{"id":21390,"date":"2017-09-30T13:00:33","date_gmt":"2017-09-30T16:00:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=21390"},"modified":"2017-09-28T09:33:14","modified_gmt":"2017-09-28T12:33:14","slug":"da-floresta-a-semente-da-semente-a-floresta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/da-floresta-a-semente-da-semente-a-floresta\/","title":{"rendered":"Da floresta \u00e0 semente, da semente \u00e0 floresta"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.valor.com.br\/sites\/all\/modules\/custom\/valor_especiais\/modules\/especial_xingu\/img\/slider_coletores\/f4_600.jpg\" alt=\"\u00cdndia xavante coloca frutos de buriti, esp\u00e9cie de palmeira do Cerrado, no cesto de coleta. FOTO: Rog\u00e9rio Assis\/ISA\" \/><\/p>\n<p><strong>Comunidades na Amaz\u00f4nia recolhem sementes para restaurar florestas desmatadas<\/strong><\/p>\n<p>Makawa Ikpeng diz que sempre colheu sementes de jatob\u00e1, roxinho, cumaru e orelha de macaco. Ela fala na l\u00edngua dos ikpeng, mas mesmo em portugu\u00eas os nomes s\u00e3o misteriosos para quem n\u00e3o \u00e9 da floresta. Ao saber da exist\u00eancia da Rede de Sementes do Xingu, h\u00e1 10 anos, a l\u00edder ind\u00edgena foi consultar outras mulheres ikpeng para ver seu interesse em sair pela Amaz\u00f4nia para coletar sementes de \u00e1rvores e ajudar a reflorestar \u00e1reas que os n\u00e3o-\u00edndios desmataram. Juntou 62 mulheres nas aldeias. O jovem int\u00e9rprete que a traduz explica que a renda da venda de sementes ajuda os \u00edndios a comprar artigos que precisam. Makawa est\u00e1 sem o delicado cocar que usou h\u00e1 pouco, ao dividir a fala com outros caciques xinguanos, mas est\u00e1 de \u00f3culos. Com a renda das sementes ela agora enxerga, diz. A mulher espera o int\u00e9rprete terminar a frase e sorri timidamente: \u201cE fiz minha dentadura\u201d.<\/p>\n<p>O Diauarum, onde se d\u00e1 esta conversa, \u00e9 Amaz\u00f4nia mato-grossense, tem floresta por todo lado e o rio Xingu como limite. De manh\u00e3 cedo, a luz do Sol avan\u00e7a sobre a n\u00e9voa que cobre o polo de apoio ind\u00edgena e revela \u00e1rvores gigantes, a escola, o posto de sa\u00fade, as malocas que abrigam visitantes. \u00c9 paisagem de para\u00edso tomada por um bando de 350 pessoas muito diversas que quer discutir como avan\u00e7ar com a atividade que tem sementes amaz\u00f4nicas e de Cerrado como cerne. O grupo se re\u00fane debaixo da sombra da grande mangueira que, dizem, foi plantada por Claudio Villas-B\u00f4as, o sertanista que junto com os irm\u00e3os Orlando e Leonardo associou o sobrenome ao territ\u00f3rio ind\u00edgena mais ic\u00f4nico do Brasil, o Parque Ind\u00edgena do Xingu, h\u00e1 56 anos. Aqui, no nordeste do Mato Grosso, vivem 16 povos com diferentes l\u00ednguas e tradi\u00e7\u00f5es. O PIX, ou Territ\u00f3rio Ind\u00edgena do Xingu (como preferem os \u00edndios, para dar car\u00e1ter menos ex\u00f3tico e mais \u00e9tnico ao seu lugar) \u00e9 uma ilha de 2,8 milh\u00f5es de hectares de floresta rodeada por soja, capim e gado.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.valor.com.br\/sites\/all\/modules\/custom\/valor_especiais\/modules\/especial_xingu\/img\/imgsFull\/f0_1600.jpg\" alt=\"O p\u00f3lo ind\u00edgena Diauarum \u00e9 um cen\u00e1rio de para\u00edso com \u00e1rvores gigantes, o rio Xingu por moldura e c\u00e9u com estrelas cadentes para todos os desejos. Aqui, durante tr\u00eas dias, 350 pessoas discutiram o futuro da maior rede de sementes florestais nativas do Brasil FOTO: Claudio Tavares\/ISA\" \/><em>O p\u00f3lo ind\u00edgena Diauarum \u00e9 um cen\u00e1rio de para\u00edso com \u00e1rvores gigantes, o rio Xingu por moldura e c\u00e9u com estrelas para todos os desejos. Aqui, durante tr\u00eas dias, 350 pessoas discutiram o futuro da maior rede de sementes florestais nativas do Brasil.\u00a0FOTO: Claudio Tavares\/ISA<\/em><\/p>\n<p>O rio Xingu, a espinha dorsal deste territ\u00f3rio ind\u00edgena, o corta de sul a norte at\u00e9 desaguar no Amazonas, no Par\u00e1. O problema deste belo rio \u00e9 que suas nascentes ficaram fora do desenho do PIX e agora, quando o Xingu entra no parque, j\u00e1 vem meio estragado. \u201cEntre 1995 e 2005 o desmatamento na Amaz\u00f4nia brasileira manteve \u00edndices pornogr\u00e1ficos\u201d, adjetiva Marcio Santili, um dos sociofundadores do Instituto Socioambiental (ISA) em cr\u00f4nica recente, referindo-se aos 225 mil quil\u00f4metros quadrados desmatados no per\u00edodo, principalmente no norte do Mato Grosso e oeste do Par\u00e1. Os \u00edndios xinguanos come\u00e7aram a sentir os impactos crescentes da agress\u00e3o da derrubada ao ritmo de 140 campos de futebol por hora. A eros\u00e3o, o fogo e o uso de agrot\u00f3xicos nas fazendas do entorno comprometem a qualidade da \u00e1gua do Xingu. Muitas aldeias hoje t\u00eam po\u00e7o artesiano. N\u00e3o se bebe mais a \u00e1gua do rio como antes.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o era grave. Em 2004, o ISA, organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental que trabalha com \u00edndios, quilombolas e unidades de conserva\u00e7\u00e3o, prop\u00f4s uma campanha que envolvesse propriet\u00e1rios rurais, poderes p\u00fablicos locais, assentados rurais, escolas, associa\u00e7\u00f5es de trabalhadores da agricultura e de pecuaristas. Em 2004, em um encontro de tr\u00eas dias em Canarana discutiu-se a restaura\u00e7\u00e3o das matas em volta das nascentes e formadores do Xingu. Nasceu a campanha \u201cY Ikatu Xingu\u201d, nome proposto pelos kamaiur\u00e1 e que quer dizer \u201c\u00c1gua boa no Xingu\u201d. A restaura\u00e7\u00e3o das matas ciliares dos rios exigia sementes e t\u00e9cnicas de restaura\u00e7\u00e3o florestal.