{"id":21037,"date":"2017-09-02T09:00:09","date_gmt":"2017-09-02T12:00:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=21037"},"modified":"2017-08-30T10:52:21","modified_gmt":"2017-08-30T13:52:21","slug":"o-po-de-fadas-da-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-po-de-fadas-da-amazonia\/","title":{"rendered":"O p\u00f3 de fadas da Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2014\/08\/14\/planeta_futuro\/1408010925_555437_1408642980_noticia_normal.jpg\" alt=\"O cientista brasileiro Antonio Nobre.\" width=\"938\" height=\"536\" \/><em><span class=\"foto-texto\">O cientista brasileiro Antonio Nobre.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">PABLO CORREA<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p>Ele foi o primeiro a falar no III Encontro Panamaz\u00f4nico realizado em Lima, nos dias 6 e 7 de agosto. Tem um discurso apaixonado e uma qualidade um tanto rara para um cientista: sabe combinar dados com hist\u00f3rias, explica\u00e7\u00e3o com emo\u00e7\u00e3o. Antonio Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (INPA), conta nesta conversa qual \u00e9 a m\u00e1gica da Amaz\u00f4nia, em que consistem seus segredos e por que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e o desmatamento a amea\u00e7am seriamente&#8230;<\/p>\n<p><strong>&#8211; J\u00e1 estamos no \u2018Dia depois de amanh\u00e3\u2019 das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/strong>\u00a0Estamos em uma situa\u00e7\u00e3o bastante grave. A ponto de a comunidade cient\u00edfica, que n\u00e3o costuma concordar entre si, ter formado um bloco com uma convic\u00e7\u00e3o homog\u00eanea sobre o assunto. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o s\u00e3o mais s\u00f3 uma proje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>&#8211; E como essa situa\u00e7\u00e3o de gravidade se manifesta na Amaz\u00f4nia?<\/strong>\u00a0No desmatamento, que remove a capacidade de a floresta se manter. Ela conseguiu se manter por milh\u00f5es de anos, em condi\u00e7\u00f5es adversas. Mas hoje sua capacidade est\u00e1 reduzida. Antes havia duas esta\u00e7\u00f5es na Amaz\u00f4nia, a \u00famida e a mais \u00famida.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Que eram facilmente reconhec\u00edveis.<\/strong>\u00a0Agora temos uma esta\u00e7\u00e3o \u00famida moderada e uma esta\u00e7\u00e3o seca. E a seca tem um efeito muito perverso. Porque quando n\u00e3o chove as \u00e1rvores se tornam inflam\u00e1veis. O fogo entra e j\u00e1 n\u00e3o existe mais uma floresta tropical.<\/p>\n<p><strong>Os jatos verticais e o\u00a0p\u00f3 de fadas<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Apesar de tudo, a Amaz\u00f4nia ainda guarda cinco segredos.<\/strong>\u00a0\u00c9 algo que os povos ind\u00edgenas sempre souberam e que a nossa civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o percebeu. Mas, nos \u00faltimos 30 anos, a Ci\u00eancia revelou esses cinco segredos. O primeiro \u00e9 como a floresta Amaz\u00f4nia mant\u00e9m a atmosfera \u00famida mesmo estando a 3.000 quil\u00f4metros do oceano&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/01jYiXbpnoE\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>&#8211; &#8230;E fazer com a que a chuva chegue at\u00e9 a Patag\u00f4nia.<\/strong>\u00a0E aos Andes, por 3.000 ou quase 4.000 quil\u00f4metros. Outras partes do mundo que est\u00e3o longe do oceano, como o deserto do Saara, n\u00e3o recebem \u00e1gua. Mas na Am\u00e9rica do Sul n\u00e3o h\u00e1 esse problema, e isso se deve ao primeiro segredo: os jatos de \u00e1gua verticais.