{"id":20823,"date":"2017-08-28T17:00:35","date_gmt":"2017-08-28T20:00:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=20823"},"modified":"2017-08-16T18:01:09","modified_gmt":"2017-08-16T21:01:09","slug":"o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais\/","title":{"rendered":"O \u00faltimo s\u00e9culo das florestas tropicais?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_artigos_LM_materia_20170807.jpg\" alt=\"Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" \/><\/p>\n<p>\u201cAs florestas s\u00e3o o lar de mais de 80% de todas as esp\u00e9cies terrestres\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#1\">[I]<\/a><em>.\u00a0<\/em>A maior parte dessa biodiversidade concentra-se nas florestas tropicais<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#2\">\u00a0[II]<\/a>. H\u00e1 estimativas de que as florestas tropicais podem abrigar mais da metade das esp\u00e9cies terrestres do planeta, grande parte delas vivendo na can\u00f3pia das \u00e1rvores. E. O. Wilson, por exemplo, contou 43 diferentes esp\u00e9cies de formigas em uma \u00fanica \u00e1rvore na Amaz\u00f4nia peruana, algo equivalente \u00e0 diversidade de esp\u00e9cies de formigas em todo o Reino Unido. Segundo estimativas, haveria entre 40 mil e 50 mil diferentes esp\u00e9cies de \u00e1rvores nas florestas tropicais da Am\u00e9rica do Sul, da \u00c1frica e da \u00c1sia. Um \u00fanico hectare dessas florestas pode abrigar mais de 480 esp\u00e9cies diferentes de \u00e1rvores. Mais de 1.300 esp\u00e9cies de borboletas foram documentadas num parque florestal do Peru, ao passo que a Europa toda possui menos de 400 esp\u00e9cies de borboletas\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#3\">[III]<\/a>.<\/p>\n<p>Se definirmos florestas tropicais como forma\u00e7\u00f5es florestais entre os tr\u00f3picos (ou pr\u00f3ximas deles), com dossel ou can\u00f3pia (a cobertura formada pelas copas das \u00e1rvores que se tocam) cobrindo 75% do terreno, ent\u00e3o essas florestas estendem-se hoje por bem menos de 10% da superf\u00edcie terrestre\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#4\">[IV]<\/a>. H\u00e1 algumas d\u00e9cadas, E. O. Wilson considerava que as florestas tropicais recobriam cerca de 7% da superf\u00edcie terrestre, estimativa corroborada por Claude Martin, em cuja monografia de 2015 se l\u00ea que por volta de 1800, \u201ca \u00e1rea coberta por florestas tropicais era ainda pr\u00f3xima dos cerca de 16 milh\u00f5es de km2, considerados sua m\u00e1xima extens\u00e3o original. (&#8230;) Hoje, [dados de 2010], menos da metade dessa \u00e1rea permanece como floresta intocada \u2013 ningu\u00e9m sabe exatamente quanto \u2013 e cerca de outro um quarto sobrevive como floresta fragmentada e degradada\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#5\">[V]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Acelera\u00e7\u00e3o do desmatamento no s\u00e9culo XXI<\/strong><\/p>\n<p>Um estudo baseado em 20 anos de dados satelitares (1990-2010), coletados em 34 pa\u00edses, mostra forte acelera\u00e7\u00e3o do desmatamento l\u00edquido (desmatamento bruto menos reflorestamento): \u201ca taxa de perda de floresta nos tr\u00f3picos aumentou em 62% na primeira d\u00e9cada do mil\u00eanio em rela\u00e7\u00e3o aos anos 1990\u201d<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#_edn6\">[vi]<\/a>. A figura 1 captura bem a curva dessa acelera\u00e7\u00e3o nos anos 2001-2014.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_artigos_LM_grafico_01_20170807.jpg\" alt=\"Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" \/><em>Perda florestal em hecares nos pa\u00edses tropicais, 2001 \u2013 2014.