{"id":19257,"date":"2017-04-17T17:00:51","date_gmt":"2017-04-17T20:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=19257"},"modified":"2017-03-29T10:20:34","modified_gmt":"2017-03-29T13:20:34","slug":"a-fabrica-de-ilusoes-que-leva-ao-colapso-civilizacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-fabrica-de-ilusoes-que-leva-ao-colapso-civilizacional\/","title":{"rendered":"A f\u00e1brica de ilus\u00f5es que leva ao colapso civilizacional"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/6\/5163\/5220553217_572a4da9d1_b.jpg\" \/><em><a id=\"yui_3_11_0_3_1490793291200_363\" href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/leominucci\/\">Leo Minucci<\/a><\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562926-desmatamento-na-amazonia-dispara-neste-ano-e-chega-a-quase-8-mil-km\">Desmatamento na Amaz\u00f4nia dispara neste ano e chega a quase 8 mil km\u00b2. <\/a>A ideia<strong> desenvolvimentista<\/strong>, movida pela fome de consumo e necessidade de produ\u00e7\u00e3o, aliada ao incipiente investimento em <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562668-energias-renovaveis-sao-oportunidade-de-integracao-energetica-da-america-latina\" target=\"_blank\">energias renov\u00e1veis<\/a>, tem nos levado a tempos sombrios. \u201cO <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/543772-energia-nao-renovavel-amplia-sua-participacao-na-matriz-energetica-brasileira\" target=\"_blank\">Brasil<\/a>\u00a0tem sido um fiasco no investimento em energias renov\u00e1veis\u201d, dispara <strong>Alexandre Costa<\/strong>, f\u00edsico e professor da Universidade Estadual do Cear\u00e1. Com parcos investimentos na <strong>energia solar<\/strong>, o pa\u00eds insiste nas fontes f\u00f3sseis. \u201cN\u00e3o entendo o fetiche da esquerda brasileira com o petr\u00f3leo. A mudan\u00e7a da regra de explora\u00e7\u00e3o do <strong>pr\u00e9-sal<\/strong> \u00e9 um desastre, mas n\u00e3o apenas nem principalmente por aumentar a presen\u00e7a das petroqu\u00edmicas no setor. \u00c9 por acelerar a extra\u00e7\u00e3o de um estoque de carbono que, no contexto da crise clim\u00e1tica, teria de permanecer exatamente onde est\u00e1\u201d, pontua.<\/p>\n<p>Na entrevista, concedida por e-mail \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong>, <strong>Costa<\/strong> destaca que esse modelo dificulta at\u00e9 mesmo a conscientiza\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es mais pobres. S\u00e3o elas as mais atingidas pelos efeitos das<strong> <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562101-mudancas-climaticas-podem-levar-100-milhoes-de-pessoas-a-pobreza-alerta-banco-mundial\" target=\"_blank\">mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a><\/strong>, mas seguem anestesiadas porque \u201cse beneficiam a curto prazo e guardam ilus\u00f5es com esse modo de vida insustent\u00e1vel\u201d. \u201cA l\u00f3gica de expans\u00e3o ilimitada da produ\u00e7\u00e3o e consumo, uma ilus\u00e3o que os economistas e pol\u00edticos adoram vender, j\u00e1 ultrapassou os limites de equil\u00edbrio do Sistema Terra\u201d, alerta. Sem confrontar essa situa\u00e7\u00e3o, o \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/538621-o-colapso-da-civilizacao-urbano-industrial-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves\" target=\"_blank\">colapso dessa civiliza\u00e7\u00e3o<\/a> \u00e9 inevit\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<div class=\"ihu-small-image-left\">\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/549768-com-as-catastrofes-climaticas-batendo-a-porta-estadistas-discutem-acordo-global-na-cop-21-entrevista-especial-com-alexandre-costa\" target=\"_blank\"><strong>Alexandre Ara\u00fajo Costa<\/strong><\/a> \u00e9 professor da Universidade Estadual do Cear\u00e1. Formado em F\u00edsica, Ph.D. em Ci\u00eancias Atmosf\u00e9ricas pela Universidade do Estado do Colorado, com p\u00f3s-doutorado na Universidade de Yale. Foi um dos autores principais do primeiro relat\u00f3rio do Painel Brasileiro de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas. Militante ecossocialista e ativista clim\u00e1tico, edita o blog <strong>O Que Voc\u00ea Faria se Soubesse o Que Eu Sei<\/strong> e \u00e9 um dos coordenadores do f\u00f3rum de articula\u00e7\u00e3o Cear\u00e1 no Clima.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>De mar\u00e7o a junho, o <strong>Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU<\/strong> promove o ciclo de confer\u00eancias <a href=\"http:\/\/www.unisinos.br\/eventos\/os-biomas-brasileiros-e-a-teia-da-vida-14-pascoa-ihu-ex122801-00001\" target=\"_blank\">Os biomas brasileiros e a teia da vida<\/a>. Veja a <a href=\"http:\/\/www.unisinos.br\/eventos\/os-biomas-brasileiros-e-a-teia-da-vida-14-pascoa-ihu-ex122801-00001\" target=\"_blank\">programa\u00e7\u00e3o completa aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como compreender o papel dos biomas brasileiros na complexa equa\u00e7\u00e3o do clima? Cientistas j\u00e1 comprovaram que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o associadas, tamb\u00e9m, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da Floresta Amaz\u00f4nica e que o desmatamento nessa regi\u00e3o pode influenciar, por exemplo, o ciclo de chuvas no sudeste brasileiro. Como compreender essas rela\u00e7\u00f5es? Quais os desafios para se converter essa compreens\u00e3o em mudan\u00e7a de h\u00e1bitos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre Ara\u00fajo Costa &#8211;<\/strong> Trata-se de uma intera\u00e7\u00e3o de m\u00e3o dupla, j\u00e1 que <strong>atmosfera<\/strong> e <strong>biosfera<\/strong> [1] interagem por uma variedade de processos. De um lado, as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas mais gerais, de temperatura e precipita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas a quantidade, mas sua distribui\u00e7\u00e3o anual, \u00e9 determinante para a exist\u00eancia desse ou daquele bioma: da <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/389\" target=\"_blank\">Caatinga<\/a>, no semi\u00e1rido, \u00e0s florestas \u00famidas. Mas a biosfera tamb\u00e9m interage de volta. Localmente, eles tamb\u00e9m s\u00e3o muito relevantes na manuten\u00e7\u00e3o da hidrografia, incluindo a vegeta\u00e7\u00e3o junto \u00e0s nascentes e as matas ciliares, sendo ineg\u00e1veis os efeitos que a devasta\u00e7\u00e3o da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/544688-o-desafio-de-refazer-a-biodiversidade-da-mata-atlantica\" target=\"_blank\">Mata Atl\u00e2ntica<\/a>, do <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/382\" target=\"_blank\">Cerrado<\/a> e da Caatinga tiveram nesse sentido.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, sabe-se, embora os mecanismos ainda n\u00e3o sejam inteiramente conhecidos, que a <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/211\" target=\"_blank\">Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0tem um papel relevante na distribui\u00e7\u00e3o de chuvas na <strong>Am\u00e9rica do Sul<\/strong>, ao bombear parte da umidade que \u00e9 transportada pelo chamado jato de baixos n\u00edveis para a Regi\u00e3o Sudeste. Na floresta, compostos org\u00e2nicos vol\u00e1teis s\u00e3o tamb\u00e9m uma importante fonte de n\u00facleos de condensa\u00e7\u00e3o, influenciando o ciclo de vida das nuvens.<\/p>\n<p><em>&#8220;Os biomas brasileiros, especialmente a Amaz\u00f4nia, representam um enorme estoque de carbono e cumprem importantes pap\u00e9is na mitiga\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Por fim, devo lembrar que os <strong>biomas brasileiros<\/strong>, especialmente a <strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>, representam um enorme estoque de carbono e cumprem importantes pap\u00e9is na <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/565194-e-preciso-declarar-guerra-ao-desmate\" target=\"_blank\">mitiga\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a>. Entender a ciclagem de \u00e1gua e carbono e as influ\u00eancias do desmatamento, queimadas e mudan\u00e7a do clima global nesses biomas requer pesquisa, com o devido financiamento (como se viu no <em>Large-Scale Biosphere-Atmosphere Experiment &#8211; LBA in Amazonia<\/em>). Mas preserv\u00e1-los vai al\u00e9m da mudan\u00e7a de h\u00e1bitos (por exemplo, reduzir o consumo de carne, principalmente se a proced\u00eancia desta for a <strong>Amaz\u00f4nia<\/strong> ou o <strong>Cerrado<\/strong>). \u00c9 preciso ter pol\u00edticas p\u00fablicas no sentido contr\u00e1rio daquelas que v\u00eam sendo aplicadas h\u00e1 v\u00e1rios anos e que levou \u00e0 expans\u00e3o da soja, da pecu\u00e1ria, da minera\u00e7\u00e3o, da explora\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis e da constru\u00e7\u00e3o de grandes barragens, como <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/551635-belo-monte-e-a-logica-do-capital-e-dos-jogos-politicos-que-sufocam-a-vida-entrevista-especial-com-ubiratan-cazetta\" target=\"_blank\">Belo Monte<\/a>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Em que medida j\u00e1 se pode perceber os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nos biomas do Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre Ara\u00fajo Costa &#8211;<\/strong> Uma das caracter\u00edsticas da din\u00e2mica de uma atmosfera aquecida \u00e9 que os <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/552246-fenomenos-climaticos-extremos-como-chuvas-ou-secas-podem-ter-um-impacto-devastador-na-producao-agricola\" target=\"_blank\">extremos de seca e de chuva<\/a>\u00a0se exacerbam (trata-se de um mecanismo f\u00edsico bastante simples, que \u00e9 o aumento da press\u00e3o de vapor de satura\u00e7\u00e3o associada ao aumento de temperatura). Isto j\u00e1 tem provocado mudan\u00e7as importantes na frequ\u00eancia de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/547897-aquecimento-pode-triplicar-seca-na-amazonia\" target=\"_blank\">secas na Amaz\u00f4nia<\/a>.<\/p>\n<p>Um artigo publicado h\u00e1 dois anos na <strong>Nature<\/strong> [2] mostra o grave problema que pode representar uma sequ\u00eancia de grandes secas na regi\u00e3o. Os autores examinaram os efeitos das secas de 2005 e 2010 e os resultados mostraram um decr\u00e9scimo na captura de CO2 pela floresta: a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/542423-1-das-arvores-da-amazonia-captura-metade-do-carbono-da-regiao\" target=\"_blank\">Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0deixou de capturar nada menos que 380 milh\u00f5es de toneladas de carbono, o que equivale aproximadamente ao funcionamento de 200 usinas termel\u00e9tricas de grande porte.