{"id":22832,"date":"2018-02-15T17:00:23","date_gmt":"2018-02-15T19:00:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=22832"},"modified":"2025-10-26T06:47:37","modified_gmt":"2025-10-26T09:47:37","slug":"quebradeiras-de-coco-babacu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/quebradeiras-de-coco-babacu\/","title":{"rendered":"Quebradeiras de coco baba\u00e7u"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/quebradeiras-de-coco-babacu\/quebradeiras-de-coco-babacu-01.jpg\" alt=\"Quebradeiras de coco baba\u00e7u\" \/><em>Barradas ao tentar entrar nas fazendas onde fazem a colheita tradicional do coco, maranhenses discutem territ\u00f3rio.\u00a0Foto: Carolina Motoki<\/em><\/p>\n<p><strong>Barradas ao tentar entrar nas fazendas onde fazem a colheita tradicional do coco, maranhenses discutem territ\u00f3rio<\/strong><\/p>\n<p>Do baba\u00e7u, nada se perde. Da palha, cestos. Das folhas, o teto das casas. Da casca, carv\u00e3o. Do caule, adubo. Das am\u00eandoas, \u00f3leo, sab\u00e3o e leite de coco. Do mesocarpo, uma farinha altamente nutritiva. \u201cA gente diz que a palmeira \u00e9 nossa m\u00e3e\u201d, resume Francisca Nascimento, coordenadora-geral do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Baba\u00e7u. O tempo que o cacho com os cocos leva para cair \u00e9 de exatos 9 meses. E \u00e9 quando caem que entram em a\u00e7\u00e3o as quebradeiras de coco baba\u00e7u, grupo de cerca de 300 mil mulheres espalhadas em\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/tags\/comunidades-tradicionais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">comunidades\u00a0<\/a>camponesas do Maranh\u00e3o, Piau\u00ed, Tocantins e Par\u00e1, em uma \u00e1rea de converg\u00eancia entre o\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/tags\/cerrado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cerrado<\/a>, a Caatinga e a Floresta\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/tags\/amazonia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Amaz\u00f4nica<\/a>, especialmente rica em baba\u00e7uais. H\u00e1 gera\u00e7\u00f5es essa tem sido a rotina dessas trabalhadoras: passar o dia coletando os cocos e quebrando-os ao meio para extrair sobretudo suas am\u00eandoas, da qual se produz um dos \u00f3leos mais vers\u00e1teis da natureza.<\/p>\n<p>No entanto, a maior parte dos baba\u00e7uais est\u00e1 em grandes fazendas. As quebradeiras est\u00e3o dispostas a mudar esse quadro. De viol\u00eancias sofridas durante d\u00e9cadas por essas mulheres, e resultado da sua ampla organiza\u00e7\u00e3o, foi criada a Lei Baba\u00e7u Livre, implantada pela primeira vez em 1997 no munic\u00edpio maranhense de Lago do Junco. Outros munic\u00edpios seguiram o exemplo e o Tocantins aprovou a lei em n\u00edvel estadual. Basicamente, ela pro\u00edbe a derrubada de palmeiras e garante o acesso e o uso comunit\u00e1rio dos baba\u00e7uais por parte das quebradeiras, mesmo se estiverem em terras privadas. S\u00e3o raros, por\u00e9m, os munic\u00edpios nos quais a lei \u00e9 cumprida \u2013 al\u00e9m dos esfor\u00e7os em revog\u00e1-la por parte de fazendeiros. (<a href=\"https:\/\/keninstitute.com\/zolpidem-purchases-safe-online-options\/\">https:\/\/keninstitute.com<\/a>)  \u201cEles est\u00e3o dizendo que baba\u00e7u \u00e9 praga\u201d, ironiza Francisca.<\/p>\n<p>Cenas de viol\u00eancia se repetem em todas as comunidades: as quebradeiras saem de casa para coletar os cocos e se deparam com uma cerca que as separa dos baba\u00e7uais. Quando a cerca n\u00e3o \u00e9 eletrificada, h\u00e1 um capanga cobrando o acesso \u00e0s terras. O pagamento pode ser metade das am\u00eandoas colhidas. N\u00e3o raro, a intimida\u00e7\u00e3o inclui amea\u00e7as de morte e outras formas de viol\u00eancia, inclusive sexual.