{"id":22072,"date":"2017-12-05T09:00:13","date_gmt":"2017-12-05T11:00:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=22072"},"modified":"2017-11-28T16:57:28","modified_gmt":"2017-11-28T18:57:28","slug":"em-15-anos-cerrado-perde-11-de-cobertura-vegetal-nativa-por-causa-do-desmatamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/em-15-anos-cerrado-perde-11-de-cobertura-vegetal-nativa-por-causa-do-desmatamento\/","title":{"rendered":"Em 15 anos, Cerrado perde 11% de cobertura vegetal nativa por causa do desmatamento"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/5\/4543\/37818138015_6bfcfa2c49_b.jpg\" \/><em>imagem JD1<\/em><\/p>\n<p>O resultado do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/569963-desmatamento-do-cerrado-supera-o-da-amazonia-indica-dado-oficia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">desmatamento no Cerrado<\/a>\u00a0entre 2000 e 2015 \u00e9 uma perda de 11% da cobertura da vegeta\u00e7\u00e3o nativa do bioma, informa\u00a0<strong>Tiago Reis<\/strong>, pesquisador no<strong>\u00a0Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia \u2013 Ipam<\/strong>, e autor de um estudo recente que mede o\u00a0<strong>desmatamento no Cerrado e na Amaz\u00f4nia<\/strong>. Segundo ele, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/espiritualidade\/comentario-do-evangelho\/78-noticias\/573629-entre-2000-e-2015-o-desmatamento-no-cerrado-foi-maior-do-que-o-da-amazonia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aumento do desmatamento no Cerrado nos \u00faltimos 15 anos<\/a>\u00a0representa \u201cum preju\u00edzo gigantesco, quase que inestim\u00e1vel para a sociedade brasileira e global, porque estamos perdendo uma quantidade inestim\u00e1vel de patrim\u00f4nio gen\u00e9tico, de capacidade de recarga de aqu\u00edferos e de forma\u00e7\u00e3o de chuvas, que alimenta, abastece e permite a agricultura no bioma\u201d.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por telefone \u00e0\u00a0<strong>IHU On-Line<\/strong>,\u00a0<strong>Reis<\/strong>\u00a0exp\u00f5e as causas do<strong>aumento do desmatamento<\/strong>\u00a0e explica suas consequ\u00eancias negativas tanto para a tentativa brasileira de atingir as metas para o enfrentamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, quanto para o abastecimento dos rios e aqu\u00edferos do pa\u00eds. \u201cO solo do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/6756-cerrado-o-laboratorio-antropologico-ameacado-pela-desterritorializacao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cerrado<\/a>\u00a0tem algumas particularidades, ou seja, ele \u00e9 f\u00e1cil de se compactar, e o que predomina nesse solo \u00e9 justamente sua capacidade de compacta\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, quando se tira a vegeta\u00e7\u00e3o nativa dessas \u00e1reas, o solo se compacta e com isso \u00e9 mais dif\u00edcil para a \u00e1gua da chuva, que j\u00e1 \u00e9 escassa no bioma, abastecer os\u00a0<strong>aqu\u00edferos e len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos<\/strong>\u00a0que abastem e mant\u00eam o n\u00edvel dos rios\u201d, diz.<\/p>\n<p><strong>Reis<\/strong>\u00a0informa ainda que o\u00a0<strong>desmatamento do bioma<\/strong>\u00a0se concentra no<strong>\u00a0Mato Grosso<\/strong>\u00a0e nos quatro estados que formam o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/571888-relatorio-analisa-impactos-do-expansao-do-agronegocio-na-regiao-do-matopiba\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Matopiba<\/a>,\u00a0<strong>Maranh\u00e3o<\/strong>,\u00a0<strong>Tocantins<\/strong>,\u00a0<strong>Piau\u00ed<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Bahia<\/strong>, ou seja, \u201caqueles quatro estados que, inclusive, receberam um plano de desenvolvimento agropecu\u00e1rio decretado em 2015, justamente para fomentar a constru\u00e7\u00e3o de infraestrutura e direcionar a expans\u00e3o das empresas\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/565422-projetos-de-conservacao-da-amazonia-ajudarao-a-combater-as-mudancas-climaticas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Thiago Reis<\/a>\u00a0\u00e9 graduado em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro \u2013 PUC-RJ e mestre em Pol\u00edtica Ambiental pela University College Dublin, na Irlanda. Atualmente \u00e9 pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia \u2013 Ipam.