{"id":19133,"date":"2017-04-05T09:00:32","date_gmt":"2017-04-05T12:00:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=19133"},"modified":"2017-04-05T09:52:59","modified_gmt":"2017-04-05T12:52:59","slug":"leis-nao-barram-produtos-fabricados-com-trabalho-escravo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/leis-nao-barram-produtos-fabricados-com-trabalho-escravo\/","title":{"rendered":"Leis n\u00e3o barram produtos fabricados com trabalho escravo"},"content":{"rendered":"<div class=\"excerpt\">\n<p><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.kevinbales.net\/uploads\/1\/1\/4\/2\/1142278\/_3060752_orig.jpg\" alt=\"Picture\" width=\"691\" height=\"1051\" \/>&#8220;Blood and Earth&#8221;, livro de Kevin que investiga as conex\u00f5es \u00a0entre o trabalho escravo e a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente<\/em><\/p>\n<p>Produtos que ferem os direitos humanos e destroem a natureza na sua fabrica\u00e7\u00e3o s\u00e3o vendidos internacionalmente sem controle ou transpar\u00eancia, afirma Kevin Bales, especialista em trabalho escravo contempor\u00e2neo<\/p>\n<p>Mineradores em Gana, pescadores de Bangladesh e trabalhadores que derrubam \u00e1rvores na Amaz\u00f4nia brasileira t\u00eam duas coisas em comum: s\u00e3o submetidos a condi\u00e7\u00f5es semelhantes ao trabalho escravo enquanto destroem florestas e rios. Outro elemento em comum \u00e9 trabalharem para produzir materiais que, provavelmente, ser\u00e3o vendidos nas grandes cidades de seus pa\u00edses, da Europa ou dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A conex\u00e3o entre viola\u00e7\u00f5es trabalhistas e destrui\u00e7\u00e3o ambiental em diversos pa\u00edses foi o foco da pesquisa do livro \u201c<a href=\"http:\/\/www.kevinbales.net\/blood-and-earth.html\">Blood and Earth<\/a>\u201d, de Kevin Bales, cofundador da organiza\u00e7\u00e3o Free the Slaves e professor de Escravid\u00e3o contempor\u00e2nea da Universidade de Nottingham. Para a pesquisa, Bales viajou para mais de cinco pa\u00edses, entre eles o Brasil.<\/p>\n<p>\u201cA quest\u00e3o central \u00e9 como alguns grupos est\u00e3o operando ilegalmente. As pessoas s\u00e3o submetidas a um controle violento em florestas que supostamente est\u00e3o protegidas\u201d, ele afirma, usando o caso da explora\u00e7\u00e3o de madeira na Amaz\u00f4nia brasileira como exemplo do mesmo sistema que ele viu em funcionamento na \u00c1frica e na \u00c1sia. Escondidos na ilegalidade, os fabricantes est\u00e3o cometendo crimes para extrair recursos com os menores custos poss\u00edveis. Os produtos s\u00e3o vendidos a uma empresa intermedi\u00e1ria, onde s\u00e3o enviados para longe sem deixar qualquer rastro de sua origem ilegal. Segundo Bales, os operadores locais assumem os riscos, mas suas pr\u00e1ticas ilegais tamb\u00e9m beneficiam empresas grandes.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, ele fala sobre a fragilidade das leis que ainda n\u00e3o conseguem barrar o fluxo de dinheiro entre o consumidor e a rede de explora\u00e7\u00e3o do trabalho escravo e destrui\u00e7\u00e3o ambiental. E tenta responder \u00e0 pergunta mais dif\u00edcil: como cortar esse ciclo.