<\/p>\n<p>Os autores tamb\u00e9m avan\u00e7aram numa discuss\u00e3o sobre aquilo que, para mim, parece uma verdadeira armadilha do sistema fisiol\u00f3gico vegetal. Como este \u00e9 orientado para um determinado comportamento competitivo, num bioma em que se d\u00e1 melhor quem cresce verticalmente e expande a copa, a fisiologia leva a um menor investimento em manuten\u00e7\u00e3o de tecidos e em defesa em condi\u00e7\u00f5es de fotoss\u00edntese suprimida em consequ\u00eancia da seca. E a\u00ed vem o desastre subsequente: o aumento da mortalidade das \u00e1rvores, o que leva a emitir mais <strong>CO2<\/strong>, aquecer ainda mais o clima, produzir secas ainda mais severas etc., ou seja, estabelecendo aquilo que chamamos de \u201cfeedback positivo\u201d ou retroalimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No <strong>Nordeste<\/strong>, tamb\u00e9m h\u00e1 ind\u00edcios de que podemos estar mudando a \u201cnorma\u201d, isto \u00e9, que a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562171-depois-de-cinco-anos-de-seca-no-nordeste-a-possibilidade-de-um-colapso-e-significativa-entrevista-especial-com-david-ferran-versao-2\" target=\"_blank\">seca que atravessamos<\/a> possa ser uma amostra do futuro da regi\u00e3o com a <strong>mudan\u00e7a clim\u00e1tica<\/strong> global em curso.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O Nordeste brasileiro entra no sexto ano do que pode ser a pior seca de sua hist\u00f3ria. Uma mudan\u00e7a no modelo de desenvolvimento, tomando como prioridade as energias renov\u00e1veis, mudaria esse cen\u00e1rio? Como?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre Ara\u00fajo Costa &#8211;<\/strong> H\u00e1 expectativa de que pelo menos em parte da regi\u00e3o o longo per\u00edodo de seca seja interrompido. Pelo menos \u00e9 o que o progn\u00f3stico da <strong>Funda\u00e7\u00e3o Cearense de Meteorologia e Recursos H\u00eddricos<\/strong> aponta, para a por\u00e7\u00e3o mais ao norte do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/565062-seca-no-semiarido-do-nordeste-do-pais-que-ja-dura-seis-anos-podera-se-agravar-ate-abril\" target=\"_blank\">Nordeste<\/a>. Mas de qualquer modo, o que se viu de 2012 a 2016 \u00e9 obviamente at\u00edpico. A maior parte do Nordeste entrou em seca extraordin\u00e1ria e no <strong>Cear\u00e1<\/strong> tivemos a menor m\u00e9dia de cinco anos j\u00e1 observada na hist\u00f3ria, sendo que o estado mant\u00e9m registros de precipita\u00e7\u00e3o desde pelo menos o in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que se diga que eventos extraordin\u00e1rios como esse dificilmente podem ser associados a uma \u00fanica causa. As <strong>mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong> certamente j\u00e1 est\u00e3o tendo influ\u00eancia, mas \u00e9 preciso mais estudos para identificarmos como e quanto. Mesmo sem o <strong>aquecimento global<\/strong>, o <strong>Nordeste<\/strong> setentrional \u00e9 sens\u00edvel \u00e0 variabilidade clim\u00e1tica natural, com as chuvas tendendo a diminuir ou aumentar de acordo com os padr\u00f5es de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/551445-oceano-mais-quente-muito-mais-degradado\" target=\"_blank\">temperatura oce\u00e2nica<\/a> no Pac\u00edfico e Atl\u00e2ntico e, no momento, os modos de variabilidade de longo prazo em ambos os oceanos est\u00e3o em fase desfavor\u00e1vel para as chuvas na regi\u00e3o. A degrada\u00e7\u00e3o ambiental na escala local, com o desmatamento comprometendo matas ciliares e nascentes e assoreando rios e reservat\u00f3rios, tamb\u00e9m precisa ser colocada nessa contabilidade. Uma inadequada e insuficiente pol\u00edtica de res\u00edduos e saneamento contribui tamb\u00e9m para o comprometimento da qualidade da \u00e1gua na regi\u00e3o.<\/p>\n<p><em>&#8220;A vulnerabilidade da regi\u00e3o \u00e9 amplificada por conta das escolhas dos modelos de desenvolvimento&#8221;<\/em><\/p>\n<p>E a vulnerabilidade da regi\u00e3o \u00e9 amplificada por conta das escolhas dos modelos de desenvolvimento. A multiplica\u00e7\u00e3o das obras h\u00eddricas n\u00e3o levou em conta em geral as necessidades da maioria da popula\u00e7\u00e3o e visou essencialmente ao favorecimento de determinadas atividades econ\u00f4micas, como o agroneg\u00f3cio e setores industriais hidrointensivos. Em particular, a instala\u00e7\u00e3o de termel\u00e9tricas na regi\u00e3o se mostrou uma atitude irrespons\u00e1vel e desprovida de qualquer m\u00ednimo bom senso.<\/p>\n<p><strong>Emerg\u00eancia de outras fontes de energia<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 urgente inverter a l\u00f3gica da gera\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica da regi\u00e3o, com \u00eanfase nas <strong>energias renov\u00e1veis<\/strong>, mas sobretudo na microgera\u00e7\u00e3o solar, residencial, pois at\u00e9 mesmo os parques e\u00f3licos, instalados numa l\u00f3gica mercantilista, t\u00eam sido prejudiciais para v\u00e1rias comunidades, principalmente na zona costeira. O aproveitamento da energia solar poderia ser uma solu\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias quest\u00f5es simultaneamente: seguran\u00e7a energ\u00e9tica, redu\u00e7\u00e3o do uso de \u00e1gua e de emiss\u00f5es de <strong>CO2<\/strong> associados \u00e0s termel\u00e9tricas, distribui\u00e7\u00e3o de renda mediante barateamento da conta de luz e, claro, gera\u00e7\u00e3o de empregos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como compreender o fato de que o desmatamento na Amaz\u00f4nia e em toda \u00e1rea de Mata Atl\u00e2ntica cresce a cada ano?