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o imaginava-se que 300 mil hectares de matas ciliares precisavam ser reconstru\u00eddos na regi\u00e3o das nascentes do Xingu no Mato Grosso &#8212; depois das mudan\u00e7as no C\u00f3digo Florestal, a estimativa baixou para 200 mil hectares. Neste contexto, e articulando atores normalmente divergentes, nasceu a Rede de Sementes do Xingu, em 2007, hoje a maior rede de sementes florestais nativas do Brasil. No Diauarum, durante tr\u00eas dias de agosto, coletores de sementes, pesquisadores e ambientalistas se reuniram para debater o futuro de um caminho que valoriza a biodiversidade e inclui povos da floresta e gente da cidade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.valor.com.br\/sites\/all\/modules\/custom\/valor_especiais\/modules\/especial_xingu\/img\/imgsFull\/f1_1600.jpg\" alt=\"A fronteira do desmatamento entre as planta\u00e7\u00f5es de soja e o Parque Ind\u00edgena do Xingu parece ter sido cortada a faca FOTO: F\u00e1bio Nascimento\/ISA\" \/><em>A fronteira do desmatamento entre as planta\u00e7\u00f5es de soja e o Parque Ind\u00edgena do Xingu parece ter sido cortada a faca.\u00a0FOTO: F\u00e1bio Nascimento\/ISA<\/em><\/p>\n<p>Os n\u00fameros destes 10 anos s\u00e3o significativos para um movimento in\u00e9dito. S\u00e3o 175 toneladas de sementes coletadas de mais de 250 esp\u00e9cies de \u00e1rvores da Amaz\u00f4nia e do Cerrado. Se a biodiversidade impressiona, a sociodiversidade da Rede n\u00e3o fica atr\u00e1s &#8212; os 450 coletores s\u00e3o ind\u00edgenas, assentados rurais, agricultores familiares da \u00e1rea rural e urbana, ribeirinhos, gente que n\u00e3o se conhecia e nem se conversava. A Rede tem 13 n\u00facleos, 11 casas para armazenar as sementes e se espalha por 17 munic\u00edpios do Mato Grosso e Par\u00e1. H\u00e1 coletores em 16 assentamentos rurais, uma reserva extrativista e 16 aldeias de seis povos ind\u00edgenas. O esfor\u00e7o j\u00e1 produziu renda de R$ 2,5 milh\u00f5es para as comunidades e recuperou mais de cinco mil hectares de \u00e1reas degradadas na regi\u00e3o das bacias do Xingu e Araguaia, e em outras \u00e1reas de Cerrado e Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>No entorno da Rede h\u00e1 ambientalistas, pesquisadores, t\u00e9cnicos agr\u00edcolas, engenheiros agr\u00f4nomos e florestais, professores e pessoas de empresas e governos que aprendem, estimulam e namoram este \u201cneg\u00f3cio social com base florestal\u201d, como define um boletim do ISA. Al\u00e9m do efeito positivo no ambiente e na trama social da regi\u00e3o, o Brasil precisa de experi\u00eancias como esta para cumprir a meta de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de gases-estufa acertada no Acordo de Paris das Na\u00e7\u00f5es Unidas. O compromisso \u00e9 de restaurar e reflorestar 12 milh\u00f5es de hectares at\u00e9 2030. \u201cA Rede n\u00e3o tem a pretens\u00e3o nem a capacidade de ofertar a demanda da meta brasileira, que \u00e9 bastante ousada\u201d, avalia o agr\u00f4nomo Rodrigo Junqueira, coordenador do Programa Xingu do ISA e um dos arquitetos da Rede de Sementes do Xingu. \u201cMas sua experi\u00eancia, resultados e conquistas podem contribuir para a meta, al\u00e9m de partilhar conhecimentos e aprendizados para outras redes de sementes que surgirem no Brasil. Vamos precisar de muitas redes assim se quisermos chegar perto do objetivo.\u201d<\/p>\n<p>A coleta de sementes \u00e9 trabalho de formiguinha. N\u00e3o \u00e0 toa as ind\u00edgenas do grupo de Makawa escolheram o nome Yarang para seu movimento. Em ikpeng significa \u201cformiga cortadeira\u201d. Os insetos inspiraram as \u00edndias pela for\u00e7a, determina\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o ao carregarem sementes, folhas e flores pelos caminhos da mata. A metade dos 450 coletores da Rede \u00e9 ind\u00edgena. A tarefa atrai principalmente mulheres e jovens, mas n\u00e3o apenas. \u201cNosso trabalho \u00e9 diferente do agroneg\u00f3cio\u201d, define o agricultor mineiro Acrisio Luiz dos Reis, 65 anos, que coleta dentro do assentamento Manah, em Canabrava do Norte. \u201cO agroneg\u00f3cio j\u00e1 prev\u00ea este ano o que vai plantar no ano que vem. Para n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 assim. Quem manda \u00e9 a natureza\u201d. Ele conta que chegou em 1985 no Mato Grosso. \u201cVim para fazer desmatamento. Se eu plantar de hoje at\u00e9 o resto da minha vida n\u00e3o vou recuperar 10% das \u00e1rvores que derrubei. Era o meu ganha-p\u00e3o\u201d, diz, entristecido.