{"id":22477,"date":"2017-12-23T13:00:38","date_gmt":"2017-12-23T15:00:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=22477"},"modified":"2017-12-21T11:05:48","modified_gmt":"2017-12-21T13:05:48","slug":"como-passar-a-mensagem-da-sustentabilidade-a-quem-mais-consome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/como-passar-a-mensagem-da-sustentabilidade-a-quem-mais-consome\/","title":{"rendered":"Como passar a mensagem da sustentabilidade a quem mais consome?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/pagina22.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/18937585740_354cfd3adb_k-800x445.jpg\" alt=\"Ch\u00e2teau de la Hulpe, BE. Olivierbxl\/ Flickr Creative Commons\" \/><em>Foto: Ch\u00e2teau de la Hulpe, BE. Olivierbxl\/ Flickr Creative Commons<\/em><\/p>\n<p><strong>O excesso e o in\u00fatil s\u00e3o s\u00edmbolos de poder\u00a0e riqueza. Como comunicar a mensagem do \u201cmenos\u201d a um p\u00fablico t\u00e3o acostumado com o \u201cmais\u201d? E ainda fazer isso sem ser ecochato? De que forma sensibilizar, engajar essa turma? Est\u00e1 a\u00ed um belo desafio de comunica\u00e7\u00e3o para a sustentabilidade.<\/strong><\/p>\n<p>Um dos maiores, sen\u00e3o o principal desafio do movimento da sustentabilidade \u00e9 conquistar cora\u00e7\u00f5es e mentes dos p\u00fablicos \u201cn\u00e3o convertidos\u201d. S\u00e3o parcelas da popula\u00e7\u00e3o que, por motivos diversos, ainda n\u00e3o aderiram plenamente \u00e0 causa, nem por consci\u00eancia, nem convic\u00e7\u00e3o, nem coer\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Algumas n\u00e3o foram sensibilizadas o bastante, outras n\u00e3o sofreram puni\u00e7\u00f5es ou ganharam incentivos suficientes para mudar de h\u00e1bitos. E existem aquelas \u2013 a grande maioria \u2013 que, de t\u00e3o preocupadas com a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia e da fam\u00edlia, mal t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de pensar em um horizonte que n\u00e3o seja a urg\u00eancia do tempo presente. Est\u00e3o \u00e0s voltas com quest\u00f5es como levar 4 ou 5 horas para se deslocar no trajeto casa-trabalho-casa em um \u00f4nibus lotado. Isso quando t\u00eam trabalho ou, at\u00e9 mesmo, casa.<\/p>\n<p>Pode-se dizer o movimento da sustentabilidade ainda n\u00e3o atingiu em cheio desde as massas populares, v\u00edtimas das desigualdades, at\u00e9 o topo da pir\u00e2mide, dono da maior pegada ecol\u00f3gica considerando toda sua aflu\u00eancia e imensa capacidade de consumir.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s, somando 7 bilh\u00f5es de pessoas, j\u00e1 consumimos 60% mais recursos naturais do que a Terra \u00e9 capaz de regenerar. Imaginem em 2050, quando a estimativa \u00e9 chegar a 9,7 bilh\u00f5es de habitantes. Entretanto, mais que o aumento populacional, o cerne do problema est\u00e1 na forma como se produz e consome, especialmente quando \u00e9 excessiva.<\/p>\n<p><em>&#8220;Para se ter ideia, apenas 16% da popula\u00e7\u00e3o mundial \u00e9 respons\u00e1vel por 78% do consumo total.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>\u201cSe toda a humanidade consumisse como os habitantes mais ricos do mundo, seriam necess\u00e1rios quase cinco planetas\u201d, lembra Helio Mattar, diretor-presidente do Akatu, organiza\u00e7\u00e3o voltada ao consumo consciente que recentemente lan\u00e7ou a campanha \u201cViva mais com menos\u201d.<\/p>\n<p>Resumindo, o grande n\u00f3 da sustentabilidade est\u00e1 no consumo \u2013 notadamente o dos mais abonados, e especialmente daqueles propensos\u00a0a adquirir um sem-n\u00famero\u00a0de itens desnecess\u00e1rios, sup\u00e9rfluos, f\u00fateis, excessivos.<\/p>\n<p>Como comunicar a mensagem do \u201cmenos\u201d a um p\u00fablico t\u00e3o acostumado com o \u201cmais\u201d? E ainda fazer isso sem ser ecochato? De que forma sensibilizar, engajar essa turma? Est\u00e1 a\u00ed um belo desafio de comunica\u00e7\u00e3o para a sustentabilidade.<\/p>\n<p>Pois em plena CasaCor, meca dos mais renomados arquitetos, decoradores e paisagistas da Am\u00e9rica Latina, a mensagem da sustentabilidade foi passada de forma envolvente\u00a0pelo historiador Leandro Karnal. O desafio de Karnal foi falar verdades inconvenientes para um p\u00fablico instalado\u00a0em sua zona de conforto \u2013 e ser calorosamente aplaudido por essas pessoas.