{"id":20077,"date":"2017-06-26T17:00:01","date_gmt":"2017-06-26T20:00:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=20077"},"modified":"2017-06-07T16:08:56","modified_gmt":"2017-06-07T19:08:56","slug":"os-quatro-dossies-maiores-da-degradacao-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/os-quatro-dossies-maiores-da-degradacao-ambiental\/","title":{"rendered":"Os quatro dossi\u00eas maiores da degrada\u00e7\u00e3o ambiental"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/ico_socio-ambientais.png\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o: LPS\" width=\"842\" height=\"351\" \/><\/p>\n<p>Ao iniciar esta coluna para o <strong><em>Jornal da Unicamp<\/em><\/strong>, voltada para o exame das crises socioambientais contempor\u00e2neas, conv\u00e9m definir seu campo de reflex\u00e3o. Em sua formula\u00e7\u00e3o mais abrangente e essencial, as m\u00faltiplas crises socioambientais de nosso tempo podem ser agrupadas em quatro dossi\u00eas maiores: 1. Energia; 2. Deteriora\u00e7\u00e3o antropog\u00eanica da biosfera; 3. Polui\u00e7\u00e3o e intoxica\u00e7\u00e3o qu\u00edmica dos organismos; 4. Concentra\u00e7\u00e3o do poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico nas m\u00e3os das corpora\u00e7\u00f5es e regress\u00e3o da democracia (pois este quarto dossi\u00ea \u00e9 ao mesmo tempo a principal causa dos tr\u00eas precedentes e o principal obst\u00e1culo a toda a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica concertada no sentido de mitigar seus impactos).<\/p>\n<p>A esses quatro dossi\u00eas pertencem, de um modo ou de outro, todas as crises de nosso tempo. Desestabiliza\u00e7\u00e3o do sistema clim\u00e1tico, aquecimento global, decl\u00ednio das florestas, dos corais, da vida marinha, dos vertebrados, dos polinizadores, eutrofiza\u00e7\u00e3o e acidifica\u00e7\u00e3o do meio aqu\u00e1tico, escassez de recursos h\u00eddricos, empobrecimento dos solos, eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar, press\u00f5es demogr\u00e1ficas crescentes, amea\u00e7as \u00e0 seguran\u00e7a alimentar, aumento incontrol\u00e1vel de res\u00edduos, intoxica\u00e7\u00e3o agroindustrial dos organismos, riscos tecnol\u00f3gicos imponder\u00e1veis, desigualdade inaudita de ativos e da renda, crise do emprego, dos governos, dos Estados, da governan\u00e7a global e da diplomacia, recrudescimento das guerras, do obscurantismo ideol\u00f3gico e religioso, deslocamentos brutais de contingentes humanos e animais, infesta\u00e7\u00f5es, riscos de epidemias e crises sanit\u00e1rias decorrentes de todos esses fatores, e tudo isso em acelera\u00e7\u00e3o. Essas s\u00e3o, por tr\u00e1s do notici\u00e1rio da grande imprensa, as tend\u00eancias realmente definidoras do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m com acesso \u00e0 imprensa s\u00e9ria e \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica as ignora. E porcentagens crescentes da humanidade sofrem suas consequ\u00eancias na pr\u00f3pria pele. A percep\u00e7\u00e3o, informada ou vivida, de que o avan\u00e7o imenso do bem-estar social propiciado pela tecnologia e pela industrializa\u00e7\u00e3o desde o s\u00e9culo XVIII est\u00e1 sendo anulado pelo crescente custo ambiental desse avan\u00e7o ganha terreno a passos largos. Ela se tornou nas \u00faltimas d\u00e9cadas o mote central de in\u00fameras ONGs e coletivos cient\u00edficos e, ao fim e ao cabo, um dos mais inquestion\u00e1veis consensos da hist\u00f3ria do saber. Kevin Anderson<strong>, <\/strong>vice-diretor do Tyndall Centre for Climate Change Research e conselheiro em mudan\u00e7as clim\u00e1ticas do governo brit\u00e2nico, bem o resume: \u201cEstamos conscientemente enveredando em dire\u00e7\u00e3o a um futuro fracassado\u201d.<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/os-quatro-dossies-maiores-da-degradacao-ambiental#1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>A ideia de um futuro pior \u00e9 in\u00e9dita em nosso tempo. Nas Idades Moderna e Contempor\u00e2nea \u2013 moldadas por revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e cont\u00ednuo incremento do bem estar humano (exclu\u00eddas as sociedades e esp\u00e9cies vitimadas pela expans\u00e3o ocidental) \u2013, a perspectiva de um futuro substancialmente pior \u00e9 uma in\u00e9dita invers\u00e3o hist\u00f3rica de tend\u00eancia. De onde a descren\u00e7a ainda generalizada nessa ideia e a crescente resist\u00eancia pol\u00edtica, ideol\u00f3gica e psicol\u00f3gica \u00e0 ci\u00eancia e a seus alertas, mesmo de parte dos setores com maior educa\u00e7\u00e3o formal (tradicionalmente abertos aos progn\u00f3sticos cient\u00edficos), fen\u00f4meno igualmente in\u00e9dito na Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>De fato, embora os eleitorados sejam os alvos priorit\u00e1rios das campanhas de desinforma\u00e7\u00e3o fomentadas pelos interesses pol\u00edticos e corporativos em jogo, n\u00e3o se deve menosprezar sua efic\u00e1cia na Universidade, pois \u00e9 grande ainda a cren\u00e7a entre n\u00f3s de que os impactos ambientais criados pela l\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o podem ser superados aplicando-se corretivos a essa l\u00f3gica. Educado no paradigma