{"id":22603,"date":"2018-01-04T17:00:45","date_gmt":"2018-01-04T19:00:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=22603"},"modified":"2018-01-03T11:30:58","modified_gmt":"2018-01-03T13:30:58","slug":"ultra-ataque-pesquisador-brasileiro-e-alvo-de-transnacionais-de-alimentos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/ultra-ataque-pesquisador-brasileiro-e-alvo-de-transnacionais-de-alimentos-2\/","title":{"rendered":"Ultra-ataque: pesquisador brasileiro \u00e9 alvo de transnacionais de alimentos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/3\/2925\/14235906925_51942baa43_b.jpg\" \/><\/p>\n<p><strong>Acad\u00eamicos e publica\u00e7\u00f5es com la\u00e7os financeiros com a ind\u00fastria refor\u00e7am a artilharia contra Carlos Monteiro, professor da USP que mostrou que um saco de arroz \u00e9 diferente de um pacote de salgadinho<\/strong><\/p>\n<p>Carlos Monteiro estava assistindo a um debate na sala Libertador A quando recebeu uma mensagem no celular: \u201cVem pra c\u00e1. Est\u00e3o te atacando.\u201d Mas a apresenta\u00e7\u00e3o sobre o papel da biodiversidade na melhoria da sa\u00fade e da nutri\u00e7\u00e3o, para o qual havia sido convidado, estava muito interessante. E ataques, de qualquer maneira, n\u00e3o s\u00e3o novidade para o professor da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP.<\/p>\n<p>Especialmente depois que ele formulou uma proposta que enfureceu a ind\u00fastria de ultraprocessados: nome\u00e1-la. Aceitar um r\u00f3tulo n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Foi isso que se deu em 2009, quando Monteiro e o N\u00facleo de Pesquisas Epidemiol\u00f3gicas em Nutri\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade (Nupens) decidiram propor uma nova classifica\u00e7\u00e3o de alimentos. No lugar dos macronutrientes (prote\u00edna, lip\u00eddios, carboidratos) e dos micro (vitaminas e minerais), entrou em cena o grau de processamento. A classifica\u00e7\u00e3o NOVA, como \u00e9 chamada, divide os alimentos em quatro grupos. Os tr\u00eas primeiros t\u00eam sido a base da alimenta\u00e7\u00e3o humana por muitos s\u00e9culos: alimentos n\u00e3o ou minimamente processados, ingredientes culin\u00e1rios processados e alimentos processados. E o quarto grupo, constitu\u00eddo por formula\u00e7\u00f5es industriais de subst\u00e2ncias derivadas de alimentos e aditivos cosm\u00e9ticos, chamadas de alimentos ultraprocessados.<\/p>\n<p>At\u00e9 ali, a ind\u00fastria de ultraprocessados caminhava pelas ruas meio an\u00f4nima. Alguns a chamavam de\u00a0<em>junk food<\/em>. Outros, de tranqueira ou porcaria \u2013 \u201cmenino, n\u00e3o v\u00e1 comer porcaria antes de jantar\u201d. Mas n\u00e3o havia um nome cient\u00edfico consensual, o que, de certo modo, continua a n\u00e3o haver.<\/p>\n<p>Mas a classifica\u00e7\u00e3o dos alimentos pelo grau de processamento foi uma das sacadas que come\u00e7aram a apontar o dedo para a ind\u00fastria como a principal respons\u00e1vel pela epidemia de obesidade que explodiu nas \u00faltimas d\u00e9cadas. V\u00e1rios grupos de pesquisa do mundo voltaram o olhar aos ultraprocessados e, desde ent\u00e3o, n\u00e3o param de elencar evid\u00eancias cient\u00edficas sobre a associa\u00e7\u00e3o entre o consumo e as doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis (diabete, hipertens\u00e3o, c\u00e2ncer). Recentemente, o Instituto Nacional do C\u00e2ncer afirmou haver evid\u00eancia s\u00f3lida de correla\u00e7\u00e3o entre a obesidade e 13 tipos de c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>\u201cEsses estudos, conduzidos por pesquisadores de v\u00e1rios pa\u00edses, t\u00eam comprovado o vertiginoso crescimento mundial do consumo de alimentos ultraprocessados, como refrigerantes,\u00a0<em>snacks<\/em>industrializados e refei\u00e7\u00f5es congeladas, e o sistem\u00e1tico impacto negativo desses alimentos sobre a qualidade nutricional da alimenta\u00e7\u00e3o humana e sobre o risco de obesidade, hipertens\u00e3o, s\u00edndrome metab\u00f3lica, dislipidemias e outras doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis\u201d, escreveu Monteiro\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/nupens.usp.fsp\/posts\/1514700965261679\">na \u00faltima semana<\/a>, ao defender-se de um dos ataques mais recentes.