{"id":22249,"date":"2017-12-21T13:00:48","date_gmt":"2017-12-21T15:00:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=22249"},"modified":"2025-11-10T08:44:13","modified_gmt":"2025-11-10T11:44:13","slug":"os-bolsos-gordos-da-ciencia-da-obesidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/os-bolsos-gordos-da-ciencia-da-obesidade\/","title":{"rendered":"Os bolsos gordos da ci\u00eancia da obesidade"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/medico.jpg\" width=\"722\" height=\"407\" \/><\/p>\n<p><strong>Como a ind\u00fastria de alimentos ultraprocessados utiliza a pesquisa cient\u00edfica para minar pol\u00edticas p\u00fablicas, desviar o foco e promover h\u00e1bitos de consumo<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEst\u00e1vamos iludidos de que se poderia chegar a uma boa solu\u00e7\u00e3o\u201d, diz Sim\u00f3n Barquera. Algumas semanas antes, hav\u00edamos visto o nome dele associado ao Comit\u00ea Cient\u00edfico da Choices International Foundation, uma organiza\u00e7\u00e3o criada pela ind\u00fastria de alimentos para evitar a ado\u00e7\u00e3o de r\u00f3tulos com alertas sobre (altos) teores de sal, gordura e a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>E ficamos surpresos: Sim\u00f3n, um dos diretores do Instituto Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica do M\u00e9xico, \u00e9 um dos grandes nomes latino-americanos na \u00e1rea de obesidade e doen\u00e7as cr\u00f4nicas, e editor associado da Public Health Nutrition, uma publica\u00e7\u00e3o de alta reputa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de sa\u00fade. \u00c9, al\u00e9m disso, um dos principais porta-vozes dos grupos acad\u00eamicos que pedem a ado\u00e7\u00e3o de medidas fortes para conter os efeitos das grandes empresas em nossas vidas.<\/p>\n<p>Em fevereiro, o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2017\/02\/11\/technology\/hack-mexico-soda-tax-advocates.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>New York Times<\/em><\/a>\u00a0havia revelado que ele \u00e9 alvo de espionagem no telefone e no meio digital justamente em meio a debates sobre pol\u00edticas p\u00fablicas nessa \u00e1rea.<\/p>\n<p>\u201cComo se pode imaginar, n\u00e3o houve acordo em nada. A ind\u00fastria n\u00e3o apoiou nossas propostas de rotulagem, n\u00e3o apoiou nossas propostas de publicidade, n\u00e3o apoiou nossa proposta de tirar a comida tranqueira das escolas\u201d, ele conta.<\/p>\n<p>Na virada da d\u00e9cada, o M\u00e9xico estava preparando uma agenda regulat\u00f3ria forte na \u00e1rea de alimenta\u00e7\u00e3o em resposta \u00e0 entrada no seleto grupo de pa\u00edses com maiores \u00edndices de obesidade do planeta. Os esfor\u00e7os da ind\u00fastria para evitar o avan\u00e7o dessas propostas fazem com que Sim\u00f3n n\u00e3o tenha mais d\u00favida: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sentar-se \u00e0 mesa quando h\u00e1 interesses t\u00e3o conflitantes. De um lado, as grandes empresas buscam o aumento incessante do lucro. De outro, os \u00edndices de obesidade e de doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o param de crescer.<\/p>\n<p>Por aqui, o sinal amarelo acendeu para valer na virada do s\u00e9culo. A Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares 2002-03 do IBGE mostrou que 40,6% dos brasileiros apresentavam sobrepeso \u2013 desses, 11,1% estavam obesos, quase o triplo do n\u00famero de pessoas com d\u00e9ficit de peso. Mas o grosso das pol\u00edticas p\u00fablicas seguia direcionado ao combate \u00e0 mis\u00e9ria, tanto que o principal programa do governo eleito em 2002 se chamava Fome Zero.<\/p>\n<p>Veio ent\u00e3o a pesquisa de 2008-09 e a not\u00edcia de que 34,8% das crian\u00e7as de 5 a 9 anos tinham sobrepeso \u2013 16,6% de obesidade, quatro vezes mais que o \u00edndice de d\u00e9ficit de peso. Entre os adultos, o sobrepeso j\u00e1 atingia 49%, mais de oito pontos de crescimento em seis anos.<\/p>\n<p>\u201cA gente antigamente olhava o sistema alimentar muito induzido pelo di\u00e1logo com a ind\u00fastria\u201d, diz Patricia Jaime, professora da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP. Quando ela chegou ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade como coordenadora geral de Alimenta\u00e7\u00e3o e Nutri\u00e7\u00e3o, em 2011, a conversa j\u00e1 havia mudado de rumo. \u201cOs determinantes sociais que n\u00f3s costum\u00e1vamos usar j\u00e1 n\u00e3o davam conta de explicar boa parte do problema.