{"id":20617,"date":"2017-08-14T17:00:58","date_gmt":"2017-08-14T20:00:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=20617"},"modified":"2017-08-01T09:37:46","modified_gmt":"2017-08-01T12:37:46","slug":"o-degelo-e-a-elevacao-do-nivel-do-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-degelo-e-a-elevacao-do-nivel-do-mar\/","title":{"rendered":"O degelo e a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_artigos_LM_grafico01_20170718.jpg\" alt=\"Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" \/><\/p>\n<p>Um dos efeitos do aquecimento global \u00e9 a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. Aquecimento e degelo refor\u00e7am-se mutuamente atrav\u00e9s de mecanismos de retroalimenta\u00e7\u00e3o amplificante, pois o aquecimento superficial da \u00e1gua e da troposfera aumenta o degelo e esse, ao diminuir o albedo (a fra\u00e7\u00e3o rebatida para o espa\u00e7o da radia\u00e7\u00e3o solar incidente sobre a Terra), acelera o aquecimento, num c\u00edrculo vicioso. Uma vez desencadeados, o aquecimento da \u00e1gua (vale dizer, sua expans\u00e3o t\u00e9rmica) e o degelo t\u00eam din\u00e2micas inerciais, de modo que nem mesmo uma radical redu\u00e7\u00e3o nas emiss\u00f5es de GEE num intervalo de tempo de 0 a 100 anos ser\u00e1 capaz de det\u00ea-los no horizonte do tempo hist\u00f3rico. J\u00e1 em 2001, o Terceiro Relat\u00f3rio de Avalia\u00e7\u00e3o do IPCC (Assessment Report ou AR3) afirmava: \u201cprojeta-se que o n\u00edvel do mar continuar\u00e1 a se elevar por muitos s\u00e9culos\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#1\">[I]<\/a>. A figura 1 ilustra o car\u00e1ter irrevers\u00edvel da eleva\u00e7\u00e3o inercial das temperaturas e do n\u00edvel global m\u00e9dio do mar no horizonte do pr\u00f3ximo mil\u00eanio.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, n\u00e3o deve ocorrer estabiliza\u00e7\u00e3o da temperatura nos pr\u00f3ximos s\u00e9culos e o n\u00edvel do mar continuar\u00e1 a se elevar por expans\u00e3o t\u00e9rmica e por degelo pelo menos ao longo do pr\u00f3ximo mil\u00eanio. Obviamente, advertia em 2001 o IPCC, \u201cos impactos tornam-se progressivamente maiores com mais altas concentra\u00e7\u00f5es de CO2\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#2\">[II]<\/a>, de onde a inadi\u00e1vel necessidade de diminuir as emiss\u00f5es de GEE, o que n\u00e3o est\u00e1 ocorrendo.<\/p>\n<p><strong>Acelera\u00e7\u00e3o no passado recente<\/strong><\/p>\n<p>Em quanto o n\u00edvel do mar j\u00e1 subiu no \u00faltimo s\u00e9culo? Segundo o IPCC-AR5 (2013), \u00e9 \u201cmuito prov\u00e1vel que a taxa m\u00e9dia de eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar tenha sido 1,7 [1,5 a 1,9] mm por ano entre 1901 e 2010, para uma eleva\u00e7\u00e3o m\u00e9dia total de 19 cm (17 a 21 cm). Entre 1993 e 2010, a taxa foi, muito provavelmente, mais alta, atingindo 3,2 mm por ano\u201d. Refor\u00e7ando esses dados, mensura\u00e7\u00f5es satelitares do GISS\/NASA indicam que entre 1880 e 2013 houve uma eleva\u00e7\u00e3o m\u00e9dia global do n\u00edvel do mar de 22,6 cm, vale dizer, 1,6 mm por ano em m\u00e9dia ao longo de 133 anos. Ocorre que um ter\u00e7o dessa eleva\u00e7\u00e3o (7,6 cm) ocorreu em apenas pouco mais de 20 anos, entre 1992 e 2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#3\">[III]<\/a>. Tal acelera\u00e7\u00e3o foi calculada por um trabalho publicado na\u00a0<em>Scientific Reports<\/em>\u00a0em 2016, que estabelece o seguinte salto nas taxas de eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#4\">[IV]<\/a>:<\/p>\n<p>1900-1990 = + 1,2 a 1,9 mm \/ ano<\/p>\n<p>1992-2015 = + 3,3 \u00b1\u20090.4\u2009mm \/ ano<\/p>\n<p>Em 2016, a eleva\u00e7\u00e3o m\u00e9dia foi de 3,41 mm, resultante de uma nova acelera\u00e7\u00e3o a partir de 2012, como mostra claramente a figura 2<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_artigos_LM_grafico02_20170718.jpg\" alt=\"Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" \/><\/p>\n<p>A