<\/p>\n<p>As transnacionais nunca pouparam recursos na cria\u00e7\u00e3o de evid\u00eancias cient\u00edficas que apontassem o dedo para qualquer outro lado. O que a pesquisa de Monteiro fez foi pegar o menino que praticava bullying, coloc\u00e1-lo no centro do p\u00e1tio e mostrar a ele como \u00e9 inc\u00f4modo ficar exposto.<\/p>\n<p>Muita coisa mudou at\u00e9 chegarmos a outubro de 2017, no Congresso Internacional de Nutri\u00e7\u00e3o, num hotel no centro de Buenos Aires.<\/p>\n<p>O debate realizado a poucos metros da sala onde estava Monteiro adotou uma pegada forte na tentativa de desmerec\u00ea-lo como pesquisador. Quando o professor embarcou para a Argentina, j\u00e1 esperava que seu trabalho fosse submetido a cr\u00edticas e elogios. Faz parte de estar em evid\u00eancia. Mas, logo em um dos primeiros debates, surgiram pancadas acima do tom para o cauteloso universo cient\u00edfico.<\/p>\n<p>\u201cAlimentos processados: tecnologia alimentar para uma melhor nutri\u00e7\u00e3o\u201d foi o mote escolhido pela Associa\u00e7\u00e3o Latino-americana de Ci\u00eancia e Tecnologia de Alimentos para um dos simp\u00f3sios iniciais do megaevento.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 err\u00f4neo acreditar que o desenvolvimento da obesidade e das doen\u00e7as cr\u00f4nicas tenha a ver com o n\u00edvel de processamento\u201d, disse Julie Miller Jones, da Saint Catherine University. \u201cA comida processada j\u00e1 \u00e9 parte do sistema e est\u00e1 sendo julgada ou \u00e9 considerada culpada pela obesidade, o que n\u00e3o \u00e9 verdade.\u201d<\/p>\n<p>Na verdade, a NOVA prop\u00f5e uma divis\u00e3o bem clara entre processados e ultraprocessados. Contudo, os detratores normalmente apagam essa linha, o que faz com que pare\u00e7a que a classifica\u00e7\u00e3o \u00e9 contra a industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA comunidade cient\u00edfica de todo o mundo questionou a base cient\u00edfica e os benef\u00edcios da NOVA, que, al\u00e9m disso, implica numa demoniza\u00e7\u00e3o injustificada dos alimentos processados e o papel crucial historicamente desempenhado pela ci\u00eancia e tecnologia de alimentos\u201d, continuou Susana Socolovsky, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Argentina de Tecn\u00f3logos Alimentares.<\/p>\n<p>Ela mostrou um slide: \u201cO uso da classifica\u00e7\u00e3o NOVA em pol\u00edticas p\u00fablicas \u00e9 irresponsabilidade.\u201d Foi uma alus\u00e3o a um artigo publicado pouco tempo antes no\u00a0<em>American Journal of Clinical Nutrition<\/em>\u00a0por um grupo encabe\u00e7ado por Michael Gibney, da Universidade de Dublin, na Irlanda.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ajcn.nutrition.org\/content\/early\/2017\/08\/09\/ajcn.117.160440.abstract\">\u201cAlimentos processados na sa\u00fade humana: uma avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica\u201d<\/a>\u00a0foi um ataque frontal \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o NOVA. A alega\u00e7\u00e3o central \u00e9 de que a separa\u00e7\u00e3o entre in natura, processados e ultraprocessados \u00e9 simplista e induz a erros. Os autores defendem que essa sistematiza\u00e7\u00e3o \u00e9 in\u00fatil para lidar com as associa\u00e7\u00f5es entre alimenta\u00e7\u00e3o e doen\u00e7as.