{"id":22873,"date":"2018-02-03T13:00:02","date_gmt":"2018-02-03T15:00:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=22873"},"modified":"2025-12-02T08:15:07","modified_gmt":"2025-12-02T11:15:07","slug":"abaixo-a-fitoxenofobia-a-intolerancia-atinge-o-reino-vegetal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/abaixo-a-fitoxenofobia-a-intolerancia-atinge-o-reino-vegetal\/","title":{"rendered":"Abaixo a fitoxenofobia! A intoler\u00e2ncia atinge o reino vegetal"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/d0ad853da0a4_15chacel_gleba_e.jpg\" alt=\"&lt;i&gt;Cocos nucifera&lt;\/i&gt; (origem incerta, mas muito provavelmente ex\u00f3tica), tamb\u00e9m usada por Fernando Chacel&lt;br \/&gt;Foto Eduardo Barra \" width=\"770\" height=\"513\" \/><em>Cocos nucifera\u00a0(origem incerta, mas muito provavelmente ex\u00f3tica), tamb\u00e9m usada por Fernando Chacel.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<p class=\"citation\"><em>\u201cSeria ideal plantarem-se apenas as esp\u00e9cies nativas, mas isso, em certas \u00e1reas, talvez n\u00e3o produzisse um jardim\u201d.\u00a0<\/em>Roberto Burle Marx,\u00a0Roberto Burle Marx: arte &amp; paisagem\u00a0(1)<\/p>\n<p class=\"item-two\"><b>Descobrimento do Brasil<\/b><\/p>\n<p class=\"text\">Ap\u00f3s s\u00e9culos de predom\u00ednio das esp\u00e9cies vegetais ex\u00f3ticas em nossos jardins, em que copiamos modismos importados e conflitantes com as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e as paisagens tropicais, eis que o brasileiro vence o torpor e d\u00e1 a partida em um movimento de descobrimento e valoriza\u00e7\u00e3o da flora nativa. N\u00e3o que isso tenha ocorrido de um dia para o outro, mas como resultado de um longo processo provavelmente iniciado no s\u00e9culo 19, quando Glaziou incorporou esp\u00e9cies brasileiras ainda n\u00e3o experimentadas no paisagismo em suas significativas obras realizadas no Rio de Janeiro e arredores; mais tarde, em meados do s\u00e9culo seguinte, quando Roberto Burle Marx cercou-se de bot\u00e2nicos e outros especialistas para empreender pesquisas de campo com o fim de conhecer novas esp\u00e9cies e estudar a associa\u00e7\u00e3o natural entre fam\u00edlias bot\u00e2nicas; em 1972, foi a vez da Confer\u00eancia Mundial de Estocolmo desencadear a onda ecol\u00f3gica das \u00faltimas d\u00e9cadas, trazendo como resultado a consci\u00eancia ambiental que terminou por condenar ao ostracismo as at\u00e9 ent\u00e3o onipresentes roseiras, cam\u00e9lias e magn\u00f3lias.<\/p>\n<p class=\"text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/52997bef7160_01sapucaias.jpg\" width=\"842\" height=\"421\" \/><em>As sapucaias introduzidas por Glaziou na Quinta da Boa Vista.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<p class=\"text\">A compreens\u00e3o da import\u00e2ncia do emprego da flora aut\u00f3ctone em obras de interven\u00e7\u00e3o paisag\u00edstica alcan\u00e7ou profissionais de v\u00e1rias \u00e1reas de conhecimento e matizes, que, em lugar de entender o paisagismo apenas como atividade cosm\u00e9tica, passaram a enxerg\u00e1-lo atrav\u00e9s das lentes da coer\u00eancia ecossist\u00eamica e da sustentabilidade, buscando a adapta\u00e7\u00e3o do jardim ao meio e sua intera\u00e7\u00e3o direta com a fauna, bem como a racionaliza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de manuten\u00e7\u00e3o, a elimina\u00e7\u00e3o ou redu\u00e7\u00e3o radical de replantios, podas de condu\u00e7\u00e3o e sistemas de irriga\u00e7\u00e3o, e, consequentemente, alto desempenho ambiental e baixo custo.<\/p>\n<p class=\"text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/3bff5ba45a2f_02chacel.jpg\" width=\"782\" height=\"521\" \/><em>Chacel e suas obras ecogen\u00e9ticas na Barra da Tijuca.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<p class=\"text\">\u00c9 fato que alguns paisagistas apenas substitu\u00edram o exotismo anterior por outro de gosto mais recente, apostando na\u00a0<em>tend\u00eancia<\/em>\u00a0de kaizukas, pinheiros natalinos, ciprestes e buxinhos topiarizados, que n\u00e3o mant\u00eam qualquer sintonia ambiental e morfol\u00f3gica com a flora tropical e nossas paisagens. Mas ainda alimento a esperan\u00e7a de que esses colegas, em futuro pr\u00f3ximo, compreendam que, para atender \u00e0s necessidades prementes das rela\u00e7\u00f5es entre jardim, fauna, clima e ecossistema, torna-se fundamental adotar, prioritariamente, as esp\u00e9cies vegetais da regi\u00e3o e, na continuidade, admitir composi\u00e7\u00f5es jardin\u00edsticas com est\u00e9tica org\u00e2nica e&#8230; natural\u00edstica (na falta de melhor express\u00e3o). Com tais princ\u00edpios em mente, o arquiteto paisagista Fernando Chacel conseguiu materializar, a partir do final dos anos 1980, os conceitos da ecog\u00eanese em projetos que se tornaram emblem\u00e1ticos e estabeleceram novos paradigmas para o paisagismo brasileiro (2).