\u201d<\/p>\n<p>A epidemia de obesidade a n\u00edvel global fez saltar aos olhos as contradi\u00e7\u00f5es entre o financiamento privado da ci\u00eancia e o exerc\u00edcio cient\u00edfico da d\u00favida, da cr\u00edtica, da reflex\u00e3o. At\u00e9 h\u00e1 pouco tempo as ind\u00fastrias de alimentos eram vistas como as respons\u00e1veis por matar a nossa fome. Ent\u00e3o, tinham todo o direito de se sentar \u00e0 mesa para discutir como chegar\u00edamos a isso. Mas, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, ficou dif\u00edcil ignorar o papel que esses produtos todos desempenham no sobrepeso. \u00c9 a\u00ed que entra a ci\u00eancia: est\u00e1 muito claro que estudos foram manipulados para ocultar evid\u00eancias ou desviar o foco.<\/p>\n<p>O debate \u00e9 recente no mundo todo, e ainda mais recente no Brasil. Se hoje Sim\u00f3n Barquera n\u00e3o hesita em marcar posi\u00e7\u00e3o, sete ou oito anos atr\u00e1s ele via a quest\u00e3o de maneira diferente. \u201cNo M\u00e9xico, a ind\u00fastria est\u00e1 envolvida em todas as tomadas de decis\u00e3o sobre preven\u00e7\u00e3o de obesidade. Ent\u00e3o, \u00e9 dif\u00edcil aprovar qualquer coisa. Eles t\u00eam voz e voto.\u201d<\/p>\n<p>Os motivos para uma empresa patrocinar uma pesquisa ou um evento na \u00e1rea de sa\u00fade se condensam em quatro vertentes: influenciar pol\u00edticas p\u00fablicas, profissionais de sa\u00fade, h\u00e1bitos de consumo e imagem p\u00fablica. Acima de todas elas est\u00e1 o desvio de foco. \u00c9 apontar o dedo para o outro. \u00c0s vezes, um outro segmento industrial. No mais das vezes, uma outra causa para a obesidade. H\u00e1 um sem-fim de pesquisas apontando que a explos\u00e3o do problema \u00e9 culpa da pregui\u00e7a, da gen\u00e9tica, do descontrole individual e at\u00e9 das bact\u00e9rias que carregamos em nosso intestino.<\/p>\n<p><strong>Mudar por dentro<\/strong><\/p>\n<p>Vamos partir do caso da Choices Foundation, que no Brasil se chamava Instituto Minha Escolha. Em dezembro de 2015, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias de Alimenta\u00e7\u00e3o (Abia) compareceu \u00e0 reuni\u00e3o do grupo de trabalho da Anvisa sobre rotulagem armada de uma apresenta\u00e7\u00e3o da Choices. O grupo foi criado na metade da d\u00e9cada passada, quando a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) difundiu a Estrat\u00e9gia Global em Alimenta\u00e7\u00e3o, Atividade F\u00edsica e Sa\u00fade, um documento-chave para as empresas de ultraprocessados porque come\u00e7a a impor limites: prop\u00f5e impostos como forma de desestimular consumo e a ado\u00e7\u00e3o dos r\u00f3tulos como espa\u00e7o de alerta sobre riscos \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil entender que o Choices, criado pela Unilever, \u00e9 uma tentativa de evitar a regula\u00e7\u00e3o. O que faz o instituto, presente em v\u00e1rios pa\u00edses, \u00e9 conceder um selinho positivo para produtos que promovam uma reformula\u00e7\u00e3o para reduzir os n\u00edveis de calorias, a\u00e7\u00facar, sal e gordura. N\u00e3o importa se \u00e9 um salgadinho, um refrigerante, um biscoito.<\/p>\n<p>A exemplo do comit\u00ea latino-americano, o comit\u00ea cient\u00edfico brasileiro tem nomes conhecidos no meio: Franco Lajolo, Silvia Cozzolino, Sonia Tucunduva Philippi e Eliane Bistriche Giuntini. Al\u00e9m de serem professores das faculdades de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas e de Sa\u00fade P\u00fablica da USP, encabe\u00e7am organiza\u00e7\u00f5es conhecidas pela proximidade com a ind\u00fastria de alimentos.<\/p>\n<p>Foram fundadores ou s\u00e3o integrantes da Sociedade Brasileira de Alimenta\u00e7\u00e3o e Nutri\u00e7\u00e3o (Sban), que tem se envolvido em pol\u00eamicas ao defender certos produtos. Lajolo preside o Comit\u00ea Cient\u00edfico do International Life Sciences Institute (ILSI), uma organiza\u00e7\u00e3o criada pela Coca-Cola e que hoje tem a participa\u00e7\u00e3o de dezenas de corpora\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 \u201cprodu\u00e7\u00e3o de conhecimento\u201d utilizado no debate sobre pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Cozzolino preside o Conselho Regional de Nutricionistas da 3\u00aa Regi\u00e3o (S\u00e3o Paulo e Mato Grosso do Sul), que tem se oposto \u00e0s medidas do conselho federal favor\u00e1veis a um maior distanciamento em rela\u00e7\u00e3o ao setor privado. Recentemente, ela se fez alvo de cr\u00edticas ao se posicionar publicamente contra um debate sobre conflito de interesses promovido pelo \u00f3rg\u00e3o federal.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o foi refor\u00e7ada durante a entrevista que nos concedeu, recha\u00e7ando a possibilidade de regula\u00e7\u00e3o. \u201cDe todas as empresas que eu tenho contato e que de alguma forma tenho conversado sobre isso, est\u00e3o preocupadas com o aumento da obesidade e est\u00e3o de alguma forma procurando alternativas para os produtos que s\u00e3o produzidos no sentido de reduzir a\u00e7\u00facar, reduzir quantidade de sal, reduzir gordura.