{"id":19135,"date":"2017-04-03T09:00:23","date_gmt":"2017-04-03T12:00:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=19135"},"modified":"2017-03-20T15:25:49","modified_gmt":"2017-03-20T18:25:49","slug":"trabalho-escravo-na-amazonia-homens-cortam-arvores-sob-risco-e-ameaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/trabalho-escravo-na-amazonia-homens-cortam-arvores-sob-risco-e-ameaca\/","title":{"rendered":"Trabalho escravo na Amaz\u00f4nia: homens cortam \u00e1rvores sob risco e amea\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/patio-madeireiro-dentro-TI-Cachoeira-Seca-menor-800x533.jpg\" \/><em>P\u00e1tio madeireiro dentro da Terra Ind\u00edgena Cachoeira Seca, no Par\u00e1 (Foto: Luna\u00e9 Parracho \/ Rep\u00f3rter Brasil)<\/em><\/p>\n<p><strong>Entre acidentes fatais e amea\u00e7as dos donos de serrarias, homens cortam \u00e1rvores de modo ilegal no Par\u00e1. Crime afeta os trabalhadores, os ind\u00edgenas e a floresta<\/strong><\/p>\n<p>Novato no of\u00edcio de derrubar \u00e1rvores em regi\u00f5es que deveriam ser preservadas, Jo\u00e3o se perguntava porque aceitara aquele ganha-p\u00e3o \u201cerrado demais\u201d. Estavam em meio \u00e0 floresta amaz\u00f4nica nativa, a 90 quil\u00f4metros da rodovia Transamaz\u00f4nica, oeste do Par\u00e1. Ele e seus colegas haviam acabado de derrubar a primeira das dez ma\u00e7arandubas que cortariam no dia, quando ouviram o ronco de carros. Espiando entre as \u00e1rvores, viram a chegada de homens armados, vestidos com coletes da \u201cfederal\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMeu deus, me tira dessa, n\u00e3o me deixa morrer\u201d, ele pedia, em voz baixa, enquanto corria mata adentro. H\u00e1 apenas 11 dias no ramo, Jo\u00e3o j\u00e1 ouvira alertas dos colegas mais experientes sobre como equipes do estado tratam trabalhadores como eles: repress\u00e3o, pris\u00e3o e, segundo corre pela r\u00e1dio pe\u00e3o, at\u00e9 viol\u00eancia f\u00edsica.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o fugia porque n\u00e3o passou pela sua cabe\u00e7a a possibilidade dos funcion\u00e1rios do estado estarem ali para lhe proteger. Mas era esse o objetivo da equipe liderada pelo auditor fiscal do Minist\u00e9rio do Trabalho Jos\u00e9 Marcelino, e integrada por representantes do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho, Defensoria P\u00fablica de Uni\u00e3o e com Prote\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal. A opera\u00e7\u00e3o ocorreu em outubro de 2016 no munic\u00edpio de Uruar\u00e1.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o testava uma nova estrat\u00e9gia para aplicar a lei na fronteira da destrui\u00e7\u00e3o da floresta. Ao inv\u00e9s de tratar o trabalhador na ponta como inimigo, a ideia era reconhec\u00ea-lo como v\u00edtima e at\u00e9 um poss\u00edvel aliado no combate aos crimes da ind\u00fastria da madeira.<\/p>\n<p>Quando finalmente foram encontrados, Jo\u00e3o e seus colegas deram longos depoimentos que revelaram crimes muito al\u00e9m dos ambientais. O primeiro deles foi a explora\u00e7\u00e3o de trabalho escravo, crime atribu\u00eddo \u00e0 pequena serraria M. A. de Sousa Madeireira, na sede da cidade de Uruar\u00e1.