<\/p>\n<p>Em meio a espelhos d\u2019\u00e1gua com seixos importados da Indon\u00e9sia, paredes em m\u00e1rmore, poltronas revestidas de pele, potiches chineses pintados \u00e0 m\u00e3o, pe\u00e7as de cristal Baccarat e biombos transl\u00facidos, a 31\u00aa edi\u00e7\u00e3o da CasaCor\u00a0que segue em S\u00e3o Paulo at\u00e9 23 de julho usou como mote\u2026 o \u201cFoco no Essencial\u201d.<\/p>\n<p>Quem procurou se aproximar do tema foi a Casa Sustent\u00e1vel, projeto ecoeficiente criado pela jovem Mariana Crego. A arquiteta \u00e9 a primeira no Brasil e terceira no mundo a receber o selo de sustentabilidade\u00a0<a href=\"https:\/\/vanzolini.org.br\/weblog\/2015\/04\/27\/certificacao-aqua-hqe-e-a-sustentabilidade-levada-a-serio-no-mercado-imobiliario\/\">Aqua-HQE<\/a>para projetos de interiores, certificado pela Funda\u00e7\u00e3o Vanzolini.<\/p>\n<p>Foi no ambiente de 63 metros quadrados da Casa Sustent\u00e1vel que Leandro Karnal vestiu suas luvas de pelica para desfiar a uma plateia seleta o hist\u00f3rico dos excessos que levaram a humanidade ao est\u00e1gio atual: somos a primeira gera\u00e7\u00e3o de humanos que pode cometer suic\u00eddio planet\u00e1rio ao extinguir a vida na Terra, mas tamb\u00e9m a \u00fanica gera\u00e7\u00e3o que pode mudar essa rota que segue rumo ao abismo.<\/p>\n<p>Mas se a mensagem era pesada e direta no f\u00edgado, a forma como foi comunicada prendeu a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico at\u00e9 o fim, com fino humor, tiradas sarc\u00e1sticas e envolvente orat\u00f3ria. Nem doeu e ficou a dica.<\/p>\n<p>Em sua palestra, Karnal ilustrou com imagens os exemplos de excessos e desperd\u00edcio. Gramados, por exemplo. O surgimento de gramados na Inglaterra (como j\u00e1 referenciado pelo autor de\u00a0<em>Homo Deus<\/em>, Yuval Harari), foi difundido na Fran\u00e7a pelo rei Francisco I e serviu para simbolizar riqueza e poder. O dono de um gramado \u00e9 t\u00e3o rico que pode imobilizar imensa \u00e1rea sem qualquer utilidade e manter pessoas regando-a e aparando-a para n\u00e3o produzir absolutamente nada, apenas real\u00e7ar a beleza de sua propriedade.<\/p>\n<p>\u201cO excesso \u00e9 s\u00edmbolo do poder. P\u00e9 direito alto, mangas compridas, gramado\u201d, disse. \u00c9 como dizer: tenho tanto que posso desperdi\u00e7ar. Quanto mais alto o p\u00e9 direito de uma casa, mais espa\u00e7o desperdi\u00e7ado, maior o\u00a0<em>status<\/em>.<\/p>\n<p>O mais incr\u00edvel \u00e9 como esses valores culturais se propagaram ao longo do tempo: v\u00eam de Francisco I e chegam aos americanos que gostam de se mostrar aparando a grama de suas casas nos sub\u00farbios e cuidando do cachorro, em sinal de prest\u00edgio.<\/p>\n<p>O in\u00fatil tamb\u00e9m simboliza riqueza \u2013 qual a necessidade do\u00a0<em>souplat<\/em>, do aro do guardanapo e das flores na mesa? Os arranjos\u00a0podem embelezar, mas ele lembrou \u00e0s decoradoras e arquitetas de interiores da plateia que \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel comer sem flores \u00e0 mesa. (<a href=\"http:\/\/pagina22.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Leandro-Karnal-1.mp3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Clique e ou\u00e7a este trecho<\/em><\/a>)<\/p>\n<p>Para contrastar, Karnal resgatou a hist\u00f3ria do fil\u00f3sofo Di\u00f3genes que, em extremo\u00a0desapego material, decidiu fazer de uma\u00a0tina de vinho a sua casa, ao se dar conta de que o ato de \u201cter\u201d leva \u00e0 infelicidade. Quanto mais se tem coisas, mais coisas se deseja e se precisa ter. Uma casa grande leva \u00e0 necessidade de preench\u00ea-la com mais objetos, que exige mais funcion\u00e1rios para limp\u00e1-los, e assim por diante. \u00c9 intermin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Di\u00f3genes tinha apenas uma cumbuca para beber \u00e1gua. Mas quando viu um menino tomando \u00e1gua no rio usando as m\u00e3os, desfez-se do objeto: \u201cPara que eu preciso de tanto?\u201d, filosofou.