acelera\u00e7\u00e3o evidenciada na figura 2 \u00e9 confirmada por uma recente avalia\u00e7\u00e3o, segundo a qual a eleva\u00e7\u00e3o m\u00e9dia global do n\u00edvel do mar foi 25% a 30% mais r\u00e1pida entre 2004 e 2015 que entre 1993 e 2004\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#5\">[V]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Incerteza sobre a taxa de acelera\u00e7\u00e3o no futuro pr\u00f3ximo<\/strong><\/p>\n<p>Qin Dahe, co-diretor do IPCC-AR5, afirma que \u201c\u00e0 medida que o oceano se aquece e o gelo mar\u00edtimo e continental se reduz, o n\u00edvel m\u00e9dio global do mar continuar\u00e1 a se elevar, mas a uma taxa mais r\u00e1pida que a observada nos \u00faltimos 40 anos\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#6\">[VI]<\/a>. Qu\u00e3o mais r\u00e1pida \u00e9 ainda incerto. A se confirmarem as estimativas do trabalho publicado na\u00a0<em>Scientific Reports<\/em>, acima citado, \u201ca magnitude da acelera\u00e7\u00e3o em meados do s\u00e9culo XXI ser\u00e1 de 0,12 mm por ano a cada ano [0.12mm yr\u22122], embora esse valor dependa fortemente das perdas futuras do gelo continental, as quais s\u00e3o altamente incertas\u201d.\u00a0Para tentar restringir essas incertezas, Benjamin P. Horton, Stefan Rahmstorf, Simon E. Engelhart e Andrew C. Kemp publicaram em 2014 os resultados de uma avalia\u00e7\u00e3o probabil\u00edstica sobre a eleva\u00e7\u00e3o m\u00e9dia do n\u00edvel do mar em 2100 e em 2300, em fun\u00e7\u00e3o de dois cen\u00e1rios contrastantes de aquecimento global, a partir de uma consulta a 90 especialistas selecionados entre os que mais ativamente publicaram sobre esse t\u00f3pico em anos recentes\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#7\">[VII]<\/a>. A figura 3 sintetiza num \u00fanico gr\u00e1fico essas proje\u00e7\u00f5es, comparando-as com as do IPCC e da\u00a0National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_artigos_LM_grafico03_20170718.jpg\" alt=\"Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" \/><\/p>\n<p>No cen\u00e1rio em azul (sombreado com intervalos de confian\u00e7a prov\u00e1veis e muito prov\u00e1veis), o aquecimento \u00e9 inferior a 2\u00ba C em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo pr\u00e9-industrial e h\u00e1 lenta diminui\u00e7\u00e3o ap\u00f3s 2050 (RCP3-PD, por \u201cPeak and Decline\u201d). Nesse caso, a eleva\u00e7\u00e3o m\u00e9dia mais prov\u00e1vel ser\u00e1 de 40 a 60 cm at\u00e9 2100 e de 60 cm a 1 metro at\u00e9 2300. No cen\u00e1rio em vermelho (RCP8, com mesmos intervalos de confian\u00e7a), o aquecimento \u00e9 de 4,5\u00ba C em 2100 e de 8\u00ba C em 2300, e a m\u00e9dia mais prov\u00e1vel de eleva\u00e7\u00e3o situa-se entre 70 cm e 1,6 metro para 2100 e 2 a 3 metros para 2300\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#8\">[VIII]<\/a>. Em compara\u00e7\u00e3o com os pareceres desses 90 especialistas, as proje\u00e7\u00f5es do IPCC para 2100 em rela\u00e7\u00e3o a 2000 representam-se nas barras verticais \u00e0 direita, confirmando a tend\u00eancia (necessariamente) conservadora do IPCC. Em contraste, as proje\u00e7\u00f5es da NOAA, representadas pelas quatro linhas pontilhadas, atingem, no caso intermedi\u00e1rio-alto, mais de 1,2 metro e, no pior dos casos, 2 metros\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#9\">[IX]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00e1rtica e Groenl\u00e2ndia: eleva\u00e7\u00e3o n\u00e3o linear do n\u00edvel do mar<\/strong><\/p>\n<p>Essas incertezas decorrem, como dito, sobretudo da rapidez do degelo da Groenl\u00e2ndia e da Ant\u00e1rtica, que apenas agora come\u00e7a a ser melhor estimada.