<\/em><br \/>\n<em><strong>Fonte:\u00a0<\/strong>Rhett A. Butler, \u201cThe year in rainforests: 2015\u201d. Mongabay, 29\/XII\/2015<\/em><\/p>\n<p>A tend\u00eancia trienal sintetizada na linha laranja mostra que enquanto em 2001, perderam-se pouco mais de 60 mil km2 de florestas tropicais, em 2014, a perda foi de 99 mil km2. Entre 2001 e 2004, o Brasil perdeu mais florestas que todos os pa\u00edses tropicais juntos, mas a partir de 2011, embora o desmatamento no Brasil venha recrudescendo desde 2012, outros pa\u00edses tropicais tomam a dianteira, tornando-se os maiores respons\u00e1veis por essa acelera\u00e7\u00e3o, como mostra a figura 2.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_artigos_LM_grafico_02_20170807.jpg\" alt=\"Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" \/><\/p>\n<p>A perda anual de florestas nos pa\u00edses tropicais (menos Brasil e Indon\u00e9sia) praticamente dobrou nesses 14 anos, passando de pouco mais de 31 mil km2 em 2001 para pouco mais de 61 mil km2 em 2014. Na Indon\u00e9sia, o desmatamento, embora evolua em zigue-zague desde 2009, mant\u00e9m-se entre 11 mil e 21 mil km2 por ano desde 2004, com remo\u00e7\u00e3o nesse per\u00edodo de 10% de sua cobertura florestal\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#7\">[VII]<\/a>. Em Sumatra, as bacias hidrogr\u00e1ficas perderam 22% de sua cobertura florestal (80 mil km2) entre 2000 e 2014\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#8\">[VIII]<\/a>. A acelera\u00e7\u00e3o mais recente verificou-se particularmente na \u00c1frica Ocidental, na bacia do Mekong e nas florestas de P\u00e1pua Nova Guin\u00e9, onde houve um salto de 70% entre 2014 e 2015, com um desmatamento apenas neste \u00faltimo ano de 18 mil km2, como mostra a figura 3.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_artigos_LM_grafico_03_20170807.jpg\" alt=\"Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" \/><\/p>\n<p><strong>O \u00faltimo s\u00e9culo das florestas tropicais?<\/strong><\/p>\n<p>Como visto acima, Claude Martin avalia que em 2010 j\u00e1 hav\u00edamos destru\u00eddo mais da metade da extens\u00e3o original (~16 milh\u00f5es de km2) das florestas tropicais e degradado um quarto dela. Em 2001, o Earth Observatory da NASA lan\u00e7ou a seguinte advert\u00eancia: \u201cSe a taxa atual de desmatamento continuar, as florestas tropicais desaparecer\u00e3o dentro de 100 anos, provocando efeitos desconhecidos sobre o clima global e eliminando a maioria das esp\u00e9cies vegetais e animais no planeta\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#9\">[IX]<\/a>. Em 2003, Peter J. Bryant confirmava esse progn\u00f3stico. A prosseguir essa taxa, escrevia ent\u00e3o, \u201ca Tail\u00e2ndia n\u00e3o ter\u00e1 mais florestas em 25 anos\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#10\">[X]<\/a>. Infelizmente, como se v\u00ea, essa taxa de desmatamento n\u00e3o apenas continuou, mas se acelerou nos \u00faltimos 16 anos e, de fato, as florestas prim\u00e1rias da Tail\u00e2ndia \u2013 que ainda em 1950 recobriam 70% de seu territ\u00f3rio \u2013 j\u00e1 desapareceram praticamente por completo, o que levou as grandes madeireiras a se voltarem para as florestas de Mianmar\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#11\">[XI]<\/a>.<\/p>\n<p>A causa primeira do decl\u00ednio atual das florestas tropicais \u00e9 obviamente o avan\u00e7o da fronteira agropecu\u00e1ria, impulsionado pela globaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo e por uma rede muito interconectada de megacorpora\u00e7\u00f5es que controlam toda a cadeia alimentar, dos insumos ao consumo final. Mas outra causa desse decl\u00ednio come\u00e7a a surgir no horizonte. Ela \u00e9 sist\u00eamica, isto \u00e9, decorre do sistema clim\u00e1tico e da maior vulnerabilidade das florestas degradadas: aquecimento, secas, aumento das bordas, ressecamento por exposi\u00e7\u00e3o aos ventos, maior insola\u00e7\u00e3o e maior combustibilidade das florestas fragmentadas, perda de esp\u00e9cies funcionais \u00e0 sua conserva\u00e7\u00e3o etc. N\u00e3o por acaso, um invent\u00e1rio em 21 pa\u00edses publicado em 2015 mostra que \u201ca maior parte das 40 mil esp\u00e9cies de \u00e1rvores tropicais podem ser agora consideradas como globalmente amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#12\">[XII]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Amaz\u00f4nia, perto do \u201cponto cr\u00edtico\u201d<\/strong><\/p>\n<p>No que se refere especificamente \u00e0 Amaz\u00f4nia, esse invent\u00e1rio, coordenado por Hans ter Steege, afirma: \u201cAo menos 36% e at\u00e9 57% de todas as esp\u00e9cies de \u00e1rvores da Amaz\u00f4nia devem provavelmente ser consideradas como globalmente amea\u00e7adas segundo os crit\u00e9rios da IUCN [Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza]. Se confirmados, esses resultados aumentar\u00e3o em 22% o n\u00famero de esp\u00e9cies vegetais amea\u00e7adas no planeta\u201d. Esse \u00e9 mais um indicador, entre tantos, a aumentar a probabilidade de estarmos muito perto de um ponto cr\u00edtico (<em>tipping point<\/em>), um ponto de n\u00e3o retorno, vale dizer, de decl\u00ednio irrevers\u00edvel de ao menos toda a parte leste e sul da floresta amaz\u00f4nica. Num estudo de 2012, muito citado, Anthony D. Barnosky e 21 colegas partiam do fato bem conhecido de que \u201csistemas ecol\u00f3gicos transitam abruptamente e irreversivelmente de um estado para outro, quando levados a cruzar limiares cr\u00edticos\u201d, para avan\u00e7ar a ideia de que \u201co ecossistema global como um todo pode reagir da mesma maneira e est\u00e1 se aproximando de uma transi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica em escala planet\u00e1ria como resultado da influ\u00eancia humana\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#13\">[XIII]<\/a>. Indagado por Maria Guimar\u00e3es e Carlos Fioravanti, da revista da Fapesp, se, mantida a atual trajet\u00f3ria, a Amaz\u00f4nia poderia atingir esse ponto cr\u00edtico, Thomas Lovejoy respondeu: \u201cSim. N\u00e3o sabemos precisamente onde se situa esse ponto, mas creio que ele est\u00e1 em algum lugar pr\u00f3ximo do atual n\u00edvel de desmatamento\u201d. E acrescentou: \u201cA ci\u00eancia a esse respeito \u00e9 imprecisa; entretanto, a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 provavelmente pr\u00f3xima de um ponto cr\u00edtico, al\u00e9m do qual a floresta se transformar\u00e1 numa forma diferente de vegeta\u00e7\u00e3o, do tipo savana, na parte sul e leste da Amaz\u00f4nia\u201d.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m melhor que Ant\u00f4nio Donato Nobre, do INPE, descreveu a acelera\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a esse ponto cr\u00edtico na regi\u00e3o brasileira da Amaz\u00f4nia. \u00c9 preciso citar extensamente esse texto de 2014: \u201cNos \u00faltimos 40 anos, 763.000 km\u00b2 da floresta foram destru\u00eddos. Isso significa duas vezes a \u00e1rea da Alemanha. \u00c9 preciso imaginar um trator com uma l\u00e2mina de 3 metros de comprimento, evoluindo a 756 km\/h durante quarenta anos sem interrup\u00e7\u00e3o: uma esp\u00e9cie de m\u00e1quina de fim do mundo. Segundo o conjunto das estimativas, isso representa 42 bilh\u00f5es de \u00e1rvores destru\u00eddas, isto \u00e9, duas mil \u00e1rvores derrubadas por minuto ou 3 milh\u00f5es por dia. \u00c9 uma cifra dif\u00edcil de imaginar por sua monstruosidade. E aqui falamos apenas de corte raso. Raramente se evocam as florestas degradadas pelo homem, essas zonas que as fotos dos sat\u00e9lites n\u00e3o distinguem e onde n\u00e3o restam sen\u00e3o algumas \u00e1rvores que mascaram um desmatamento mais gradual. Trata-se neste caso de regi\u00f5es inteiras nas quais a floresta n\u00e3o \u00e9 mais funcional e n\u00e3o age mais como um ecossistema. Segundo os \u00edndices de degrada\u00e7\u00e3o