{"id":18579,"date":"2017-01-30T17:00:44","date_gmt":"2017-01-30T19:00:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=18579"},"modified":"2017-01-19T11:18:47","modified_gmt":"2017-01-19T13:18:47","slug":"sementes-tradicionais-alimentam-semiarido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/sementes-tradicionais-alimentam-semiarido\/","title":{"rendered":"Sementes tradicionais alimentam semi\u00e1rido"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Raimundo.jpg\" \/><em>Raimundo Pinheiro de Melo, um campon\u00eas de 76 anos do munic\u00edpio de Apodi, no Nordeste do Brasil, mostra a um agricultor que o visita uma garrafa com sementes de feij\u00f5es que mant\u00e9m guardada. Foto: Mario Osava\/ IPS<\/em><\/p>\n<p>Em seus 76 anos de vida, Raimundo Pinheiro Melo suportou in\u00fameras estiagens prolongadas decorrentes das secas no Nordeste do Brasil. Ele se lembra de todas desde a de 1958. \u201cA pior foi em 1982 e 1983, a \u00fanica vez que secou o rio\u201d, em cuja proximidade vive desde 1962. \u201cTamb\u00e9m foi muito ruim em 1993\u201d, contou \u00e0 IPS, porque ainda n\u00e3o existia o Bolsa Fam\u00edlia nem a Articula\u00e7\u00e3o Semi\u00e1rido Brasileiro (ASA), que contribuem para uma conviv\u00eancia menos traum\u00e1tica com secas como a atual, que j\u00e1 dura cinco anos.<\/p>\n<p>Por meio do Bolsa Fam\u00edlia, o governo federal ajuda com dinheiro 13,8 milh\u00f5es\u00a0 de fam\u00edlias pobres no Brasil, metade delas no Nordeste. A ASA \u00e9 uma rede de tr\u00eas mil organiza\u00e7\u00f5es sociais que promove a coleta de \u00e1gua de chuva, bem como t\u00e9cnicas e conhecimentos para uma vida rural adequada ao clima de chuvas irregulares na ecorregi\u00e3o do semi\u00e1rido nordestino.<\/p>\n<p>Para Mundinho, como Raimundo \u00e9 conhecido por todos, e seus vizinhos, a \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o escassa devido \u00e0 proximidade do rio Apodi, que, mesmo quando seca, ainda conserva \u00e1gua para ser extra\u00edda nas cacimbas, buracos feitos no leito do rio ou em sua margem. Al\u00e9m do esfor\u00e7o para conseguir \u00e1gua na zona alta onde vive, em uma \u00e1rea rural de Apodi, munic\u00edpio do Rio Grande do Norte, ele se dedica a outra tarefa vital para a sustentabilidade do modo de vida campon\u00eas no interior semi\u00e1rido do Nordeste, conhecido tradicionalmente como sert\u00e3o.<\/p>\n<p>Mundinho \u00e9 um guardi\u00e3o de sementes crioulas, ou tradicionais. Armazena em garrafas e pequenos barris de pl\u00e1stico sementes de milho, feij\u00f5es, sorgo, melancia e outras esp\u00e9cies de cultivo local, em uma pequena instala\u00e7\u00e3o constru\u00edda ao lado de sua casa, em meio a uma terra atualmente arenosa e de vegeta\u00e7\u00e3o seca. Mais de mil dessas casas, ou bancos de sementes, comp\u00f5em, com a participa\u00e7\u00e3o de 20 mil fam\u00edlias, a rede organizada pela ASA para preservar o patrim\u00f4nio gen\u00e9tico e a diversidade dos cultivos adaptados ao clima e ao solo semi\u00e1rido nordestino.<\/p>\n<p>Guardar sementes \u00e9 uma velha tradi\u00e7\u00e3o camponesa, que foi deixada de lado durante a moderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola na chamada revolu\u00e7\u00e3o verde, iniciada na metade do s\u00e9culo passado, e que incluiu uma \u201cofensiva das empresas produtoras de sementes que diziam ser melhoradas\u201d e das quais os agricultores passaram a depender, recordou \u00e0 IPS Ant\u00f4nio Gomes Barbosa, coordenador do Programa de Sementes Crioulas da ASA.