{"id":19383,"date":"2017-04-27T13:00:37","date_gmt":"2017-04-27T16:00:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=19383"},"modified":"2017-04-06T11:51:50","modified_gmt":"2017-04-06T14:51:50","slug":"a-humana-e-uma-especie-anomala-explodiu-os-mecanismos-espontaneos-de-autorregulacao-das-populacoes-animais-que-habitam-o-nosso-pequeno-e-fragil-planeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-humana-e-uma-especie-anomala-explodiu-os-mecanismos-espontaneos-de-autorregulacao-das-populacoes-animais-que-habitam-o-nosso-pequeno-e-fragil-planeta\/","title":{"rendered":"A humana \u00e9 uma \u201cesp\u00e9cie an\u00f4mala\u201d &#8211; explodiu os mecanismos espont\u00e2neos de autorregula\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es animais que habitam o nosso pequeno e fr\u00e1gil planeta"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/4\/3564\/3884267658_403dae5891_o.jpg\" \/><em> <a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/42084302@N05\/\">planetaryvisions<\/a><\/em><\/p>\n<p>O <a href=\"https:\/\/medium.com\/instituto-humanitas-unisinos\/laudato-si-sobre-o-cuidado-da-casa-comum-d08ccd9d4dc7\" target=\"_blank\"><strong>papa Francisco<\/strong> vem denunciando<\/a> um complexo estado de crises, n\u00e3o apenas ambiental, mas tamb\u00e9m civilizacional. O soci\u00f3logo <strong>Giuseppe Fumarco<\/strong> vai ao pensamento de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/stories\/cadernos\/ideias\/018cadernosihuideias.pdf\" target=\"_blank\">Edgar Morin<\/a>\u00a0para tentar compreender esse estado. Segundo o professor, antes de pensar em sa\u00eddas, \u00e9 preciso compreender a <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/402\" target=\"_blank\">complexidade<\/a>\u00a0em que estamos imbricados. Por isso, recupera o <strong>pensamento de Morin<\/strong> quando diz que \u201ca complexidade n\u00e3o \u00e9 uma receita que se oferece para n\u00f3s, mas sim o apelo \u00e0 \u2018<strong>civiliza\u00e7\u00e3o das ideias<\/strong>\u2019. A barb\u00e1rie das ideias significa tamb\u00e9m que os sistemas de ideias s\u00e3o b\u00e1rbaros uns em rela\u00e7\u00e3o aos outros. As teorias n\u00e3o sabem dialogar umas com as outras. A palavra barb\u00e1rie, de fato, quer dizer \u2018fora de controle\u2019\u201d. Para <strong>Fumarco<\/strong>, o autor evidencia que \u201cembora aparentemente progrida a \u2018civiliza\u00e7\u00e3o\u2019 de muitos povos, ao mesmo tempo, t\u00eam-se incr\u00edveis regress\u00f5es\u201d. \u00c9 o caso do Ocidente, que vive seu fetichismo pelo <strong>consumo<\/strong> enquanto pa\u00edses do Oriente s\u00e3o destro\u00e7ados.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por e-mail \u00e0<strong> IHU On-Line<\/strong>, o soci\u00f3logo tamb\u00e9m reflete sobre <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/565052-trump-e-o-papa\" target=\"_blank\">Donald Trump<\/a>, alinhado como for\u00e7a contr\u00e1ria a <strong>Francisco<\/strong>. \u201cA escolha de Trump nos permite entender o que significa quando se fala de \u2018novas ignor\u00e2ncias\u2019. Como muitos ilustres pedagogos do s\u00e9culo XX tinham previsto, sem uma sistem\u00e1tica \u2018educa\u00e7\u00e3o ao civismo\u2019, a democracia s\u00f3 pode degenerar\u201d, destaca. E, ainda, avalia a inabilidade da esquerda mundial para compreender crises. \u201cA <strong>esquerda<\/strong> tamb\u00e9m aderiu aos desvios neoliberais, j\u00e1 que n\u00e3o amadureceu ao longo do tempo uma consci\u00eancia intelectual que lhe torne capaz de enfrentar os desafios totalmente novos que a globaliza\u00e7\u00e3o coloca\u2019, dispara.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/stories\/cadernos\/teopublica\/114_cadernosteologiapublica.pdf\" target=\"_blank\">Giuseppe Fumarco<\/a>\u00a0\u00e9 soci\u00f3logo na It\u00e1lia, foi professor de Direito e Economia nas escolas superiores, formador de adultos em v\u00e1rias entidades e pesquisador do Istituti Regionali di Ricerca Educativa &#8211; IRRE Piemonte (ex-IRRSAE). Escreveu um livro de hist\u00f3ria do pensamento econ\u00f4mico sobre<strong> J. A. Schumpeter<\/strong> e dois estudos sobre a autonomia escolar e a profiss\u00e3o docente. Mais recentemente, ocupou-se do pensamento da complexidade, chegando, por fim, \u00e0 vasta produ\u00e7\u00e3o de <strong>Edgar Morin<\/strong>, sobre a qual realiza palestras e semin\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A partir de Edgar Morin [1], como compreender o conceito de globaliza\u00e7\u00e3o? E de que forma sua perspectiva pode iluminar compreens\u00f5es sobre o nosso tempo e nossas crises?