<\/p>\n<p><strong>&#8211; E qual \u00e9 o segredo desse segredo?<\/strong>\u00a0\u00c9 que as \u00e1rvores da Amaz\u00f4nia s\u00e3o bombas que lan\u00e7am no ar 1.000 litros de \u00e1gua por dia. Elas a retiram do solo, a evaporam e a transferem para a atmosfera. A floresta amaz\u00f4nica inteira coloca 20 bilh\u00f5es de toneladas de \u00e1gua na atmosfera a cada dia. O rio Amazonas, o mais volumoso do mundo, joga no Atl\u00e2ntico 17 bilh\u00f5es de toneladas de \u00e1gua doce no mesmo intervalo de tempo.<\/p>\n<p><strong>&#8211; \u00c9 incr\u00edvel. Como isso foi descoberto?<\/strong>\u00a0Fazendo medi\u00e7\u00f5es. Com torres de estudo, com sat\u00e9lites que detectavam esse transporte de vapor d\u2019\u00e1gua, que \u00e9 um vapor invis\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Produzido pelas \u00e1rvores quase que por magia.<\/strong>\u00a0A magia vem no segundo segredo. Como \u00e9 poss\u00edvel que caia tanta chuva, se o ar da Amaz\u00f4nia \u00e9 t\u00e3o limpo, j\u00e1 que o tapete verde cobre o solo? O oceano tamb\u00e9m ter um ar limpo, mas n\u00e3o chove muito sobre ele. N\u00f3s, cientistas, desvendamos um mist\u00e9rio.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Qual?<\/strong>\u00a0Para formar uma nuvem de chuva, que s\u00e3o gotas de \u00e1gua em suspens\u00e3o, \u00e9 preciso transformar o vapor baixando a temperatura. Mas se voc\u00ea n\u00e3o tem uma superf\u00edcie de part\u00edculas, s\u00f3lida ou l\u00edquida, para gerar essas nuvens, o processo n\u00e3o come\u00e7a.<\/p>\n<p><em>\u201cA floresta amaz\u00f4nica coloca 20.000 milh\u00f5es de toneladas de \u00e1gua na atmosfera por dia\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8211; Ent\u00e3o o que \u00e9 que a floresta faz?<\/strong>Produz o que chamamos de\u00a0<em>p\u00f3 de fadas<\/em>. S\u00e3o gases que saem das \u00e1rvores e que se oxidam na atmosfera \u00famida para precipitar um p\u00f3 fin\u00edssimo que \u00e9 muito eficiente para formar chuva.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Parece uma f\u00e1bula.<\/strong>\u00a0\u00c9 que a floresta manipula a atmosfera constantemente e produz chuvas para si pr\u00f3pria, uma coisa quase m\u00e1gica. Os gases saem das \u00e1rvores. S\u00e3o como perfumes e se volatilizam.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Uma esp\u00e9cie de grande fragr\u00e2ncia sustent\u00e1vel.<\/strong>\u00a0\u00c9 um oceano verde, diferente do azul. O azul n\u00e3o tem esse mecanismo porque carece de \u00e1rvores. Tem as algas, que produzem um pouco, mas n\u00e3o como o verde.<\/p>\n<p><strong>A bomba natural e os rios voadores<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Vamos ao terceiro segredo.<\/strong>\u00a0Vamos. Na Amaz\u00f4nia, o ar que vem do hemisf\u00e9rio norte cruza do Equador, entra e vai at\u00e9 a Patag\u00f4nia. At\u00e9 l\u00e1 chega esse ar \u00famido, que vem do Atl\u00e2ntico equatorial.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Com os ventos al\u00edsios.<\/strong>\u00a0Sim, com os ventos al\u00edsios que trouxeram as caravelas dos europeus, h\u00e1 500 anos. Mas os al\u00edsios do oceano sul sopram para o norte. O que faz esses ventos irem contra a tend\u00eancia de circula\u00e7\u00e3o global? Dois f\u00edsicos russos com quem eu colaboro responderam a essa pergunta ao estudar o efeito do vapor dos jorros verticais amaz\u00f4nicos.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Mais uma vez os jatos verticais.