{"id":20315,"date":"2017-07-07T17:00:44","date_gmt":"2017-07-07T20:00:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=20315"},"modified":"2017-06-26T18:18:58","modified_gmt":"2017-06-26T21:18:58","slug":"no-seculo-21-cidades-tem-como-desafio-ressignificar-a-alimentacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/no-seculo-21-cidades-tem-como-desafio-ressignificar-a-alimentacao\/","title":{"rendered":"No s\u00e9culo 21, cidades t\u00eam como desafio ressignificar a alimenta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/4\/3795\/11876072173_df84599bc3_b.jpg\" \/><em><a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/karennfld\/\">Karen_Chappell<\/a><\/em><\/p>\n<p>O chef brasileiro Alex Atala costuma dizer que a comida \u00e9 a maior rede social do mundo, porque \u00e9 capaz de conectar todas as pessoas do planeta. Todos comemos, mas o que n\u00f3s fazemos de alimento varia imensamente de cultura para cultura e de territ\u00f3rio para territ\u00f3rio. Nossa rela\u00e7\u00e3o com a comida \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o identit\u00e1ria, uma forma de nos reconhecermos no mundo. E essa rela\u00e7\u00e3o tem se alterado significativamente ao longo dos anos.<\/p>\n<p>Se, por um lado, a urbaniza\u00e7\u00e3o, a industrializa\u00e7\u00e3o e a inser\u00e7\u00e3o de novas tecnologias no campo expandiram a produ\u00e7\u00e3o e facilitaram o acesso a diferentes tipos de alimentos, por outro, tamb\u00e9m nos desconectaram da comida, convertendo-a em um produto como outro qualquer. Desconhecemos a origem do alimento que chega ao nosso prato, seu valor nutricional e sua forma de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Declara\u00e7\u00e3o Universal de Direitos Humanos, de 1948, reconhece no artigo 25 a alimenta\u00e7\u00e3o adequada como um direito humano. No entanto, isso ainda parece ser uma realidade distante. Mesmo sem superar o problema da fome, j\u00e1 temos que lidar tamb\u00e9m com a obesidade. Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o sobrepeso atinge 1 em cada 2 brasileiros adultos e 1 em cada 3 crian\u00e7as. Por outro lado, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas j\u00e1 afetam a produ\u00e7\u00e3o de alimentos de tal modo que garantir comida \u00e0 mesa de todos se tornou um dos grandes desafios do s\u00e9culo 21. Comida saud\u00e1vel ent\u00e3o, ainda mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que n\u00e3o faltam projetos que buscam romper com essa l\u00f3gica, criando novas rela\u00e7\u00f5es com os alimentos e com seu potencial sociocultural e educativo. Escolas, museus, tetos de edif\u00edcios, casas e pra\u00e7as. N\u00e3o importa o espa\u00e7o, as cidades t\u00eam demonstrado empenho na urgente tarefa de reconectar as pessoas com aquilo que as faz humanas: o ato de cozinhar.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.foodseum.org\/#home\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Foodseum<\/a> &#8211;\u00a0Elemento universal e tamb\u00e9m do cotidiano das pessoas, a comida \u00e9 fonte n\u00e3o apenas de nutriente, mas tamb\u00e9m de conhecimento. Por isso, surgiu em Chicago (EUA) o FOODSEUM, o primeiro museu de comida do mundo. A ideia \u00e9 reconectar as pessoas com a comida e as hist\u00f3rias por tr\u00e1s dela. Partindo da ideia de que alimento \u00e9 amizade, fam\u00edlia e divers\u00e3o, o Museu prop\u00f5e experi\u00eancias sensoriais de toque, cheiro e paladar com a comida. O primeiro a receber uma exposi\u00e7\u00e3o foi o cachorro-quente. Quer s\u00edmbolo maior dos Estados Unidos?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SdZX3vfutXI\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Educa\u00e7\u00e3o Alimentar<\/strong><\/p>\n<p>Na EMEI Dona Leopoldina, localizada no Alto da Lapa, zona oeste de S\u00e3o Paulo, o projeto Viveiros est\u00e1 desde 2012 resgatando o contato das crian\u00e7as com os alimentos e a natureza. Ap\u00f3s uma revitaliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o verde da escola, os alunos passaram a cultivar coletivamente uma horta \u2013 que fornece os alimentos preparados pelas merendeiras \u2013 e visitam regularmente a feira livre da regi\u00e3o. O resultado s\u00e3o crian\u00e7as que, al\u00e9m de terem uma alimenta\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel, conseguem compreender melhor o ciclo da vida e se mostram mais propensos a ter uma alimenta\u00e7\u00e3o rica e variada.