{"id":19110,"date":"2017-03-30T17:00:57","date_gmt":"2017-03-30T20:00:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=19110"},"modified":"2017-03-20T11:14:43","modified_gmt":"2017-03-20T14:14:43","slug":"cerrado-dor-fantasma-da-biodiversidade-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/cerrado-dor-fantasma-da-biodiversidade-brasileira\/","title":{"rendered":"Cerrado: &#8220;dor fantasma&#8221; da biodiversidade brasileira"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEnquanto o desejo de explorar o Cerrado tiver ra\u00edzes estrangeiras, a possibilidade de cria\u00e7\u00e3o de um programa racional de desenvolvimento ser\u00e1 nula\u201d, avalia o docente Altair Sales Barbosa<\/p>\n<p>Em pleno s\u00e9culo XXI, encontra-se em suspenso o destino do Cerrado. \u201cSe as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas trar\u00e3o sua ru\u00edna ou salva\u00e7\u00e3o, ainda n\u00e3o se pode dizer\u201d, \u00e9 o que analisa o professor <strong>Altair Sales Barbosa<\/strong>, em entrevista concedida por e-mail \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong>. E continua: \u201cembora sejam grandes as lacunas no nosso conhecimento, dispomos de informa\u00e7\u00f5es suficientes para impedirmos uma degrada\u00e7\u00e3o irrevers\u00edvel. O que se pode afirmar \u00e9 que, enquanto o desejo de explorar o Cerrado tiver ra\u00edzes estrangeiras, a possibilidade de cria\u00e7\u00e3o de um programa racional de desenvolvimento ser\u00e1 nula\u201d, diz.<\/p>\n<p>Por essas raz\u00f5es, continua, \u201ca situa\u00e7\u00e3o do Cerrado atualmente se assemelha ao fen\u00f4meno conhecido em Neurologia como \u2018dor fantasma\u2019\u201d. Segundo o pesquisador, as pessoas que s\u00e3o v\u00edtimas desse mal sofrem um duplo infort\u00fanio. \u201cElas perderam uma extremidade ou parte dela. E sofrem dores \u00e0s vezes muito intensas que sentem como provenientes do membro que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais. As discuss\u00f5es sobre o Cerrado se assemelham a tal situa\u00e7\u00e3o, porque estamos sentindo as dores da perda de um ambiente que n\u00e3o existe mais na plenitude de sua biodiversidade\u201d.<\/p>\n<p><strong>Altair Sales Barbosa<\/strong> possui gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia pela Universidade Cat\u00f3lica de Chile e doutorado em Arqueologia Pr\u00e9 Hist\u00f3rica \u2013 Smithsonian Institution National Museum Of Natural History. Atualmente \u00e9 professor titular da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Goi\u00e1s \u2013 PUC Goi\u00e1s e diretor do Instituto do Tr\u00f3pico Sub\u00famido, que funciona nessa institui\u00e7\u00e3o. Tem experi\u00eancia na \u00e1rea de Antropologia, com \u00eanfase em Arqueologia, atuando principalmente nos seguintes temas: arqueologia, cerrado, antropologia, meio ambiente e folclore.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 No que consiste o bioma Cerrado? Como podemos conceitu\u00e1-lo corretamente?<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Altair Sales Barbosa \u2013<\/strong> O professor Aziz Ab\u2019Saber\u00a0 classifica o Cerrado como um dom\u00ednio morfoclim\u00e1tico e fitogeogr\u00e1fico. Entretanto, o mais correto \u00e9 correlacionar os diversos fatores que comp\u00f5em sua biocenose e defini-la como um sistema biogeogr\u00e1f\u00edco. Um sistema que abrange \u00e1reas plan\u00e1lticas \u00e9 o Planalto Central brasileiro, com altitude m\u00e9dia de 650 metros, clima tropical sub\u00famido de duas esta\u00e7\u00f5es, uma seca outra chuvosa, solos variados e um quadro flor\u00edstico e faun\u00edstico extremamente diversificado e interdependente.