<\/p>\n<p>Basta olhar ao redor para se ver o caldo de vis\u00f5es distintas de como viver no Cerrado e na Amaz\u00f4nia. A estrada que leva de Goi\u00e2nia a Canarana revela muito do desenvolvimento da regi\u00e3o. Cartazes promovem servi\u00e7os de avi\u00f5ezinhos agr\u00edcolas, terraplanagem e galp\u00f5es para alugar. Os an\u00fancios vendem sementes de soja e \u201cdefensivos agr\u00edcolas\u201d \u2013 nunca \u201cagrot\u00f3xicos\u201d. P\u00e1tios t\u00eam tratores, m\u00e1quinas e pequenos caminh\u00f5es. A pujan\u00e7a \u00e9 agr\u00edcola, n\u00e3o h\u00e1 nada de economia florestal nesta regi\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o de biomas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.valor.com.br\/sites\/all\/modules\/custom\/valor_especiais\/modules\/especial_xingu\/img\/imgsFull\/f2_1600.jpg\" alt=\"A muvuca \u00e9 uma t\u00e9cnica de plantio que mistura dezenas de sementes de esp\u00e9cies de Cerrado ou de Amaz\u00f4nia para reflorestar \u00e1reas degradadas de maneira similar \u00e0 regenera\u00e7\u00e3o natural FOTO: Rog\u00e9rio Assis\/ISA\" \/><em>A muvuca \u00e9 uma t\u00e9cnica de plantio que mistura dezenas de sementes de esp\u00e9cies de Cerrado ou de Amaz\u00f4nia para reflorestar \u00e1reas degradadas de maneira similar \u00e0 regenera\u00e7\u00e3o natural.\u00a0FOTO: Rog\u00e9rio Assis\/ISA<\/em><\/p>\n<p>A linha invis\u00edvel que separa Amaz\u00f4nia e Cerrado passa por Canarana e provoca tens\u00f5es. Significa que propriedades ao sul do munic\u00edpio est\u00e3o no Cerrado e t\u00eam que manter 35% da vegeta\u00e7\u00e3o intacta, a chamada Reserva Legal ou RL. As do norte, contudo, j\u00e1 est\u00e3o no bioma Amaz\u00f4nia e t\u00eam que preservar 80% da \u00e1rea como RL. O v\u00f4o de Canarana at\u00e9 o Diauarum leva uma hora e exibe uma sucess\u00e3o de tabuleiros verdes isolados no meio do amarelo da soja e do milho, sem conex\u00e3o com outras florestas. As Reservas Legais parecem ter sido deixadas ali de m\u00e1 vontade, porque a lei obriga e pronto. Lideran\u00e7as do agroneg\u00f3cio usam uma imagem tosca para explicar a RL: \u00e9 como ter uma casa com 10 quartos, mas s\u00f3 dois podem ser usados. N\u00e3o dizem que os dois quartos s\u00e3o gigantescos e nem que os outros oito garantem \u00e1gua, comida, m\u00f3veis, ar fresco, neg\u00f3cios e vida a todos na casa. As RL no Mato Grosso s\u00e3o ret\u00e2ngulos naturais artificiais \u2013- uma oposi\u00e7\u00e3o em si, mas \u00e9 olhar para baixo e confirmar o contrassenso. Fauna e flora est\u00e3o confinadas a per\u00edmetros desenhados pelas m\u00e1quinas da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas margens dos rios, \u00e9 verdade, h\u00e1 mais manchas verdes e o desenho t\u00edmido de alguns corredores de mata. Teve racionamento de \u00e1gua em Canarana no \u00faltimo ver\u00e3o. Sem \u00e1rvores ao redor dos rios, a \u00e1gua seca no calor matogrossense, qualquer crian\u00e7a sabe. \u201cA natureza, quando a gente a massacra, ela nos expulsa. Em 2016 n\u00e3o tinha \u00e1gua, estava todo mundo sufocado\u201d, diz com precis\u00e3o o agricultor Placides Pereira, do assentamento Manah, sanfoneiro e coletor de sementes. Os grandes produtores de soja t\u00eam procurado restaurar as matas ciliares dos rios entendendo que ou fazem assim ou abrem alas para o deserto.<\/p>\n<p>\u201cA soja se afastou um pouco das \u00e1guas. A imposi\u00e7\u00e3o de se restaurar matas ciliares passou a ser vista como incremento de produtividade. \u00c9 uma vis\u00e3o econ\u00f4mica da \u00e1gua\u201d, diz Andr\u00e9 Villas-B\u00f4as, secret\u00e1rio-executivo do ISA. Dentro do PIX a rela\u00e7\u00e3o com o rio Xingu \u00e9 de vida, de fonte de comida, de via de transporte, de eixo da floresta, de banhos, de espiritualidade. \u201cOs \u00edndios n\u00e3o se denominam assim, mas s\u00e3o guardi\u00f5es da floresta. O parque \u00e9 uma ilha verde. As entidades pol\u00edticas do agroneg\u00f3cio n\u00e3o querem admitir, h\u00e1 uma dificuldade enorme de dialogar com a quest\u00e3o clim\u00e1tica, mas a umidade produzida aqui dentro favorece as lavouras do entorno\u201d, continua.<\/p>\n<p>Quando o avi\u00e3o se aproxima do Parque Ind\u00edgena do Xingu a fronteira entre a atua\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio e a natureza parece ter sido cortada a faca. Do lado de l\u00e1 tem \u00e1rvores, on\u00e7as, \u00edndios, sombras. Do lado de c\u00e1 tem gr\u00e3os.<\/p>\n<p>Em agosto, no Diauarum (palavra musical que quer dizer on\u00e7a negra), \u00e9 forte a varia\u00e7\u00e3o de temperatura. Faz muito calor ao meio-dia e um frio danado de noite. Os \u00edndios reunidos no 10\u00ba encontro da Rede de Sementes do Xingu fazem pequenas fogueiras para aquecer as conversas. Tamb\u00e9m para eles, a ideia de coletar sementes foi assunto controverso. Dentro do PIX existem 16 povos e s\u00f3 cinco deles participam da Rede \u2013 os ikpeng, kawaiwete, wauja, matipu e yudja, al\u00e9m dos panar\u00e1 e xavante, fora do Parque. Foi dif\u00edcil romper o entendimento de alguns de que o esfor\u00e7o iria ajudar a consertar o que os n\u00e3o-\u00edndios estragaram.<\/p>\n<p><strong>A rede de sementes da amaz\u00f4nia e do cerrado<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.valor.com.br\/sites\/all\/modules\/custom\/valor_especiais\/modules\/especial_xingu\/img\/mapa\/mapa_rede-de-semententes.png\" \/><em>Os coletores vivem em cidades, aldeias, assentamentos e unidades de conserva\u00e7\u00e3o.