<\/p>\n<p>\u201cA rela\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente de s\u00f3 ter a comida no prato. O aluno quer experimentar o alface que regou, cuidou e viu crescer e ficar bonito. E, por conta disso, as crian\u00e7as at\u00e9 experimentam mais as comidas diferentes\u201d, afirma a coordenadora pedag\u00f3gica da escola, Beatriz Garcia Costa.<\/p>\n<p>Em uma roda de conversa com os alunos, uma educadora da EMEI perguntou: \u201cDe onde vem o feij\u00e3o?\u201d. As primeiras respostas foram \u201cdo saco do supermercado\u201d, revelando que a dificuldade que as novas gera\u00e7\u00f5es t\u00eam em vincular o alimento ao seu estado natural. \u201cMas agora, com a horta, as crian\u00e7as t\u00eam muito cuidado e carinho com as plantas, como se fossem parte delas\u201d, explica Beatriz.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6UKwvyDcI1I\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>O que a horta n\u00e3o produz os alunos v\u00e3o buscar na feira acompanhados da equipe da escola e de familiares interessados. Como as turmas se revezam, as visitas ocorrem mais ou menos a cada dois meses. Nesse caso, todo o processo \u00e9 educativo: atravessar a rua na faixa de pedestres, observar as casas e as pessoas, conversar com os feirantes e at\u00e9 aprender a negociar pre\u00e7os.<\/p>\n<p>\u201cOs feirantes tamb\u00e9m j\u00e1 \u2018adotaram\u2019 as crian\u00e7as e se colocam na posi\u00e7\u00e3o de educadores. Um deles, por exemplo, sempre pica quatro ou cinco ma\u00e7os de couve para mostrar aos alunos e tenta garantir que todos aprendam\u201d, relata a educadora. Para encerrar o processo, os restos de comida ainda s\u00e3o levados para o minhoc\u00e1rio e composteira, respons\u00e1veis por nutrir a horta.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/009-1024x768.jpg\" alt=\"Crian\u00e7as da EMEI Dona Leopoldina visitam a feira da regi\u00e3o\" \/><em>Crian\u00e7as da EMEI Dona Leopoldina visitam a feira da regi\u00e3o.\u00a0Foto cedida pela escola<\/em><\/p>\n<p>A coordenadora garante que a participa\u00e7\u00e3o dos alunos no ciclo da alimenta\u00e7\u00e3o faz com que, mesmo as crian\u00e7as que participam menos das atividades e que s\u00e3o mais seletivas para comer, quebrem barreiras e experimentem novos alimentos. Al\u00e9m disso, outros saberes tradicionalmente n\u00e3o valorizados, como o das merendeiras, s\u00e3o celebrados pela escola no projeto \u201cSaberes e Sabores\u201d.<\/p>\n<p>Retomando a Gr\u00e9cia Antiga, onde as palavras \u201ccozinheiro\u201d e \u201csacerdote\u201d eram as mesmas \u2013 mageiros, cuja raiz \u00e9 magia \u2013 as merendeiras da escola s\u00e3o chamadas de \u201cfadas\u201d, por transformarem o alimento e darem sabor a ele. Como defende Beatriz, a mudan\u00e7a deve come\u00e7ar com a vis\u00e3o que se tem sobre quem faz e prepara a comida.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, o <a href=\"http:\/\/educacaointegral.org.br\/experiencias\/escolas-do-bairro-educador-rj-propoem-atividades-pedagogicas-de-gastronomia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Degusta Alem\u00e3o<\/a>, projeto realizado entre 2010 e 2012, reuniu escolas, organiza\u00e7\u00f5es e a comunidade do Complexo do Alem\u00e3o em uma feira que valorizava a cultura regional por meio da gastronomia. Nesta feira, escolas apresentavam as receitas desenvolvidas com os estudantes ao longo do ano letivo, de forma l\u00fadica e integradas ao planejamento pedag\u00f3gico da escola.<\/p>\n<p><strong>Uma pitada de identidade<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 em S\u00e3o Paulo, o projeto \u201cSaberes do Territ\u00f3rio \u00e0 Mesa\u201d utiliza a gastronomia como estrat\u00e9gia de reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o das culturas migrantes que chegam \u00e0s escolas paulistanas, dando visibilidade \u00e0s m\u00faltiplas identidades de estudantes de quatro escolas do bairro do Bom Retiro, centro da capital.