<\/p>\n<p>E prop\u00f5em que se mantenha a abordagem por nutrientes. Essa abordagem se tornou dominante na segunda metade do s\u00e9culo passado. Hoje, h\u00e1 dezenas, centenas ou milhares de especialistas para cada um desses nutrientes (s\u00f3dio, zinco, vitamina A etc etc etc). E n\u00e3o parece que a ci\u00eancia esteja caminhando para um consenso. O pr\u00f3prio Congresso Internacional de Nutri\u00e7\u00e3o d\u00e1 provas disso: um mesmo nutriente aparece como vil\u00e3o ou her\u00f3i a depender de quem organiza o simp\u00f3sio.<\/p>\n<p>Gyorgy Scrinis, professor da Universidade de Melbourne, cunhou para isso a express\u00e3o \u201cnutricionismo\u201d. \u201cO reducionismo ao nutriente isolado frequentemente ignora ou simplifica as intera\u00e7\u00f5es entre nutrientes, com os alimentos e com o corpo\u201d, critica Scrinis no livro\u00a0<em>Nutritionism<\/em>, no qual acusa haver uma abordagem determinista que indica esse ou aquele nutriente como respons\u00e1vel por determinada doen\u00e7a. Para ele, esse sistema levou a que a comunidade cient\u00edfica se desviasse da complexidade existente na alimenta\u00e7\u00e3o, ignorando as mudan\u00e7as no padr\u00e3o alimentar ocorridas durante as \u00faltimas d\u00e9cadas, com a introdu\u00e7\u00e3o de produtos com altos teores de sal, a\u00e7\u00facar e gordura.<\/p>\n<p>No artigo em que criticam a classifica\u00e7\u00e3o NOVA, os autores confundem ultraprocessados com empacotados \u2013 o arroz \u00e9 empacotado, mas n\u00e3o \u00e9 ultraprocessado. E em certos momentos generalizam, dando a entender que o grupo de Monteiro \u00e9 contra qualquer processamento \u2013 a farinha de trigo \u00e9 processada.<\/p>\n<p>O grupo de Gibney ainda fala que h\u00e1 \u201cproblemas \u00e9ticos\u201d em adotar a NOVA. Seria uma abordagem perigosa porque, ao supostamente desestimular o consumo de processados, n\u00e3o levaria em conta o papel desses produtos na ingest\u00e3o de nutrientes. \u201cPara nosso conhecimento, nenhum argumento foi oferecido sobre como, ou se, o processamento de alimentos em qualquer maneira constitui um risco para a sa\u00fade do consumidor\u201d, escreveu.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, assistimos a v\u00e1rias abordagens parecidas.<\/p>\n<p>\u201cEles querem que a gente tenha uma vaca na sacada do apartamento\u201d, disse uma professora. \u201cVoc\u00eas querem voltar a comer feij\u00e3o com caruncho?\u201d<\/p>\n<p>\u201cQuerem nos levar de volta para a Idade M\u00e9dia. Voc\u00ea sabe qual era a expectativa de vida na Idade M\u00e9dia?\u201d, me perguntou um m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u201cAgora existe essa coisa romantizada de comer como na \u00e9poca dos av\u00f3s. Voc\u00eas sabem como eram os alimentos na \u00e9poca dos nossos av\u00f3s? As pessoas morriam de infec\u00e7\u00e3o alimentar\u201d, amea\u00e7ou outra pesquisadora.<\/p>\n<p>Vez ou outra h\u00e1 abordagens mais sutis, mas, no geral, as tentativas de desqualificar a classifica\u00e7\u00e3o pelo grau de processamento preferem abra\u00e7ar o exagero e desconsiderar a \u00f3bvia diferen\u00e7a existente entre um saco de arroz e um pacote de Fandangos.<\/p>\n<p>Logo em seguida \u00e0 publica\u00e7\u00e3o do artigo de Gibney, um site brasileiro produziu um texto que destacava que \u201cEliminar alimentos processados do card\u00e1pio n\u00e3o te deixa mais saud\u00e1vel\u201d. Al\u00e9m de citar trechos do trabalho original, a reportagem abria espa\u00e7o ao coment\u00e1rio de uma nutricionista. Foi a\u00ed que a hist\u00f3ria come\u00e7ou a se revelar.