{"id":19906,"date":"2017-06-12T17:00:15","date_gmt":"2017-06-12T20:00:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=19906"},"modified":"2017-05-30T10:25:34","modified_gmt":"2017-05-30T13:25:34","slug":"a-transposicao-do-rio-sao-francisco-e-um-ralo-de-dinheiro-publico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-transposicao-do-rio-sao-francisco-e-um-ralo-de-dinheiro-publico\/","title":{"rendered":"A transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco \u00e9 um \u201cralo de dinheiro p\u00fablico\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2017\/05\/23-5-17_mapatransposicao_foto_ocafezinho.jpg\" \/><em>Mapa da Transposi\u00e7\u00e3o (Foto: O Cafezinho)<\/em><\/p>\n<p>As dela\u00e7\u00f5es dos executivos da Odebrecht\u00a0para a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato\u00a0\u201cvieram comprovar as suspeitas de que um dos objetivos da transposi\u00e7\u00e3o era a transfer\u00eancia de grandes montantes de recursos p\u00fablicos para empresas em \u2018caixa um\u2019 e \u2018caixa dois\u2019 e para pol\u00edticos em campanhas eleitorais\u201d, diz Ruben Siqueira, coordenador da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra \u2013 CPT.<\/p>\n<p>Segundo ele, para dar conta dos 14 lotes de constru\u00e7\u00e3o envolvendo a transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco, \u201cv\u00e1rios cons\u00f3rcios foram constitu\u00eddos entre empreiteiras\u201d, mas a \u201cPol\u00edcia Federal desencadeou investiga\u00e7\u00f5es que comprovaram fraudes e superfaturamentos em alguns destes cons\u00f3rcios, com envolvimento de pol\u00edticos e media\u00e7\u00e3o de doleiros\u201d.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, Siqueira\u00a0comenta a inaugura\u00e7\u00e3o do Eixo Leste da obra, e frisa que \u201c\u00e9 poss\u00edvel conferir e confirmar as principais cr\u00edticas ao projeto\u201d. Al\u00e9m disso, critica, a obra que era prevista para ser realizada em tr\u00eas anos, a um custo de 4,6 bilh\u00f5es de reais, \u201cest\u00e1 completando 10 anos e a um custo de 10 bilh\u00f5es\u201d. E dispara: \u201cAs den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o envolvendo empreiteiras e governos, com superfaturamentos e propinas, que atingem tamb\u00e9m a obra, corroboram a cr\u00edtica de que seria um \u2018ralo de dinheiro p\u00fablico\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Uma solu\u00e7\u00e3o \u00e0 transposi\u00e7\u00e3o, defende, seria a ado\u00e7\u00e3o de \u201cum conjunto de v\u00e1rias pequenas e m\u00e9dias solu\u00e7\u00f5es descentralizadas e adaptadas \u00e0s diversidades geoclim\u00e1ticas\u201d, j\u00e1 que o Sert\u00e3o Semi\u00e1rido \u00e9 composto por \u201c72 sert\u00f5es diferentes\u201d.<\/p>\n<p>Ruben Siqueira \u00e9 graduado em Filosofia e em Pedagogia e mestre em Ci\u00eancias Sociais. Foi coordenador da CPT\u00a0Diocesana de Juazeiro, entre 1988 e 1994, quando assumiu em Goi\u00e2nia a assessoria sociol\u00f3gica da CPT Nacional. Posteriormente foi coordenador da CPT\u00a0Regional da Bahia at\u00e9 2005, quando assumiu a articula\u00e7\u00e3o geral do Projeto S\u00e3o Francisco, parceria da CPT MG, BA e NE2 com o Conselho Pastoral dos Pescadores \u2013 CPP. Foi eleito para a coordena\u00e7\u00e3o executiva nacional na XXVII Assembleia Nacional da CPT, que aconteceu em Luzi\u00e2nia (GO), em mar\u00e7o de 2015.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Que avalia\u00e7\u00e3o faz da transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco? Que mudan\u00e7as na distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua foram prometidas por conta da constru\u00e7\u00e3o da obra e o que de fato acontece neste momento no Nordeste Setentrional?