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zbzUGykPy9Q\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>Jo\u00e3o trabalhava das 6 da manh\u00e3 \u00e0s 6 da noite, sem carteira assinada e sem equipamento de prote\u00e7\u00e3o. Embora cortar \u00e1rvores seja uma atividade de grande risco, com um dos mais altos \u00edndices de morte e amputa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, n\u00e3o havia medidas m\u00ednimas de seguran\u00e7a. Acidentes fatais eram descritos como ocorr\u00eancias banais. \u201cTeve um cara l\u00e1 que fazia a mesma coisa que eu, morreu. Estava distra\u00eddo, passou bolando um cigarro. A tora caiu por cima dele, de cima do caminh\u00e3o. Acabou, foi pro cemit\u00e9rio\u201d, conta Jo\u00e3o.<\/p>\n<p><em>&#8220;L\u00e1 n\u00e3o tem acidente, l\u00e1 tem morte. Se tu fizer errado, tu j\u00e1 se foi\u201d, afirma um trabalhador<\/em><\/p>\n<p>No barraco, nada de primeiros-socorros ou qualquer rem\u00e9dio. Apenas uma espingarda para prote\u00e7\u00e3o e ca\u00e7a. Al\u00e9m de uma moto velha para emerg\u00eancias, como ataque de bicho ou acidente. Mas os trabalhadores nem contavam com a possibilidade de socorro. \u201cL\u00e1 n\u00e3o tem acidente, l\u00e1 tem morte. Se tu fizer errado, tu j\u00e1 se foi\u201d, diz outro trabalhador. A equipe era composta por quatro homens, respons\u00e1veis por derrubar e empilhar as \u00e1rvores no caminh\u00e3o, e uma cozinheira.<\/p>\n<p>Mesmo para Jo\u00e3o, que tem estrada nas armadilhas que se apresentam para migrantes em busca de emprego pelo Brasil, o of\u00edcio de derrubar \u00e1rvores estava al\u00e9m de qualquer outra experi\u00eancia. Pior do que as empreitadas pela constru\u00e7\u00e3o civil no sudeste. Pior at\u00e9 do que a passagem por carvoarias no Maranh\u00e3o, quando seu pulm\u00e3o do\u00eda de tanto tossir.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/detalhe-trabalhadores-resgatados-800x533.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Um dos trabalhadores resgatados da frente de extra\u00e7\u00e3o de madeira ilegal (Foto: Luna\u00e9 Parracho \/ Rep\u00f3rter Brasil)<\/em><\/p>\n<p>No barraco onde dormiam, sem paredes e com piso de terra batida, nada barrava o vento frio da madrugada, nem a visita de insetos pe\u00e7onhentos e outros animais. \u201cTeve uma noite que o cara acendeu a lanterna, tava l\u00e1 a cobrazona. Mais de dois metros, grossa. Ele pegou uma madeira e deu em cima. Matou na paulada\u201d, lembra Jo\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 raro o relato de visitas de on\u00e7as na regi\u00e3o, a reportagem testemunhou as marcas de suas patas pelo ch\u00e3o.<\/p>\n<p>As refei\u00e7\u00f5es, feitas em dois fogareiros de argila improvisados em latas de 18 litros, eram de arroz, feij\u00e3o e macarr\u00e3o. Com eventuais peda\u00e7os de carne de sol, que ficavam pendurados em um varal bastante visitado por moscas. A \u00e1gua vinha em ton\u00e9is, com um \u201cfarelinho\u201d no fundo. O banho de balde era amparado por um biombo de folhas de palmeira e lona. Para as demais necessidades, a floresta era o banheiro.<\/p>\n<p>O trabalho escravo foi caracterizado devido ao risco que corriam ao exercer as atividades e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es degradantes em que viviam na mata.<\/p>\n<p><em>931 trabalhadores foram resgatados enquanto desmatavam ou extraiam \u00e1rvores de 2003 a 2016 no Par\u00e1<\/em><\/p>\n<p>A serraria M. A. de Sousa Madeireira foi obrigada a contratar e demitir os cinco funcion\u00e1rios e a pagar verbas rescis\u00f3rias no total de 31 mil reais. Na hora do pagamento, o auditor explicou que \u00e9 protocolar conferir o dinheiro na frente do trabalhador. Que surpresa quando, no acerto para a cozinheira do grupo, faltavam mil, dos 3.900 reais que ela teria a receber. A advogada da serraria se desculpou, \u201cfoi um engano\u201d, e o ritual de contar c\u00e9dula por c\u00e9dula continuou at\u00e9 o \u00faltimo trabalhador receber.