{"id":21221,"date":"2017-10-09T13:00:51","date_gmt":"2017-10-09T16:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=21221"},"modified":"2017-09-27T10:42:30","modified_gmt":"2017-09-27T13:42:30","slug":"a-ciencia-brasileira-ainda-brilha-por-enquanto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-ciencia-brasileira-ainda-brilha-por-enquanto\/","title":{"rendered":"A ci\u00eancia brasileira ainda brilha. Por enquanto\u2026"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/ciencia.estadao.com.br\/blogs\/herton-escobar\/wp-content\/uploads\/sites\/81\/2017\/09\/foto-1-1024x683.jpg\" \/><em>Instala\u00e7\u00f5es brasileiras na Ilha de Trindade, um dos locais estudados pelos cientistas no trabalho de\u00a0capa da Nature. Foto: Wilton Junior\/Estad\u00e3o \u2013\u00a0<a href=\"http:\/\/infograficos.estadao.com.br\/politica\/ilha-de-trindade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Especial Ilha de Trindade<\/a><\/em><\/p>\n<p class=\"n--noticia__subtitle\"><strong>Pesquisas publicadas em revistas de prest\u00edgio internacional mostram o que a ci\u00eancia brasileira vai deixar de produzir no futuro, se as dificuldades or\u00e7ament\u00e1rias do presente n\u00e3o forem resolvidas com urg\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>A ci\u00eancia brasileira brilhou no cen\u00e1rio internacional nesse \u00faltimo feriado. Em pleno 7 de setembro, uma pesquisa\u00a0<em>made in Brazil\u00a0<\/em>foi\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nature.com\/nature\/current_issue.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">capa<\/a>\u00a0de uma das mais importantes publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas do planeta: a revista\u00a0<em>Nature<\/em>.<\/p>\n<p>Ilustrado por uma imagem a\u00e9rea do arquip\u00e9lago de Martin Vaz \u2014 as ilhas mais distantes da costa brasileira, a 1.200 km do litoral capixaba \u2014, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nature.com\/nature\/journal\/v549\/n7670\/full\/nature23680.html?foxtrotcallback=true#affil-auth\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">trabalho<\/a>\u00a0faz uma elucida\u00e7\u00e3o pioneira dos processos evolutivos que controlam a composi\u00e7\u00e3o e a diversifica\u00e7\u00e3o da biodiversidade marinha de peixes em ilhas oce\u00e2nicas e montes submarinos.<\/p>\n<p>Se esse n\u00e3o \u00e9 um tema pelo qual voc\u00ea se interessa com tanta profundidade, n\u00e3o tem problema. Basta saber que o estudo foi muito bem feito e considerado importante o suficiente para ilustrar a capa daquela que \u00e9, historicamente, a revista de maior prest\u00edgio da ci\u00eancia mundial. Nada mal, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>E n\u00e3o foi s\u00f3 isso. Tamb\u00e9m na semana passada, foi publicada na revista\u00a0<em>Scientific Reports<\/em>um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-017-11024-3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estudo brasileiro<\/a>\u00a0mostrando o que acontece com c\u00e9lulas pulmonares expostas \u00e0 polui\u00e7\u00e3o gerada por queimadas na Amaz\u00f4nia. N\u00e3o \u00e9 nada, nada bom.<\/p>\n<p>A\u00a0<em>Scientific Reports<\/em>\u00a0\u00e9 uma revista mais nova do grupo Nature, lan\u00e7ada em 2011, na qual cientistas brasileiros v\u00eam publicando com regularidade nos \u00faltimos anos. E isso \u00e9 muito, muito bom.<\/p>\n<p><strong>Choror\u00f4?<\/strong><\/p>\n<p>Mas e aquela hist\u00f3ria de a ci\u00eancia brasileira est\u00e1 em crise, sem dinheiro, com institutos de pesquisa e universidades a um passo de fecharem as portas? Se isso \u00e9 verdade, como \u00e9 poss\u00edvel que cientistas brasileiros estejam publicando trabalhos nas melhores revistas do mundo? Ser\u00e1 que tudo n\u00e3o passa de choror\u00f4 dos pesquisadores querendo mais dinheiro?