vendedores que passavam oferecendo a mercadoria. Um peruano nessa \u00e9poca consumia em m\u00e9dia 120 quilos de batata ao ano. Nas d\u00e9cadas seguintes, o consumo decresceu, e a queda se acelerou nos anos 1980, quando os camponeses come\u00e7aram a migrar para a cidade a fim de escapar das guerrilhas. Nos anos 1990, durante a presid\u00eancia de Alberto Fujimori, o consumo de batatas havia chegado a um piso hist\u00f3rico: 50 quilos ao ano por pessoa. Essas batatas sumiram, explica a engenheira Celfia Obreg\u00f3n Ram\u00edrez, foram substitu\u00eddas por alimentos como arroz e macarr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Como o macarr\u00e3o tem mais status e uma coxa de frango \u00e9 mais status que comer <em>cuy<\/em>, as pessoas come\u00e7aram a esconder as suas batatas \u2013 diz Celfia, presidente da Associa\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (Aders) do Peru e criadora do Dia Nacional da Batata.<\/p>\n<p>Diante do arroz branco, do talharim amarelo e do frango p\u00e1lido, as batatas com as suas peles escuras renovavam o estigma de atraso e pobreza que tiveram durante os s\u00e9culos, desde que foram descobertas pelos conquistadores e chegaram \u00e0 Europa no s\u00e9culo 16, supostamente na despensa de um barco espanhol. Levaria cerca de 200 anos para que a batata fosse consumida como um alimento habitual em todo o Velho Continente.<\/p>\n<p>Em cada pa\u00eds europeu, ela teve sua hist\u00f3ria de recha\u00e7o e sedu\u00e7\u00e3o: a batata foi considerada impudica e afrodis\u00edaca, causadora de lepra, alimento de bruxas, sacr\u00edlega e comida de selvagens. Mas a Irlanda n\u00e3o duvidou em adot\u00e1-la desde o come\u00e7o: os camponeses daquele pa\u00eds, expulsos pelos ingleses das poucas terras cultiv\u00e1veis que tinham, morriam de fome tentando extrair alimento de umas terras miser\u00e1veis. Quando a batata chegou no final do s\u00e9culo 16 \u2013 sup\u00f5e-se que pelas m\u00e3os do cors\u00e1rio ingl\u00eas Walter Raleigh \u2013, os irlandeses descobriram que com um pouco de terra quase in\u00fatil podiam produzir alimento para toda a fam\u00edlia e seu gado. No come\u00e7o, a batata salvou a Irlanda da fome. Depois foi acusada de causar a pobreza daquele pa\u00eds: em um s\u00e9culo, a popula\u00e7\u00e3o cresceu de 3 milh\u00f5es para 8 milh\u00f5es, porque os pais podiam alimentar os filhos com o pouco que tinham.<\/p>\n<p>O escritor estadunidense Charles Mann conta que o economista Adam Smith, um admirador da papa, se impressionava ao ver que os irlandeses tinham uma sa\u00fade excepcional embora quase n\u00e3o comessem nada al\u00e9m de batatas. \u201cHoje sabemos por que\u201d, escreveu Mann em seu livro <em>1493: uma nova hist\u00f3ria do mundo depois de Colombo<\/em>, \u201ca batata \u00e9 capaz de sustentar a vida melhor que qualquer outro alimento se \u00e9 o \u00fanico da dieta. Cont\u00e9m todos os nutrientes b\u00e1sicos, exceto as vitaminas A e D, que podem ser obtidas do leite\u201d. E a dieta dos irlandeses pobres consistia basicamente em batatas e leite.<\/p>\n<p>A batata que hoje se cultiva em mais de 150 pa\u00edses produz uma quantidade de alimento por unidade de superf\u00edcie maior do que o arroz ou o milho. Uma s\u00f3 batata cont\u00e9m metade de vitamina C de que um adulto necessita por dia. As batatas nativas peruanas alimentam mais do que o dobro de uma batata comum e t\u00eam grandes quantidades de ferro e zinco e vitamina B. Mas n\u00f3s ainda acreditamos no mito falso de que as batatas engordam e n\u00e3o compreendemos por que dever\u00edamos pagar mais por uma batata, mesmo que tenha cor ou forma ex\u00f3tica se uma batata \u00e9 uma batata.<\/p>\n<p><strong>Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong><\/p>\n<p>As numerosas pesquisas sobre a batata peruana insistem na necessidade de proteger as variedades e t\u00e9cnicas de cultivo por uma raz\u00e3o evidente: foram criadas pelos camponeses durante s\u00e9culos para assegurar comida nas condi\u00e7\u00f5es mais extremas do clima.<\/p>\n<p>E \u00e9 isto que se espera do mundo com as mudan\u00e7as do clima: fome e condi\u00e7\u00f5es extremas.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma raz\u00e3o mais ego\u00edsta para querer cuidar delas: porque s\u00e3o deliciosas. Diferentemente da produ\u00e7\u00e3o de batatas comerciais em grande escala, os camponeses dos Andes cultivam as suas batatas pensando em com\u00ea-las, em alimentar primeiro as suas fam\u00edlias e vender o resto.