colhidos entre 2007 e 2010, essa zona cobre 1,3 milh\u00e3o de km2, de modo que a \u00e1rea de corte raso e a de degrada\u00e7\u00e3o representam juntas cerca de dois milh\u00f5es de km2, ou seja 40% da floresta amaz\u00f4nica brasileira\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#14\">[XIV]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>O assassinato das florestas tropicais e de seus povos<\/strong><\/p>\n<p>Desde\u00a0a implanta\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo Florestal em 2012, houve um aumento de 75% do desmatamento na Amaz\u00f4nia\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#15\">[XV]<\/a>\u00a0e t\u00e3o somente de agosto de 2014 a julho de 2016, removeram-se mais 14.196 km2 da floresta amaz\u00f4nica, vale dizer, metade do que perdemos em 2004, o ano em que mais se desmatou a Amaz\u00f4nia, ou uma \u00e1rea equivalente a dois ter\u00e7os da superf\u00edcie de Sergipe. De 2012 a 2016, a alian\u00e7a de Dilma Rousseff com os desmatadores representou uma verdadeira trai\u00e7\u00e3o aos interesses populares, trai\u00e7\u00e3o cujas consequ\u00eancias n\u00e3o se fizeram esperar. Como mostrou o \u00faltimo relat\u00f3rio da\u00a0ONG inglesa,\u00a0Global Witness\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#16\">[XVI]<\/a>, entre 2010 e 2016 houve\u00a0no Brasil\u00a0200 assassinatos documentados e tipificados de camponeses, \u00edndios e ativistas, perpetrados a mando do agroneg\u00f3cio, de madeireiras e de outros interesses corporativos, sendo 49 apenas em 2016. Sob a presid\u00eancia da chapa Dilma Rousseff &#8211; Michel Temer, o Brasil conquistou e manteve uma inconteste lideran\u00e7a em assassinatos de \u00edndios, camponeses e ativistas em defesa de suas terras e da floresta\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#17\">[XVII]<\/a>, como mostra a figura 4.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_artigos_LM_grafico_04_20170807.jpg\" alt=\"Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" \/><em><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0Global Witness, \u201cOn dangerous ground\u201d, 2016<\/em><\/p>\n<p><strong>Carnivorismo, a causa final<\/strong><\/p>\n<p>Historicamente, na Amaz\u00f4nia, mais de 80% do desmatamento \u00e9 causado pela pecu\u00e1ria e a figura 6 mostra a \u00edntima correla\u00e7\u00e3o entre pecu\u00e1ria e desmatamento nessa regi\u00e3o entre 1988 e 2004.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_artigos_LM_grafico_05_20170807.jpg\" alt=\"Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" \/><\/p>\n<p id=\"2\">Um estudo recente do Imazon mostra a extrema concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da ind\u00fastria da carne na Amaz\u00f4nia: apenas 128 frigor\u00edficos, pertencentes a 99 empresas s\u00e3o respons\u00e1veis por 93% do abate anual do gado amaz\u00f4nico. E o conjunto das\u00a0regi\u00f5es de influ\u00eancia desses 128 frigor\u00edficos (isto \u00e9, as fazendas fornecedoras de animais para esses frigor\u00edficos) \u201cabrange a quase totalidade das \u00e1reas embargadas pelo Ibama e 88% do desmatamento ocorrido na Amaz\u00f4nia entre 2010 e 2015\u201d. O estudo afirma ainda que\u00a0\u201cse entre 2016 e 2018 a taxa de desmatamento recente se repetir, 90% das novas perdas de floresta estar\u00e3o dentro da \u00e1rea de influ\u00eancia de compra de 128 frigor\u00edficos&#8221;\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#18\">[XVIII]<\/a>.