{"id":22833,"date":"2018-02-12T18:00:45","date_gmt":"2018-02-12T20:00:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=22833"},"modified":"2018-02-10T11:50:59","modified_gmt":"2018-02-10T13:50:59","slug":"o-levante-das-comunidades-tradicionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-levante-das-comunidades-tradicionais\/","title":{"rendered":"O levante  das comunidades  tradicionais"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/apresentacao\/abertura.jpg\" alt=\"O levante das comunidades tradicionais\" \/><em>\u201cA gente \u00e9 criado numa sociedade em que \u00e9 feio ser da ro\u00e7a\u201d\u00a0<\/em><em>Maria de F\u00e1tima Alves, apanhadora de flores.\u00a0Foto: Andr\u00e9 Dib<\/em><\/p>\n<p><strong>No campo e no litoral do Brasil, comunidades lutam por seus modos de vida e por seus territ\u00f3rios tradicionais<\/strong><\/p>\n<div class=\"box-creditos\">\n<p>\u201cAt\u00e9 2002 viv\u00edamos com nosso modo de vida na invisibilidade, e a invisibilidade garantia nosso modo de vida. O autorreconhecimento veio da necessidade de defesa do nosso territ\u00f3rio\u201d. Quem fala \u00e9 Maria de F\u00e1tima Alves, de 38 anos,\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/apanhadores-de-flores\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">apanhadora de flores<\/a>\u00a0na Serra do Espinha\u00e7o, em Minas Gerais. Tatinha, como \u00e9 conhecida, narra com clareza e convic\u00e7\u00e3o que, antes de ter seu territ\u00f3rio amea\u00e7ado, ningu\u00e9m havia importunado suas vidas e as comunidades viviam com liberdade h\u00e1 s\u00e9culos. A fartura das ro\u00e7as e a comercializa\u00e7\u00e3o de flores colhidas no alto da serra garantiam o sustento. Seu lugar permanecia resguardado.<\/p>\n<p>Tudo mudou quando o Estado desconsiderou sua exist\u00eancia ao declarar que aquele territ\u00f3rio era um Parque Nacional, uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o que imp\u00f5e restri\u00e7\u00f5es \u00e0 a\u00e7\u00e3o humana. A partir de ent\u00e3o, foi preciso sair do sil\u00eancio e afirmar sua exist\u00eancia. Reconhecerem-se como comunidade tradicional foi um processo dolorido. \u201cA gente \u00e9 criado numa sociedade em que \u00e9 feio ser da ro\u00e7a\u201d, conta. \u201cAntes a gente n\u00e3o falava; porque antes tamb\u00e9m n\u00e3o tinha necessidade\u201d.<\/p>\n<p>Quando fala sobre sua vida, Tatinha narra a hist\u00f3ria de milhares de outras comunidades espalhadas pelo Brasil, chamadas genericamente de comunidades tradicionais. Algo semelhante se passou nas que vivem nos litorais de S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. Os\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/caicaras-de-paraty\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">cai\u00e7aras<\/a>\u00a0se denominavam assim, mas evitavam a palavra, pois trazia cunho negativo. Com a chegada de grileiros e condom\u00ednios de luxo, perceberam que assumir esse nome lhes embu\u00eda de poder pol\u00edtico para assegurar sua rela\u00e7\u00e3o com o mar, onde pescavam, e com as terras, onde moravam e cultivavam ro\u00e7as.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 parecida por todo o interior e litoral do pa\u00eds. Especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, grandes fazendas agropecu\u00e1rias, planta\u00e7\u00f5es de gr\u00e3os ou eucalipto, minera\u00e7\u00e3o, estradas, barragens, parques e\u00f3licos e at\u00e9 unidades de conserva\u00e7\u00e3o ambiental: s\u00e3o m\u00faltiplas as amea\u00e7as que t\u00eam feito, ao longo dos anos, comunidades tradicionais em todo Brasil assumirem diferentes identidades, a partir da imin\u00eancia de serem deslocadas de seus lugares.