{"id":19418,"date":"2017-04-09T17:00:19","date_gmt":"2017-04-09T20:00:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=19418"},"modified":"2017-04-07T12:13:09","modified_gmt":"2017-04-07T15:13:09","slug":"ser-o-parasita-da-terra-nos-levara-a-autodestruicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/ser-o-parasita-da-terra-nos-levara-a-autodestruicao\/","title":{"rendered":"Ser o parasita da Terra nos levar\u00e1 \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/elpais\/imagenes\/2017\/02\/07\/ciencia\/1486478847_147568_1486480539_noticia_grande.jpg\" \/><em>Nogu\u00e9s-Bravo, ao lado de um mamute no Museu de Hist\u00f3ria Natural da Dinamarca <span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">SNM.KU.DK<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"articulo-subtitulo\"><strong>Especialista publica na revista \u2018Science\u2019 o primeiro mapa da diversidade gen\u00e9tica do planeta<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 duzentos anos, a simples ideia de que uma esp\u00e9cie <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/animales\/a\">animal<\/a> pudesse se extinguir era completamente revolucion\u00e1ria. \u201cN\u00e3o posso deixar de acreditar que o mamute ainda existe. A aniquila\u00e7\u00e3o de qualquer esp\u00e9cie carece de exemplos em qualquer parte da natureza que observarmos\u201d, escrevia em 1796 o paleontologista (e terceiro presidente dos EUA) Thomas Jefferson. O pai da Declara\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/independencia\/a\">Independ\u00eancia<\/a>tinha muitos motivos para pensar que, sem d\u00favida, a natureza era capaz de se manter em equil\u00edbrio apesar da press\u00e3o que os humanos pudessem exercer em determinado ecossistema. Hoje, boa parte das not\u00edcias que temos sobre <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/biodiversidad\/a\">biodiversidade<\/a> d\u00e3o conta de novas esp\u00e9cies em perigo ou j\u00e1 em extin\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios rinc\u00f5es do planeta. Mas para determinar o estado de sa\u00fade da biodiversidade da <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/la_tierra\/a\">Terra<\/a> em seu conjunto, cada vez mais \u00e9 necess\u00e1rio o uso de novos instrumentos que permitam chegar ao diagn\u00f3stico. A isso se dedica o macroecologista David Nogu\u00e9s Bravo, que desenvolveu uma nova ferramenta, \u201ccomo um novo tipo de telesc\u00f3pio\u201d para observar a diversidade <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/genetica\/a\">gen\u00e9tica<\/a> dos animais. \u201cS\u00e3o os blocos da vida que nos ajudam a nos adaptar \u00e0s mudan\u00e7as. Se existem blocos que nos ajudam com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, temos mais possibilidades de sobreviver\u201d, explica Nogu\u00e9s (Zaragoza, 1975), da Universidade de Copenhague, <a href=\"http:\/\/science.sciencemag.org\/content\/353\/6307\/1532.full\">que publicou seus resultados na mat\u00e9ria que chegou \u00e0 capa da revista <em>Science<\/em><\/a>. A principal observa\u00e7\u00e3o proporcionada por este <em>telesc\u00f3pio<\/em> \u00e9 que n\u00f3s, humanos, estamos acabando com a for\u00e7a gen\u00e9tica dos animais. J\u00e1 sab\u00edamos que arrasamos esp\u00e9cies e ecossistemas, mas tamb\u00e9m estamos empobrecendo sua heran\u00e7a gen\u00e9tica, o que os torna ainda mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Um de seus primeiros trabalhos de relev\u00e2ncia foi, exatamente, sobre a extin\u00e7\u00e3o dos mamutes, um estudo que mostrava como a mudan\u00e7a clim\u00e1tica deixou esses primos peludos dos <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/elefantes\/b\/\">elefantes<\/a> por um fio exatamente quando chegaram os humanos a seus ecossistemas para lhes dar \u201co golpe de miseric\u00f3rdia\u201d. Trata-se de um exemplo t\u00e3o prof\u00e9tico quanto \u00fatil para entender como ser\u00e3o as <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/12\/16\/ciencia\/1481903192_602045.html\">extin\u00e7\u00f5es