{"id":21382,"date":"2017-09-27T11:00:05","date_gmt":"2017-09-27T14:00:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=21382"},"modified":"2017-09-27T10:48:18","modified_gmt":"2017-09-27T13:48:18","slug":"o-que-esta-por-tras-do-ambientalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-que-esta-por-tras-do-ambientalismo\/","title":{"rendered":"O que est\u00e1 por tr\u00e1s do ambientalismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/5\/4279\/35445173245_26300780c0_b.jpg\" \/><em><a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/150500485@N06\/\">newsworld_co<\/a><\/em><\/p>\n<p>O foco deste artigo \u00e9 demonstrar que al\u00e9m de uma necessidade b\u00e1sica e um direito fundamental, o meio ambiente ecologicamente equilibrado \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o \u00e9tica e fala muito sobre nossa pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o como seres humanos.<\/p>\n<p>O ser humano s\u00f3 \u00e9 ser humano, pois consegue pensar em si como tal, as capacidades de pensamento e de percep\u00e7\u00e3o trazem ao homem sua consci\u00eancia, permitindo colocar a si mesmo, seus iguais, bem como todos os elementos da natureza e elementos intelig\u00edveis (elementos da ideia), na linha espa\u00e7o temporal.<\/p>\n<p>Esse pensamento prim\u00e1rio, compreende que o homem se relaciona com tr\u00eas realidades: infra-humana, onde \u00e9 capaz de diferenciar-se dos animais, e percebe sua natureza; Humana, reconhece o seu semelhante, se v\u00ea como igual (no aspecto f\u00edsico e ps\u00edquico) e a sobre-humana, onde busca pela espiritualidade, pela explica\u00e7\u00e3o dos fatos pela metafisica, pelo absoluto.<\/p>\n<p>Da idealiza\u00e7\u00e3o do homem como homem, at\u00e9 os dias atuais, passamos por in\u00fameras mudan\u00e7as, constru\u00edmos, destru\u00edmos, criamos, matamos, fomos al\u00e9m, talvez, da pr\u00f3pria programa\u00e7\u00e3o que a natureza nos deu, vindo a nos tornarmos seres ilimitados.<\/p>\n<p>Todo esse processo infindo de evolu\u00e7\u00e3o acontece principalmente por uma caracter\u00edstica fundamental: n\u00f3s conseguimos expressar nosso pensamento, atrav\u00e9s da linguagem e principalmente, conseguimos refletir e acessar o mecanismo da consci\u00eancia e da raz\u00e3o sobre nossos atos.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 um dos elementos que nos faz sermos diferentes do animal selvagem. Diferencia-nos at\u00e9 mesmo do \u201cbom selvagem\u201d prelecionado por Rousseau (A Origem da Desigualdade entre os homens \u2013 Lafonte, 2012): Despojando este ser assim constitu\u00eddo de todos os dons sobrenaturais que pudesse ter recebido e de todas as faculdades artificiais que pudesse ter adquirido somente ap\u00f3s longos progressos; [&#8230;] vejo um animal menos forte que uns, menos \u00e1gil que outros, mas, em seu conjunto, mais vantajosamente organizado que todos eles [&#8230;]\u201d.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Percebemos, destarte, que, como seres racionais, passamos a buscar evolu\u00e7\u00e3o mediante nossas a\u00e7\u00f5es, e que mesmo um simples gesto de cumprimento \u00e9 dotado de racionalidade, e como veremos, tem um sentido que busca, mesmo que tacitamente, evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o fil\u00f3sofo racionalista Immanuel Kant, vemos, em sua Cr\u00edtica \u00e0 Raz\u00e3o Pura, certa defini\u00e7\u00e3o de racionalidade, de onde podemos nos embasar para melhor esclarecimento sobre o tema:<\/p>\n<p><em>\u201cTodo o nosso conhecimento come\u00e7a pelos sentidos, da\u00ed passa ao entendimento e termina na raz\u00e3o, acima da qual nada se encontra em n\u00f3s mais elevado que elabore a mat\u00e9ria da intui\u00e7\u00e3o e a traga \u00e0 mais alta unidade do pensamento.