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giuseppe Fumarco \u2013<\/strong> Vou responder expondo por inteiro a defini\u00e7\u00e3o que <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicoes-anteriores\" target=\"_blank\">Morin<\/a>\u00a0nos d\u00e1 da \u201c<strong>idade do ferro planet\u00e1ria<\/strong>\u201d que estamos vivendo:<\/p>\n<p><em>\u201c\u2018A idade do ferro planet\u00e1ria\u2019 indica que entramos na era planet\u00e1ria na qual todas as culturas e todas as civiliza\u00e7\u00f5es j\u00e1 est\u00e3o em interconex\u00e3o permanente. Mas indica tamb\u00e9m que, apesar de todas essas intercomunica\u00e7\u00f5es, estamos em uma barb\u00e1rie total nas rela\u00e7\u00f5es entre ra\u00e7as, culturas, etnias, pot\u00eancias, na\u00e7\u00f5es e superpot\u00eancias. N\u00f3s estamos nesta idade do ferro, e ningu\u00e9m sabe \u2018se\u2019 e \u2018quando\u2019 sairemos dela. A coincid\u00eancia entre a idade do ferro planet\u00e1ria e a ideia de que estamos na pr\u00e9-hist\u00f3ria da mente humana, na era da barb\u00e1rie das ideias, n\u00e3o \u00e9 uma coincid\u00eancia fortuita. Pr\u00e9-hist\u00f3ria da mente humana significa que, no plano do pensamento consciente, estamos apenas no in\u00edcio. Ainda estamos submetidos a modelos mutilantes e disjuntivos do pensamento e \u00e9 bastante dif\u00edcil pensar de modo complexo. A complexidade n\u00e3o \u00e9 uma receita que se oferece para n\u00f3s, mas sim o apelo \u00e0 \u2018civiliza\u00e7\u00e3o das ideias\u2019. A barb\u00e1rie das ideias significa tamb\u00e9m que os sistemas de ideias s\u00e3o b\u00e1rbaros uns em rela\u00e7\u00e3o aos outros. As teorias n\u00e3o sabem dialogar umas com as outras. A palavra barb\u00e1rie, de fato, quer dizer \u2018fora de controle\u2019. Por exemplo, a ideia de que o progresso da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 acompanhado pelo progresso da barb\u00e1rie \u00e9 uma ideia totalmente aceit\u00e1vel apenas se compreendermos a complexidade do mundo hist\u00f3rico-social. A recente atomiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas (tamb\u00e9m resultantes dos processos de civiliza\u00e7\u00e3o urbana com todos os fatores de bem-estar que ela trouxe consigo) leva a agress\u00f5es, \u00e0 barb\u00e1rie, a insensibilidades incr\u00edveis. \u00c9 preciso superar as ilus\u00f5es euf\u00f3ricas do Progresso sem cair nas vis\u00f5es apocal\u00edpticas ou milenaristas; trata-se de entrever que estamos, talvez, no fim de certos tempos e, esperamos, no in\u00edcio de tempos novos.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como compreender a nova era que vivemos, o Antropoceno[2] ?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giuseppe Fumarco \u2013<\/strong> O termo \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/564316-antropoceno-a-forca-destruidora-de-uma-especie\" target=\"_blank\">antropoceno<\/a>\u201d n\u00e3o foi cunhado por <strong>Morin<\/strong>, mas pelo qu\u00edmico holand\u00eas <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/563388-antropoceno-uma-nova-era\" target=\"_blank\">Paul Crutzen<\/a>\u00a0[3], no ano 2000. \u00c9 composto pelo grego <em>\u1f04\u03bd\u03d1\u03c1\u03c9\u03c0\u03bf\u03c2<\/em> (\u201chomem\u201d), com o acr\u00e9scimo do segundo elemento, \u201cceno\u201d. Pode-se definir assim a \u00e9poca geol\u00f3gica atual em que o ambiente terrestre, no conjunto das suas caracter\u00edsticas f\u00edsicas, qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas, \u00e9 fortemente condicionado, tanto em escala local quanto em escala global, pelos efeitos da a\u00e7\u00e3o humana: com particular refer\u00eancia ao aumento das concentra\u00e7\u00f5es de CO2 na atmosfera, o derretimento das geleiras, o aumento tendencial m\u00e9dio da temperatura terrestre e a consequente eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel dos mares, o desmatamento e a desertifica\u00e7\u00e3o de algumas partes do planeta etc. E, mais em geral, a polui\u00e7\u00e3o de toda a biosfera. Na realidade, a classifica\u00e7\u00e3o por eras geol\u00f3gicas \u00e0 qual se at\u00eam os especialistas desse setor continua nos colocando no <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/559744-acao-humana-pos-fim-ao-holoceno-vivemos-uma-nova-epoca-geologica\" target=\"_blank\">Holoceno<\/a>\u00a0[4], que iniciou h\u00e1 11 mil anos e ainda n\u00e3o se concluiu.<\/p>\n<p>\u201c<strong>Antropoceno<\/strong>\u201d, portanto, significa conotar uma \u00e9poca a partir da qual a presen\u00e7a e a interven\u00e7\u00e3o do homem sobre a natureza e sobre os equil\u00edbrios ambientais est\u00e1 se tornando cada vez mais \u201cpesado\u201d e alcan\u00e7a um limiar cr\u00edtico para al\u00e9m do qual alguns desses aspectos de <strong>degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica<\/strong> tornam-se irrevers\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 No que consistem e quais os desafios para se compreender a crise ecol\u00f3gica, definida pelo papa Francisco?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giuseppe Fumarco \u2013<\/strong> O desenvolvimento (evolutivo e involutivo, ao mesmo tempo) das nossas sociedades na era do <strong>antropoceno<\/strong> se \u201c<em>rapidizou<\/em>\u201d (em espanhol, \u201c<em>rapidaci\u00f3n<\/em>\u201d), no sentido de que sofreu \u2013 particularmente depois da revolu\u00e7\u00e3o industrial do s\u00e9culo XX \u2013 um processo de acelera\u00e7\u00e3o devido \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da tecnoci\u00eancia que n\u00e3o tem nada a ver com os tempos dos processos biol\u00f3gicos e ecol\u00f3gicos naturais do planeta.