\u201d<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a por dentro \u00e9 um motivo frequente para que cientistas aceitem participar de pesquisas e grupos financiados pelo setor privado. Embora o limite de cada um nessa rela\u00e7\u00e3o varie bastante, o ineg\u00e1vel \u00e9 que h\u00e1 uma parcela crescente de pesquisadores incomodados.<\/p>\n<p>Susan Prescott, professora de pediatria na Escola de Medicina da Universidade da Austr\u00e1lia Ocidental, esteve durante dez anos no Conselho Consultivo do Instituto de Nutri\u00e7\u00e3o da Nestl\u00e9 na Oceania. Ela conta que sempre se questionou sobre os conflitos criados por essa rela\u00e7\u00e3o porque, como pediatra, crescentemente notava os problemas criados pelos ultraprocessados.<\/p>\n<p>Apesar de nas empresas haver encontrado pessoas muito dispostas a contribuir para a melhoria da sa\u00fade em escala global, tamb\u00e9m notou que as atividades essenciais dessas corpora\u00e7\u00f5es, o marketing e o desenvolvimento de produtos, estavam voltados ao lado oposto. \u201cPesquisadores que se mant\u00eam entrincheirados na defesa dos ultraprocessados est\u00e3o se descobrindo no lado errado da hist\u00f3ria. Mesmo que por associa\u00e7\u00e3o, eu estava de fato emprestando meu nome a algo que considero ser um sistema n\u00e3o saud\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>As pesquisas de sequenciamento gen\u00e9tico mostrando os efeitos negativos provocados pelos ultraprocessados em nossa flora intestinal deram mais for\u00e7a a essa posi\u00e7\u00e3o. Susan Prescott, como integrante da inFLAME Global Network, uma rede de pesquisadores que justamente mapeia essas consequ\u00eancias, foi ficando muito incomodada com as descobertas.<\/p>\n<p>E a gota d\u2019\u00e1gua veio com um artigo assinado por um integrante do Comit\u00ea Cient\u00edfico da Nestl\u00e9 que contesta a classifica\u00e7\u00e3o dos alimentos entre in natura ou minimamente, processados e ultraprocessados, conhecida no meio cient\u00edfico como NOVA. O assunto j\u00e1 foi abordado por\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2017\/11\/ultra-ataque-pesquisador-brasileiro-e-alvo-de-transnacionais-de-alimentos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em><strong>O joio e o trigo<\/strong><\/em><\/a>, mostrando como os ataques ao pesquisador brasileiro Carlos Monteiro, da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP, partiram de cientistas com liga\u00e7\u00f5es com a Nestl\u00e9.<\/p>\n<p>\u201cUm criticismo equilibrado \u00e9 um fator importante para o progresso cient\u00edfico. No entanto, quando vejo tentativas de desacreditar o sistema NOVA por pessoas financiadas pela ind\u00fastria, eu s\u00f3 posso concluir que esses esfor\u00e7os s\u00e3o caracter\u00edsticos de escapismo intelectual\u201d, diz Susan.<\/p>\n<p><strong>Motiva\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Uma raz\u00e3o crucial para o financiamento privado da ci\u00eancia \u00e9 influenciar, formular ou retardar pol\u00edticas p\u00fablicas. Os agentes p\u00fablicos precisam embasar posi\u00e7\u00f5es e, se surge algo bem feito, bem apresentado, cresce a chance de que a vis\u00e3o contida nesse material prospere. E que aquele cientista que n\u00e3o fez um trabalho ativo para se fazer ver acabe desconsiderado no debate. J\u00e1\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2017\/11\/industria-de-alimentos-ocupa-espacos-da-universidade-na-anvisa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">vimos como isso se d\u00e1 na Anvisa<\/a>.<\/p>\n<p>Outra raz\u00e3o frequente diz respeito \u00e0 influ\u00eancia que pesquisas exercem sobre profissionais de sa\u00fade. Um suplemento, um alimento ou um medicamento amplamente acolhido pela comunidade m\u00e9dica significa bilh\u00f5es a mais no caixa.<\/p>\n<p>Ditar h\u00e1bitos de consumo de forma mais ampla \u00e9 um desdobramento natural, e a internet e os modismos abriram todo um novo horizonte. Um especialista que vai a um programa de TV ou que tem milhares de seguidores numa rede social pode ser a chave do sucesso de um produto. Em nossos h\u00e1bitos cotidianos h\u00e1 fartura de exemplos: ado\u00e7antes, vinhos, azeites, produtos integrais etc etc etc.<\/p>\n<p>E, por fim, essas pesquisas servem para atestar boas pr\u00e1ticas \u2013 ou encobrir as m\u00e1s. Uma recomenda\u00e7\u00e3o de uma associa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica ou da \u00e1rea de nutri\u00e7\u00e3o para certo produto ou certa empresa vale bastante \u2013 tanto mais quanto melhor reputada for a organiza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 entidades no Brasil que oferecem um selinho que acompanha produtos no supermercado. Algumas s\u00e3o honestas, mas nem todas.<\/p>\n<p>Como em outras \u00e1reas, as empresas sabem que n\u00e3o precisam financiar pesquisa em tudo quanto \u00e9 canto. Basta contar com um n\u00famero pequeno de colaboradores de peso, capazes de emprestar credibilidade \u00e0 mensagem que se quer irradiar. H\u00e1 uma premissa fundamental na discuss\u00e3o. Quem considera que as grandes empresas est\u00e3o nos trazendo progresso e bem-estar tende a n\u00e3o ver problemas na rela\u00e7\u00e3o delas com a ci\u00eancia e a acreditar naquilo que \u00e9 apresentado.