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 Como foi feito o estudo que identifica que o desmatamento do Cerrado foi maior que o da Amaz\u00f4nia entre 2000 e 2015? Como chegou a esse resultado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tiago Reis \u2014\u00a0<\/strong>O estudo foi feito com o cruzamento de dados oficiais de monitoramento do uso do solo, que j\u00e1 existiam. Ent\u00e3o, usamos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais &#8211; Inpe, que foram obtidos com o monitoramento do Cerrado entre os anos de 2000 e 2010, e depois usamos dados tamb\u00e9m do INPE para per\u00edodo de 2013 a 2015. Esses dados foram usados para submiss\u00e3o brasileira de n\u00edvel de refer\u00eancia das emiss\u00f5es florestais para Conven\u00e7\u00e3o Quadro Para a Mudan\u00e7a do Clima, para captar recursos por resultados de redu\u00e7\u00e3o de desmatamento sob mecanismo\u00a0<strong>REDD+<\/strong>. Apesar de a submiss\u00e3o brasileira, chamada FREL Cerrado, utilizar apenas as \u00e1reas de fisionomia florestal, o dado espacial disponibilizado pelo\u00a0<strong>INPE<\/strong>\u00a0mostra todas as convers\u00f5es de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, incluindo as fisionomias n\u00e3o florestais. Utilizamos esses dados e, como havia essa lacuna de informa\u00e7\u00e3o entre 2010 e 2013, juntamos os dados do\u00a0<strong>TerraClass Cerrado,<\/strong>\u00a0que tamb\u00e9m \u00e9 gerado pelo Inpe, e tamb\u00e9m complementamos com dados de alertas de desmatamento do Lapig da Universidade Federal de Goi\u00e1s. Esses dados do INPE dever\u00e3o compor um sistema a ser chamado Prodes Cerrado, com metodologia semelhante ao Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amaz\u00f4nia Legal por Sat\u00e9lite &#8211; Prodes da Amaz\u00f4nia, que j\u00e1 \u00e9 divulgado anualmente. A diferen\u00e7a principal dever\u00e1 ser o monitoramento de todos os tipos de vegeta\u00e7\u00e3o nativa no bioma Cerrado, enquanto o Prodes Amaz\u00f4nia s\u00f3 monitora florestas..<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o defeito desse processamento? O defeito \u00e9 que n\u00e3o sabemos, exatamente, em que ano a convers\u00e3o aconteceu, primeiro porque o dado de convers\u00e3o do\u00a0<strong>Inpe<\/strong>\u00a0\u00e9 bianual e, al\u00e9m disso, tem essa lacuna entre 2010 e 2013. Mas com o dado do\u00a0<strong>TerraClass<\/strong>, que \u00e9 de 2013, temos informa\u00e7\u00f5es sobre o uso do solo e, com isso, \u00e9 poss\u00edvel identificar que \u00e1reas s\u00e3o de pasto, agricultura, vegeta\u00e7\u00e3o nativa, enfim, conseguimos separar o que s\u00e3o \u00e1reas remanescentes de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, do que s\u00e3o \u00e1reas convertidas para uso humano. Ao juntar esses dois dados conseguimos saber tudo o que foi convertido no per\u00edodo total, entre 2000 e 2015, mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber com precis\u00e3o em que ano essa convers\u00e3o ocorreu.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 Esse resultado j\u00e1 era esperado, considerando a realidade tanto do Cerrado quanto da Amaz\u00f4nia, especialmente porque os estudos apontam para um aumento do desmatamento do Cerrado nos \u00faltimos anos?