\u00a0Segundo o IPCC (AR5), \u201cobserva\u00e7\u00f5es feitas desde 1971 indicam que a expans\u00e3o t\u00e9rmica e o degelo marinho (exclu\u00eddo o degelo marinho perif\u00e9rico da Ant\u00e1rtica) explicam 75% da eleva\u00e7\u00e3o observada (alta confiabilidade)\u201d. Mas, continua o texto, \u201ca contribui\u00e7\u00e3o do gelo da Groenl\u00e2ndia e da Ant\u00e1rtica tem aumentado desde o in\u00edcio dos anos 1990, em parte por causa do fluxo acrescido de gelo induzido pelo aquecimento do oceano imediatamente adjacente\u201d.\u00a0O que j\u00e1 se observou \u00e9 que em apenas 17 anos (1995 \u2013 2011), a a\u00e7\u00e3o combinada do degelo na Ant\u00e1rtica e na Groenl\u00e2ndia causou uma eleva\u00e7\u00e3o de 11,1 mm do n\u00edvel do mar, eleva\u00e7\u00e3o esta que, sobretudo na Groenl\u00e2ndia, est\u00e1 em clara acelera\u00e7\u00e3o nesse per\u00edodo, como mostra a figura 4<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_artigos_LM_grafico04_20170718.jpg\" alt=\"Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" \/><em>Fonte: ESA\/NASA\/Planetary Visions. Baseado em Andrew Shepherd\u00a0et al., \u201cA Reconciled Estimate of Ice-Sheet Mass Balance\u201d.\u00a0Science,\u00a030\/XI\/2012\u00a0<a href=\"https:\/\/www.geopostings.com\/category\/ice-sheet-melt\/\">https:\/\/www.geopostings.com\/category\/ice-sheet-melt\/<\/a><\/em><\/p>\n<p>Em 2009, um trabalho publicado na Proceedings of National Academy of Sciences j\u00e1 detectava essa acelera\u00e7\u00e3o: \u201ca perda de massa de gelo na Groenl\u00e2ndia e na Ant\u00e1rtica est\u00e1 se acelerando e se aproxima mais de uma tend\u00eancia quadr\u00e1tica que de uma tend\u00eancia linear\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#10\">[X]<\/a>. Como afirma esse artigo, a contribui\u00e7\u00e3o da Groenl\u00e2ndia para essa eleva\u00e7\u00e3o ser\u00e1, mais uma vez, maior que as proje\u00e7\u00f5es do IPCC-AR4 (2007).<\/p>\n<p>Ocorre que, em 2016, James Hansen \u00e0 frente de 18 cientistas, publicou um trabalho cujos resultados agravam, e em muito, mesmo a estimativa mais pessimista da NOAA (aumento de 2 metros at\u00e9 2100)\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#11\">[XI]<\/a>: \u201cNossa hip\u00f3tese\u201d, afirma esse trabalho, \u201c\u00e9 que a perda de massa do gelo mais vulner\u00e1vel, suficiente para aumentar o n\u00edvel do mar em v\u00e1rios metros [<em>several meters<\/em>], aproxima-se melhor de uma resposta exponencial que de uma resposta linear.\u00a0(&#8230;) Preveem-se que altas e cont\u00ednuas emiss\u00f5es provenientes de combust\u00edveis f\u00f3sseis neste s\u00e9culo provocar\u00e3o (&#8230;) tempestades mais poderosas e aumento n\u00e3o linear da eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar, atingindo v\u00e1rios metros num horizonte de tempo de 50 a 150 anos\u201d.<br \/>\n<strong>O gelo de escora na Ant\u00e1rtica<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 bem sabido que \u201ca Pen\u00ednsula Ocidental da Ant\u00e1rtica \u00e9 uma das \u00e1reas de mais r\u00e1pido aquecimento na Terra, atr\u00e1s apenas de algumas \u00e1reas do C\u00edrculo Polar \u00c1rtico\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#12\">[XII]<\/a>. E \u00e0 medida que essa regi\u00e3o se aquece, o degelo continental se acelera, conferindo maior concretude ao novo cen\u00e1rio previsto por James Hansen e colegas. O desprendimento da Plataforma Mar\u00edtima Larsen entre 1995 e 2017, jogando no mar de Weddel 10.550 km2 de gelo mar\u00edtimo (Larsen A, 1995 = 1.500 km2, Larsen B, 2002 = 3.250 km2 e Larsen C, 2017 = 5.800 km2) n\u00e3o tem impacto direto sobre o n\u00edvel do mar, pois se trata de gelo mar\u00edtimo, que j\u00e1 ocupava lugar no mar e, al\u00e9m disso, de \u201cgelo passivo\u201d, isto \u00e9, que n\u00e3o funciona como escora do gelo continental. Mas as plataformas de gelo mar\u00edtimo sobre os mares de Amundsen e de Bellingshausen (oeste e sudoeste da Ant\u00e1rtica) s\u00e3o, sobretudo, gelo de escora e seu desprendimento futuro, dado por certo, abrir\u00e1 caminho para o gelo continental descer de suas \u00edngremes encostas para o mar, conforme mostram as manchas em amarelo na figura 5\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#13\">[XIII]<\/a>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_artigos_LM_grafico05_20170718_0.jpg\" alt=\"Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" \/><em>Fonte: Johannes J. F\u00fcrst\u00a0et al.