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre Ara\u00fajo Costa &#8211;<\/strong> Infelizmente, as raz\u00f5es s\u00e3o bastante n\u00edtidas, com destaque para a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/565372-desmatamento-da-amazonia-que-ja-esteve-sob-controle-retorna-com-forca\" target=\"_blank\">expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola<\/a> por press\u00e3o do agroneg\u00f3cio. Na configura\u00e7\u00e3o mundial do <strong>capitalismo<\/strong>, o <strong>Brasil<\/strong> entrou como exportador de commodities, incluindo min\u00e9rio de ferro, soja etc. Esse modelo de desenvolvimento mostrou-se mais perverso justamente quando o pre\u00e7o dessas commodities cai no mercado internacional. N\u00e3o \u00e9 de se espantar que o avan\u00e7o da <strong>minera\u00e7\u00e3o<\/strong>, especialmente em que ela tenta compensar lucros menores aumentando a quantidade da produ\u00e7\u00e3o, produza crimes terr\u00edveis como o da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/559620-estudo-mostra-falha-que-causou-tragedia-na-barragem-da-samarco-em-mariana-2\" target=\"_blank\">Samarco<\/a>\u00a0[3].<\/p>\n<p>Os <strong>ruralistas<\/strong>, de olho inclusive nas<strong> terras ind\u00edgenas e quilombolas<\/strong>, s\u00e3o o outro setor econ\u00f4mico que se fortaleceu recentemente, pressionando contra a demarca\u00e7\u00e3o de <strong>Terras Ind\u00edgenas &#8211; TIs<\/strong> e <strong>Terras Quilombolas &#8211; TQs<\/strong> e especialmente neste governo tem dado mostras de que est\u00e1 disposto a n\u00e3o parar no desmonte do<strong> C\u00f3digo Florestal<\/strong>. Todas as articula\u00e7\u00f5es desse setor concorrem para reduzir a prote\u00e7\u00e3o aos biomas e no ano passado as emiss\u00f5es brasileiras de <strong>CO2<\/strong> cresceram justamente por conta do aumento do desmatamento.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais os avan\u00e7os e limites do Brasil nas pol\u00edticas de combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e preserva\u00e7\u00e3o de seus biomas? Quais os maiores desafios para conscientizar as popula\u00e7\u00f5es das metr\u00f3poles de que seus h\u00e1bitos podem impactar no aquecimento global e que essas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas afetam diretamente os mais pobres que vivem nas periferias?<\/strong><\/p>\n<p><em>&#8220;Cerca de 40% do CO2 emitido vem ainda do desmatamento e sem medidas s\u00e9rias para zer\u00e1-lo&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>Alexandre Ara\u00fajo Costa &#8211;<\/strong> \u00c9 por conta dos fatores que coloquei antes, e de outros, que minha preocupa\u00e7\u00e3o cresce em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade do Brasil de cumprir com seus compromissos internacionais para o clima, em particular a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/557219-metas-nacionais-declaradas-na-cop-21-nao-garantem-elevacao-de-apenas-2co\" target=\"_blank\">INDC<\/a>\u00a0(a contribui\u00e7\u00e3o nacional para redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es). Cerca de 40% do <strong>CO2<\/strong> emitido vem ainda do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/516398-desmate-da-amazonia-gera-mais-co2-que-total-de-carros-do-pais-diz-imazon\" target=\"_blank\">desmatamento<\/a>, e sem medidas s\u00e9rias para zer\u00e1-lo, ou no m\u00ednimo para reduzi-lo drasticamente nos pr\u00f3ximos anos, ser\u00e1 imposs\u00edvel atingir as metas. Importante frisar: essas s\u00e3o, em tese, as emiss\u00f5es \u201cf\u00e1ceis\u201d de cortar.<\/p>\n<p>Os outros dois grandes contribuintes para as <strong>emiss\u00f5es brasileiras<\/strong> s\u00e3o o setor de energia. Incluindo transportes e agropecu\u00e1ria, sendo que neste \u00faltimo caso est\u00e3o as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa v\u00e1rias vezes mais potentes que o CO2, no caso o metano e o \u00f3xido nitroso. Ora, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma pol\u00edtica p\u00fablica no horizonte de redu\u00e7\u00e3o do rebanho bovino, principal fonte de emiss\u00e3o de metano, por fermenta\u00e7\u00e3o ent\u00e9rica.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da energia, o <strong>Brasil<\/strong> tem sido um fiasco no investimento em <strong>energias renov\u00e1veis<\/strong>, sendo especialmente p\u00edfio no aproveitamento da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/546497-por-que-a-energia-solar-nao-deslancha-no-brasil\" target=\"_blank\">energia solar<\/a>. O predom\u00ednio do modal rodovi\u00e1rio, os incentivos ao uso de derivados de petr\u00f3leo, incluindo o pr\u00e9-sal, e ao transporte individual, pol\u00edticas que foram vendidas como caminho para o \u201cdesenvolvimento nacional\u201d se mostram um beco sem sa\u00edda nesse terreno. Os incentivos \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis, especialmente petr\u00f3leo e g\u00e1s, podem inclusive levar ao aumento das chamadas emiss\u00f5es fugitivas.<\/p>\n<p><strong>Fetiche petroleiro<\/strong><\/p>\n<p>Como tenho dito, ali\u00e1s, n\u00e3o entendo o fetiche da esquerda brasileira com o petr\u00f3leo. Sim, a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/552594-novas-regras-para-o-pre-sal-e-o-desinvestimento-em-combustiveis-fosseis\" target=\"_blank\">mudan\u00e7a da regra de explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal<\/a> \u00e9 um desastre, mas n\u00e3o apenas nem principalmente por aumentar a presen\u00e7a das petroqu\u00edmicas no setor. \u00c9 por acelerar a extra\u00e7\u00e3o de um estoque de carbono que, no contexto da crise clim\u00e1tica, teria de permanecer exatamente onde est\u00e1. Costumo dizer: \u201co petr\u00f3leo \u00e9 nosso para ficar no ch\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Desafios para sensibiliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 realmente trivial trabalhar o convencimento junto principalmente aos setores da popula\u00e7\u00e3o urbana que se beneficiam a curto prazo e guardam ilus\u00f5es com esse modo de vida insustent\u00e1vel. E n\u00e3o \u00e9 apenas em rela\u00e7\u00e3o ao uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis, mas a toda a insustentabilidade do uso de \u00e1gua, da cultura do consumismo e descarte&#8230; A l\u00f3gica de expans\u00e3o ilimitada da produ\u00e7\u00e3o e consumo, uma ilus\u00e3o que os economistas e pol\u00edticos adoram vender, j\u00e1 ultrapassou os limites de equil\u00edbrio do Sistema Terra.