\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/em><\/p>\n<p>Portanto, a Racionalidade faz parte do inicio da humanidade, estando presente no pensamento, est\u00e1 dentro do homem enquanto seus pensamentos idiossincr\u00e1ticos e est\u00e1 presente na comunica\u00e7\u00e3o indiv\u00edduo-indiv\u00edduo, indiv\u00edduo-comunidade.<\/p>\n<p>Uma vez que nos utilizamos de nossa racionalidade, fica-nos cada vez mais aclarada a necessidade da intera\u00e7\u00e3o, assim, produzindo legitima\u00e7\u00e3o para os atos, decis\u00f5es e desenvolvimentos cultural, mediante o conv\u00edvio. As a\u00e7\u00f5es racionais s\u00e3o aquelas dotadas de sentido, embasadas em um racioc\u00ednio teleol\u00f3gico, mas que tamb\u00e9m se preocupa com o desenvolvimento do processo empregado para atingir o determinado fim.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria e o desenvolvimento do trato ao meio ambiente at\u00e9 sua evolu\u00e7\u00e3o de fato a uma ci\u00eancia jur\u00eddica (Direito Ambiental) serve de base epistemol\u00f3gica, por\u00e9m a inten\u00e7\u00e3o deste Artigo \u00e9 demonstrar que ao longo dos tempos, a preocupa\u00e7\u00e3o com as fontes natural e artificial, entendendo as naturais aquelas fornecidas pela natureza e as artificiais aquelas constru\u00eddas pelo homem; levaram s\u00e9culos para se tornarem objeto de direito.<\/p>\n<p>Na data do ano de 1941, em fun\u00e7\u00e3o de um lit\u00edgio que ocorreu entre os Estados Unidos e o Canad\u00e1, nomeado Fundi\u00e7\u00e3o Trail, no qual foi protocolada uma queixa contra o Governo canadense \u00e0 Comiss\u00e3o Mista Internacional, argumentando-se ao longo de seu teor que uma respectiva empresa subordinada a este pa\u00eds polu\u00eda \u00e1reas do territ\u00f3rio dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es levaram a um relat\u00f3rio que condenava a empresa canadense, estabelecendo multas pelos danos ambientais causados. Ap\u00f3s o Governo do Canad\u00e1, alegar agress\u00e3o a sua soberania ficou celebrado a realiza\u00e7\u00e3o de uma Conven\u00e7\u00e3o em Ottawa, pela qual ficou pactuou-se a jurisdi\u00e7\u00e3o de um Tribunal Arbitral em Washington, o qual passado uma d\u00e9cada do fato pronunciou senten\u00e7a a favor do pleiteado pelo Governo americano.<\/p>\n<p>Para as origens mais remotas do Direito Ambiental Internacional, esta decis\u00e3o judicial foi de incompar\u00e1vel relev\u00e2ncia, pois ficou reconhecida pela primeira vez na hist\u00f3ria a possibilidade de responsabiliza\u00e7\u00e3o em \u00e2mbito internacional pela pr\u00e1tica de atos lesivos ao meio ambiente, resultantes de danos ambientais.\u00a0Entretanto, por ter sido um caso relativamente mais simples, j\u00e1 que era uma informa\u00e7\u00e3o de not\u00f3rio conhecimento geral quem era o poluidor a maior parte dos doutrinadores internacionalistas consideram a d\u00e9cada de 1960 como a verdadeira \u00e9poca do nascimento do Direito Internacional do Meio Ambiente.<\/p>\n<p>O Direito Ambiental Internacional obteve a maturidade do seu desenvolvimento na Europa da d\u00e9cada de 1960, per\u00edodo em que surgiu a figura jur\u00eddica dos danos transfronteiri\u00e7os. Os pa\u00edses que j\u00e1 possu\u00edam uma das legisla\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas da \u00e9poca em prol da sustentabilidade e desenvolvimento do meio ambiente natural, a Su\u00e9cia, detectou que suas florestas estavam sofrendo com in\u00fameros desgastes ambientais provocados por chuva \u00e1cida.<\/p>\n<p>Os cientistas suecos que estudavam de forma pioneira o fen\u00f4meno da chuva \u00e1cida descobriram que ela era fruto da polui\u00e7\u00e3o de todo o continente europeu, que subia para a escandinava e reunia-se com a umidade na forma\u00e7\u00e3o desta esp\u00e9cie de chuva.