\u00a0Fonte: N\u00facleo de monitoramento de Canarana do Instituto Socioambiental (ISA). Infogr\u00e1fico: Caio Martinelli\/VALOR<\/em><\/p>\n<p>\u201cOlhando o desmatamento do nosso pa\u00eds, \u00e9 pouca a nossa contribui\u00e7\u00e3o\u201d, diz Makupa Kaiabi. \u201cMas estamos restaurando o que foi detonado\u201d, continua o l\u00edder ind\u00edgena ao falar, na sua l\u00edngua, aos participantes do encontro. \u201cAntigamente viv\u00edamos tranquilos, mas agora os rios est\u00e3o morrendo e as florestas, se acabando\u201d, registra por seu turno o cacique do Alto Xingu Atakaho Waur\u00e1. Ao seu lado, Kampot Ikpeng diz que \u201cas sementes est\u00e3o ficando dif\u00edceis, porque os brancos est\u00e3o encostando\u201d. Makawa Ikpeng concorda com a cabe\u00e7a. \u201cTemos que buscar os recursos cada vez mais longe da aldeia. As sementes n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 para reflorestar longe de n\u00f3s, temos que plantar tamb\u00e9m no nosso territ\u00f3rio. N\u00e3o podemos nos preocupar s\u00f3 com o nosso presente, temos que come\u00e7ar a desenhar agora o nosso futuro.\u201d<\/p>\n<p>O agr\u00f4nomo Rodrigo Junqueira, que veio para o ISA para dar concretude \u00e0 campanha, lembra o in\u00edcio, h\u00e1 10 anos. \u201cCome\u00e7amos a pensar como fazer aquilo funcionar. Era dif\u00edcil que desse certo com mudas porque n\u00e3o h\u00e1 viveiros, o pessoal n\u00e3o acreditava muito e as dist\u00e2ncias s\u00e3o grandes.\u201d De fato, sementes coletadas pelos Panar\u00e1 no eixo da BR 163 levam quatro dias, pelo menos, para chegar at\u00e9 a casa de sementes de Canarana. \u201cComo poderia vingar? Come\u00e7amos a investigar e a beber na fonte da agrofloresta, que mistura agricultura e floresta. Ou seja: se semeamos sementes agr\u00edcolas por que n\u00e3o fazer o mesmo com sementes florestais? Foi assim\u201d.<\/p>\n<p>O jovem Oreme Ikpeng, 24 anos, vive no cora\u00e7\u00e3o do TIX, na aldeia Moygu. Ele \u00e9 t\u00e9cnico em agroecologia pela escola ind\u00edgena e quer cursar engenharia florestal em Sinop. \u00c9 Oreme quem faz a articula\u00e7\u00e3o entre a comunidade e a Rede de Sementes. \u201cFazemos nosso potencial de coleta de sementes em fevereiro, olhando a entrega anterior. A \u00e1rvore de sementes que n\u00e3o deu muito no ano passado, dar\u00e1 este ano. A mata \u00e9 assim.\u201d. Em junho e julho recebem os pedidos. \u201cAs mulheres v\u00e3o colhendo e me entregando. Quando vem o pagamento, cada uma recebe pelo o que coletou. Nossa ideia \u00e9 trazer os jovens para a Rede, para multiplicar o conhecimento dos mais antigos\u201d. Nas \u00e1reas ikpeng sempre tem jatob\u00e1. \u201cA gente come a polpa, \u00e9 alimento dos nossos antepassados\u201d, explica Oreme.<\/p>\n<p>Entre os waur\u00e1 da aldeia Piyulaga, no Alto Xingu, a din\u00e2mica da coleta inicia quando recebem o pedido. \u201cAs coletoras saem atr\u00e1s de sementes de orelha de macaco, copa\u00edba, mamoninha\u201d, conta Tiraw\u00e1 Waur\u00e1. \u201cA renda que vem \u00e9 importante para que a gente compre sab\u00e3o, fac\u00e3o, camisas, anz\u00f3is, chinelos. Compramos o que necessitamos e continuamos mantendo a nossa cultura. E tamb\u00e9m usamos as sementes para reflorestar perto da aldeia, se perdemos alguns peda\u00e7os de mata com as ro\u00e7as\u201d, explica.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.valor.com.br\/sites\/all\/modules\/custom\/valor_especiais\/modules\/especial_xingu\/img\/comp_2-1\/f1_600.jpg\" alt=\"Artemizia Moita, gerente ambiental do grupo Agropecu\u00e1ria Fazenda Brasil ajuda na muvuca, a t\u00e9cnica de plantio que mistura sementes de v\u00e1rias esp\u00e9cies para regenerar a floresta FOTO: Rog\u00e9rio Assis\/ISA\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.valor.com.br\/sites\/all\/modules\/custom\/valor_especiais\/modules\/especial_xingu\/img\/comp_2-1\/f2_600.jpg\" alt=\"Ivan Loch no maior centro de armazenagem de sementes da Rede, a casa de sementes de Canarana, no Mato Grosso FOTO: Ton Koene\" \/><em>Artemizia Moita, gerente ambiental do grupo Agropecu\u00e1ria Fazenda Brasil, ajuda a misturar as sementes, e o coletor Ivan Loch no centro de armazenamento de Canarana.\u00a0FOTOS: Rog\u00e9rio Assis\/ISA e Ton Koene<\/em><\/p>\n<p>A amplitude da \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o, a multiplicidade de atores e sementes e a delicadeza da atividade deram complexidade \u00e0 governan\u00e7a e log\u00edstica da Rede. De maneira simplificada, o fluxo da cadeia de produ\u00e7\u00e3o das sementes florestais come\u00e7a com os coletores fazendo a lista do potencial de sua \u00e1rea, estimando esp\u00e9cies e volumes. Recebem, depois, uma lista de pedidos que cruza oferta e demanda. Os coletores saem a campo e beneficiam, armazenam, identificam e fazem chegar sua produ\u00e7\u00e3o em uma casas de sementes. A entrega passa por um pente-fino que leva em conta esp\u00e9cie, volume, coletor, data da coleta, peso e \u00e1rea, entre outros quesitos. As sementes passam pelo primeiro controle de qualidade. \u201cTemos um desafio de gest\u00e3o, coordenar todas estas frentes \u00e9 delicado. Se o pedido sai errado, impacta tudo. Temos que cuidar da complexidade, faz parte. Ao simplificar demais, perdemos muito do que se construiu\u201d, diz Junqueira.<\/p>\n<p>O produtor rural Ivan Loch, de Canarana, foi um dos pioneiros na busca por sementes, em 2005, quando ningu\u00e9m se interessava pelo assunto. Loch chegou em 1975 \u00e0 regi\u00e3o, nas ondas colonizadoras que vieram \u201cabrir \u00e1reas\u201d de floresta para a agropecu\u00e1ria. Nos anos 90 come\u00e7ou a se envolver com o viveiro municipal. \u201cNos fins de semana sa\u00eda com minha fam\u00edlia para coletar. Era tudo Cerrado onde a gente colhia sementes, tinha at\u00e9 na beira de estrada. Baru era tanto que a gente chamava de praga\u201d, conta. Hoje n\u00e3o \u00e9 mais assim, as sementes est\u00e3o bem mais longe. Loch consegue coletar nas fazendas, pedindo acesso aos propriet\u00e1rios. \u201cD\u00e1 dinheiro. Tem anos que tirei at\u00e9 R$ 50 mil\u201d, diz.