<\/strong><\/p>\n<p><em>&#8220;N\u00e3o existe esse pacote de pol\u00edticas de combate ao desmatamento que temos para Amaz\u00f4nia, que \u00e9 uma conquista para a sociedade brasileira e global, para o Cerrado&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>Tiago Reis \u2014<\/strong>\u00a0O resultado foi um pouco surpreendente. A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/571200-inpe-desmatamento-na-amazonia-legal-aumentou-27-em-2016\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0tem uma \u00e1rea que \u00e9 quase duas vezes e meia maior que a do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/566362-maior-ameaca-ao-cerrado-e-considerar-sua-vegetacao-nativa-um-estorvo-ao-desenvolvimento-entrevista-especial-com-jose-felipe-ribeiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cerrado<\/a>, mas \u00e9 mais isolada, tem menos infraestrutura, \u00e9 um local de dif\u00edcil acesso e tem menos pessoas vivendo ali. O\u00a0<strong>Cerrado<\/strong>, por outro lado, apesar de ser quase duas vezes e meia menor que a\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>, est\u00e1 mais permeado e habitado, tem estradas e ferrovias, ou seja, tem toda uma facilidade log\u00edstica e produtiva que facilita o\u00a0<strong>desmatamento<\/strong>. Al\u00e9m disso, tem todo um arcabou\u00e7o de pol\u00edticas p\u00fablicas e acordos privados que incidem na Amaz\u00f4nia e n\u00e3o incidem no Cerrado; n\u00e3o existe esse pacote de pol\u00edticas de combate ao desmatamento que temos para a Amaz\u00f4nia, que \u00e9 uma conquista para a sociedade brasileira e global, para o Cerrado.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 Pela an\u00e1lise dos dados, foi poss\u00edvel identificar em que regi\u00f5es do Cerrado o desmatamento tem crescido significativamente nesses 15 anos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tiago Reis \u2014<\/strong>\u00a0Claramente o padr\u00e3o e a fronteira de desmatamento se concentram no\u00a0<strong>Cerrado<\/strong>\u00a0do\u00a0<strong>Mato Grosso<\/strong>\u00a0e do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/562214-matopiba-e-uma-fraude\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Matopiba<\/a>\u00a0\u2014\u00a0<strong>Maranh\u00e3o<\/strong>,\u00a0<strong>Tocantins<\/strong>,\u00a0<strong>Piau\u00ed<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Bahia<\/strong>\u2014, aqueles quatro estados que, inclusive, receberam um\u00a0<strong>plano de desenvolvimento agropecu\u00e1rio<\/strong>\u00a0decretado em 2015, justamente para fomentar a constru\u00e7\u00e3o de infraestrutura e direcionar a expans\u00e3o das empresas. Essas s\u00e3o as duas regi\u00f5es mais cr\u00edticas, com um agravante para o\u00a0<strong>Matopiba<\/strong>, porque no\u00a0<strong>Cerrado do Mato Grosso<\/strong>\u00a0as \u00e1reas que eram altamente aptas para a agricultura, \u00e1reas mecaniz\u00e1veis, com topografia plana, j\u00e1 foram ocupadas. Logo, o que resta de remanescente do Cerrado no Mato Grosso s\u00e3o \u00e1reas de baixa aptid\u00e3o agr\u00edcola ou com restri\u00e7\u00f5es topogr\u00e1ficas para a mecaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 Segundo o estudo, o Cerrado perdeu 236 mil quil\u00f4metros quadrados de mata nesse per\u00edodo. Qual \u00e9 o significado desse valor considerando a extens\u00e3o do Cerrado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tiago Reis \u2014<\/strong>\u00a0Estamos falando de cerca de 11% da \u00e1rea total do bioma. Perder 11% da cobertura de vegeta\u00e7\u00e3o nativa de todo o bioma, em apenas 15 anos, \u00e9 um preju\u00edzo gigantesco, quase que inestim\u00e1vel para a sociedade brasileira e global. Isso porque estamos perdendo uma quantidade inestim\u00e1vel de patrim\u00f4nio gen\u00e9tico, de capacidade de recarga de aqu\u00edferos e de forma\u00e7\u00e3o de chuvas, que alimenta, abastece e permite a agricultura no bioma. N\u00e3o somos nem capazes de quantificar economicamente esse preju\u00edzo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 Quais s\u00e3o as causas envolvidas no crescente desmatamento do Cerrado?