<\/p>\n<p>Os nomes pelos quais elas se apresentam s\u00e3o in\u00fameros:\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/ribeirinhos-de-montanha-e-mangabal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ribeirinhas<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/faxinalenses-do-parana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">faxinalenses<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/quebradeiras-de-coco-babacu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">quebradeiras de coco<\/a>, pescadoras,\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/pescadores-e-vazanteiros-do-norte-de-minas-gerais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">vazanteiras<\/a>, entre muitos outros. Assim como povos ind\u00edgenas e quilombolas, desenvolveram maneiras pr\u00f3prias de viver enraizadas em seus territ\u00f3rios. No Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, inst\u00e2ncia de participa\u00e7\u00e3o oficial ligada ao Minist\u00e9rio de Desenvolvimento Social e Agr\u00e1rio, hoje s\u00e3o reconhecidos 26 tipos de comunidades, e \u00e9 certo que outros passar\u00e3o a reivindicar esse t\u00edtulo nos pr\u00f3ximos anos. Como as apanhadoras de flores e as cai\u00e7aras, as comunidades lan\u00e7am m\u00e3o da carta da identidade quando em conflito. E o Brasil segue como um dos l\u00edderes em conflitos no campo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"img-fluid\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/apresentacao\/o-levante-das-comunidades-tradicionais-01.jpg\" alt=\"o-levante-das-comunidades-tradicionais\" \/><em>Nas comunidades pesqueiras e vazanteiras, as ro\u00e7as no solo fertilizado pelas cheias do rio garantem fartura. Foto: Gui Gomes\u00a0<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"img-fluid\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/apresentacao\/o-levante-das-comunidades-tradicionais-02.jpg\" alt=\"o-levante-das-comunidades-tradicionaisFoto: Gui Gomes\" \/><em>Fam\u00edlias fixam morada perto dos cursos de \u00e1gua e utilizam a mata para coleta de frutos, plantas medicinais e ca\u00e7a para alimenta\u00e7\u00e3o. Foto: Gui Gomes<\/em><\/p>\n<div class=\"col-12 col-sm-7\">\n<p><strong>Diversidade e territ\u00f3rio<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 o professor Carlos Walter Porto Gon\u00e7alves, da Universidade Federal Fluminense, que usa a express\u00e3o \u201cjogo de cartas\u201d para fazer uma analogia ao uso das identidades nas disputas por territ\u00f3rio. \u201cAs cartas que as comunidades t\u00eam s\u00e3o a mem\u00f3ria e a as experi\u00eancias\u201d, diz. \u201cEsses grupos podem lan\u00e7ar m\u00e3o da carta da identidade porque t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com as veredas, com as savanas, com o cerrado, e isso estrategicamente pode ser reivindicado como identidade\u201d.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o com os biomas mostra as estrat\u00e9gias que as fam\u00edlias criaram para que pudessem sobreviver e ter alimenta\u00e7\u00e3o farta, \u00e0 medida que n\u00e3o encontravam, no Estado, um aliado. Para isso, produziram tecnologias e saberes pr\u00f3prios sobre os solos, a vegeta\u00e7\u00e3o, os animais e as \u00e1guas. Na Serra do Espinha\u00e7o, as apanhadoras de flores fazem uso controlado do fogo para que determinadas esp\u00e9cies de plantas possam brotar.