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; E verdade que os cientistas falam que entramos em outra \u00e9poca geol\u00f3gica em virtude da a\u00e7\u00e3o humana?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre Ara\u00fajo Costa &#8211;<\/strong> Sim, \u00e9 verdade. J\u00e1 ficou evidenciado um forte acordo, num grupo de trabalho de especialistas, que este tempo em que vivemos deve ser j\u00e1 caracterizado como uma nova \u00e9poca geol\u00f3gica, o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/564316-antropoceno-a-forca-destruidora-de-uma-especie\" target=\"_blank\">Antropoceno<\/a>\u00a0[4], embora ainda n\u00e3o tenha sido delimitado que refer\u00eancia deve ser adotada, nem do ponto de vista temporal nem do ponto de vista f\u00edsico-biogeoqu\u00edmico. De qualquer modo, a ado\u00e7\u00e3o do termo \u00e9 cada vez mais consensual. Mais recentemente, <strong>Gaffney<\/strong> [5] e <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/563388-antropoceno-uma-nova-era\" target=\"_blank\">Steffen<\/a>\u00a0[6] (2017) fizeram uma atualiza\u00e7\u00e3o das atuais condi\u00e7\u00f5es do <strong>Antropoceno<\/strong> e os n\u00fameros s\u00e3o cada vez mais assombrosos, especialmente quando comparamos as tend\u00eancias exponenciais e disruptivas do <strong>Antropoceno<\/strong> com a marcante estabilidade do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/559744-acao-humana-pos-fim-ao-holoceno-vivemos-uma-nova-epoca-geologica\" target=\"_blank\">Holoceno<\/a>\u00a0[7].<\/p>\n<p>Por conta da queima de <strong>combust\u00edveis f\u00f3sseis<\/strong> (carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s), a concentra\u00e7\u00e3o de CO2 sofreu uma mudan\u00e7a 1000 vezes mais r\u00e1pida do que a verificada entre 11 mil e 7 mil anos atr\u00e1s, chegando a 400 partes por milh\u00e3o (ppm), valor sem paralelo nos \u00faltimos 3 milh\u00f5es de anos. Em virtude de um maior efeito estufa, entre 1970 e 2015, a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/560244-a-maior-temperatura-em-5-milhoes-de-anos-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves\" target=\"_blank\">temperatura m\u00e9dia global<\/a> cresceu a uma taxa m\u00e9dia 170 vezes maior do que as mudan\u00e7as de temperatura verificadas durante o <strong>Holoceno<\/strong>. A quantidade de nitrog\u00eanio fixada hoje pelas atividades humanas excede todos os processos naturais somados e \u00e9 poss\u00edvel que os fluxos de f\u00f3sforo tenham sido simplesmente triplicados, produzindo desequil\u00edbrios nos ecossistemas aqu\u00e1ticos e comprometendo a qualidade da \u00e1gua em rios e reservat\u00f3rios.<\/p>\n<p><strong>Efeitos nos mares<\/strong><\/p>\n<p>Os <strong>oceanos<\/strong> est\u00e3o mais quentes, mais \u00e1cidos e com menos oxig\u00eanio: em 2016, acompanhando o recorde global de temperaturas, a superf\u00edcie dos oceanos ficou cerca de 1\u00b0C acima das temperaturas m\u00e9dias observadas no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. A acidez j\u00e1 \u00e9 26% maior do que no per\u00edodo pr\u00e9-industrial e o teor de oxig\u00eanio dissolvido nos oceanos caiu 2,1% em 50 anos. O fluxo de sedimentos decorrente da atividade mineradora atingiu impressionantes 57 bilh\u00f5es de toneladas ou cerca do triplo da soma daquilo que \u00e9 carregado pelos rios de todo o planeta.<\/p>\n<p><strong>6\u00aa grande extin\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Devido \u00e0 combina\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios fatores, como destrui\u00e7\u00e3o de habitats, ca\u00e7a e pesca indiscriminadas, introdu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies invasoras e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, a perda de esp\u00e9cies \u00e9 100 vezes maior do que o que seria considerado normal, situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 compar\u00e1vel \u00e0s grandes extin\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria da Terra. Em outras palavras, estamos entrando na <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/559380-a-humanidade-e-especista\" target=\"_blank\">6\u00aa grande extin\u00e7\u00e3o<\/a>. A contamina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica \u00e9 um fen\u00f4meno generalizado, com subst\u00e2ncias artificiais (e t\u00f3xicas) tendo sido encontradas at\u00e9 em seres vivos que habitam a<strong> Fossa das Marianas<\/strong> [8]. Em suma, se alguma civiliza\u00e7\u00e3o visitar a Terra, ou nela evoluir, e seus arque\u00f3logos resolverem perfurar a crosta para fazer pesquisa, v\u00e3o ficar horrorizados com o que ir\u00e3o encontrar.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Qual a rela\u00e7\u00e3o entre o paradigma econ\u00f4mico hegem\u00f4nico e o Antropoceno? Quais os desafios para se pensar noutro paradigma econ\u00f4mico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre Ara\u00fajo Costa &#8211;<\/strong> O sistema produtivo capitalista experimentou nas \u00faltimas d\u00e9cadas enormes transforma\u00e7\u00f5es, que colocaram o planeta sob intensa press\u00e3o no que diz respeito \u00e0s fontes de mat\u00e9rias-primas e de energia. Interconectado globalmente, o sistema capitalista proporcionou um fluxo extremamente intensivo n\u00e3o apenas de capital especulativo, mas desses materiais e dos produtos a partir deles fabricados. As redes longas desse sistema econ\u00f4mico ligaram, via extra\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o e consumo, praticamente todos os indiv\u00edduos em praticamente todos os cantos do planeta. Por terra, pelo ar e pelos mares, milh\u00f5es de toneladas de material de bauxita a celulares viajam todo ano, numa espiral crescente.