<\/p>\n<p id=\"3\">Jo\u00e3o Meirelles, diretor do Instituto Peabir\u00fa, vem de h\u00e1 muito demostrando que nosso carnivorismo \u00e9 a principal causa do desmatamento amaz\u00f4nico\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#19\">[XIX]<\/a>. De fato,\u00a0dado que consumimos no pa\u00eds cerca de 80% da carne bovina amaz\u00f4nica\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#20\">[XX]<\/a>\u00a0e dado que, para satisfazer a uma demanda interna anual de 30 kg\u00a0<em>per capita\u00a0<\/em>(2015), o rebanho bovino da Amaz\u00f4nia saltou de 1,5 para 64 milh\u00f5es de cabe\u00e7as, de 1964 a 2004, atingindo 85 milh\u00f5es em 2016, segue-se que somos n\u00f3s, consumidores brasileiros, a principal \u201ccausa final\u201d do desmatamento da Amaz\u00f4nia. O carnivorismo atual causa malef\u00edcios demonstr\u00e1veis \u00e0 sa\u00fade humana, sofrimentos indiz\u00edveis a esses animais musicais, delicados e muito inteligentes\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/o-ultimo-seculo-das-florestas-tropicais#21\">[XXI]<\/a>, e, enfim, \u00e9 a principal raz\u00e3o de ser da destrui\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica e do Cerrado.<\/p>\n<p id=\"4\">[I]\u00a0<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Cf. ONU, 2015,\u00a0<em>Transforming our world: the 2030 Agenda for Sustainable Development.\u00a0<\/em><\/span>Objetivo 15.<\/p>\n<p id=\"6\">[II]\u00a0H\u00e1 apenas 65 anos as florestas tropicais tornaram-se objeto de estudos sistem\u00e1ticos.\u00a0<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Cf. P. W. Richards de\u00a0<em>The Tropical Rainforest. An ecological Study<\/em>, 1952; Adrian Sommer, \u201cAttempt at an assessment of the world tropical moist forests\u201d. FAO, Committee on Forest Development in the Tropics, 1976; E. O. Wilson,\u00a0<em>The diversity of life<\/em>, 1992; Claude Martin,\u00a0<em>On the Edge<\/em>, 2015 (34o Report to the Club of Rome), com Pref\u00e1cio de Thomas Lovejoy.\u00a0<\/span>Em 2010, 562 publica\u00e7\u00f5es e 143 trabalhos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o haviam sido realizados a partir do grande experimento iniciado na Amaz\u00f4nia por Thomas Lovejoy em 1979, intitulado\u00a0<em>The Biological Dynamics of Forest Fragments Project<\/em>\u00a0(BDFFP). Em 2015, Lovejoy concedeu duas entrevistas sobre sua trajet\u00f3ria (ambas em rede) a Kevin Dennehy, \u201cLovejoy, \u2018Godfather\u2019 of Biodiversity\u201d, Reflects On 50 Years in the Amazon\u201d. Yale School of Forestry &amp; Environmental Studies, e a Maria Guimar\u00e3es e Carlos Fioravanti, \u201cFifty years in Amazon\u201d, publicada pela Revista Pesquisa FAPESP, mar\u00e7o de 2015.<\/p>\n<p id=\"7\">[III]\u00a0<a href=\"https:\/\/www.iisd.org\/sites\/default\/files\/publications\/state-fate-tropical-rainforests-commentary.pdf\"><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Cf. Scott Vaugahn,\u00a0<em>The State and Fate of Tropical Rainforests<\/em>, junho 2015.<\/span><\/a><\/p>\n<p id=\"8\">[IV]<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u00a0Cf. Rhett Butler, \u201c10 Rainforest facts for 2017\u201d. Mongabay, 2\/I\/2017.<\/span><\/p>\n<p id=\"9\">[V]<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u00a0Cf. Claude Martin,\u00a0<em>On the Edge<\/em>, 2015 (34o Report to the Club of Rome).<\/span><\/p>\n<p id=\"10\">[VI]\u00a0<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Cf. Jeff Tollefson, \u201cTropical forest losses outpace UN estimates\u201d.\u00a0<em>Nature<\/em>, 26\/II\/2015<\/span><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">, baseado em Do-Hyung Kim, Joseph O. Sexton &amp; John R. Townshend, \u201cAccelerated deforestation in the humid tropics from the 1990s to the 2000s\u201d.\u00a0<em>Geophysical Research Letters<\/em>,<em>\u00a0<\/em>7\/V\/2015.<\/span><\/p>\n<p id=\"11\">[VII]<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u00a0Cf. \u201cTropical Forest Alliance 2020 Annual Report 2015-2016 Partnering to produce deforestation-free commodities\u201d (em rede).<\/span><\/p>\n<p id=\"12\">[VIII]\u00a0Cf. Global Forest Watch Water, 30\/VIII\/2016, com dados sobre desmatamento em 230 bacias hidrogr\u00e1ficas (em rede).