<br \/>\n<strong><br \/>\nIHU On-Line \u2013 Qual a import\u00e2ncia que o Cerrado exerce na fixa\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas? O senhor possui dados de quantos povos vivem atualmente no bioma?<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Altair Sales Barbosa \u2013<\/strong> O Cerrado exerce papel fundamental na vida das popula\u00e7\u00f5es pr\u00e9-hist\u00f3ricas que iniciaram o povoamento das \u00e1reas interioranas do continente sul-americano. Na regi\u00e3o dos cerrados, essas popula\u00e7\u00f5es desenvolveram importantes processos culturais que moldaram estilos de sociedades bem definidas, em que a economia de ca\u00e7a e coleta imprimiu modelos de organiza\u00e7\u00e3o espacial e social com caracter\u00edsticas peculiares. Os processos culturais ind\u00edgenas, que se seguiram a esse modelo, trouxeram pouca modifica\u00e7\u00e3o \u00e0 fisionomia sociocultural e, embora ocorresse o advento da agricultura incipiente, exercida nas manchas de solo de boa fertilidade natural existentes no dom\u00ednio dos cerrados, a ca\u00e7a e a coleta, em particular a vegetal, ainda constitu\u00edam fatores decisivos na economia dessas sociedades.<br \/>\nSem considerar a \u00e1rea do Parque Nacional do Xingu que, mesmo possuindo alguns elementos do Sistema dos Cerrados, \u00e9 integrante do Dom\u00ednio Equatorial Amaz\u00f4nico, ou Tr\u00f3pico \u00damido, e sem considerar tamb\u00e9m alguns povos que vivem em \u00e1reas disjuntas de Cerrado como os pareci e nambikwara, a \u00e1rea cont\u00ednua do Sistema dos Cerrados, dos Chapad\u00f5es Centrais do Brasil, apresenta uma popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena atual de aproximadamente 44.118 habitantes, distribu\u00eddos principalmente em terras do Maranh\u00e3o, Tocantins, Goi\u00e1s e Mato Grosso do Sul. Essa popula\u00e7\u00e3o engloba 26 povos de caracter\u00edsticas culturais diferenciadas, cuja situa\u00e7\u00e3o atual e fragmenta\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica n\u00e3o refletem a import\u00e2ncia que o espa\u00e7o geogr\u00e1fico dos Cerrados teve na sua fixa\u00e7\u00e3o durante longos per\u00edodos, nem a verdadeira hist\u00f3ria da ocupa\u00e7\u00e3o deste espa\u00e7o por tal popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Mudan\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p>A partir do s\u00e9culo XVIII, o panorama regional come\u00e7ou a sofrer sens\u00edveis modifica\u00e7\u00f5es, com o incremento da coloniza\u00e7\u00e3o que se embrenha pelo interior do pa\u00eds em busca de ouro, pedras preciosas e \u00edndios escravos. Nesse contexto, e a partir dessa data, surgiram os primeiros aglomerados urbanos, e a explora\u00e7\u00e3o mais intensa dos recursos minerais que come\u00e7ava a se incrementar j\u00e1 provoca os primeiros sinais de degrada\u00e7\u00e3o. Findo o ciclo da minera\u00e7\u00e3o, a regi\u00e3o dos cerrados permaneceu economicamente dedicada \u00e0 cria\u00e7\u00e3o extensiva de gado e \u00e0 agricultura de subsist\u00eancia.<br \/>\nAlguns desses modelos econ\u00f4micos ainda subexistem em espa\u00e7os localizados at\u00e9 os dias atuais, e outros modelos mais simples, baseados no extrativismo, s\u00e3o adotados por popula\u00e7\u00f5es caboclas, habitantes atuais de espa\u00e7os definidos.<\/p>\n<p>O isolamento que a regi\u00e3o manteve em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00e1reas mais populosas e economicamente din\u00e2micas do Brasil, at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1960, fez com que este quadro permanecesse basicamente inalterado, fato que a implanta\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia alterou consideravelmente, desestruturando os sistemas sociais implantados e causando entropias de ordem biol\u00f3gica.