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/sementes-2.jpg\" \/><em>Sementes crioulas armazenadas em garrafas pl\u00e1sticas reutilizadas, em uma constru\u00e7\u00e3o especial erguida em sua propriedade por Raimundo Pinheiro de Melo, um orgulhoso guardi\u00e3o dessas sementes, que colaboram para a seguran\u00e7a alimentar no semi\u00e1rido do Nordeste brasileiro, em meio a uma seca que j\u00e1 dura mais de cinco anos Foto: Mario Osava\/IPS<\/em><\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia adotada em 2007, de disseminar tecnologias para armazenar \u00e1gua para a produ\u00e7\u00e3o, buscando a seguran\u00e7a alimentar, levou a ASA a visualizar a necessidade de os pequenos agricultores disporem sempre de sementes, explicou Barbosa, soci\u00f3logo de forma\u00e7\u00e3o. Um estudo com 12.800 fam\u00edlias revelou que o \u201csemi\u00e1rido tem a maior variedade de sementes de esp\u00e9cies alimentares e medicinais do Brasil\u201d, destacando uma regi\u00e3o em que vivem mais de 25 milh\u00f5es dos 56 milh\u00f5es de habitantes no Nordeste, em um pa\u00eds com popula\u00e7\u00e3o de 208 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Barbosa acrescentou que para isso contribu\u00edram a heran\u00e7a familiar e comunit\u00e1ria de sementes armazenadas e \u201cum intenso interc\u00e2mbio, promovido por emigrantes que retornaram ao semi\u00e1rido trazendo sementes de S\u00e3o Paulo e do centro-leste\u201d do pa\u00eds, onde viveram. O que a ASA fez foi identificar os bancos de sementes existentes, articul\u00e1-las e promover sua multiplica\u00e7\u00e3o, como forma de resgatar, preservar, ampliar exist\u00eancias e distribuir as sementes crioulas, detalhou.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia de Souza Oliveira, ou Antonieta, como \u00e9 mais conhecida, participa do banco de sementes n\u00famero 639 nos registros da ASA, na comunidade Milagre, com 28 fam\u00edlias assentadas na meseta de Apodi, que \u00e9 cortada pelo rio de mesmo nome. \u00c9 um banco comunit\u00e1rio, que \u201cconta com 17 guardi\u00f5es e exist\u00eancias principalmente de sementes de milho, feij\u00f5es e sorgo\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Antonia.jpg\" \/><em>Ant\u00f4nia de Souza Oliveira, em frente ao Banco de Sementes da comunidade rural Milagre, um assentamento de 28 fam\u00edlias no Estado do Rio Grande do Norte, onde h\u00e1 17 guardi\u00f5es de sementes e que ficou famoso pelo protagonismo das mulheres nas atividades de coleta. Foto: Mario Osava\/IPS<\/em><\/p>\n<p>A forte presen\u00e7a feminina nas atividades desse assentamento levou o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (2003-2011) a escolher Milagre para inaugurar uma linha de cr\u00e9dito para mulheres do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar. Um caso exemplar, destacado pela ASA, \u00e9 o banco de sementes de Tabuleiro Grande, outro assentamento rural de Apodi. Ali, uma iniciativa familiar acumula sementes de 450 variedades de milho, feij\u00f5es, outras leguminosas e ervas. Ant\u00f4nio Rodrigues do Ros\u00e1rio, de 59 anos, encabe\u00e7a a quarta gera\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m esse \u201cbanco familiar\u201d.<\/p>\n<p>O movimento de sementes crioulas se contrap\u00f5e \u00e0 l\u00f3gica da revolu\u00e7\u00e3o verde, em que as sementes s\u00e3o distribu\u00eddas pelo Estado ou vendidas por grandes empresas especializadas, \u201cem grande quantidade, mas pouca variedade\u201d, e a partir de uma produ\u00e7\u00e3o central. \u201cN\u00e3o precisamos dessa distribui\u00e7\u00e3o, mas de iniciativas locais, com cada territ\u00f3rio resgatando suas sementes locais, com grande diversidade e dissemina\u00e7\u00e3o\u201d, pontuou Barbosa.