{"id":20556,"date":"2017-08-02T13:00:39","date_gmt":"2017-08-02T16:00:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=20556"},"modified":"2017-07-24T16:56:31","modified_gmt":"2017-07-24T19:56:31","slug":"os-portoes-do-desmatamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/os-portoes-do-desmatamento\/","title":{"rendered":"Os port\u00f5es do desmatamento"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Frigo1-1024x683.jpg\" alt=\"frigo1\" \/><em>Bois no curral de um frigor\u00edfico. Foto: Fabio Nascimento<\/em><\/p>\n<p>Os sat\u00e9lites s\u00e3o cronistas mec\u00e2nicos do processo de desmatamento da floresta Amaz\u00f4nica. Ao vasculhar e documentar atrav\u00e9s dos anos a degrada\u00e7\u00e3o e os vazios criados pelo corte raso da mata, firmam um veredito: dois ter\u00e7os da \u00e1rea desmatada virou pasto. No ch\u00e3o, a contagem do gado mostra que a Amaz\u00f4nia \u00e9 territ\u00f3rio mais de boi do que de gente. Em 2016, a quantidade de gado na regi\u00e3o chegou a 85 milh\u00f5es de cabe\u00e7as, em compara\u00e7\u00e3o a uma popula\u00e7\u00e3o humana de 25 milh\u00f5es de habitantes &#8212; mais de tr\u00eas bois por pessoa. No munic\u00edpio de S\u00e3o F\u00e9lix do Xingu, que cont\u00e9m o maior rebanho do pa\u00eds, essa propor\u00e7\u00e3o chega a 18 para 1.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros amaz\u00f4nicos costumam ser imensos. A Amaz\u00f4nia Legal abrange 61% do territ\u00f3rio do Brasil e cont\u00e9m 40% do rebanho nacional. O gado \u00e9 mantido em cerca de 400 mil fazendas espalhadas pela regi\u00e3o, com tamanhos que variam de alguns poucos at\u00e9 dezenas de milhares de hectares. \u00a0Ent\u00e3o, quando a \u00a0<a href=\"http:\/\/imazon.org.br\/\">ONG Imazon<\/a>\u00a0terminou um\u00a0<a href=\"http:\/\/imazon.org.br\/publicacoes\/os-frigorificos-vao-ajudar-o-desmatamento-da-amazonia\/\">novo e detalhado levantamento sobre os frigor\u00edficos da regi\u00e3o<\/a>, a grande surpresa foi encontrar um n\u00famero pequeno: apenas 128 instala\u00e7\u00f5es de frigor\u00edficos ativos, pertencentes a 99 empresas, s\u00e3o respons\u00e1veis por 93% do abate anual, algo como 12 milh\u00f5es de cabe\u00e7as de gado.<\/p>\n<p>&#8220;Se entre 2016 e 2018 a taxa de desmatamento recente se repetir, 90% das novas perdas de floresta estar\u00e3o dentro da \u00e1rea de influ\u00eancia de compra de 128 frigor\u00edficos&#8221;<\/p>\n<p>J\u00e1 era sabido que os frigor\u00edficos s\u00e3o o gargalo da cadeia de cria\u00e7\u00e3o do gado. Mas o levantamento do Imazon \u00e9 in\u00e9dito porque revelou a geografia da pecu\u00e1ria na Amaz\u00f4nia, vista pela zona de influ\u00eancia destes pouco mais de cem abatedouros. Para se ter uma ideia, ocupar a capacidade de abate anual de um \u00fanico frigor\u00edfico de grande porte demanda uma \u00e1rea de pasto de quase 600 mil hectares, tr\u00eas vezes maior do que o munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo. O conjunto de frigor\u00edficos analisados no estudo, operando a plena capacidade, demandaria uma \u00e1rea de pasto de 68 milh\u00f5es de hectares (maior do que o estado de Minas Gerais). Essa quantidade supera a soma dos pastos hoje existentes na regi\u00e3o, indicando que o futuro da atividade gerar\u00e1 mais desmatamento.<\/p>\n<p>Esses resultados refor\u00e7am o acerto de um processo em curso. Desde 2009, com in\u00edcio no Par\u00e1, o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal pressiona os frigor\u00edficos da regi\u00e3o a assinar o chamado\u00a0<a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/reportagens\/o-procurador-que-lacou-o-desmatamento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">TAC da Carne<\/a>. TAC \u00e9 abrevia\u00e7\u00e3o de Termo de Ajuste de Conduta, uma esp\u00e9cie de contrato entre o MPF e cada frigor\u00edfico que o assina, o qual passa a ser obrigado a fiscalizar a origem do gado que compra para barrar o &#8220;boi de desmatamento&#8221;.