<\/p>\n<div class=\"news-citacao\"><em>&#8220;A popula\u00e7\u00e3o efetivamente a ser beneficiada corresponde a 0,3% da popula\u00e7\u00e3o do Nordeste, que \u00e9 de 54 milh\u00f5es&#8221;<\/em><\/div>\n<div class=\"news-citacao\"><\/div>\n<div class=\"news-citacao\">Ruben Siqueira \u2013 Mesmo ainda inconclusa, mas j\u00e1 com inaugura\u00e7\u00f5es festivas, e em vista da perman\u00eancia dos v\u00edcios de origem e trajet\u00f3ria da obra at\u00e9 aqui, \u00e9 poss\u00edvel conferir e confirmar as principais cr\u00edticas ao projeto. Previsto para tr\u00eas anos, a um custo de 4,6 bilh\u00f5es de reais, est\u00e1 completando quase 10 anos e a um custo de 10 bilh\u00f5es. As den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o envolvendo empreiteiras\u00a0e governos, com superfaturamentos\u00a0e propinas, que atingem tamb\u00e9m a obra, corroboram a cr\u00edtica de que seria um \u201cralo de dinheiro p\u00fablico\u201d. As duas \u201cinaugura\u00e7\u00f5es\u201d, na verdade \u201cshowm\u00edcios\u201d, um do governo golpista, outro do governo golpeado, ambos atr\u00e1s de apoio popular para as elei\u00e7\u00f5es de 2018 \u2014 o golpista desesperado atr\u00e1s de fatos positivos, pois pelo desmonte dos direitos \u00e9 o mais impopular da hist\u00f3ria \u2014, revelam mais uma vez o car\u00e1ter eleitoreiro da transposi\u00e7\u00e3o. O arrastar da obra serve a objetivos inconfessos, faz render dividendos eleitorais. O projeto tem menos a ver com seca e sede de \u00e1gua do que com fome de poder.<\/div>\n<div class=\"news-citacao\"><\/div>\n<p>Mudan\u00e7as significativas na distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, n\u00e3o houve nenhuma. O que houve foi grande alarde, gente celebrando com banhos a secularmente ansiada chegada das \u00e1guas do S\u00e3o Francisco, apregoada como solu\u00e7\u00e3o definitiva para a seca nordestina. Mudan\u00e7as reais v\u00e3o ser sentidas quando toda a \u00e1gua da regi\u00e3o subir de pre\u00e7o, com impacto nas contas dom\u00e9sticas dos 12 milh\u00f5es de alegados benefici\u00e1rios. O projeto real atinge menos que 5% do Semi\u00e1rido. A popula\u00e7\u00e3o efetivamente a ser beneficiada corresponde a 0,3% da popula\u00e7\u00e3o do Nordeste, que \u00e9 de 54 milh\u00f5es. Mas todos pagar\u00e3o a conta, para que ela feche, compensando os usos econ\u00f4micos de uma \u00e1gua que \u00e9 a mais cara do mundo.<\/p>\n<p>O Eixo Leste \u201cinaugurado\u201d \u00e9 o que teria uma maior por\u00e7\u00e3o de \u00e1gua para consumo humano e h\u00e1 quem o defenda, mesmo entre cr\u00edticos do projeto. Mas a \u00e1gua do S\u00e3o Francisco\u00a0que chegou \u00e0 Para\u00edba quase nada acrescentou, pois \u201cconcorreu\u201d com as chuvas que ca\u00edram em mais de 60 munic\u00edpios.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Como combinar a transposi\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do Rio S\u00e3o Francisco?<\/p>\n<div class=\"news-citacao\"><em>&#8220;Estudos da NASA sobre os rios do mundo constataram que o S\u00e3o Francisco tem o pior quadro, perdeu 35% de vaz\u00e3o constante em 50 anos e vai perder em torno de 25% nos pr\u00f3ximos 50 anos&#8221;<\/em><\/div>\n<div class=\"news-citacao\"><\/div>\n<p>Ruben Siqueira \u2013 Na pior crise h\u00eddrica da hist\u00f3ria, o Rio S\u00e3o Francisco\u00a0n\u00e3o est\u00e1 dando conta dos m\u00faltiplos e concorrentes usos j\u00e1 instalados em sua bacia. Sua vaz\u00e3o em torno de 70% est\u00e1 comprometida com a produ\u00e7\u00e3o de hidroeletricidade \u2014 95% da energia de todo o Nordeste. Seguidas redu\u00e7\u00f5es de vaz\u00f5es de Sobradinho e