presentes e futuras que estamos provocando<\/a>. \u201cFazemos modelos sobre o futuro, mas n\u00e3o temos uma m\u00e1quina do tempo para validar se estes modelos t\u00eam sentido ou n\u00e3o. E por isso come\u00e7amos a trabalhar sobre o passado\u201d, explica este macroecologista, professor titular do Museu de Hist\u00f3ria Natural da Dinamarca, um lugar em que \u201ca ci\u00eancia \u00e9 um pilar b\u00e1sico\u201d, o que lhe permite ter projetos de grande porte que envolvem geneticistas, paleontologistas, ecologistas, bi\u00f3logos e cientistas sociais. Em seu grupo de macroecologia, de um total de oitenta pesquisadores cerca de vinte s\u00e3o <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/economia\/a\">economistas<\/a> e <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sociologia\/a\">soci\u00f3logos<\/a> \u201cporque temos que entender como os processos econ\u00f4micos e sociais est\u00e3o ligados \u00e0s din\u00e2micas naturais\u201d, explica.<\/p>\n<p><em>&#8220;Somos a esp\u00e9cie que melhor compete na hist\u00f3ria do planeta. E quando voc\u00ea compete muito, muito bem, desloca e acaba extinguindo as outras&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Durante um projeto de apoio ao desenvolvimento, Nogu\u00e9s teve uma experi\u00eancia reveladora, em um mercado em Durban (<a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sudafrica\/a\">\u00c1frica do Sul<\/a>), no qual se faziam po\u00e7\u00f5es e se comercializava impunemente peda\u00e7os de animais mortos, muitos deles em risco de extin\u00e7\u00e3o \u2014\u201cum dos grandes problemas com os mam\u00edferos na \u00c1frica\u201d. E, vendo o trabalho de seus colegas de museu dedicados ao estudo dos insetos sociais, chegou a uma conclus\u00e3o: os humanos s\u00e3o o parasita da Terra.<\/p>\n<p><strong>Pergunta.<\/strong> <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/06\/19\/ciencia\/1434727661_836295.html\">Come\u00e7amos a sexta grande extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies da hist\u00f3ria do planeta<\/a>, equipar\u00e1vel \u00e0 que sofreram os dinossauros. N\u00f3s, os humanos, somos o novo meteoro?<\/p>\n<p><strong>Resposta.<\/strong> O que temos certeza \u00e9 que os n\u00edveis de extin\u00e7\u00e3o que estamos vendo nos \u00faltimos 500 anos s\u00e3o um fato \u00fanico na hist\u00f3ria do planeta, que se assemelha a esses outros cinco grandes per\u00edodos de extin\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante dizer que n\u00f3s como humanos estamos tendo um impacto muito r\u00e1pido e direto na extin\u00e7\u00e3o de centenas de esp\u00e9cies. Somos a esp\u00e9cie que melhor compete na hist\u00f3ria do planeta. E quando voc\u00ea compete muito, muito bem, pode ser bom para sua esp\u00e9cie, mas voc\u00ea desloca e acaba extinguindo as outras. Somos uma esp\u00e9cie com uma capacidade <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/05\/11\/economia\/1431346903_947768.html\">para atrair e sugar energia de nosso planeta<\/a> em escala global como possivelmente nunca houve antes. Temos a capacidade de modificar o ambiente, fazendo com que muitas esp\u00e9cies n\u00e3o consigam sobreviver com este novo competidor. Para a hist\u00f3ria do planeta somos uma esp\u00e9cie muito recente, temos 200.000 anos, mas fomos capazes de competir com as outras at\u00e9 o extremo de ter um controle global sobre a biosfera. Nos pr\u00f3ximos 50 anos vamos ver desaparecer muitas esp\u00e9cies de <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/primates\/a\">primatas<\/a> para sempre. De 1.300 esp\u00e9cies de invertebrados marinhos, 25% est\u00e3o amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o; de 7.800 de invertebrados de \u00e1gua doce, 34%. Foram extintas quase 350 esp\u00e9cies de vertebrados nos \u00faltimos cinco s\u00e9culos. \u00c0s vezes temos problemas para visualizar: isso est\u00e1 acontecendo, n\u00e3o \u00e9 algo que os cientistas est\u00e3o predizendo. Assistimos a extin\u00e7\u00f5es locais de forma cont\u00ednua. Estamos em tempo de resolver muitos desses problemas, mas para parar essa din\u00e2mica \u00e9 preciso tomar medidas radicais, dr\u00e1sticas e que sejam r\u00e1pidas.