<\/p>\n<p>Como ressalta o Papa: \u201c<em>embora a mudan\u00e7a fa\u00e7a parte da din\u00e2mica dos sistemas complexos, a velocidade que hoje lhe imp\u00f5em as a\u00e7\u00f5es humanas contrasta com a lentid\u00e3o natural da evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica\u201d, acrescentando, em um par\u00e1grafo posterior: \u201cDepois dum tempo de confian\u00e7a irracional no progresso e nas capacidades humanas, uma parte da sociedade est\u00e1 entrando em uma etapa de maior consciencializa\u00e7\u00e3o. Nota-se uma crescente sensibilidade relativa ao meio ambiente e ao cuidado da natureza, e cresce uma sincera e sentida preocupa\u00e7\u00e3o pelo que est\u00e1 acontecendo ao nosso planeta<\/em>\u201d (Laudato si\u2019, par. 18 e 19].<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/medium.com\/instituto-humanitas-unisinos\/laudato-si-sobre-o-cuidado-da-casa-comum-d08ccd9d4dc7#.toc85pofx\" target=\"_blank\">Enc\u00edclica<\/a>\u00a0[5] prossegue evidenciando a \u201ccegueira da tecnologia\u201d (par. 20), o problema da m\u00e1 elimina\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos, da polui\u00e7\u00e3o: \u201cA terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais em um imenso dep\u00f3sito de lixo\u201d (par. 21). \u00c9 essa \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/522130-papa-no-aviao-nao-a-cultura-do-descarte\" target=\"_blank\">cultura do descarte<\/a>\u201d que deriva tamb\u00e9m da circunst\u00e2ncia de que \u201cainda n\u00e3o se conseguiu adotar um modelo circular de produ\u00e7\u00e3o\u201d (par. 22).<\/p>\n<p>Depois, \u00e9 reproposta a problem\u00e1tica do <strong>aquecimento clim\u00e1tico global<\/strong>, devido ao uso intensivo de combust\u00edveis f\u00f3sseis e \u00e0 consequente necessidade, para a humanidade, de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-entrevistas\/552037-antropoceno-ou-mudamos-nosso-estilo-de-vida-ou-vamos-sucumbir-entrevista-especial-com-wagner-costa-ribeiro\" target=\"_blank\">mudar de estilos de vida, de produ\u00e7\u00e3o e de consumo<\/a> (par. 23).<\/p>\n<p><strong>C\u00edrculos viciosos<\/strong><\/p>\n<p>A <strong>Enc\u00edclica<\/strong> tamb\u00e9m acena aos numerosos \u201cc\u00edrculos viciosos ambientais\u201d (cfr. conceito de \u201crecursividade\u201d em <strong>Morin<\/strong>), dando o exemplo do derretimento das geleiras polares e das elevadas altitudes que s\u00e3o \u201cefeito\u201d do <strong>aumento global da temperatura<\/strong> e, ao mesmo tempo, \u201ccausa\u201d de um aumento adicional dela (por redu\u00e7\u00e3o do efeito de espelho da irradia\u00e7\u00e3o solar das geleiras, que, em consequ\u00eancia da sua reduzida superf\u00edcie refletora, permanece ainda mais aprisionada na atmosfera). Depois, \u00e9 citado outro c\u00edrculo vicioso, ligado ao desmatamento selvagem que reduz a capacidade do patrim\u00f4nio florestal global de capturar di\u00f3xido de carbono e liberar oxig\u00eanio, combatendo, assim, o aumento da toxicidade da atmosfera (par. 24). A Enc\u00edclica conecta tais comportamentos negativos ao estilo de vida \u201cocidental\u201d com o seu impacto negativo sobre as popula\u00e7\u00f5es mais pobres do planeta: \u201cAs <strong>mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong> d\u00e3o origem a migra\u00e7\u00f5es animais e vegetais&#8230;\u201d, que s\u00e3o muitas vezes recursos para as popula\u00e7\u00f5es locais, as quais tamb\u00e9m se veem, assim, for\u00e7adas a emigrar: \u201c\u00c9 tr\u00e1gico o aumento de emigrantes em fuga da mis\u00e9ria agravada pela degrada\u00e7\u00e3o ambiental\u201d (par. 25).<\/p>\n<p><strong>Uma terra cada vez mais cinzenta e limitada<\/strong><\/p>\n<p>A <strong>Enc\u00edclica<\/strong> continua examinando criticamente a quest\u00e3o da \u00e1gua (por exemplo, a pobreza de \u00e1gua p\u00fablica na \u00c1frica) (par. 27 e ss.), da perda da biodiversidade (par. 32 e ss.), do impacto ambiental das iniciativas econ\u00f4micas \u201ca servi\u00e7o das finan\u00e7as e do consumismo\u201d (par. 34), da retirada descontrolada dos recursos h\u00eddricos (par. 40), e como tudo isso tem como consequ\u00eancia o fato de que \u201cesta terra onde vivemos se torne realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta\u201d[6] .<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 \u00c9 poss\u00edvel afirmar que a crise civilizacional \u00e9 o n\u00facleo do estado de crises que vivemos? Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giuseppe Fumarco \u2013<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/39705-edgar-morin-mestre-do-pensamento-as-vesperas-de-seus-90-anos\" target=\"_blank\">Morin<\/a>\u00a0afirma: \u201cPr\u00e9-hist\u00f3ria da mente humana significa que, no plano do pensamento consciente, estamos apenas no in\u00edcio. Ainda estamos submetidos a modelos mutilantes e disjuntivos do pensamento e \u00e9 bastante dif\u00edcil pensar de modo complexo. A <strong>complexidade<\/strong> n\u00e3o \u00e9 uma receita que se oferece para n\u00f3s, mas sim o apelo \u00e0 \u2018<strong>civiliza\u00e7\u00e3o das ideias<\/strong>\u2019. A barb\u00e1rie das ideias significa tamb\u00e9m que os sistemas de ideias s\u00e3o b\u00e1rbaros uns em rela\u00e7\u00e3o aos outros. As teorias n\u00e3o sabem dialogar umas com as outras. A palavra barb\u00e1rie, de fato, quer dizer \u2018fora de controle\u2019. Por exemplo, a ideia de que o progresso da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 acompanhado pelo progresso da barb\u00e1rie \u00e9 uma ideia totalmente aceit\u00e1vel apenas se compreendermos a complexidade do mundo hist\u00f3rico-social\u201d.