<br \/>\nO potencial agr\u00edcola que os cerrados demonstram, associado ao fato de ser uma das \u00faltimas reservas da terra capaz de suportar, de modo imediato, a produ\u00e7\u00e3o de cercais, a forma\u00e7\u00e3o de pastagens e o desenvolvimento das t\u00e9cnicas modernas de cultivo, tem atra\u00eddo recentemente grandes investimentos e criado modifica\u00e7\u00f5es significativas, do ponto de vista da infraestrutura de suporte. O fato da n\u00e3o exist\u00eancia de uma pol\u00edtica global para a agricultura tem provocado o \u00eaxodo rural e o crescimento desordenado dos n\u00facleos urbanos. Todos esses fatores, em seu conjunto, t\u00eam provocado situa\u00e7\u00f5es nocivas ao meio ambiente natural e social.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como se caracteriza a \u00e1rea do Sistema Biogeogr\u00e1fico do Cerrado?<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Altair Sales Barbosa \u2013<\/strong> O Sistema Biogeogr\u00e1fico dos Cerrados \u00e9 limitado por uma s\u00e9rie de complexas formas vegetacionais intermedi\u00e1rias que adquirem contornos espec\u00edficos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 caatinga e outras configura\u00e7\u00f5es, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 floresta amaz\u00f4nica \u00famida.<br \/>\nEsse sistema n\u00e3o pode ser tomado como uma unidade homog\u00eanea, pois ostenta em seu dom\u00ednio uma s\u00e9rie de ambientes diversificados entre si, pelo car\u00e1ter fision\u00f4mico e pela composi\u00e7\u00e3o vegetal e animal. Esses ambientes constituem os seus subsistemas. Sua compreens\u00e3o \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia para se entender o sistema como um todo e o car\u00e1ter da biodiversidade que ostenta. O sistema biogeogr\u00e1fico \u00e9 composto por seis subsistemas interatuantes, caracterizados pela fisionomia e composi\u00e7\u00e3o vegetal e animal, al\u00e9m de outros fatores, que apresentam a seguinte organiza\u00e7\u00e3o: Subsistema dos Campos, Subsistema do Cerrado, Subsistema do Cerrad\u00e3o, Subsistema das Matas, Subsistema das Matas Ciliares e Subsistemas das Veredas e Ambientes Alagadi\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>Subsistema dos Campos<\/strong><br \/>\nOcupa as partes mais elevadas do sistema, apresenta morfologia plana regionalmente denominada chapad\u00f5es ou campinas.<\/p>\n<p><strong>Subsistema do Cerrado<\/strong><br \/>\nConstitui a paisagem dominante do sistema. Ostenta um estrato gram\u00edneo diferenciado do campo pela ocorr\u00eancia de \u00e1rvores de pequeno porte e aspecto tortuoso, o que se explica pela teoria do escleromorfismo oligotr\u00f3fico.<\/p>\n<p><strong>Subsistema do Cerrad\u00e3o<\/strong><br \/>\n\u00c9, fisionomicamente, mais vigoroso que o Subsistema do Cerrado. As \u00e1rvores atingem de 10 a 15 metros de altura e os solos demonstram maior fertilidade natural. N\u00e3o h\u00e1 um estrato gram\u00edneo forte como no Cerrado e as \u00e1rvores s\u00e3o mais encopadas.<\/p>\n<p><strong>Subsistema das Matas <\/strong><br \/>\nOcorre em manchas de solo de boa fertilidade natural que, \u00e0s vezes, adquirem a configura\u00e7\u00e3o de ilhas, meio a uma paisagem dominante de Cerrado, conhecidas por cap\u00f5es e podem formar \u00e1reas extensas, compactas e homog\u00eaneas.<\/p>\n<p><strong>Subsistema das Matas Ciliares<\/strong><br \/>\nOcorre nas cabeceiras dos pequenos c\u00f3rregos e rios acompanhando-os pelas suas margens em estreitas faixas.