\u00a0\u00ab The safety band of Antarctic ice shelves\u201d\u00a0Nature Climate Change, 8\/II\/2016. As zonas em azul s\u00e3o de gelo passivo. As zonas em amarelo s\u00e3o de gelo de escora (buttressing)<\/em><\/p>\n<p><strong>Uma eleva\u00e7\u00e3o 2 vezes e meia a 6 vezes maior que no s\u00e9culo XX<\/strong><\/p>\n<p>Se a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar at\u00e9 2100 permanecer apenas entre 50 cm e 1,2 metro (proje\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rio-baixo e intermedi\u00e1rio-alto da NOAA), isso significa que ao longo do s\u00e9culo XXI essa eleva\u00e7\u00e3o ser\u00e1 2 vezes e meia a 6 vezes maior que os 19 cm de eleva\u00e7\u00e3o observada, como visto acima, entre 1901 e 2010. As consequ\u00eancias desse redesenho da linha costeira s\u00e3o t\u00e3o m\u00faltiplas e complexas, que, por raz\u00f5es de espa\u00e7o, devem ser tratadas no pr\u00f3ximo artigo. Antecipemos aqui, muito brevemente, algumas delas. Dado que se preveem tamb\u00e9m furac\u00f5es mais fortes e que grande parte das maiores cidades do mundo s\u00e3o costeiras, inunda\u00e7\u00f5es mais frequentes e piores que as que ocorreram nos \u00faltimos dec\u00eanios ser\u00e3o inevit\u00e1veis. At\u00e9 2050, Bangladesh deve perder 10% de seu territ\u00f3rio\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#14\">[XIV]<\/a>. Em 2050, o n\u00edvel do mar em Nova York deve estar 76 cm acima do n\u00edvel m\u00e9dio de 2000-2004 e em 2100, 183 cm (6 p\u00e9s)\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#15\">[XV]<\/a>. Cidades como Guangzhou, New Orleans, Miami, Mumbai, Nagoya, Boston, Shenzen, Osaka, Guayaquil, Cidade Ho Chi Minh e, no Brasil, Santos\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#16\">[XVI]<\/a>, tamb\u00e9m est\u00e3o na primeira linha de tiro das inunda\u00e7\u00f5es. Mas o espectro das consequ\u00eancias \u00e9 muito mais amplo que a simples perda de infraestrutura urbana, pois uma eleva\u00e7\u00e3o dessa magnitude (como visto, bem abaixo do pior cen\u00e1rio) poder\u00e1 inundar as usinas nucleares litor\u00e2neas, salinizar aqu\u00edferos e deltas, erodir as costas, destruir ecossistemas costeiros e impor gigantescos deslocamentos populacionais. Esses impactos ser\u00e3o o tema do pr\u00f3ximo artigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref1\">[i]<\/a>\u00a0IPCC AR3\u00a0<strong>Climate Change 2001: Synthesis Report:\u00a0<\/strong>\u201csea level is projected to continue to rise for many centuries\u201d &lt;<a href=\"http:\/\/www.ipcc.ch\/ipccreports\/tar\/vol4\/011.htm\"><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">http:\/\/www.ipcc.ch\/ipccreports\/tar\/vol4\/011.htm<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">&gt;.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref2\">[ii]<\/a>\u00a0<strong><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Cf. IPCC AR3 Climate Change 2001: Synthesis Report:\u00a0<\/span><\/strong><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u201cthe impacts become progressively larger at higher concentrations of CO2.\u201d &lt;<\/span><a href=\"http:\/\/www.ipcc.ch\/ipccreports\/tar\/vol4\/011.htm\"><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">http:\/\/www.ipcc.ch\/ipccreports\/tar\/vol4\/011.htm<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">&gt;.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref3\">[iii]<\/a>\u00a0<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Cf. NASA Goddard Institute for Space Studies: &lt;<\/span><a href=\"https:\/\/www.nasa.gov\/goddard\/risingseas\"><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">https:\/\/www.nasa.gov\/goddard\/risingseas<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">&gt;.