<\/p>\n<p>O resultado dessa expans\u00e3o n\u00e3o apenas em volume do que \u00e9 produzido e consumido, mas no aumento da velocidade do transporte e do descarte, estabeleceu um conflito que faz a luta de classes parecer um di\u00e1logo amig\u00e1vel: a contradi\u00e7\u00e3o insol\u00favel entre um sistema intrinsecamente expansionista e um mundo limitado. Os chamados<strong> <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/539721-fronteiras-planetarias-20\" target=\"_blank\">limites planet\u00e1rios<\/a><\/strong>\u00a0est\u00e3o sendo um a um ultrapassados. As curvas de diversos par\u00e2metros assumiram a forma exponencial, configurando o que se convencionou chamar de &#8220;a grande acelera\u00e7\u00e3o&#8221;, particularmente n\u00edtida a partir da segunda metade do s\u00e9culo passado e in\u00edcio deste. \u00c9 isso que produziu o <strong>Antropoceno<\/strong>.<\/p>\n<p>Mas, na Natureza, tudo que cresce exponencialmente produz instabilidade, seguida de colapso. \u00c9 simples assim. Na F\u00edsica, quando resolvemos as equa\u00e7\u00f5es de um problema e uma das solu\u00e7\u00f5es \u00e9 de crescimento exponencial, n\u00f3s a descartamos, por ser implaus\u00edvel. Violar a conserva\u00e7\u00e3o da massa, a conserva\u00e7\u00e3o da energia e a 2\u00aa Lei da Termodin\u00e2mica parece ser o sonho da economia capitalista, mas s\u00f3 pode conduzir ao pesadelo de uma sociedade insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Colapso civilizacional<\/strong><\/p>\n<p><em>&#8220;As escolhas que mais salvaguardam o futuro s\u00e3o precisamente aquelas mais contr\u00e1rias \u00e0 l\u00f3gica do mercado e da acumula\u00e7\u00e3o de capital&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Por isso, costumo dizer, j\u00e1 que o colapso dessa civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel, precisamos de um \u201ccolapso do bem\u201d. As escolhas que mais salvaguardam o futuro (inclusive a velhice das gera\u00e7\u00f5es atuais) s\u00e3o precisamente aquelas mais contr\u00e1rias \u00e0 l\u00f3gica do mercado e da <strong>acumula\u00e7\u00e3o de capital<\/strong> (e s\u00e3o absolutamente urgentes). S\u00e3o as que batem de frente com incentivo ao <strong>consumismo<\/strong>, obsolesc\u00eancia programada, propaganda, uso extensivo de embalagens, cria\u00e7\u00e3o de falsas necessidades em torno de itens f\u00fateis e sup\u00e9rfluos, transporte individual, expans\u00e3o das fronteiras extrativista e agr\u00edcola, uso perdul\u00e1rio de mat\u00e9ria-prima e energia, matriz energ\u00e9tica concentrada e baseada principalmente em combust\u00edveis f\u00f3sseis, excesso de produ\u00e7\u00e3o, uso massivo de fertilizantes e outros agroqu\u00edmicos, jornadas de trabalho muito mais prolongadas do que o necess\u00e1rio, etc.<\/p>\n<p>As escolhas que salvaguardam o futuro s\u00e3o as no sentido de uma sociedade igualit\u00e1ria, democr\u00e1tica e que utiliza racional e contidamente a mat\u00e9ria e a energia que o restante da natureza lhe fornece. Precisamos urgentemente de uma inflex\u00e3o na velocidade dos processos e (tentativa de) revers\u00e3o das altera\u00e7\u00f5es ambientais delet\u00e9rias associadas ao <strong>Antropoceno<\/strong>.<\/p>\n<p>Problema a\u00ed \u00e9 que mexe nas estruturas econ\u00f4micas e pol\u00edticas. Mexe com a ind\u00fastria mais poderosa de todas (6 das 10 maiores companhias do mundo s\u00e3o petroqu\u00edmicas). Mexe com os bancos que t\u00eam investimentos gigantescos nelas, nas mineradoras etc. Mexe com o sistema pol\u00edtico profundamente corrompido pelo poderio do capital.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Recentemente veio a p\u00fablico o v\u00eddeo <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/565294-o-video-dos-anos-90-em-que-a-shell-admite-a-existencia-da-mudanca-climatica\" target=\"_blank\">Climate of Concern<\/a> [9], produzido pela Shell ainda em 1991. O que os documentos da Exxon (do final da d\u00e9cada de 1970 e dos anos de 1980) e esse v\u00eddeo da Shell de 1991, que reconhecem e alertam para os riscos do aquecimento global, revelam? E significa que agora h\u00e1 possibilidade de mudan\u00e7a de posturas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre Ara\u00fajo Costa &#8211;<\/strong> O que esse v\u00eddeo mostra, o que esses documentos mostram pode ser resumido em duas palavrinhas: eles sabiam! Antes disso tudo, h\u00e1 quase meio s\u00e9culo, em 1968, por encomenda do <strong><em>American Petroleum Institute &#8211; API<\/em><\/strong> [10], um relat\u00f3rio preparado por pesquisadores do <strong>Instituto de Pesquisa Stanford<\/strong> alertava que \u201ca humanidade est\u00e1 realizando um vasto experimento geof\u00edsico\u201d e que \u201cmudan\u00e7as significativas de temperatura quase certamente devem ocorrer em torno do ano 2000, trazendo consigo mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d.