<\/p>\n<p>Karnal se valeu desses exemplos\u00a0extremos\u00a0para dizer que o modo como se habita o mundo \u00e9 tamb\u00e9m um gesto de responsabilidade pol\u00edtica, social, ecol\u00f3gica. Habitar n\u00e3o come\u00e7a na casa, come\u00e7a no interior da alma, na harmonia consigo mesmo.<\/p>\n<p>O historiador remeteu ao soci\u00f3logo Zigmunt Bauman, que sugeriu descrever <strong>as lojas como farm\u00e1cias, onde as pessoas, no ato de comprar, buscam rem\u00e9dios para aliviar dores emocionais e preencher seus vazios.<\/strong> Enquanto isso, elas\u00a0olham para seus\u00a0<em>closets<\/em>\u00a0abarrotados e dizem: \u201cN\u00e3o tenho nada para vestir!\u201d<\/p>\n<p>Neste mundo atulhado, nenhuma fralda descart\u00e1vel, por exemplo, se decomp\u00f4s at\u00e9 hoje, visto que duram de 450 a 500 anos. A gera\u00e7\u00e3o que inventou a fralda descart\u00e1vel mal tinha no\u00e7\u00e3o de todos os estragos que produzia.<\/p>\n<p>O Landau, autom\u00f3vel cultuado na d\u00e9cada de 1970, consumia \u201cmeia calota polar\u201d por tanque. Hoje, est\u00e3o dispon\u00edveis informa\u00e7\u00f5es para o usu\u00e1rio de um SUV sobre os impactos que as emiss\u00f5es\u00a0causam ao clima. O desafio n\u00e3o \u00e9 tanto mais de informar, \u00e9 de convencer. Sobretudo, estabelecer novos valores.<\/p>\n<p>Karnal sintetiza assim a hist\u00f3ria da sustentabilidade: surgiu um conceito novo, segundo o qual <strong>n\u00e3o sou dono deste mundo, sou um locat\u00e1rio moment\u00e2neo, preciso entreg\u00e1-lo em boas condi\u00e7\u00f5es para as gera\u00e7\u00f5es que v\u00eam a\u00ed. \u201cQuanto mais civilizado sou, mais uso as coisas na medida. Nada mais cafona do que esbanjar, consumir muito, ostentar, ser atrav\u00e9s do ter\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 plateia ainda atenta, ele frisa: <strong>\u201cN\u00e3o posso mudar o mundo, mas posso mudar a mim mesmo. Todo problema causado pelo ser humano tem uma solu\u00e7\u00e3o humana. O problema \u00e9 que somos bons em omitir a pr\u00f3pria responsabilidade\u201d,<\/strong> como relata neste <a href=\"http:\/\/pagina22.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Leandro-Karnal-2.mp3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00e1udio<\/a>.<\/p>\n<p>Mas a quest\u00e3o\u00a0\u00e9 quando os problemas causados pelo homem atingem uma dimens\u00e3o tamanha que escapam\u00a0ao controle humano. Estamos neste limiar e, em alguns casos, j\u00e1 o ultrapassamos. Ainda h\u00e1 o que se pode fazer para minimizar, mas v\u00e1rios efeitos das escolhas inconsequentes j\u00e1 s\u00e3o irrevers\u00edveis.<\/p>\n<p>O que\u00a0<a href=\"http:\/\/nymag.com\/daily\/intelligencer\/2017\/07\/climate-change-earth-too-hot-for-humans.html?utm_source=eml&amp;utm_medium=e1&amp;utm_campaign=sharebutton-t\">este texto<\/a>\u00a0\u2013 com uma abordagem bastante mais sombria \u2013 sugere \u00e9 que a comunica\u00e7\u00e3o, principalmente por parte de quem produz o conhecimento, como os cientistas, tem sido t\u00edmida demais. N\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0incisiva o suficiente para alertar\u00a0que os efeitos da mudan\u00e7a do clima s\u00e3o mais graves e mais pr\u00f3ximos do que pens\u00e1vamos.<\/p>\n<p>Vem a\u00ed fome, colapso econ\u00f4mico e um sol que nos ir\u00e1 cozinhar. O estrago est\u00e1 dado, o que resta \u00e0 nossa gera\u00e7\u00e3o \u00e9 uma oportunidade ex\u00edgua de calibr\u00e1-lo um pouco e se adaptar a ele, antes que os excessos do consumo nos consumam de vez.<\/p>\n<p>A narrativa catastrofista, ainda que seja fiel \u00e0 cat\u00e1strofe que de fato se avizinha, pode repelir as pessoas, induzindo-as \u00e0 nega\u00e7\u00e3o e a aproveitar o m\u00e1ximo da vida enquanto podem.\u00a0A pior op\u00e7\u00e3o ser\u00e1 a da ina\u00e7\u00e3o, o que valida bastante\u00a0uma abordagem de comunica\u00e7\u00e3o mais\u00a0envolvente como a experimentada por Karnal.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Am\u00e1lia Safatle, <a href=\"http:\/\/pagina22.com.br\/2017\/07\/13\/como-passar-mensagem-da-sustentabilidade-quem-mais-consome\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">P\u00e1gina 22<\/a> de 13 de junho de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Ch\u00e2teau de la Hulpe, BE. 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