<\/p>\n<p class=\"text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/68708b5324c9_03chacel.jpg\" width=\"776\" height=\"517\" \/><em>Chacel e suas obras ecogen\u00e9ticas na Barra da Tijuca.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<p class=\"text\">Entretanto, com o tempo, o conceito de vegeta\u00e7\u00e3o nativa se ampliou \u2013 e desvirtuou \u2013, passando a designar a flora do territ\u00f3rio geopol\u00edtico brasileiro. Em outras palavras, sem que perceb\u00eassemos, trocamos a percep\u00e7\u00e3o do regional e do ecossist\u00eamico por uma equivocada no\u00e7\u00e3o de nacionalismo. Esse racioc\u00ednio, que sequer considera a decantada diversidade e o endemismo dos biomas brasileiros, admite como nativa qualquer planta origin\u00e1ria do territ\u00f3rio nacional, independentemente do local em que vir\u00e1 a ser plantada (3). \u00c9 l\u00f3gico que isso nada tem a ver com coer\u00eancia ambiental e sustentabilidade, tendo em vista que em Manaus, por exemplo, uma brom\u00e9lia caracter\u00edstica das encostas da Serra do Mar parece ser t\u00e3o ex\u00f3tica quanto as kaizukas asi\u00e1ticas que condenei acima. Em contrapartida, tornou-se admiss\u00edvel empregar um indiv\u00edduo do bioma amaz\u00f4nico tanto faz se no Rio de Janeiro ou em Serra Talhada, apesar de conhecermos v\u00e1rios exemplos n\u00e3o muito felizes desta pr\u00e1tica.<\/p>\n<p class=\"text\">De acordo com o conceito de esp\u00e9cies nativas vigente, tornaram-se n\u00e3o muito desej\u00e1veis at\u00e9 mesmo as esp\u00e9cies comprovadamente n\u00e3o-invasoras e at\u00e9 pouco tempo consideradas \u201cnaturalizadas\u201d, ou seja, morfol\u00f3gica, cultural e ambientalmente adaptadas ao Brasil, como as asi\u00e1ticas mangueira (<i>Mangifera indica<\/i>) e fruta-p\u00e3o (<i>Artocarpus altilis<\/i>). A defesa intransigente da flora brasileira \u2013 geralmente sustentada por profissionais que n\u00e3o costumam compor jardins \u2013 tomou propor\u00e7\u00f5es assustadoras, como se at\u00e9 mesmo os pequenos recantos devessem assumir a miss\u00e3o de salva\u00e7\u00e3o do planeta e esp\u00e9cies ex\u00f3ticas fossem incapazes de cumprir fun\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas e mec\u00e2nicas, como fotoss\u00edntese, sequestro de carbono, abrigo da fauna, sombreamento, prote\u00e7\u00e3o contra ru\u00eddos e absor\u00e7\u00e3o de poeira, entre outras. \u00c9 como se tent\u00e1ssemos desesperadamente recuperar o tempo perdido e remediar a destrui\u00e7\u00e3o ambiental provocada pela urbaniza\u00e7\u00e3o desenfreada, pelas queimadas criminosas e pelas atividades extrativistas \u2013 quase uma estrat\u00e9gia de guerrilha e, nesse contexto, uma planta ex\u00f3tica estaria roubando o espa\u00e7o de uma nativa.<\/p>\n<p class=\"text\">Cabe lembrar que o Art. 4\u00ba da Resolu\u00e7\u00e3o SMAC n\u00ba 492, de 05\/07\/2011, que regulamenta o Programa Municipal de Controle de Esp\u00e9cies Ex\u00f3ticas Invasoras Vegetais, do Rio de Janeiro, diz que \u201cos projetos de recupera\u00e7\u00e3o ambiental e de arboriza\u00e7\u00e3o p\u00fablica no munic\u00edpio dever\u00e3o\u00a0<i>privilegiar<\/i>\u00a0(grifo meu) o uso de esp\u00e9cies e vegetais aut\u00f3ctones, exceto em casos devidamente justificados\u201d. No meu entender, <strong>privilegiar as nativas \u00e9 diferente de abolir as ex\u00f3ticas,<\/strong> ou seja, a lei me parece mais flex\u00edvel que seus int\u00e9rpretes.<\/p>\n<p class=\"text\">Nesse ponto, preciso deixar claro que n\u00e3o prego o uso indiscriminado de plantas estrangeiras (4), pois estou convicto de que sempre se deve dar prefer\u00eancia \u00e0s nativas, e endosso a ideia do pequeno jardim como fragmento do ecossistema envolvente, tendo em vista sua adaptabilidade e, em consequ\u00eancia, a pr\u00f3pria sustentabilidade da \u00e1rea verde. Mas tamb\u00e9m temos que levar em conta outras informa\u00e7\u00f5es, como as limita\u00e7\u00f5es do mercado produtor nacional e, mais tristemente ainda, da produ\u00e7\u00e3o regional de mudas para uso paisag\u00edstico, sobretudo quando atuamos em biomas pouco valorizados e conhecidos, como ocorre com o Cerrado e a Caatinga. E em certas circunst\u00e2ncias, esse pequeno detalhe pode inviabilizar completamente a cria\u00e7\u00e3o de jardins com esp\u00e9cies nativas.<\/p>\n<p class=\"text\">Considero important\u00edssimo o papel do paisagista, do ponto de vista educativo e como elemento que deve contribuir para o rompimento do c\u00edrculo vicioso dos viveiristas dedicados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de plantas ornamentais, mas sabemos que as mudan\u00e7as no setor ocorrem de forma bem mais lenta do que desejamos, sem qualquer sincronia com os cronogramas apertados estabelecidos por nossos clientes.