{"id":21497,"date":"2017-10-09T17:00:51","date_gmt":"2017-10-09T20:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=21497"},"modified":"2017-10-09T14:59:07","modified_gmt":"2017-10-09T17:59:07","slug":"o-colapso-ambiental-tem-forma-de-bife","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-colapso-ambiental-tem-forma-de-bife\/","title":{"rendered":"O colapso ambiental tem forma de bife"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gastrolandia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/hitch-cattle-feeders-guymon-oklahoma1.jpg\" \/><em>Vacas em cria\u00e7\u00e3o intensiva nos EUA. No mundo, s\u00e3o abatidos 296 milh\u00f5es de bovinos por ano<\/em><\/p>\n<p>Se voc\u00ea soubesse que um dos alimentos mais presentes no seu dia-a-dia \u00e9 o respons\u00e1vel pela contamina\u00e7\u00e3o de rios, lagos e mares com detritos qu\u00edmicos altamente t\u00f3xicos, cogitaria parar de com\u00ea-lo?<\/p>\n<p>Se mostrassem a voc\u00ea estudos comprovando que a produ\u00e7\u00e3o deste mesmo alimento \u00e9 a principal raz\u00e3o para o desmatamento do Cerrado e da Amaz\u00f4nia, tiraria ele do seu prato?<\/p>\n<p>Se provassem que para aquela comida chegar at\u00e9 sua mesa houvesse m\u00faltiplos processos de maus tratos, manipula\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas e aplica\u00e7\u00e3o excessiva de antibi\u00f3ticos e horm\u00f4nios em animais, pensaria em, quem sabe, diminuir seu consumo?<\/p>\n<p>Se a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade emitisse um alerta sobre a liga\u00e7\u00e3o da ingest\u00e3o deste alimento com o aumento da possibilidade de desenvolvimento de determinados tipos de c\u00e2ncer, repensaria seu apre\u00e7o por ele?<\/p>\n<p>Pois se voc\u00ea come derivados de animais \u2013 carne, leite, queijo, ovos -, pode ir pensando nas respostas, porque as perguntas s\u00e3o para voc\u00ea.<\/p>\n<p><em>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 nada no cen\u00e1rio global atual que acarrete t\u00e3o variados e imensos impactos ambientais quanto o crescente consumo de carne.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 sabido o papel que a queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis e o sistema de transporte tem no aumento da emiss\u00e3o de gases do efeito estufa.<\/p>\n<p>Discute-se cada vez mais o uso indiscriminado de agrot\u00f3xicos e pesticidas e seus efeitos no solo, \u00e1gua e na sa\u00fade humana.<\/p>\n<p>S\u00e3o temas intrinsecamente pol\u00eamicos, decerto, mas imposs\u00edveis de serem evitados por governos, jornalistas, documentaristas. Apontar a liga\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca da cadeia da produ\u00e7\u00e3o de carne com as maiores mazelas ambientais da atualidade, por\u00e9m, ainda \u00e9 tabu. Ainda \u00e9 visto por muitos como \u2018exagero\u2019. A humanidade est\u00e1 em nega\u00e7\u00e3o \u2013 mas n\u00e3o conseguir\u00e1 permanecer assim por muito mais tempo. \u201cO consumo de alimentos derivados de animais \u00e9 uma das maiores e mais negativas for\u00e7as a afetar a conserva\u00e7\u00e3o dos ecossistemas terrestres e marinhos e sua biodiversidade. A produ\u00e7\u00e3o de gado e de gr\u00e3os para sua alimenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o as maiores causas de perda de habitat\u201d \u2013 trecho do estudo <a href=\"http:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0048969715303697\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Biodiversity conservation: The key is reducing meat consumption<\/a>, realizado por cientistas da Florida International University e do Department of Forest Ecosystems and Society da Oregon State University.<\/p>\n<div class=\"issuuembed\" style=\"width: 600px; height: 400px;\" data-configid=\"4622892\/54118060\"><\/div>\n<p><script type=\"text\/javascript\" src=\"\/\/e.issuu.com\/embed.js\" async=\"true\"><\/script><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gastrolandia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carnes.jpg\" \/><\/p>\n<p>Para tratar deste assunto de maneira a facilitar a compreens\u00e3o, esta reportagem \u00e9 dividida em blocos de itens primordiais ligados ao tema. Os dados expostos foram retirados de recentes estudos cient\u00edficos (sempre haver\u00e1 um link de direcionamento) e entrevistas com especialistas. S\u00e3o eles:<\/p>\n<ul>\n<li>Cynthia Schuck-Paim, PHD pela Universidade de Oxford (Reino Unido) em Biologia Evolutiva, Economia Experimental e Etologia Cognitiva; p\u00f3s-doutorada em an\u00e1lise de dados nas \u00e1reas de ci\u00eancias biol\u00f3gicas e biom\u00e9dicas; pesquisadora em artigos publicados em dezenas de revistas internacionais; S\u00f3cia- Diretora da Origem Scientifica.