<\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o. A triste verdade \u00e9 que esses e outros estudos de alto impacto que est\u00e3o sendo publicados agora s\u00e3o resultados de pesquisas iniciadas v\u00e1rios anos atr\u00e1s, quando o n\u00edvel de financiamento da ci\u00eancia brasileira ainda era bom \u2014 n\u00e3o o ideal, claro, mas suficiente para atender \u00e0s demandas mais qualificadas da comunidade cient\u00edfica nacional. S\u00e3o exemplos de uma situa\u00e7\u00e3o positiva do passado, que n\u00e3o existe mais; uma amostra do\u00a0potencial desperdi\u00e7ado, de resultados que o Brasil vai perder a capacidade de produzir daqui para frente, por falta de investimentos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/ciencia.estadao.com.br\/blogs\/herton-escobar\/wp-content\/uploads\/sites\/81\/2017\/09\/CVT.001-1024x421.jpeg\" \/><em>Capa de Nature de 7\/9\/2017 e imagem do Google Earth, mostrando a localiza\u00e7\u00e3o das ilhas e montes submarinos que foram tema do estudo (Cadeia Vit\u00f3ria-Trindade). A seta mostra a localiza\u00e7\u00e3o do Arquip\u00e9lago de Martin Vaz, que aparece na foto da capa. Cr\u00e9dito: Nature\/Reprodu\u00e7\u00e3o e Herton Escobar\/Estad\u00e3o, via Google Earth<\/em><\/p>\n<p>A pesquisa que virou capa da\u00a0<em>Nature<\/em>, por exemplo, foi iniciada sete anos atr\u00e1s, em 2010, e financiada quase que totalmente por tr\u00eas editais do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq) \u2014 a principal ag\u00eancia de fomento \u00e0 ci\u00eancia do governo federal, que hoje est\u00e1 \u00e0\u00a0<a href=\"http:\/\/ciencia.estadao.com.br\/blogs\/herton-escobar\/cnpq-atinge-teto-orcamentario-e-pagamento-de-bolsas-pode-ser-suspenso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">beira da fal\u00eancia<\/a>\u00a0\u2014, e alguns recursos complementares da Funda\u00e7\u00e3o O Botic\u00e1rio. O autor principal do estudo, Hudson Pinheiro, \u00e9 professor associado da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo (UFES) e pesquisador associado da Academia de Ci\u00eancias da Calif\u00f3rnia, nos EUA, onde fez seu doutorado entre 2013 e 2016, gra\u00e7as a uma bolsa do programa Ci\u00eancia sem Fronteiras, sob orienta\u00e7\u00e3o do tamb\u00e9m brasileiro Luiz Rocha. Outros dois autores, Thiony Simon e Raphael Macieira, foram bolsistas da Capes, a ag\u00eancia de fomento do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o \u2014 que tamb\u00e9m passa por um\u00a0<a href=\"http:\/\/ciencia.estadao.com.br\/blogs\/herton-escobar\/capes-perde-r-1-bilhao-por-ano-e-pode-sofrer-novo-corte-em-2018\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">sufoco or\u00e7ament\u00e1rio<\/a>\u00a0de grandes propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A pesquisa toda custou cerca de R$ 350 mil, ao longo de v\u00e1rios anos, e dificilmente poderia ser realizada hoje \u2014 considerando que o or\u00e7amento de aux\u00edlio \u00e0 pesquisa\u00a0do CNPq est\u00e1\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cnpq.br\/painel-de-investimentos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">reduzido a quase zero<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Cuidado que vai dar zika \u2026<\/strong><\/p>\n<p>Claro que nesse ponto voc\u00ea tem o direito de perguntar: E da\u00ed? Eu n\u00e3o ligo a m\u00ednima para a evolu\u00e7\u00e3o dos peixes nem respiro fuma\u00e7a da Amaz\u00f4nia. Ent\u00e3o, qual a import\u00e2ncia de pesquisar isso?<\/p>\n<p>Pois bem; vamos dar um exemplo um pouco mais pr\u00e1tico ent\u00e3o:<\/p>\n<p>Em 2016, foram cientistas brasileiros os primeiros no mundo a identificar, confirmar e explicar a rela\u00e7\u00e3o entre o v\u00edrus da zika e a microcefalia, por meio de pesquisas realizadas em car\u00e1ter emergencial e publicadas nas melhores revistas cient\u00edficas do mundo, como\u00a0<em>Nature<\/em>,\u00a0<em>Science<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Lancet<\/em>.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia brasileira j\u00e1 estava mal das pernas naquele momento, financeiramente falando (o or\u00e7amento est\u00e1 em queda desde 2013). Mas \u00e9 importante lembrar que esses resultados imediatos tamb\u00e9m s\u00e3o fruto de um investimento muito mais antigo e consistente, em diversas institui\u00e7\u00f5es (como a Fiocruz e v\u00e1rias universidades), que foram capacitadas cient\u00edfica e tecnologicamente, ao longo de v\u00e1rios anos, para desenvolver pesquisas sobre dengue, febre amarela e outras arboviroses (doen\u00e7as transmitidas por insetos, coisa que n\u00e3o falta no Brasil), pelo CNPq, Fapesp, Faperj e outras ag\u00eancias de fomento federais e estaduais.