<\/p>\n<p class=\"text\"><b>O homem e o meio<\/b><\/p>\n<p class=\"text\">Ao longo de sua exist\u00eancia, o homem passou de mero coadjuvante no reino animal a poderoso transformador do meio, alterando a seu gosto praticamente toda a superf\u00edcie do globo. Desde muito cedo, aprendeu a fazer queimadas e empregou tal conhecimento como estrat\u00e9gia de dom\u00ednio de novos territ\u00f3rios,\u00a0<em>limpando<\/em>\u00a0campos para facilitar a visualiza\u00e7\u00e3o do terreno e tornar a ca\u00e7a mais vulner\u00e1vel. Al\u00e9m disso, as clareiras serviam para afastar animais selvagens, bruxas e monstros da floresta \u2013 perigos reais e imagin\u00e1rios. Os ind\u00edgenas, os abor\u00edgenes e os construtores de loteamentos fazem assim at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p class=\"text\">Yuval Harari (5) conta que os homens modernos j\u00e1 tinham dominado a t\u00e9cnica da queimada quando chegaram \u00e0 Austr\u00e1lia, h\u00e1 long\u00ednquos 45 mil anos. Diante daquele ambiente estranho e qui\u00e7\u00e1 hostil, n\u00e3o perderam tempo para atear fogo em extensas florestas impenetr\u00e1veis. Hoje, quando um brasileiro pensa na Austr\u00e1lia, logo vem \u00e0 mente a praga dos eucaliptos (6), mas na \u00e9poca eles eram raros na regi\u00e3o de origem e, por serem muito resistentes ao fogo \u2013 em virtude de reterem muita \u00e1gua em seu cerne \u2013, foram os \u00fanicos que sobreviveram, espalhando-se por toda parte, enquanto outras esp\u00e9cies de \u00e1rvores e arbustos desapareceram.<\/p>\n<p class=\"text\">Os homens modificaram brutalmente n\u00e3o s\u00f3 a ecologia australiana, mas tamb\u00e9m a de outras grandes regi\u00f5es, eliminando plantas e animais locais julgados inconvenientes e introduzindo os j\u00e1 domesticados trazidos de longe. Vacas, cabras, javalis e galinhas, que antes estavam limitados a pequenos nichos na \u00c1frica e na \u00c1sia, hoje est\u00e3o disseminados por todo o mundo. Os povos da Am\u00e9rica Central domesticaram o milho e o feij\u00e3o, enquanto os sulamericanos se dedicaram \u00e0s batatas e os do norte \u00e0s ab\u00f3boras. Atualmente, esses alimentos s\u00e3o cosmopolitas. Da Nova Guin\u00e9, herdamos a cana-de-a\u00e7\u00facar e a banana; da China, o arroz; do Oriente M\u00e9dio, o trigo \u2013 uma gram\u00ednea silvestre entre tantas outras, inicialmente confinada a uma pequena regi\u00e3o, mas que converteu-se em um dos pilares da alimenta\u00e7\u00e3o mundial. Se f\u00f4ssemos aplicar o conceito brasileiro em voga no momento, do plantio exclusivo de esp\u00e9cies nativas, s\u00f3 cultivar\u00edamos batata e inhame por aqui.<\/p>\n<p class=\"text\">Na Europa Central, por exemplo, j\u00e1 n\u00e3o existe nenhum espa\u00e7o intocado (7). As florestas originais desapareceram h\u00e1 s\u00e9culos, inicialmente queimadas ou derrubadas a golpes de machado, e mais tarde pelos arados dos agricultores ancestrais. Os bosques agora encontrados aqui e ali decorrem de herc\u00faleas empreitadas de plantio, ou seja, n\u00e3o s\u00e3o florestas naturais. Portanto, n\u00e3o se tem certeza se todas as esp\u00e9cies vegetais encontradas nesses locais s\u00e3o exatamente as originais da regi\u00e3o, e \u00e9 at\u00e9 mais prov\u00e1vel que n\u00e3o sejam, j\u00e1 que os conceitos de ecossistema e respeito \u00e0s suas rela\u00e7\u00f5es bi\u00f3ticas s\u00e3o bastante recentes, bem posteriores ao estabelecimento de muitos desses arvoredos. Em suma, que esp\u00e9cies devem ser consideradas nativas em lugar t\u00e3o alterado?<\/p>\n<p class=\"text\">O homem sempre manifestou fascina\u00e7\u00e3o pelo diferente, pelo ex\u00f3tico, pelo que n\u00e3o existe em sua regi\u00e3o, e transferiu de um lado para outro tudo que encontrou pelo caminho, de glad\u00edolos a temperos, de gard\u00eanias a frutas e, mesmo sem desconfiar, de ervas daninhas a pragas. Como se sabe, o Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro iniciou suas atividades no despertar do s\u00e9culo 19 com o intuito expl\u00edcito de aclimatar plantas ex\u00f3ticas, entre elas, especiarias e \u00e1rvores frut\u00edferas. Naquele momento, tratava-se de quest\u00e3o econ\u00f4mica de vital import\u00e2ncia para a Coroa. Os naturalistas Spix e Martius, que aqui estiveram menos de uma d\u00e9cada ap\u00f3s sua funda\u00e7\u00e3o, relatam (8) que o s\u00edtio j\u00e1 contava com mangueiras e alamedas de \u201c\u00e1rvores-do-p\u00e3o do Oceano Pac\u00edfico\u201d, sendo o ch\u00e1 chin\u00eas \u201co mais importante objeto de cultivo\u201d, entre diversas plantas da \u00cdndia Oriental, como \u201ca caneleira, o craveiro-da-\u00edndia, a pimenteira, o \u00bfgneto?, a noz-moscada, a caramboleira\u201d, e por a\u00ed vai. \u00c9 muito pouco prov\u00e1vel que hoje se possa medir com precis\u00e3o as altera\u00e7\u00f5es provocadas pela implanta\u00e7\u00e3o do Jardim Bot\u00e2nico naquele trecho de Mata Atl\u00e2ntica, bem como a real \u00e1rea de abrang\u00eancia da interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"text\">H\u00e1 que se considerar ainda o estrago que os descobridores europeus provocaram em quase todo nosso territ\u00f3rio, em busca do pau-brasil, do ouro e de outras riquezas p\u00e1trias. Outro caso not\u00e1vel no Rio de Janeiro vem a ser a supress\u00e3o total da vegeta\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o hoje denominada Floresta da Tijuca, em fun\u00e7\u00e3o da cultura cafeeira, posteriormente reflorestada pelo Major Archer e sua equipe de escravos com crit\u00e9rios certamente diferentes dos que adotar\u00edamos hoje. Com isso, quero dizer que tamb\u00e9m n\u00e3o conhecemos as nossas matas nativas, com exce\u00e7\u00e3o do que sobreviveu atrav\u00e9s de relatos dos viajantes naturalistas e de pequenos trechos que supomos inalterados, sem saber se s\u00e3o mesmo.<\/p>\n<p class=\"text\">Nos \u00faltimos anos, desenvolvemos uma s\u00e9rie de preocupa\u00e7\u00f5es com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies estranhas aos ecossistemas, pois adquirimos conhecimentos mais profundos sobre plantas invasoras, pragas e seus respectivos predadores, poliniza\u00e7\u00e3o, associa\u00e7\u00f5es entre esp\u00e9cies e fam\u00edlias bot\u00e2nicas, intera\u00e7\u00f5es entre flora e fauna, dissemina\u00e7\u00e3o de sementes e diversas outras informa\u00e7\u00f5es inerentes ao equil\u00edbrio ecol\u00f3gico, at\u00e9 bem pouco tempo desconhecidas ou negligenciadas. <strong>O problema \u00e9 que todo esse conhecimento veio acompanhado por um certo radicalismo.<\/strong><\/p>\n<p class=\"item-two\"><b>Nativas x ex\u00f3ticas<\/b><\/p>\n<p class=\"text\">Como comentei antes, hoje consideramos nativas as esp\u00e9cies vegetais que pensamos ser originais (9) do nosso extenso territ\u00f3rio, mas para que determinada esp\u00e9cie seja considerada efetivamente nativa, \u00e9 preciso levar em conta uma regi\u00e3o muito menor e se orientar pela natureza, e n\u00e3o pelas fronteiras criadas pelo homem. Plantas s\u00e3o organismos aut\u00f3ctones que se instalam em locais que possam prover suas necessidades biol\u00f3gicas e f\u00edsicas, como oferta de \u00e1gua, tipo de solo, topografia, ventos etc (10).<\/p>\n<p class=\"text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/de247635c79c_04bosque_mambucaba.jpg\" width=\"730\" height=\"542\" \/><em>Bosque denso formado na margem do rio Mambucaba.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<p class=\"text\">Cito um exemplo. Em Mambucaba, vila residencial situada no munic\u00edpio de Paraty RJ, tive a oportunidade de desenvolver projetos de regenera\u00e7\u00e3o ambiental para duas pequenas \u00e1reas distantes apenas 600 metros entre si, mas que representam ecossistemas com caracter\u00edsticas completamente distintas \u2013 restinga e mata ciliar da plan\u00edcie costeira. Na certa, boa parte das esp\u00e9cies nativas plantadas em uma das \u00e1reas n\u00e3o teria chance de sobreviver na outra, jogando por terra qualquer ideia ampla e generalista de esp\u00e9cie nativa.<\/p>\n<p class=\"text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/73673d4a8abe_05restinga_mambucaba.JPG\" width=\"840\" height=\"624\" \/><em>Parque de educa\u00e7\u00e3o ambiental implantado em terreno costeiro situado pr\u00f3ximo \u00e0 foz do rio Mambucaba. Apesar da pequena dist\u00e2ncia entre as duas \u00e1reas, encontramos ecossistemas completamente diferentes entre si. O conceito generalista de esp\u00e9cies nativas n\u00e3o.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<p class=\"text\"><strong>Sabemos que existe uma grande diferen\u00e7a entre esp\u00e9cie ex\u00f3tica \u2013 imigrante, como denomina Wohlleben (11) \u2013 e esp\u00e9cie invasora.<\/strong> Ambas est\u00e3o fora do seu bioma original, mas a esp\u00e9cie imigrante n\u00e3o se reproduz descontroladamente e, portanto, n\u00e3o amea\u00e7a os ecossistemas nativos. Como exemplo, temos a falsa-seringueira ou ficus-italiano (<i>Ficus elastica<\/i>), cuja poliniza\u00e7\u00e3o depende de uma vespa que s\u00f3 existe em seu h\u00e1bitat natural, a \u00cdndia; aqui, s\u00f3 se reproduz por estaca e, portanto, depende do homem. Wohlleben afirma que a maioria das esp\u00e9cies imigrantes \u00e9 inofensiva para as \u00e1rvores nativas e que, sem a ajuda do homem, muitas desapareceriam em, no m\u00e1ximo, dois s\u00e9culos. Quanto a isso, n\u00e3o posso garantir, mas o autor \u00e9 especialista no assunto.<\/p>\n<p class=\"text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/cc65f707d603_06couroupita.jpg\" width=\"891\" height=\"1188\" \/><\/p>\n<p class=\"text\"><em>Couroupita guianensis, da Amaz\u00f4nia, introduzida por Burle Marx e Luiz Emygdio no Rio de Janeiro.