{"id":22148,"date":"2017-12-21T09:00:29","date_gmt":"2017-12-21T11:00:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=22148"},"modified":"2017-12-01T13:06:15","modified_gmt":"2017-12-01T15:06:15","slug":"nao-podemos-continuar-comendo-carne-como-fazemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/nao-podemos-continuar-comendo-carne-como-fazemos\/","title":{"rendered":"N\u00e3o podemos continuar comendo carne como fazemos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/15\/ciencia\/1510746923_664876_1510920997_noticia_normal.jpg\" alt=\"Uma vaca em meio \u00e0 n\u00e9voa polu\u00edda de Nova Delhi (\u00cdndia)\" \/><em><span class=\"foto-texto\">Uma vaca em meio \u00e0 n\u00e9voa polu\u00edda de Nova Delhi (\u00cdndia)<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">R S LYER<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">AP<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p><strong>Apesar do custo ecol\u00f3gico de sua produ\u00e7\u00e3o, o consumo de prote\u00ednas animais vem crescendo.<\/strong><\/p>\n<p>Document\u00e1rios como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cowspiracy.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Cowspiracy<\/em><\/a>\u00a0(trocadilho entre \u201cvacas\u201d e \u201cconspira\u00e7\u00e3o\u201d) perguntavam, entre suspeitas, por que a produ\u00e7\u00e3o de alimentos de origem animal n\u00e3o aparecia entre as grandes frentes de luta contra a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. O dado \u00e9 impressionante: 14,5% dos gases do efeito estufa \u2212 aqueles que causam o aquecimento global \u2212 emitidos pela a\u00e7\u00e3o humana v\u00eam do setor pecu\u00e1rio,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.fao.org\/3\/a-i3437e.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">segundo informa\u00e7\u00f5es da FAO<\/a>\u00a0(ag\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para alimenta\u00e7\u00e3o e agricultura). Ou seja, a digest\u00e3o das vacas e de outros animais na forma de ventosidades e excrementos, juntamente com o uso da terra exigido para sua cria\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cambio_climatico\/a\">liberam mais gases<\/a>\u00a0que todo o setor mundial de transportes.<\/p>\n<p>Por causa de dados como esse, organiza\u00e7\u00f5es que defendem\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/10\/08\/estilo\/1412757202_712498.html\">dietas baseadas em vegetais<\/a>, como a\u00a0<a href=\"https:\/\/proveg.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ProVeg<\/a>, pretendem incluir a mudan\u00e7a dos h\u00e1bitos alimentares entre as prioridades da batalha clim\u00e1tica. A ProVeg levou um pedido nesse sentido \u00e0 Reuni\u00e3o de C\u00fapula do Clima (COP23), que termina nesta sexta-feira em Bonn (Alemanha). Um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.oxfordmartin.ox.ac.uk\/downloads\/academic\/160317_Springmann_co_benefits_data_overview.xlsx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estudo publicado no ano passado pela Oxford Martin School<\/a>, da Universidade de Oxford (Reino Unido), assinalava que se todo mundo se tornasse vegetariano, as emiss\u00f5es da ind\u00fastria alimentar em geral cairiam quase dois ter\u00e7os. \u201cO objetivo a longo prazo \u00e9 reduzir em 50% o consumo de produtos de origem animal at\u00e9 2040\u201d, aponta Cristina Rodrigo, porta-voz da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Emiss\u00f5es do gado<\/strong><\/p>\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p>O gado emite 14,5% do total dos gases do efeito estufa. Desses 7,1 milh\u00f5es de gigatoneladas anuais de equivalente de di\u00f3xido de carbono, a maior parte \u2212 44% \u2212 corresponde \u00e0 fermenta\u00e7\u00e3o ent\u00e9rica. Ou seja, o processo de digest\u00e3o no qual \u2212 principalmente os ruminantes, e sobretudo os grandes, como as vacas \u2212 acabam liberando g\u00e1s metano na atmosfera. O metano dura menos que o CO2 na atmosfera, mas contribui de forma mais intensa para o aquecimento.