<\/strong><\/p>\n<p><em>&#8220;O Brasil emitiu meio bilh\u00e3o de di\u00f3xido de carbono, ou seja, j\u00e1 emitiu 40% do valor que precisamos reduzir para 2025&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>Tiago Reis \u2014<\/strong>\u00a0Primeiro, diria que \u00e9 essa facilidade de acesso, porque o\u00a0<strong>Cerrado<\/strong>\u00a0tem mais infraestrutura e ele est\u00e1 mais habitado, isto \u00e9, tem mais gente vivendo ali. Al\u00e9m disso, h\u00e1 um arcabou\u00e7o de\u00a0<strong>pol\u00edticas p\u00fablicas<\/strong>claramente insuficientes, ou seja, temos poucas\u00a0<strong>\u00e1reas protegidas<\/strong>\u00a0publicamente no\u00a0<strong>Cerrado<\/strong>\u00a0\u2014 aproximadamente 8% do bioma est\u00e1 protegido em<strong>\u00a0Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0de dom\u00ednio p\u00fablico ou terra ind\u00edgena, enquanto na\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>\u00a0j\u00e1 temos mais de 50% do bioma em \u00e1reas protegidas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/568257-codigo-florestal-anistiou-41-milhoes-de-hectares-entrevista-especial-com-luis-fernando-pinto\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">C\u00f3digo Florestal<\/a>\u00a0estabelece que haja \u00e1reas de\u00a0<strong>Reserva Legal<\/strong>, dentro de im\u00f3veis rurais\u00a0 do bioma Amaz\u00f4nia com fitofisionomia florestal, de 80%. No Cerrado, no entanto, essa \u00e1rea \u00e9 de 35% ou 20%, isto \u00e9, as \u00fanicas \u00e1reas do Cerrado em que as propriedades privadas t\u00eam que manter 35% de Reserva Legal s\u00e3o no\u00a0<strong>Mato Grosso<\/strong>\u00a0e em\u00a0<strong>Tocantins<\/strong>, porque esses s\u00e3o os estados que fazem parte da\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia Legal<\/strong>. Na parte do\u00a0<strong>Cerrado do Maranh\u00e3o<\/strong>, que fica fora da Amaz\u00f4nia Legal, este percentual \u00e9 de 20%, assim como na\u00a0<strong>Bahia<\/strong>, em\u00a0<strong>Goi\u00e1s<\/strong>\u00a0e em\u00a0<strong>Minas Gerais<\/strong>. Ent\u00e3o, isso agrava muito a situa\u00e7\u00e3o, porque a maior parte deste\u00a0<strong>desmatamento no Cerrado<\/strong>\u00a0\u00e9 legal, e o que n\u00e3o \u00e9 legal \u00e9 legaliz\u00e1vel, porque todo o desmatamento precisa de licenciamento do \u00f3rg\u00e3o ambiental estadual. Mas como o\u00a0<strong>C\u00f3digo Florestal<\/strong>\u00a0permite esse desmatamento, n\u00e3o h\u00e1 dificuldades em desmatar, porque o produtor faz a solicita\u00e7\u00e3o e em dois ou tr\u00eas meses a licen\u00e7a sai. O produtor licencia para muito mais do que ele \u00e9 capaz de desmatar naquele ano, assim ele vai desmatando aos poucos \u00e0 medida que vai tendo recursos para isso.<\/p>\n<p>Claramente esse arcabou\u00e7o de\u00a0<strong>pol\u00edtica p\u00fablica<\/strong>\u00a0insuficiente \u00e9 uma causa, e a infraestrutura \u2014 facilidade de acesso \u2014 \u00e9 outro vetor que favorece o desmatamento. Tamb\u00e9m existe um processo associado, que \u00e9 a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/551548-gigante-dos-investimentos-e-acusada-de-grilagem-de-terras\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">especula\u00e7\u00e3o de terras<\/a>\u00a0\u2014 grilagem \u2014, isto \u00e9, existem atores operando no\u00a0<strong>Cerrado<\/strong>, principalmente nessa regi\u00e3o do\u00a0<strong>Matopiba<\/strong>, que \u00e9 onde tem menos governan\u00e7a, porque nas fronteiras agr\u00edcolas existem menos institui\u00e7\u00f5es trabalhando. Esses atores ocupam terras p\u00fablicas, desmatam e valorizam a terra. Com isso, essas terras posteriormente s\u00e3o vendidas para a agricultura e a pecu\u00e1ria. Claramente as produ\u00e7\u00f5es agr\u00edcola e pecu\u00e1ria t\u00eam um papel nessa segunda fase: primeiro tem uma especula\u00e7\u00e3o e depois tem uma ocupa\u00e7\u00e3o pelo uso agropecu\u00e1rio, mas essa especula\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe sem a\u00a0<strong>demanda da agropecu\u00e1ria<\/strong>, portanto n\u00e3o d\u00e1 para dissociar esse processo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 Segundo o Ipam, a expans\u00e3o da agropecu\u00e1ria no Cerrado tem sido feita sem planejamento territorial adequado. Quais s\u00e3o as dificuldades de fazer um planejamento adequado para a agropecu\u00e1ria no bioma?