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<p class=\"text\">Em seu artigo \u201cVegeta\u00e7\u00e3o nativa: desdobramentos e perspectivas no processo paisag\u00edstico\u201d (12), Lucia Maria S\u00e1 Antunes Costa relata que Roberto Burle Marx e o bot\u00e2nico Luiz Emygdio de Mello Filho introduziram diversas esp\u00e9cies de outros biomas brasileiros no Rio de Janeiro (grande parte no Parque do Flamengo), bem como esp\u00e9cies asi\u00e1ticas, com efeitos not\u00e1veis, que contribuem para despertar o interesse da popula\u00e7\u00e3o pelos elementos naturais e, consequentemente, pela pr\u00f3pria natureza, sem registros de que tenham provocado problemas ambientais. H\u00e1 pouco assisti no YouTube a um v\u00eddeo em que o agr\u00f4nomo Harri Lorenzi orgulhosamente apresenta uma trepadeira de bela flora\u00e7\u00e3o amarela (13) que introduziu em seu jardim bot\u00e2nico privado, contando que planeja apresent\u00e1-la aos viveiristas, para que entre em produ\u00e7\u00e3o comercial. Que embates Lorenzi e os produtores de plantas ornamentais ainda enfrentar\u00e3o com os radicais verdes?<\/p>\n<p class=\"text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/9dffef8c3062_07pseudobombax.jpg\" width=\"757\" height=\"493\" \/><em>Pseudobombax ellipticum, da Am\u00e9rica Central, introduzida por Burle Marx e Luiz Emygdio no Rio de Janeiro.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<p class=\"text\">No outro lado do grupo das esp\u00e9cies ex\u00f3ticas, encontram-se as invasoras (14), que demonstram prolifera\u00e7\u00e3o exagerada e amea\u00e7am os biomas, provocando a redu\u00e7\u00e3o da biodiversidade. Essas devem ser evitadas a todo custo e criteriosamente extirpadas sempre que poss\u00edvel. Um dos casos mais terr\u00edveis e bastante conhecido dos brasileiros vem a ser a leucena (Leucaena leucocephala), trazida ingenuamente da Am\u00e9rica Central na d\u00e9cada de 1940, como forrageira, mas que alastrou-se desastrosamente por todo o Pa\u00eds. Outro exemplo digno de nota \u00e9 a jaqueira (Artocarpus heterophyllus), que dispersa anualmente centenas ou at\u00e9 mesmo milhares de sementes vi\u00e1veis, ampliando ainda a \u00e1rea de dispers\u00e3o natural quando situada em encostas \u2013 como \u00e9 corriqueiro nas vertentes da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p class=\"text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/de4be37875c2_08leucena.JPG\" width=\"735\" height=\"980\" \/><em>Leucena, invasora agressiva.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<div class=\"image\">\n<p class=\"caption\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/0b78007dc73f_09jaqueira.jpg\" width=\"826\" height=\"613\" \/><em>Jaqueira, invasora agressiva.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<p class=\"item-two\"><b>Jardim, produto cultural<\/b><\/p>\n<p class=\"text\">A concep\u00e7\u00e3o de que a natureza precisa ser transformada para poder ser plenamente usufru\u00edda pelo homem vem dos prim\u00f3rdios da nossa exist\u00eancia, com certeza intensificada e aprimorada a partir do momento em que as sociedades come\u00e7aram a substituir pr\u00e1ticas n\u00f4mades pelo sedentarismo (15).<\/p>\n<p class=\"text\">O jardim \u00e9 um produto cultural resultante de interven\u00e7\u00f5es humanas que levam em conta o ambiente, os recursos naturais, a paisagem envolvente, aspectos socioecon\u00f4micos, a concep\u00e7\u00e3o est\u00e9tica do momento e de vida de seus usu\u00e1rios, e uma gama enorme de outras condicionantes. Jardim, portanto, \u00e9 um produto artificial, podendo se aproximar mais ou menos de um resultado est\u00e9tico natural\u00edstico e respeitoso com as rela\u00e7\u00f5es bi\u00f3ticas envolvidas em sua composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"text\">Roberto Burle Marx deixava clara sua posi\u00e7\u00e3o a respeito:<\/p>\n<p class=\"citation\"><em>\u201cSe me indagassem qual a primeira atitude filos\u00f3fica assumida para o meu jardim, logo responderia ser exatamente a mesma que traduz o comportamento do homem neol\u00edtico: aquela de alterar a natureza topogr\u00e1fica, para ajustar \u00e0 exist\u00eancia humana, individual e coletiva, utilit\u00e1ria e prazerosa. Existem duas paisagens: a natural, existente, e a humanizada, constru\u00edda\u201d (16).<\/em><\/p>\n<p class=\"text\">E Jos\u00e9 Tabacow complementa:<\/p>\n<p class=\"citation\"><em>\u201cUma de suas frases mais frequentes, \u2018o jardim \u00e9 natureza organizada pelo homem e para o homem\u2019, elimina qualquer d\u00favida quanto a uma inten\u00e7\u00e3o \u2018natural\u00edstica\u2019 em suas composi\u00e7\u00f5es\u201d (17).<\/em><\/p>\n<p class=\"text\">Na pr\u00e1tica, o paisagista brasileiro ainda tem que enfrentar a limita\u00e7\u00e3o do mercado produtor de esp\u00e9cies ornamentais, tendo em vista que as ex\u00f3ticas gozam de favoritismo, detalhe que reflete a demanda do p\u00fablico em geral e dos colegas paisagistas em particular (18).