\u00a0Ficou claro pelo coletado nestas pesquisas cient\u00edficas que, n\u00e3o dependeria apenas dos esfor\u00e7os depreendidos pelo Governo sueco para que houvesse a resolu\u00e7\u00e3o eficaz do grave problema, dependendo necessariamente dos esfor\u00e7os conjuntos das outras na\u00e7\u00f5es europeias. Tendo se consolidado como o fato percussor da defini\u00e7\u00e3o concreta do que vem a ser o dano transfronteiri\u00e7o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de todo o narrado, a d\u00e9cada de 1960 foi o per\u00edodo em que a Guerra Fria encontrou o seu \u00e1pice, resultando numa mobiliza\u00e7\u00e3o global e cultural em busca da paz, pois uma guerra nuclear levaria a destrui\u00e7\u00e3o de toda a natureza, inviabilizando a vida na Terra.<\/p>\n<p>A corrida armamentista resultou em um pavor geral, causado pelo perigo de destrui\u00e7\u00e3o em massa e total do meio ambiente atrav\u00e9s de bombas at\u00f4micas; por tal raz\u00e3o, movimentos culturais como o movimento hippie auxiliaram na moderna vis\u00e3o de preocupa\u00e7\u00e3o ambientalista.\u00a0Nessa toada, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas ganhou preval\u00eancia no que se refere \u00e0s quest\u00f5es ambientais e sua assembleia se consagrou em um importante foro de discuss\u00f5es acerca de diversas tem\u00e1ticas ambientalistas. Destaca-se como uma das grandes contribui\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente, o fato de ter mantido um f\u00f3rum permanente, reunindo representantes de todas as partes do mundo para debater assuntos relacionados \u00e0 prote\u00e7\u00e3o conferida pelo Direito Internacional ao patrim\u00f4nio ambiental.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas teve o m\u00e9rito de organizar uma Conven\u00e7\u00e3o Internacional para o debate e discuss\u00f5es sobre os caminhos a serem tra\u00e7ados para a resolu\u00e7\u00e3o das problem\u00e1ticas que afligem o ecossistema, que foi realizada na capital da Su\u00e9cia, Estocolmo. Essa Conven\u00e7\u00e3o Internacional ficou conhecida como Confer\u00eancia de Estocolmo e foi realizada no ano de 1972.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o o Direito Ambiental toma forma como ci\u00eancia, cujo objeto faz parte da coletividade, do ser humano em sua escala mais b\u00e1sica, pois \u00e9 um dos direitos fundamentais \u00e0 vida. Por\u00e9m, a quest\u00e3o da soberania ainda, em tempos modernos, nos faz questionar sobre o pr\u00f3prio fundamento essencial da rela\u00e7\u00e3o homem-ambiente. Pois a luta continua e as barreiras quase intranspon\u00edveis dessa soberania dos estados mais poluidores chocam-se com estas quest\u00f5es universais. Podemos abranger esta an\u00e1lise exemplificando a inefic\u00e1cia da ONU na Guerra S\u00edria, no genoc\u00eddio que a guerra civil proporciona em muitos pa\u00edses do continente Africano que ainda lutam pela independ\u00eancia. Podemos citar, inclusive, a inefici\u00eancia num acordo de paz entre a Cor\u00e9ia do Norte e os Estados Unidos, que pode ocorrer a qualquer momento uma das maiores e mais devastadoras guerras que conheceremos num futuro n\u00e3o muito distante.<\/p>\n<p>Mas voltando ao foco central desta reflex\u00e3o, que \u00e9 a \u00e9tica e o Direito nas quest\u00f5es ambientais, \u00e9 interessante destacar aqui, que no Brasil, apenas com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, onde estes princ\u00edpios de terceira gera\u00e7\u00e3o, como chamamos, fazem parte do Art. 225 da CF\/88 onde destacam-se as seguintes terminologias: <strong>\u201ctodos n\u00f3s temos o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado\u201d.