<\/p>\n<p><strong>Subsistema das Veredas e Ambientes Alagadi\u00e7os<\/strong><br \/>\nAs cabeceiras de alguns c\u00f3rregos e rios s\u00e3o, \u00e0s vezes, caracterizados por ambientes alagadi\u00e7os, decorrentes do afloramento do len\u00e7ol de \u00e1gua ou ainda em virtude de caracter\u00edsticas impermeabilizantes do solo. Nesse local, s\u00e3o muito frequentes as veredas, que s\u00e3o paisagens nas quais predominam os coqueiros buriti e buritirana que, geralmente, distribuem-se acompanhando os cursos d\u2019\u00e1gua at\u00e9 a parte m\u00e9dia de alguns rios, formando uma paisagem muito bonita.<\/p>\n<p><strong>Heterogeneidade<\/strong><br \/>\nEssa diversidade de ambiente \u00e9 um fator muito importante para a diversifica\u00e7\u00e3o faun\u00edstica, permitindo a ocorr\u00eancia de animais adaptados a ambientes secos e, tamb\u00e9m, a ambientes \u00famidos. Da mesma forma, propicia tanto a ocorr\u00eancia de formas adaptadas a \u00e1reas ensolaradas e abertas como favorece a ocorr\u00eancia de formas umbr\u00f3filas. Esses fatores atribuem ao Sistema Biogeogr\u00e1fico um car\u00e1ter singular, distinguindo-o pela variedade de formas vegetais e animais.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Qual \u00e9 a grande biodiversidade de fauna do Cerrado?<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Altair Sales Barbosa \u2013<\/strong> O entendimento sobre os aspectos ambientais do Cerrado exige uma an\u00e1lise integrada entre os elementos da fauna, da flora, do espa\u00e7o geogr\u00e1fico e como eles se relacionam com os demais componentes. Acredita-se que a grande biodiversidade de fauna do Cerrado est\u00e1 vinculada \u00e0 diversidade de ambientes. Tal correla\u00e7\u00e3o permite vislumbrar o ambiente na sua totalidade, o que facilita o estabelecimento adequado de pol\u00edticas ambientais para a regi\u00e3o.<br \/>\nGeograficamente a regi\u00e3o dos cerrados situa-se em um local estrat\u00e9gico entre os dom\u00ednios brasileiros, o que facilita o interc\u00e2mbio flor\u00edstico e faun\u00edstico. Representado no centro do pa\u00eds, a sua \u00e1rea estende-se de um extremo ao outro, do Mato Grosso do Sul ao Piau\u00ed, em seu eixo maior; e limita-se, para oeste, com a Floresta Amaz\u00f4nica, para o leste e nordeste, com a vegeta\u00e7\u00e3o da Caatinga, sendo acompanhada ao sul e sudeste pela Floresta Atl\u00e2ntica. Essas liga\u00e7\u00f5es favoreceram o delineamento de corredores de migra\u00e7\u00e3o importantes, tanto por via terrestre como aqu\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Diversidade<\/strong><br \/>\nAlgumas esp\u00e9cies animais do Cerrado s\u00e3o limitadas a determinados tipos de habitats. Os espa\u00e7os s\u00e3o bem definidos de acordo com a necessidade biol\u00f3gica de cada esp\u00e9cie. Esse condicionamento ao ambiente pode ser explicado pelo determinismo ambiental, imposto pela natureza atrav\u00e9s de recursos aliment\u00edcios, que condicionaram os animais especialistas a viverem em determinadas \u00e1reas em fun\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito alimentar. Um exemplo conhecido \u00e9 o da esp\u00e9cie Myrmecophaga tridactyla (tamandu\u00e1-bandeira), que se alimenta basicamente de cupins terrestres e formigas, abundantes em campos abertos.<\/p>\n<p><strong>Fauna<\/strong><br \/>\nPara a regi\u00e3o do Cerrado, s\u00e3o apontadas para a avifauna 935 esp\u00e9cies, distribu\u00eddas em diferentes habitats por todo o bioma. Quanto aos mam\u00edferos, foram listadas 298 esp\u00e9cies, e 268 de r\u00e9pteis.<\/p>\n<p><strong>Frutos<\/strong><br \/>\nA matura\u00e7\u00e3o dos frutos e a rebrota das gram\u00edneas, fonte principal de alimento de um grande contingente de fauna, n\u00e3o ocorrem de forma homog\u00eanea em todas as \u00e1reas de Cerrado. A grande frutifica\u00e7\u00e3o acontece durante os meses de novembro, dezembro e janeiro, \u00e9poca que coincide com o auge da esta\u00e7\u00e3o chuvosa. A concentra\u00e7\u00e3o desses recursos diminui, acompanhando o fim do per\u00edodo chuvoso. Entretanto, com exce\u00e7\u00e3o dos meses de maio e junho, considerados cr\u00edticos no que se refere \u00e0 oferta de alimentos, os demais meses que correspondem \u00e0 \u00e9poca seca, mesmo em menor quantidade, apresentam alguns recursos, entre eles flores, ra\u00edzes, resinas e alguns frutos.