<\/p>\n<p id=\"13\">[IX]<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u00a0Cf. Cf. Gerald Urquhart, Walter Chomentowski, David Skole, Chris Barber, \u201cTropical deforestation\u201d. Earth Observatory (em rede); John Vidal, \u201cWe are destroying rainforests so quickliy they may be gone in 100 years\u201d.\u00a0<em>The Guardian<\/em>, 23\/I\/2017.<\/span><\/p>\n<p id=\"14\">[X]<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u00a0Cf. Peter J. Bryant,\u00a0<em>Biodiversity and Conservation. A hypertext book<\/em>, Univ. of California Irvine, 2003.<\/span><\/p>\n<p id=\"15\">[XI]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.rainforestconservation.org\/rainforest-primer\/4-case-studies-in-tropical-deforestation\/c-south-and-southeast-asia\/2-thailand\/\"><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Cf. Rainforest Conservation Fund. Thailand<\/span><\/a><\/p>\n<p id=\"16\">[XII]<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u00a0Cf. Hans ter Steege\u00a0<em>et al.\u00a0<\/em>\u201cEstimating the global conservation status of more than 15,000 Amazonian tree species\u201d.\u00a0<em>Science Advances<\/em>, 1, 10, 20\/XI\/2015.<\/span><\/p>\n<p id=\"17\">[XIII]<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u00a0Cf. Anthony D. Barnosky\u00a0<em>et al.<\/em>, \u201cApproaching a state shift in Earth\u2019s biosphere\u201d.\u00a0<\/span><em><span lang=\"FR\" xml:lang=\"FR\">Nature<\/span><\/em><span lang=\"FR\" xml:lang=\"FR\">, 486, 7\/VI\/2012, pp. 52-58.<\/span><\/p>\n<p id=\"18\">[XIV]<span lang=\"FR\" xml:lang=\"FR\">\u00a0\u201cIl faut un effort de guerre pour reboiser l\u2019Amazonie\u201d.\u00a0<\/span><em>Le Monde<\/em>, 24\/XI\/2014.<\/p>\n<p id=\"19\">[XV]\u00a0Cf. Giuliana Miranda, \u201cNovo C\u00f3digo Florestal contribuiu para aumento no desmatamento\u201d.\u00a0<em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>, 12\/12\/2016.<\/p>\n<p id=\"20\">[XVI]<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">\u00a0Cf. Global Witness,\u00a0<em>Defenders of the Earth. Global killings of land and environmental defenders<\/em>, julho de 2017.<\/span><\/p>\n<p id=\"21\">[XVII]\u00a0Cf. \u201cDurante cinco anos seguidos, Brasil \u00e9 o pa\u00eds mais perigoso para ambientalistas\u201d.<em>Gest\u00e3o p\u00fablica eficiente<\/em>, 13\/VII\/2017.<\/p>\n[XVIII]\u00a0Cf. Eduardo Pegurier, \u201cComo o bife no seu prato explica o desmatamento na Amaz\u00f4nia\u201d.\u00a0<em>El Pa\u00eds<\/em>, 17\/VII\/2017.<\/p>\n[XIX]\u00a0Cf. Jo\u00e3o Meirelles, \u201cVoc\u00ea j\u00e1 comeu a Amaz\u00f4nia hoje?\u201d (em rede).<\/p>\n[XX]\u00a0\u201cPecu\u00e1ria \u00e9 respons\u00e1vel por mais de 80% do desmatamento no Brasil\u201d,\u00a0<em>Amaz\u00f4nia<\/em>, 6\/IX\/2016 (em rede).<\/p>\n[XXI]\u00a0Cf. Carolyn Gregoire, \u201cCows Are Way More Intelligent Than You Probably Thought\u201d.\u00a0<em>Huffington Post<\/em>, 28\/VII\/2015.<\/p>\n<p>Luiz Marques\u00a0\u00e9 professor livre-docente do Departamento de Hist\u00f3ria do IFCH \/Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari,\u00a0<i>Vida de Michelangelo\u00a0<\/i>(1568), 2011 e\u00a0<i>Capitalismo e Colapso ambiental<\/i>, 2015, 2a edi\u00e7\u00e3o, 2016. Coordena a cole\u00e7\u00e3o Palavra da Arte, dedicada \u00e0s fontes da historiografia art\u00edstica, e participa com outros colegas do coletivo\u00a0<i>Cris\u00e1lida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate &amp; Atualiza\u00e7\u00e3o<\/i>.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Jornal da UNICAMP de 07 de agosto de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAs florestas s\u00e3o o lar de mais de 80% de todas as esp\u00e9cies terrestres\u201d\u00a0[I].\u00a0A maior parte dessa biodiversidade concentra-se nas florestas tropicais\u00a0[II]. 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