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tiago Reis \u2014<\/strong>\u00a0Al\u00e9m das dificuldades, h\u00e1 falta de informa\u00e7\u00e3o, ou at\u00e9 a falta de dissemina\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. Ainda temos pouca informa\u00e7\u00e3o e pouco conhecimento sobre o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/382\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cerrado<\/a>. A\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>, por ser foco h\u00e1 mais tempo e ser valorizada e reconhecida pelo seu valor social, ambiental e econ\u00f4mico h\u00e1 mais tempo, tem mais instrumentos de monitoramento e de gera\u00e7\u00e3o de dados do que o Cerrado. Por isso, o primeiro passo \u00e9 aumentarmos esse ferramental, esse conjunto de instrumentos de monitoramento, como, por exemplo, tendo um\u00a0<strong>Prodes do Cerrado<\/strong>, um\u00a0<strong>TerraClass<\/strong>, que faz o monitoramento do uso do solo a cada dois anos, como tem na\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>. Esses s\u00e3o dados oficiais, porque extraoficialmente j\u00e1 temos trabalhado muito e a sociedade tem produzido uma iniciativa chamada\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/572412-mapbiomas-detalhara-serie-historica-de-emissoes-de-gases-de-efeito-estufa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo do Brasil &#8211; MapBiomas<\/a>, que tenta preencher essas lacunas de informa\u00e7\u00f5es oficiais, mas \u00e9 claro que ainda h\u00e1 v\u00e1rios ajustes que precisam ser feitos. Mas essa \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o muito interessante porque ela \u00e9 colaborativa, envolve cerca de 30 organiza\u00e7\u00f5es, funda\u00e7\u00f5es e empresas de tecnologia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como disse, faltam informa\u00e7\u00f5es: precisamos ter mais informa\u00e7\u00f5es, estudos, an\u00e1lises e monitoramento sobre o\u00a0<strong>Cerrado<\/strong>, e essas informa\u00e7\u00f5es precisam ser disseminadas e utilizadas pelos tomadores de decis\u00e3o tanto do setor p\u00fablico quanto do privado \u2014 apesar de n\u00e3o ter todas as informa\u00e7\u00f5es de que gostar\u00edamos, j\u00e1 temos muitas informa\u00e7\u00f5es. As\u00a0<strong>empresas agr\u00edcolas<\/strong>\u00a0poderiam utilizar essas informa\u00e7\u00f5es para planejar a expans\u00e3o de suas infraestruturas de armazenagem e de esmagamento de gr\u00e3os. Por exemplo, se sou um\u00a0<em>trader<\/em>\u00a0de soja e tenho que construir silos de armazenagem e plantas de processamento de gr\u00e3os, por que vou colocar essa infraestrutura em \u00e1reas de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, quando sei que tem, pelo menos, 30 milh\u00f5es de hectares de pasto degradado, com alta aptid\u00e3o agr\u00edcola no\u00a0<strong>bioma Cerrado<\/strong>? Isso \u00e9 intelig\u00eancia territorial e precisa ser feito. Se uma empresa instala uma planta de processamento numa \u00e1rea de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, ela est\u00e1 emitindo um sinal de que quer que os produtores desmatem aquela \u00e1rea e produzam no local, porque existe uma quest\u00e3o de viabilidade econ\u00f4mica da produ\u00e7\u00e3o que depende da dist\u00e2ncia entre as \u00e1reas produtivas e as plantas de processamento das empresas. Ent\u00e3o, o tomador de decis\u00e3o privada tem