<\/p>\n<p>Assim, essas comunidades mant\u00eam e manejam as florestas onde vivem, \u00e1reas por isso extremamente preservadas, contrariando a ideia de que as matas s\u00f3 podem ser conservadas\u00a0<a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/2015\/07\/governo-expulsa-da-floresta-comunidades-que-mais-preservam-a-floresta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">se livres da a\u00e7\u00e3o humana<\/a>. Nelas, tamb\u00e9m constroem maneiras de viver \u2013 social, econ\u00f4mica, pol\u00edtica e culturalmente \u2013 que dependem do territ\u00f3rio em que est\u00e3o e de como se relacionam com ele e com seu entorno.<\/p>\n<p>Muitas comunidades narram que s\u00f3 iam para as cidades em busca de sal e querosene, produtos que n\u00e3o conseguiam produzir. Outras tiveram de negociar com diferentes atores para permanecerem nos locais que ocupavam, at\u00e9 mesmo com pagamento de parte da produ\u00e7\u00e3o. Nascidas para terem o m\u00e1ximo de autonomia, um tra\u00e7o comum \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o que estabeleceram entre si.<\/p>\n<p>\u201cAs comunidades falam a mesma l\u00edngua, temos a mesma cultura. Um socorre o outro nas enchentes\u201d, explica Reinaldo Pereira da Silva, da comunidade pesqueira e vazanteira Maria Preta, nas margens do Rio S\u00e3o Francisco. Ao longo do rio, s\u00e3o pelo menos 300 comunidades como a sua. Perto dali, Clarindo Pereira dos Santos, de 50 anos, resume: \u201cO S\u00e3o Francisco, pra mim e pra todas essas comunidades, \u00e9 a vida. Quando acabar, acabou tudo\u201d. Ele \u00e9 morador de Canabrava, hoje destru\u00edda pela a\u00e7\u00e3o de fazendeiros que alegam propriedade da \u00e1rea. Para o professor Carlos Walter, \u201ca vida digna n\u00e3o pode existir de forma abstrata: o territ\u00f3rio \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para dignidade\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-12 col-sm-5\">\n<p><img decoding=\"async\" class=\"img-fluid\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/apresentacao\/o-levante-das-comunidades-tradicionais-03.jpg\" alt=\"o-levante-das-comunidades-tradicionais\" \/><em>Gado \u00e9 criado solto em pastagens naturais e retireiros do Araguaia se revezam em mutir\u00e3o para cuidar dos animais no Mato Grosso. Foto: Marcio Isensee S\u00e1\u00a0<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"img-fluid\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/apresentacao\/o-levante-das-comunidades-tradicionais-04.jpg\" alt=\"o-levante-das-comunidades-tradicionais\" \/><em>Nos faxinais do Paran\u00e1, junto \u00e0s matas de arauc\u00e1rias, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 cercas. Foto: Marcio Isensee S\u00e1<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-12 col-sm-5\"><strong>Concep\u00e7\u00f5es de mundo<\/strong><\/div>\n<div class=\"col-12 col-sm-5\"><\/div>\n<div class=\"col-12\">\n<p>Se determinado grau de isolamento do restante da sociedade e estrat\u00e9gias de relacionamentos possibilitaram a perman\u00eancia dessas comunidades em suas terras durante gera\u00e7\u00f5es, com seus modos de vida particulares, hoje os conflitos se acirraram. S\u00e3o as \u00e1reas ocupadas por elas as mais cobi\u00e7adas pelos projetos de agroneg\u00f3cio, de minera\u00e7\u00e3o e de infraestrutura, que recebem maci\u00e7os investimentos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Para Patr\u00edcia de Menezes, pesquisadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, todos esses projetos, nas suas m\u00faltiplas formas, retratam a maneira como o campo \u00e9 visto no pa\u00eds: como um espa\u00e7o a ser \u201cdesenvolvido e modernizado\u201d, sem lugar para outras maneiras de viver, tidas muitas vezes como sinal de atraso e pobreza.