<\/p>\n<p>Essa nutricionista atua como consultora da Nestl\u00e9. O editor do site brasileiro decidiu retirar o conte\u00fado do ar, admitindo um claro conflito de interesses.<\/p>\n<p>Gibney tamb\u00e9m tem contrato com a Nestl\u00e9. Monteiro alertou que outros dois autores do artigo ocultaram seus conflitos de interesse. Um deles trabalhou entre 2010 e 2014 ligado a um centro de pesquisas da transnacional. E outro foi consultor de uma empresa que tem o McDonalds como cliente.<\/p>\n<p>\u201cEsperamos que este epis\u00f3dio possa gerar uma discuss\u00e3o produtiva sobre a conflituosa e crescente infiltra\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de alimentos ultraprocessados em institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, sociedades profissionais e revistas cientificas\u201d, cobrou o grupo de Monteiro.<\/p>\n<p>Desde abril, pesquisando sobre essa \u00e1rea, vimos uma chuva de cr\u00edticas contra a NOVA. Praticamente, todas partiram de cientistas com la\u00e7os financeiros com a ind\u00fastria de ultraprocessados.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns engenheiros de alimentos que fazem a pondera\u00e7\u00e3o de que, do ponto de vista deles, alimentos processados s\u00e3o processados e ponto. N\u00e3o faz sentido separar pelo grau de processamento. Mas, ainda assim, alguns admitem que desde a perspectiva da nutri\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade p\u00fablica a classifica\u00e7\u00e3o NOVA pode ser importante.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o Argentina de Tecn\u00f3logos Alimentares tem Coca e Danone como patrocinadoras. O mesmo vale para suas entidades hom\u00f3logas nos outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>O American Journal, onde saiu o artigo do grupo de Gibney, \u00e9 conhecido no meio acad\u00eamico. \u00c9 uma das publica\u00e7\u00f5es da American Society for Nutrition, que tem atualmente 28 empresas parceiras \u2013 Coca, Kellogg, Pepsi, Nestl\u00e9, Monsanto e da\u00ed por diante. A organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma defensora dessas corpora\u00e7\u00f5es. J\u00e1 chegou a administrar a emiss\u00e3o de um selo positivo que decorou embalagens de cereais alt\u00edssimos em a\u00e7\u00facar, entre outros ultraprocessados.<\/p>\n<p>Em 2015, a pesquisadora Michele Simon, especializada na ind\u00fastria aliment\u00edcia, publicou\u00a0<a href=\"http:\/\/www.eatdrinkpolitics.com\/wp-content\/uploads\/ASNReportFinal.pdf\">um artigo<\/a>\u00a0no qual aborda os luxuosos eventos da American Society. De 34 pain\u00e9is cient\u00edficos na edi\u00e7\u00e3o daquele ano, 14 eram bancados por empresas ou associa\u00e7\u00f5es empresariais \u2013 sem contabilizar institui\u00e7\u00f5es de fachada.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 precisamente porque a ind\u00fastria de alimentos tem objetivos vastamente diferentes das organiza\u00e7\u00f5es de sa\u00fade que essas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o problem\u00e1ticas\u201d, escreveu. \u201cDe modo a assegurar sua credibilidade, refletir a ci\u00eancia objetiva que o p\u00fablico tem em mente e manter a ind\u00fastria de alimentos sob observa\u00e7\u00e3o, \u00e9 primordial que a American Society for Nutrition reconsidere seus la\u00e7os financeiros.\u201d<\/p>\n<p>Havia ainda um ponto interessante no artigo de Simon. Ela chamava aten\u00e7\u00e3o para a defesa enf\u00e1tica da entidade ao processamento de alimentos. E aqui podemos voltar ao texto de Gibney.<\/p>\n<p>\u201cEm rela\u00e7\u00e3o ao uso da classifica\u00e7\u00e3o NOVA no desenvolvimento de documentos de diretrizes alimentares, n\u00f3s mostramos que a defini\u00e7\u00e3o ampla de ultraprocessados torna isso imposs\u00edvel\u201d, defende o artigo.