<\/p>\n<p><em>&#8220;Continuamos sem saber quantos milh\u00f5es de esp\u00e9cies existem no planeta; sabemos com certeza que muitas se extinguem antes mesmo de podermos descrev\u00ea-las&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Por isso o sr. dizia <a href=\"http:\/\/www.cell.com\/current-biology\/abstract\/S0960-9822(16)30941-1\">recentemente em um artigo<\/a> que somos um parasita?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Isso me veio \u00e0 cabe\u00e7a porque meus colegas do primeiro andar estiveram <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/brasil\/a\">no Brasil<\/a> observando um fungo que parasita as formigas, metendo-se em sua cabe\u00e7a, e transformando-as em zumbi. Assim conseguem control\u00e1-las por completo em seu pr\u00f3prio benef\u00edcio at\u00e9 que as formigas morrem. Desde a origem de nossa esp\u00e9cie at\u00e9 o Neol\u00edtico \u00e9ramos ca\u00e7adores-coletores e viv\u00edamos em rela\u00e7\u00e3o de comensalismo com nosso planeta: obt\u00ednhamos benef\u00edcios da natureza, mas sem causar um impacto significativo. Mas a partir da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial ocorre uma acelera\u00e7\u00e3o exponencial de nossa capacidade de obter energia e de transformar ecossistemas. E nessa fase de nossa hist\u00f3ria de amor e \u00f3dio com o planeta <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/12\/03\/ciencia\/1417627066_080661.html\">\u00e9 que vem o exemplo da formiga<\/a>. Pode soar muito radical, porque o planeta continuar\u00e1 existindo com ou sem os humanos. Mas estamos dirigindo-o, como se f\u00f4ssemos a cabine de controle, e estamos levando-o para uma zona que n\u00e3o garante nossa pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. J\u00e1 h\u00e1 <a href=\"http:\/\/www.science.ku.dk\/english\/press\/news\/2015\/planetary-boundaries\/\">estudos que destacam que estamos perto de alcan\u00e7ar n\u00edveis insustent\u00e1veis para nossa pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia<\/a>. Ser o parasita da Terra nos leva \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Isso lembra mais a f\u00e1bula do escorpi\u00e3o, que n\u00e3o consegue evitar picar a r\u00e3 que o transporta, mesmo prevendo a pr\u00f3pria morte.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> A biodiversidade \u00e9 importante em si. Mas se voc\u00ea quiser pensar de uma forma ego\u00edsta, dependemos de in\u00fameros aspectos do que a natureza nos d\u00e1. A <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cambio_climatico\/a\">mudan\u00e7a clim\u00e1tica<\/a> est\u00e1 afetando a capacidade de cultivar plantas, mas tamb\u00e9m os animais que polinizam para sobreviver: desde os colibris que polinizam o caf\u00e9 na <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/jamaica\/a\">Jamaica<\/a> at\u00e9 as abelhas que s\u00e3o respons\u00e1veis por centenas e centenas de produtos que encontramos em nossos supermercados. As <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/06\/27\/sociedad\/1403882291_329326.html\">abelhas est\u00e3o indo para um declive<\/a> acelerado em muitos lugares do planeta a ponto de em algumas regi\u00f5es da China as plantas n\u00e3o terem abelhas para poliniz\u00e1-las. Tiveram de colocar pessoas para polinizar as \u00e1rvores \u00e0 m\u00e3o. Os recursos que obtemos da natureza dependem de manter a diversidade de animais e plantas. Como esp\u00e9cie, nossa sociedade depende desses servi\u00e7os que nos d\u00e3o os ecossistemas.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Como a macroecologia pode ajudar?