<\/p>\n<p>O Diauarum amanhece frio e enevoado, com tintas de aquarela. N\u00e3o \u00e9 aldeia circular, como as cl\u00e1ssicas xinguanas, com suas grandes malocas. A bruma cede aos poucos e vai revelando \u00e1rvores gigantes, o rio ao fundo, a sombra da escola, o velho orelh\u00e3o que conecta com o mundo al\u00e9m TIX. Os participantes do encontro saem das redes e se juntam no refeit\u00f3rio. O caf\u00e9 vem com beiju, rodelas de abacaxi, mandioca cozida, bolachas. Ao redor da grande mangueira de Claudio Villas-B\u00f4as montaram-se mesas. Alguns coletores, cada um com seus instrumentos de beneficiamento, preparam-se para demonstrar tecnologias sociais.<\/p>\n<p>Beneficiar sementes florestais nativas exige conhecimento, criatividade e adapta\u00e7\u00e3o. A Rede trabalha com mais de duas centenas de esp\u00e9cies diferentes, cada uma com suas caracter\u00edsticas. E cada coletor tem seu pr\u00f3prio m\u00e9todo. Em uma das \u201cesta\u00e7\u00f5es\u201d, um agricultor maneja um aparelho que joga um forte jato d\u00b4\u00e1gua e lava a farinha que envolve as sementes de jatob\u00e1. Ao lado dele, mulheres ikpeng sentadas sobre uma esteira tamb\u00e9m lavam sementes de jatob\u00e1, mas usam apenas as m\u00e3os e baldes com \u00e1gua.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XDyCTHWy66I\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><em>V\u00eddeo produzido e cedido pelo Instituto Socioambiental (ISA)<\/em><\/p>\n<p>Em outra mesa, os olhares recaem sobre as sementes de carvoeiro. Parecem feij\u00e3ozinhos verdes. Um grupo de mulheres xavante abre a pel\u00edcula que envolve os gr\u00e3os cortando pacientemente as bordas com tesourinhas. Perto delas, Vera Alves da Silva Oliveira, de Nova Xavantina, faz mais barulho. Ela agita uma esp\u00e9cie de aparador de grama e \u00e9 assim que tira a palha que envolve a semente. O quilo do carvoeiro d\u00e1 R$ 200 reais.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Vera \u00e9 singular. Moradora de Nova Xavantina, foi empregada dom\u00e9stica at\u00e9 o dia em que a vida virou. Come\u00e7ou a coletar sementes usando uma bicicleta velha. \u201cHoje tenho moto e carro, quero construir minha casa.\u201d. A filha Milene, de 19 anos, \u00e9 uma das lideran\u00e7as jovens da Rede. Cursa biologia na universidade de Nova Xavantina e, no encontro dos 10 anos da Rede, explica a todos a germina\u00e7\u00e3o da emba\u00faba com fotos e diagramas. \u201cA Rede abriu outro lado da minha cabe\u00e7a\u201d, diz a mo\u00e7a, que come\u00e7ou a ajudar a m\u00e3e e tamb\u00e9m coletava de bicicleta, nos fins de semana. A atividade atraiu o pai e anima agora o namorado de Milene. \u201cA Rede juntou minha fam\u00edlia\u201d, conta.<\/p>\n<p>\u201cUm cara bom de servi\u00e7o faz seis quilos de baru por dia\u201d, diz Loch, explicando que no Cerrado coleta-se baru de julho a fevereiro e que o quilo rende R$ 60,00. A mutamba, ali adiante, d\u00e1 R$ 130,00 por quilo. Sucupira branca \u00e9 a mais cara, custa R$ 550,00 o quilo. Ouve-se um mosaico de novas informa\u00e7\u00f5es. \u201cAlgumas sementes, como a do jatob\u00e1, leva dois anos para germinar. Mas com o buriti a conversa \u00e9 outra, \u00e9 preciso manter a semente sempre \u00famida\u201d, diz um coletor. \u201cA\u00e7a\u00ed tamb\u00e9m germina r\u00e1pido, mas n\u00e3o pode molhar muito\u201d, emenda outro.<\/p>\n<p>Florestas naturais n\u00e3o se estruturam como eucaliptais, alinhados e monoc\u00f3rdicos. Um dos segredos do \u00eaxito da Rede \u00e9 ter como base o plantio de sementes misturadas, t\u00e9cnica batizada de \u201cmuvuca\u201d. \u201cMas a nossa \u00e9 uma muvuca organizada\u201d, explica Junqueira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5JQieV6gss8\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><em>V\u00eddeo produzido e cedido pelo Instituto Socioambiental (ISA)<\/em><\/p>\n<p>A Rede e o ISA trabalham com muvucas de sementes do Cerrado e da Amaz\u00f4nia que podem ter at\u00e9 100 esp\u00e9cies. \u00c9 um n\u00famero alto. A regra exigida no Mato Grosso para recuperar \u00e1reas degradadas \u00e9 de ter, no m\u00ednimo, 30 esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>A \u201cmuvuca do ISA\u201d, como o povo chama, \u00e9 um mix de sementes florestais e aduba\u00e7\u00e3o verde misturado na hora do plantio. O primeiro broto que surge \u00e9 um feij\u00e3ozinho. O feij\u00e3o-de-porco chega a 60 cent\u00edmetros, cobre o solo, e sua sombra impede ervas daninhas de prosperarem, assim como o capim braqui\u00e1ria. A leguminosa produz muitas folhas e funciona como adubo depois. Forma serrapilheira, aquela camada de material org\u00e2nico que ajuda as sementes a germinarem. \u201cDepois \u00e9 a vez da crotal\u00e1ria, que tamb\u00e9m ajuda a fixar nitrog\u00eanio no solo al\u00e9m de combater a eros\u00e3o\u201d, explica Junior Micolino da Veiga, gestor ambiental e t\u00e9cnico de restaura\u00e7\u00e3o do ISA.