<\/p>\n<p>Na verdade, tanto \u00e9 poss\u00edvel que j\u00e1 est\u00e1 em dois documentos do tipo, no Brasil e no Uruguai. Por aqui, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade publicou em 2014 o\u00a0<a href=\"http:\/\/portalarquivos.saude.gov.br\/images\/pdf\/2014\/novembro\/05\/Guia-Alimentar-para-a-pop-brasiliera-Miolo-PDF-Internet.pdf\">Guia Alimentar para a Popula\u00e7\u00e3o Brasileira<\/a>. O trabalho foi desenvolvido justamente pelo grupo de Monteiro. E saiu com uma recomenda\u00e7\u00e3o clara: evite o consumo de ultraprocessados. A ind\u00fastria fez altos esfor\u00e7os para que o documento n\u00e3o fosse publicado, mas n\u00e3o conseguiu.<\/p>\n<p>O trabalho brasileiro foi saudado por figuras de boa reputa\u00e7\u00e3o do mundo da nutri\u00e7\u00e3o. A FAO o considera um dos melhores documentos de orienta\u00e7\u00e3o alimentar. O conceito de ultraprocessados \u00e9 cada vez mais usado cientificamente. \u201cDurante a fase de consulta p\u00fablica do Guia, um setor absolutamente comprometido com a linguagem da ind\u00fastria dizia que o termo n\u00e3o iria funcionar\u201d, conta Patr\u00edcia Jaime, professora da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP e \u00e0 \u00e9poca coordenadora-geral de Alimenta\u00e7\u00e3o e Nutri\u00e7\u00e3o do minist\u00e9rio. \u201c\u00c9 impressionante ver como hoje est\u00e1 sendo utilizado pelas pessoas para fora do campo t\u00e9cnico da nutri\u00e7\u00e3o. A gente v\u00ea na imprensa. O conceito est\u00e1 sendo apropriado porque faz sentido para as pessoas.\u201d<\/p>\n<p>Alguns documentos do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social adotam a NOVA. O ministro da Sa\u00fade, Ricardo Barros, determinou a proibi\u00e7\u00e3o da venda de ultraprocessados nas depend\u00eancias ministeriais \u2014 e ningu\u00e9m por l\u00e1 entendeu que isso significa n\u00e3o poder mais comer arroz ou produtos com farinha de trigo.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Panamericana de Sa\u00fade (Opas) adotou a NOVA para definir o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.paho.org\/bra\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=5019:opas-lanca-modelo-de-perfil-nutricional-para-prevencao-da-obesidade-e-sobrepeso&amp;Itemid=820\">modelo de perfil nutricional<\/a>\u00a0lan\u00e7ado no ano passado, que prop\u00f5e que, se voc\u00ea consumir apenas alimentos que se encaixem nos padr\u00f5es aceit\u00e1veis de sal, gordura, a\u00e7\u00facar e calorias, ao final do dia provavelmente ter\u00e1 mantido uma dieta saud\u00e1vel. O documento \u00e9 a base para a rotulagem frontal de processados e ultraprocessados no Uruguai, medida que est\u00e1 a uma assinatura de ser adotada.<\/p>\n<p>Carlos Monteiro \u00e9 respeitado pelos pares. Notamos isso n\u00e3o apenas circulando pelo congresso em Buenos Aires, mas nas entrevistas que fizemos com pesquisadores brasileiros cuja linha de racioc\u00ednio \u00e9 oposta \u00e0 dele. Todos reconhecem o rigor cient\u00edfico com que ele atua e a relev\u00e2ncia de seu trabalho.<\/p>\n<p>Por isso, via de regra, as cr\u00edticas se concentram sobre o Guia e sobre a classifica\u00e7\u00e3o. Logo em seguida \u00e0 publica\u00e7\u00e3o do documento brasileiro, a American Society for Nutrition saiu em defesa dos processados, ignorando a linha divis\u00f3ria com os ultraprocessados, numa das primeiras indica\u00e7\u00f5es do rumo que o debate tomaria. Foi uma clara e r\u00e1pida rea\u00e7\u00e3o aos elogios que o trabalho recebeu na imprensa e na academia dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O Guia brasileiro \u00e9 pioneiro n\u00e3o apenas por falar sobre o grau de processamento, mas por propor uma linguagem acess\u00edvel ao p\u00fablico em geral e pensar no alimento para al\u00e9m dos nutrientes, com o enaltecimento de quest\u00f5es culturais e do comer em conjunto.