<\/li>\n<li>Carlos Afonso Nobre, climatologista doutorado em Meteorologia pelo Massachusetts Institute of Technology, ex-Secret\u00e1rio de Pol\u00edticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Minist\u00e9rio de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o \u2013 MCTI (Fevereiro 2011-Fevereiro 2015), Coordenador do Instituto Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia para Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, membro do \u201cHigh Level Scientific Advisory Panel on Global Sustainability\u201d do Secret\u00e1rio Geral da ONU.<\/li>\n<li>Dr. Luiz Fernando Sella, formado em Medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com especializa\u00e7\u00f5es no Wildwood Lifestyle Center &amp; Hospital e no Institute of Lifestyle Medicine, da Universidade de Harvard; mestre em Sa\u00fade P\u00fablica pela Loma Linda University (EUA).<\/li>\n<li>Alessandra Luglio, Nutricionista graduada pela Universidade de S\u00e3o Paulo; Diretora fundadora do Departamento de Nutri\u00e7\u00e3o e Sustentabilidade da ABRASFEV \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Funcional e Estilo de Vida; Diretora do Departamento de Sa\u00fade e Nutri\u00e7\u00e3o da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB)<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Animais para consumo humano, inefici\u00eancia energ\u00e9tica e contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua<\/strong><\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o do planeta, em 2017, passou dos sete bilh\u00f5es de habitantes. Segundo a FAO (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Agricultura e Alimenta\u00e7\u00e3o), em 2015, abatemos cerca de 70 bilh\u00f5es de animais terrestres e mais de 2 trilh\u00f5es de animais aqu\u00e1ticos para consumo humano. Para alimentar estes animais, s\u00e3o usadas aproximadamente dez vezes mais calorias do que as contidas em sua carne. Ou seja: a conta n\u00e3o fecha.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gastrolandia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/calorias.jpg\" \/><\/p>\n<p>\u201cA produ\u00e7\u00e3o de itens de origem animal, do ponto de vista energ\u00e9tico, \u00e9 extremamente ineficiente. As plantas convertem energia solar em energia qu\u00edmica, comest\u00edvel. Os animais precisam se alimentar dessas plantas para produzir a carne, os ovos, o leite, que servir\u00e3o de alimento para a popula\u00e7\u00e3o humana. S\u00f3 que a maior parte da energia ingerida por eles n\u00e3o \u00e9 transformada em carne: 90% dela \u00e9 usada para o animal sobreviver, manter a temperatura corp\u00f3rea, etc. Sendo assim, eles consomem v\u00e1rias vezes mais energia do que produzem\u201d, diz a cientista Cynthia Schuck-Paim. De acordo com <a href=\"http:\/\/journals.ametsoc.org\/doi\/pdf\/10.1175\/EI167.1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estudo realizado pelo Departamento de ci\u00eancias geof\u00edsicas da Universidade de Chicago<\/a>, o contraste entre alimentos de origem animal e vegetal em termos de efici\u00eancia energ\u00e9tica \u00e9 enorme: enquanto a soja tem uma taxa de efici\u00eancia (a raz\u00e3o entre calorias produzidas e calorias utilizadas) de 415, a da carne bovina \u00e9 de 6,479. \u201cNeste processo, o emprego de recursos naturais \u00e9 imenso: uso extensivo de terra \u2013 seja para pastagem ou para produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os para ra\u00e7\u00e3o \u2013 e de \u00e1gua, tanto para irrigar os cultivos quanto \u00e1gua para os animais beberem e para o processo de abate\u201d, continua.<\/p>\n<div class=\"issuuembed\" style=\"width: 600px; height: 400px;\" data-configid=\"4622892\/54118207\"><\/div>\n<p><script type=\"text\/javascript\" src=\"\/\/e.issuu.com\/embed.js\" async=\"true\"><\/script><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gastrolandia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/agua-2.jpg\" \/><\/p>\n<p>O gasto de \u00e1gua seria, por si s\u00f3, preocupante: o setor agropecu\u00e1rio \u00e9 respons\u00e1vel por mais de 90% do consumo global (um ter\u00e7o disso se destina a irriga\u00e7\u00e3o dos cultivos para ra\u00e7\u00e3o). O fator mais agravante, por\u00e9m, \u00e9 como essa \u00e1gua volta para a natureza: como pouqu\u00edssimos produtores de carne\/leite fazem a gest\u00e3o de res\u00edduos, por ser um processo de alto investimento financeiro, os efluentes l\u00edquidos provenientes dos abatedouros tem forte carga de mat\u00e9ria org\u00e2nica (sangue, gordura, v\u00edsceras e restos de carca\u00e7as) e elevada concentra\u00e7\u00e3o de nitrog\u00eanio, f\u00f3sforo e produtos de limpeza. Esse l\u00edquido de descarte infiltra-se no solo, polui os len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos, aqu\u00edferos e os cursos de \u00e1gua, desembocando em rios e, por consequ\u00eancia, nos mares. A quest\u00e3o \u00e9 t\u00e3o alarmante que o efeito do descarte l\u00edquido da agropecu\u00e1ria, somado ao uso intensivo de agrot\u00f3xicos, pesticidas e antibi\u00f3ticos, \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de mais de 115 zonas mortas oce\u00e2nicas, sendo a maior delas a do Golfo do M\u00e9xico, com 21 mil km2, segundo o <a href=\"http:\/\/www.noaa.gov\/media-release\/gulf-of-mexico-dead-zone-is-largest-ever-measured\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">National Oceanic and Atmospheric Administration<\/a>.