<\/p>\n<p>No fundo, o debate poderia se resumir a: o mundo \u00e9 assim e vamos como der; o mundo pode ser de outro jeito e vamos fazer por onde para mudar. Os interesses das corpora\u00e7\u00f5es podem convergir com os da sociedade? Ao promover determinado assunto para o qual h\u00e1 fundos de pesquisa, estamos deixando de lado outros temas igualmente importantes? A ci\u00eancia deve ser um campo salvaguardado da influ\u00eancia privada?<\/p>\n<p>A premissa para entender a discuss\u00e3o \u00e9 saber que o setor privado tem pavor da palavra regula\u00e7\u00e3o. Quando sente que est\u00e1 a caminho, lan\u00e7a m\u00e3o da autorregula\u00e7\u00e3o, ou seja, da ideia de que as empresas podem se autofiscalizar. O racioc\u00ednio \u00e9 de que, se essas corpora\u00e7\u00f5es est\u00e3o demonstrando boa vontade, a imposi\u00e7\u00e3o de normas mais r\u00edgidas \u00e9 autorit\u00e1ria e desnecess\u00e1ria. Foi assim com o consumo excessivo de sal e com a publicidade de refrigerantes e ultraprocessados voltada a crian\u00e7as, s\u00f3 para citar dois exemplos desta d\u00e9cada.<\/p>\n<p>\u00c9 assim no caso da Choices, que tenta evitar a imposi\u00e7\u00e3o de alertas frontais nas embalagens. No M\u00e9xico, funcionou: o pa\u00eds adotou o GDA, mostrado na figura abaixo, em detrimento do modelo chileno, de advert\u00eancias. Voc\u00ea pode olhar os dois sistemas e dizer qual te passa a informa\u00e7\u00e3o mais clara.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/gda.jpg\" width=\"906\" height=\"450\" \/><\/p>\n<p>A Anvisa est\u00e1 debatendo\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2017\/11\/rotulagem-de-alimentos-discurso-da-anvisa-satisfaz-industria-e-decepciona-sociedade-civil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a ado\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o de rotulagem frontal<\/a>. Nos pr\u00f3ximos meses, n\u00e3o faltar\u00e3o pesquisas cient\u00edficas voltadas a desmerecer propostas mais r\u00edgidas, como o r\u00f3tulo chileno. E a enaltecer a autorregula\u00e7\u00e3o e padr\u00f5es que possam ser usados pela ind\u00fastria como publicidade, em lugar de restri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/etiquetado_de_alimentos.jpg\" \/><\/p>\n<p>Os slides apresentados na reuni\u00e3o da Anvisa dizem que o Minha Escolha enfrentou \u201cbarreiras regulat\u00f3rias\u201d no Brasil: n\u00e3o podia colocar selinho positivo em produtos de p\u00e9ssimo teor nutricional. A apresenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m enfatizava que o Choices \u00e9 ancorado em forte trabalho cient\u00edfico.<\/p>\n<p><strong>G\u00eanese<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o necessariamente toda ci\u00eancia produzida com recursos privados \u00e9 ruim ou deve ser desacreditada. Vamos lembrar que nada na vida \u00e9 neutro e que as v\u00e1rias correntes da ci\u00eancia refletem uma s\u00e9rie de pressupostos b\u00e1sicos. Ent\u00e3o, h\u00e1 cientistas cuja vis\u00e3o ideol\u00f3gica favorece chegar a essa ou \u00e0quela conclus\u00e3o. Isso \u00e9 do jogo. O que n\u00e3o \u00e9 do jogo cient\u00edfico \u00e9 desconsiderar elementos relevantes simplesmente porque n\u00e3o atendem a seus pressupostos ou aos pressupostos de seus patrocinadores.<\/p>\n<p>\u201cO estudo n\u00e3o tem a influ\u00eancia da ind\u00fastria. E na hora de escrever o artigo a ser publicado tamb\u00e9m nunca tive\u201d, diz Felix Reyes, professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp e fundador do ILSI. \u201cIndependente se o resultado interessa ou n\u00e3o \u00e0 empresa, \u00e9 um resultado cient\u00edfico. O dado cient\u00edfico deve ser publicado. A nossa fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 proteger ou n\u00e3o uma empresa. Vamos ajudar a empresa. Se o resultado \u00e9 negativo para a empresa, vamos buscar uma forma de evitar esse efeito negativo.\u201d<\/p>\n<p>Por\u00e9m, os estudos que passam a limpo essas rela\u00e7\u00f5es t\u00eam mostrado outra realidade. Em 2007, um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos\u00a0<a href=\"http:\/\/journals.plos.org\/plosmedicine\/article?id=10.1371\/journal.pmed.0040005\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">analisou 222 artigos<\/a>\u00a0publicados entre 1999 e 2003, dos quais 22% haviam sido financiados exclusivamente por capital de empresas de alimentos. As conclus\u00f5es de cada pesquisa foram avaliadas por pessoas que desconheciam a origem do financiamento. A propor\u00e7\u00e3o de conclus\u00f5es desfavor\u00e1veis \u00e0 ind\u00fastria nos artigos que receberam dinheiro dela foi de 0%, e a diferen\u00e7a foi de 7,6 vezes mais resultados favor\u00e1veis nos trabalhos com recursos privados.