uma fun\u00e7\u00e3o muito importante de fomentar a\u00a0<strong>produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola<\/strong>\u00a0em \u00e1reas que j\u00e1 est\u00e3o abertas, pois existem \u00e1reas abertas onde pode ser feita a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, os atores p\u00fablicos podem usar as informa\u00e7\u00f5es que j\u00e1 existem para fazer\u00a0<strong>zoneamento ecol\u00f3gico econ\u00f4mico<\/strong>, para determinar quais s\u00e3o as \u00e1reas que v\u00e3o receber incentivos econ\u00f4micos e fiscais para a expans\u00e3o ocorrer. O\u00a0<strong>Plano Safra<\/strong>, que financia a agricultura brasileira de maneira altamente subsidiada, com o nosso dinheiro, deveria atentar para esse tipo de situa\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o gostaria de financiar a<strong>\u00a0expans\u00e3o agricultura<\/strong>\u00a0para \u00e1reas de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, por exemplo. Existem informa\u00e7\u00f5es e dados mostrando que muitas \u00e1reas desmatadas n\u00e3o est\u00e3o sendo utilizadas. Se \u00e9 assim, por que o financiamento p\u00fablico\u00a0n\u00e3o poderia reorientar a expans\u00e3o para esse tipo de \u00e1rea?<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 Qual \u00e9 o impacto desse desmatamento para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas? Como esses dados do desmatamento no Cerrado comprometem as metas nacionais do Brasil no enfrentamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/strong><\/p>\n<p><em>&#8220;O Cerrado \u00e9 extremamente relevante para a mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a do clima&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>Tiago Reis \u2014<\/strong>\u00a0O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/560812-o-desajuste-da-meta-climatica-do-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Brasil tem uma meta clim\u00e1tica<\/a>\u00a0de chegar a 2025 emitindo 1,3 bilh\u00e3o de toneladas de di\u00f3xido de carbono ou gases equivalentes. Hoje o Brasil est\u00e1 emitindo pouco mais de 2 bilh\u00f5es e precisa come\u00e7ar a reduzir esse valor. O Brasil emitiu, em m\u00e9dia anual entre 2000 e 2015, meio bilh\u00e3o de toneladas de di\u00f3xido de carbono. Ou seja, se mantivermos este ritmo de desmatamento no Cerrado, chegaremos a 2025 com 40% de nossa meta da NDC j\u00e1 comprometida. E isso diz respeito a apenas a convers\u00e3o em um bioma, n\u00e3o considera o desmatamento nos outros, tampouco os demais setores de emiss\u00e3o, como energia, res\u00edduos, etc.<\/p>\n<p>O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/169-noticias\/noticias-2015\/549434-politica-de-clima-negligencia-o-cerrado-mais-uma-vez\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cerrado<\/a>\u00a0sempre foi muito negligenciado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade de\u00a0<strong>estoque de carbono<\/strong>, porque n\u00e3o se tinha a completa dimens\u00e3o de quanto de carbono era estocado nas ra\u00edzes das plantas do\u00a0<strong>Cerrado<\/strong>, mas estudos publicados em 2016 e 2017 mostram que existe uma quantidade de carbono mais significativa abaixo e no solo do que acima do solo.\u00a0O Cerrado \u00e9 extremamente relevante para a\u00a0<strong>mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0da\u00a0<strong>mudan\u00e7a do clima<\/strong>, porque ele armazena muito carbono e tem resili\u00eancia, ou seja, \u00e9 um bioma que queima naturalmente e rebrota e, nessa rebrota, remove carbono da atmosfera e presta esse papel de mitiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 De outro lado, que impactos esse desmatamento gera para as bacias hidrogr\u00e1ficas localizadas no bioma e quais s\u00e3o as consequ\u00eancias para os recursos h\u00eddricos em geral?