<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia do montante de dejetos:<\/p>\n<ul>\n<li>Uma vaca leiteira produz aproximadamente 50 litros de excrementos por dia, <a href=\"http:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0961953412000414\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">25 vezes mais do que a quantidade de dejetos produzida por uma pessoa<\/a>;<\/li>\n<li>No estado de Santa Catarina, <a href=\"http:\/\/www.anppas.org.br\/encontro6\/anais\/ARQUIVOS\/GT7-946-803-20120621110037.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a emiss\u00e3o de dejetos e efluentes n\u00e3o tratados<\/a> da cria\u00e7\u00e3o de mais de 8 milh\u00f5es de su\u00ednos chega a mais de 75 milh\u00f5es de litros de por dia;<\/li>\n<li>Apenas nos Estados Unidos, a produ\u00e7\u00e3o de excrementos de bois, porcos e galinhas \u00e9 de <a href=\"https:\/\/data.globalchange.gov\/report\/nass-geographicareaseries-51-ac-07-a-51\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mais de 1,1 bilh\u00e3o de toneladas por ano<\/a>; ou seja, mais de 30 mil quilos por segundo.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Desmatamento, efeito estufa e desertifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gastrolandia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/DESMATAMENTO-BR-163_FOTO-Karla-Gachet-GREENPEACE.jpg\" \/><em>Desmatamento em Santar\u00e9m, no Par\u00e1 (Foto: Karla Gachet\/Geenpeace)<\/em><\/p>\n<p>Para alimentar os trilh\u00f5es de animais de corte que saciam nosso apetite, \u00e9 necess\u00e1rio plantar o que eles ir\u00e3o comer. Atualmente, cerca de <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/nature\/journal\/v478\/n7369\/full\/nature10452.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">30% das \u00e1reas do globo livres de gelo s\u00e3o usadas como pastagem<\/a> (equivalente ao tamanho da \u00c1frica) e um ter\u00e7o dos 3 bilh\u00f5es de hectares de terras produtivas da Terra s\u00e3o utilizadas para planta\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os destinados a ra\u00e7\u00e3o de porcos, galinhas, vacas, ovelhas, cabras, peixes. Utilizamos quase metade das \u00e1reas ar\u00e1veis do mundo para pastagem ou produ\u00e7\u00e3o de ra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como o consumo de alimentos derivados de animais ainda est\u00e1 em crescimento, especialmente nos pa\u00edses emergentes como China e Brasil, a tend\u00eancia \u00e9 precisarmos de cada vez mais terra. A abertura de novas pastagens ou \u00e1reas de monocultura de gr\u00e3os est\u00e3o avan\u00e7ando, grandemente, nas florestas tropicais, especialmente na Amaz\u00f4nia. \u201cA pecu\u00e1ria responde por 65% dos desmatamentos na Amaz\u00f4nia\u201d, diz o climatologista Carlos Afonso Nobre, que estuda h\u00e1 d\u00e9cadas o impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na regi\u00e3o. \u201cEste setor provoca um paradoxo imposs\u00edvel de resolver: se a produtividade da \u00e1rea \u00e9 otimizada e a pecu\u00e1ria se torna mais rent\u00e1vel, traz mais capital e termina por aumentar o desmatamento. Se o manejo \u00e9 primitivo, como \u00e9 desde a implementa\u00e7\u00e3o da pecu\u00e1ria na Amaz\u00f4nia, as pastagens aguentam, no m\u00e1ximo, 5 anos e depois s\u00e3o abandonadas\u201d, explica.<\/p>\n<p>Nobre continua: \u201cAnalisando dados dos estudos que publiquei, chegamos a conclus\u00e3o que com o aquecimento global, somado a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, ao desmatamento e ao impacto do fogo, podemos perder at\u00e9 60% da Amaz\u00f4nia ainda neste s\u00e9culo. Perder\u00edamos tamb\u00e9m 40% das 1,2 milh\u00f5es de esp\u00e9cies (fauna e flora), das quais s\u00f3 conhecemos 70, 80 mil\u201d.<\/p>\n<p>O que se v\u00ea maci\u00e7amente na televis\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 que o agroneg\u00f3cio \u00e9 a riqueza maior do Brasil, respons\u00e1vel por parcela significativa do PIB e por nos salvar da pior crise econ\u00f4mica da hist\u00f3ria. A tv Globo recheia seus breaks comerciais com propagandas da s\u00e9rie \u201cAgro \u00e9 Pop\u201d, dizendo ao povo brasileiro que n\u00e3o s\u00f3 somos sustent\u00e1veis, como somos um exemplo pro mundo. Ser\u00e1? \u201c<a href=\"http:\/\/cebds.org\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/GIZ-Natural-Capital-Risk-Exposure.