<\/p>\n<p>Paulo Barreto, pesquisador do Imazon que liderou o estudo, compara: &#8220;\u00e9 como se para conversar sobre o problema, houvesse duas op\u00e7\u00f5es, reunir num audit\u00f3rio os representantes destas cem empresas frigor\u00edficas ou, como alternativa, alugar cinco est\u00e1dios como o Maracan\u00e3 para colocar todos os fazendeiros envolvidos na cria\u00e7\u00e3o do gado&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Risco de desmatamento<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/frigorifico-jbs-santana-araguaia.jpg\" alt=\"Frigor\u00edfico JBS em Santana do Araguaia, Par\u00e1. Fonte: Google Earth\" \/><em>Imagem de sat\u00e9lite do Frigor\u00edfico JBS, em Santana do Araguaia, Par\u00e1. Fonte: Google Earth<\/em><\/p>\n<p>A an\u00e1lise que detalhou a influ\u00eancia de t\u00e3o poucos frigor\u00edficos sobre quase todo o rebanho amaz\u00f4nico envolveu trabalho de detetive e tecnologia de geoprocessamento. A primeira etapa foi obter os endere\u00e7os de todos os frigor\u00edficos de maior porte e confirm\u00e1-los usando imagens de sat\u00e9lite de alta defini\u00e7\u00e3o, para verificar se naqueles locais havia instala\u00e7\u00f5es t\u00edpicas da atividade, como currais e tanques de tratamento de \u00e1gua.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, os pesquisadores queriam responder a pergunta: qual era a zona potencial de compra de cada frigor\u00edfico? E dois, como essa zona potencial se relaciona com as \u00e1reas j\u00e1 desmatadas e as que est\u00e3o sob maior risco de desmatamento no futuro pr\u00f3ximo?<\/p>\n<p>O primeiro passo era descobrir a dist\u00e2ncia m\u00e1xima que cada frigor\u00edfico alcan\u00e7ava nas compras de gado. Isso foi feito atrav\u00e9s de entrevistas telef\u00f4nicas com os gerentes de frigor\u00edficos e cruzamentos de dados. Havia casos curiosos, como um frigor\u00edfico no Acre, que n\u00e3o adquiria boi mais longe do que a 20 km das suas portas, e, no extremo oposto, no Amazonas, havia outro que comprava a mais de 1.000 km de dist\u00e2ncia, indo at\u00e9 Roraima, para compensar a falta de gado na sua regi\u00e3o na \u00e9poca da seca.<\/p>\n<p>&#8220;O somat\u00f3rio das regi\u00f5es de influ\u00eancia dos 128 frigor\u00edficos analisados abrange a quase totalidade das \u00e1reas embargadas pelo Ibama e 88% do desmatamento ocorrido na Amaz\u00f4nia entre 2010 e 2015&#8221;<\/p>\n<p>O estudo lidou com duas categorias de frigor\u00edficos, aqueles que t\u00eam licen\u00e7a SIE (Sistema de Inspe\u00e7\u00e3o Estadual), que podem vender carne nos seus estados, e SIF (Sistema de Inspe\u00e7\u00e3o Federal), que podem vender no pa\u00eds todo e exportar. Em m\u00e9dia, frigor\u00edficos com licen\u00e7as estaduais t\u00eam capacidade para abater 180 animais por dia e compram de fazendas que podem estar a at\u00e9 153 km de dist\u00e2ncia. Os frigor\u00edficos com licen\u00e7a nacional abatem 700 animais\/dia e v\u00e3o busc\u00e1-los a uma dist\u00e2ncia que chega a 360 km.<\/p>\n<p>Baseado nas dist\u00e2ncias m\u00e1ximas, o segundo passo era estabelecer a \u00e1rea potencial de compra dos frigor\u00edficos. Hora de voltar \u00e0 tecnologia geoespacial. &#8220;O Imazon tem um mapeamento completo de estradas oficiais e informais na Amaz\u00f4nia, uma base que vem sendo atualizada desde 2008&#8221;, conta Amintas Brand\u00e3o Jr., outro dos autores do estudo. &#8220;Rodamos uma an\u00e1lise espacial em que voc\u00ea insere no software as coordenadas do frigor\u00edfico e a dist\u00e2ncia m\u00e1xima que ele compra, digamos, 100 km. Da\u00ed, o software sozinho percorre todas as estradas e rios naveg\u00e1veis acess\u00edveis \u00e0quele frigor\u00edfico at\u00e9 atingir os tais 100 km. Assim, conseguimos delinear uma zona potencial de compra&#8221;. Segundo Brand\u00e3o, o diferencial do trabalho foi este, estabelecer a \u00e1rea de influ\u00eancia de cada frigor\u00edfico usando a rede de infraestrutura, a malha de estradas e rios naveg\u00e1veis por onde o gado pode ser transportado.<\/p>\n<p>O somat\u00f3rio das regi\u00f5es de influ\u00eancia dos 128 frigor\u00edficos analisados abrange a quase totalidade das \u00e1reas embargadas pelo Ibama e 88% do desmatamento ocorrido na Amaz\u00f4nia entre 2010 e 2015.