<\/p>\n<p>O feij\u00e3o-de-porco a e crotal\u00e1ria morrem em seis meses. Mas no mix h\u00e1 outra leguminosa, o feij\u00e3o guand\u00fa, que fica por ali por quatro anos e vai \u00e0s alturas, atingindo tr\u00eas a quatro metros. As \u00e1rvores pioneiras brotam a seu tempo, como o carvoeiro e a mamoninha, por exemplo, que vivem 15 a 20 anos. As \u00e1rvores do futuro s\u00e3o os jatob\u00e1s, o tamboril, a mutamba, as emba\u00fabas. Um angelim-de-saia pode viver 200, 300 anos. \u201cQuando se entra na floresta vemos plantas baixas, m\u00e9dias e altas. Umas fazem sombra \u00e0s outras. Com a muvuca tentamos imitar como \u00e9 na floresta\u201d, diz Veiga.<\/p>\n<p>A din\u00e2mica florestal da muvuca de sementes funciona como um concerto: cada instrumento entra na sua hora e juntos fazem uma sinfonia. \u201cO plantio de mudas para restaura\u00e7\u00e3o \u00e9 o paradigma. Mas \u00e9 uma estrat\u00e9gia cara\u201d, explica o ec\u00f3logo Daniel Luis Mascia Vieira, pesquisador da Embrapa Recursos Gen\u00e9ticos e Biotecnologia. O pre\u00e7o da restaura\u00e7\u00e3o com mudas custa o triplo daquele com sementes. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. \u201cA semeadura direta com muvuca possibilita uma taxa r\u00e1pida de recupera\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o e estrutura uma floresta estratificada\u201d, diz o pesquisador. O outro ponto \u00e9 que o plantio com muvuca propicia uma densidade alta de esp\u00e9cies. Com mudas, a m\u00e9dia \u00e9 conseguir 1.800 indiv\u00edduos por hectare. Na semeadura direta a m\u00e9dia \u00e9 de 11 mil indiv\u00edduos por hectare, cita Vieira.<\/p>\n<p>\u201cEu tinha uma certa resist\u00eancia com a muvuca de sementes. Em seis meses via s\u00f3 feij\u00e3o crescendo e nada de brotar \u00e1rvore. Na minha cabe\u00e7a, reflorestar era com muda\u201d, conta Artemizia Moita, gerente do setor ambiental da Agropecu\u00e1ria Fazenda Brasil, grupo que opera desde 2006 uma \u00e1rea de 85 mil hectares no Mato Grosso com soja, milho, algod\u00e3o e pecu\u00e1ria. \u201cHerdamos um passivo de 600 hectares a serem recuperados em \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o permanente\u201d, conta. Artemizia tinha preparado um viveiro para 100 mil mudas, mas, por via das d\u00favidas, resolveu reservar uma \u00e1rea para o plantio com mudas e outra, equivalente, para sementes. \u201cNo final do primeiro ano, eliminei o viveiro. No segundo ano, j\u00e1 tinha 100 hectares plantados com a muvuca. \u00c9 a nossa principal t\u00e9cnica\u201d, comemora. \u201cJ\u00e1 recuperamos 349 hectares e temos 130 hectares em processo\u201d, alegra-se. \u201cTudo com a muvuca de sementes\u201d.<\/p>\n<p>As m\u00e1quinas agr\u00edcolas das propriedades rurais, que jogam na terra sementes de soja, capim e adubo, s\u00e3o usadas no plantio da muvuca, mas adaptadas para espalhar sementes florestais. A semente do jatob\u00e1, por exemplo, \u00e9 grande, e sua dimens\u00e3o \u00e9 o limite de muitas m\u00e1quinas. Sementes maiores que a do jatob\u00e1 t\u00eam que ser adicionadas com outros m\u00e9todos. Todo este esfor\u00e7o d\u00e1 resultado, o que fica evidente na palestra de Eduardo Malta, consultor do ISA. Os t\u00e9cnicos mostram a foto de uma restaura\u00e7\u00e3o feita em uma fazenda em Quer\u00eancia. Em 2010, a imagem mostra uma \u00e1rea com uma \u00fanica grande \u00e1rvore e feij\u00f5es crescendo e cobrindo o solo. Quatro anos depois, outra imagem feita no mesmo lugar revela que uma mata se levantou. Sete anos depois, existem \u00e1rvores de 10 metros de altura no terreno.<\/p>\n<p>Com o tempo, o n\u00famero de coletores de sementes foi aumentando. Existe uma fila de aldeias interessadas em participar, diz o bi\u00f3logo Dannyel S\u00e1, do Programa Xingu do ISA e que desde 2012 faz o elo entre a Rede de Sementes e as aldeias do Xingu. \u201cH\u00e1 uma demanda de grupos ind\u00edgenas querendo entrar, mas o processo \u00e9 demorado. \u00c9 preciso ir conhecendo a comunidade, entender a expectativa deles, explicar o contexto. Leva um tempo, \u00e9 outro universo. Tem a barreira da l\u00edngua, eles t\u00eam que entender o processo, precisa explicar como funciona a comercializa\u00e7\u00e3o\u201d, continua S\u00e1.<\/p>\n<p>A Rede est\u00e1 inserida em uma regi\u00e3o da Amaz\u00f4nia que n\u00e3o passou pelos ciclos extrativistas que marcaram a economia de outras \u00e1reas da floresta. \u201cA semente \u00e9 a primeira atividade extrativista n\u00e3o-madeireira comercial da regi\u00e3o das cabeceiras do Xingu\u201d, contextualiza Andr\u00e9 Villas-B\u00f4as. \u201cIsso aqui \u00e9 novidade. Tanto para eles como para o modelo regional de desenvolvimento, que j\u00e1 veio com o pacote agropecu\u00e1rio\u201d, continua. \u201cE o processo \u00e9, por isso mesmo, muito cauteloso.\u201d<\/p>\n<p>Os arranjos de gest\u00e3o da Rede s\u00e3o um bordado. \u201cAprendemos coisas novas a cada dia com os agricultores e ind\u00edgenas. S\u00e3o diferen\u00e7as de contexto, de conhecimento, de experi\u00eancias, de se relacionar com o mundo. Tudo isso potencializa quando est\u00e1 junto. Lidar com a diversidade \u00e9 a principal virtude da Rede, e seu desafio\u201d, diz Dannyel S\u00e1.