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">C\u00e1lculos realizados<\/a> pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (CEBDS) e pela Ag\u00eancia Alem\u00e3 para a Coopera\u00e7\u00e3o Internacional (GIZ) apontaram que para cada R$ 1 milh\u00e3o de receita gerada pela pecu\u00e1ria, acarreta-se R$ 22 milh\u00f5es de custos ambientais n\u00e3o contabilizados, principalmente em desmatamento e emiss\u00e3o de gases-estufa\u201d, aponta Cynthia. \u201cQuando se diz que a agroind\u00fastria salva a economia brasileira se est\u00e1 mostrando s\u00f3 uma parte da hist\u00f3ria: todos esses custos associados quem paga \u00e9 a sociedade, seja em perda de capital natural, atrav\u00e9s de subs\u00eddios governamentais para essa ind\u00fastria ou com o impacto gerado no sistema de sa\u00fade p\u00fablica pelo consumo de seus produtos. O custo da agropecu\u00e1ria \u00e9 muito maior do que a renda que ela gera, mas isso \u00e9 invis\u00edvel para a maioria das pessoas\u201d, explica.<\/p>\n<div class=\"issuuembed\" style=\"width: 600px; height: 400px;\" data-configid=\"4622892\/54118577\"><\/div>\n<p><script type=\"text\/javascript\" src=\"\/\/e.issuu.com\/embed.js\" async=\"true\"><\/script><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/gastrolandia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/fd22acea5118f87bf2a8acdbe593ea36-fruit-trees-palm-trees.jpg\" width=\"756\" height=\"1008\" \/><em>Exemplo da economia de Floresta em P\u00e9 \u00e9 o a\u00e7a\u00ed: as \u00e1rvores s\u00e3o cultivadas em sistema agroflorestal. A produ\u00e7\u00e3o do a\u00e7a\u00ed na Amaz\u00f4nia j\u00e1 movimenta 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares\/ano. Imagem retirada do Pinterest<\/em><\/p>\n<p>Animais de corte, especialmente gado, jogam na atmosfera metano (resultante do processo de digest\u00e3o de ruminantes e do manejo de esterco) e \u00f3xido nitroso (volatilizado de dejetos de cria\u00e7\u00f5es e de fertilizantes usados no cultivo), gases que contribuem com o efeito estufa de maneira muito mais intensa \u2013 vinte e trinta vezes maior, respectivamente \u2013 do que o CO2, produzido principalmente pelo sistema de transporte. Em 2013, o Sistema de Estimativa de Emiss\u00f5es de Gases de Efeito Estufa (SEEG-Brasil) <a href=\"http:\/\/seeg.eco.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/WIP-16-09-02-RelatoriosSEEG-Sintese.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">publicou que o setor agropecu\u00e1rio brasileiro contribuiu com cerca de 30% das emiss\u00f5es do pa\u00eds<\/a> (84% deles, provenientes da pecu\u00e1ria). Se essa conta levasse em considera\u00e7\u00e3o o desmatamento para expans\u00e3o agr\u00edcola, o uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis na agricultura e o tratamento de efluentes, a agropecu\u00e1ria brasileira responderia por 60% do total.<\/p>\n<p>\u201cO agroneg\u00f3cio dos pa\u00edses tropicais \u00e9 expansionista. O setor ainda est\u00e1 fazendo grandes mudan\u00e7as no padr\u00e3o de uso da terra. Os documentos da EMBRAPA e do Grupo de Trabalho da Pecu\u00e1ria Sustent\u00e1vel dizem que at\u00e9 2030 o Brasil produzir\u00e1 <a href=\"http:\/\/www.gtps.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Boas-Praticas-Agropecu%C3%A1rias-Reduzem-as-Emiss%C3%B5es-da-Pecuaria-de-Corte-na-Amazonia_IMAFLORA.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">35% mais carne em \u00e1rea 25% menor<\/a>, convertendo parte dela para planta\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os e restaura\u00e7\u00e3o florestal. Ser\u00e1? No plano, n\u00e3o d\u00e1 pra criticar. Mas j\u00e1 estamos a 13 anos do prazo e isso n\u00e3o est\u00e1 acontecendo. Pelo contr\u00e1rio: o desmatamento aumentou, tanto na Amaz\u00f4nia quanto no Cerrado. Ent\u00e3o s\u00f3 acreditarei no discurso quando a ci\u00eancia me revelar que est\u00e1, de fato, acontecendo\u201d, fala Nobre.