<\/p>\n<p class=\"text\">Pretender que um punhado de jardineiras de concreto sobre a laje de um pr\u00e9dio ou mesmo o pequeno quintal isolado de uma resid\u00eancia urbana venha a contribuir efetivamente para a recupera\u00e7\u00e3o ambiental da regi\u00e3o, soa como fantasia. A expectativa de quem defende esse pensamento \u00e9 de que esses microambientes venham a se somar, coalescendo em uma grande mancha verde salvadora. Pode ser, vamos torcer, mas para que o conjunto desempenhe efetivamente esse papel, precisar\u00edamos que todos os projetos do conjunto se integrassem dentro de um planejamento regional, que levasse em conta a diversidade de esp\u00e9cies, a densidade de indiv\u00edduos arb\u00f3reos por hectare, as intera\u00e7\u00f5es com a fauna e muitos outros aspectos.<\/p>\n<p class=\"text\">A verdade \u00e9 que n\u00e3o existe planejamento urbano ambiental e muito menos planejamento macropaisag\u00edstico, e os \u00f3rg\u00e3os que poderiam se responsabilizar pela mat\u00e9ria sequer analisam os projetos paisag\u00edsticos que caem em suas mesas, limitando-se a revisar suas insossas listas de plantas. A meu ver, deveriam tentar compreender as condicionantes cient\u00edficas, f\u00edsicas e art\u00edsticas que levaram os profissionais projetistas a especificar estas ou aquelas plantas, as associa\u00e7\u00f5es, intera\u00e7\u00f5es e contrastes morfol\u00f3gicos propostos, mas n\u00e3o o fazem. Talvez por isso, sintam-se com liberdade para vetar esp\u00e9cies e determinar o uso de outras n\u00e3o consideradas pelos autores dos projetos.<\/p>\n<p class=\"item-two\"><b>Desventuras de um paisagista<\/b><\/p>\n<p class=\"text\">Al\u00e9m de enfrentar o reduzido elenco de plantas nativas oferecidas pelo mercado produtor, o paisagista precisa aprender a conviver com uma s\u00e9rie de crit\u00e9rios obscuros e obje\u00e7\u00f5es incompreens\u00edveis ao desenvolver projetos para \u00e1reas p\u00fablicas (19).<\/p>\n<p class=\"text\">O projeto que desenvolvi para a extensa \u00e1rea afetada pelas obras da Linha 4 do metr\u00f4 carioca na Barra da Tijuca (Esta\u00e7\u00e3o Jardim Oce\u00e2nico e arredores), escavada em terreno arenoso repleto de conchas e outras evid\u00eancias praianas pelo menos at\u00e9 a profundidade de 10 metros \u2013 constata\u00e7\u00e3o feita durante visita \u00e0s obras \u2013, teve esp\u00e9cies como\u00a0<i>Andira fraxinifolia<\/i>,\u00a0<i>Neomitranthes obscura<\/i>,\u00a0<i>Sophora tomentosa<\/i>\u00a0e a cact\u00e1cea\u00a0<i>Piloscereus arrabidae<\/i>\u00a0rejeitadas pelo \u00f3rg\u00e3o competente, por tratarem-se de \u201cesp\u00e9cies de restinga que apenas apresentam bom desenvolvimento em solos arenosos\u201d. Deu para entender? O \u00f3rg\u00e3o estava tentando me explicar que esp\u00e9cies de restinga n\u00e3o se adaptam bem na Barra da Tijuca.<\/p>\n<p class=\"text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/1005fc19d85e_10barra_da_tijuca.jpg\" width=\"710\" height=\"527\" \/><em>As escava\u00e7\u00f5es para as obras do metr\u00f4, na Barra da Tijuca, demonstram a natureza arenosa do subsolo a cerca de 8 metros de profundidade.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<p class=\"text\">Nessa mesma oportunidade, fui informado que n\u00e3o seria mais admitido o plantio de qualquer esp\u00e9cie do g\u00eanero\u00a0<i>Erythrina<\/i>, tendo em vista que\u00a0<i>E. speciosa<\/i>\u00a0vinha apresentando problemas fitossanit\u00e1rios na cidade e, a partir deste fato, considerou-se prefer\u00edvel condenar o g\u00eanero por completo.<\/p>\n<p class=\"text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/1cbe0ab91e8d_11barra_da_tijuca.JPG\" width=\"757\" height=\"562\" \/><em>Obras da esta\u00e7\u00e3o metrovi\u00e1ria Jardim Oce\u00e2nico: muitas conchas vis\u00edveis na cota -10,00m.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p class=\"text\">Caso similar ocorreu com a esp\u00e9cie\u00a0<i>Triplaris brasiliana<\/i>. Como o exemplar jovem da esp\u00e9cie mant\u00e9m semelhan\u00e7a morfol\u00f3gica com\u00a0<i>T. surinamensis<\/i>\u00a0\u2013 essa sim, inscrita na lista das esp\u00e9cies ex\u00f3ticas invasoras do munic\u00edpio (Resolu\u00e7\u00e3o SMAC n\u00ba 554, de 28\/03\/14) \u2013, sua utiliza\u00e7\u00e3o \u201crequer comprova\u00e7\u00e3o da identifica\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica\u201d (todas requerem) e, como pode ser confundida, tamb\u00e9m foi sumariamente proibida.<\/p>\n<p class=\"text\">Em outro projeto, enfrentei situa\u00e7\u00e3o parecida com rela\u00e7\u00e3o ao emprego de\u00a0<i>Dracaena arborea<\/i>. Levando em conta que a planta tem origem incerta \u2013 portanto, ex\u00f3tica \u2013 e que outra esp\u00e9cie do g\u00eanero,\u00a0<i>D. fragrans<\/i>, apresenta potencial invasor, o \u00f3rg\u00e3o decidiu por vet\u00e1-la. Ou seja, se seu primo \u00e9 criminoso, voc\u00ea tamb\u00e9m ser\u00e1 tratado como tal.