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Felix Reyes enfatiza que a ind\u00fastria busca financiar assuntos que lhe sejam ben\u00e9ficos ou que sirvam para a conten\u00e7\u00e3o de danos, dando como exemplo o interesse de Coca e Pepsi por trabalhos sobre ado\u00e7antes. \u201cPesquisas mostravam que a sacarina induzia tumores na bexiga de ratos. Isso foi um rebuli\u00e7o. Como deixaram usar a sacarina nos refrigerantes diet? Isso acabaria com esse nicho de mercado. Ent\u00e3o se come\u00e7aram as pesquisas com o apoio da ind\u00fastria. A ind\u00fastria financiou muitas pesquisas.\u201d<\/p>\n<p>Em 2013, um grupo de cientistas espanh\u00f3is\u00a0<a href=\"http:\/\/journals.plos.org\/plosmedicine\/article?id=10.1371\/journal.pmed.1001578\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">analisou 18 artigos de revis\u00e3o sobre bebidas a\u00e7ucaradas<\/a>. Os artigos de revis\u00e3o s\u00e3o importantes porque condensam conclus\u00f5es e, portanto, servem tanto para decis\u00f5es de formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas como para recomenda\u00e7\u00f5es de profissionais de sa\u00fade.<\/p>\n<p>De seis trabalhos financiados pela ind\u00fastria, cinco desconsideravam a associa\u00e7\u00e3o entre a obesidade e o consumo dessas bebidas, ou adotavam uma postura inconclusiva. Trabalhos de comprovada relev\u00e2ncia eram ignorados por esses autores. \u201cOs interesses da ind\u00fastria de alimentos (vendas aumentadas de seus produtos) s\u00e3o muito diferentes dos interesses da maioria dos pesquisadores (a honesta busca pelo conhecimento) (\u2026) Essas descobertas chamam aten\u00e7\u00e3o para poss\u00edveis descuidos em evid\u00eancia cient\u00edfica de pesquisas financiadas pela ind\u00fastria de alimentos e bebidas\u201d, assinala a conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Este ano, um grupo de pesquisadores da Universidade da Calif\u00f3rnia passou a limpo a maneira como a ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar apontou o dedo para as gorduras durante d\u00e9cadas. O caso foi tratado tamb\u00e9m pela revista Piau\u00ed na reportagem Conspira\u00e7\u00e3o Amarga, de junho de 2016.<\/p>\n<p>O que esse grupo de pesquisadores mostrou foi que j\u00e1 na d\u00e9cada de 1950 havia evid\u00eancias da associa\u00e7\u00e3o entre a\u00e7\u00facar e doen\u00e7as card\u00edacas. O que se fez, ent\u00e3o, foi criar uma funda\u00e7\u00e3o que desenvolveu pesquisas que jogaram toda a culpa na gordura, o que levou a que as recomenda\u00e7\u00f5es oficiais de sa\u00fade advogassem por dietas baixas em gordura, o que por sua vez pode ter provocado muitas mortes (nunca saberemos quantas). Essa funda\u00e7\u00e3o procurou alguns figur\u00f5es da ci\u00eancia m\u00e9dica e ofereceu a eles um dinheiro que hoje seria trocado para pinga, mas que foi o suficiente para manipular evid\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>Desvio de foco<\/strong><\/p>\n<p>Durante um evento recente em S\u00e3o Paulo, o m\u00e9dico M\u00e1rio C\u00edcero Falc\u00e3o, do Instituto da Crian\u00e7a do Hospital das Cl\u00ednicas da USP, com trabalhos patrocinados pela Johnson e pela Ach\u00e9, apresentou um slide de 2000 que associava f\u00f3rmulas infantis a uma flora intestinal mais rica que a de crian\u00e7as alimentadas com leite materno. E admitiu: hoje se sabe que isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Erros acontecem. Descobertas cient\u00edficas fazem com que os consensos estejam em constante transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 disso que estamos falando: estamos falando de como a ci\u00eancia foi usada para induzir gera\u00e7\u00f5es de m\u00e3es ao erro de pensar que o leite materno \u00e9 fraco, \u00e9 escasso, \u00e9 incompleto. Isso ainda \u00e9 comum.<\/p>\n<p>Tampouco estamos dizendo que a ci\u00eancia foi e \u00e9 usada para vender algumas balinhas a mais, ou promover uma troca eventual da comida caseira por uma refei\u00e7\u00e3o pronta. Pesquisas financiadas para enaltecer o alimento artificial fizeram com que muitos m\u00e9dicos \u2013 \u00e9 de supor que na maioria das vezes sem m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es \u2013 receitassem uma pr\u00e1tica errada \u00e0s pacientes. Isso pode ter custado caro \u00e0 sa\u00fade de muitas pessoas: de beb\u00eas.<\/p>\n<p>A despeito de tudo isso, muitos profissionais da sa\u00fade batem na mesa e garantem que agora estamos diante de descobertas definitivas, irrefut\u00e1veis. Quando surge alguma evid\u00eancia contr\u00e1ria ao setor privado, pregam cautela e dizem que s\u00e3o necess\u00e1rios novos estudos para chegar a uma conclus\u00e3o. Mas n\u00e3o demonstram a mesma precau\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que \u00e9 bom para o lucro das empresas \u2014 e deles.