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Ajuda a estudar em grandes escalas. Em vez de analisar uma esp\u00e9cie em um \u00fanico ecossistema, estudamos a distribui\u00e7\u00e3o da vida em escalas continentais e globais. Podemos fazer uma analogia: h\u00e1 astr\u00f4nomos olhando uma s\u00f3 estrela ou planeta e n\u00f3s fazemos um mapa de toda a gal\u00e1xia. Tudo est\u00e1 conectado, os problemas s\u00e3o globais, e ver a natureza sob essa perspectiva permite entender melhor quais s\u00e3o as din\u00e2micas que nos rodeiam. Em nossa disciplina se imp\u00f5e a pesquisa multidisciplinar, com experi\u00eancias em grande escala. Agora temos ecologistas fazendo experi\u00eancias ao redor de todo o planeta ao mesmo tempo. Est\u00e1 se tornando uma ci\u00eancia global na hora de analisar a resposta \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Continuamos sem saber quantos milh\u00f5es de esp\u00e9cies h\u00e1 no planeta; sabemos com certeza que h\u00e1 muitas que se extinguem at\u00e9 antes que possamos descrever. Precisamos convencer quem financia a pesquisa b\u00e1sica que se n\u00e3o conhecermos a diversidade n\u00e3o poderemos conserv\u00e1-la.<\/p>\n<p><em>&#8220;A melhor maneira de proteger a biodiversidade nos pa\u00edses do Terceiro Mundo \u00e9 ajudar a melhorar o modo de vida das comunidades locais&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Nesse contexto aparece <a href=\"http:\/\/science.sciencemag.org\/content\/353\/6307\/1532.full\">seu estudo na <em>Science<\/em><\/a>, uma nova ferramenta para estudar a biodiversidade sob outra \u00f3tica.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Sabemos h\u00e1 anos que h\u00e1 grande diversidade de esp\u00e9cies e diversidade de ecossistemas nos tr\u00f3picos, mas h\u00e1 um padr\u00e3o global que segu\u00edamos sem conhecer: o da diversidade gen\u00e9tica. Pedi um projeto de mais de um milh\u00e3o de euros para responder a essa pergunta que parece simples, mas t\u00eam implica\u00e7\u00f5es bem grandes na hora de proteger a biodiversidade e responder \u00e0s amea\u00e7as no futuro. Este primeiro mapa \u00e9 um pouco como ter constru\u00eddo um novo <em>telesc\u00f3pio<\/em> que nos permite olhar a gal\u00e1xia completa. At\u00e9 agora havia estudos em escalas mais locais: Nova Zel\u00e2ndia, Espanha, Brasil&#8230; Mas toda essa informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha sido colocada junta: conseguimos colocar a informa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica de 30% de todas as sequ\u00eancias que j\u00e1 se publicaram para mam\u00edferos e anf\u00edbios. Nos pr\u00f3ximos anos, espero que passemos a 80% ou 90% em meu grupo de pesquisa.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Esse estudo tamb\u00e9m revelou o \u201cmapa da ignor\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Uma das principais ideias \u00e9 que nos demos conta de que o que n\u00e3o sabemos continua sendo muito mais do que o que sabemos. Percebemos que as \u00e1reas do mundo que s\u00e3o mais biologicamente diversas s\u00e3o as que conhecemos menos, os tr\u00f3picos. Sabemos que h\u00e1 centenas de milhares de esp\u00e9cies, mas h\u00e1 muito pouca informa\u00e7\u00e3o sobre essas arcas de biodiversidade.<\/p>\n<p><em>&#8220;Uma das grandes ambi\u00e7\u00f5es da macroecologia \u00e9 descobrir as leis b\u00e1sicas que explicam a evolu\u00e7\u00e3o da vida em nosso planeta|&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> O estudo fala do efeito do Antropoceno. Como se nota a marca humana na diversidade gen\u00e9tica?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Nosso trabalho mostra que o padr\u00e3o global da diversidade gen\u00e9tica do planeta foi modificado por impactos de origem humana. As regi\u00f5es do planeta usadas por humanos de forma mais intensa nos \u00faltimos 2.000 anos t\u00eam n\u00edveis de diversidade gen\u00e9tica muito baixos, muito menores do que o que lhes correspondia por sua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica no globo. N\u00f3s, humanos, estamos destruindo muitas popula\u00e7\u00f5es; n\u00e3o vemos um padr\u00e3o natural, mas uma marca humana global direta sobre a diversidade gen\u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Por que \u00e9 importante conhecer a diversidade gen\u00e9tica?