<\/p>\n<p>Os mam\u00edferos dos Cerrados podem ser observados durante todo o ano, principalmente os que vivem em \u00e1reas abertas. Todavia, a maior concentra\u00e7\u00e3o dessas esp\u00e9cies em seus nichos alimentares se d\u00e1 nos meses de setembro, outubro, novembro, dezembro e janeiro. Esta \u00e9poca coincide com a rebrota das gram\u00edneas, que geralmente durante a esta\u00e7\u00e3o seca, por a\u00e7\u00e3o natural ou antr\u00f3pica, sofrem a a\u00e7\u00e3o do fogo, o que coincide tamb\u00e9m com a matura\u00e7\u00e3o dos frutos. Nesse mesmo per\u00edodo, acontece a revoada de insetos (mariposas e tanajuras), o que torna fartos os recursos para os mam\u00edferos inset\u00edvoros.<\/p>\n<p><strong>Rela\u00e7\u00e3o entre flora e fauna<\/strong><br \/>\nGrande parte desses animais est\u00e1 se acasalando durante os meses correspondentes \u00e0 esta\u00e7\u00e3o seca. Isso significa que no per\u00edodo chuvoso v\u00e3o estar com filhotes. Essa din\u00e2mica da natureza revela a estreita rela\u00e7\u00e3o entre a flora e a fauna dos cerrados.<br \/>\nInfelizmente, a cada ano que passa aumenta a lista dos animais amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o total. A natureza dotou esta regi\u00e3o de certos mecanismos naturais que garantem a multiplica\u00e7\u00e3o e a propaga\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies. Existe uma estreita interdepend\u00eancia entre a fauna e a flora. O fator biodiversidade animal est\u00e1 diretamente relacionado \u00e0 diversidade de ambientes. Estes, por sua vez, relacionam-se \u00e0 variedade de esp\u00e9cies vegetais que se multiplicam sob a influ\u00eancia de fatores litol\u00f3gicos, ed\u00e1ficos e clim\u00e1ticos, de ordem regional e local.<\/p>\n<p><strong>Aus\u00eancia de pol\u00edtica ambiental<\/strong><br \/>\nInfelizmente, a falta de uma pol\u00edtica s\u00e9ria para o meio ambiente tem colocado em risco todo o patrim\u00f4nio natural dessa regi\u00e3o, marcada por processos intensos de ocupa\u00e7\u00e3o desordenada dos espa\u00e7os. A pol\u00edtica desenvolvimentista aplicada no Brasil, principalmente no Cerrado, que \u00e9 considerado a \u00faltima grande fronteira para a produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os, tem levado muitas esp\u00e9cies da fauna \u00e0 extin\u00e7\u00e3o e, consequentemente, alguns exemplares da flora, em fun\u00e7\u00e3o da sua interdepend\u00eancia. Muitos animais da Megafauna (fauna gigante) j\u00e1 foram extintos dentro de um processo lento e natural, imposto pela evolu\u00e7\u00e3o da natureza. Os animais modernos est\u00e3o se extinguindo ou em vias de extin\u00e7\u00e3o, dentro de uma din\u00e2mica proporcionada pela a\u00e7\u00e3o humana. Muitas dessas esp\u00e9cies n\u00e3o alcan\u00e7aram nem alcan\u00e7ar\u00e3o o seu cl\u00edmax evolutivo, pois a velocidade dos processos de degrada\u00e7\u00e3o supera em milhares de anos os fen\u00f4menos naturais.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como pode ser definida a atual situa\u00e7\u00e3o dos recursos h\u00eddricos no bioma?