{"id":22252,"date":"2018-01-24T09:00:36","date_gmt":"2018-01-24T11:00:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=22252"},"modified":"2025-10-18T06:17:22","modified_gmt":"2025-10-18T09:17:22","slug":"industria-de-alimentos-ocupa-espacos-da-universidade-na-anvisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/industria-de-alimentos-ocupa-espacos-da-universidade-na-anvisa\/","title":{"rendered":"Ind\u00fastria de alimentos ocupa espa\u00e7os da universidade na Anvisa"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/anvisa_coi2.jpg\" \/><\/p>\n<p><strong>Grandes empresas conseguem emplacar indica\u00e7\u00f5es para assentos que cabem a faculdades e institutos de pesquisa em grupos de trabalho da ag\u00eancia reguladora, que opta pelo sil\u00eancio<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\">A ind\u00fastria de alimentos tem ocupado assentos que caberiam a universidades e institutos de pesquisa em colegiados da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa). Embora disponham de lugares pr\u00f3prios, as empresas t\u00eam tido sucesso na estrat\u00e9gia de contar com pesquisadores alinhados, conseguindo influenciar na defini\u00e7\u00e3o da agenda e das normas da ag\u00eancia reguladora. Gra\u00e7as a isso, o setor econ\u00f4mico chega a ter maioria em alguns espa\u00e7os, em especial nos grupos de trabalho que fornecem subs\u00eddios \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. E n\u00f3s com isso? Os temas debatidos pela Anvisa t\u00eam incid\u00eancia direta na sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o. (<a href=\"https:\/\/keninstitute.com\/order-tramadol\/\">https:\/\/keninstitute.com\/<\/a>) <\/p>\n<p class=\"western\">Essa rela\u00e7\u00e3o vem de longa data, mas h\u00e1 sinais de que tem se fortalecido com o passar dos anos. O principal representante da ind\u00fastria nos assentos da comunidade acad\u00eamica \u00e9 o International Life Sciences Institute (ILSI), criado em 1978 pela Coca-Cola. \u201cO ILSI Internacional e o ILSI Brasil acreditam que o f\u00f3rum cient\u00edfico \u00e9 um f\u00f3rum neutro e \u00e9 o \u00fanico f\u00f3rum que pode dar respostas seguras para uma popula\u00e7\u00e3o que necessita de uma contribui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d, defendeu o diretor-presidente do ILSI, Ary Bucione, na entrevista que nos concedeu. A organiza\u00e7\u00e3o aberta nos Estados Unidos hoje conta com 17 regionais espalhadas pelo mundo, sempre buscando a interface entre ci\u00eancia, ind\u00fastria e governo. No Brasil, s\u00e3o quase 40 empresas patrocinadoras, entre elas Coca-Cola, Nestl\u00e9, Danone, Ajinomoto, Basf, Cargill, Pepsico, Unilever e Kellogg\u2019s.<\/p>\n<p class=\"western\">Revisamos mais de uma centena de atas de reuni\u00f5es de grupos de trabalho na Anvisa. Entrevistamos dezenas de pessoas. Lemos o material cient\u00edfico apresentado por pesquisadores e diretamente pela ind\u00fastria para embasar a tomada de decis\u00e3o. E n\u00e3o encontramos nenhuma diverg\u00eancia relevante entre as posi\u00e7\u00f5es das empresas de alimentos e do ILSI \u2013 e tamb\u00e9m de alguns professores com trabalhos financiados pelo setor privado. Pelo contr\u00e1rio, a converg\u00eancia \u00e9 constante. N\u00e3o s\u00f3 isso, mas tamb\u00e9m o hist\u00f3rico de rela\u00e7\u00f5es entre ci\u00eancia, setor privado e agenda regulat\u00f3ria no mundo todo permite levantar interroga\u00e7\u00f5es sobre os efeitos desse processo.