<\/strong>\u00a0Eles descobriram que, pela f\u00edsica fundamental dos gases, essas condensa\u00e7\u00f5es de vapor puxam o ar dos oceanos para dentro do continente e criam uma esp\u00e9cie de buraco de \u00e1gua. \u00c9 como uma bomba natural. A floresta traz sua pr\u00f3pria umidade do oceano.<\/p>\n<p><em>\u201cOnde h\u00e1 florestas n\u00e3o h\u00e1 seca, nem excesso de \u00e1gua, nem furac\u00f5es, nem tornados. \u00c9 como uma ap\u00f3lice de seguros\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8211; E ainda tem mais&#8230;<\/strong>\u00a0O quarto segredo \u00e9 a transfer\u00eancia dessa umidade amaz\u00f4nica para outras regi\u00f5es: os Andes no Peru, os p\u00e1ramos da Col\u00f4mbia&#8230; Se voc\u00ea olhar o mapa do mundo, vai descobrir que existe um cintur\u00e3o \u00famido que passa pelo Equador, pela \u00c1frica e pelo sudeste asi\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>&#8211; \u00c9 a linha do Equador.<\/strong>\u00a0Sim, mas \u00e9 na linha dos tr\u00f3picos, o de C\u00e2ncer ao norte e o de Capric\u00f3rnio, ao sul, que est\u00e3o todos os desertos. O do Atacama, no Chile, o da Nam\u00edbia, na \u00c1frica. Mas essa \u00e1rea que concentra 70% do PIB da Am\u00e9rica do Sul &#8211; que vai de Cuiab\u00e1 a Buenos Aires, de S\u00e3o Paulo aos Andes \u2013 \u00e9 \u00famida! Apesar de estar na linha dos desertos.<\/p>\n<p><strong>&#8211; E qual o mist\u00e9rio dessa \u00e1rea?<\/strong>\u00a0Chama-se\u00a0<em>rios voadores<\/em>. \u00c9 uma grande massa de ar \u00famido bombeada pela Amaz\u00f4nia contra os Andes, que s\u00e3o uma parede de mais de 6.000 metros de altura. \u00c9 assim que essa massa chega a \u00e1reas onde deveria haver deserto. Por isso chove na Bol\u00edvia e no Paraguai.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Falta, finalmente, o quinto segredo<\/strong>. O quinto segredo \u00e9 que, se voc\u00ea colocar em um gr\u00e1fico todos os furac\u00f5es que j\u00e1 aconteceram na hist\u00f3ria \u2013 e a NASA j\u00e1 fez isso \u2013 na regi\u00e3o das florestas equatoriais n\u00e3o h\u00e1 nenhum deles. E essa regi\u00e3o \u00e9 a que tem mais energia porque a radia\u00e7\u00e3o solar \u00e9 muito intensa.<\/p>\n<p><em>\u201cO sistema terrestre \u00e9 um organismo e est\u00e1 muito doente&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8211; Deveria haver ciclones, como na \u00cdndia e no Paquist\u00e3o.<\/strong>\u00a0Eles n\u00e3o existem porque o topo da floresta, onde est\u00e3o as copas das \u00e1rvores, \u00e9 \u00e1spero e faz com que os ventos sejam obrigados a dissipar sua energia, o que acalma a atmosfera.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Mas ocorrem tempestades.<\/strong>\u00a0Claro, mas elas n\u00e3o costumam ser destruidoras. Onde h\u00e1 florestas n\u00e3o h\u00e1 secas, nem excesso de \u00e1gua, nem furac\u00f5es, nem tornados. \u00c9 como uma ap\u00f3lice de seguros contra os fen\u00f4menos atmosf\u00e9ricos extremos.<\/p>\n<p><strong>A guerra contra a ignor\u00e2ncia<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Agora esses cinco segredos est\u00e3o em risco&#8230;<\/strong>\u00a0O problema se chama desmatamento. Se tirarem a metade do f\u00edgado de um b\u00eabado, vai ser dif\u00edcil para ele lidar com o \u00e1lcool. \u00c9 isso o que est\u00e1 acontecendo com a Amaz\u00f4nia. Estamos retirando um \u00f3rg\u00e3o do sistema terrestre.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Ent\u00e3o a Amaz\u00f4nia n\u00e3o \u00e9 o pulm\u00e3o, mas sim o f\u00edgado do planeta?