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref4\">[iv]<\/a>\u00a0<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Cf. J.T. Fasullo, R.S. Nerem &amp; B. Hamlington, \u201cIs the detection of accelerated sea level rise imminent?\u00a0<em>Scientific Reports<\/em>, 10\/VIII\/2016 &lt;<\/span><a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/srep31245\"><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">https:\/\/www.nature.com\/articles\/srep31245#f1<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">&gt;.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref5\">[v]<\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u00a0Cf. H.B. Dieng\u00a0<em>et al.<\/em>, \u201cNew estimate of the current rate of sea level rise from a sea level budget approach\u201d.\u00a0<em>Geophysical Research Letters<\/em>, 22\/IV\/2017.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref6\">[vi]<\/a>\u00a0Cf. \u201cHuman influence on climate clear, IPCC report says\u201d, UN and climate change, 27\/IX\/2014:<\/p>\n<p><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">&lt;<\/span><a href=\"http:\/\/www.un.org\/climatechange\/blog\/2013\/09\/human-influence-on-climate-clear-ipcc-report-says\/\"><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">http:\/\/www.un.org\/climatechange\/blog\/2013\/09\/human-influence-on-climate-clear-ipcc-report-says\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">&gt;.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref7\">[vii]<\/a>\u00a0<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Cf. Benjamin P. Horton, Stefan Rahmstorf, Simon E. Engelhart &amp; Andrew C. Kemp, \u201cExpert assessment of sea-level rise by AD 2100 and AD 2300\u201d.\u00a0<em>Quarternary Science Reviews<\/em>, 83, 2014, pp. 1-6<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">&lt;<\/span><a href=\"https:\/\/marine.rutgers.edu\/pubs\/private\/HortonQSR_2013.pdf\"><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">https:\/\/marine.rutgers.edu\/pubs\/private\/HortonQSR_2013.pdf<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">&gt;.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref8\">[viii]<\/a>\u00a0Em 2016, outro trabalho refor\u00e7a essa proje\u00e7\u00e3o para 2100, consoante os diversos cen\u00e1rios de concentra\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas de GEE: RCP2,6 = 28-56 cm; RCP4,5 = 37-77 cm e RCP8,5 = 57-131 cm.\u00a0<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Cf.\u00a0<\/span><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Matthias Mengel\u00a0<em>et al.<\/em>, \u201cFuture sea level rise constrained by observations and long-term commitment\u201d.\u00a0<em>PNAS<\/em>, 113, 10, 8\/III\/2016.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref9\">[ix]<\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u00a0Cf. NOAA, Global Sea Level Rise Scenarios for the United States National Climate Assessment 6\/XII\/2012 &lt;<\/span><a href=\"https:\/\/scenarios.globalchange.gov\/sites\/default\/files\/NOAA_SLR_r3_0.pdf\"><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">https:\/\/scenarios.globalchange.gov\/sites\/default\/files\/NOAA_SLR_r3_0.pdf<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">&gt;.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref10\">[x]<\/a>\u00a0<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Cf. Jonathan T. Overpeck &amp; Jeremy L. Weiss, \u201cProjections of future sea level becoming more dire\u201d.\u00a0<em>PNAS<\/em>, 22\/XII\/2009 &lt;<\/span><a href=\"http:\/\/www.pnas.org\/content\/106\/51\/21461.full\"><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">http:\/\/www.pnas.org\/content\/106\/51\/21461.full<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">&gt;.