<\/p>\n<p>Hoje, no Brasil, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade calcula que tr\u00eas em cada quatro mortes sejam causadas por doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis. Nem todas est\u00e3o relacionadas a alimentos, mas diabetes e hipertens\u00e3o, que ocupam espa\u00e7o privilegiado, podem estar. No come\u00e7o de agosto, o Instituto Nacional do C\u00e2ncer emitiu um posicionamento no qual afirma haver correla\u00e7\u00e3o entre obesidade e 13 tipos de c\u00e2ncer. O \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico diz que o aumento do consumo de ultraprocessados \u00e9 um grande problema, e que \u00e9 poss\u00edvel dizer que 13 em cada cem casos de c\u00e2ncer no pa\u00eds podem ser atribu\u00eddos ao excesso de peso. O documento cobra a imposi\u00e7\u00e3o de limites a esses produtos, com aumento de impostos, restri\u00e7\u00e3o de publicidade e mudan\u00e7as na rotulagem, e demonstra preocupa\u00e7\u00e3o com os resultados de pesquisas financiadas pela ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Vamos pegar um exemplo de agora. As tecnologias de sequenciamento gen\u00e9tico avan\u00e7aram de modo a promover um mapeamento in\u00e9dito do nosso microbioma intestinal, que \u00e9 o conjunto de microrganismos que vivem no trato digestivo. H\u00e1 bichinhos aliados na digest\u00e3o. Um dos grandes achados \u00e9 de que a composi\u00e7\u00e3o digestiva de obesos \u00e9 diferente da de magros. Os cientistas ainda n\u00e3o t\u00eam certeza se isso \u00e9 resultado de uma alimenta\u00e7\u00e3o mais pobre ou se a alimenta\u00e7\u00e3o mais pobre \u00e9 que \u00e9 o resultado dessa composi\u00e7\u00e3o \u2013 Susan Prescott, como vimos, n\u00e3o tem d\u00favida.<\/p>\n<p>De todo modo, dever\u00edamos chegar a uma conclus\u00e3o \u00f3bvia: basta mudar a alimenta\u00e7\u00e3o para que o microbioma se regenere. Verduras, legumes, frutas, cereais naturais, alguma carne (se quiser). A grande maioria de n\u00f3s, humanos, s\u00f3 precisa disso para sobreviver. Mas, ent\u00e3o, um evento da \u00e1rea de nutri\u00e7\u00e3o se resumiria a uma frase: \u201cComam alimentos de verdade\u201d. Em suma, seria desnecess\u00e1rio, e com isso iria por \u00e1gua abaixo o patroc\u00ednio da ind\u00fastria a pomposos encontros. Por consequ\u00eancia, a necessidade de bancar certas pesquisas. A capacidade de provocar uma enorme confus\u00e3o na cabe\u00e7a das pessoas sobre o que e o que n\u00e3o comer. Bilh\u00f5es em publicidade. A fabrica\u00e7\u00e3o de suplementos, alimentos fortificados, funcionais, probi\u00f3ticos, prebi\u00f3ticos e simbi\u00f3ticos. Bilh\u00f5es em \u201csolu\u00e7\u00f5es\u201d para a obesidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguimos ouvir nenhuma solu\u00e7\u00e3o simples sa\u00edda da boca de pesquisadores empolgados com as descobertas sobre a microbiota, em uma dezena de debates a que assistimos entre maio e novembro. O caminho inevit\u00e1vel parece ser a receita de novos rem\u00e9dios e alimentos com probi\u00f3ticos \u2013 dois exemplos para entender do que estamos falando: Yakult e Activia. Essas descobertas todas sobre a vida agitada de nossa barriga abriram uma nova janela de oportunidades para a ind\u00fastria que quer negar a correla\u00e7\u00e3o com a obesidade. E uma nova janela de oportunidades para a mesma ind\u00fastria, que quer lucrar com a obesidade.<\/p>\n<p>Assim que a Anvisa deixar: neste momento, as corpora\u00e7\u00f5es e alguns grupos de pesquisadores trabalham para mudar as normas vigentes de maneira a \u201cdestravar\u201d, para ficar no jarg\u00e3o comercial, a inova\u00e7\u00e3o no Brasil. N\u00e3o resta d\u00favida de que alguns grupos da popula\u00e7\u00e3o com problemas espec\u00edficos podem se beneficiar desses achados, por\u00e9m, diante de resultados reconhecidamente preliminares, os profissionais de sa\u00fade deveriam recomendar esses produtos a torto e a direito?<\/p>\n<p>Durante um debate realizado em novembro do ano passado pelo ILSI, Marcos Pupin, diretor de Assuntos Regulat\u00f3rios e Cient\u00edficos da Nestl\u00e9, informou que o Brasil dispunha de apenas um estudo cl\u00ednico sobre probi\u00f3ticos, contra 833 nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>No Congresso da Sociedade Brasileira de Alimenta\u00e7\u00e3o e Nutri\u00e7\u00e3o (Sban), em agosto, Franco Lajolo, do ILSI, avisou aos presentes que a Anvisa precisar\u00e1 de estudos nessa \u00e1rea, ecoando o que havia sido dito semanas antes, em outro evento, por Dan Waitzberg, da Faculdade de Medicina da USP e do ILSI.<\/p>\n<p>O PubMed, uma das principais bases de trabalhos cient\u00edficos, registra este ano quase cinco mil artigos sobre o tema, somados a outros 6.000 em 2016 e 5.350 em 2015. Uma d\u00e9cada atr\u00e1s, eram menos de quinhentos ao ano e, voltando um pouco mais, na virada do s\u00e9culo n\u00e3o chegavam a uma centena.