<\/strong>\u00a0\u00c9 o pulm\u00e3o, o f\u00edgado, o cora\u00e7\u00e3o&#8230; \u00c9 tudo! Essa bomba natural da qual falei \u00e9 um cora\u00e7\u00e3o que pulsa constantemente. O p\u00f3 de fadas tamb\u00e9m funciona como uma vassoura qu\u00edmica contra subst\u00e2ncias poluentes, como o \u00f3xido de enxofre. O melhor ar \u00e9 o da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>&#8211; E, apesar disso, continuamos destruindo a floresta.<\/strong>\u00a0Se voc\u00ea chega com uma motosserra, com um trator ou com fogo, a Amaz\u00f4nia n\u00e3o pode se defender. As interven\u00e7\u00f5es do homem podem ser ben\u00e9ficas, como na medicina, mas tamb\u00e9m terr\u00edveis, como a motosserra. Por isso eu proponho um esfor\u00e7o de guerra.<\/p>\n<p><strong>&#8211; No que consistiria esse esfor\u00e7o?<\/strong>\u00a0Seria uma concentra\u00e7\u00e3o de for\u00e7as para resolver um problema que amea\u00e7a tudo. Hoje a ci\u00eancia nos permite saber que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 grav\u00edssima. E o que eu proponho \u00e9 lutar contra a ignor\u00e2ncia, o principal motivo da destrui\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Parece que as prioridades mundiais s\u00e3o outras.<\/strong>\u00a0Em 2008, os bancos foram salvos em 15 dias. Foram gastos trilh\u00f5es de d\u00f3lares nisso. A crise financeira n\u00e3o \u00e9 nada comparada \u00e0 crise ambiental.<\/p>\n<p><em>\u201cA ci\u00eancia hoje nos permite saber que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 grav\u00edssima. Temos que lutar contra a ignor\u00e2ncia\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8211; O que est\u00e1 acontecendo? Estamos embriagados com a civiliza\u00e7\u00e3o?<\/strong>\u00a0\u00c9 uma embriaguez primitiva. Quando voc\u00ea vai ao m\u00e9dico e ele diz que voc\u00ea tem uma doen\u00e7a em est\u00e1gio avan\u00e7ado, o que voc\u00ea faz? Continua fumando? O sistema terrestre \u00e9 um organismo e est\u00e1 muito doente. A parte contaminante \u00e9 a parte mais degenerada do ser humano.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Podemos curar a Amaz\u00f4nia dessa doen\u00e7a?<\/strong>\u00a0Eu acredito que se tivermos uma capacidade semelhante \u00e0 que tivemos para salvar os bancos, sim. Porque a floresta tem um poder de regenera\u00e7\u00e3o impressionante.<\/p>\n<p><strong>&#8211; E, al\u00e9m disso, ela deveria ser importante para todo o mundo.<\/strong>\u00a0A atmosfera tem uma coisa chamada teleconex\u00f5es. Um modelo clim\u00e1tico pode demonstrar que as mudan\u00e7as na Amaz\u00f4nia v\u00e3o afetar os ciclones na Indon\u00e9sia.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Ent\u00e3o, o maior segredo \u00e9 acordar&#8230;<\/strong>\u00a0E saber que o que fazemos agora \u00e9 determinante. As gera\u00e7\u00f5es posteriores v\u00e3o sofrer com as m\u00e1s escolhas de hoje. A gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 na Terra hoje tem nas m\u00e3os os comandos de um trem que pode ir para o abismo ou uma oportunidade para se viver muito mais.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Ramiro Escobar La Cruz, El Pa\u00eds de 23 de agosto de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cientista brasileiro Antonio Nobre.\u00a0PABLO CORREA Ele foi o primeiro a falar no III Encontro Panamaz\u00f4nico realizado em Lima, nos dias 6 e 7 de agosto. Tem um discurso apaixonado e uma qualidade um tanto rara para um cientista: sabe combinar dados com hist\u00f3rias, explica\u00e7\u00e3o com emo\u00e7\u00e3o. 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