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Trabalhador_LUNAE-PARRACHO-800x533.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Trabalhador conversa com fiscais do Minist\u00e9rio do Trabalho (Foto: Luna\u00e9 Parracho \/ Rep\u00f3rter Brasil)<\/em><\/p>\n<p><strong>Crime contra trabalhadores, ind\u00edgenas e a floresta<\/strong><\/p>\n<p>Em seu escrit\u00f3rio empoeirado, Manoel Ara\u00fajo de Sousa, dono da serraria, argumentou que n\u00e3o era respons\u00e1vel pelos trabalhadores. A frente de extra\u00e7\u00e3o seria uma iniciativa aut\u00f4noma de um de seus ex-empregados. Depois, admitiu que ficaria com parte da madeira e que era \u201cdono\u201d da terra onde eles trabalhavam, assumindo a responsabilidade.<\/p>\n<p>Para provar que a atividade seria legal, apresentou um mero contrato de compra e venda. Sem registro da escritura ou autoriza\u00e7\u00e3o ambiental. O caso ilustra bem o cipoal de crimes do setor, que combina ilegalidades ambientais, trabalhistas, fundi\u00e1rias, contra o meio ambiente e contra comunidades locais.<\/p>\n<p><em>Estima-se que 62% da madeira retirada do Par\u00e1 seja ilegal, segundo estudo do Imazon<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o seria poss\u00edvel ter qualquer autoriza\u00e7\u00e3o ali, j\u00e1 que a floresta de onde Manuel tirava madeira \u00e9 terra da uni\u00e3o embargada pela justi\u00e7a. Ainda em 2007, quando j\u00e1 havia evid\u00eancias do avan\u00e7o madeireiro na regi\u00e3o, o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal contestou um projeto de assentamento proposto no local. Os procuradores suspeitavam que seria apenas uma justificativa para a abertura de estradas e retirada de madeira.<\/p>\n<p>\u201cTais projetos n\u00e3o atendem a uma aut\u00eantica demanda de potenciais clientes da reforma agr\u00e1ria. S\u00e3o, antes, resultado da press\u00e3o do setor madeireiro junto \u00e0s esferas governamentais, que vislumbram nos assentamentos um estoque de mat\u00e9ria-prima\u201d, l\u00ea-se na A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica movida contra a Superintend\u00eancia do Incra em Santar\u00e9m, Par\u00e1.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o segue seu tr\u00e2mite na Justi\u00e7a Federal, e o saque da madeira avan\u00e7a.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/forno_TI_Cachoeira_Seca-800x533.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Acampamento madeireiro dentro da Terra Ind\u00edgena Cachoeira Seca (Foto: Luna\u00e9 Parracho \/ Rep\u00f3rter Brasil)<\/em><\/p>\n<p>Mas a serraria de Manoel \u00e9 peixe pequeno no mar de ilegalidades operado pela ind\u00fastria madeireira na regi\u00e3o. A cidade de Uruar\u00e1 integra um dos maiores polos em expans\u00e3o da ind\u00fastria madeireira na Amaz\u00f4nia brasileira. A ilegalidade, por\u00e9m, \u00e9 crescente e expl\u00edcita. Qualquer um pode ver os caminh\u00f5es sem placa, carregados de toras de \u00e1rvores nativas, andando em comboio pela Transamaz\u00f4nica. Muitos saem de dentro de terras ind\u00edgenas, fartas no entorno da rodovia federal, que corta a bacia do Xingu.