<\/p>\n<p>Das emiss\u00f5es do setor, outros 41% v\u00eam da produ\u00e7\u00e3o de alimentos para os animais, 10% v\u00eam do tratamento de seus excrementos e os 5% restantes, das necessidades de energia da ind\u00fastria, segundo dados da FAO.<\/p>\n<p>Mas esse objetivo, ao falar de \u201canimais\u201d, mete no mesmo saco vacas, frangos e porcos, por exemplo (e tamb\u00e9m atuns, camar\u00f5es e moluscos). E nem todos influem da mesma forma no aquecimento global. Pesca \u00e0 parte, conseguir um quilo de prote\u00ednas comendo carne bovina libera quase o dobro de gases do efeito estufa do que recorrer a pequenos ruminantes, como ovelhas ou cabras,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.fao.org\/news\/story\/pt\/item\/197623\/icode\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">segundo a pr\u00f3pria FAO<\/a>. E o triplo do que levar ao mercado um quilo de prote\u00ednas em forma de leite de vaca ou carne de frango ou de porco.<\/p>\n<p>Grandes consumidores, como a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/china\/a\">China<\/a>, j\u00e1 apresentaram planos para reduzir o consumo de carnes em geral. Os norte-americanos (que ocupam o segundo lugar no consumo\u00a0<em>per capita<\/em>\u00a0anual de carne, depois da Austr\u00e1lia) comem atualmente nove quilos a menos do que dez anos atr\u00e1s. Mas a tend\u00eancia geral \u00e9 oposta. O crescimento econ\u00f4mico dos pa\u00edses em desenvolvimento e outros fen\u00f4menos fazem com que cada vez se coma mais carne. Al\u00e9m disso, a popula\u00e7\u00e3o mundial tamb\u00e9m cresce. Por isso, se n\u00e3o houver grandes mudan\u00e7as, as emiss\u00f5es atribu\u00edveis \u00e0 ind\u00fastria alimentar continuar\u00e3o aumentando.<\/p>\n<p>Os caminhos para a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/06\/01\/internacional\/1496334641_201201.html\">redu\u00e7\u00e3o dessas emiss\u00f5es<\/a>\u00a0s\u00e3o dois (embora uma n\u00e3o exclua o outro): um \u00e9 diminuir o consumo dos alimentos mais\u00a0<em>poluentes<\/em>. Isso passa por incentivar uma mudan\u00e7a de dieta que seja transferida para os produtores. \u201cN\u00f3s sempre respondemos ao mercado\u201d, esclarece Pekka Pesonen, secret\u00e1rio-geral da Copa-Cogeca, principal organiza\u00e7\u00e3o de agricultores e pecuaristas europeus. \u201cAt\u00e9 que ponto devemos guiar os consumidores em suas escolhas, seja atrav\u00e9s de impostos ou promo\u00e7\u00f5es?\u201d, pergunta.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2017\/11\/15\/planeta_futuro\/1510746923_664876_1510826698_sumario_normal.jpg\" alt=\"Vacas em uma fazenda de gado\" \/><em><span class=\"foto-texto\">Vacas em uma fazenda de gado<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">KAI SCHREIBER<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p>Pesonen se mostra pessimista quanto \u00e0 efic\u00e1cia dessa abordagem, e d\u00e1 como exemplo o tabaco: \u201cSabemos que pode ser prejudicial e, apesar de toda a informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, continuamos consumindo\u201d, assinala. Mas Rodrigo, da ProVeg, sustenta que a demanda dos cidad\u00e3os n\u00e3o \u00e9 tanto por produtos concretos, e sim por prote\u00ednas \u201ccom um sabor e uma textura que sejam familiares e agrad\u00e1veis para eles\u201d. Por isso, apresenta como op\u00e7\u00e3o algumas iniciativas j\u00e1 em andamento, como a produ\u00e7\u00e3o de salsichas ou de presunto \u00e0 base de vegetais, e insiste na necessidade de conscientiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das principais contraindica\u00e7\u00f5es desse caminho, o da redu\u00e7\u00e3o do consumo, \u00e9 o efeito sobre a economia de quem se dedica a isso. Segundo a FAO, dois ter\u00e7os das fam\u00edlias rurais mais pobres criam gado, e dependem de sua carne ou seu leite para o pr\u00f3prio sustento. No mundo h\u00e1, al\u00e9m disso, 500 milh\u00f5es de pastores. \u201cQuando falamos de carne ou leite, n\u00e3o falamos apenas de comida, mas tamb\u00e9m do modo de vida de milh\u00f5es de pessoas em \u00e1reas marginais\u201d, destaca Henning Steinfeld, especialista da ag\u00eancia da ONU.