reservat\u00f3rios a jusante v\u00eam sendo implementadas; dos at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9ditos 600 m3\/s prop\u00f5e-se agora que des\u00e7am para 540 a partir de junho, em Sobradinho\u00a0e Xing\u00f3. Cresce a irriga\u00e7\u00e3o agr\u00edcola \u2014 dos anos 1960 para c\u00e1, j\u00e1 foram irrigados 800 mil hectares em empreendimentos privados e 180 mil nos per\u00edmetros p\u00fablicos. Nos recentes per\u00edodos de seca, a disputa entre estes usu\u00e1rios tem sido mais intensa e preocupante. E ainda tem o abastecimento humano de 16 milh\u00f5es de habitantes na bacia e o industrial. Sem contar os usos n\u00e3o humanos.<\/p>\n<p>As perspectivas futuras s\u00e3o ainda piores. Estudos da NASA sobre os rios do mundo constataram que o S\u00e3o Francisco\u00a0tem o pior quadro, perdeu 35% de vaz\u00e3o constante em 50 anos e vai perder em torno de 25% nos pr\u00f3ximos 50 anos, devido tamb\u00e9m ao aquecimento global. Tal \u00e9 a pen\u00faria do S\u00e3o Francisco que, em recente reuni\u00e3o do Comit\u00ea da Bacia do S\u00e3o Francisco\u00a0(Recife, 19\/05\/17), pela primeira vez a Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas \u2013 ANA\u00a0prop\u00f5e redu\u00e7\u00e3o das capta\u00e7\u00f5es para irriga\u00e7\u00e3o. Seria o \u201cDia do Rio\u201d, um dia por semana, possivelmente \u00e0s segundas-feiras, em que as capta\u00e7\u00f5es seriam suspensas.<\/p>\n<p>\u00c9 um paliativo. Este enorme problema dos m\u00faltiplos e concorrentes usos, de dif\u00edcil equa\u00e7\u00e3o e solu\u00e7\u00e3o, vai se estender para a regi\u00e3o setentrional do Nordeste com a transposi\u00e7\u00e3o e se agravar, virando um conflito entre estados da Federa\u00e7\u00e3o, inclusive. Conforme o Plano de Bacia, elaborado nos marcos da Lei de \u00c1guas (no 9433\/97), da vaz\u00e3o m\u00e1xima poss\u00edvel de retirada no S\u00e3o Francisco\u00a0(360 m\u00b3\/s) j\u00e1 est\u00e3o outorgados 335 m\u00b3\/s e sendo gastos 91 m3\/s em usos consuntivos nos sete estados da bacia. As retiradas previstas para a transposi\u00e7\u00e3o s\u00e3o, pois, n\u00e3o de 1% do rio \u201cdesperdi\u00e7ado no mar\u201d, mas de 24% da vaz\u00e3o m\u00e9dia e 47% da vaz\u00e3o m\u00e1xima. Desta forma, o saldo para usos consuntivos de 25 m\u00b3\/s (360 \u2013 335) ir\u00e1 todo para a transposi\u00e7\u00e3o. Armado est\u00e1 o campo de batalha.<\/p>\n<p>E a dimens\u00e3o dos canais da transposi\u00e7\u00e3o \u00e9 para muito mais do que os 25m3 legalmente aprovados, inclusive pelo Comit\u00ea, para consumo humano. \u00c9 uma estrutura para quatro vezes mais, 127 m3\/s, quando Sobradinho estiver com 94% de preenchimento, o que quase nunca acontece, e 65 m3\/s em m\u00e9dia, indo muito al\u00e9m do que e como foi aprovado. Pois a finalidade principal do projeto \u00e9 irriga\u00e7\u00e3o agr\u00edcola \u2014 70% da \u00e1gua, seguida de 26% para uso urbano-industrial e 4% para o abastecimento da popula\u00e7\u00e3o difusa, na verdade, para \u201cperdas e outros consumos\u201d, conforme consta no projeto. O potencial de conflito da disputa pela \u00e1gua ser\u00e1 muito maior do que j\u00e1 acontece na bacia doadora.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 A inaugura\u00e7\u00e3o do Eixo Leste da transposi\u00e7\u00e3o foi comemorada, em parte, pela esquerda, com as chamadas \u201cfestas-com\u00edcios\u201d. Por que, na sua avalia\u00e7\u00e3o, parte da esquerda vibra com a realiza\u00e7\u00e3o de uma obra desse tipo?