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref11\">[xi]<\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u00a0Cf.\u00a0<\/span><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">James Hansen\u00a0<em>et al.<\/em>,<em>\u00a0<\/em>\u201cIce melt, sea level rise and superstorms: evidence from paleoclimate data, climate modeling, and modern observations that 2 \u00b0C global warming could be dangerous\u201d (cit)<\/span><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">.\u00a0<\/span>Veja-se tamb\u00e9m\u00a0&lt;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=JP-cRqCQRc8\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=JP-cRqCQRc8<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref12\">[xii]<\/a>\u00a0<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Cf. Antarctic And South Ocean Coalition (ASOC) &lt;<\/span><a href=\"http:\/\/www.asoc.org\/advocacy\/climate-change-and-the-antarctic\"><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">http:\/\/www.asoc.org\/advocacy\/climate-change-and-the-antarctic<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">&gt;.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref13\">[xiii]<\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u00a0Cf. F\u00fcrst\u00a0<em>et al.<\/em>\u00a0\u00ab The safety band of Antarctic ice shelves\u201d\u00a0<em>Nature Climate Change<\/em>, 8\/II\/2016.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref14\">[xiv]<\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u00a0Cf. \u201cBangladesh risks more flooding, droughts, hurting development\u201d.\u00a0<\/span><em>BDNews24.com<\/em>, 14\/VII\/2017.<\/p>\n<p>&lt;<a href=\"http:\/\/bdnews24.com\/environment\/2017\/07\/14\/bangladesh-risks-more-flooding-droughts-hurting-development-report\">http:\/\/bdnews24.com\/environment\/2017\/07\/14\/bangladesh-risks-more-flooding-droughts-hurting-development-report<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref15\">[xv]<\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u00a0Cf. \u201cImpacts of Climate Change in New York\u201d. New York State. Department of Environmental Conservation &lt;<\/span><a href=\"http:\/\/www.dec.ny.gov\/energy\/94702.html\"><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">http:\/\/www.dec.ny.gov\/energy\/94702.html<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">&gt;.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-degelo-e-elevacao-do-nivel-do-mar#_ednref16\">[xvi]<\/a>\u00a0Cf. E. Alisson, \u201cInunda\u00e7\u00f5es costeiras em Santos podem causar preju\u00edzos bilion\u00e1rios\u201d.\u00a0<em>Fapesp<\/em>, 7\/X\/2015\u00a0<a href=\"http:\/\/agencia.fapesp.br\/inundacoes_costeiras_em_santos_podem_causar_prejuizos_bilionarios_\/21997\/\">http:\/\/agencia.fapesp.br\/inundacoes_costeiras_em_santos_podem_causar_prejuizos_bilionarios_\/21997\/<\/a>.<\/p>\n<p>Luiz Marques\u00a0\u00e9 professor livre-docente do Departamento de Hist\u00f3ria do IFCH \/Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari,\u00a0Vida de Michelangelo\u00a0(1568), 2011 e\u00a0Capitalismo e Colapso ambiental, 2015, 2a edi\u00e7\u00e3o, 2016. Coordena a cole\u00e7\u00e3o Palavra da Arte, dedicada \u00e0s fontes da historiografia art\u00edstica, e participa com outros colegas do coletivo\u00a0Cris\u00e1lida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate &amp; Atualiza\u00e7\u00e3o\u00a0(crisalida.eco.br).<\/p>\n<div class=\"field field-node--field-autor field-formatter-link field-name-field-autor field-type-link field-label-inline clearfix has-single\">Fonte &#8211; Fotos <a href=\"mailto:lcarlos@reitoria.unicamp.br\">Daniel Beltr\u00e1\/Greenpeace | Reprodu\u00e7\u00e3o<\/a>, edi\u00e7\u00e3o imagem\u00a0Luis Paulo Silva, Jornal da UNICAMP de 18 de julho de 2017<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos efeitos do aquecimento global \u00e9 a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. 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