<\/p>\n<p>Como muitas dessas comunidades acabaram expulsas de suas terras, com as pessoas indo para a periferia das cidades, a pesquisadora enfatiza que o \u201creconhecimento identit\u00e1rio e pol\u00edtico \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o para poder existir e ser o que se \u00e9, ao contr\u00e1rio do pensamento de que todo mundo tem de fazer parte de uma sociedade urbana ou de uma sociedade agroindustrial\u201d.<\/p>\n<p>Reinaldo, da beira do S\u00e3o Francisco, tem uma avalia\u00e7\u00e3o parecida: \u201cembora eu seja brasileiro, eles me excluem do Brasil\u201d.<\/p>\n<p>No Cerrado e na Caatinga, as \u00e1reas que muitas das comunidades ocupam s\u00e3o extensas. As fam\u00edlias fixam moradia perto das \u00e1guas e, em alguns casos, em vilas ou cidades, mas usam um amplo espa\u00e7o para rod\u00edzio das ro\u00e7as e campos coletivos para pastoreio, coleta de frutos, pesca e ca\u00e7a para alimenta\u00e7\u00e3o. Seguem um costume centen\u00e1rio em que a cerca s\u00f3 \u00e9 usada para evitar que os bichos comam suas ro\u00e7as. Todos sabem at\u00e9 onde v\u00e3o os campos e os animais s\u00e3o reconhecidos pelos sinais. As rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o baseadas na ajuda m\u00fatua, por meio de la\u00e7os familiares e elos de compadre e comadre, cruciais para a reprodu\u00e7\u00e3o da vida. A express\u00e3o mais forte disso s\u00e3o os mutir\u00f5es \u2013 ou puxir\u00f5es, como dizem os faxinalenses no Paran\u00e1.<\/p>\n<p>Por outro lado, express\u00e3o da apropria\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os por invasores \u00e9 justamente o uso de cercas nessas \u00e1reas por grileiros. \u00c9 quando as concep\u00e7\u00f5es de mundo entram em conflito. \u201cS\u00e3o v\u00e1rios processos de coloniza\u00e7\u00e3o que se sobrep\u00f5em historicamente\u201d, analisa a pesquisadora Patr\u00edcia de Menezes. \u201cOs projetos estatais e privados, que muitas vezes se confundem, afetam esses mundos de forma violenta\u201d.<\/p>\n<p><em>\u201cEmbora eu seja brasileiro, eles me excluem do Brasil\u201d\u00a0<\/em><br \/>\n<em>Reinaldo Pereira da Silva, da comunidade Maria Preta, no S\u00e3o Francisco<\/em><\/p>\n<p>Muitos dos territ\u00f3rios, por estarem preservados, est\u00e3o sendo \u201ctransformados\u201d em \u00e1reas de reservas ambientais de fazendas. Outros, usados para o plantio de monoculturas de soja ou eucalipto. As comunidades e organiza\u00e7\u00f5es que atuam junto a elas acusam as empresas do agroneg\u00f3cio de estarem secando os len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos, com o desmatamento e projetos irrigados. \u201cO solo do Cerrado \u00e9 arenoso e poroso. Quando entram as grandes lavouras, se faz \u2018corre\u00e7\u00e3o\u2019 do solo, e ele se torna imperme\u00e1vel para n\u00e3o perder a \u00e1gua\u201d, explica Julita Rosa de Abreu Carvalho, da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra na Bahia. \u201cNa medida em que isso acontece, h\u00e1 grande desastre de impedimento do len\u00e7ol fre\u00e1tico ser alimentado pelos caminhos que s\u00e3o abertos pelas ra\u00edzes profundas das \u00e1rvores\u201d.<\/p>\n<p><strong>Em movimento<\/strong><\/p>\n<p>O uso da palavra tradicional pode remeter a algo est\u00e1tico, parado no tempo. \u201cAs pessoas que est\u00e3o no territ\u00f3rio n\u00e3o est\u00e3o condenadas a ser como tal o resto da vida, t\u00eam direito a reinventar outras formas de ser, o sentido pr\u00f3prio que lhes \u00e9 atribu\u00eddo\u201d, relembra o professor Carlos Walter. Essas comunidades est\u00e3o em constante movimento e configurando novos movimentos sociais. Nos \u00faltimos anos, elas passaram a se encontrar em articula\u00e7\u00f5es regionais, que re\u00fanem ind\u00edgenas, quilombolas e diversos outros tipos de comunidades tradicionais: a Teia dos Povos e Comunidades Tradicionais do Maranh\u00e3o, que tamb\u00e9m existe no Piau\u00ed e na Bahia; a Articula\u00e7\u00e3o Camponesa de Luta pela Terra e Defesa dos Territ\u00f3rios, no Tocantins; o F\u00f3rum de Comunidades Tradicionais entre o Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, entre outras.