<\/p>\n<p>A defesa enf\u00e1tica da American Society \u00e0 ind\u00fastria novamente levantou cr\u00edticas de Michele Simon: \u201cEm um momento em que os americanos est\u00e3o crescentemente reconhecendo que os alimentos processados n\u00e3o s\u00e3o exatamente saud\u00e1veis, a posi\u00e7\u00e3o \u00e9 notavelmente surda.\u201d Para ela, a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o para isso \u00e9 a conex\u00e3o com os patrocinadores.<\/p>\n<p>No come\u00e7o da d\u00e9cada, Monteiro mostrou que o\u00a0<a href=\"http:\/\/journals.plos.org\/plosmedicine\/article?id=10.1371\/journal.pmed.1001252\">teto para o mercado de ultraprocessados<\/a>\u00a0\u00e9 atingido quando correspondem a 60% da ingest\u00e3o di\u00e1ria de energia, n\u00edvel alcan\u00e7ado por alguns pa\u00edses do Norte. O Brasil, que foi de 20% e 28% na d\u00e9cada passada, \u00e9 portanto um mercado e tanto para a expans\u00e3o. Ou uma na\u00e7\u00e3o que pode colocar um freio enquanto est\u00e1 no meio do caminho.<\/p>\n<p>Este ano, o grupo de Monteiro divulgou na Public Health Nutrition\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/28714422\">um trabalho<\/a>\u00a0mostrando uma correla\u00e7\u00e3o direta entre ultraprocessados e obesidade: cada ponto de energia vindo de ultraprocessado eleva em 0,25 ponto a taxa de obesidade. Pa\u00edses com menor consumo apresentam \u00edndices mais baixos de obesidade.<\/p>\n<p>Por isso, quando Gibney afirmou n\u00e3o haver evid\u00eancias dessa correla\u00e7\u00e3o, Monteiro rebateu, acusando o colega de ignorar v\u00e1rios trabalhos cient\u00edficos. \u201cDe fato, todos os estudos exceto o citado na \u2018cr\u00edtica\u2019 mostram associa\u00e7\u00f5es dos alimentos ultraprocessados com efeitos negativos \u00e0 sa\u00fade\u201d, diz o professor. O pesquisador da Irlanda deixou de fora dois estudos decorrentes de uma pesquisa de alta qualidade, feita na Espanha, que acompanhou durante nove anos um grupo populacional, mostrando a correla\u00e7\u00e3o do consumo de ultraprocessados com obesidade e hipertens\u00e3o .<\/p>\n<p>\u201cO sistema de classifica\u00e7\u00e3o NOVA desafia um sistema de classifica\u00e7\u00e3o muito mais antigo e dominante, baseado na composi\u00e7\u00e3o nutricional. \u00c9 claro que deveria ser criticado. Mas os avan\u00e7os cient\u00edficos v\u00eam da troca de argumentos embasados e razo\u00e1veis, e de um debate equilibrado\u201d, lamentou o grupo brasileiro, em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/journals\/public-health-nutrition\/article\/ultraprocessing-an-odd-appraisal\/D90E02A1B25FAD146027B38B26C60067\">um coment\u00e1rio que acabou por sair no \u00faltimo dia 11<\/a>\u00a0na Public Health Nutrition, depois que o editor do American Journal recusou abrir espa\u00e7o \u00e0s respostas dos pesquisadores brasileiros.<\/p>\n<p>Ele tampouco quis publicar uma carta do professor da USP. E, at\u00e9 agora, n\u00e3o forneceu resposta quanto \u00e0 omiss\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre alguns pesquisadores e empresas.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Jo\u00e3o Peres, O Joio e o Trigo de 16 de novembro de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acad\u00eamicos e publica\u00e7\u00f5es com la\u00e7os financeiros com a ind\u00fastria refor\u00e7am a artilharia contra Carlos Monteiro, professor da USP que mostrou que um saco de arroz \u00e9 diferente de um pacote de salgadinho Carlos Monteiro estava assistindo a um debate na sala Libertador A quando recebeu uma mensagem no celular: \u201cVem pra c\u00e1. 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