<\/p>\n<p class=\"western\">O ILSI \u00e9 dividido em for\u00e7as-tarefa, cada uma sobre um tema, nas quais integrantes de universidades e institutos de pesquisa dividem espa\u00e7o com representantes das empresas. O instituto alega que essa composi\u00e7\u00e3o veda a manipula\u00e7\u00e3o de resultados em favor de interesses privados, j\u00e1 que a \u00e1rea cient\u00edfica sempre tem maioria. E tamb\u00e9m diz que \u00e9 proibido fazer lobby, embora admita promover<em>advocacy<\/em>, que \u00e9 a influ\u00eancia sobre o poder p\u00fablico por organiza\u00e7\u00f5es da sociedade, aqui entendida num car\u00e1ter bem amplo \u2013 apresentando-se como \u201centidade sem fins lucrativos\u201d, o ILSI, em tese, se encaixa nessa defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\">O congresso anual da organiza\u00e7\u00e3o contou em 2017 com a participa\u00e7\u00e3o de um diretor da Anvisa pela primeira vez. Fernando Mendes Garcia Neto criticou \u201cmodismos alimentares\u201d que, segundo ele, prejudicam a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o, fazendo eco ao escopo argumentativo da ind\u00fastria de ultraprocessados. \u201cSejamos participativos e propositivos em prol da constru\u00e7\u00e3o de uma linha de atua\u00e7\u00e3o que nos permita estabelecer um m\u00ednimo de ordenamento regulat\u00f3rio que possa seguir em alinhamento com a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica desses produtos de forma a permitir, no menor tempo poss\u00edvel, a comercializa\u00e7\u00e3o deles em situa\u00e7\u00e3o que garanta efic\u00e1cia e seguran\u00e7a no uso\u201d, afirmou Garcia Neto.<\/p>\n<p class=\"western\">O ILSI e outras organiza\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas \u00e0 ind\u00fastria t\u00eam trabalhado para agilizar processos dentro da Anvisa, especialmente no que diz respeito a novos produtos. Como a ind\u00fastria investe forte em inova\u00e7\u00e3o, est\u00e1 sempre alguns passos \u00e0 frente da agenda regulat\u00f3ria e da pesquisa acad\u00eamica. Sempre que se pronuncia publicamente, Bucione enfatiza que o ILSI \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Por\u00e9m, em algumas reuni\u00f5es da Anvisa o instituto se faz representar por funcion\u00e1rios de empresas, inclusive Bucione, que \u00e9 da DuPont, fabricante de ingredientes fornecidos \u00e0 ind\u00fastria de alimentos.<\/p>\n<p class=\"western\">Aldo Baccarin, ex-Kraft Foods e presidente do ILSI de 2001 a 2015, representou o instituto no Grupo de Trabalho para Auxiliar na Elabora\u00e7\u00e3o de Crit\u00e9rios para Sele\u00e7\u00e3o dos Alimentos Pass\u00edveis de Veicularem Alega\u00e7\u00f5es e para Definir as Alega\u00e7\u00f5es de Fun\u00e7\u00e3o Plenamente Reconhecidas. \u201cO ILSI \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o abstrata\u201d, Baccarin nos respondeu, e fez um raro momento de sil\u00eancio durante a mais de uma hora de conversa realizada em agosto. \u201cSim, a gente manda as pessoas que t\u00eam o melhor n\u00edvel de conhecimento, e sempre v\u00e3o assessorados por algu\u00e9m da ci\u00eancia. Eles t\u00eam que tomar muito cuidado para, se ficar em qualquer momento claro que est\u00e1 tendo um conflito de interesses, essas pessoas t\u00eam que se abster e pular fora.