<\/strong> Isso quer dizer que a caracter\u00edstica da norma pode estar expressa ou impl\u00edcita. Funcionando como princ\u00edpios setoriais, de morfologias permanentes e sempre evolutivas (as leis em prol do meio ambiente n\u00e3o devem retroagir nunca), pois, embora tratado em Art. diverso, est\u00e1 impl\u00edcito no rol de Direitos b\u00e1sicos fundamentais: o direito \u00e0 vida e a sa\u00fade que trata o Art. 5\u00ba da CF disp\u00f5e acerca da dignidade, da exist\u00eancia e tamb\u00e9m da \u2018qualidade de vida\u2019, ou seja, o direito ambiental est\u00e1 implicitamente ligado ao direito \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Desta forma, \u00e9 um direito conferido pelo Estado a todas as crian\u00e7as, adultos, brasileiros e estrangeiros que em solo deste pa\u00eds, essencial a uma qualidade de vida m\u00ednima e sa\u00fade. Sendo assim, bem comum do povo. N\u00e3o \u00e9 um bem p\u00fablico, possui titularidade difusa, mesmo quando se trata de propriedade privada, por essas raz\u00f5es existem hoje as leis regulamentadoras dos incisos do Art. 225 da CF, trazendo, quando h\u00e1 necessidade, leis que especificam o poder p\u00fablico e particular, de dispor sobre riquezas naturais, e principalmente, obrigando a entidade de direito p\u00fablico, empresas ou a pessoa f\u00edsica a reparar o dano causado, a exemplo do nosso C\u00f3digo Florestal, das leis que tratam das Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o e etc.<\/p>\n<p>Estamos em frente a um grande e grotesco paradoxo legiferante, aqui a moral se instala como fonte \u00fanica do nosso debate, pois apresentei-lhes a epistemologia positiva do direito ambiental. Por\u00e9m, caro leitor, voc\u00ea certamente est\u00e1 agora se perguntando: \u201cMas se a legisla\u00e7\u00e3o tem o poder transformador e garantidor do ambiente, em categoria suprema, como pode ocorrer, por exemplo, a morte do Rio S\u00e3o Francisco em MG, por uma mineradora e at\u00e9 agora ningu\u00e9m ser responsabilizado, e o dever de restitui\u00e7\u00e3o, assim como a multa ainda n\u00e3o foram definidos de forma clara?\u201d, ou ent\u00e3o \u201cPor que o poder executivo, com um decreto pode definir as \u00e1reas que lhe interessam como reserva ou n\u00e3o reserva? Sendo este um procedimento incab\u00edvel na vis\u00e3o constitucional dos direitos de terceira gera\u00e7\u00e3o?\u201d.<\/p>\n<p>Pois a\u00ed reside a verdadeira quest\u00e3o, a nossa culpa aparece neste exato momento, sim, nossa culpa, pois todo o esfor\u00e7o, toda a energia gasta para que o meio ambiente fosse um direito b\u00e1sico do ser humano, se esvai, com a atividade legiferante do nosso modelo democr\u00e1tico. Sim, escolhemos nossos representantes de maneira porca, burra, inconsequente, pois para cada lei que \u00e9 promulgada de forma afirmativa, ou seja, hoje \u00e9 declarado uma multa para atos que alterem, prejudiquem ou extermine um bioma, existe tamb\u00e9m um artigo ou uma nova lei que permite a anistia.<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso dizer que este paradoxo \u00e9 fruto do poder pol\u00edtico. N\u00e3o preciso, aqui, diante de toda informa\u00e7\u00e3o que possu\u00edmos, de tudo que j\u00e1 sabemos. Mas o que eu preciso dizer \u00e9 que todos somos respons\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>Primeira irresponsabilidade \u00e9 s\u00f3 tratar a pol\u00edtica como um evento decorrente de dois em dois anos (lembrando que as elei\u00e7\u00f5es ocorrem de 4 em 4, por\u00e9m em tempos diferentes, nos dando uma lacuna de dois anos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Segunda tolice, acreditar que a preserva\u00e7\u00e3o \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o do Estado. Quando chove e ocorrem deslizamentos, inunda\u00e7\u00f5es, e a popula\u00e7\u00e3o fica \u00e0 merc\u00ea da natureza, culpando a figura representativa do Estado, esquece-se de que cada lixo que joga no ch\u00e3o, o mesmo vai para algum lugar, geralmente para os bueiros, entupindo-os e acreditem, fazendo com que uma chuva inunde tudo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Terceira e mais problem\u00e1tica das nossas atitudes irrespons\u00e1veis, ao mesmo tempo em que fazemos textos, gritamos e levantamos a bandeira da sustentabilidade, estamos sendo hip\u00f3critas. Sim, hip\u00f3critas