<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Altair Sales Barbosa \u2013 <\/strong>O Cerrado \u00e9 a cumeeira da Am\u00e9rica do Sul, distribuindo \u00e1guas para as grandes bacias hidrogr\u00e1ficas do continente. Isso ocorre porque na \u00e1rea de abrang\u00eancia do Cerrado se situam tr\u00eas grandes aqu\u00edferos, respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o dos grandes rios do continente: o aqu\u00edfero Guarani, associado ao arenito Botucatu e a outras forma\u00e7\u00f5es aren\u00edticas, mais antigas, que s\u00e3o respons\u00e1veis pelas \u00e1guas que alimentam a bacia do Paran\u00e1. Os aqu\u00edferos Bambu\u00ed e Urucuia. O primeiro associado \u00e0s forma\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas do Grupo Bambu\u00ed e o segundo associado \u00e0 Forma\u00e7\u00e3o aren\u00edtica Urucuia, que em muitos locais est\u00e1 sobreposto ao Bambu\u00ed, h\u00e1 at\u00e9 o encontro dos dois aqu\u00edferos, apesar de existir entre os dois uma grande diferen\u00e7a de idade. Os aqu\u00edferos Bambu\u00ed e Urucuia s\u00e3o respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o dos rios que integram a bacia do S\u00e3o Francisco, Tocantins, Araguaia e outras, situadas na abrang\u00eancia do Cerrado.<br \/>\nEsses aqu\u00edferos v\u00eam se formando durante milh\u00f5es de anos, de pouco tempo para c\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o sendo recarregados como deveriam, para sustentar os mananciais. Isso ocorre porque a recarga dos aqu\u00edferos se d\u00e1 pelas suas bordas nas \u00e1reas planas, onde a \u00e1gua pluvial infiltra e \u00e9 absorvida cerca de 70% pelo sistema radicular da vegeta\u00e7\u00e3o nativa, alimentando num primeiro momento o len\u00e7ol fre\u00e1tico e lentamente vai abastecendo e se armazenando nos len\u00e7ois mais subterr\u00e2neos.<br \/>\nCom a ocupa\u00e7\u00e3o dos chapad\u00f5es de forma intensa, que trouxe como consequ\u00eancia a retirada da cobertura vegetal, sua substitui\u00e7\u00e3o por vegeta\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias de raiz subsuperficial, a \u00e1gua da chuva precipita, por\u00e9m n\u00e3o infiltra o suficiente para reabastecer os aqu\u00edferos. Com o passar dos tempos, eles v\u00e3o diminuindo de n\u00edvel, provocando, num primeiro momento, a migra\u00e7\u00e3o das nascentes, das partes mais altas para as mais baixas, e a diminui\u00e7\u00e3o do volume das \u00e1guas, at\u00e9 chegar ao ponto do desaparecimento total do curso d\u2019\u00e1gua. Conv\u00e9m ressaltar que este \u00e9 um processo irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais os principais problemas ambientais do Cerrado?<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Altair Sales Barbosa \u2013<\/strong> De todos os grandes ambientes brasileiros, o Cerrado tem sido o dom\u00ednio que mais transforma\u00e7\u00f5es vem sofrendo nos \u00faltimos anos. N\u00e3o s\u00f3 mudan\u00e7as das t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o. Muito mais profundas s\u00e3o as altera\u00e7\u00f5es culturais, que t\u00eam afetado o pr\u00f3prio sistema de vida das popula\u00e7\u00f5es, desestruturando os valores e, muitas vezes, provocando um vazio.<br \/>\nOs antigos n\u00facleos urbanos, quase todos originados em torno de atividades mineradoras, principalmente os do in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII, veem-se, de repente, transformados em polos regionais de inova\u00e7\u00f5es e agenciadores de \u201cmudan\u00e7as radicais\u201d nos sistemas de rela\u00e7\u00f5es, com seus in\u00fameros servi\u00e7os, quase todos voltados para atividades agroindustriais e com preocupa\u00e7\u00f5es imediatistas.