\u201d<\/p>\n<p class=\"western\">O GT foi formado pela Comiss\u00e3o T\u00e9cnico-Cient\u00edfica de Assessoramento em Alimentos Funcionais e Novos Alimentos, instalada em 1999, mesmo ano de cria\u00e7\u00e3o da Anvisa. A ag\u00eancia era ent\u00e3o presidida por Gon\u00e7alo Vecina Neto, professor da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP, que determinou que Franco Lajolo, professor da Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas da USP e fundador do ILSI, coordenasse a cria\u00e7\u00e3o da norma brasileira sobre alimentos funcionais. Essa norma baliza o trabalho da comiss\u00e3o, desde sempre dominada por representantes do ILSI, com o poder de aprovar ou reprovar alega\u00e7\u00f5es de benef\u00edcios \u00e0 sa\u00fade em alimentos.<\/p>\n<p class=\"western\">No grupo de trabalho aberto em 2013, a organiza\u00e7\u00e3o contou com dois assentos diretos. E ainda teve direito a mais duas cadeiras reservadas \u00e0 academia: H\u00e9lio Vannucchi, professor da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto da USP, e o pr\u00f3prio Lajolo, atual presidente do Comit\u00ea Cient\u00edfico do instituto, que durante um recente congresso da \u00e1rea m\u00e9dica se referiu a Bucione como \u201cchefe\u201d. J\u00e1 Vannucchi, tanto nesse grupo como em outro de que fez parte, apresentou-se reiteradas vezes em nome do ILSI, apesar de inscrito como representante da USP.<\/p>\n<p class=\"western\">Lajolo chegou a pedir durante as reuni\u00f5es que margarinas, sopas prontas e chocolates pudessem receber alega\u00e7\u00f5es de benef\u00edcios \u00e0 sa\u00fade. Ele \u00e9 copropriet\u00e1rio de duas patentes. Uma, de 2007, sobre a farinha de banana verde, um alimento funcional. E outra, de 2011, financiada pela Sadia, que justamente tenta promover o prato pronto congelado como algo ben\u00e9fico \u00e0 sa\u00fade. Por\u00e9m, no grupo de trabalho, a Anvisa adotou as alega\u00e7\u00f5es funcionais como exce\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o como regra, fechando a porta para que ultraprocessados ou alimentos de baixo valor nutricional pudessem receber selinhos de \u201cbons para a sa\u00fade\u201d.<\/p>\n<p class=\"western\">\u201cA universidade teria que levar em conta a evid\u00eancia cient\u00edfica e \u00e9 sempre a hora em que a situa\u00e7\u00e3o se complica. Essencialmente, os representantes da universidade n\u00e3o s\u00e3o un\u00edssonos. Est\u00e3o sempre divididos. Tradicionalmente, na Anvisa, os grupos ligados \u00e0 ind\u00fastria est\u00e3o presentes. N\u00e3o faltam. T\u00eam um comprometimento com esses eventos que \u00e9 de outro planeta\u201d, resume Rafael Claro, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, que participou do grupo de trabalho sobre alimentos funcionais.<\/p>\n<p class=\"western\">Algumas pessoas que entrevistamos consideram que o problema est\u00e1 na forma como s\u00e3o feitas as indica\u00e7\u00f5es. Os GTs da Anvisa seguem uma f\u00f3rmula previs\u00edvel. A sociedade civil se op\u00f5e \u00e0 ind\u00fastria. A ind\u00fastria se op\u00f5e a qualquer regula\u00e7\u00e3o. E os membros da academia s\u00e3o o fiel da balan\u00e7a, ou seja, conseguir nomear algu\u00e9m no m\u00ednimo simp\u00e1tico a suas ideias pode desequilibrar o jogo. Em boa parte das vezes, as decis\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o tomadas por voto, o que significa que ter maioria n\u00e3o \u00e9 ter vit\u00f3ria certa, mas uma chance maior de prevalecer.<\/p>\n<p class=\"western\">\u201cVerdade seja dita, hoje h\u00e1 um registro dos poss\u00edveis conflitos de interesse, mas at\u00e9 onde eu sei ningu\u00e9m \u00e9 vetado e a opini\u00e3o de ningu\u00e9m \u00e9 descartada. Se a Anvisa fizer um c\u00f3digo mais r\u00edgido, e fulano recebeu financiamento de determinada empresa, ele n\u00e3o vai falar como universidade: vai falar como empresa\u201d, sugere Claro.