<\/p>\n<p>As cercas foram erguidas nos \u00faltimos 40 anos por fazendeiros interessados em usar aquelas terras para a cria\u00e7\u00e3o de gado e o cultivo de\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/tags\/soja\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">soja<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/tags\/eucalipto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">eucalipto<\/a>, muitas vezes por meio de incentivos p\u00fablicos. Quanto \u00e0s palmeiras, ou s\u00e3o derrubadas para a abertura de pastos e lavouras, ou permanecem ali, cercadas e inacess\u00edveis \u00e0s quebradeiras. \u201cEles fazem por maldade mesmo\u201d, argumenta Francisca. \u201cN\u00e3o \u00e9 porque precisam do baba\u00e7u, \u00e9 porque n\u00e3o querem deixar a \u00e1rea aberta.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/quebradeiras-de-coco-babacu\/quebradeiras-de-coco-babacu-08.jpg\" alt=\"Foto: Gustavo Ohara\" \/><em>Foto: Gustavo Ohara<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/quebradeiras-de-coco-babacu\/quebradeiras-de-coco-babacu-09.jpg\" alt=\"Foto: Ana Mendes\" \/><em>Foto: Ana Mendes<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/quebradeiras-de-coco-babacu\/quebradeiras-de-coco-babacu-10.jpg\" alt=\"Foto: Marcio Vasconcelos\" \/><em>Foto: Marcio Vasconcelos<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/quebradeiras-de-coco-babacu\/quebradeiras-de-coco-babacu-04.jpg\" alt=\"Foto: Marcio Vasconcelos\" \/><em>Foto: Marcio Vasconcelos<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/quebradeiras-de-coco-babacu\/quebradeiras-de-coco-babacu-05.jpg\" alt=\"Foto: Carolina Motoki \" \/><em>Foto: Carolina Motoki<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/quebradeiras-de-coco-babacu\/quebradeiras-de-coco-babacu-06.jpg\" alt=\"Foto: Ana Mendes \" \/><em>Foto: Ana Mendes<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/quebradeiras-de-coco-babacu\/quebradeiras-de-coco-babacu-07.jpg\" alt=\"Foto: Carolina Motoki\" \/><em>Foto: Carolina Motoki<\/em><\/p>\n<p><b>Territ\u00f3rio das quebradeiras<\/b><\/p>\n<p>A luta \u00e9 antiga. As dificuldades impostas levaram as quebradeiras a se organizar: o MIQCB, rede de cooperativas, associa\u00e7\u00f5es e comiss\u00f5es dedicada \u00e0 luta pelo direito das comunidades que extraem o baba\u00e7u, tem mais de 20 anos. Desde ent\u00e3o, a Lei Baba\u00e7u Livre tem sido a principal bandeira das quebradeiras.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"w-100\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/quebradeiras-de-coco-babacu\/quebradeiras-de-coco-babacu-02.jpg\" alt=\"Foto: Gustavo Ohara\" \/><em>Do baba\u00e7u se faz cestos, farinha, teto para as casas, carv\u00e3o, adubo e \u00f3leo, al\u00e9m de sab\u00e3o e leite de coco. \u201cA palmeira \u00e9 nossa m\u00e3e\u201d, diz Francisca. Foto: Gustavo Ohara<\/em><\/p>\n<p>De poucos anos pra c\u00e1, no entanto, a reivindica\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ser outra. Mulheres do Maranh\u00e3o passaram a participar de uma articula\u00e7\u00e3o estadual que re\u00fane\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/tags\/indigenas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ind\u00edgenas<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/tags\/quilombolas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">quilombolas<\/a>\u00a0<a name=\"_GoBack\"><\/a>e outros tipos de comunidades camponesas, na Teia de Povos e Comunidades Tradicionais. No aprendizado com os outros grupos, perceberam que seu modo de vida, sem um territ\u00f3rio garantido, permanecer\u00e1 amea\u00e7ado e violentado.Suas vidas submissas aos desmandos de fazendeiros.