<\/p>\n<p>Esta \u00faltima observa\u00e7\u00e3o significa que, embora aparentemente progrida a \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d de muitos povos, ao mesmo tempo, t\u00eam-se incr\u00edveis regress\u00f5es. Enquanto no <strong>Ocidente<\/strong> se vive no fetichismo mercantilista e no hiperconsumismo que desperdi\u00e7a (sem, por isso, ter eliminado a pobreza e o desemprego, que, ao contr\u00e1rio, na \u00faltima d\u00e9cada, aumentaram quase por toda a parte), em outros contextos do mundo em desenvolvimento n\u00e3o foram resolvidos problemas essenciais, tais como o de saciar a todos ou garantir a todos o acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel. Al\u00e9m disso, observamos que alguns grandes pa\u00edses de antiga civiliza\u00e7\u00e3o da <strong>\u00c1sia<\/strong> seguem insensatamente o <strong>modelo ocidental<\/strong>, com perigosas consequ\u00eancias para os equil\u00edbrios ecol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Em n\u00edvel de \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=5577&amp;secao=448\" target=\"_blank\">noosfera<\/a>\u201d (a esfera de pensamento e das ideias), quase inacreditavelmente, recuperaram vigor contrastes mort\u00edferos que alguns autores definiram \u2013 em nossa opini\u00e3o, erroneamente \u2013 como \u201c<strong>choques de civiliza\u00e7\u00f5es<\/strong>\u201d. Basta ver aquilo que acontece em n\u00edvel de na\u00e7\u00f5es de religiosidade mu\u00e7ulmana, tanto como conflitos internos (xiitas contra sunitas) quanto como \u201ccontradepend\u00eancia indesejada\u201d desses pa\u00edses em rela\u00e7\u00e3o ao Ocidente.<\/p>\n<p><em>&#8220;Em vez de buscar a unidade na diversidade e de salvaguardar a diversidade na unidade, ainda hoje, as rela\u00e7\u00f5es entre os Estados e as na\u00e7\u00f5es s\u00e3o em n\u00edvel de barb\u00e1rie&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>Psicopatologia das rela\u00e7\u00f5es entre os povos<\/strong><\/p>\n<p>Nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, particularmente, prevalecem l\u00f3gicas imperialistas, de dom\u00ednio, de prevarica\u00e7\u00e3o, de fanatismo e de extremiza\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as religiosas e espirituais etc. Em vez de buscar \u201ca unidade na diversidade\u201d e de salvaguardar \u201ca diversidade na unidade\u201d, ainda hoje, em 2017, as rela\u00e7\u00f5es entre os Estados e as na\u00e7\u00f5es s\u00e3o em n\u00edvel de barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Os <strong>Estados Unidos<\/strong> persistem em uma vis\u00e3o unilateral das suas rela\u00e7\u00f5es com o resto do mundo, e, assim, torna-se dif\u00edcil mover-se rumo \u00e0queles equil\u00edbrios multipolares que, sozinhos, poderiam garantir paz e seguran\u00e7a para as gera\u00e7\u00f5es futuras. Nestes \u00faltimos anos, em particular, pode-se fazer uma leitura daquilo que acontece em n\u00edvel geopol\u00edtico internacional nos termos de uma verdadeira \u201cpsicopatologia das rela\u00e7\u00f5es entre os povos\u201d causada, ao mesmo tempo, pelo comportamento paranoico de alguns importantes expoentes das classes pol\u00edticas dirigentes nacionais e pelo comportamento hiperego\u00edsta das classes que det\u00eam o poder em n\u00edvel econ\u00f4mico transnacional (a nova classe capitalista transnacional). Todos comportamentos que impulsionam \u201cde facto\u201d muitas na\u00e7\u00f5es a agirem umas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras na l\u00f3gica b\u00e1rbara e at\u00e1vica do \u201camigo\/inimigo\u201d (ou voc\u00ea est\u00e1 comigo ou est\u00e1 contra mim).<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Qual sua leitura de Laudato si\u2019? Como analisa a forma que Francisco tece a teia de rela\u00e7\u00f5es entre as crises at\u00e9 chegar \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de uma crise ecol\u00f3gica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giuseppe Fumarco \u2013<\/strong> S\u00f3 posso concordar plenamente com a an\u00e1lise do<strong> papa Francisco<\/strong>, assim como argumentado na minha interven\u00e7\u00e3o publicada na <em>newsletter<\/em> do [Centro de Estudos] \u201cSereno Regis\u201d: \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/stories\/cadernos\/teopublica\/114_cadernosteologiapublica.pdf\" target=\"_blank\">A enc\u00edclica Laudato Si\u2019, o pensamento de Edgar Morin, a complexidade da realidade<\/a>\u201d [7].