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a mesma pergunta feita sobre a evolu\u00e7\u00e3o da biodiversidade de ilhas oce\u00e2nicas (\u201cQuem se importa?\u201d) poderia ser feita sobre o v\u00edrus da zika alguns anos atr\u00e1s. O cientista que liderou os esfor\u00e7os de pesquisa em S\u00e3o Paulo no ano passado \u2014 o virologista Paolo Zanotto, do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da USP \u2014, por exemplo, j\u00e1 estudava o v\u00edrus da zika h\u00e1 20 anos, desde muito antes de ele se tornar uma amea\u00e7a \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica. Dez anos atr\u00e1s, portanto, algu\u00e9m poderia facilmente olhar para a\u00a0pesquisa dele e classific\u00e1-la como\u00a0um desperd\u00edcio de recursos p\u00fablicos: Pra qu\u00ea gastar dinheiro estudando um v\u00edrus que n\u00e3o causa problema nenhum a ningu\u00e9m?<\/p>\n<p>Nem precisa mais responder, n\u00e3o \u00e9? Todo conhecimento \u00e9 importante, seja para combater uma doen\u00e7a, seja para conservar a biodiversidade dos oceanos. N\u00e3o existe intelig\u00eancia sem informa\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o valor insubstitu\u00edvel da pesquisa b\u00e1sica, que \u00e9 feita nas universidades e depende quase que integralmente de recursos p\u00fablicos para sobreviver.<\/p>\n<p><strong>E agora?<\/strong><\/p>\n<p>A pergunta que n\u00e3o quer calar agora \u00e9: Se a epidemia de zika acontecesse agora, em 2017-2018, ser\u00e1 que a nossa ci\u00eancia teria a mesma capacidade de resposta que teve em 2015-2016? E daqui cinco anos? Pode ser que sim, por se tratar de uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica t\u00e3o impactante \u2014 o governo tiraria dinheiro de algum lugar. Mas pode ser que n\u00e3o. Talvez tiv\u00e9ssemos que esperar que outros pa\u00edses solucionassem o problema para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Recursos humanos qualificados para fazer ci\u00eancia n\u00f3s temos, sem d\u00favida nenhuma. Infraestrutura, tamb\u00e9m. Mas sem dinheiro, n\u00e3o h\u00e1 m\u00e1quina nem c\u00e9rebro que funcione.<\/p>\n<p>Os efeitos mais nefastos desse desmonte or\u00e7ament\u00e1rio da ci\u00eancia brasileira s\u00f3 ser\u00e3o sentidos daqui alguns anos; quando abrirmos as revistas cient\u00edficas internacionais e n\u00e3o encontrarmos mais os nomes de cientistas nem de institui\u00e7\u00f5es brasileiras em suas p\u00e1ginas, porque os estudos pioneiros que deveriam estar come\u00e7ando agora n\u00e3o ser\u00e3o mais feitos. Quando precisarmos de biom\u00e9dicos, bi\u00f3logos, ge\u00f3logos, ocean\u00f3grafos ou engenheiros de qualidade para pesquisar e buscar solu\u00e7\u00f5es para os diversos problemas do pa\u00eds, mas n\u00e3o encontrarmos nenhum, porque os que eram bons j\u00e1 se aposentaram, e os que deveriam estar se formando agora resolveram fazer outra coisa, ou ir embora do pa\u00eds, porque a ci\u00eancia brasileira, de repente, parece ser uma carreira sem futuro. E a\u00ed j\u00e1 ser\u00e1 tarde demais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/ciencia.estadao.com.br\/blogs\/herton-escobar\/wp-content\/uploads\/sites\/81\/2017\/09\/Palestra_Zika_MuseudaVida.008-1024x768.jpeg\" \/><em>Imagem feita com microsc\u00f3pio de duas c\u00e9lulas-tronco neuronais humanas infectadas pelo v\u00edrus da zika. Em vermelho, as prote\u00ednas do v\u00edrus, marcadas pela t\u00e9cnica de imunocitoqu\u00edmica. Em azul, os n\u00facleos das c\u00e9lulas. Imagem de mais uma pesquisa brasileira de alto impacto. Foto: Erick Loiola e Pablo Trindade\/IDOR<\/em><\/p>\n<p>Fonte &#8211; Herton Escobar, O Estado de S. Paulo de 11 de setembro de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Instala\u00e7\u00f5es brasileiras na Ilha de Trindade, um dos locais estudados pelos cientistas no trabalho de\u00a0capa da Nature. 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