<\/p>\n<p><strong>Cria\u00e7\u00e3o de cidades<\/strong><br \/>\nAs cria\u00e7\u00f5es de Goi\u00e2nia, posteriormente Bras\u00edlia, paralelamente ao desenvolvimento do sistema vi\u00e1rio e ao processo de moderniza\u00e7\u00e3o da agricultura, vieram contribuir com certa radicaliza\u00e7\u00e3o nas modifica\u00e7\u00f5es dos fatores at\u00e9 ent\u00e3o estruturados, rompendo em estilha\u00e7os seus tra\u00e7os mais tradicionais. Alguns modelos tradicionais de intera\u00e7\u00e3o homem\/ambiente, em virtude do isolamento de certas \u00e1reas, persistem at\u00e9 os dias atuais, como certos enclaves do oeste da Bahia, sul do Piau\u00ed e Maranh\u00e3o, em muitos pontos do V\u00e3o do Paran\u00e1, e margem direita do Tocantins. Com a implanta\u00e7\u00e3o desse novo Estado e a constru\u00e7\u00e3o de sua capital Palmas, uma nova \u201conda\u201d de modifica\u00e7\u00f5es significativas j\u00e1 tiveram seus processos iniciais.<\/p>\n<p>At\u00e9 bem pouco tempo atr\u00e1s as \u00e1reas do Sistema Biogeogr\u00e1fico dos Cerrados n\u00e3o eram muito valorizadas nem procuradas para implanta\u00e7\u00e3o de grandes atividades agropastoris. As suas partes mais intensamente ocupadas eram restritas ao subsistema de matas, ou seja, \u00e1reas florestadas que existem dentro do sistema e que est\u00e3o sempre associadas a solos de boa fertilidade natural. Por isso essas \u00e1reas foram as primeiras a receberem o impacto de uma degrada\u00e7\u00e3o maior. Ao seu lado, em escala menor, podem ser citadas as \u00e1reas que comp\u00f5em o subsistema Cerrad\u00e3o e as Matas-Galerias.<br \/>\nAs demais \u00e1reas que constituem as maiores superf\u00edcies do sistema, como o Subsistema do Cerrado, do Campo, das Veredas e Ambientes Alagadi\u00e7os, em virtude das caracter\u00edsticas de seus solos, n\u00e3o favorecem de imediato uma ocupa\u00e7\u00e3o intensiva com o desenvolvimento de pr\u00e1ticas agr\u00edcolas desenvolvidas. Essas \u00e1reas, outrora ocupadas pelo criat\u00f3rio extensivo, tinham como suporte uma pastagem nativa, cujo teor aliment\u00edcio estava condicionado \u00e0 sazonalidade clim\u00e1tica, o que obrigava os rebanhos a migra\u00e7\u00f5es longas, e durante a esta\u00e7\u00e3o seca eram conduzidos para as \u201cveredas\u201d onde a umidade mantinha verdejante a pastagem mesmo no auge da seca. Entretanto, essas \u00e1reas de veredas n\u00e3o ocupam grande extens\u00e3o e na \u00e9poca da esta\u00e7\u00e3o chuvosa, em fun\u00e7\u00e3o de muitos fatores, n\u00e3o \u00e9 prop\u00edcia a ocupa\u00e7\u00e3o por rebanhos. Na \u00e9poca chuvosa, o rebanho pode ser transportado para as \u00e1reas mais elevadas (campos e cerrado). Esse fator das migra\u00e7\u00f5es sazon\u00e1rias \u00e9 respons\u00e1vel por um sistema pastoril que exige grandes extens\u00f5es de terras, que poderiam ser compradas, arrendadas ou simplesmente ocupadas na forma de posse ou \u201cfechos\u201d.<\/p>\n<p>Com a utiliza\u00e7\u00e3o do calc\u00e1rio para a corre\u00e7\u00e3o da acidez do solo, a introdu\u00e7\u00e3o do arado e sistemas mec\u00e2nicos de desmatamento, al\u00e9m da facilidade de irriga\u00e7\u00e3o, houve transforma\u00e7\u00e3o dessas \u00e1reas, anteriormente impr\u00f3prias para atividades agr\u00edcolas, em terras produtivas. Outrossim, a substitui\u00e7\u00e3o das pastagens nativas por esp\u00e9cies estrangeiras modificou radicalmente o quadro pastoril.<\/p>\n<p><strong>Impactos ambientais<\/strong><\/p>\n<p>Os impactos sobre o ambiente causados por esse novo modelo de ocupa\u00e7\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis e podem ser caracterizados pelos itens seguintes:<br \/>\n\u2022\u00a0\u00a0\u00a0 empobrecimento gen\u00e9tico;<br \/>\n\u2022\u00a0\u00a0\u00a0 empobrecimento dos ecossistemas;<br \/>\n\u2022\u00a0\u00a0\u00a0 destrui\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o natural;<br \/>\n\u2022\u00a0\u00a0\u00a0 propaga\u00e7\u00e3o de ervas ex\u00f3ticas;<br \/>\n\u2022\u00a0\u00a0\u00a0 extin\u00e7\u00e3o da fauna nativa;<br \/>\n\u2022\u00a0\u00a0\u00a0 diminui\u00e7\u00e3o e polui\u00e7\u00e3o dos mananciais h\u00eddricos;<br \/>\n\u2022\u00a0\u00a0\u00a0 compacta\u00e7\u00e3o e eros\u00e3o dos solos;<br \/>\n\u2022\u00a0\u00a0\u00a0 contamina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica das \u00e1guas e da biota;<br \/>\n\u2022\u00a0\u00a0\u00a0 prolifera\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as desconhecidas etc.