<\/p>\n<p>Ruben Siqueira \u2013 A obra era estrat\u00e9gica para o marketing pol\u00edtico de Lula\u00a0e para o lulismo. O pobre retirante nordestino, que passou sede na inf\u00e2ncia, realiza a sonhada transposi\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco, que desde o imperador Pedro II nenhum governo conseguiu fazer. O lado populista do lulismo\u00a0tinha a\u00ed, no Nordeste mais pobre e onde est\u00e1 seu maior eleitorado, a marca definitiva.<\/p>\n<p>Esta \u201cfesta-com\u00edcio\u201d alimentou o confronto com o Governo Golpista e foi praticamente o lan\u00e7amento da candidatura de Lula para a presid\u00eancia em 2018. Cren\u00e7as pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas e a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica polarizada com o Golpe\u00a0e o p\u00f3s-Golpe, levam a que boa parte dos movimentos sociais camponeses e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil continue atrelada ao projeto lulista. Lula\u00a0prometeu a \u201cmaior reforma agr\u00e1ria da hist\u00f3ria\u201d ao longo dos canais e levou \u00e0 frente os programas de constru\u00e7\u00e3o de cisternas e pequenas obras de \u00e1gua para produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No fundo, h\u00e1 em parte desta esquerda \u2014 com exce\u00e7\u00f5es importantes \u2014 muita ignor\u00e2ncia sobre o Nordeste\u00a0e o Semi\u00e1rido, ao se alimentar ainda daquela vis\u00e3o idealizada, criada nas artes, do solo gretado, animais morrendo e pobre se retirando, m\u00e3o de obra barata nos centros urbano-industriais do Sudeste\u2026 N\u00e3o percebe que aqui se d\u00e1 hoje uma das mais avan\u00e7adas experi\u00eancias de mudan\u00e7a para o paradigma ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Como a conclus\u00e3o de parte da transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco tem repercutido entre a popula\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o?<\/p>\n<p>Ruben Siqueira \u2013 A popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o receptora est\u00e1 entre euf\u00f3rica e desconfiada. H\u00e1 aqueles, maioria talvez, que, crentes no secular discurso da seca como \u00fanico problema e da transposi\u00e7\u00e3o como \u00fanica solu\u00e7\u00e3o, comemoram o que lhes parece o fim do seu problema, ainda que muitos estejam irritados pela demora da constru\u00e7\u00e3o. \u00c9 quem tende a mais se decepcionar quando tomar consci\u00eancia da realidade por tr\u00e1s do projeto escondida at\u00e9 agora. Aqueles acostumados a ver a manipula\u00e7\u00e3o operada pela \u201cind\u00fastria da seca\u201d desconfiam de que se trata de mais do mesmo, ou seja, que n\u00e3o ser\u00e1 \u201c\u00e1gua para seu bico\u201d.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\"><em>&#8220;Ainda hoje \u00e9 grande a popula\u00e7\u00e3o, nas margens do pr\u00f3prio Rio S\u00e3o Francisco, sem \u00e1gua e sem tratamento da \u00e1gua e com \u00edndices de pobreza e mis\u00e9ria dos piores&#8221;<\/em><\/div>\n<div class=\"news-citacao\"><\/div>\n<p>H\u00e1 descontentamento tamb\u00e9m entre os que foram relocados, perderam suas posses e n\u00e3o est\u00e3o tendo as compensa\u00e7\u00f5es devidas e acordadas. A maioria das chamadas Vilas Produtivas Rurais, onde muitos foram reassentados, n\u00e3o est\u00e3o conclu\u00eddas e suficientes. Novas \u00e1reas de plantio e criat\u00f3rio, por exemplo, continuam sem condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o \u201cdoadora\u201d a preocupa\u00e7\u00e3o aumenta, frente \u00e0 calamidade da seca do rio. Os transtornos j\u00e1 s\u00e3o grandes com as dificuldades de acesso \u00e0 \u00e1gua, mais distantes, de qualidade e quantidade pioradas, a lavoura de vazante minguada, a falta do peixe etc. E a ideia de que n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o \u201cdesvestir um santo para vestir outro\u201d. At\u00e9 porque a propalada revitaliza\u00e7\u00e3o do rio n\u00e3o deslancha.