<\/p>\n<p>Steinfeld aponta outra dificuldade: em muitos pa\u00edses em desenvolvimento, \u00e9 muito dif\u00edcil encontrar prote\u00ednas que n\u00e3o sejam de origem animal. \u201cQuem sou eu, um europeu, para lhes dizer que n\u00e3o deveriam consumir a carne que poderia melhorar suas dietas?\u201d, concorda Pesonen. A ProVeg argumenta que o problema n\u00e3o est\u00e1 na agricultura de subsist\u00eancia ou no pastoreio nesses lugares, e sim \u201cno consumo excessivo, na agricultura industrial e no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/11\/11\/internacional\/1447271984_076230.html\">desperd\u00edcio de alimentos nos pa\u00edses desenvolvidos<\/a>\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2017\/11\/15\/planeta_futuro\/1510746923_664876_1510826421_sumario_normal.jpg\" alt=\"Um pastor fulani com seu gado em Tillaberi, no sul de N\u00edger\" \/><em><span class=\"foto-texto\">Um pastor fulani com seu gado em Tillaberi, no sul de N\u00edger<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">STRINGER<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">REUTERS<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p>Mas as emiss\u00f5es geradas pela atividade pecu\u00e1ria na \u00c1frica subsaariana e no sul da \u00c1sia (\u00cdndia, Bangladesh, Paquist\u00e3o, Afeganist\u00e3o&#8230;) superam em 43% a soma das da Europa ocidental, Am\u00e9rica do Norte e Oceania, embora os primeiros produzam a metade das prote\u00ednas. Isso se deve, em grande parte, \u00e0 maior produtividade dos exemplares destas \u00faltimas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Por isso, a outra forma de tornar carnes e l\u00e1cteos\u00a0<em>mais verdes<\/em>\u00a0\u00e9 reduzir a intensidade de suas emiss\u00f5es. Ou seja, diminuir a quantidade de gases do efeito estufa liberados na produ\u00e7\u00e3o de cada quilo de prote\u00ednas. Steinfeld recorre a um exemplo: melhoras na cria\u00e7\u00e3o, no tratamento veterin\u00e1rio ou na alimenta\u00e7\u00e3o dos animais permitiram triplicar a produ\u00e7\u00e3o leiteira em v\u00e1rios lugares da \u00cdndia. A FAO calcula que ampliar essas pr\u00e1ticas melhoradas na cria\u00e7\u00e3o de gado \u2212 segundo a ag\u00eancia, facilmente dispon\u00edveis \u2212 pode reduzir entre 20% e 30% as emiss\u00f5es globais do setor.<\/p>\n<p>\u201cAo nos referirmos \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos a partir de animais, n\u00e3o podemos pensar apenas na mudan\u00e7a clim\u00e1tica: n\u00e3o seria justo\u201d, sustenta Steinfeld. \u201c\u00c9 preciso medir mais fatores, porque para muita gente o gado \u00e9 muito mais que suas emiss\u00f5es de gases.\u201d Uma quest\u00e3o \u00e0 parte \u00e9 a diet\u00e9tica.<\/p>\n<p>Mas, no contexto geral da batalha clim\u00e1tica, Pesonen acrescenta que, diferentemente de outros setores, como o do transporte (14% do total de emiss\u00f5es), o pecu\u00e1rio tem at\u00e9 mesmo a capacidade, ainda n\u00e3o explorada, de mitigar o aquecimento. \u201cA maioria das pastagens est\u00e1 degradada porque n\u00e3o \u00e9 tratada da forma adequada, mas se o pastoreio for bem administrado h\u00e1 um grande potencial para a recupera\u00e7\u00e3o desses solos, que s\u00e3o um enorme dep\u00f3sito de carbono\u201d, sustenta Steinfeld. Em contraste,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sciencemag.org\/news\/2017\/10\/grass-fed-cows-won-t-save-climate-report-finds\">outro estudo de Oxford sustenta<\/a>que esse sequestro de carbono por parte do gado de pastoreio s\u00f3 ocorre em condi\u00e7\u00f5es ideais.<\/p>\n<p>Fonte &#8211;\u00a0<span class=\"autor-nombre\">Carlos Laorden, El Pa\u00eds de 18 de novembro de 2017<\/span><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma vaca em meio \u00e0 n\u00e9voa polu\u00edda de Nova Delhi (\u00cdndia)\u00a0R S LYER\u00a0AP Apesar do custo ecol\u00f3gico de sua produ\u00e7\u00e3o, o consumo de prote\u00ednas animais vem crescendo. 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