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tiago Reis \u2014<\/strong>\u00a0\u00a0O solo do\u00a0Cerrado tem algumas particularidades, uma delas \u00e9 que grandes por\u00e7\u00f5es s\u00e3o de f\u00e1cil compacta\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, quando se tira a vegeta\u00e7\u00e3o nativa dessas \u00e1reas, incluindo forma\u00e7\u00f5es campestres, o solo se compacta mais facilmente e com isso \u00e9 mais dif\u00edcil para a \u00e1gua da chuva, que j\u00e1 \u00e9 escassa no bioma, infiltrar e abastecer os aqu\u00edferos e len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos que abastecem e mant\u00eam o n\u00edvel dos rios. Algumas bacias importantes t\u00eam as nascentes no Cerrado, e outras recebem a \u00e1guas que nascem no Cerrado.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Cerrado<\/strong>\u00a0ocupa essa \u00e1rea central no Brasil, que \u00e9 uma \u00e1rea mais alta e que tem muita sensibilidade para a\u00a0<strong>recarga dos aqu\u00edferos<\/strong>. Ent\u00e3o, quando a \u00e1gua da chuva cai, ela escorre, porque o solo est\u00e1 compacto, mas quando h\u00e1 vegeta\u00e7\u00e3o, a chuva cai e infiltra no solo e abastece os len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos. Isso j\u00e1 est\u00e1 registrado em diversas pesquisas, e as pessoas que vivem no Cerrado dizem que o volume de chuva em algumas regi\u00f5es ainda \u00e9 o mesmo de outros per\u00edodos, mas os rios t\u00eam baixado cada vez mais. O que explica isso? Quando chove, o rio enche de uma vez, a \u00e1gua vai embora e depois o rio quase seca. Ent\u00e3o, a vegeta\u00e7\u00e3o nativa tem o papel de regular o<strong>\u00a0ciclo hidrol\u00f3gico<\/strong>, ou seja, permite a infiltra\u00e7\u00e3o da \u00e1gua e mant\u00e9m o rio mais equilibrado.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 Hoje discute-se no Brasil a possibilidade do fim ao licenciamento ambiental para alguns empreendimentos. Que impacto isso pode gerar em termos de aumento do desmatamento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tiago Reis \u2014<\/strong>\u00a0Esta\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570731-ruralistas-retomam-pressao-por-licenciamento-flex-na-camara\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">proposta de licenciamento<\/a>\u00a0que est\u00e1 tramitando no\u00a0<strong>Congresso<\/strong>diminui a avalia\u00e7\u00e3o dos impactos para as atividades, quer dizer, muitas atividades que tinham de ser avaliadas no sentido de verificar que impactos geram, n\u00e3o ser\u00e3o mais analisadas, ent\u00e3o essas atividades v\u00e3o acontecer sem que sejam feitos estudos ambientais. O\u00a0<strong>licenciamento ambiental<\/strong>\u00a0\u00e9 chamado de burocracia pelo setor produtivo, mas isso n\u00e3o \u00e9 uma burocracia, ao contr\u00e1rio, trata-se de um princ\u00edpio de precau\u00e7\u00e3o, uma salvaguarda em rela\u00e7\u00e3o a algumas atividades que geram impactos ambientais. O que essas an\u00e1lises fazem \u00e9 verificar poss\u00edveis impactos e preju\u00edzos e encontrar maneiras de contornar e mitigar esses efeitos. Com o licenciamento ambiental \u00e9 poss\u00edvel encontrar maneiras de resolver impactos ou verificar que uma atividade n\u00e3o pode acontecer em determinadas regi\u00f5es, mas isso deixar\u00e1 de ser feito, e perderemos um instrumento de controle. Isso ser\u00e1 um preju\u00edzo para toda a sociedade.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Patricia Fachin, IHU de 28 de novembro de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>imagem JD1 O resultado do\u00a0desmatamento no Cerrado\u00a0entre 2000 e 2015 \u00e9 uma perda de 11% da cobertura da vegeta\u00e7\u00e3o nativa do bioma, informa\u00a0Tiago Reis, pesquisador no\u00a0Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia \u2013 Ipam, e autor de um estudo recente que mede o\u00a0desmatamento no Cerrado e na Amaz\u00f4nia. 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