<\/p>\n<p><strong>Desmatamento futuro<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/infografico-frigorificos-fazendas-gado.png\" alt=\"infografico-frigorificos-fazendas-gado\" \/><\/p>\n<p>O estudo gerou uma previs\u00e3o de onde estar\u00e3o as pr\u00f3ximas \u00e1reas desmatadas na Amaz\u00f4nia. De novo, os pesquisadores recorreram aos softwares de an\u00e1lise geoespacial. Eles dividiram a Amaz\u00f4nia Legal em quadrados com 1 km de lado. Para cada um deles, foi estimada a probabilidade de desmatamento baseada na presen\u00e7a de fatores que o estimulam, como disponibilidade de transporte por estrada ou rio, dist\u00e2ncia at\u00e9 mercados e potencial da terra. Criaram, assim, um mapa de probabilidade de desmatamento para toda a Amaz\u00f4nia Legal. Usaram a \u00e1rea desmatada nos tr\u00eas anos anteriores, 1,7 milh\u00e3o de hectares (17 mil km<sup>2<\/sup>), como estimativa do total de desmatamento que poder\u00e1 ocorrer no tri\u00eanio 2016 a 2018. \u00a0Em seguida, a partir do mapa de probabilidades, determinaram quais s\u00e3o as \u00e1reas com maior chance de ocorr\u00eancia de novos desmatamentos. A \u00faltima etapa foi sobrep\u00f4r as zonas de influ\u00eancia de compras dos frigor\u00edficos. A coincid\u00eancia entre as duas \u00e1reas foi de 90%.<\/p>\n<p>Em outras palavras, se entre 2016 e 2018 a taxa de desmatamento recente se repetir, 90% das novas perdas de floresta estar\u00e3o dentro da \u00e1rea de influ\u00eancia de compra de 128 frigor\u00edficos.<\/p>\n<p><strong>Consequ\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Da perspectiva da fiscaliza\u00e7\u00e3o, o trabalho pode ajudar no controle do desmatamento mostrando onde est\u00e3o os &#8216;hot spots&#8217;, os pontos onde h\u00e1 mais floresta e\/ou chance de desmatamento&#8221;, diz Brand\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Barreto, &#8220;chama aten\u00e7\u00e3o como um n\u00famero pequeno de empresas est\u00e1 no fim da cadeia que envolve quase 400 mil pecuaristas&#8221;. Segundo ele, isso confirma que est\u00e1 certo o caminho de envolver os frigor\u00edficos na fiscaliza\u00e7\u00e3o do desmatamento, como obrigam os acordos com o MPF. Mas destaca que 30% do abate \u00e9 feito por frigor\u00edficos que n\u00e3o assinaram acordos. Isso significa que n\u00e3o fiscalizam a origem dos seus bois. Pior, esses frigor\u00edficos est\u00e3o na mesma \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o daqueles que assinaram os acordos e, assim, se tornam alternativas para a venda de gado criado em pastos abertos ilegalmente.<\/p>\n<p>O estudo do Imazon criou um panorama detalhado da influ\u00eancia que os frigor\u00edficos podem ter sobre o desmatamento. &#8220;J\u00e1 temos um mapa, as tecnologias est\u00e3o dispon\u00edveis para rastrear o gado da sua origem at\u00e9 o local de abate&#8221;, diz Barreto. &#8220;Falta agora uma press\u00e3o consistente e puni\u00e7\u00f5es para criadores e frigor\u00edficos que compactuam com crimes ambientais&#8221;. Ele diz que isso aconteceu no caso da febre aftosa, quando o setor percebeu que perderia os mercados mundiais se n\u00e3o fosse feito um programa efetivo de vacina\u00e7\u00e3o. A press\u00e3o do mercado funcionou para os fazendeiros se organizarem e firmarem parcerias com o governo. Para Barreto, um bom come\u00e7o seria uma nova rodada de aperto sobre o setor liderada pelo MPF e pelo Ibama.<\/p>\n<p>O Brasil alcan\u00e7ou um bom controle de febre aftosa, um feito e tanto. Se quiser, pode fazer o mesmo para acabar com a pecu\u00e1ria que derruba floresta. Ser\u00e1 um enorme passo rumo ao desmatamento zero na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Fonte &#8211;\u00a0Eduardo Pegurier, O Eco de 19 de julho de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bois no curral de um frigor\u00edfico. Foto: Fabio Nascimento Os sat\u00e9lites s\u00e3o cronistas mec\u00e2nicos do processo de desmatamento da floresta Amaz\u00f4nica. Ao vasculhar e documentar atrav\u00e9s dos anos a degrada\u00e7\u00e3o e os vazios criados pelo corte raso da mata, firmam um veredito: dois ter\u00e7os da \u00e1rea desmatada virou pasto. 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