da pior qualidade, um exemplo bem recente do que estou falando foi o evento do Rock in Rio, realizado no m\u00eas de setembro, teve modelo chorando no palco em defesa da Amaz\u00f4nia, teve m\u00fasico gritando e esbravejando contra o governo, teve uma galerinha desconstru\u00edda e sustent\u00e1vel que como uma grande e maci\u00e7a onda se autoproclamou, naquele momento, defensor e batalhador do ambiente, acabaram as luzes, os \u00faltimos sons que ainda ecoavam eram da equipe de limpeza, que removiam verdadeiras montanhas de pl\u00e1stico, bitucas de cigarros e todo o lixo que n\u00e3o foi devidamente jogado no lixo.<\/strong><\/p>\n<p>Esta \u00faltima quest\u00e3o, \u00e9 delicada, pois hoje a sustentabilidade \u00e9 elitista. Ela n\u00e3o atinge todas as camadas, n\u00e3o chega onde deveria chegar. Porque \u00e9 marketing, ser sustent\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 um estilo de vida, \u00e9 pertencer a uma classe que pouco faz e muito fala. A economia se beneficia, o selo sustent\u00e1vel j\u00e1 traz a ideia de que estamos contribuindo, e logicamente pagando mais caro pelo produto, pois nossa consci\u00eancia adora isso. Compramos org\u00e2nicos e adoramos compartilhar a experi\u00eancia de consumi-los, por\u00e9m pouco nos importa a produ\u00e7\u00e3o, os pequenos agricultores que cada vez mais perdem espa\u00e7o para os adoradores do glifosato.<\/p>\n<p>Enquanto a educa\u00e7\u00e3o ambiental n\u00e3o for tratada dentro dos lares, de todas as classes, em todos os meios, n\u00f3s vamos ficar vivendo de apar\u00eancias, criando no imagin\u00e1rio que o lixo que consumimos simplesmente desaparece a partir do momento em que \u00e9 colocado para fora. \u00c9 cultural.<\/p>\n<p>Por este motivo que o Brasil \u00e9 o pa\u00eds que possui o lixo mais rico do mundo. Segundo a pesquisa do IBGE, em 64% dos munic\u00edpios brasileiros o lixo \u00e9 depositado de forma inadequada, em locais sem nenhum controle ambiental ou sanit\u00e1rio. S\u00e3o os conhecidos lix\u00f5es ou vazadouros, terrenos onde se acumulam enormes montanhas de lixo a c\u00e9u aberto, sem nenhum crit\u00e9rio t\u00e9cnico ou tratamento pr\u00e9vio do solo, com a simples descarga do lixo sobre o solo. Al\u00e9m de degradar a paisagem e produzir mau cheiro, os lix\u00f5es colocam em risco o meio ambiente e a sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>No Brasil, 52,8% do lixo n\u00e3o recebe tratamento adequado. Segundo o IBGE, 30,5% do volume de lixo coletado em 2000 foi encaminhado para os lix\u00f5es, e 22,3%, para aterros controlados, com altos riscos de contamina\u00e7\u00e3o para o homem e para o meio ambiente.<\/p>\n<p>Como vemos, o problema do lixo \u00e9 um contraste tamb\u00e9m social, pois, como bem retrata a pesquisa realizada pelo Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef ), cerca de 43 mil crian\u00e7as e adolescentes trabalham no lixo no Brasil. S\u00e3o filhos de fam\u00edlias muito pobres que ganham a vida como catadores de materiais recicl\u00e1veis. Em alguns lix\u00f5es, mais de 30% das crian\u00e7as, em idade escolar, nunca foram \u00e0 escola. Mesmo aquelas que s\u00e3o matriculadas abandonam os estudos para ajudar os seus pais na cata\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de lixo. \u00c9 um trabalho desumano e ilegal, que exp\u00f5e a sa\u00fade dessas crian\u00e7as a todos os tipos de risco.<\/p>\n<p>No Programa Lixo &amp; Cidadania, criado em 1998 por iniciativa do Unicef, os catadores s\u00e3o reconhecidos como verdadeiros agentes ambientais. Eles s\u00e3o respons\u00e1veis por 90% de todo o material que as ind\u00fastrias de reciclagem operam no Brasil. Permitem, por exemplo, que o Pa\u00eds esteja no primeiro lugar do ranking mundial de reciclagem de latas de alum\u00ednio. Quando organizados em associa\u00e7\u00f5es e cooperativas, os catadores trabalham em condi\u00e7\u00f5es mais dignas, produzem mais e melhor. Assim, podem ter uma renda maior, o que lhes permite manter suas crian\u00e7as na escola e longe do trabalho infantil.