<\/p>\n<p>E h\u00e1, sim, outro modelo de crescimento econ\u00f4mico na Amaz\u00f4nia que n\u00e3o inclua devasta-la: \u00e9 a economia da floresta em p\u00e9. \u201cHoje, a Amaz\u00f4nia exporta mat\u00e9ria muito prim\u00e1ria: min\u00e9rio de ferro, madeira e carne. A economia da floresta em p\u00e9, baseada em produtos de alto valor potencial, \u00e9 muito poderosa: j\u00e1 h\u00e1 identificado cerca de 1000 produtos naturais, sendo 300 deles profundamente estudados em termos de adensamento agroflorestal\u201d, fala Nobre. \u201cA\u00e7a\u00ed \u00e9 um exemplo. Movimenta atualmente quase o mesmo montante da madeira, que \u00e9 quase toda ilegal, cerca de 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares\/ano (carne, 5 bi\/ano). Em segundo vem a castanha do par\u00e1. Mas h\u00e1 uma s\u00e9rie de outros: guaran\u00e1, andiroba, copa\u00edba, pau-rosa\u2026 A Natura \u00e9 uma empresa que j\u00e1 trabalha com esse potencial. Descobriu novo uso para a ucuuba (semente de \u00e1rvore amaz\u00f4nica amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o, com alta concentra\u00e7\u00e3o de \u00f3leo, muito usado na ind\u00fastria de cosm\u00e9ticos como hidratante) e manteve 1500 fam\u00edlias na ilha de Cotijuba, produzindo em sistema agroflorestal. A renda da popula\u00e7\u00e3o aumentou tr\u00eas vezes \u2013 e com isso n\u00e3o tiram a madeira, coisa que faziam apenas a cada 25 anos\u201d, diz. \u201cN\u00e3o existe nada que impe\u00e7a uma pol\u00edtica p\u00fablica que incentive a economia de floresta em p\u00e9. No papel, h\u00e1 subs\u00eddios governamentais para isso, mas nunca s\u00e3o implementados\u201d, fala Nobre.<\/p>\n<p><strong>\u00c9tica: a quest\u00e3o relegada ao sil\u00eancio<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gastrolandia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/suino.jpg\" \/><em>Cria\u00e7\u00e3o de porcos-padr\u00e3o: assim vivem os animais que comemos<\/em><\/p>\n<p>\u201cO que torna a sina dos animais de fazenda domesticados particularmente dif\u00edcil n\u00e3o \u00e9 exatamente o modo como eles morrem, mas, acima de tudo, o modo como eles vivem. Infelizmente, os humanos podem causar grande sofrimento aos animais de fazenda de v\u00e1rias maneiras, mesmo quando asseguram sua sobreviv\u00eancia e sua reprodu\u00e7\u00e3o. A raiz do problema \u00e9 que os animais domesticados herdaram de seus antepassados selvagens muitas necessidades f\u00edsicas, emocionais e sociais que seriam sup\u00e9rfluas na fazenda dos humanos. Os agricultores, rotineiramente, ignoram essas necessidades sem sofrer por isso nenhuma puni\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito econ\u00f4mico. Eles prendem os animais em gaiolas min\u00fasculas, mutilam seus chifres, caudas e bicos, separam m\u00e3es de crias e seletivamente criam monstruosidades. Os animais sofrem imensamente, embora continuem a viver e a se multiplicar\u201d.<\/p>\n<p>As palavras precisas sobre a pecu\u00e1ria moderna s\u00e3o de Yuval Noah Harari, em seu livro Homo Deus, Uma Breve Hist\u00f3ria do Amanh\u00e3. Harari, PHD em hist\u00f3ria pela Universidade de Oxford, dedica v\u00e1rias p\u00e1ginas da sua obra ao tema amplamente enfiado debaixo do tapete da sociedade: o modo com que tratamos os animais que nos servem de alimento.<\/p>\n<div class=\"issuuembed\" style=\"width: 600px; height: 400px;\" data-configid=\"4622892\/54119335\"><\/div>\n<p><script type=\"text\/javascript\" src=\"\/\/e.issuu.com\/embed.js\" async=\"true\"><\/script><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gastrolandia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/slaughterhouse-al-kabeer.jpg\" \/><em>Abate: imagens que n\u00e3o queremos associar com o hamb\u00farguer que comemos<\/em><\/p>\n<p>Esque\u00e7a as imagens id\u00edlicas das embalagens: a vaquinha leiteira n\u00e3o pasta feliz no campo, o porquinho n\u00e3o vive solto, a galinha n\u00e3o sai ciscando pelo quintal.<\/p>\n<p>A realidade da vaca \u00e9 tomar horm\u00f4nio por boa parte do ano, para continuar lactando, enquanto \u00e9 separada de seu bezerro em poucas semanas (o final dele, se for macho, \u00e9 virar vitelo; se for f\u00eamea \u00e9 ser emprenhada o quanto antes para produzir leite) e ordenhada v\u00e1rias vezes por dia por m\u00e1quinas de suc\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A realidade do porco \u00e9 viver em baias de cimento t\u00e3o pequenas que, por vezes, a porca n\u00e3o consegue nem ficar de p\u00e9 para amamentar.<\/p>\n<p>A realidade das galinhas poedeiras \u00e9 passar a exist\u00eancia numa gaiola menor que uma folha de papel, ter o bico cortado para n\u00e3o machucar as outras devido ao estresse, ingerir antibi\u00f3tico na ra\u00e7\u00e3o para n\u00e3o morrer \u2018antes da hora\u2019.<\/p>\n<p>\u201cMesmo que tivessem boas condi\u00e7\u00f5es de vida, a gen\u00e9tica deles est\u00e1 transformada de tal forma que s\u00e3o animais invi\u00e1veis do ponto de vista de bem estar. \u00c9 uma exist\u00eancia sofrida\u201d, diz Cynthia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gastrolandia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/galinha.jpg\" \/><em>99% dos ovos que \u00e0 venda s\u00e3o provenientes do sistema de bateria, no qual as galinhas vivem amontoadas, sem espa\u00e7o nem para abrir as asas, por cerca de dois anos<\/em><\/p>\n<p>Vida miser\u00e1vel em ambientes superpopulosos, excesso de de antibi\u00f3ticos e promotores de crescimento (em alguns casos, horm\u00f4nios), alimenta\u00e7\u00e3o a base de gr\u00e3os cultivados com grande carga de pesticida: esse cen\u00e1rio n\u00e3o poderia produzir, e n\u00e3o produz, animais saud\u00e1veis. Nem para eles, nem para quem os consome.