<\/p>\n<p class=\"text\">Em substitui\u00e7\u00e3o a argumentos t\u00e9cnicos convincentes, os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos costumam determinar que se evite algumas esp\u00e9cies simplesmente por serem \u201cde dif\u00edcil obten\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o em viveiro\u201d, verdade institucional que se sobrep\u00f5e \u00e0 pr\u00f3pria viv\u00eancia profissional do projetista. Nos casos em quest\u00e3o, relatei que havia adquirido, pouco tempo antes, mudas desenvolvidas daquelas esp\u00e9cies e o plantio havia sido bem sucedido, mas meu depoimento n\u00e3o soou convincente para os t\u00e9cnicos. Talvez pelas dificuldades administrativas e financeiras do Rio de Janeiro, ou por dificuldade de assumir responsabilidades, fico com a impress\u00e3o de que os t\u00e9cnicos n\u00e3o querem arriscar novas alternativas, preferindo optar pela mesmice e recomendar enfaticamente o restrito rol das esp\u00e9cies que \u201cderam certo\u201d. Por exemplo, aldrago (<i>Pterocarpus violaceus<\/i>) \u00e9 considerada esp\u00e9cie bem vinda, portanto, deve ser especificada e substitui\u00e7\u00e3o a qualquer outra mais \u201ccomplicada\u201d; sem qualquer justificativa t\u00e9cnica, \u201crecomenda-se\u201d usar\u00a0<i>Handroanthus serratifolius<\/i>\u00a0em lugar de\u00a0<i>H. chrysotrichus<\/i>\u00a0(da restinga), mesmo em regi\u00f5es de restinga, e substituir a proibida\u00a0<i>Erythrina speciosa<\/i>\u00a0por\u00a0<i>Paubrasilia echinata<\/i>, assim como\u00a0<i>Tibouchina granulosa<\/i>\u00a0por\u00a0<i>Schinus molle<\/i>, apesar das diferen\u00e7as de porte e flora\u00e7\u00e3o entre elas, contando ainda com o detalhe desta \u00faltima ocorrer predominantemente em campos de altitude ou regi\u00f5es subtropicais brasileiras.<\/p>\n<p class=\"text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/f0c1a8d7641b_12tibouchina_granulosa.jpg\" width=\"772\" height=\"550\" \/><em>Tibouchina granulosa. Efeitos paisag\u00edsticos completamente diferentes, mas n\u00e3o levados em considera\u00e7\u00e3o pelo \u00f3rg\u00e3o competente.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<p class=\"text\">De outra vez, tentei utilizar o nativo e j\u00e1 citado\u00a0<i>Piloscereus arrabidae\u00a0<\/i>em um jardim ornamental, mas como o jardim n\u00e3o se situava na beira da praia \u2013 e sim na encosta voltada para o mar, submetida a ventos fortes carregados de salinidade \u2013, o \u00f3rg\u00e3o competente achou que n\u00e3o mantinha \u201crela\u00e7\u00e3o com a \u00e1rea do plantio\u201d. Na verdade, nenhuma herb\u00e1cea praiana, mesmo que nativa, foi admitida na situa\u00e7\u00e3o de encosta \u2013 todas aparentemente vetadas pela altitude, um novo conceito para mim \u2013, com exce\u00e7\u00e3o da forrageira\u00a0<i>Sphagneticola trilobata<\/i>, n\u00e3o prevista no projeto, que \u201capesar de ser mais comumente encontrada em restingas e, segundo a literatura, ter car\u00e1ter invasor\u201d, foi recomendada para o mesmo local, em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0 ex\u00f3tica\u00a0<i>Spathiphyllum cannifolium<\/i>, embora os portes, flora\u00e7\u00f5es, folhagens e efeitos paisag\u00edsticos das duas esp\u00e9cies sejam completamente diferentes. E quanto ao \u201ccar\u00e1ter invasor\u201d da planta, nenhum coment\u00e1rio esclarecedor. (<a href=\"https:\/\/ecotourspetate.com\/generic-cialis-us2us-pharmacies\/\">ecotourspetate.com<\/a>)  Fiquei confuso.<\/p>\n<p class=\"text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/9f48453b4794_13schinusmolle.jpg\" width=\"816\" height=\"606\" \/><em>Schinus molle \u00e0 direita. Efeitos paisag\u00edsticos completamente diferentes, mas n\u00e3o levados em considera\u00e7\u00e3o pelo \u00f3rg\u00e3o competente.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<p class=\"text\">H\u00e1 uma infinidade de plantas nativas ainda desconhecidas ou n\u00e3o experimentadas em paisagismo. A luta de todo paisagista consciente passa por sua valoriza\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o entre colegas, viveiristas e o p\u00fablico em geral. Fernando Chacel, por exemplo, dedicou-se particularmente \u00e0 vegeta\u00e7\u00e3o do manguezal e da restinga, e hoje vemos plantas por ele introduzidas sendo empregadas rotineiramente em projetos paisag\u00edsticos. Uma de suas grandes contribui\u00e7\u00f5es, penso ser a norantea (<i>Schwartzia brasiliensis<\/i>), de grande beleza e a cada dia mais presente nos jardins litor\u00e2neos, embora de forma ainda bastante t\u00edmida. Por outro lado, cabe lembrar que o pr\u00f3prio paisagista n\u00e3o se furtou a empregar esp\u00e9cies ex\u00f3ticas em seus jardins, sempre que as considerava compat\u00edveis e harmoniosas com a flora local. A meu ver, uma atitude madura e consciente.