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Ricardo Abramovay, professor da Universidade de S\u00e3o Paulo, classifica a experi\u00eancia da Rede de Sementes como uma faceta da \u201ceconomia do cuidado\u201d. Ele atrai os olhares dos participantes do encontro ao dizer que a coleta de sementes nativas \u00e9 vetor que cultiva a diversidade e se op\u00f5e ao que ocorre como regra, uma \u201ceconomia de destrui\u00e7\u00e3o da Natureza\u201d. Ele explica: \u201c\u00c9 assim que o Brasil tem encarado esta regi\u00e3o: aqui tem energia, mat\u00e9rias-primas, um pouco de agricultura. A Amaz\u00f4nia virou uma esp\u00e9cie de almoxarifado de onde se tiram coisas. Mas o que voc\u00eas t\u00eam feito \u00e9 uma economia do conhecimento da natureza, de mobilizar informa\u00e7\u00f5es que nas escolas de agronomia n\u00e3o se ensinam\u201d, continua.<\/p>\n<p><strong>Uma ilha de floresta<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.valor.com.br\/sites\/all\/modules\/custom\/valor_especiais\/modules\/especial_xingu\/img\/mapa\/TIX_DESMATE_2016_600.png\" \/><em>Desmatamento acumulado at\u00e9 2016 nas cabeceiras do rio Xingu no Mato Grosso*.\u00a0Fonte: N\u00facleo de monitoramento de Canarana do Instituto Socioambiental (ISA). * O mapa elaborado por t\u00e9cnicos do Programa Xingu do ISA foi feito a partir de estimativas de desmatamento do INPE e dados de desmatamento de 2016 no Cerrado monitorados pelo ISA<\/em><\/p>\n<p>A sombra da mangueira atrai uma revoada de p\u00e1ssaros que fazem algazarra. Abramovay segue com sua an\u00e1lise sobre o movimento econ\u00f4mico da Rede. \u201cEntrar na economia de mercado com este conhecimento \u00e9 muito arriscado, ningu\u00e9m tem garantia que isso dar\u00e1 certo\u201d, alerta. \u201cMas j\u00e1 deu certo\u201d, corrige-se, na sequ\u00eancia. \u201cDeu certo nos milhares de hectares reflorestados a partir da economia da muvuca. Que \u00e9 linda, porque re\u00fane diversidade e conhecimento.\u201d<\/p>\n<p>O caminho da Rede foi sendo feito \u00e0 medida que surgiam as necessidades. \u201cEm 2014, a Rede era um movimento, mas sem institucionalidade\u201d, ilustra Rodrigo Junqueira. Para comercializar sementes era preciso buscar outro formato. Foi quando se criou a Associa\u00e7\u00e3o Rede de Sementes do Xingu, como um cons\u00f3rcio de microempreendedores individuais.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o tem regras e crit\u00e9rios claros. \u201cA Rede \u00e9 uma muvuca de pessoas. Como na floresta, cada um tem uma fun\u00e7\u00e3o\u201d, diz Claudia Alves de Ara\u00fajo, uma das diretoras da entidade. Para entrar, \u00e9 preciso ser aceito pelo grupo. Durante a coleta, pelo menos 30% dos frutos t\u00eam que ser deixados na \u00e1rvore. O coletor que tiver passivo de \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Permanente ou de Reserva Legal em sua terra tem que restaurar meio hectare ao ano. Isso ajuda o ambiente e tamb\u00e9m a aproximar a coleta dos coletores. \u201cQuer\u00edamos aproximar as \u00e1rvores que s\u00e3o matrizes de sementes\u201d, refor\u00e7a Bruna Dayanna Ferreira de Souza, tamb\u00e9m diretora da Associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra regra da entidade \u00e9 a que diz que o coletor deve reservar 10% dos rendimentos e destinar 5% para a Associa\u00e7\u00e3o, que em 2018 tem custo estimado de R$ 750 mil entre sal\u00e1rios, luz, internet, publica\u00e7\u00f5es, pesquisas e outros gastos. Outros 5% v\u00e3o para o grupo ao qual o coletor pertence e que decidir\u00e1 como usar os recursos. \u201cNunca me imaginei estar dentro de um movimento como este, e menos ainda como lideran\u00e7a\u201d, diz Acr\u00edsio dos Reis, o terceiro diretor da Associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma parte das sementes da Rede vai para projetos como o do Rock in Rio, de restaura\u00e7\u00e3o florestal na Amaz\u00f4nia. Outra segue para \u00e1reas de fixa\u00e7\u00e3o de carbono. Uma terceira frente \u00e9 a de fazendeiros das bacias do Xingu-Araguaia que buscam restaurar matas ciliares e outra \u00e9 a da recupera\u00e7\u00e3o das florestas pr\u00f3ximas \u00e0s pequenas centrais hidrel\u00e9tricas.<\/p>\n<p>O depoimento do empres\u00e1rio Edimarcio de Ara\u00fajo Prudente \u00e9 interessante. Ele era o respons\u00e1vel ambiental pelo grupo Gerdau e tinha que reflorestar 1.320 hectares em volta dos reservat\u00f3rios do grupo. Come\u00e7aram com mudas em 30 hectares, mas n\u00e3o deu certo. \u201cAs mudas n\u00e3o resistiam ao calor e eram caras\u201d, conta. Prudente soube da muvuca por acaso, assistindo TV. Testou a t\u00e9cnica em 10 hectares. \u201cCom a muvuca tivemos um resultado excelente. Nos 450 hectares que plantamos em 2012 j\u00e1 conseguimos um sub-bosque\u201d, diz ele, que saiu da Gerdau e montou uma empresa que trabalha neste mercado. A Borges &amp; Prudente \u201cdepende totalmente das sementes do Xingu\u201d, diz. Ele acredita que com a regulariza\u00e7\u00e3o ambiental dos propriet\u00e1rios rurais, iniciativas como esta \u201cs\u00f3 far\u00e3o crescer\u201d.