<\/p>\n<p>Estima-se que 62% da madeira retirada do Par\u00e1 seja ilegal. Os c\u00e1lculos s\u00e3o de <a href=\"http:\/\/www.fundovale.org\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Imazon_fatos-florestais-da-amazonia-2010.pdf\">estudo do Imazon<\/a> (Instituto do Homem e Meio Ambiente), que cruzou a quantidade de madeira produzida em 2009 com o volume autorizado pelos \u00f3rg\u00e3os ambientais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do preju\u00edzo \u00e0 floresta, a ilegalidade do setor tamb\u00e9m pressiona povos ind\u00edgenas, assentados e comunidades ribeirinhas, que t\u00eam seus territ\u00f3rios invadidos para o roubo da madeira.<\/p>\n<p>Dias antes do flagrante, a equipe do Minist\u00e9rio de Trabalho fizera incurs\u00f5es na Terra Ind\u00edgena Cachoeira Seca. L\u00e1, vivem os Arara, \u00edndios de recente contato. Pressionados pela invas\u00e3o dos madeireiros, est\u00e3o ficando ilhados dentro de sua terra. Evitam ca\u00e7ar em certas \u00e1reas e escutam o barulho das motosserras de diversos pontos. O caso \u00e9 acompanhado de perto pelo Instituto Socioambiental (ISA), que h\u00e1 anos divulga <a href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/blog.socioambiental.org\/files\/nsa\/arquivos\/rotasdosaque_digital02.pdf\">estudos<\/a> e alertas sobre a gravidade do caso.<\/p>\n<p>A equipe de Marcelino passou dias pelas pequenas estradas dentro da terra ind\u00edgena, viram barracos iguais ao de Jo\u00e3o, pilhas de toras, al\u00e9m de queimadas. Por\u00e9m, ao cruzar com um homem de moto, foram informados que poderiam desistir, a not\u00edcia sobre a presen\u00e7a \u201cda federal\u201d j\u00e1 circulava pelo sistema clandestino de r\u00e1dios.<\/p>\n<p><strong>Escondidos sob a floresta<\/strong><\/p>\n<p>Embora centenas de toras j\u00e1 tivessem sa\u00eddo dali, o local onde Jo\u00e3o foi resgatado n\u00e3o aparece nos mapas de desmatamento. Isso porque sua tarefa era buscar apenas as \u00e1rvores mais valiosas, fazendo o que se convencionou chamar de \u201cextra\u00e7\u00e3o seletiva de madeira\u201d: a \u00e1rvore \u00e9 escolhida com cuidado e cortada individualmente, sem abrir as clareiras detectadas por sat\u00e9lite.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica est\u00e1 crescendo justamente porque dribla a fiscaliza\u00e7\u00e3o. Depois que as \u00e1rvores valiosas s\u00e3o retiradas e levadas para a serraria, a origem ilegal \u00e9 \u201clavada\u201d com notas de planos de manejo (locais autorizados a fazer a extra\u00e7\u00e3o seletiva de alguns tipos de \u00e1rvores nativas). Embora o funcionamento do esquema seja bem conhecido por especialistas e autoridades brasileiras, ainda n\u00e3o h\u00e1 uma estrat\u00e9gia para furar o cerco.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/mapanovo3.jpg\" \/><\/p>\n<p>Entre todos os crimes que a ilegalidade do\u00a0setor esconde do radar do estado, o trabalho escravo \u00e9 um dos mais graves. Apenas no Par\u00e1, 931 trabalhadores foram resgatados enquanto desmatavam ou extraiam \u00e1rvores de 2003 a 2016, segundo cruzamento de dados oficiais feito pela Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT).<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o \u201cindissoci\u00e1vel\u201d entre o trabalho escravo e a retirada ilegal de \u00e1rvores foi uma das conclus\u00f5es de pesquisa in\u00e9dita feita pela Rede de A\u00e7\u00e3o Integrada para Combater a Escravid\u00e3o. O estudo aponta que os riscos e condi\u00e7\u00f5es degradantes enfrentados por Jo\u00e3o s\u00e3o comuns aos milhares de trabalhadores do setor (Veja anima\u00e7\u00e3o sobre o estudo:<strong> \u201c<\/strong><a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/2017\/03\/quem-sao-os-homens-que-arriscam-a-vida-para-cortar-arvores\/\" target=\"_blank\">Quem s\u00e3o os homens que derrubam a floresta<\/a>\u201d). Realidade que permanece invis\u00edvel aos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos.<\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o tem como ir e vir, o patr\u00e3o n\u00e3o deixa\u201d, diz um trabalhador<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o tantos os casos que, enquanto aguardavam a regulariza\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o e seus colegas, os fiscais seguiram outras pistas e resgataram mais sete trabalhadores cortando madeira em situa\u00e7\u00e3o de trabalho escravo. Dessa vez o empregador era Eudemberto Sampaio de Souza, dono da serraria Betel, tamb\u00e9m responsabilizado pelo crime.<\/p>\n<p>Quando se alastrou pela cidade a not\u00edcia sobre os fiscais, trabalhadores come\u00e7aram a bater na porta do hotel onde a equipe estava hospedada. Dessa vez, os relatos eram ainda mais pesados. Falavam de amea\u00e7as f\u00edsicas, da contrata\u00e7\u00e3o de pistoleiros e homic\u00eddios que seriam encomendados pelos donos das serrarias.<\/p>\n<p><strong>Funcion\u00e1rios ou ref\u00e9ns?<\/strong><\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s viemos a\u00ed, mas estamos com medo. Muito medo mesmo\u201d, disse um dos homens que buscou a ajuda dos fiscais. Ele contrai o rosto ao contar que seu patr\u00e3o contratara um matador profissional para vigiar seus passos, e de outros colegas, desde que eles se atreveram a cobrar um pagamento atrasado.<\/p>\n<p>O nome dos empregadores denunciados por amea\u00e7as de morte est\u00e3o sendo investigados, mas n\u00e3o ser\u00e3o identificados para n\u00e3o colocar ainda mais em risco a vida dos trabalhadores.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os relatos sobre calotes seguidos de viol\u00eancia para fugir da d\u00edvida. \u201cEle [dono da serraria] fala: \u2018melhor pagar 3 mil para um pistoleiro, do que pagar 5 ou 6 mil pra um funcion\u00e1rio\u2019\u201d. Realidade corroborada por outros entrevistados: \u201cchega no final do m\u00eas, se tiver muito pra receber, eles mandam matar. Eu j\u00e1 vi isso acontecer. Foi dentro da cidade mesmo, executaram ele\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/fiscais-colhem-informacoes-trabalhador-TRATAR.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Auditor do trabalho, Marcelino (\u00e0 esquerda) e equipe da a\u00e7\u00e3o conversam com trabalhador (Foto: Luna\u00e9 Parracho\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/em><\/p>\n<p>Homens de baixa renda, muitos analfabetos e migrantes, os trabalhadores n\u00e3o t\u00eam a quem recorrer, pois n\u00e3o confiam nas autoridades locais. \u201cA pol\u00edcia militar aqui \u00e9 um perigo. Vai na serraria dele pegar dinheiro, pegar madeira, tanto a militar como a civil. Se algum de n\u00f3s denunciar um cara desse para a pol\u00edcia daqui, isso \u00e9 suic\u00eddio\u201d, disse outro trabalhador.<\/p>\n<p>Se a viol\u00eancia j\u00e1 parece desproporcional para quem cobra seus direitos na cidade, \u00e9 ainda pior na mata. O total isolamento, na maior parte das vezes, faz com que os trabalhadores tenham medo de fazer qualquer tipo de reclama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u201cchega no final do m\u00eas, se tiver muito pra receber, eles mandam matar. Eu j\u00e1 vi isso acontecer\u201d, diz trabalhador<\/em><\/p>\n<p>Isso quando n\u00e3o s\u00e3o abandonados, sem meio de locomo\u00e7\u00e3o. \u201cNo dia da vota\u00e7\u00e3o [elei\u00e7\u00f5es municipais 2016], a gente passou cinco dias no mato sem chegar rancho [comida]. Nem vir pra votar ningu\u00e9m veio\u201d, lembra um tratorista.