<\/p>\n<p><strong>Rep\u00f3rter Brasil \u2014 Como a escravid\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o ambiental est\u00e3o conectadas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Kevin \u2014<\/strong> A destrui\u00e7\u00e3o ambiental cria uma vulnerabilidade enorme, principalmente quando pensamos em pessoas que vivem em harmonia com o meio ambiente, aquelas que trabalham na agricultura, moram no litoral e vivem em lugares onde as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a destrui\u00e7\u00e3o ambiental literalmente arrancam a terra debaixo dos seus p\u00e9s. A terra desaparece literalmente, sob o aumento do n\u00edvel do mar, ou por causa de eros\u00e3o e desmatamento. H\u00e1 os projetos de constru\u00e7\u00e3o de hidrel\u00e9tricas, e os pobres que moram na regi\u00e3o s\u00e3o for\u00e7ados a sair. Isso tudo gera muita vulnerabilidade. Eles s\u00e3o pobres, n\u00e3o t\u00eam onde morar, alguns s\u00e3o refugiados. Cria-se um contexto em que as pessoas podem ser escravizadas.<\/p>\n<p>Por outro lado, as pessoas submetidas \u00e0 escravid\u00e3o est\u00e3o sendo usadas, sendo for\u00e7adas a cortar \u00e1rvores de florestas protegidas em todo o mundo. A escravid\u00e3o est\u00e1 na raiz de uma parte significativa da destrui\u00e7\u00e3o ambiental, principalmente em termos de emiss\u00f5es de CO2. Com base nos \u00edndices de desmatamento e calculando de forma muito conservadora, chegamos \u00e0 conclus\u00e3o de que, se a escravid\u00e3o fosse um pa\u00eds, seria o terceiro maior emissor de CO2, atr\u00e1s da China e dos Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>Rep\u00f3rter Brasil \u2014\u00a0O que conecta a escravid\u00e3o no setor madeireiro no Brasil com realidades como a minera\u00e7\u00e3o de coltan no Congo ou as fazendas de camar\u00e3o na \u00cdndia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Kevin \u2014<\/strong>\u00a0Uma das coisas que aconteceram em todos esses lugares \u00e9 que as prote\u00e7\u00f5es ambientais contidas em leis e tratados s\u00e3o boas, mas nenhuma delas tem realmente for\u00e7a de prote\u00e7\u00e3o. Elas afirmam: \u201cEsta \u00e9 uma floresta protegida\u201d, mas ningu\u00e9m \u00e9 contratado para proteg\u00ea-la. Quando contratam, s\u00e3o casos como na \u00c1frica, em que dois homens com uma bicicleta t\u00eam de dar conta de milhares de quil\u00f4metros de floresta. Enquanto os criminosos t\u00eam helic\u00f3pteros, caminh\u00f5es, avi\u00f5es e tudo de que precisam.<\/p>\n<p>Quando se observa a extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira no Brasil, v\u00ea-se que ela est\u00e1 acontecendo em lugares onde a floresta supostamente est\u00e1 protegida. Eu sei que essa quest\u00e3o \u00e9 pol\u00eamica, alguns dir\u00e3o que \u201cprecisamos abrir esses lugares ao desenvolvimento\u201d. Mas a quest\u00e3o central \u00e9 que pessoas est\u00e3o trabalhando sob um controle violento em florestas que supostamente est\u00e3o protegidas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/ShrimpFarmWorkersBangladesh--300x199.jpg\" width=\"710\" height=\"471\" \/><em>Trabalhadores nas fazendas de camar\u00e3o em Bangladesh (Foto: Naser Khan)<\/em><\/p>\n<p><strong>Rep\u00f3rter Brasil \u2014\u00a0Voc\u00ea diz que podemos mudar esse sistema adotando pequenos inconvenientes, como prestar aten\u00e7\u00e3o ao que compramos. Mas n\u00f3s temos informa\u00e7\u00e3o suficiente para fazer essa escolha?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Kevin \u2014<\/strong>\u00a0Em muitos casos, n\u00e3o. Todos os dias algu\u00e9m me pergunta: \u201cComo eu posso saber? Onde est\u00e1 a lista?\u201d. H\u00e1 algumas listas dispon\u00edveis e pesquisas em andamento, mas n\u00e3o o necess\u00e1rio para que possamos de fato fazer essas escolhas.<br \/>\n\u00c9 uma \u00e1rea muito dif\u00edcil para policiar e para pesquisar. Muitas vezes, os criminosos se escondem atr\u00e1s de \u201claranjas\u201d. Mesmo as pessoas que est\u00e3o inspecionando cadeias de abastecimento que v\u00e3o ter dificuldades de penetrar at\u00e9 o n\u00edvel inferior. E quando os criminosos s\u00e3o expostos, eles passam para uma cadeia de abastecimento diferente. Ent\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de vigil\u00e2ncia constante.