<br \/>\n\u201cO que me preocupa \u00e9 que essa agenda veio muito da ind\u00fastria, que promove uma s\u00e9rie de produtos, sobretudo l\u00e1cteos, que t\u00eam efeitos para a microbiota. E querem promover esse v\u00ednculo com a obesidade. Me preocupa porque a aten\u00e7\u00e3o sobre coisas b\u00e1sicas, como o consumo de a\u00e7\u00facar, n\u00e3o tem esse mesmo apoio por detr\u00e1s\u201d, lamenta o mexicano Sim\u00f3n Barquera.<\/p>\n<p>Quando se trata da correla\u00e7\u00e3o entre a\u00e7\u00facar e obesidade, temos menos de mil artigos este ano, 2.000 no ano passado e 2.500 em 2015. \u00c9 mais f\u00e1cil imaginar que um bilh\u00e3o de pessoas mundo afora emagrecer\u00e3o \u00e0 base de probi\u00f3ticos ou conhecendo a influ\u00eancia do a\u00e7\u00facar sobre a dieta?<\/p>\n<p>Vamos pegar mais um exemplo dessa distor\u00e7\u00e3o. Felix Reyes, fundador do ILSI, \u00e9 professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp desde a d\u00e9cada de 1970. \u201cNa \u00e1rea de seguran\u00e7a alimentar e toxicologia, temos tido retic\u00eancia por parte da ind\u00fastria porque ningu\u00e9m quer que fale que o alimento est\u00e1 com determinado res\u00edduo. A ind\u00fastria tem procurado mais na \u00e1rea de alimentos funcionais. Se voc\u00ea desenvolve um ingrediente com propriedades funcionais, a ind\u00fastria se interessa.\u201d<\/p>\n<p><strong>Os motivos<\/strong><\/p>\n<p>Alguns desses pesquisadores s\u00e3o selecionados porque t\u00eam alta capacidade t\u00e9cnica. Mas n\u00f3s temos o direito de saber que, naquela condi\u00e7\u00e3o, Fulano de Tal \u00e9 o consultor de uma corpora\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o o professor de uma faculdade. Por\u00e9m, tomar emprestada a credibilidade da institui\u00e7\u00e3o \u00e9 um ponto central da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u201cO que a ind\u00fastria de alimentos quer muitas vezes n\u00e3o \u00e9 coopt\u00e1-lo no sentido de falar bem da ind\u00fastria e de seus produtos. \u00c9 n\u00e3o criticar, apenas isso\u201d, diz Carlos Monteiro, professor da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP. Ele \u00e9 um dos nomes mais cr\u00edticos \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre ind\u00fastria e ci\u00eancia, e tamb\u00e9m um dos mais criticados pelas grandes empresas.<\/p>\n<p>Embora tenha participado da funda\u00e7\u00e3o da Sban, decidiu se afastar. \u201cInvestimento em professores de universidades \u00e9 muito \u2018produtivo\u2019 para a ind\u00fastria. O professor tem contato com centenas de jovens, pode alcan\u00e7ar muita gente. Isso faz parte da estrat\u00e9gia de coopta\u00e7\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o para isso \u00e9 ter um c\u00f3digo de \u00e9tica, de conflito de interesse. \u00c9 importante ser explicitado.\u201d<\/p>\n<p>Quem tamb\u00e9m decidiu se afastar (parcialmente) foi o chileno Ricardo Uauy, da London School of Hygiene and Tropical Medicine. Ele foi fundador do ILSI em seu pa\u00eds, mas nos contou recentemente que decidiu n\u00e3o exercer altos cargos dentro da organiza\u00e7\u00e3o porque tinha receio dos rumos que poderia tomar. Uauy, que segue como consultor de algumas empresas, foi menos enf\u00e1tico ao comentar o assunto. \u201cHoje, est\u00e1 claro que a sa\u00fade p\u00fablica n\u00e3o era o principal prop\u00f3sito do ILSI. (<a href=\"https:\/\/www.riotcitywrestling.com\/nitrazepam-online\/\">https:\/\/www.riotcitywrestling.com\/<\/a>) \u201d<\/p>\n<p>Recentemente, durante um evento em S\u00e3o Paulo, o presidente da Cargill disse contar com 500 PhDs somente na \u00e1rea de nutri\u00e7\u00e3o animal. Se ele disp\u00f5e de tanta gente capacitada a fazer pesquisa em tempo integral, por que precisa pin\u00e7ar professores nas maiores universidades do pa\u00eds? Porque n\u00f3s tendemos a acreditar no professor, e a desconfiar do representante de uma empresa. O primeiro est\u00e1 compartilhando saber. \u00c9 um nobre. O segundo, fazendo propaganda. Um mundano. Somos gratos ao primeiro e estamos dispostos a reproduzir em nossas vidas o que ele diz ser correto.<\/p>\n<p>Em resumo, um coment\u00e1rio certo para o p\u00fablico certo economiza milh\u00f5es de reais (e alguns anos) em publicidade. O profissional de sa\u00fade em geral, o m\u00e9dico em particular, \u00e9 uma figura envolta em sacralidade desde tempos imemoriais \u2013 quase 300 deles foram eleitos prefeitos em 2016.<\/p>\n<p>A Yakult mant\u00e9m desde 1955 no Jap\u00e3o um centro com 300 cientistas que buscam exclusivamente descobrir benef\u00edcios de seus produtos. A Coca-Cola criou em 1978 o ILSI para tentar provar que a cafe\u00edna adicionada ao refrigerante n\u00e3o era apenas um item a mais na tarefa de viciar pequenos fregueses, nem causava hiperatividade.