antropoc\u00eantrico de que a natureza \u00e9 recurso, algo dispon\u00edvel para o homem, o mundo universit\u00e1rio \u2013 cientistas sociais e cientistas da natureza \u2013 consideram-se em geral aptos a lidar com problemas ambientais como problemas derivados de m\u00e1s escolhas tecnol\u00f3gicas, de m\u00e1 gest\u00e3o econ\u00f4mica ou de pol\u00edticas que servem a interesses das elites. \u00c9 claro que precisamos de pol\u00edticas voltadas para os interesses populares, tecnologias de menor impacto ambiental e de todo o receitu\u00e1rio dos economistas: taxa carbono, fim dos subs\u00eddios aos combust\u00edveis f\u00f3sseis, precifica\u00e7\u00e3o e internaliza\u00e7\u00e3o dos custos ambientais, princ\u00edpio do poluidor-pagador, ganhos de efici\u00eancia, minimiza\u00e7\u00e3o do desperd\u00edcio, descolamento, economia circular etc.<\/p>\n<p>Se adotadas, repito, essas propostas seriam muito ben\u00e9ficas. Como o seriam, se adotados, os tratados, protocolos e acordos de governan\u00e7a global firmados nos \u00faltimos 45 anos, visando mitigar a degrada\u00e7\u00e3o do sistema Terra. O problema de fundo, contudo, \u00e9 que nem essas propostas, nem as resolu\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas s\u00e3o efetivamente adotadas, malgrado suas vantagens evidentes, inclusive, at\u00e9 certo ponto, para a pr\u00f3pria l\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o capitalista. E n\u00e3o o s\u00e3o porque essas resolu\u00e7\u00f5es e essas pol\u00edticas econ\u00f4micas decerto mais racionais perderam o poder de influir de modo decisivo sobre as estrat\u00e9gias corporativas. Os grandes conglomerados tornaram-se mestres do jogo e os Estados, dependentes deles e identificados com a <em>forma mentis <\/em>corporativa, tornaram-se Estados-Corpora\u00e7\u00f5es ou, como no caso dos Estados Unidos de Donald Trump, Corpora\u00e7\u00f5es-Estados.<\/p>\n<p id=\"1\">A quest\u00e3o ambiental n\u00e3o \u00e9, talvez, insol\u00favel. Mas o primeiro passo para tentar resolv\u00ea-la \u00e9 reconhecer sua gravidade extrema e, em consequ\u00eancia, atribuir-lhe prioridade absoluta em nossa agenda cient\u00edfica e pol\u00edtica. O problema ambiental, em sua ess\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 de m\u00e1 gest\u00e3o ou de mau comportamento corporativo. Seu significado e sua escala n\u00e3o s\u00e3o apreens\u00edveis pela antinomia efici\u00eancia-defici\u00eancia ou pela oposi\u00e7\u00e3o entre regulamenta\u00e7\u00e3o estatal e liberalismo selvagem. O problema ambiental n\u00e3o \u00e9, em suma, da esfera do saber tradicional. Por sua escala global inaudita, pelo emaranhado de problemas interferentes que suscita, ele \u00e9 algo radicalmente novo na hist\u00f3ria humana e infinitamente mais complexo que o campo de reflex\u00e3o de qualquer disciplina acad\u00eamica espec\u00edfica. Ele requer, em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma redefini\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica da posi\u00e7\u00e3o do homem na biosfera e, no \u00e2mbito particular da Universidade, uma nova intera\u00e7\u00e3o entre os saberes. Trata-se, numa palavra, de um problema que abrange as rela\u00e7\u00f5es problem\u00e1ticas e \u201cinsustent\u00e1veis\u201d entre, de um lado, nossa esp\u00e9cie, nossa hist\u00f3ria e nossas estruturas ideol\u00f3gicas profundas, e, de outro, os par\u00e2metros do sistema Terra que permitem e ainda fazem apraz\u00edvel a vida em nosso planeta. Na medida de suas for\u00e7as, esta coluna aspira ser parte desse esfor\u00e7o coletivo de reflex\u00e3o e de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n[1]<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"> Citado por Terry Macalister, \u201cComplacency threatens climate change action\u201d. Climate News Network, 6\/IV\/2017: \u201cWe are knowingly meandering into a failed future\u201d. <\/span><a href=\"http:\/\/climatenewsnetwork.net\/complacency-climate-change-action\/\">http:\/\/climatenewsnetwork.net\/complacency-climate-change-action\/<\/a>.<\/p>\n<p>Luiz Marques \u00e9 professor livre-docente do Departamento de Hist\u00f3ria do IFCH \/Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, <i>Vida de Michelangelo <\/i>(1568), 2011 e <i>Capitalismo e Colapso ambiental<\/i>, 2015, 2a edi\u00e7\u00e3o, 2016. Coordena a cole\u00e7\u00e3o Palavra da Arte, dedicada \u00e0s fontes da historiografia art\u00edstica, e participa com outros colegas do coletivo <i>Cris\u00e1lida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate &amp; Atualiza\u00e7\u00e3o<\/i> (<a href=\"http:\/\/crisalida.eco.br\/\">crisalida.eco.br<\/a>).<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Jornal da UNICAMP de 15 de maio de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao iniciar esta coluna para o Jornal da Unicamp, voltada para o exame das crises socioambientais contempor\u00e2neas, conv\u00e9m definir seu campo de reflex\u00e3o. Em sua formula\u00e7\u00e3o mais abrangente e essencial, as m\u00faltiplas crises socioambientais de nosso tempo podem ser agrupadas em quatro dossi\u00eas maiores: 1. Energia; 2. Deteriora\u00e7\u00e3o antropog\u00eanica da biosfera; 3. 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