<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 De que forma o documento apost\u00f3lico pode inspirar outras concep\u00e7\u00f5es que levem a pensar para al\u00e9m da crise ecol\u00f3gica? E, nesse sentido, quais os limites do documento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giuseppe Fumarco \u2013<\/strong> Um dos limites mais problem\u00e1ticos da <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/469\" target=\"_blank\">Laudato si\u2019<\/a>\u00a0consiste na circunst\u00e2ncia de que o Papa, l\u00e1, n\u00e3o aborda a quest\u00e3o demogr\u00e1fica. No meu livro \u201c<strong>Complexus<\/strong>\u201d [8] , eu defendia:<\/p>\n<p><em>\u201cPartimos de uma primeira constata\u00e7\u00e3o banal: os 7 bilh\u00f5es de indiv\u00edduos que povoam o planeta (entre os 8 e os 9 bilh\u00f5es previstos para 2050) h\u00e1 muito tempo j\u00e1 superaram a capacidade do ecossistema que os sustenta. Cada alerta neste campo j\u00e1 \u00e9 irremediavelmente tardio. A humanidade \u2013 em particular desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial \u2013 prosseguiu antropizando selvagem e destrutivamente a biocenose e o bi\u00f3topo em que habitava e, assim, se metamorfoseou [&#8230;]. Poder\u00e1 (talvez) sobreviver, mas em condi\u00e7\u00f5es psiquicamente alienadas. Para rastrear uma rela\u00e7\u00e3o mais equilibrada com a natureza, devemos remontar para bem antes da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Devemos sempre recordar que todos os problemas que estamos elencando seriam de origem muito inferior se, em vez de sermos 7 bilh\u00f5es, f\u00f4ssemos, por exemplo, na ordem de alguns milh\u00f5es sobre todo o planeta. No meu texto, eu citava o grande et\u00f3logo austr\u00edaco <strong>Konrad Lorenz<\/strong> [9], que, em um livreto publicado em 1973, intitulado <strong>Os oito pecados capitais da nossa civiliza\u00e7\u00e3o<\/strong>, colocava de forma significativa entre os dois primeiros \u201cpecados\u201d a \u201csuperpopula\u00e7\u00e3o mundial\u201d e a consequente \u201credu\u00e7\u00e3o\/devasta\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o vital\u201d.<\/p>\n<p>Pode-se estar de acordo ou n\u00e3o com o elenco das criticidades propostas por <strong>Lorenz<\/strong> (que aqui, por raz\u00f5es de espa\u00e7o, n\u00e3o retomamos), mas o fato, significativo para n\u00f3s, \u00e9 que um et\u00f3logo atento \u00e0s l\u00f3gicas dos comportamentos animais coloca na raiz dos muitos desvios atuais da humanidade justamente o dado quantitativo do excessivo povoamento do planeta por parte da esp\u00e9cie <strong>Homo sapiens<\/strong>. A humana \u00e9 uma \u201cesp\u00e9cie an\u00f4mala\u201d, que fez explodir os mecanismos espont\u00e2neos de autorregula\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es animais que habitam o nosso pequeno e fr\u00e1gil planeta.<\/p>\n<p>A partir da den\u00fancia do \u201c<strong>Clube de Roma<\/strong>\u201d [10] de <strong>Aurelio Peccei<\/strong> [11] (fim dos anos 1960), muitas foram as tomadas de posi\u00e7\u00e3o de personagens renomados em favor da tem\u00e1tica da redu\u00e7\u00e3o da natalidade e das pol\u00edticas de conten\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>&#8220;O homem n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sapiens, mas tamb\u00e9m demens, isto \u00e9, destrutivo, agressivo&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como pensar outro modelo de desenvolvimento global? E quais os desafios para conscientizar a humanidade de que cada um \u00e9 parte do todo nessa constru\u00e7\u00e3o de outro modelo civilizacional?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giuseppe Fumarco \u2013<\/strong> Pergunta, por si s\u00f3, \u201ccomplicada\u201d demais, mais do que complexa. Um novo \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/564868-desafios-para-superar-disputas-de-modelos-civilizacionais-entrevista-especial-com-yann-moulier-boutang\" target=\"_blank\">modelo de civiliza\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d, por enquanto, \u00e9 impens\u00e1vel. O homem n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 \u201c<em>sapiens<\/em>\u201d, mas tamb\u00e9m \u201c<em>demens<\/em>\u201d, isto \u00e9, destrutivo, agressivo etc. Sofre a <em>hubris<\/em> (desmesura, do grego) em consequ\u00eancia das cont\u00ednuas turbas que irrompem no seu c\u00e9rebro \u201c<em>tri\u00fanico<\/em>\u201d sujeito a uma dial\u00e9tica permanente entre paix\u00f5es e racionalidade, instintos e emo\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Quanto a pensar em um \u201c<strong>novo modelo de desenvolvimento<\/strong>\u201d (abriria m\u00e3o do \u201cglobal\u201d), por enquanto, para mim, isso significa retornar para as quest\u00f5es n\u00e3o resolvidas que o s\u00e9culo XX nos deixou. Uma acima de todas: qual deve ser o papel de um Estado \u201csuficientemente\u201d democr\u00e1tico (pois a democracia tamb\u00e9m \u00e9 uma ideologia, eu diria muito \u201cut\u00f3pica\u201d) para um novo \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-entrevistas\/547534-do-welfare-state-para-o-workfare-e-a-necessidade-de-novos-sistemas-financeiros-autonomos-entrevista-especial-com-andrea-fumagalli\" target=\"_blank\">welfare state<\/a>\u201d que n\u00e3o tropece nas tesouras da <strong>d\u00edvida p\u00fablica<\/strong>? A resposta <strong>keynesiana<\/strong> parecia adequada, mas, neste momento, os economistas sofrem maci\u00e7amente a nefasta influ\u00eancia do <strong>pensamento liberal neocl\u00e1ssico<\/strong>.<\/p>\n<p>Por fim: n\u00e3o tenho respostas sobre a quest\u00e3o de como \u201cconscientizar a humanidade\u201d para fazer com que ela compreenda que \u201ccada um \u00e9 parte do todo\u201d. As taxas de escolariza\u00e7\u00e3o aumentaram um pouco em todos os pa\u00edses, mas, por enquanto, n\u00e3o parece que isso tenha tido um impacto t\u00e3o positivo sobre as \u201ctomadas de consci\u00eancia\u201d&#8230; A confus\u00e3o e o \u201cru\u00eddo\u201d da<strong> hipercomunica\u00e7\u00e3o de massa<\/strong> atordoam as mentes, e novas ignor\u00e2ncias, paradoxalmente, crescem precisamente agora.