<\/p>\n<p>\u201cEst\u00e1 mais do que comprovada a rela\u00e7\u00e3o do excesso de consumo de prote\u00edna animal ao aparecimento de doen\u00e7as cr\u00f4nicas como as cardiovasculares, tipos de c\u00e2ncer, diabetes e obesidade. No universo cient\u00edfico h\u00e1 consenso quanto a import\u00e2ncia de se ingerir muito mais vegetais do que animais: as pesquisas s\u00e3o abundantes nesse sentido. Por\u00e9m h\u00e1 um descompasso entre o saber cient\u00edfico e a pr\u00e1tica profissional\u201d pontua o m\u00e9dico Luiz Fernando Sella. \u201cA medicina ser t\u00e3o desconectada da nutri\u00e7\u00e3o \u00e9 um absurdo\u201d.<\/p>\n<p>Exemplo do efeito cascata gerado pelo m\u00e9todo industrial de produ\u00e7\u00e3o de animais de corte est\u00e1 na gordura da carne, aquela parte que muita gente saliva de prazer s\u00f3 de pensar. Melhor pensar. Duas vezes. \u201c<a href=\"https:\/\/periodicos.ufersa.edu.br\/index.php\/acta\/article\/viewFile\/2383\/5128\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Os pesticidas organoclorados se acumulam na gordura do animal<\/a>. Quando ingerimos essa gordura, ingerimos tamb\u00e9m o res\u00edduo do pesticida\u201d, diz Dr. Sella. Os organofosforados e carbamatos s\u00e3o compostos qu\u00edmicos amplamente utilizados na agropecu\u00e1ria como inseticidas, no controle de pragas em planta\u00e7\u00f5es e de parasitas em animais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gastrolandia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/AR-170329871.jpg\" \/><em>Transporte de leit\u00f5es: amontoados, tratados como carga<\/em><\/p>\n<p>Outro fator de alerta decorrente do sistema intensivo de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 a crescente resist\u00eancia a antibi\u00f3ticos \u2013 por parte dos humanos e dos animais. A maioria dos animais criados para consumo (principalmente galinha, porco e salm\u00e3o) recebe rotineiramente doses de antibi\u00f3ticos e outros compostos com atividade antibacteriana (como quimioter\u00e1picos) para garantir sua sobreviv\u00eancia e r\u00e1pido ganho de peso. Alguns desses medicamentos s\u00e3o os mesmos recomendados a humanos. A administra\u00e7\u00e3o excessiva faz com que as bact\u00e9rias, em vez de morrerem, se adaptem ao \u2018veneno\u2019, evoluindo para bact\u00e9rias superresistentes.<\/p>\n<p>De acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, se a\u00e7\u00f5es urgentes n\u00e3o forem tomadas, entraremos em breve numa era \u2018p\u00f3s-antibi\u00f3tico\u2019, na qual uma simples infec\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser fatal.<\/p>\n<p><strong>O p\u00e2nico da falta de prote\u00ednas<\/strong><\/p>\n<p>As duas quest\u00f5es mais frequentes diante da constata\u00e7\u00e3o que alimentos derivados de animais n\u00e3o s\u00e3o assim t\u00e3o ben\u00e9ficos nem pra sa\u00fade humana, tampouco para o meio ambiente \u00e9 \u201cIsso \u00e9 besteira: somos carn\u00edvoros por natureza!\u201d e \u201cEnt\u00e3o de onde vou tirar minhas prote\u00ednas?!\u201d. Vamos por partes.<\/p>\n<p><strong>Parte 1: \u201cIsso \u00e9 besteira: somos carn\u00edvoros por natureza!\u201d<\/strong><\/p>\n<p>\u201cAh, eu fa\u00e7o dieta paleo por que \u00e9 a dieta \u2018natural\u2019 do ser humano\u201d. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9. O homem evoluiu como coletor-ca\u00e7ador, conseguindo a maior parte dos seus nutrientes de plantas (legumes, verduras, tub\u00e9rculos, gr\u00e3os e frutas). A ca\u00e7a acontecia ocasionalmente \u2013 eles n\u00e3o tinham um estoque de pernil de mamute no freezer, nem entrec\u00f4te de bis\u00e3o na geladeira da caverna. N\u00e3o se consumia carne, leite e ovos na quantidade e quantidade que consideramos normal na atualidade. Portanto, sim, somos on\u00edvoros mas, evolutivamente, a dieta humana sempre foi mais vegetal do que animal.