<\/p>\n<p>Os relat\u00f3rios internos da <strong>Exxon<\/strong>, quando vieram a p\u00fablico, revelavam o conhecimento que a companhia tinha sobre os riscos da continuidade da queima de <strong>combust\u00edveis f\u00f3sseis<\/strong> e a necessidade de mudan\u00e7a de rota. Por exemplo, em 1978, o cientista <strong>James Black<\/strong>, que trabalhava para a companhia, mostrou proje\u00e7\u00f5es de aquecimento global incrivelmente parecidas com aquelas produzidas pela comunidade de clima muitos anos depois nos piores cen\u00e1rios. E por fim, a <strong>Shell<\/strong>.<\/p>\n<p>Fundamental dizer que esse material veio \u00e0 tona em larga medida por interven\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00f5es como a<strong> Union of Concerned Scientists &#8211; UCS<\/strong>, a <strong>350.org<\/strong>, o <strong>Greenpeace<\/strong> etc., e que h\u00e1 batalhas judiciais em torno deles. Nada tem a ver com uma mudan\u00e7a de postura. Pelo contr\u00e1rio, revela que tais corpora\u00e7\u00f5es tinham o conhecimento do perigo do <strong>aquecimento global<\/strong>, tinham os recursos para investimento, tinham a possibilidade de influenciar governos e outros setores da ind\u00fastria e fizeram tudo para manter sua fonte de lucro. Esconderam tudo. Financiaram negacionistas, como a <strong>Exxon<\/strong>. Expandiram seus neg\u00f3cios e emitiram <strong>CO2<\/strong> como nunca. S\u00e3o corpora\u00e7\u00f5es criminosas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Sobre o conte\u00fado de Climate of Concern, em que medida o que \u00e9 dito ali se confirma no nosso tempo? Qual seria o teor desse v\u00eddeo se fosse produzido hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre Ara\u00fajo Costa &#8211;<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/565294-o-video-dos-anos-90-em-que-a-shell-admite-a-existencia-da-mudanca-climatica\" target=\"_blank\">O v\u00eddeo<\/a> impressiona. Ele explica didaticamente o efeito estufa. Lembra, al\u00e9m do CO2, do metano, do \u00f3xido nitroso e dos halocarbonetos. \u00c9 cientificamente simples e preciso, mostra total respeito pelo conhecimento cient\u00edfico vigente, tanto no que diz respeito \u00e0s observa\u00e7\u00f5es quanto \u00e0s proje\u00e7\u00f5es de modelos, apesar das incertezas, bem maiores na \u00e9poca do que agora. O v\u00eddeo tamb\u00e9m mostra que a <strong>Shell<\/strong> j\u00e1 tinha consci\u00eancia dos impactos. Fala de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562923-catastrofe-climatica-e-a-rapida-elevacao-do-nivel-do-mar\" target=\"_blank\">eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar <\/a>como amea\u00e7a aos pa\u00edses insulares, fala de <strong>Bangladesh<\/strong>, fala que a <strong>Holanda<\/strong> (onde fica a sede da companhia) pode estar segura agora gra\u00e7as ao seu elaborado sistema de barreiras e de bombeamento, mas que no futuro isso \u00e9 incerto. Fala, ainda, do perigo de quebras de safras que mudan\u00e7as sutis nas zonas clim\u00e1ticas podem acarretar e de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/548139-cresce-o-numero-de-refugiados-no-mundo-em-funcao-do-clima\" target=\"_blank\">refugiados clim\u00e1ticos<\/a>.<\/p>\n<p>Uma frase, dita em tom solene pelo narrador, \u00e9 particularmente impressionante: \u201cO <strong>aquecimento global<\/strong> ainda n\u00e3o \u00e9 certo, mas muitos argumentam que esperar por uma \u2018prova final\u2019 seria irrespons\u00e1vel. A\u00e7\u00f5es agora parecem ser o \u00fanico caminho seguro\u201d. Sendo produzido hoje esse v\u00eddeo, haveria muito mais evid\u00eancias a se apresentar. Teria de apresentar muito mais urg\u00eancia do que h\u00e1 25 anos e a express\u00e3o \u201cn\u00e3o \u00e9 certo\u201d teria de ser trocada. Hoje, n\u00e3o cabem meias palavras. Estamos mais do que certos de que o planeta est\u00e1 aquecendo por conta das a\u00e7\u00f5es humanas e que a continuidade dessa rota \u00e9 um desastre.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O que a ascens\u00e3o de figuras como Donald Trump significa para as discuss\u00f5es acerca das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas de nosso tempo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre Ara\u00fajo Costa &#8211;<\/strong> Sem d\u00favida, a administra\u00e7\u00e3o de <strong>Trump<\/strong> \u00e9 tudo o que de pior se poderia ter neste momento. Ele est\u00e1 promovendo a ind\u00fastria de carv\u00e3o, tem como secret\u00e1rio de Estado o Sr. <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/563371-trump-escolhe-ceo-da-exxonmobil-para-o-cargo-de-secretario-de-estado-dos-eua\" target=\"_blank\">Rex Tillerson<\/a>\u00a0[11], que at\u00e9 poucos dias atr\u00e1s era CEO da <strong>Exxon<\/strong>, nomeou um negacionista clim\u00e1tico (<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/563248-trump-indica-politico-que-nega-mudancas-climaticas-para-chefiar-orgao-ambiental-dos-eua\" target=\"_blank\">Scott Pruitt<\/a>\u00a0[12]) para a<strong> Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental<\/strong> com o claro intuito de desmontar a ag\u00eancia a partir de dentro, anunciou cortes nos programas de pesquisa da <strong>Ag\u00eancia Nacional de Administra\u00e7\u00e3o Atmosf\u00e9rica e Oce\u00e2nica \u2013 NOAA<\/strong> etc.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio <strong>Trump<\/strong> afirmava, de maneira bizarra, que o aquecimento global seria \u201cuma farsa inventada pelos chineses\u201d para enfraquecer a ind\u00fastria dos <strong>EUA<\/strong> e, coerentemente, deu sinal verde para os <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/564294-trump-autoriza-construcao-de-oleodutos-vetados-por-obama-apos-protestos-de-indigenas-e-ambientalistas\" target=\"_blank\">oleodutos de Dakota e Keystone XL<\/a>. Tempos dif\u00edceis, assim como no Brasil, com o usurpador <strong>Temer<\/strong>. A solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 na rua, na luta, na resist\u00eancia ind\u00edgena e quilombola, na luta das mulheres e na possibilidade de as maiorias sociais promoverem mudan\u00e7as reais.