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O mundo vive um momento \u00edmpar com a ascens\u00e3o da \u201cextrema-direita\u201d, que prega o nacionalismo radical e recusa o outro, como exemplo a figura de Donald Trump[12] e suas propostas que recusam o enfrentamento da crise ecol\u00f3gica. Como chegamos a esse momento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giuseppe Fumarco \u2013<\/strong> O \u201csoberanismo\u201d e o retorno ao \u201cparticular\u201d constituem a l\u00f3gica rea\u00e7\u00e3o por parte dos povos que veem justamente na globaliza\u00e7\u00e3o (assim como ela est\u00e1 acontecendo) riscos, inseguran\u00e7as, novos medos etc. A nova classe capitalista transnacional parece caracterizada por uma n\u00e3o eticidade impressionante. Novas <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/564021-o-novo-salto-global-da-desigualdade\" target=\"_blank\">injusti\u00e7as na distribui\u00e7\u00e3o de renda<\/a> desenham um mundo onde os ricos se tornam cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres. Sem sinais significativos de invers\u00e3o dessas tend\u00eancias, a humanidade certamente n\u00e3o ter\u00e1 um futuro \u201cviv\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p><em>&#8220;O caso estadunidense e a escolha de Trump nos permitem entender o que significa quando se fala de \u2018novas ignor\u00e2ncias\u2019&#8221;<\/em><\/p>\n<p>O caso estadunidense e a escolha de <strong>Trump<\/strong> nos permitem entender o que significa quando se fala de \u201cnovas ignor\u00e2ncias\u201d. Como muitos ilustres pedagogos do s\u00e9culo XX tinham previsto, sem uma sistem\u00e1tica \u201ceduca\u00e7\u00e3o ao civismo\u201d, a democracia s\u00f3 pode degenerar e reabrir o caminho para todo tipo de neototalitarismos. Trump e a direita s\u00e3o os primeiros sinais. Jornalismo e meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa t\u00eam uma grande parte de responsabilidade nessas regress\u00f5es globais: muito poucos se movem contra a corrente.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 E, por outro lado, em que medida \u00e9 poss\u00edvel afirmar que a \u201cesquerda\u201d global \u00e9 in\u00e1bil na compreens\u00e3o da complexidade da teia da vida, para muito al\u00e9m do paradigma do consumo e desenvolvimento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giuseppe Fumarco \u2013<\/strong> A <strong>esquerda<\/strong> (salvo raras exce\u00e7\u00f5es minorit\u00e1rias) tamb\u00e9m aderiu aos desvios <strong>neoliberais<\/strong>, j\u00e1 que n\u00e3o amadureceu ao longo do tempo uma consci\u00eancia intelectual que lhe torne capaz de enfrentar os desafios e os pontos nodais totalmente novos que a globaliza\u00e7\u00e3o (ou, melhor: a \u201cplanetariza\u00e7\u00e3o\u201d) coloca. Al\u00e9m disso, na <strong>Europa<\/strong>, os chamados movimentos \u201cpopulistas\u201d pregam que n\u00e3o se pode mais pensar em termos de direita e de esquerda: erro muito grave, pois essa atitude amb\u00edgua e \u201cagn\u00f3stica\u201d aumenta o n\u00edvel de confus\u00e3o. O p\u00f3s-ideologismo certamente n\u00e3o devia ser abordado em termos de simplifica\u00e7\u00e3o, mas, sim, como aceita\u00e7\u00e3o do <strong>desafio da complexidade<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A maior das desigualdades de nosso tempo consiste em qu\u00ea? E como enfrent\u00e1-la?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giuseppe Fumarco \u2013<\/strong> H\u00e1 diversos n\u00edveis de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/532625-a-ecologia-economica-como-alternativa-as-desigualdades-entrevista-especial-com-gael-giraud-\" target=\"_blank\">desigualdades<\/a>: a desigualdade das oportunidades desde o nascimento, as desigualdades entre os diversos pa\u00edses, as diversas na\u00e7\u00f5es e os diversos grupos \u00e9tnicos, as desigualdades dentro dos pa\u00edses individuais e das na\u00e7\u00f5es individuais, as desigualdades de g\u00eanero etc. Temos diante dos nossos olhos um desconfortante panorama de desigualdades de todos os tipos.<\/p>\n<p>Esta tamb\u00e9m \u00e9 a minha tristeza mais profunda, que se liga a uma sensa\u00e7\u00e3o pessoal negativa de impot\u00eancia. Eu admiro o Papa pelo otimismo que ele consegue expressar e difundir ao seu redor. Mas temo que n\u00e3o seja suficiente: <strong>Francisco<\/strong> \u00e9 escutado e aplaudido, mas os chamados poderes fortes e o establishment transnacional continuar\u00e3o se movendo de modo autom\u00e1tico de acordo com os pr\u00f3prios mecanismos end\u00f3genos perversos.<\/p>\n<p>Infelizmente, o \u201c<strong>desafio da complexidade<\/strong>\u201d impunha a ado\u00e7\u00e3o de novos registros conceituais, de novos mapas mentais capazes de tentar, ao menos, enfrentar, sen\u00e3o resolver tamb\u00e9m e \u201csobretudo\u201d esses problemas. A desigualdade em n\u00edvel planet\u00e1rio \u2013 como bem escreveu o Papa \u2013 se liga \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. O \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/543753-tudo-esta-em-relacao-tudo-e-conexo-a-laudato-siq-e-a-ecologia-integral-do-papa-francisco\" target=\"_blank\">todo\u201d \u00e9 complexo precisamente por ser inter-relacionado<\/a>, conectado&#8230; \u00e0s vezes por fios invis\u00edveis.