<\/p>\n<p class=\"western\">Em alguns grupos, a ind\u00fastria conta ainda com a simpatia de institutos p\u00fablicos de pesquisa. \u00c9 o caso especialmente do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), um \u00f3rg\u00e3o do governo paulista vinculado \u00e0 Ag\u00eancia Paulista dos Agroneg\u00f3cios. A pr\u00f3pria miss\u00e3o institucional do Ital \u00e9 estar a servi\u00e7o da ind\u00fastria. Hoje, para citar dois exemplos, o \u00f3rg\u00e3o recha\u00e7a a nomenclatura \u201cultraprocessados\u201d para descrever alguns tipos de alimentos e alega que a obesidade \u00e9 causada por h\u00e1bitos pessoais.<\/p>\n<p class=\"western\">Recentemente, o presidente do Ital, Luis Madi, defendeu durante semin\u00e1rio organizado pela Anvisa que n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias da associa\u00e7\u00e3o entre obesidade e alimentos com altos n\u00edveis de sal, gordura e a\u00e7\u00facar. \u201cEm alguns momentos voc\u00eas induzem que o consumo de alimentos processados \u00e9 o grande causador da obesidade, coisa que n\u00e3o existe evid\u00eancia nenhuma. \u00c9 uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica\u201d, disse, para em seguida ser contestado por alguns dos presentes, que elencaram v\u00e1rias evid\u00eancias cient\u00edficas que v\u00e3o no sentido contr\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"western\"><strong>A f\u00f3rmula n\u00e3o \u00e9 secreta<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\">Em um encontro recente do Grupo de Trabalho de Nutri\u00e7\u00e3o e Alimentos para Fins Especiais, realizado no come\u00e7o de julho, em S\u00e3o Paulo, a presidente da Sociedade Brasileira de Alimenta\u00e7\u00e3o e Nutri\u00e7\u00e3o (Sban), que, na verdade, estava inscrita como integrante da Unifesp, demonstrava certa impaci\u00eancia com os pormenores da discuss\u00e3o sobre a rotulagem de f\u00f3rmulas infantis para crian\u00e7as maiores de um ano. Os detalhes s\u00e3o justamente o motivo de ser do grupo, que atua desde 2010 discutindo as normas internacionais nessa \u00e1rea, um trabalho que pode custar horas em torno de uma palavra ou uma frase.<\/p>\n<p class=\"western\">\u201cAntigamente, tinha uma f\u00f3rmula s\u00f3. E ningu\u00e9m morreu por causa disso. Eu fui criada com Leite Ninho\u201d, disse Olga Am\u00e2ncio, presidente da Sban, uma organiza\u00e7\u00e3o parceira do ILSI que vem recebendo cr\u00edticas pelas rela\u00e7\u00f5es com as grandes empresas de alimentos. Recentemente, a Sban promoveu v\u00eddeos nas redes sociais em defesa do leite de vaca e teve a Nestl\u00e9 como maior patrocinadora de um congresso.<\/p>\n<p class=\"western\">Na Anvisa, Olga discordou da necessidade de informar no r\u00f3tulo que aquele alimento \u00e9 complementar \u00e0 dieta e n\u00e3o um substituto, porque considera por \u00f3bvio que ningu\u00e9m dar\u00e1 f\u00f3rmula a um beb\u00ea durante o dia inteiro, uma interpreta\u00e7\u00e3o que provocou certo mal-estar dentro da sala entre as defensoras do aleitamento materno.<\/p>\n<p class=\"western\">No final de outubro, durante audi\u00eancia p\u00fablica na C\u00e2mara, a Sban apresentou-se contra a cria\u00e7\u00e3o de um imposto especial sobre os refrigerantes. A representante da entidade, Marcia Terra, afirmou que, embora n\u00e3o se tenha at\u00e9 o momento fechado posi\u00e7\u00e3o em torno do assunto, as evid\u00eancias cient\u00edficas iriam no sentido de mostrar que a medida \u00e9 pouco eficaz.