<\/p>\n<p><strong>Precisamos entender que tudo est\u00e1 relacionado, pertencemos \u00e0 um ciclo intermin\u00e1vel de transforma\u00e7\u00f5es, onde um ato isolado pode provocar um resultado monstruoso. Precisamos nos reconhecer como seres humanos, cuja \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 a capacidade de raciocinar, e talvez por uma ironia do nosso destino, somos tamb\u00e9m os \u00fanicos seres que devastam, corrompem, destroem.<\/strong><\/p>\n<p>Neste momento, n\u00f3s enfrentamos um ponto cr\u00edtico de nossa hist\u00f3ria: o que fazemos com o nosso mundo, agora, se propagar\u00e1 atrav\u00e9s dos s\u00e9culos e afetar\u00e1 poderosamente o destino de nossos descendentes. Est\u00e1 bem dentro de nosso poder destruir nossa civiliza\u00e7\u00e3o e talvez a nossa esp\u00e9cie tamb\u00e9m. Se nos rendermos \u00e0 supersti\u00e7\u00e3o ou \u00e0 gan\u00e2ncia ou \u00e0 estupidez poder\u00edamos mergulhar nosso mundo em um tempo sombrio, de escurid\u00e3o mais profundo talvez do que a idade m\u00e9dia e o obscurantismo.<\/p>\n<p>Certa vez me deparei com um maravilhoso livro, P\u00e1lido Ponto Azul, de 1994, cujo autor \u00e9 Carl Sagan, onde de algum modo me fez pensar ao mesmo tempo na grandeza humana a n\u00edvel de Vida, e na nossa insustent\u00e1vel leveza e pequenez dentro do espa\u00e7o absoluto em que estamos perdidos.<\/p>\n<p>\u201cOlhem de novo esse ponto. \u00c9 aqui, \u00e9 a nossa casa, somos n\u00f3s. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre quem voc\u00ea ouviu falar, cada ser humano que j\u00e1 existiu, viveram as suas vidas. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religi\u00f5es, ideologias e doutrinas econ\u00f4micas confiantes, cada ca\u00e7ador e coletor, cada her\u00f3i e covarde, cada criador e destruidor da civiliza\u00e7\u00e3o, cada rei e campon\u00eas, cada jovem casal de namorados, cada m\u00e3e e pai, crian\u00e7a cheia de esperan\u00e7a, inventor e explorador, cada professor de \u00e9tica, cada pol\u00edtico corrupto, cada \u201csuperestrela\u201d, cada \u201cl\u00edder supremo\u201d, cada santo e pecador na hist\u00f3ria da nossa esp\u00e9cie viveu ali \u2013 em um gr\u00e3o de p\u00f3 suspenso num raio de sol. (\u2026) N\u00e3o h\u00e1, talvez, melhor demonstra\u00e7\u00e3o da tola presun\u00e7\u00e3o humana do que esta imagem distante do nosso min\u00fasculo mundo. Para mim, destaca a nossa responsabilidade de sermos mais am\u00e1veis uns com os outros, e para preservarmos e protegermos o \u201cp\u00e1lido ponto azul\u201d, o \u00fanico lar que conhecemos at\u00e9 hoje.\u201d<\/p>\n<p>Por fim, aqui fica a reflex\u00e3o, cuidar do meio ambiente, \u00e9 cuidar tamb\u00e9m da \u00e9tica, do direito, da pol\u00edtica, das nossas tortuosas rela\u00e7\u00f5es com outros seres humanos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LtS7eOE7SGc\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>_____<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Rousseau, Jean-Jacques. <em>A Origem da Desigualdade entre os homens<\/em>. S\u00e3o Paulo: Lafonte, 2012, 37.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> KANT, Immanuel. <em>Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martin Claret, 3 ed., 2009.<\/p>\n<p>Mayara Ruiz Ferreira<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>newsworld_co O foco deste artigo \u00e9 demonstrar que al\u00e9m de uma necessidade b\u00e1sica e um direito fundamental, o meio ambiente ecologicamente equilibrado \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o \u00e9tica e fala muito sobre nossa pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o como seres humanos. 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