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m tem nem ter\u00e1, a meu ver, a coragem de enfrentar, no futuro pr\u00f3ximo vindouro, o \u201cdesafio dos desafios\u201d, o mais radical, que certamente n\u00e3o \u00e9 a busca do igualitarismo absoluto, mas, pelo menos, de uma igual oportunidade para todos no nascimento. Hoje, isso \u00e9 pura Utopia. Amanh\u00e3&#8230; quem viver ver\u00e1 (<strong>Jo\u00e3o Paulo II<\/strong>).<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giuseppe Fumarco \u2013<\/strong> <strong>Bergoglio<\/strong> vem das minhas terras, de um vilarejo em <strong>Asti<\/strong>. Os meus parentes s\u00e3o \u201cmonferrinos\u201d exatamente como os seus antepassados antes da migra\u00e7\u00e3o para a <strong>Argentina<\/strong>. Eu ainda tenho parentes distantes na Argentina, com os quais \u00e0s vezes estou em contato. Isso criou, desde j\u00e1, um <em>feeling<\/em> subterr\u00e2neo com esse papa de ar t\u00e3o bondoso; a minha gente, muitas vezes, foi definida pelos escritores justamente como que caracterizada por uma certa bondade natural.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n[1] <strong>Edgar Morin<\/strong> (1921): soci\u00f3logo franc\u00eas, autor da c\u00e9lebre obra O M\u00e9todo. Os seis livros da s\u00e9rie foram tema do Ciclo de Estudos sobre \u201cO M\u00e9todo\u201d, promovido pelo IHU em parceria com a Livraria Cultura de Porto Alegre em 2004. Embora seja estudioso da complexidade crescente do conhecimento cient\u00edfico e suas intera\u00e7\u00f5es com as quest\u00f5es humanas, sociais e pol\u00edticas, se recusa a ser enquadrado na sociologia e prefere abarcar um campo de conhecimentos mais vasto: filosofia, economia, pol\u00edtica, ecologia e at\u00e9 biologia, pois, para ele, n\u00e3o h\u00e1 pensamento que corresponda \u00e0 nova era planet\u00e1ria. Al\u00e9m de O M\u00e9todo, \u00e9 autor de, entre outros, A religa\u00e7\u00e3o dos saberes. O desafio do s\u00e9culo XXI (Bertrand do Brasil, 2001). Confira a edi\u00e7\u00e3o especial sobre esse pensador, intitulada <a href=\"http:\/\/bit.ly\/ihuon402\" target=\"_blank\">Edgar Morin e o pensamento complexo<\/a>, de 10-09-2012. O IHU, na <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/ihu.unisinos.br\/maisnoticias\/noticias\" target=\"_blank\">se\u00e7\u00e3o Not\u00edcias do Dia<\/a>, em seu s\u00edtio, vem publicando uma s\u00e9rie de textos e reflex\u00f5es sobre o pensamento de Morin. (Nota da<strong> IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[2] <strong>Antropoceno<\/strong>: termo usado por alguns cientistas para descrever o per\u00edodo mais recente na hist\u00f3ria do Planeta Terra. O s\u00edtio do Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU tem tratado dessa perspectiva em diversas publica\u00e7\u00f5es. Entre elas \u201c<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1T5xU2U\" target=\"_blank\">Antropoceno: ou mudamos nosso estilo de vida, ou vamos sucumbir\u201d. Entrevista especial com Wagner Costa Ribeiro<\/a>, publicada nas Not\u00edcias do Dia, de 29-02-2016. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[3] <strong>Paul Josef Crutzen<\/strong> (1933): qu\u00edmico holand\u00eas, laureado com o Nobel de Qu\u00edmica de 1995, por seu estudo sobre a forma\u00e7\u00e3o e decomposi\u00e7\u00e3o do oz\u00f4nio na atmosfera. Membro da Pontif\u00edcia Academia das Ci\u00eancias em 25 de junho de 1996. \u00c9 professor do Instituto Max Planck de Qu\u00edmica em Mainz, Alemanha. O asteroide 9679 Crutzen \u00e9 denominado em sua homenagem. Ele cunhou o termo antropoceno e desenvolveu a teoria a que este corresponde. (Nota <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[4] <strong>Holoceno<\/strong>: divis\u00e3o da escala de tempo geol\u00f3gico, \u00e9 a \u00faltima e atual \u00e9poca geol\u00f3gica do Quatern\u00e1rio. O come\u00e7o de o Holoceno \u00e9 definido na mudan\u00e7a clim\u00e1tica correspondente \u00e0 do final do epis\u00f3dio frio conhecido como o Dryas recente, ap\u00f3s a \u00faltima glacia\u00e7\u00e3o, e abrange os \u00faltimos 11.784 anos, tendo 2000 como refer\u00eancia de tempo base. Ele \u00e9 um per\u00edodo interglacial em que a temperatura foi mais suave e diferentes calotas desapareceu ou diminui\u00e7\u00e3o do volume, o que causou uma eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. (Nota da<strong> IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[5] O entrevistado se refere a <strong>Enc\u00edclica Laudato Si\u2019<\/strong>: enc\u00edclica do Papa Francisco, na qual critica o consumismo e desenvolvimento irrespons\u00e1vel e faz um apelo \u00e0 mudan\u00e7a e \u00e0 unifica\u00e7\u00e3o global das a\u00e7\u00f5es para combater a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Publicada oficialmente em 18 de junho de 2015, mediante grande interesse das comunidades religiosas, ambientais e cient\u00edficas internacionais, dos l\u00edderes empresariais e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, o documento \u00e9 a segunda enc\u00edclica publicada por Francisco. A primeira foi Lumen fidei em 2013. No entanto, Lumen fidei \u00e9 na sua maioria um trabalho de Bento XVI. Por isso Laudato S\u00ed\u2019 \u00e9 vista como a primeira enc\u00edclica inteiramente da responsabilidade de Francisco. A revista IHU On-Line publicou uma <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1NqbhAJ\" target=\"_blank\">edi\u00e7\u00e3o em que analisa debate a Enc\u00edclica<\/a>. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[6] As refer\u00eancias \u00e0s afirma\u00e7\u00f5es do Papa Francisco s\u00e3o tiradas diretamente dos par\u00e1grafos numerados da enc\u00edclica \u201cLaudato si\u2019: Enc\u00edclica sobre o cuidado da casa comum\u201d, Livraria Editora Vaticana, Roma, 2015. (Nota do entrevistado)<\/p>\n[7] O texto foi publicado em Portugu\u00eas pelo IHU, <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/stories\/cadernos\/teopublica\/114_cadernosteologiapublica.pdf\" target=\"_blank\">no Cadernos Teologia P\u00fablica n\u00famero 114<\/a>. (Nota da<strong> IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[8] \u201cComplexus. Leggere il presente sulle orme di Edgar Morin\u201d, Effetto Farfalla, 2013. Istituto per l\u2019Ambiente e l\u2019Educazione \u201cSchol\u00e9 Futuro\u201d, Onlus, Turim. (Nota do entrevistado)<\/p>\n[9] <strong>Konrad Zacharias Lorenz<\/strong> (1903-1989): foi um zo\u00f3logo, et\u00f3logo e ornit\u00f3logo austr\u00edaco. Foi agraciado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1973, por seus estudos sobre o comportamento animal, a etologia. Em 1935 descreveu o processo de aprendizagem nos gansos e criou o conceito de &#8220;imprinting&#8221;. Este \u00e9 um fen\u00f4meno exibido por v\u00e1rios animais filhotes, principalmente p\u00e1ssaros tais quais pintinhos e patinhos. Ap\u00f3s sa\u00edrem dos ovos seguir\u00e3o o primeiro objeto em movimento que eles encontrarem no ambiente, o qual pode ser a m\u00e3e, mas n\u00e3o necessariamente. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[10] <strong>Clube de Roma<\/strong>: \u00e9 um grupo de pessoas ilustres que se re\u00fanem para debater um vasto conjunto de assuntos relacionados a pol\u00edtica, economia internacional e, sobretudo, ao meio ambiente e o desenvolvimento sustent\u00e1vel. Foi fundado em 1966 pelo industrial italiano Aurelio Peccei e pelo cientista escoc\u00eas Alexander King. Tornou-se muito conhecido a partir de 1972, ano da publica\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio intitulado Os Limites do Crescimento, elaborado por uma equipe do MIT, contratada pelo Clube de Roma e chefiada por Dana Meadows. O relat\u00f3rio, que ficaria conhecido como Relat\u00f3rio do Clube de Roma ou Relat\u00f3rio Meadows, tratava de problemas cruciais para o futuro desenvolvimento da humanidade, tais como energia, polui\u00e7\u00e3o, saneamento, sa\u00fade, ambiente, tecnologia e crescimento populacional, foi publicado e vendeu mais de 30 milh\u00f5es de c\u00f3pias em 30 idiomas, tornando-se o livro sobre ambiente mais vendido da hist\u00f3ria. (Nota do <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[11] <strong>Aurelio Peccei<\/strong> (1908-1984): foi um estudioso e industrial italiano, mais conhecido como o fundador e primeiro presidente do Clube de Roma &#8211; uma organiza\u00e7\u00e3o que Levantou a aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica consider\u00e1vel em 1972 com seu relat\u00f3rio os limites ao crescimento. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n[12] <strong>Donald John Trump<\/strong> (1946): \u00e9 um empres\u00e1rio, ex-apresentador de reality show e presidente eleito dos Estados Unidos. Na elei\u00e7\u00e3o de 2016, Trump foi eleito o 45\u00ba presidente norte-americano pelo Partido Republicano, ao derrotar a candidata democrata Hillary Clinton no n\u00famero de delegados do col\u00e9gio eleitoral; no entanto, perdeu no voto popular. Trump tomou posse em 20 de janeiro de 2017 e, aos 70 anos de idade, \u00e9 a pessoa mais velha a assumir a presid\u00eancia. Entre suas bandeiras est\u00e3o o protecionismo norte-americano, por onde passam quest\u00f5es econ\u00f4micas e sociais, como a rela\u00e7\u00e3o com imigrantes nos Estados Unidos. Trump \u00e9 presidente do conglomerado The Trump Organization e fundador da Trump Entertainment Resorts. Sua carreira, exposi\u00e7\u00e3o de marcas, vida pessoal, riqueza e modo de se pronunciar contribu\u00edram para torn\u00e1-lo famoso. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Jo\u00e3o Vitor Santos, tradu\u00e7\u00e3o Mois\u00e9s Sbardelotto, IHU de 25 de mar\u00e7o de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>planetaryvisions O papa Francisco vem denunciando um complexo estado de crises, n\u00e3o apenas ambiental, mas tamb\u00e9m civilizacional. O soci\u00f3logo Giuseppe Fumarco vai ao pensamento de Edgar Morin\u00a0para tentar compreender esse estado. Segundo o professor, antes de pensar em sa\u00eddas, \u00e9 preciso compreender a complexidade\u00a0em que estamos imbricados. 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