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Em quais regi\u00f5es h\u00e1 crise de abastecimento de \u00e1gua e quais as causas dessa falta de abastecimento?<\/p>\n<p>Ruben Siqueira \u2013 A crise de abastecimento que h\u00e1, foi atribu\u00edda \u00e0 escassez de chuva. Mas se trata de outra escassez: de \u00e9tica e vontade pol\u00edtica. O potencial pluviom\u00e9trico do Semi\u00e1rido \u00e9 de 800 mil\u00edmetros por ano, irregular e vari\u00e1vel conforme as configura\u00e7\u00f5es geoclim\u00e1ticas diferentes \u2014 mas \u00e9 o semi\u00e1rido mais chuvoso do mundo. O problema \u00e9 que com cerca de 3.000 horas de sol por ano, a evapora\u00e7\u00e3o chega a ser tr\u00eas vezes maior que a precipita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A \u201cind\u00fastria da seca\u201d levou o Brasil a construir a maior rede de \u00e1gua acumulada em regi\u00f5es semi\u00e1ridas do mundo \u2014 70 mil reservat\u00f3rios, com capacidade para 37 bilh\u00f5es de m3. Com esta insola\u00e7\u00e3o tornaram-se \u201cevaporat\u00f3rios\u201d, \u201ccemit\u00e9rios de \u00e1gua\u201d, como disse algu\u00e9m. Quer dizer, tem se que usar esta \u00e1gua antes que evapore. Mas a obra dos a\u00e7udes nunca foi completada pela rede de adutoras de distribui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua acumulada. Falam que a transposi\u00e7\u00e3o dar\u00e1 \u201cseguran\u00e7a h\u00eddrica\u201d para uso dos a\u00e7udes, mas \u00e9 t\u00e3o pouca \u00e1gua acrescentada, muito menos do que a evaporada em alguns dos a\u00e7udes receptores. Levando \u00e1gua para onde j\u00e1 tem, \u00e9 \u201cchover no molhado\u201d. A op\u00e7\u00e3o pela transposi\u00e7\u00e3o \u2014 a obra pela obra \u2014 \u00e9 a continuidade da \u201cind\u00fastria\u201d da seca e de votos, a mesma de sempre.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, o problema do chamado Nordeste n\u00e3o \u00e9 a falta de \u00e1gua, \u00e9 muito mais de terra e justi\u00e7a, e o mau gerenciamento e a prioridade equivocada no uso da \u00e1gua dispon\u00edvel. O problema n\u00e3o \u00e9 falta, mas sim acesso \u00e0 \u00e1gua, que \u00e9 mal distribu\u00edda e mal aproveitada. Ainda hoje \u00e9 grande a popula\u00e7\u00e3o, nas margens do pr\u00f3prio Rio S\u00e3o Francisco, sem \u00e1gua e sem tratamento da \u00e1gua e com \u00edndices de pobreza e mis\u00e9ria dos piores.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 O que seria uma alternativa \u00e0 transposi\u00e7\u00e3o, de modo a garantir o acesso \u00e0 \u00e1gua para a popula\u00e7\u00e3o do Nordeste?<\/p>\n<p>Ruben Siqueira \u2013 A alternativa \u00e9 um conjunto de v\u00e1rias pequenas e m\u00e9dias solu\u00e7\u00f5es descentralizadas e adaptadas \u00e0s diversidades geoclim\u00e1ticas (a Embrapa\u00a0fala de 72 sert\u00f5es diferentes no Sert\u00e3o Semi\u00e1rido). Armazenar e fazer uso manejado das \u00e1guas dispon\u00edveis, quando se fazem dispon\u00edveis. A rede de adutoras para disponibilizar a \u00e1gua dos a\u00e7udes \u00e9 importante. Talvez seja ainda mais importante a capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua de chuva, por exemplo, atrav\u00e9s das cisternas de placa para consumo humano e produ\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 mostrou sua efici\u00eancia e largo alcance socioambientais. As \u201cmandalas\u201d s\u00e3o uma forma racional e ecol\u00f3gica de usar a \u00e1gua em pequenas culturas alimentares consorciadas, de grande valor para a seguran\u00e7a e soberania alimentar.