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as nas \u00faltimas d\u00e9cadas em rela\u00e7\u00e3o ao grau e \u00e0 evid\u00eancia sobre os problemas dessa \u201cparceria\u201d. O primeiro diz respeito \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do papel do Estado e ao fortalecimento do paradigma de que o setor p\u00fablico \u00e9 canalha e o setor privado \u00e9 generoso: quanto mais agentes privados tivermos no setor p\u00fablico, mais o depuramos. No \u00e2mbito acad\u00eamico, sucessivas redu\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias fazem com que o dinheiro de grandes empresas seja a t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o para cada vez mais gente \u2013 alguns estudos custam caro e podem demorar anos a se viabilizar com recursos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Se as universidades dos estados mais ricos est\u00e3o sofrendo severas restri\u00e7\u00f5es, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais grave em outras partes. \u201cO conflito de interesses \u00e9 invis\u00edvel para quem n\u00e3o tem um olhar treinado. Porque vem muito embutido como uma boa a\u00e7\u00e3o\u201d, conta N\u00e1dia Aline Fernandes Correa, conselheira da regi\u00e3o Norte no Conselho Federal de Nutricionistas. \u201cExiste um aliciamento dos profissionais pelo aspecto econ\u00f4mico. A pessoa precisa que as coisas aconte\u00e7am, ent\u00e3o, \u00e9 comum ver esse tipo de a\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Ilton Azevedo, diretor da Coca-Cola e vice-presidente do ILSI, afirmou em entrevista publicada no ano passado que h\u00e1 \u201cresist\u00eancia de grupos espec\u00edficos\u201d que advogam pelo financiamento exclusivamente p\u00fablico da ci\u00eancia, mas que \u00e9 preciso reconhecer que a ind\u00fastria conta com recursos grandes, diante de um cen\u00e1rio dif\u00edcil para o setor p\u00fablico, e \u201cpode aportar know-how sobre produtos, materiais e tecnologias de produ\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Rog\u00e9rio Bezerra da Silva, do Grupo de An\u00e1lise de Pol\u00edticas de Inova\u00e7\u00e3o da Unicamp, estuda a apropria\u00e7\u00e3o do conhecimento produzido pelos pesquisadores p\u00fablicos. Ele integra o Movimento pela Ci\u00eancia e Tecnologia P\u00fablica, e demonstra desalento com a cria\u00e7\u00e3o de cada vez mais instrumentos voltados \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o do conhecimento e \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do acad\u00eamico em empreendedor. \u201cNo caso da pol\u00edtica de ci\u00eancia e tecnologia, \u00e9 a pr\u00f3pria comunidade de pesquisa quem v\u00ea um car\u00e1ter positivo nesse sentido de privatiza\u00e7\u00e3o porque \u00e9 o ator que mais se beneficia com isso.\u201d<\/p>\n<p>O encolhimento estatal afeta at\u00e9 mesmo a OMS, que depende crescentemente de fontes privadas para manter iniciativas importantes. A Funda\u00e7\u00e3o Bill e Melinda Gates j\u00e1 \u00e9 a segunda maior doadora, atr\u00e1s apenas dos Estados Unidos. Quem doa quer opinar e acaba direcionando as prioridades e a agenda global de sa\u00fade, inclusive sentando-se \u00e0 mesa para debater pol\u00edticas que poderiam afetar os pr\u00f3prios interesses. \u201cJ\u00e1 n\u00e3o se trata apenas das grandes corpora\u00e7\u00f5es do tabaco. A sa\u00fade p\u00fablica tamb\u00e9m deve travar uma luta com as grandes de comida, refrigerantes e \u00e1lcool. Todas essas ind\u00fastrias temem a regula\u00e7\u00e3o e se protegem usando as mesmas t\u00e1ticas\u201d, afirmou a ent\u00e3o diretora-geral da OMS, Margaret Chan, ao abrir uma confer\u00eancia de sa\u00fade em 2013.<\/p>\n<p>Ela afirmou n\u00e3o ter d\u00favidas de que o temor dos Estados frente \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es \u00e9 o principal freio \u00e0 regula\u00e7\u00e3o dos fatores que causam a obesidade. \u201c[As t\u00e1ticas] incluem grupos de fachada, lobbies, promessas de autorregula\u00e7\u00e3o, a\u00e7\u00f5es judiciais e pesquisas financiadas pela ind\u00fastria que confundem as evid\u00eancias e mant\u00eam o p\u00fablico em d\u00favida.\u201d Na d\u00favida, as pessoas t\u00eam optado por permanecer onde est\u00e3o: cada vez mais obesas e doentes.<\/p>\n<div class=\"sharedaddy sd-sharing-enabled\">\u00a0Fonte &#8211; Jo\u00e3o Peres, O Joio e o Trigo de 04 de dezembro de 2017<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como a ind\u00fastria de alimentos ultraprocessados utiliza a pesquisa cient\u00edfica para minar pol\u00edticas p\u00fablicas, desviar o foco e promover h\u00e1bitos de consumo \u201cEst\u00e1vamos iludidos de que se poderia chegar a uma boa solu\u00e7\u00e3o\u201d, diz Sim\u00f3n Barquera. 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