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da Rede come\u00e7a a servir de modelo tamb\u00e9m na Mata Atl\u00e2ntica, entre as comunidades quilombolas do Vale do Ribeira. \u201c\u00c9 ali que est\u00e1 o \u00faltimo grande remanescente cont\u00ednuo de Mata Atl\u00e2ntica\u201d, diz Raquel Pasinato, coordenadora do programa Vale do Ribeira do ISA. As comunidades quilombolas n\u00e3o apenas conservaram a mata, como uma quantidade impressionante de variedades agr\u00edcolas, de arroz e milho, de feij\u00e3o e mandioca. A ideia \u00e9 estimular a cria\u00e7\u00e3o da Rede de Sementes Quilombola. Uma comunidade j\u00e1 tem experi\u00eancia com viveiro de mudas e come\u00e7a a testar a venda de sementes de jatob\u00e1, pau-jacar\u00e9, jacarand\u00e1 e outras esp\u00e9cies da Mata Atl\u00e2ntica. J\u00e1 come\u00e7aram a levantar o que tem na mata. Listam olho-de-cabra, emba\u00faba-vermelha, ara\u00e7\u00e1-branco e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o do pioneirismo da Rede do Xingu \u00e9 tamb\u00e9m destravar grandes entraves burocr\u00e1ticos. J\u00e1 se conseguiu o Registro Nacional de Sementes e Mudas (Renasem) e a Associa\u00e7\u00e3o pode comercializar as sementes florestais. Mas h\u00e1 outras dificuldades. \u201cA legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 modelada pelo Minist\u00e9rio da Agricultura, que usa como modelo sementes agr\u00edcolas, que \u00e9 algo totalmente diferente das sementes florestais\u201d, diz a professora Fatima Pi\u00f1a-Rodrigues, da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar-Sorocaba). No encontro da Rede, ela explica aos coletores como podem fazer testes simples para observar a qualidade das sementes.<\/p>\n<p>A regulamenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o contempla a diversidade das sementes florestais nativas brasileiras e este \u00e9 um grande desafio da Rede. As regras de controle fitossanit\u00e1rio iniciadas na d\u00e9cada de 70 regularam o boom florestal do pinus e eucalipto, que t\u00eam material gen\u00e9tico homog\u00eaneo. A lei que disp\u00f5e sobre o Sistema Nacional de Sementes e Mudas, de 2003, d\u00e1 as regras para a comercializa\u00e7\u00e3o ao mercado. Funciona bem para o espectro de sementes agr\u00edcolas das grandes empresas, mas a produ\u00e7\u00e3o da floresta \u00e9 completamente diferente.<\/p>\n<p>Os laborat\u00f3rios credenciados para analisar o material s\u00e3o poucos, distantes e caros. Os lotes de muvucas do ISA e da Rede podem ter 220 esp\u00e9cies. As sementes de jatob\u00e1 da Rede, para se ter uma ideia, v\u00eam de 14 n\u00facleos diferentes. \u201cE ent\u00e3o, como se legaliza este setor?\u201d, questiona o engenheiro florestal Danilo Ignacio, consultor da Rede. \u201cNunca no Brasil tivemos uma produ\u00e7\u00e3o de sementes florestais nativas nesta escala. A dificuldade \u00e9 como ir adiante com um sistema engessado e que desconhece a realidade rural\u201d.<\/p>\n<p>O resultado do trabalho em torno das sementes amaz\u00f4nicas vai al\u00e9m da renda e da restaura\u00e7\u00e3o das nascentes do Xingu. \u201c\u00c9 muito mais que isso. Tem a ver com a troca de experi\u00eancias entre \u00edndios, agricultores e ribeirinhos. Este conhecimento se traduz, tamb\u00e9m, em seguran\u00e7a alimentar. E h\u00e1 ainda o retorno dos jovens \u00e0s suas comunidades, valorizando a import\u00e2ncia da coleta e o conhecimento dos mais velhos\u201d, lista Heber Queiroz Alves, gerente do escrit\u00f3rio de Canarana do ISA.<\/p>\n<p>Um debate que se coloca agora \u00e9 como a Rede pode ganhar escala respeitando seu modelo produtivo diversificado. Existem algumas oportunidades. \u201cAs solu\u00e7\u00f5es para recuperar \u00c1reas de Preserva\u00e7\u00e3o Permanente est\u00e3o dadas e s\u00e3o claras\u201d, diz Rodrigo Junqueira. \u201cMas no caso da recupera\u00e7\u00e3o da Reserva Legal, o desafio \u00e9 muito maior\u201d, exemplifica. As RL, j\u00e1 se sabe, s\u00e3o a maior express\u00e3o de revolta do agroneg\u00f3cio. \u201c\u00c9 preciso que as RL sejam produtivas e resultem em alguma rentabilidade com o manejo da floresta\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>A Rede \u00e9 uma experi\u00eancia em que \u201ca produ\u00e7\u00e3o de sementes florestais para a restaura\u00e7\u00e3o de ecossistemas degradados pode constituir um caminho para valoriza\u00e7\u00e3o da biodiversidade com inclus\u00e3o socioecon\u00f4mica\u201d, resume o agr\u00f4nomo. A bi\u00f3loga Nurit Bensusan, coordenadora-adjunta do programa de pol\u00edtica e direito socioambiental do ISA, entende a Rede pela sua dimens\u00e3o social. \u201c\u00c9 um processo que tem compromisso com a autonomia dessas popula\u00e7\u00f5es\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>O objetivo clim\u00e1tico brasileiro de reflorestar 12 milh\u00f5es de hectares at\u00e9 2030 \u00e9 promissor para quem trabalha com sementes florestais nativas. Mas h\u00e1 que ter cuidado. \u201cA floresta n\u00e3o \u00e9 um conjunto de \u00e1rvores. \u00c9 um conjunto de intera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas\u201d, lembra Nurit. \u201cTemos que conhecer e valorizar os nossos biomas e tamb\u00e9m conseguir que a sociedade reconhe\u00e7a a import\u00e2ncia de se fazer a recomposi\u00e7\u00e3o dos ecossistemas\u201d, continua Rodrigo Junqueira. \u201cComo podemos restaurar o Brasil achando que o governo cuidar\u00e1 de cada \u00e1rvore?\u201d, pergunta. \u201cTemos que criar as condi\u00e7\u00f5es para a natureza agir como ela \u00e9.\u201d<\/p>\n<p>A rep\u00f3rter viajou ao Parque Ind\u00edgena do Xingu a convite do Instituto Socioambiental (ISA)<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Daniela Chiaretti, do Diauarum, Parque Ind\u00edgena do Xingu (PIX), Valor Econ\u00f4mico de\u00a025 de setembro de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comunidades na Amaz\u00f4nia recolhem sementes para restaurar florestas desmatadas Makawa Ikpeng diz que sempre colheu sementes de jatob\u00e1, roxinho, cumaru e orelha de macaco. 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