<\/p>\n<p>A cientista e bi\u00f3loga Cynthia Paim esclarece: \u201cTemos hoje uma situa\u00e7\u00e3o muito distinta daquela em que nossos antepassados viveram. No passado, as popula\u00e7\u00f5es humanas viviam em ambientes onde a diversidade e disponibilidade de alimentos era muito limitada. Para estas popula\u00e7\u00f5es, expostas \u00e0 escassez alimentar e defici\u00eancias nutricionais, o consumo espor\u00e1dico de um determinado alimento (como a carne de outros animais) certamente pode ter sido ben\u00e9fica. Atualmente, no entanto, a maioria das sociedades urbanas tem acesso a uma grande diversidade de alimentos (legumes, cereais, verduras, frutas, sementes e outros cultivos) que permitem a ado\u00e7\u00e3o de uma dieta balanceada e completa, rica em prote\u00ednas, ferro, c\u00e1lcio, zinco, vitaminas e outros nutrientes, sem a necessidade de consumo de alimentos de origem animal\u201d.<\/p>\n<p>E no tocante a seguran\u00e7a alimentar: ela \u00e9 maior hoje do que no passado? Em geral, sim, mas o manejo dos bichos e suas condi\u00e7\u00f5es de vida inadequados acarretam outras complica\u00e7\u00f5es. Segundo o estudo <a href=\"https:\/\/cgspace.cgiar.org\/bitstream\/handle\/10568\/21161\/ZooMap_July2012_final.pdf?sequence=4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mapping of Poverty and Likely Zoonoses Hotspots<\/a>, do International Livestock Research Institute, em na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento, treze zoonoses provenientes de porcos, galinhas e bois est\u00e3o associadas a cerca de 2,4 bilh\u00f5es de casos de infec\u00e7\u00e3o humana e mais de dois milh\u00f5es de mortes todos os anos.<\/p>\n<p><strong>Parte 2: \u201cDe onde vou tirar minhas prote\u00ednas?!\u201d<\/strong><\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o existe nenhum nutriente sintetizado pelos animais que seja essencial para os humanos: os animais s\u00e3o meros acumuladores. E de onde eles tiram seus nutrientes? Da comida, que \u00e9 vegetal. Ent\u00e3o podemos pular a etapa animal e ir direto na fonte. Todos os amino\u00e1cidos essenciais \u2013 aqueles que humanos n\u00e3o produzem \u2013 a vaca, o porco, a galinha, tamb\u00e9m n\u00e3o produzem. Eles s\u00e3o resultados da fotoss\u00edntese, do oxig\u00eanio do ar e do carbono do solo\u201d, explica a nutricionista Alessandra Luglio, especialista em longevidade. \u201cO ser humano est\u00e1 comendo muito mais prote\u00edna do que precisa. Quando se tira ou diminui a carne da dieta, n\u00e3o se exclui a prote\u00edna, simplesmente deixa-se de consumir o excesso\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gastrolandia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Captura-de-Tela-2017-09-27-a%CC%80s-10.37.09.png\" \/><em>Impossible Burger: a startup de carne vegetal teve investimento milion\u00e1rio de Bill Gates e j\u00e1 vende, nos EUA, seus hamb\u00fargueres que at\u00e9 \u2018sangram\u2019<\/em><\/p>\n<p>Ent\u00e3o quer dizer que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 carboidrato e gordura que, em demasia, fazem mal? \u201cA ingest\u00e3o excessiva de prote\u00ednas leva a estresse metab\u00f3lico e acidose metab\u00f3lica. Toda acidose gera inflama\u00e7\u00e3o e toda inflama\u00e7\u00e3o, doen\u00e7a cr\u00f4nica\u201d, diz Alessandra.<\/p>\n<p>\u201cO excesso de prote\u00edna se acumula no f\u00edgado. O principal subproduto de sua metaboliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a am\u00f4nia. A am\u00f4nia \u00e9 transformada em ureia, que gera acidifica\u00e7\u00e3o do sangue. No meio \u00e1cido, as enzimas n\u00e3o funcionam. O corpo, para equilibrar a acidez, retira c\u00e1lcio dos ossos, que libera bicarbonato de c\u00e1lcio, o que leva a problemas \u00f3sseos\u201d, explica a nutricionista.<\/p>\n<p>Interessante tamb\u00e9m atentar para a alegada falta de ferro numa alimenta\u00e7\u00e3o com pouca ou nenhuma prote\u00edna animal. Alessandra explica que \u201co excesso de ferro heme \u2013 presente no m\u00fasculo, na carne dos animais \u2013 \u00e9 um ferro extremamente oxidativo e n\u00e3o \u00e9 o mesmo presente em folhas escuras, sementes e algumas leguminosas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cDe onde vou tirar minhas prote\u00ednas?!\u201d. Da chia, ervilha, feij\u00e3o, favas, soja (edamame, tofu, leite de soja, miss\u00f4 etc), gr\u00e3o de bico, gergelim, linha\u00e7a, semente de girassol, semente de ab\u00f3bora, quinoa, nozes, am\u00eandoa, castanha de caju, spirulina, arroz integral, cevada, trigo, aveia, amaranto, quinoa, br\u00f3colis, escarola, agri\u00e3o, espinafre, couve, abacate, caju, avel\u00e3, macad\u00e2mia\u2026 Ou seja: em verduras de folhas escuras, cereais integrais, leguminosas e oleaginosas.<\/p>\n<p>\u201cA American Dietetic Association afirma que a dieta vegetariana \u00e9 adequada para todos os ciclos da vida, desde o beb\u00ea at\u00e9 o idoso. Se for planejada, variada, \u00e9 perfeitamente saud\u00e1vel\u201d, diz Dr. Sella.