<\/p>\n<p><em>&#8220;A mudan\u00e7a deve come\u00e7ar com a vis\u00e3o que se tem sobre quem faz e prepara a comida&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Criado a partir da articula\u00e7\u00e3o de diferentes agentes que atuam no bairro \u2013 o Programa Sa\u00fade na Escola (PSE), Programa Ambiente Verdes e Saud\u00e1veis (PAVs), Projeto O Mundo Cabe em SP, <a href=\"http:\/\/www.cidadeseducadoras.org.br\/projetos\/integracao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cidade Escola Aprendiz<\/a> e as escolas Emei Jo\u00e3o Theodoro, CEI Dom Gast\u00e3o, CEI Pequenos Brilhantes e CEI Lar Crian\u00e7a Feliz -, o projeto entrevistou a comunidade sobre seus h\u00e1bitos alimentares e coletou impress\u00f5es sobre o papel da culin\u00e1ria em suas vidas.<\/p>\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o 26 do <a href=\"http:\/\/www.cidadeseducadoras.org.br\/projetos\/integracao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o<\/a>, de 2013, estabelece que as escolas devem fornecer alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e adequada aos estudantes, <a href=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/arquivo\/2013\/11\/18\/experiencias-resgatam-identidade-cultural-atraves-da-comida\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">respeitando a cultura, as tradi\u00e7\u00f5es e os h\u00e1bitos alimentares saud\u00e1veis<\/a>. Al\u00e9m disso, <a href=\"http:\/\/educacaointegral.org.br\/reportagens\/alimentacao-escolar-e-parte-do-processo-de-aprendizagem\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a educa\u00e7\u00e3o alimentar e nutricional deve perpassar o curr\u00edculo escolar<\/a>. Isso inclui n\u00e3o apenas fornecer alimentos nutritivos e saud\u00e1veis, mas tamb\u00e9m respeitar as necessidades alimentares de cada crian\u00e7a, e apresentar novos alimentos e respeitar a cultura local.<\/p>\n<p>A assistente social Ana Carolina Guanabara, da CEI Dom Gast\u00e3o, uma das escolas participantes, ressalta que a proposta aproximou m\u00e3es e pais da escola. \u201cEles se sentem realmente parte do processo, at\u00e9 pelo cuidado de produzir um material na l\u00edngua deles, que \u00e9 um diferencial muito grande.\u201d Na CEI Dom Gast\u00e3o, 30% dos alunos s\u00e3o bolivianos, e h\u00e1 tamb\u00e9m migrantes paraguaios, chineses, coreanos e uma fam\u00edlia s\u00edria.<\/p>\n<p>At\u00e9 o final do ano, o projeto vai render um livro de receitas e um mini-document\u00e1rio, que pretende sensibilizar a comunidade para o imenso potencial de interc\u00e2mbio cultural nessas unidades de ensino e na cidade. A ideia \u00e9 que esse canal de di\u00e1logo com os familiares, aberto por meio da comida, tamb\u00e9m promova boas pr\u00e1ticas alimentares e eleve a auto-estima das crian\u00e7as, que ter\u00e3o a possibilidade de ver suas express\u00f5es culturais e modos de vida servindo de inspira\u00e7\u00e3o para toda a escola.<\/p>\n<p>Em <a href=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/2015\/03\/17\/em-barcelona-comunidade-se-conecta-com-escolas-para-fortalecer-territorio-educativo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Barcelona<\/a>, iniciativa semelhante realizada em parceria entre a prefeitura e a ONG SOS Racisme, envolveu mais de 300 pessoas em jantares realizados em casa. A proposta do projeto <a href=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/2015\/11\/03\/familias-em-torno-de-uma-mesa-transformam-cidade-de-barcelona\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fam\u00edlia ao Lado<\/a> (Familia del costad, em catal\u00e3o) era estreitar la\u00e7os entre vizinhos, fortalecer o tecido social, lidar com o racismo, derrubar estere\u00f3tipos e construir uma cidade mais diversa e tolerante.<\/p>\n<p>Durante dois anos, fam\u00edlias vizinhas e de origens culturais e \u00e9tnicas diferentes se reuniam para se conhecer e realizar juntas uma refei\u00e7\u00e3o. Como n\u00e3o tinham contato at\u00e9 o jantar, volunt\u00e1rios mediavam a prepara\u00e7\u00e3o do encontro e trabalhavam para que n\u00e3o houvesse imprevistos.