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\"><em>&#8220;Uma reforma agr\u00e1ria adaptada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es geoambientais do bioma Caatinga e do clima Semi\u00e1rido teria muito mais efeito sobre a fome e a sede do que uma megaobra h\u00eddrica&#8221;<\/em><\/div>\n<div class=\"news-citacao\"><\/div>\n<p>Caxios, barreiros-trincheira, caldeir\u00f5es, cacimbas s\u00e3o maneiras antigas e consagradas de captar e conservar \u00e1gua. \u00c1guas dos riachos e veredas intermitentes podem ser guardadas em barragens de pedra, sucessivas e \u201cbarragens subterr\u00e2neas\u201d, que ret\u00eam a \u00e1gua no pr\u00f3prio solo e possibilitam o plantio. As \u00e1guas subterr\u00e2neas t\u00eam sua import\u00e2ncia \u2014 s\u00e3o em torno de 21 bilh\u00f5es de m3. O pr\u00f3prio S\u00e3o Francisco ser\u00e1 fonte para muitas dessas solu\u00e7\u00f5es. A Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas publicou um Atlas que identifica as necessidades e apresenta as solu\u00e7\u00f5es para as \u00e1reas urbanas e rurais de todos os munic\u00edpios do Nordeste. Muitas s\u00e3o obras que ter\u00e3o que ser feitas para distribuir a \u00e1gua dos canais da transposi\u00e7\u00e3o. Lan\u00e7ado o Atlas em 2006, \u00e0s v\u00e9speras do in\u00edcio do projeto de transposi\u00e7\u00e3o, suas solu\u00e7\u00f5es custavam a metade e beneficiariam tr\u00eas vezes mais pessoas. Foi solene e incomodamente relegado pelo Governo Lula.<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o s\u00e3o op\u00e7\u00f5es para monoculturas hidrointensivas, voltadas para o mercado de exporta\u00e7\u00e3o, como certas fruticulturas irrigadas, a siderurgia de ligas finas de a\u00e7o e a cria\u00e7\u00e3o de camar\u00e3o, que demanda 50 mil litros de \u00e1gua para um quilo.<\/p>\n<p>No Nordeste est\u00e1 cerca da metade da popula\u00e7\u00e3o rural do Brasil, que \u00e9 de 30 milh\u00f5es. No entanto, nos \u00faltimos anos a terra concentrou-se ainda mais na regi\u00e3o, numa verdadeira antirreforma agr\u00e1ria. E, sem terra, n\u00e3o se tem \u00e1gua e tudo o mais. Uma reforma agr\u00e1ria adaptada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es geoambientais do bioma Caatinga\u00a0e do clima Semi\u00e1rido teria muito mais efeito sobre a fome e a sede do que uma megaobra h\u00eddrica.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Como o senhor avalia a transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco \u00e0 luz das dela\u00e7\u00f5es feitas pelos executivos da Odebrecht, que denunciam as ilegalidades entre os pol\u00edticos e a empreiteira na realiza\u00e7\u00e3o de grandes obras? O que se comenta sobre o tema em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco?<\/p>\n<p>Ruben Siqueira \u2013 As dela\u00e7\u00f5es vieram comprovar as suspeitas de que um dos objetivos da transposi\u00e7\u00e3o era a transfer\u00eancia de grandes montantes de recursos p\u00fablicos para empresas em \u201ccaixa um\u201d e \u201ccaixa dois\u201d e para pol\u00edticos em campanhas eleitorais. Com 14 lotes de constru\u00e7\u00e3o, v\u00e1rios cons\u00f3rcios foram constitu\u00eddos entre empreiteiras, um \u201cprato feito\u201d para boa parte do setor. A Pol\u00edcia Federal desencadeou investiga\u00e7\u00f5es que comprovaram fraudes e superfaturamentos em alguns destes cons\u00f3rcios, com envolvimento de pol\u00edticos e media\u00e7\u00e3o de doleiros. Trechos de obras foram interrompidos em consequ\u00eancia e novas licita\u00e7\u00f5es tiveram que ser feitas e empresas substitu\u00eddas.