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tem como ir e vir, o patr\u00e3o n\u00e3o deixa. Se n\u00e3o ficar no mato, perde o emprego. S\u00f3 o patr\u00e3o vai na casa da gente dar algum recado. A gente s\u00f3 recebe not\u00edcia\u201d, diz outro trabalhador, que tem filhos pequenos na cidade.<\/p>\n<p>Diante do alto n\u00famero de den\u00fancias sobre viol\u00eancias que v\u00e3o al\u00e9m do direito trabalhista, o procurador do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho Allan Bruno, que tamb\u00e9m integrava a opera\u00e7\u00e3o, recolheu as den\u00fancias e repassou ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, que deve investigar os casos dentro de poss\u00edveis a\u00e7\u00f5es penais sobre reten\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios e amea\u00e7as \u00e0 vida, al\u00e9m de crimes de natureza ambiental, fundi\u00e1ria e fiscal.<\/p>\n<p><strong>Um longo caminho para a mudan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>No segundo flagrante de trabalho escravo feito pela equipe, a resposta do empres\u00e1rio responsabilizado pelo crime revela o modo como os madeireiros enxergam os trabalhadores.<\/p>\n<p>\u201cA gente pede os documentos para o suposto funcion\u00e1rio, eles falam que perderam. Voc\u00ea pede o nome, eles d\u00e3o apelido. Muitos s\u00e3o drogados, p\u00e9 inchado [alco\u00f3latras]. S\u00e3o pessoas que surgem do Mato Grosso, do Maranh\u00e3o, da Bahia, do Pernambuco. Ningu\u00e9m sabe sua hist\u00f3ria, ningu\u00e9m sabe o seu passado. Ent\u00e3o isso n\u00e3o se v\u00ea, que muitas vezes a gente leva um cara desses para trabalhar e estamos salvando a vida dele\u201d, diz Eudemberto Sampaio, dono da serraria Betel.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/trator-madeira-ilegal-300x200.jpg\" width=\"782\" height=\"521\" \/><\/p>\n<p><em>Trator em acampamento madeireiro ilegal dentro de terra ind\u00edgena (Foto: Luna\u00e9 Parracho\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/em><\/p>\n<p>O depoimento \u00e9 um term\u00f4metro da baixa disposi\u00e7\u00e3o do setor para se legalizar. Ao mirar na erradica\u00e7\u00e3o do trabalho escravo, o Minist\u00e9rio do Trabalho mexe em um dos pilares da ilegalidade, mas h\u00e1 muitos outros.<\/p>\n<p>O tamanho do problema foi exposto pela<a href=\"https:\/\/mpf.jusbrasil.com.br\/noticias\/237530381\/caso-madeira-limpa-mpf-pa-denuncia-30-acusados-a-justica\" target=\"_blank\"> Opera\u00e7\u00e3o Madeira Limpa<\/a>, deflagrada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e Pol\u00edcia Federal. A opera\u00e7\u00e3o prendeu 21 pessoas na regi\u00e3o oeste do Par\u00e1 em 2015, entre eles tr\u00eas funcion\u00e1rios p\u00fablicos de diferentes esferas do governo. A quadrilha fazia desmatamento e extra\u00e7\u00e3o seletiva ilegal de madeira, grilagem e coagia os assentados a autorizar a retirada de \u00e1rvores de suas terras.