<\/p>\n<p>Criado para fazer frente aos atos de intoler\u00e2ncia e xenofobia em um munic\u00edpio que h\u00e1 cerca de quinze anos recebe um elevado fluxo de migrantes, o projeto fomentava que Barcelona deixasse de ser reconhecida apenas como uma cidade multicultural \u2013 onde muitas culturas coexistem \u2013 e passasse a ser vista como uma cidade intercultural, na qual prevalece o di\u00e1logo e a troca entre as culturas existentes.<\/p>\n<p>Em Salvador, o Bairro-escola Rio Vermelho criou o <a href=\"http:\/\/bairroescolarv.org.br\/2013\/05\/merenda-com-o-chef\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Merenda Com o Chef<\/a>, um projeto que leva profissionais da cozinha para dentro das escolas com o objetivo de melhorar as refei\u00e7\u00f5es servidas aos estudantes da rede p\u00fablica e, como consequ\u00eancia, a forma como eles enxergam a comida. As oficinas gastron\u00f4micas envolviam toda a comunidade escolar e incentivavam o uso de ingredientes locais. O chefe Ramon Sim\u00f5es, do Restaurante Armaz\u00e9m do Reino e um dos participantes do projeto, acredita que a iniciativa ajudava os estudantes a \u201centenderem a comida n\u00e3o apenas como alimento\u201d, mas tamb\u00e9m os apoiava no aprendizado de f\u00edsica, qu\u00edmica e biologia, ao refletirem sobre o seu preparo.<\/p>\n<p><strong>No meio da cidade tinha uma horta<\/strong><\/p>\n<p>Saber de onde vem a comida parece b\u00e1sico, mas nas grandes cidades, onde existem os chamados <a href=\"https:\/\/tab.uol.com.br\/deserto-comida\/#deserto-alimentar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">desertos alimentares<\/a> \u2013 regi\u00f5es com dif\u00edcil acesso a alimentos frescos e nutritivos, especialmente frutas, legumes e vegetais, ela ainda parece brotar das prateleiras dos supermercados. Isso tem motivado iniciativas de ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio urbano para plantio e cultivo de alimentos, seja em hortas comunit\u00e1rias ou feiras org\u00e2nicas locais. A premissa da agricultura urbana, movimento que no Brasil j\u00e1 encontra for\u00e7a em cidades como S\u00e3o Paulo, Bras\u00edlia, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Florian\u00f3polis, \u00e9 usar terrenos ociosos e torn\u00e1-los produtivos novamente, resgatando seu potencial ambiental, social e cultural.<\/p>\n<p>A plataforma <a href=\"http:\/\/www.cidadescomestiveis.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cidades Comest\u00edveis<\/a>, inaugurada em 2015, <a href=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/2015\/02\/06\/por-uma-cidade-comestivel-projeto-quer-ajudar-hortoes-a-brotarem-no-espaco-urbano\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mapeia v\u00e1rias hortas comunit\u00e1rias de S\u00e3o Paulo e regi\u00e3o<\/a> &#8211; hoje s\u00e3o cerca de 50 -, al\u00e9m de unir pessoas interessadas em colaborar com a agricultura urbana, seja come\u00e7ando uma horta ou cedendo ferramentas, materiais ou terrenos para o plantio. O fundador Andr\u00e9 Biazoti, gestor ambiental e micro agricultor urbano, observa que, embora haja um aumento na procura pelo plantio no espa\u00e7o p\u00fablico urbano, em locais como S\u00e3o Paulo, o di\u00e1logo com o poder p\u00fablico ainda se apresenta como uma grande barreira.<\/p>\n<p>\u201cAs hortas comunit\u00e1rias n\u00e3o precisam, a rigor, de autoriza\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 importante ter o di\u00e1logo com a prefeitura para esse tipo de a\u00e7\u00e3o ser legitimada e entendida como ben\u00e9fica para a cidade\u201d, acredita. \u201cO principal desafio \u00e9 construir pol\u00edticas p\u00fablicas que permane\u00e7am ao longo de gest\u00f5es e que criem rotina para lidar com esse tipo de atua\u00e7\u00e3o.\u201d No munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, j\u00e1 h\u00e1 o <a href=\"http:\/\/www3.prefeitura.sp.gov.br\/cadlem\/secretarias\/negocios_juridicos\/cadlem\/integra.asp?alt=13012004L%20137270000\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Programa de Agricultura Urbana e Periurbana<\/a>, criado para incentivar a produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica da cidade atrav\u00e9s da implanta\u00e7\u00e3o de hortas, pomares e cria\u00e7\u00e3o de pequenos animais.