<\/p>\n<p class=\"western\">Dias depois, ela, em nome da Sban, e pesquisadores do Ital estiveram em evento da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias de Alimenta\u00e7\u00e3o (Abia) para defender o modelo de rotulagem frontal proposto pelo setor privado. O tema \u00e9 central nos debates atuais da Anvisa, que\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2017\/11\/rotulagem-de-alimentos-discurso-da-anvisa-satisfaz-industria-e-decepciona-sociedade-civil\/\">at\u00e9 o momento n\u00e3o se decidiu<\/a>\u00a0entre o sistema defendido pela sociedade civil e o advogado pelas empresas.<\/p>\n<p class=\"western\">Marcia Vitolo, professora aposentada da Universidade Federal de Ci\u00eancias da Sa\u00fade de Porto Alegre, integrou o GT sobre f\u00f3rmulas infantis nos \u00faltimos anos. Ela n\u00e3o tem d\u00favidas de que a forma como s\u00e3o estruturados os grupos da Anvisa \u00e9 o cerne da quest\u00e3o.\u00a0\u201cEm cada reuni\u00e3o, vai um grupo diferente. Essa descontinuidade faz com que o processo fique vulner\u00e1vel, o que \u00e9 de interesse maior da ind\u00fastria\u201d, resume. \u201cPorque a ind\u00fastria tem uma continuidade. Os profissionais t\u00e9cnicos, acad\u00eamicos, que v\u00e3o de alguma forma tentar dar o olhar da popula\u00e7\u00e3o, est\u00e3o abarrotados de coisas. T\u00eam demandas monstruosas.\u201d<\/p>\n<p class=\"western\">O GT de que fez parte Marcia Vitolo atua numa quest\u00e3o muito delicada. As f\u00f3rmulas infantis s\u00e3o o t\u00f3pico que fez saltar \u00e0 vista como a influ\u00eancia da ind\u00fastria pode minar os conhecimentos cient\u00edficos, resultando em d\u00e9cadas de desinforma\u00e7\u00e3o das m\u00e3es sobre os benef\u00edcios do aleitamento materno. Embora a ind\u00fastria hoje admita que nada \u00e9 melhor do que o leite natural, ainda h\u00e1 um forte jogo de press\u00e3o nessa seara, que pode ser facilmente reconhecido nas atas da reuni\u00e3o, com sucessivas tentativas de evitar qualquer restri\u00e7\u00e3o a esses produtos. O ILSI se op\u00f4s a que se adotasse a inscri\u00e7\u00e3o \u201cN\u00e3o nutricionalmente necess\u00e1rio\u201d nos r\u00f3tulos das f\u00f3rmulas para beb\u00eas acima de 12 meses, tese defendida por parte da comunidade acad\u00eamica e pela sociedade civil.<\/p>\n<p class=\"western\">\u201cO conflito de interesses \u00e0s vezes \u00e9 muito velado\u201d, resume Renata Monteiro, pesquisadora do Observat\u00f3rio de Pol\u00edticas de Sa\u00fade Alimentar e Nutri\u00e7\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia que participou de grupos de trabalho na Anvisa e no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. \u201cEu sou uma profissional de sa\u00fade, ent\u00e3o, quando sou chamada a um espa\u00e7o assim, sei exatamente qual \u00e9 meu papel. Quando se trata de um acad\u00eamico mais pr\u00f3ximo \u00e0 ind\u00fastria, \u00e9 mais dif\u00edcil. Porque n\u00e3o est\u00e1 tentando discutir a quest\u00e3o da ci\u00eancia: est\u00e1 para intermediar a ind\u00fastria com a quest\u00e3o acad\u00eamica, tentar criar argumenta\u00e7\u00e3o acad\u00eamica para justificar algumas coisas que a ind\u00fastria quer fazer. Tem pessoas que s\u00e3o extremamente renomadas, est\u00e3o na Anvisa h\u00e1 anos, fazem parte desses grupos de trabalho. E ao mesmo tempo s\u00e3o gestores de institui\u00e7\u00f5es ditas cient\u00edficas.