<\/p>\n<p><em>\u201cA gente leva um cara desses para trabalhar e estamos salvando a vida dele\u201d, diz dono da serraria<\/em><\/p>\n<p>Alguns dos casos denunciados na opera\u00e7\u00e3o j\u00e1 estavam na \u201cLista Suja do Trabalho Escravo\u201d, que re\u00fane os flagrantes do Minist\u00e9rio do Trabalho. Entre eles estava a madeireira Iller, responsabilizada por trabalho escravo e crime ambiental. A madeireira faz parte da segunda parte da investiga\u00e7\u00e3o da <b>Rep\u00f3rter Brasil<\/b>. Aos rastrear degraus acima da cadeia de fornecedores dessa e de outras serrarias, a reportagem descobriu rela\u00e7\u00f5es comerciais com fornecedores de grandes marcas nacionais e internacionais (Leia mat\u00e9ria: \u201c<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/2017\/03\/tramontina-comprou-madeira-de-serraria-flagrada-com-trabalho-escravo\/\" target=\"_blank\">Tramontina comprou madeira de serraria flagrada com trabalho escravo<\/a>\u201d).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/caminhao-ilegal-inspecao-fiscais-LUNAE-PARRACHO-300x200.jpg\" width=\"908\" height=\"605\" \/><\/p>\n<p><em>Caminh\u00e3o sem placa leva toras de \u00e1rvores para serrarias em Ururar\u00e1 (Foto: Luna\u00e9 Parracho\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/em><\/p>\n<p>O auditor do trabalho Jos\u00e9 Marcelino lembra que essa opera\u00e7\u00e3o foi apenas o come\u00e7o de uma investiga\u00e7\u00e3o de f\u00f4lego que busca descobrir o funcionamento da ind\u00fastria ilegal de extra\u00e7\u00e3o seletiva de madeira em em parceria com o MPF e MPT e em uma tentativa de di\u00e1logo com \u00f3rg\u00e3os ambientais e fundi\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u201cTemos que aprender como entrar nesse setor, estudar as estrat\u00e9gias\u201d, afirma. Marcelino j\u00e1 aprendeu que, na ponta, trata-se de um setor desorganizado e que convive com altos riscos econ\u00f4micos. \u201cA derrubada das \u00e1rvores n\u00e3o quer dizer que est\u00e1 garantida a venda da madeira. E, como o empres\u00e1rio n\u00e3o tem um capital de giro adequado, ele n\u00e3o arca com os custos para tratar os trabalhadores de forma adequada\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Apesar do aparente improviso, Marcelino sabe que a escolha em fazer a extra\u00e7\u00e3o ilegal \u00e9 uma decis\u00e3o bastante racional, baseada em um ambiente de baixo investimento empresarial legalizado, grande potencial de explora\u00e7\u00e3o de trabalhadores vulner\u00e1veis e baixo risco de serem pegos pela fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s receber o dinheiro da rescis\u00e3o, Jo\u00e3o saiu dizendo que voltaria para o mato, mesmo que fosse nas mesmas condi\u00e7\u00f5es, se n\u00e3o conseguisse outro emprego nos pr\u00f3ximos meses.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o queria servi\u00e7o de destruir a natureza. Mas t\u00f4 longe da minha terra, precisando trabalhar. Eu n\u00e3o vou roubar, nem virar mendigo. Se \u00e9 isso que tem, eu vou encarar\u201d.<\/p>\n<p>Reportagem parte do especial <a href=\"http:\/\/www.reporterbrasil.org.br\/madeireiro\" target=\"_blank\">Profiss\u00e3o Madeireiro<\/a>.<\/p>\n<p>*O nome dos trabalhadores foi alterado. Ainda assim, todos correm risco de vida. A Rep\u00f3rter Brasil permanece acompanhando o caso de perto.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Ana Aranha e Tania Caliari, Fotos Luna\u00e9 Parracho, Rep\u00f3rter Brasil de 13 de mar\u00e7o de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P\u00e1tio madeireiro dentro da Terra Ind\u00edgena Cachoeira Seca, no Par\u00e1 (Foto: Luna\u00e9 Parracho \/ Rep\u00f3rter Brasil) Entre acidentes fatais e amea\u00e7as dos donos de serrarias, homens cortam \u00e1rvores de modo ilegal no Par\u00e1. 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