<\/p>\n<p>Diversos estudos cient\u00edficos vem sendo feitos no sentido de descobrir como alimentar a crescente popula\u00e7\u00e3o mundial diminuindo a pegada ambiental causada pelos animais. Um dos mais recentes, que trabalha com um cen\u00e1rio hipot\u00e9tico, foi realizado em conjunto pela Loma Linda University, pelo Radcliffe Institute for Advanced Study (Harvard) e pelo Department of Forest Ecosystems and Society, da Oregon State University e intitulado de <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007%2Fs10584-017-1969-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Substituting beans for beef as a contribution toward US climate change targets<\/a> (Substituindo carne por leguminosas e contribui\u00e7\u00e3o dos EUA para cumprimento das metas de mudan\u00e7a clim\u00e1tica). Os \u201cresultados demonstram que substituir carne por leguminosas poderia aumentar de 46% para 74% as redu\u00e7\u00f5es de gases de efeito estufa necess\u00e1rias para atingir a meta americana at\u00e9 2020. Esta mudan\u00e7a tamb\u00e9m livraria 692,918 km2 de \u00e1rea voltada a planta\u00e7\u00e3o de alimentos para animais\u201d.<\/p>\n<div class=\"issuuembed\" style=\"width: 600px; height: 400px;\" data-configid=\"4622892\/54122070\"><\/div>\n<p><script type=\"text\/javascript\" src=\"\/\/e.issuu.com\/embed.js\" async=\"true\"><\/script><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hCr-ZoDgxdI\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o somente cientistas que est\u00e3o empenhados em resolver a equa\u00e7\u00e3o \u2018gosto humano pela carne X menos impacto ambiental X \u00e9tica. Alguns bilion\u00e1rios e empresas, tamb\u00e9m. Bill Gates (fundador da Microsoft), Richard Branson (dono da Virgin) e a Cargill investiram perto de 22 milh\u00f5es de d\u00f3lares na <a href=\"http:\/\/fortune.com\/2017\/08\/23\/bill-gates-richard-branson-invest-meat\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Memphis Meats<\/a>, startup que produz em laborat\u00f3rio carnes de vaca, frango e pato, atrav\u00e9s de c\u00e9lulas animais. Bill Gates tamb\u00e9m \u00e9 investidor da Impossibile Foods, empresa que j\u00e1 comercializa, em dezenas de restaurantes americanos de primeiro time (como o Momofuku Nishi, do chef David Chang, em New York), seu hamb\u00farguer 100% com sabor e textura de carne \u2013 que at\u00e9 sangra, devido ao uso de uma esp\u00e9cie modificada de soja. Veja <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CHayzP41CLc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">AQUI<\/a> Chang provando o Impossible burger.<\/p>\n<p><strong>E depois de tudo isso\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Dados e evid\u00eancia para a diminui\u00e7\u00e3o do consumo de derivados animais n\u00e3o faltam. Contudo, a grande maioria das pessoas ainda reluta em aceitar isso. Curioso, n\u00e3o? Cientistas escoceses tamb\u00e9m acharam, e por isso foram pesquisas as raz\u00f5es de tanta retic\u00eancia. O estudo <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/282944974_Eating_like_there%27s_no_tomorrow_public_awareness_of_the_environmental_impact_of_food_and_reluctance_to_eating_less_meat_as_part_of_a_sustainable_diet\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Eating like there\u2019s no tomorrow: Public awareness of the environmental impact of food and reluctance to eat less meat as part of a sustainable diet<\/a> (Comendo como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3: conhecimento p\u00fablico do impacto ambiental da comida e a relut\u00e2ncia em comer menos carne como parte de uma dieta sustent\u00e1vel), realizado em 2015 pela Public Health Nutrition Research Group da University of Aberdeen, no Reino Unido, entrevistou mais de 1500 pessoas na Esc\u00f3cia.<\/p>\n<p>As considera\u00e7\u00f5es finais dizem tudo: \u201cTr\u00eas temas dominantes relacionados ao consumo da carne emergiram da an\u00e1lise; 1. Falta de consci\u00eancia da associa\u00e7\u00e3o entre consumo de carne e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas; 2. Percep\u00e7\u00e3o do consumo pessoal da carne influenciando minimamente o contexto global de mudan\u00e7a clim\u00e1tica; 3. Resist\u00eancia a ideia de reduzir o consumo pessoal da carne\u201d.<\/p>\n<p>Pois ainda achamos que nada tem a ver conosco, individualmente. Mas os fatos est\u00e3o a\u00ed para nos desmentir. Por completo.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Ailin Aleixo, Gastrol\u00e2ndia de 27 de setembro de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vacas em cria\u00e7\u00e3o intensiva nos EUA. No mundo, s\u00e3o abatidos 296 milh\u00f5es de bovinos por ano Se voc\u00ea soubesse que um dos alimentos mais presentes no seu dia-a-dia \u00e9 o respons\u00e1vel pela contamina\u00e7\u00e3o de rios, lagos e mares com detritos qu\u00edmicos altamente t\u00f3xicos, cogitaria parar de com\u00ea-lo? 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