<\/p>\n<p>Como explica Biazoti, as hortas cumprem principalmente tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas: ser um espa\u00e7o onde as pessoas podem exercer seu direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o adequada; ser um laborat\u00f3rio educador; e promover o direito e a ocupa\u00e7\u00e3o da cidade. Elas s\u00e3o um espa\u00e7o de experi\u00eancia e descoberta para pessoas que n\u00e3o est\u00e3o habituadas a ter contato pr\u00f3ximo e saud\u00e1vel com a natureza, al\u00e9m de estimular o relacionamento com a comunidade e mostrar que os espa\u00e7os p\u00fablicos devem ser usados por todos. Tamb\u00e9m trazem o que o gestor ambiental chama de \u201cempoderamento\u201d, ao permitir que o cidad\u00e3o produza o pr\u00f3prio alimento, e instigam os cidad\u00e3os a buscarem mais qualidade de vida.<\/p>\n<p>\u201cA horta comunit\u00e1ria \u00e9 um dos bra\u00e7os da agricultura urbana e tem o car\u00e1ter de consumo comunit\u00e1rio, mas acaba incentivando movimentos como feiras org\u00e2nicas e pequenas comercializa\u00e7\u00f5es para os bairros. \u00c9 uma proposta interessante para onde o alimento n\u00e3o chega\u201d, argumenta Biazoti, que participa ativamente do cotidiano das hortas do Centro Cultural S\u00e3o Paulo e da Horta das Flores.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/5982848367_3de7ef9a61_b.jpg\" alt=\"Horta comunit\u00e1ria no bairro Panaguamirim, em Joinville (SC)\" \/><em>Horta comunit\u00e1ria no bairro Panaguamirim, em Joinville (SC).\u00a0Flickr Huerta Agroecol\u00f3gica Comunitaria &#8220;Cantarranas&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>Desafio universal<\/strong><\/p>\n<p>Alimenta\u00e7\u00e3o integrada ao territ\u00f3rio e \u00e0s pessoas que nele vivem n\u00e3o s\u00e3o um desafio apenas nas metr\u00f3poles. Mesmo em cidades menores, onde o urbano e o rural est\u00e3o mais integrados, h\u00e1 muito ainda a ser explorado. \u00c9 o que atestam as educadoras Gabriela Arakaki, Estela Criscuolo e Leila Vendrametto, do Organicidade, um coletivo que realiza atividades de educa\u00e7\u00e3o ambiental em escolas p\u00fablicas, com foco em consumo sustent\u00e1vel e cria\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de jardins, hortas, minhoc\u00e1rios e composteiras.<\/p>\n<p>O que elas percebem \u00e9 que, embora estudantes que vivem nessas regi\u00f5es ou que s\u00e3o filhos de pais migrantes e trabalhadores rurais tenham mais familiaridade com a quest\u00e3o ambiental, h\u00e1 saberes ancestrais que foram deixados de lado e que, ap\u00f3s um trabalho de incentivo, podem voltar a fazer parte do repert\u00f3rio cotidiano dessas crian\u00e7as e jovens.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 dif\u00edcil generalizar, mas quanto mais tempo trabalhamos em uma escola, com educadores e estudantes, mais conseguimos valorizar conhecimentos normalmente esquecidos e sem os quais nossa alimenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\u201d, avalia Gabriela. Ela se refere aos conhecimentos produzidos por pequenos agricultores, merendeiras, cozinheiras da comunidade, entre outros. \u201cA gente percebe, por exemplo, que nas escolas localizadas nas periferias, em que os pais tendem a trabalhar mais em \u00e1reas como jardinagem e agricultura, h\u00e1 mais conhecimento das propriedades medicinais das plantas\u201d, complementa Estela Criscuolo.<\/p>\n<p>Outro caso simb\u00f3lico: na Virada da Educa\u00e7\u00e3o, o coletivo trabalhou em uma escola na Pra\u00e7a Roosevelt, centro de S\u00e3o Paulo. A atividade tinha a dura\u00e7\u00e3o de um dia, mas apenas cinco jovens de cerca de 200 manifestaram real inten\u00e7\u00e3o de realizar um trabalho manual, como cortar um bambu e mudar coisas de lugar. Para o coletivo, a participa\u00e7\u00e3o ativa dos alunos \u00e9 fundamental para o sucesso das experi\u00eancias em educa\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>\u201cNosso maior trabalho \u00e9 organizar informa\u00e7\u00f5es dentro de uma cabe\u00e7a que j\u00e1 v\u00ea o mundo, mas n\u00e3o compreende tanto, especialmente em rela\u00e7\u00e3o aos estudantes menores. Aprender pela observa\u00e7\u00e3o eleva a autoestima da crian\u00e7a e permite que ela elabore mais quest\u00f5es sobre o mundo que a cerca\u201d, declaram as educadoras, que tamb\u00e9m esperam ampliar os espa\u00e7os educadores com o trabalho do Organicidade.