<\/p>\n<p>Trata-se de conhecimento acumulado pelas fam\u00edlias, com experi\u00eancias de adapta\u00e7\u00e3o a cada localidade, solo e clima, ao tipo de produ\u00e7\u00e3o desejada e \u00e0 resist\u00eancia \u00e0s pragas. Barbosa observou que, por exemplo, \u201cmuitas variedades de milho atendem a diferentes necessidades, uma pode produzir mais palha para alimentar os animais, outra o gr\u00e3o para os humanos\u201d. E acrescentou que \u201co quintal das casas \u00e9 um laborat\u00f3rio familiar, onde s\u00e3o feitos experimentos, melhorias gen\u00e9ticas, testadas resist\u00eancia e produtividade. \u00c9 onde a mulher mais participa, inclusive ensinando os filhos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNa grande seca de 1982 e 1983, uma variedade de batata de crescimento r\u00e1pido, que em 60 dias foi reproduzida e guardada por uma av\u00f3, salvou muitas vidas\u201d, apontou Barbosa. A permuta de materiais e conhecimentos tamb\u00e9m faz parte importante da hist\u00f3ria das sementes crioulas. Ocorre dentro da pr\u00f3pria comunidade e nas rela\u00e7\u00f5es com o exterior. A ASA procura intensificar esse interc\u00e2mbio promovendo contatos entre camponeses de diferentes \u00e1reas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Antonio.jpg\" \/><em>Ant\u00f4nio Gomes Barbosa, coordenador do Programa de Sementes Crioulas do movimento Articula\u00e7\u00e3o Semi\u00e1rido Brasileiro, que aglutina mais de tr\u00eas mil organiza\u00e7\u00f5es. A iniciativa \u00e9 essencial para a seguran\u00e7a alimentar e a biodiversidade do Nordeste brasileiro, principalmente durante a longa seca que afeta a regi\u00e3o. Foto: Mario Osava\/IPS<\/em><\/p>\n<p>\u201cAs sementes crioulas s\u00e3o o principal foco de resist\u00eancia \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es do mercado. Trata-se de superar a depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos grandes fornecedores\u201d, afirmou o coordenador do setor da ASA. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica aumenta a import\u00e2ncia das sementes do semi\u00e1rido. \u201cN\u00e3o h\u00e1 veneno agr\u00edcola para combater o aumento da temperatura\u201d, ironizou.<\/p>\n<p>O Programa de Sementes do Semi\u00e1rido comprovou uma \u201cgrande capacidade criativa e de experimenta\u00e7\u00e3o\u201d dos agricultores familiares do Nordeste, ressaltou Barbosa em um di\u00e1logo com a IPS, no munic\u00edpio pr\u00f3ximo de Mossor\u00f3. Al\u00e9m disso, existe a tend\u00eancia \u00e0 autonomia. \u201cO agricultor segue sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, mais do que a orienta\u00e7\u00e3o do agr\u00f4nomo, porque escolhe o que \u00e9 mais seguro para ele\u201d.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, duas amea\u00e7as preocupam o movimento referente \u00e0s sementes da ASA. Uma \u00e9 a \u201ceros\u00e3o gen\u00e9tica\u201d, que pode ser provocada pela atual seca, que em algumas \u00e1reas j\u00e1 dura sete anos. As chuvas isoladas induzem os camponeses a plantar. Sabendo da possibilidade de perder a colheita, nunca usam todas as sementes, mas as vai perdendo pouco a pouco, diante de cada chuva enganosa, com o risco de reduzir suas exist\u00eancias.<\/p>\n<p>Outra amea\u00e7a s\u00e3o os transg\u00eanicos, rejeitados pelos agricultores vinculados \u00e0 ASA. Foi comprovada a presen\u00e7a de milho geneticamente modificado em algumas planta\u00e7\u00f5es do Estado da Para\u00edba, que se suspeita ocorre devido ao cont\u00e1gio de sementes trazidas de outras regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Mario Osava, IPS \/ Envolverde de 09 de janeiro de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raimundo Pinheiro de Melo, um campon\u00eas de 76 anos do munic\u00edpio de Apodi, no Nordeste do Brasil, mostra a um agricultor que o visita uma garrafa com sementes de feij\u00f5es que mant\u00e9m guardada. 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