\u201d<\/p>\n<p class=\"western\">No come\u00e7o de 2017, o setor produtivo apresentou ao GT dois artigos de revis\u00e3o que deveriam ser tomados como material de refer\u00eancia, dada a escassa bibliografia brasileira sobre o tema. Ambos tratavam da inadequa\u00e7\u00e3o da dieta de beb\u00eas, enfatizando o alto consumo do leite de vaca, o que pode levar \u00e0 conclus\u00e3o de que h\u00e1 baixo consumo de f\u00f3rmulas. Um deles era assinado por professores de universidades federais em parceria com um funcion\u00e1rio da Danone.<\/p>\n<p class=\"western\"><strong>Sem cores<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\">Em 2007 a Anvisa emitiu um informe t\u00e9cnico sobre o corante tartrazina, acusado de provocar rea\u00e7\u00f5es al\u00e9rgicas que come\u00e7am com coceiras e dores de cabe\u00e7a e podem terminar em fechamento da glote e rea\u00e7\u00e3o anafil\u00e1tica. O corante, de cor amarela, est\u00e1 presente em v\u00e1rios alimentos industrializados: balas, doces, refrigerantes, mostarda e por a\u00ed vai. Embora o relat\u00f3rio governamental informe que a FDA, a Anvisa dos Estados Unidos, exige que os r\u00f3tulos tragam uma mensagem de advert\u00eancia, a conclus\u00e3o foi de que o mesmo n\u00e3o deveria se aplicar ao Brasil.<\/p>\n<p class=\"western\">N\u00e3o que aqui os consumidores n\u00e3o estejam expostos a riscos. Est\u00e3o. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) pautou as discuss\u00f5es anos antes, logo nos prim\u00f3rdios da Anvisa, pedindo que a rotulagem fosse expl\u00edcita quanto \u00e0 tartrazina. \u00c9 poss\u00edvel notar que a ag\u00eancia caminhava nesse sentido. At\u00e9 que o ILSI se colocou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para ajudar.<\/p>\n<p class=\"western\">\u201cIdentificamos no mundo os formadores de opini\u00e3o. Os caras no mundo que entendiam muito de corantes. N\u00f3s trouxemos pessoas de centros de pesquisa, universidades, ind\u00fastrias\u201d, conta Aldo Baccarin. \u201cSe falava tanto que os corantes causavam alergias. A gente n\u00e3o tinha evid\u00eancias para bani-los.\u201d Logo em seguida, a Anvisa emitiu uma resolu\u00e7\u00e3o na qual definiu que bastava que a tartrazina fosse declarada na lista de ingredientes, sem qualquer alerta.<\/p>\n<p class=\"western\">Por\u00e9m, ainda seria conduzido um estudo que poderia levar a uma reavalia\u00e7\u00e3o do caso. A Anvisa decidiu, ent\u00e3o, contratar Beni Olej, da Universidade Federal Fluminense, que integra o Conselho Cient\u00edfico Consultor do ILSI. Com base nisso, emitiu o informe t\u00e9cnico de 2007. Dois anos depois, a Justi\u00e7a Federal em S\u00e3o Paulo determinou que a Anvisa editasse uma nova resolu\u00e7\u00e3o que previsse um alerta expresso quanto \u00e0 presen\u00e7a de tartrazina. Mas a decis\u00e3o foi suspensa.<\/p>\n<p class=\"western\">N\u00f3s n\u00e3o temos o direito de duvidar da seriedade do grupo comandado por Olej. Nem dos cientistas trazidos pelo ILSI para embasar a decis\u00e3o da Anvisa. Mas n\u00f3s devemos nos perguntar se n\u00e3o havia outro grupo, desvinculado dessa organiza\u00e7\u00e3o, capaz de conduzir uma an\u00e1lise independente, e se n\u00e3o h\u00e1 outros cientistas relevantes que deveriam ser ouvidos. N\u00e3o se trata de um caso isolado: vimos que a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de alimentos e de organiza\u00e7\u00f5es ligadas a ela faz com que algumas correntes da ci\u00eancia tenham maior presen\u00e7a no processo decis\u00f3rio.