<\/p>\n<p>No final de novembro de 2017, mais de 700 pessoas de comunidades de todos os estados do Cerrado se encontraram em Balsas, no Maranh\u00e3o, e no m\u00eas seguinte as comunidades maranhenses se reuniram no Quilombo Cocalinho, no munic\u00edpio de Parnarama, para trocar experi\u00eancias em sua &#8220;teia&#8221;.<\/p>\n<p>Os encontros s\u00e3o recheados de den\u00fancias, indigna\u00e7\u00f5es, tambores, marac\u00e1s, cantos e rezas. Para as comunidades camponesas, s\u00e3o espa\u00e7os de aprendizados, principalmente com \u00edndios e quilombolas, cujos percursos de luta est\u00e3o mais consolidados. As palavras autonomia e retomada s\u00e3o repetidas \u00e0 exaust\u00e3o, e quase sempre o Estado \u00e9 visto como um inimigo que ora se omite, ora investe em projetos contra seus modos de vida, ora n\u00e3o reconhece seus direitos territoriais. \u201cN\u00f3s n\u00e3o conseguimos pensar nesse espa\u00e7o com cada um no seu quadrado, ele \u00e9 essa teia\u201d, diz Rosenilde Greg\u00f3rio dos Santos Costa, 55 anos, a Rosa, quebradeira de coco no Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>As comunidades tentam pautar o Estado exigindo direitos territoriais e liberdade de autogest\u00e3o. Mas n\u00e3o esperam por ele. \u201cMuitas comunidades est\u00e3o centrando fogo em estrat\u00e9gias de perman\u00eancia no territ\u00f3rio, porque, se forem esperar o Estado resolver os imbr\u00f3glios, perdem a terra\u201d, observa Tatiana Emilia Dias Gomes, professora na Universidade Federal da Bahia e advogada da Associa\u00e7\u00e3o de Advogados e Advogadas de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, a AATR.<\/p>\n<p>Muitas partem para a a\u00e7\u00e3o direta: cortam cercas colocadas por fazendeiros ou empresas que tentam se apropriar de suas terras, expulsam pistoleiros, promovem a autodemarca\u00e7\u00e3o e at\u00e9 retomam \u00e1reas das quais foram expulsas. Foi o que aconteceu no Vale das Cancelas, em Minas Gerais. L\u00e1, comunidades geraizeiras enfrentaram sucessivas expuls\u00f5es e apropria\u00e7\u00f5es de seu territ\u00f3rio por v\u00e1rios tipos de projetos. H\u00e1 poucos anos, decidiram retomar sua \u00e1rea e promover a autodemarca\u00e7\u00e3o de mais de 200 mil hectares, onde montaram acampamento e exigem o reconhecimento do Estado.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"box-creditos\">\n<p><img decoding=\"async\" class=\"img-fluid\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/apresentacao\/o-levante-das-comunidades-tradicionais-05.jpg\" alt=\"o-levante-das-comunidades-tradicionais\" \/><em>Quebradeiras de coco participam da Teia dos Povos e Comunidades Tradicionais do Maranh\u00e3o, em que compartilham experi\u00eancias. Foto: Ana Mendes\u00a0<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"img-fluid\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/apresentacao\/o-levante-das-comunidades-tradicionais-06.jpg\" alt=\"o-levante-das-comunidades-tradicionais\" \/><em>H\u00e1 gera\u00e7\u00f5es no territ\u00f3rio, comunidades geraizeiras est\u00e3o cada vez mais cercadas. Foto: Gui Gomes<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"box-creditos\">\u201cOs projetos estatais e