<\/p>\n<p>Mas eu me sinto otimista por ver que tantas pessoas querem saber mais, querem descobrir. E porque mais e mais organiza\u00e7\u00f5es est\u00e3o trabalhando para tornar isso poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Rep\u00f3rter Brasil \u2014\u00a0Esta entrevista est\u00e1 sendo publicada como parte de uma <a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/madeireiro\/\">investiga\u00e7\u00e3o mais ampla<\/a>, na qual descobrimos que as serrarias responsabilizadas por trabalho escravo no Brasil estavam ligadas \u00e0 cadeia de fornecedores de grandes marcas nos Estados Unidos. As empresas alegam que o produto espec\u00edfico n\u00e3o \u00e9 o mesmo extra\u00eddo pelo trabalho escravo, mas n\u00e3o abrem as informa\u00e7\u00f5es de rastreamento. Essa informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria ser p\u00fablica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Kevin \u2014<\/strong>\u00a0\u00c9 claro que deveria ser informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Quanto a isso, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. Se elas alegam que \u00e9 assim, deveriam provar.<\/p>\n<p><strong>Rep\u00f3rter Brasil \u2014\u00a0Tamb\u00e9m h\u00e1 os grupos de certifica\u00e7\u00e3o que monitoram as cadeias de fornecedores. Mas, nesses casos, eles falharam. Quem audita as empresas de auditoria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Kevin \u2014<\/strong>\u00a0N\u00e3o existe muita auditoria das auditorias. H\u00e1 poucos grupos que est\u00e3o tentando promover investimentos \u00e9ticos e que ir\u00e3o investigar isso. Estamos no in\u00edcio de um trabalho que pode levar de 20 a 30 anos, enquanto formulamos precisamente como manter essas coisas transparentes e sob controle.<\/p>\n<p><strong>Rep\u00f3rter Brasil \u2014\u00a0Qual \u00e9 a legisla\u00e7\u00e3o mais eficaz para proibir os produtos ligados ao trabalho escravo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Kevin \u2014<\/strong>\u00a0A \u201cLista Suja\u201d do trabalho escravo no Brasil, se fosse feita corretamente [lista de empresas responsabilizadas pelo trabalho escravo, cuja publica\u00e7\u00e3o est\u00e1 atualmente suspensa pelo governo brasileiro]. Eu gostaria de ver mais pa\u00edses usando esse sistema, ele \u00e9 muito poderoso.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o sistema que foi implementado no estado da Calif\u00f3rnia, e agora no Reino Unido, onde se exige uma certa transpar\u00eancia de grandes empresas. A lei se aplica a empresas que estejam acima de um determinado tamanho. Elas t\u00eam que informar, todos os anos, o que est\u00e3o fazendo para investigar e para eliminar o trabalho escravo e o tr\u00e1fico de sua cadeia de fornecedores.<\/p>\n<p>\u00c9 um bom ponto de partida. Mas elas s\u00f3 precisam fazer isso: informar. Se encontrarem escravid\u00e3o em sua cadeia de fornecedores, eles n\u00e3o s\u00e3o punidos. Talvez isso soe fraco, mas s\u00f3 conseguimos aprovar essa lei na Calif\u00f3rnia porque os grupos empresariais estavam dispostos a apoiar uma lei que n\u00e3o inclu\u00eda san\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Se conseguissem falar livremente sobre seus problemas em vez de mant\u00ea-los em segredo, elas teriam a oportunidade de abrir o jogo, com todos no mesmo n\u00edvel. Isso criaria um contexto onde se poderia come\u00e7ar a abrir a coisa toda para o debate e fazer com que as pessoas come\u00e7assem a agir sem se sentir amea\u00e7adas.