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n[1] <strong>Biosfera<\/strong>: tamb\u00e9m conhecido como ecosfera, \u00e9 o conjunto de todos os ecossistemas da Terra, sendo o maior n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[2] <strong>Doughty<\/strong> ey al. (2015): <a href=\"http:\/\/go.nature.com\/2mEI2Go\" target=\"_blank\">Drought impact on forest carbon dynamics and fluxes in Amazonia<\/a>, Nature, 519,78\u201382, doi:10.1038\/nature14213. (Nota do entrevistado)<\/p>\n[3] O entrevistado se refere ao desastre ocorrido em Mariana, Minas Gerais. O Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU, atrav\u00e9s de seu s\u00edtio, vem publicando uma s\u00e9rie de materiais sobre o epis\u00f3dio. Leia mais em ihu.unisinos.br\/maisnoticias\/noticias. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[4] Antropoceno: termo usado por alguns cientistas para descrever o per\u00edodo mais recente na hist\u00f3ria do Planeta Terra. O s\u00edtio do Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU tem tratado dessa perspectiva em diversas publica\u00e7\u00f5es. Entre elas \u201c<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1T5xU2U\" target=\"_blank\">Antropoceno: ou mudamos nosso estilo de vida, ou vamos sucumbir\u201d. Entrevista especial com Wagner Costa Ribeiro<\/a>, publicada nas Not\u00edcias do Dia, de 29-02-2016. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[5] <strong>Owen Gaffney<\/strong>: diretor de m\u00eddia e estrat\u00e9gia internacional no Stockholm Resilience Centre, engenheiro de astron\u00e1utica e aeron\u00e1utica, \u00e9 tamb\u00e9m jornalista, cineasta e escritor. Seu trabalho concentra-se na compreens\u00e3o, comunica\u00e7\u00e3o e visualiza\u00e7\u00e3o do impacto da humanidade no planeta atrav\u00e9s de conceitos como o Antropocendo e fronteiras planet\u00e1rias e processos de transforma\u00e7\u00e3o. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[6] <strong>Will Steffen<\/strong> (1947): qu\u00edmico americano, professor e pesquisador da Australian National University, foi diretor executivo do Instituto de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas da Universidade Nacional Australiana e membro da Comiss\u00e3o Australiana de Clima. De 1998 a 2004, foi diretor executivo da International Geosphere-Biosphere, organismo de coordena\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es nacionais de mudan\u00e7a ambiental com sede em Estocolmo. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[7] <strong>Holoceno<\/strong>: divis\u00e3o da escala de tempo geol\u00f3gico, \u00e9 a \u00faltima e atual \u00e9poca geol\u00f3gica do Quatern\u00e1rio. O come\u00e7o do Holoceno \u00e9 definido na mudan\u00e7a clim\u00e1tica correspondente \u00e0 do final do epis\u00f3dio frio conhecido como o Dryas recente, ap\u00f3s a \u00faltima glacia\u00e7\u00e3o, e abrange os \u00faltimos 11.784 anos, tendo 2000 como refer\u00eancia de tempo base. Ele \u00e9 um per\u00edodo interglacial em que a temperatura foi mais suave e calotas desapareceram ou diminu\u00edram de volume, o que causou uma eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[8] <strong>Fossa das Marianas<\/strong>: \u00e9 o local mais profundo dos oceanos, atingindo uma profundidade de 11.034 metros. Localiza-se no oceano Pac\u00edfico, a leste das ilhas Marianas, na fronteira convergente entre as placas tect\u00f4nicas do Pac\u00edfico e das Filipinas. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[9] <strong>Climate of Concern<\/strong>: v\u00eddeo de divulga\u00e7\u00e3o da empresa Shell de 1941, mas divulgado recentemente, que alerta para os perigos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Leia mais e assista ao v\u00eddeo em <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2n3wRbo\" target=\"_blank\">O v\u00eddeo dos anos 90 em que a Shell admite a exist\u00eancia da mudan\u00e7a clim\u00e1tica<\/a>, publicado nas Not\u00edcias do Dia de 1-3-2017, no s\u00edtio do Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[10] <strong>American Petroleum Institute<\/strong> (API): \u00e9 a maior associa\u00e7\u00e3o comercial dos EUA para a ind\u00fastria de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural. Ela afirma representar cerca de 650 empresas envolvidas na produ\u00e7\u00e3o, refinamento, distribui\u00e7\u00e3o e muitos outros aspectos da ind\u00fastria do petr\u00f3leo. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[11] <strong>Rex Wayne Tillerson<\/strong> (1952): empres\u00e1rio, engenheiro e diplomata estadunidense, atual Secret\u00e1rio de Estado dos Estados Unidos. Como engenheiro, Tillerson juntou-se \u00e0 Exxon Mobil Corporation em 1975 e foi presidente e CEO da empresa de 2006 a 2016. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[12] <strong>Edward Scott Pruitt<\/strong> (1968): advogado norte-americano e pol\u00edtico republicano do estado de Oklahoma, atualmente \u00e9 o 14\u00ba Administrador da Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Jo\u00e3o Vitor Santos, IHU de 11 de mar\u00e7o de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leo Minucci Desmatamento na Amaz\u00f4nia dispara neste ano e chega a quase 8 mil km\u00b2. 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