privados, que muitas vezes se confundem, afetam esses mundos de forma violenta\u201d\u00a0Patr\u00edcia de Menezes, pesquisadora<\/div>\n<div class=\"box-creditos\"><\/div>\n<div class=\"box-creditos\">\n<div class=\"col-12 col-sm-7\">\n<p>Pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e pela Conven\u00e7\u00e3o 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho, da qual o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio, as comunidades tradicionais t\u00eam assegurado o direito a autoidentifica\u00e7\u00e3o e a territ\u00f3rio, assim como a serem consultadas sobre projetos que as impactem.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, entretanto, as vias para conquista territorial s\u00e3o tortuosas. Muitas ainda dependem de um laudo antropol\u00f3gico ou de outro tipo de certifica\u00e7\u00e3o. Enquanto a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio, a Funai, \u00e9 respons\u00e1vel pela demarca\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios ind\u00edgenas, e o Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria, o Incra, pela titula\u00e7\u00e3o de terras quilombolas, n\u00e3o h\u00e1 um procedimento \u00fanico para os outros tipos de comunidades.<\/p>\n<p>Elas, ent\u00e3o, apelam para diferentes instrumentos que foram sendo criados pelo Estado a partir de sua mobiliza\u00e7\u00e3o, nem sempre ideais. Pelo Incra, existem os Projetos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel e os Projetos Agroextrativistas, que n\u00e3o levam em conta apenas a divis\u00e3o em lotes individuais. Pelo Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade, o ICMBio, h\u00e1 unidades de conserva\u00e7\u00e3o que permitem o uso do territ\u00f3rio pelas comunidades que as ocupam. A Secretaria de Patrim\u00f4nio da Uni\u00e3o criou os Termos de Autoriza\u00e7\u00e3o de Uso Sustent\u00e1vel, que podem ser obtidos pelas comunidades que vivem nas beiras das \u00e1guas.<\/p>\n<p>Diante da press\u00e3o local, alguns estados tamb\u00e9m come\u00e7aram a criar legisla\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para demarcar territ\u00f3rios tradicionais. \u00c9 o caso da Bahia, do Paran\u00e1 e, mais recentemente, de Minas Gerais.<\/p>\n<p>Apesar disso, o aparato jur\u00eddico dispon\u00edvel ainda \u00e9 fr\u00e1gil, e as comunidades enfrentam cada vez mais reintegra\u00e7\u00f5es de posse em favor de fazendeiros ou empresas emitidas pela Justi\u00e7a, mesmo que estejam em \u00e1reas p\u00fablicas. \u201cA titula\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de reconhecimento mas n\u00e3o encerra e n\u00e3o resolve os conflitos, pois o Estado tem interesse econ\u00f4mico nessas terras e recursos naturais\u201d, observa a pesquisadora Patr\u00edcia de Menezes.<\/p>\n<p>Assim, mesmo quando conseguem demarca\u00e7\u00f5es ou concess\u00f5es de uso, muitas comunidades reclamam que o territ\u00f3rio acaba reduzido, e a liberdade restrita. Para a advogada Tatiana Emilia, \u201ca lente do direito estatal n\u00e3o consegue compreender nem enxergar o que \u00e9 \u00fatil para essas comunidades, e n\u00e3o tem a dimens\u00e3o do que se d\u00e1 nos territ\u00f3rios\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-12 col-sm-5\"><img decoding=\"async\" class=\"img-fluid\" src=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/comunidadestradicionais\/img\/apresentacao\/o-levante-das-comunidades-tradicionais-07.jpg\" alt=\"o-levante-das-comunidades-tradicionais\" \/><em>Comunidades geraizeiras montaram acampamento para retomar \u00e1reas tomadas pelas planta\u00e7\u00f5es de eucalipto. 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