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Recentemente o senhor publicou um texto comentando que a transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco se assemelha ao projeto norte-americano implantado em 1930, com a transposi\u00e7\u00e3o do Rio Colorado para o rio Big Thompson. Que semelhan\u00e7as vislumbra nesses projetos e como esse projeto foi desenvolvido nos EUA?<\/p>\n<p>Ruben Siqueira \u2013 Na verdade, o projeto do Rio Colorado\u00a0\u00e9 inspira\u00e7\u00e3o e modelo da transposi\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco, que promete aqui uma \u201cCalif\u00f3rnia Brasileira\u201d. No p\u00f3s-guerra, os EUA, armando seu imperialismo, o Brasil como sat\u00e9lite, nos marcos da Alian\u00e7a para o Progresso, mapearam as condi\u00e7\u00f5es naturais do Vale do S\u00e3o Francisco\u00a0e identificaram as manchas de solo irrig\u00e1vel e exportaram para c\u00e1 seu modelo e tecnologia de irriga\u00e7\u00e3o e a ideologia do desenvolvimentismo.<\/p>\n<p>Sua experi\u00eancia mais consolidada era a do Colorado\/Big Thompson, que possibilitou o abastecimento de dezenas de cidades e centros urbanos em expans\u00e3o, como Los Angeles\u00a0e San Diego, a irriga\u00e7\u00e3o de milhares de hectares principalmente de frutas, produ\u00e7\u00e3o de energia, turismo e complexos industriais, como o Vale do Sil\u00edcio. Os impactos socioambientais, por\u00e9m, tais como polui\u00e7\u00e3o, assoreamento, saliniza\u00e7\u00e3o, conflitos de interesse e entre estados e com o M\u00e9xico, onde a \u00e1gua do Colorado quase n\u00e3o chega mais, levam a rever o sucesso alcan\u00e7ado, devido aos altos custos. Um modelo que se degradou e n\u00e3o resiste \u00e0s secas atuais. A ponto de o governador da Calif\u00f3rnia no ano passado proibir a irriga\u00e7\u00e3o e apostar na \u201cbeleza paisag\u00edstica da seca\u201d.<\/p>\n<p>Semin\u00e1rio recente foi realizado pelas Federa\u00e7\u00f5es da Ind\u00fastria do Rio Grande do Norte e da Para\u00edba com assessoria de especialistas do Colorado, para discutir \u201cgest\u00e3o e precifica\u00e7\u00e3o da \u00e1gua\u201d. \u201cCalif\u00f3rnia Brasileira\u201d \u00e9 como \u00e9 chamado o Di-polo Juazeiro\/Petrolina, \u00e0s margens do Rio S\u00e3o Francisco, na fronteira Bahia\/Pernambuco. Encanta quem s\u00f3 v\u00ea \u00e1gua jorrando o tempo todo, o verde das monoculturas e as frutas vistosas sendo exportadas \u2014 uva e manga s\u00e3o as mais vi\u00e1veis porque mais rent\u00e1veis. Menos alardeados s\u00e3o os altos volumes de agrot\u00f3xicos, a polui\u00e7\u00e3o e assoreamento do lago de Sobradinho e do pr\u00f3prio rio, a precariedade dos empregos sazonais, a pobreza e a viol\u00eancia nas periferias urbanas e bairros rurais, al\u00e9m do subs\u00eddio p\u00fablico sustentando o sucesso.<\/p>\n<p>Estudos do Banco Mundial avaliam muito mal quase todos os per\u00edmetros irrigados do Nordeste que ele mesmo financiou. Talvez, com base nisto, na conta desfavor\u00e1vel de custo\/benef\u00edcio, n\u00e3o tenha querido financiar o projeto da transposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; IHU de 23 de maio de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mapa da Transposi\u00e7\u00e3o (Foto: O Cafezinho) As dela\u00e7\u00f5es dos executivos da Odebrecht\u00a0para a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato\u00a0\u201cvieram comprovar as suspeitas de que um dos objetivos da transposi\u00e7\u00e3o era a transfer\u00eancia de grandes montantes de recursos p\u00fablicos para empresas em \u2018caixa um\u2019 e \u2018caixa dois\u2019 e para pol\u00edticos em campanhas eleitorais\u201d, diz Ruben Siqueira, coordenador da Comiss\u00e3o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-19906","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - 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