<\/p>\n<p class=\"western\">Em 2003, o ILSI op\u00f4s-se \u00e0 coloca\u00e7\u00e3o de alerta sobre rotulagem de alimentos com gl\u00faten, alegando que a mensagem provocaria confus\u00e3o. E, recentemente, fez oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o da Anvisa sobre rotulagem de alimentos com potencial alerg\u00eanico. \u201cO ILSI faz ci\u00eancia com evid\u00eancia. Ent\u00e3o, enquanto n\u00e3o tiver evid\u00eancia, a gente n\u00e3o apoia a\u00e7\u00f5es que s\u00e3o simplesmente questionamentos, sem a avalia\u00e7\u00e3o do risco, que \u00e9 o necess\u00e1rio para esse caso\u201d, resumiu Maria Cec\u00edlia de Figueiredo Toledo, professora aposentada da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, durante um debate sobre o assunto no qual marcou posi\u00e7\u00e3o contra Cec\u00edlia Cury, uma das coordenadoras da campanha P\u00f5e no R\u00f3tulo, que teve \u00eaxito em conseguir a coloca\u00e7\u00e3o de alertas nas embalagens.<\/p>\n<p class=\"western\"><strong>Portas abertas<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\">A Anvisa adotou recentemente uma norma interna sobre conflito de interesses, adequando-se \u00e0 tamb\u00e9m recente legisla\u00e7\u00e3o federal sobre o tema. Por\u00e9m, tanto a regra como a lei v\u00e3o em m\u00e3o \u00fanica, dizendo apenas o que cabe ao servidor p\u00fablico e n\u00e3o a quem se relaciona com o poder p\u00fablico. Buscamos saber se o Comit\u00ea de \u00c9tica da ag\u00eancia reguladora ou a Diretoria Colegiada tomam atitudes quanto a essa quest\u00e3o, mas a assessoria de imprensa optou por vetar entrevistas e n\u00e3o enviar qualquer resposta, mesmo com pedidos reiterados desde o come\u00e7o de agosto.<\/p>\n<p class=\"western\">As resolu\u00e7\u00f5es da Anvisa seguem um rito. Primeiro, \u00e9 preciso que o assunto entre na lista de prioridades de regula\u00e7\u00e3o. Depois, que comece a ser debatido. Em seguida, edita-se uma proposta de resolu\u00e7\u00e3o, ou seja, um esbo\u00e7o da norma, que \u00e9 submetido a uma consulta p\u00fablica e recebe contribui\u00e7\u00f5es dos interessados. O ILSI \u00e9 ass\u00edduo em todas essas etapas.<\/p>\n<p class=\"western\">H\u00e1 v\u00e1rios assuntos em discuss\u00e3o que despertam o interesse do instituto.<\/p>\n<p class=\"western\">A Anvisa est\u00e1 definindo novas normas para que um alimento possa ser considerado integral. O ILSI organizou dois eventos a respeito em agosto e setembro.<\/p>\n<p class=\"western\">Uma nova regula\u00e7\u00e3o para suplementos alimentares, de forma a tornar mais r\u00e1pida a libera\u00e7\u00e3o de produtos, teve debates promovidos pelo instituto, que tamb\u00e9m se envolveu em uma discuss\u00e3o parecida quanto a probi\u00f3ticos, que s\u00e3o alimentos ou medicamentos usados para melhorar a composi\u00e7\u00e3o da microbiota intestinal (vulgo flora). Ao que tudo indica, a Anvisa caminha para dar \u201cmaior flexibilidade\u201d \u00e0 libera\u00e7\u00e3o de produtos, adotando o modelo canadense apresentado justamente por acad\u00eamicos pr\u00f3ximos \u00e0 ind\u00fastria e por uma consultoria parceira do ILSI.<\/p>\n<p class=\"western\">Os materiais do instituto sobre macro e micronutrientes constituem a base de refer\u00eancias da Anvisa. H\u00e1 integrantes do ILSI que reservaram para si h\u00e1 muitos anos o \u00fanico assento da comunidade acad\u00eamica na delega\u00e7\u00e3o brasileira para o Codex Alimentarius, espa\u00e7o de defini\u00e7\u00e3o das normas globais sobre alimenta\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio.<\/p>\n<p class=\"western\">\u201cN\u00e3o resta a menor d\u00favida. Temos um conv\u00edvio bastante estreito com eles, mas nos reservamos \u00e0s reuni\u00f5es que sejam meramente de car\u00e1ter regulat\u00f3rio. Sempre que a Anvisa nos pede pareceres da \u00e1rea cient\u00edfica, sim, a\u00ed n\u00f3s temos um relacionamento bom e muito interessante, que tem contribu\u00eddo bastante para as reuni\u00f5es da pr\u00f3pria Anvisa\u201d, diz Bucione, o atual presidente do ILSI.<\/p>\n<p class=\"western\">A tentativa do setor privado de ocupar espa\u00e7os acad\u00eamicos n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno brasileiro. A organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental US Right to Know revelou recentemente uma troca de e-mails entre dois ex-executivos da Coca-Cola. Alex Malaspina, fundador do ILSI e ainda influente na organiza\u00e7\u00e3o, e Ernest Knowles, ex-vice-presidente de rela\u00e7\u00f5es institucionais da Coca, demonstravam preocupa\u00e7\u00e3o com os rumos do debate sobre obesidade. Knowles sugere que a empresa deveria estar \u00e0 frente dessa discuss\u00e3o, financiando organiza\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas e cient\u00edficas e fortalecendo a a\u00e7\u00e3o do ILSI na busca pelas causas dessa epidemia.<\/p>\n<p class=\"western\">O Observat\u00f3rio de Corpora\u00e7\u00f5es da Europa publicou em 2012\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a class=\"western\" href=\"https:\/\/corporateeurope.org\/sites\/default\/files\/ilsi-article-final.pdf\">um documento<\/a><\/u><\/span>\u00a0mostrando que o ILSI teve portas abertas no \u00f3rg\u00e3o regulador da alimenta\u00e7\u00e3o no continente, o EFSA. O pr\u00f3prio\u00a0ILSI\u00a0admite\u00a0ter\u00a0conseguido\u00a0enfraquecer\u00a0as\u00a0linhas de atua\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico em rela\u00e7\u00e3o a\u00a0transg\u00eanicos, com a dispensa de testes mais profundos sobre como a altera\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica\u00a0pode\u00a0mexer\u00a0com\u00a0v\u00e1rios\u00a0componentes\u00a0nutricionais.<\/p>\n<p class=\"western\">No geral, conclui o Observat\u00f3rio, \u00e9 esse o papel do instituto: atuar por regras mais brandas que signifiquem economia milion\u00e1ria (ou bilion\u00e1ria) para as empresas patrocinadoras. Depois de v\u00e1rias evid\u00eancias de que o ILSI estava dando as cartas em decis\u00f5es importantes do \u00f3rg\u00e3o regulador, a EFSA adotou um novo padr\u00e3o de relacionamento e decidiu excluir o\u00a0<em>think tank<\/em>\u00a0da tomada de certas decis\u00f5es.\u00a0Diante dos protestos do ILSI, a ent\u00e3o diretora-executiva da EFSA,\u00a0Catherine Geslain-Lan\u00e9elle, escreveu\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a class=\"western\" href=\"https:\/\/www.efsa.europa.eu\/sites\/default\/files\/assets\/corporateilsi120510.pdf\">uma carta<\/a><\/u><\/span>\u00a0na qual fala que a organiza\u00e7\u00e3o representa \u201cinteresses particulares\u201d e que a ag\u00eancia est\u00e1 \u201cmuito bem posicionada para saber a natureza de seu trabalho\u201d.<\/p>\n<p class=\"western\">Por aqui, a Anvisa optou pelo sil\u00eancio.<\/p>\n<p class=\"western\">Fonte &#8211; Jo\u00e3o Peres, O Joio e o Trigo de 23 de novembro de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grandes empresas conseguem emplacar indica\u00e7\u00f5es para assentos que cabem a faculdades e institutos de pesquisa em grupos de trabalho da ag\u00eancia reguladora, que opta pelo sil\u00eancio A ind\u00fastria de alimentos tem ocupado assentos que caberiam a universidades e institutos de pesquisa em colegiados da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa). 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