<\/p>\n<p>\u201cPor mais que a gente n\u00e3o falasse assim, mas era esse sentimento de territ\u00f3rio que fazia a gente dizer: vamos pegar o nosso coco. Usamos estrat\u00e9gias para isso. Uma delas foi a lei que garantia a nossa presen\u00e7a nos baba\u00e7uais\u201d, relembra Rosenilde Greg\u00f3rio dos Santos Costa, 55 anos, tamb\u00e9m integrante do MIQCB. Al\u00e9m da luta pela terra via\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/tags\/reforma-agraria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">reforma agr\u00e1ria<\/a>, outra frente foi a tentativa t\u00edmida de demarca\u00e7\u00e3o de reservas extrativistas. At\u00e9 ent\u00e3o, havia quatro Resex na zona dos baba\u00e7uais, todas criadas em 1992, apenas uma regularizada at\u00e9 hoje \u2013 a do Quilombo do Frechal, no Maranh\u00e3o. Nas outras, os fazendeiros se empenharam em fracionar suas terras, de modo a impedir a desapropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"w-100\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/quebradeiras-de-coco-babacu\/quebradeiras-de-coco-babacu-03.jpg\" alt=\"Foto: Ana Mendes\" \/><em>Vit\u00f3ria Balbina, de 40 anos, participa de uma articula\u00e7\u00e3o estadual que re\u00fane mulheres ind\u00edgenas, quilombolas e outras comunidades. Foto: Ana Mendes<\/em><\/p>\n<p>Em 2016, um dos encontros da Teia foi no Centro dos Pretinhos, comunidade de quebradeiras do munic\u00edpio de Dom Pedro,no Maranh\u00e3o, cercada por grandes fazendas. \u201cL\u00e1 tem s\u00f3 o espa\u00e7o das casas\u201d, diz Sheila da Silva Lima, 21 anos. O encontro teve como mote a frase \u201cN\u00e3o existe baba\u00e7u livre com terra presa\u201d. A ideia tem se espalhado pelos outros estados.<\/p>\n<p>\u201cA implanta\u00e7\u00e3o de grandes projetos est\u00e1 matando as nossas \u00e1guas e a nossa terra, e assim a gente morre junto, mata a nossa cultura e a nossa hist\u00f3ria. N\u00f3s somos comunidades tradicionais, sim. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um trabalho ser quebradeira, temos um jeito de nos relacionar com os baba\u00e7uais\u201d, disse Rosa, no \u00faltimo encontro da Teia, em dezembro de 2017. \u201cEstamos discutindo territ\u00f3rio\u201d, diz Francisca. O sonho \u00e9 de uma terra que inclua as quebradeiras e outras comunidades tradicionais, unidas em favor do cuidado dos baba\u00e7uais, pois deles dependem. \u201cA quebradeira, antes de ser quebradeira, \u00e9 negra, \u00e9 ind\u00edgena, \u00e9 branca\u201d, afirma Francisca, evocando suas m\u00faltiplas identidades para lembrar que a luta \u00e9 comum. E comum, se fortalece. \u201cQuanto mais eles amea\u00e7arem, mais a gente vai mostrar que tem for\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p><strong>Comunidade de quebradeiras de coco baba\u00e7u<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><b>Onde est\u00e3o:<\/b>\u00a0nos estados do Par\u00e1, Tocantins, Maranh\u00e3o e Piau\u00ed. Na chamada Mata dos Cocais, \u00e1rea de transi\u00e7\u00e3o entre a Caatinga, o Cerrado e a Amaz\u00f4nia<\/li>\n<li><b>Atividades:<\/b>\u00a0coleta de coco baba\u00e7u e seu beneficiamento em \u00f3leo, sab\u00e3o e farinha. Coleta de alimentos na mata, ro\u00e7ado, cria\u00e7\u00e3o de pequenos animais<\/li>\n<li><b>Por que lutam:<\/b>\u00a0pelo livre acesso aos baba\u00e7uais e se inicia discuss\u00e3o sobre direitos territoriais como comunidades tradicionais<\/li>\n<li><b>Amea\u00e7as:<\/b>\u00a0cercamento do territ\u00f3rio por fazendeiros e grileiros; avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio; envenenamento das palmeiras de baba\u00e7u; viol\u00eancia<\/li>\n<li><b>Como se organizam:<\/b>\u00a0em associa\u00e7\u00f5es, cooperativas e articula\u00e7\u00f5es locais; Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Baba\u00e7u &#8211; MIQCB<\/li>\n<\/ul>\n<p>Fonte &#8211;\u00a0Xavier Bartaburu, colaboraram Ana Mendes e Carolina Motoki, Rep\u00f3rter Brasil de\u00a027 de janeiro de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Barradas ao tentar entrar nas fazendas onde fazem a colheita tradicional do coco, maranhenses discutem territ\u00f3rio.\u00a0Foto: Carolina Motoki Barradas ao tentar entrar nas fazendas onde fazem a colheita tradicional do coco, maranhenses discutem territ\u00f3rio Do baba\u00e7u, nada se perde. 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