<\/p>\n<p>A ideia era criar uma situa\u00e7\u00e3o em que elas n\u00e3o se sentissem como se estivessem apenas apontando uma arma contra suas pr\u00f3prias cabe\u00e7as. Na verdade, elas tiveram a oportunidade de serem transparentes e come\u00e7arem a avan\u00e7ar na dire\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo passo.<\/p>\n<p><strong>Rep\u00f3rter Brasil \u2014\u00a0Voc\u00ea v\u00ea uma perspectiva real de quando esse ser\u00e1 dado esse pr\u00f3ximo passo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Kevin \u2014<\/strong>\u00a0N\u00e3o. Em muitos pa\u00edses, as pessoas est\u00e3o debatendo a escravid\u00e3o nas cadeias de fornecedores. Algum pa\u00eds vai dizer: os relat\u00f3rios n\u00e3o s\u00e3o bons o suficiente, vamos tornar a lei um pouco mais forte\u201d. Eu acho que essas leis implesmente continuar\u00e3o ficando mais fortes com o tempo, mas eu gostaria que fosse mais r\u00e1pido.<br \/>\nEu tenho acompanhado um projeto de lei que visa colocar 250 milh\u00f5es de d\u00f3lares no trabalho de combate \u00e0 escravid\u00e3o: a Lei Corker, [<a href=\"https:\/\/www.corker.senate.gov\/public\/index.cfm\/news-list?ID=E6985DA0-A782-4A33-9C85-37887C2947F8\">End Modern Slavery Initiative Act<\/a>, proposta pelo senador Bob Corker, do Tennessee]. \u00c9 um projeto de lei recente no congresso dos Estados Unidos, que supostamente faz esse tipo de investimento no combate \u00e0 escravid\u00e3o. [O governo dos EUA] vai alocar 250 milh\u00f5es ao longo do tempo e espera que outras organiza\u00e7\u00f5es e pa\u00edses tamb\u00e9m contribuam. Eu sei que eles j\u00e1 conversaram com o governo do Reino Unido.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 existem outras legisla\u00e7\u00f5es internacionais mais eficazes na proibi\u00e7\u00e3o de produtos ligados \u00e0 escravid\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Kevin \u2014<\/strong>\u00a0Eu n\u00e3o sei se eu poderia apontar algum lugar que esteja fazendo um trabalho muito bom. \u00c9 interessante que, nos Estados Unidos, eles t\u00eam uma s\u00e9rie de leis aprovadas, e algumas datam da d\u00e9cada de 1930, que s\u00e3o muito fortes, mas parece que n\u00e3o s\u00e3o necessariamente aplicadas. Na maioria dos pa\u00edses, h\u00e1 quest\u00f5es relacionadas a jurisdi\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o eles dizem: \u201cN\u00f3s n\u00e3o queremos que nada importado que contenha escravid\u00e3o\u201d, mas sua jurisdi\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega a outros pa\u00edses, pois eles n\u00e3o podem ir a outros pa\u00edses para inspecionar. Ent\u00e3o eles t\u00eam que confiar em empresas que paguem auditores. Lamento dizer, mas sinto que ainda estamos engatinhando.<\/p>\n<p>Essa entrevista faz parte do especial: <a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/madeireiro\">Profiss\u00e3o Madeireiro<\/a>.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Ana Aranha e Jo\u00e3o Cesar Diaz, Rep\u00f3rter Brasil de 14 de mar\u00e7o de 2017<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Blood and Earth&#8221;, livro de Kevin que investiga as conex\u00f5es \u00a0entre o trabalho escravo e a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente Produtos que ferem os direitos humanos e destroem a natureza na sua fabrica\u00e7\u00e3o s\u00e3o vendidos internacionalmente sem controle ou transpar\u00eancia, afirma Kevin Bales, especialista em trabalho escravo contempor\u00e2neo Mineradores em Gana, pescadores de Bangladesh e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-19133","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - 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