<\/p>\n<p>Esses fatores em conjunto geram in\u00fameros outros que, por sua vez, funcionam como agentes de atra\u00e7\u00e3o populacional e modifica\u00e7\u00f5es significativas do ambiente. Como exemplo, temos a demanda de energia, que exige a forma\u00e7\u00e3o de grandes reservat\u00f3rios e usinas geradoras, criando in\u00fameras frentes de trabalho, diretas e indiretas, o que acarreta entropias de grande alcance natural e social.<br \/>\nAssim \u00e9 que no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI encontra-se em suspenso o destino do Cerrado. Se as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas trar\u00e3o sua ru\u00edna ou salva\u00e7\u00e3o, ainda n\u00e3o se pode dizer.<br \/>\nEmbora sejam grandes as lacunas no nosso conhecimento, dispomos de informa\u00e7\u00f5es suficientes para impedirmos uma degrada\u00e7\u00e3o irrevers\u00edvel. O que se pode afirmar \u00e9 que, enquanto o desejo de explorar o Cerrado tiver ra\u00edzes estrangeiras, a possibilidade de cria\u00e7\u00e3o de um programa racional de desenvolvimento ser\u00e1 nula.<br \/>\nPor essas raz\u00f5es, a situa\u00e7\u00e3o do Cerrado atualmente se assemelha ao fen\u00f4meno conhecido em neurologia como \u201cdor fantasma\u201d. As pessoas que s\u00e3o v\u00edtimas desse mal sofrem um duplo infort\u00fanio. Elas perderam uma extremidade ou parte dela. E sofrem dores \u00e0s vezes muito intensas que sentem como provenientes do membro que j\u00e1 n\u00e3o tem mais. As discuss\u00f5es sobre o Cerrado se assemelham a tal situa\u00e7\u00e3o, porque estamos sentindo as dores da perda de um ambiente que n\u00e3o existe mais na plenitude de sua biodiversidade.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais s\u00e3o as variedades vegetais e frut\u00edferas que o bioma oferece?<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Altair Sales Barbosa \u2013<\/strong> O \u00faltimo check-list de plantas do Cerrado, publicado pela Embrapa, revela um total de 12.365 esp\u00e9cies j\u00e1 catalogadas. Entretanto, a cada expedi\u00e7\u00e3o de campo novas esp\u00e9cies s\u00e3o descobertas. H\u00e1 entre as esp\u00e9cies vegetais uma grande variedade de frutas comest\u00edveis, que foram enormemente apreciadas por popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e at\u00e9 hoje integram a dieta dos homens que vivem no bioma. Al\u00e9m do consumo natural, grande parte das esp\u00e9cies frut\u00edferas constitui mat\u00e9ria prima para diversas f\u00e1bricas de alimentos, desde sorvetes, picol\u00e9s, doces, bolachas, salgados e culin\u00e1ria em geral.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Thamiris Magalhaes, IHU de 11 de janeiro de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEnquanto o desejo de explorar o Cerrado tiver ra\u00edzes estrangeiras, a possibilidade de cria\u00e7\u00e3o de um programa racional de desenvolvimento ser\u00e1 nula\u201d, avalia o docente Altair Sales Barbosa Em pleno s\u00e9culo XXI, encontra-se em suspenso o destino do Cerrado. \u201cSe as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas trar\u00e3o sua ru\u00edna ou salva\u00e7\u00e3o, ainda n\u00e3o se pode dizer\u201d, \u00e9 o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-19110","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Cerrado: &quot;dor fantasma&quot; 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