<\/p>\n<p>No Peru, um pa\u00eds que converteu a sua gastronomia em motivo de autoestima, mais de 70% do que se come \u2013 suas frutas e hortali\u00e7as, seus cereais, seus tub\u00e9rculos e suas leguminosas \u2013, \u00e9 produzido por pequenos agricultores. O <em>boom<\/em> da gastronomia peruana que encheu de orgulho os discursos pol\u00edticos durante a \u00faltima d\u00e9cada \u00e9 o <em>boom<\/em> dos ingredientes da gastronomia peruana. Mas o governo transforma este <em>boom <\/em>em fogos de artif\u00edcio: no or\u00e7amento nacional aprovado em 2015, foram destinados para a agricultura familiar s\u00f3 2,3% dos fundos, a porcentagem mais baixa desde 2010.<\/p>\n<p>O estudo \u201cO setor das batatas na regi\u00e3o andina\u201d, do Centro Internacional da Batata, aponta este paradoxo: os produtores das zonas de maior altitude, aqueles que mais riqueza de variedades possuem, s\u00e3o tamb\u00e9m os que vivem na maior pobreza.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/13120209\/D9A2121-copia-as-Smart-Object-1.jpg\" \/><em>Foto: Alonso Molina\/Etiqueta Verde<\/em><\/p>\n<p><strong>Alimento<\/strong><\/p>\n<p>A verdadeira p\u00e1tria de um homem n\u00e3o \u00e9 a inf\u00e2ncia: \u00e9 a comida da inf\u00e2ncia. Um domingo \u00e0s sete da manh\u00e3, antes de come\u00e7ar o dia de trabalho, a esposa de Julio Hancco nos serve o caf\u00e9: arroz com leite, p\u00e3o com ovo frito, batatas da sua terra, costelas de alpaca e sopa de <em>chu\u00f1o<\/em> \u2013 umas batatas amargas desidratadas em campo aberto \u2013 com um pouco de carne de ovelha. Julio Hancco e seus filhos Hern\u00e1n e Wilfredo, que devem trabalhar a terra durante todo o dia, repetem a sopa duas vezes. Hancco mostra os pratos, me olha e volta a falar em seu espanhol:<\/p>\n<p>\u2013 Carne natural \u00e9. Batata natural. \u00c1gua natural. Tudo natural \u00e9.<\/p>\n<p>Julio brinca dizendo que, se fosse mais jovem, iria se mudar para outro pa\u00eds. Mas, se perguntam a s\u00e9rio, ele responde que n\u00e3o: n\u00e3o deixaria os seus animais. Al\u00e9m disso, diz, nas suas terras pelo menos come o que quer. Ali come batatas, porco, lhama, alpaca, <em>cuy<\/em>, coelho. J\u00e1 na cidade, tudo \u00e9 macarr\u00e3o, arroz, biscoitos.<\/p>\n<p>\u2014Isso n\u00e3o \u00e9 alimento. Muitos qu\u00edmicos \u2013 diz em qu\u00edchua, enquanto seu filho traduz.<\/p>\n<p>O Senhor das Batatas esteve duas vezes na It\u00e1lia. Foi convidado pelo movimento internacional Slow Food, que se op\u00f5e \u00e0 comida industrial e os sabores artificiais e busca recuperar o gosto e a produ\u00e7\u00e3o tradicional de alimentos. Julio e seus filhos puderam fritar e empacotar centenas de saquinhos com salgadinhos de batatas nativas peruanas para vender durante o festival Sal\u00e3o do Gosto.<\/p>\n<p>Suas t\u00e9cnicas de cultivo s\u00e3o agora reconhecidas como sistemas de produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gicos. Julio Hancco n\u00e3o chama as suas sementes de \u201cbaluarte da agrobiodiversidade\u201d, mas toda vez que participa de um evento escuta que o seu trabalho \u00e9 importante para todos. Nos \u00faltimos 15 anos, ele e os produtores da regi\u00e3o t\u00eam recebido apoio de ONGs para produzir e vender suas batatas, obter \u00e1gua, se adaptar aos efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e criar normas que favore\u00e7am a agricultura familiar.<\/p>\n<p>Julio Hancco colheu reconhecimento, reportagens de jornal que estampam as paredes dos quartos dos seus filhos, muitas visitas de estrangeiros, uma foto com o famoso chef peruano Gast\u00f3n Acurio, mas n\u00e3o colheu a\u00e7\u00f5es reais do governo peruano. Nada mudou muito em suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, nem na de outros produtores que, como ele, s\u00e3o admirados no mundo todo. Da sua viagem \u00e0 It\u00e1lia, o Senhor das Batatas recorda que gostou do salm\u00e3o e do avi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00f4nica publicada originalmente em espanhol <a href=\"http:\/\/etiquetanegra.com.pe\/articulos\/el-senor-de-las-papas\">na revista Etiqueta Verde<\/a>\u00a0e traduzida por Natalia Viana. A apura\u00e7\u00e3o foi poss\u00edvel gra\u00e7as ao apoio da organiza\u00e7\u00e3o Oxfam.<\/strong><\/p>\n<p>Fonte &#8211;\u00a0Eliezer Budasoff, Ag\u00eancia P\u00fablica de 13 de janeiro de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Alonso Molina\/Etiqueta Verde Ao longo dos s\u00e9culos, os camponeses dos Andes aprenderam a cultivar mais de 3 mil variedades de batatas. Elas s\u00e3o mais gostosas e mais saud\u00e1veis e podem nos salvar da fome em climas extremos. Por que ent\u00e3o s\u00f3 falamos em batatas fritas? 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