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> S\u00e3o os blocos da vida que nos ajudam a nos adaptar \u00e0s mudan\u00e7as. Se temos blocos que nos ajudam com as mudan\u00e7as no clima, temos mais possibilidade de sobreviver. Por isso muitas esp\u00e9cies com baixos n\u00edveis de diversidade gen\u00e9tica est\u00e3o muito mais expostas a sofrer impactos e extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Como a destru\u00edmos?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Uma esp\u00e9cie \u00e9 constitu\u00edda por diferentes popula\u00e7\u00f5es. Por exemplo, pensemos nos lobos europeus. Os que existem na Espanha, na It\u00e1lia, no leste da Europa&#8230; Cada popula\u00e7\u00e3o tem uma arquitetura gen\u00e9tica diferente das outras. Se come\u00e7amos a extinguir ou reduzir de forma radical muitas dessas popula\u00e7\u00f5es que s\u00e3o geneticamente diferentes, vamos eliminando o que chamamos de gen\u00f3tipo. Dessa forma estamos fazendo com que muitas esp\u00e9cies estejam perdendo grandes n\u00edveis de diversidade gen\u00e9tica.<\/p>\n<p><em>&#8220;Somos a esp\u00e9cie que melhor compete na hist\u00f3ria do planeta. E quando voc\u00ea compete muito, muito bem, desloca e acaba extinguindo as outras&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Como se resolve essa conviv\u00eancia com os humanos?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o complicada. As popula\u00e7\u00f5es humanas est\u00e3o crescendo a um ritmo muito acelerado e as pessoas precisam comer, por isso se desmata para plantar. A quest\u00e3o \u00e9 que as pessoas nesses lugares est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de pobreza alarmantes. Precisam conseguir comida e vender recursos para poder viver. Tudo isso est\u00e1 misturado a grandes interesses econ\u00f4micos estrangeiros, a governos locais ou estrangeiros com interesses pr\u00f3prios, que n\u00e3o incluem a preserva\u00e7\u00e3o da natureza entre seus principais objetivos. A melhor maneira de proteger a biodiversidade nos pa\u00edses do Terceiro Mundo \u00e9 ajudar as comunidades locais a melhorar seu modo de vida porque, quando n\u00e3o h\u00e1 recursos, a defesa da biodiversidade fica em segundo plano. Temos de encontrar maneiras de ajudar o desenvolvimento econ\u00f4mico sustent\u00e1vel das popula\u00e7\u00f5es que vivem ao redor dos grandes centros de biodiversidade de nosso planeta, seria uma das melhores formas de promover a preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Qual vai ser o grande sucesso da macroecologia no futuro?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Descobrir as leis da natureza. Os f\u00edsicos s\u00e3o muito bons quando falam das leis da f\u00edsica. Mas, na ecologia, os especialistas t\u00eam sido mais reticentes ao tratar das grandes leis que regem a natureza. Acredito que, nisso, a macroecologia \u00e9 muito menos modesta: em nosso campo, uma das grandes ambi\u00e7\u00f5es \u00e9 descobrir as leis b\u00e1sicas que explicam a evolu\u00e7\u00e3o da vida em nosso planeta: onde est\u00e3o as coisas hoje e onde v\u00e3o estar, se estiverem, daqui a cem anos. Sem essas leis n\u00e3o poderemos prever corretamente qual ser\u00e1 o futuro da biosfera dentro de cem anos.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Javier Salas, El Pa\u00eds de 11 de fevereiro de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nogu\u00e9s-Bravo, ao lado de um mamute no Museu de Hist\u00f3ria Natural da Dinamarca SNM.KU.DK Especialista publica na revista \u2018Science\u2019 o primeiro mapa da diversidade gen\u00e9tica do planeta H\u00e1 duzentos anos, a simples ideia de que uma esp\u00e9cie animal pudesse se extinguir era completamente revolucion\u00e1ria. \u201cN\u00e3o posso deixar de acreditar que o mamute ainda existe. 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