<\/p>\n<p>O <a href=\"http:\/\/bvsms.saude.gov.br\/bvs\/publicacoes\/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Guia Alimentar da Popula\u00e7\u00e3o Brasileira<\/a>, documento elaborado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, d\u00e1 caminhos para a implementa\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o adequada e saud\u00e1vel em todos os ambientes, um direito humano b\u00e1sico. Entre as recomenda\u00e7\u00f5es do Guia est\u00e3o n\u00e3o apenas a adequa\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas nutricionais, como utilizar \u00f3leos, gorduras, sal e a\u00e7\u00facar em baixas quantidades e limitar o consumo de alimentos processados e ultraprocessados, mas tamb\u00e9m aten\u00e7\u00e3o a aspectos sociais da comida, como alimentar-se sempre que poss\u00edvel em companhia de outras pessoas e exercitar e partilhar habilidades culin\u00e1rias. Ou seja, aproveitar todo o potencial da alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais do que comer frutas, legumes e verduras.<\/p>\n<p><strong>Agir local, pensar global<\/strong><\/p>\n<p>O trabalho socioambiental com as crian\u00e7as, realizado desde cedo, tem se mostrado um caminho f\u00e9rtil para retomar a ideia preconizada pelo jornalista e professor da Universidade de Berkeley, Michael Pollan, de que cozinhar \u00e9 uma atividade que nos define como humanos. Especialista em comida, Polan \u00e9 autor dos best-sellers \u201cO dilema do on\u00edvoro\u201d, \u201cCozinhar\u201d e \u201cEm defesa da comida\u201d, obras que retomam a hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o para compreender a aliena\u00e7\u00e3o atual sobre os alimentos que chegam \u00e0 mesa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TQPN1O03z8I\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de Estela Criscuolo, do coletivo Organicidade, refletir sobre a origem do alimento constitui-se um potente disparador para se pensar o meio ambiente. \u201cN\u00f3s esquecemos que somos a natureza. Ela n\u00e3o precisa da gente, mas n\u00f3s precisamos dela. Estamos falando de sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie humana. Precisamos levar essas a\u00e7\u00f5es para a escola para que todos aprendam a respeitar o ambiente e, a partir disso, possam cuidar dele.\u201d<\/p>\n<p>Por isso, as a\u00e7\u00f5es escolares de educa\u00e7\u00e3o ambiental e de ressignifica\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o um passo importante para a transforma\u00e7\u00e3o de como a sociedade enxerga a comida. \u201c[Os estudantes] levam para casa a expertise de querer plantar. A transforma\u00e7\u00e3o dessa rela\u00e7\u00e3o tem surtido mais efeito pelas crian\u00e7as do que pelos adultos\u201d, revela Gabriela, correspons\u00e1vel pelas a\u00e7\u00f5es do Organicidade.<\/p>\n<p>Mas assim como as interven\u00e7\u00f5es escolares s\u00e3o essenciais, os adultos tamb\u00e9m podem fazer sua parte, mesmo quando vivem em uma cidade edificada por concreto. \u201c\u00c0s vezes, quando se olha para o macro, \u00e9 dif\u00edcil pensar em agricultura no meio da cidade\u201d, afirma Andr\u00e9 Biazoti, do projeto Cidades Comest\u00edveis. \u201cMas v\u00e1 ao mutir\u00e3o de uma horta comunit\u00e1ria: quando a gente v\u00ea as pessoas trabalhando juntas, entende que existe uma microatua\u00e7\u00e3o e que tem um papel muito importante a cumprir no interior dessa cidade.\u201d<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Nana Soares, Portal do Aprendiz de 19 de junho de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karen_Chappell O chef brasileiro Alex Atala costuma dizer que a comida \u00e9 a maior rede social do mundo, porque \u00e9 capaz de conectar todas as pessoas do planeta. 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