<\/p>\n<p class=\"text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/media\/images\/magazines\/grid_9\/b93ebac4ce94_14chacelglebae.jpg\" width=\"852\" height=\"607\" \/><em>Pandanus utilis\u00a0(ex\u00f3tica), usada por Fernando Chacel em seus trabalhos emblem\u00e1ticos da Barra da Tijuca, com resultados fabulosos e completamente integrados \u00e0 fisionomia do ecossistema.\u00a0Foto Eduardo Barra<\/em><\/p>\n<p class=\"item-one\"><b>notas<\/b><\/p>\n<p class=\"note_text\"><span class=\"note_number\">1 &#8211;\u00a0<\/span><span class=\"note_text\">MARX, Roberto Burle.\u00a0<\/span><i>Roberto Burle Marx: arte &amp; paisagem.<\/i><span class=\"note_text\">\u00a0Organiza\u00e7\u00e3o e coment\u00e1rios de Jos\u00e9 Tabacow. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo, Studio Nobel, 2004.<\/span><\/p>\n<p class=\"note_text\"><span class=\"note_number\">2 &#8211;\u00a0<\/span>Na Gleba E (atualmente Condom\u00ednio Pen\u00ednsula), no Parque Mello Barreto e em outros empreendimentos na Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro, e posteriormente no Condom\u00ednio Jardim do Lago, em B\u00fazios RJ.<\/p>\n<p class=\"note_text\">3 &#8211;\u00a0Apenas a t\u00edtulo de exerc\u00edcio mental (e piada), podemos supor que o Brasil venha a conquistar pa\u00edses vizinhos, incorporando-os ao seu territ\u00f3rio, ou mesmo que estabele\u00e7a col\u00f4nias do outro lado do Atl\u00e2ntico. Segundo a l\u00f3gica atual, assim o pa\u00eds ampliaria consideravelmente seu plantel de esp\u00e9cies \u201cnativas\u201d, pass\u00edveis de serem utilizadas em qualquer ponto de seus dom\u00ednios.<\/p>\n<p class=\"note_text\">4 &#8211;\u00a0Afinal, sou coorganizador de um livro que tem como objetivo principal a valoriza\u00e7\u00e3o da flora aut\u00f3ctone pelos profissionais de projeto: BARRA,\u200e Eduardo; T\u00c2NGARI,\u200e Vera Regina; SCHLEE,\u200e M\u00f4nica Bahia; BATISTA, M\u00e1rcia Nogueira (org.).\u00a0<i>A vegeta\u00e7\u00e3o nativa no planejamento e no projeto paisag\u00edstico<\/i>. Rio de Janeiro, RioBooks, 2015.<\/p>\n<p class=\"note_text\">5 &#8211;\u00a0HARARI, Yuval Noah.\u00a0<i>Sapiens, uma breve hist\u00f3ria da humanidade<\/i>. Porto Alegre, L&amp;PM, 2017.<\/p>\n<p class=\"note_text\">6 &#8211;\u00a0Quem j\u00e1 teve a oportunidade de circular pelo interior do Esp\u00edrito Santo, por exemplo, sabe do que estou falando.<\/p>\n<p class=\"note_text\">7 &#8211;\u00a0WOHLLEBEN, Peter.\u00a0<i>A vida secreta das \u00e1rvores<\/i>. Rio de Janeiro, Sextante, 2017.<\/p>\n<p class=\"note_text\">8 &#8211;\u00a0SPIX, Johann Baptist von; MARTIUS, Carl Friedrich Philipp von.\u00a0<i>Viagem pelo Brasil (1817-1820)<\/i>. S\u00e3o Paulo, Melhoramentos, 1976.<\/p>\n<p class=\"note_text\">9 &#8211;\u00a0Para tanto, precisamos estabelecer uma data, pois sabemos que os ecossistemas atuais se estabilizaram h\u00e1 apenas 4.000 anos, portanto, n\u00e3o mant\u00eam as mesmas caracter\u00edsticas da \u00e9poca dos dinossauros, por exemplo. Original, no caso, n\u00e3o se refere \u00e0 origem.<\/p>\n<p class=\"note_text\">10 &#8211;\u00a0WOHLLEBEN, Peter. Op. cit.<\/p>\n<p class=\"note_text\">11 &#8211;\u00a0Idem, ibidem.<\/p>\n<p class=\"note_text\">12 &#8211;\u00a0BARRA,\u200e Eduardo; T\u00c2NGARI,\u200e Vera Regina; SCHLEE,\u200e M\u00f4nica Bahia; BATISTA, M\u00e1rcia Nogueira (org.). Op. cit.<\/p>\n<p class=\"note_text\">13 &#8211;\u00a0<i>Petraeovix bambusetorum<\/i>, origin\u00e1ria do sudeste asi\u00e1tico.<\/p>\n<p class=\"note_text\">14 &#8211;\u00a0Ver lista de esp\u00e9cies invasoras do Munic\u00edpio do Rio de Janeiro. Resolu\u00e7\u00e3o SMAC n\u00ba 554, de 28\/03\/2014.<\/p>\n<p class=\"note_text\">15 &#8211;\u00a0BARRA, Eduardo. Composi\u00e7\u00e3o formal e organiza\u00e7\u00e3o funcional da vegeta\u00e7\u00e3o nativa no projeto paisag\u00edstico. In BARRA,\u200e Eduardo; T\u00c2NGARI,\u200e Vera Regina; SCHLEE,\u200e M\u00f4nica Bahia; BATISTA, M\u00e1rcia Nogueira (org.). Op. cit.<\/p>\n<p class=\"note_text\">16 &#8211;\u00a0MARX, Roberto Burle. Op. cit.<\/p>\n<p class=\"note_text\">17 &#8211;\u00a0Idem, ibidem.<\/p>\n<p class=\"note_text\">18 &#8211;\u00a0BARRA, Eduardo. Op. cit.<\/p>\n<p class=\"note_text\">19 &#8211;\u00a0Refiro-me ao munic\u00edpio do Rio de Janeiro, pois desconhe\u00e7o a din\u00e2mica de outros locais.<\/p>\n<p class=\"item-one\"><b>sobre o autor<\/b><\/p>\n<p class=\"text\">Eduardo Barra \u00e9 arquiteto (UFRJ, 1976) atuante nas \u00e1reas de arquitetura paisag\u00edstica, desenho urbano e meio ambiente. Autor do livro\u00a0<i>Paisagens \u00dateis: escritos sobre paisagismo<\/i>, publicado pelas editoras Senac S\u00e3o Paulo e Mandarim (2006) e vencedor do Pr\u00eamio IAB-RJ (2009) \u00e9 titular exclusivo do Studio Eduardo Barra.<\/p>\n<p class=\"text\">Fonte &#8211; Vitruvius, Arquitextos de 18 de janeiro de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cocos nucifera\u00a0(origem incerta, mas muito provavelmente ex\u00f3tica), tamb\u00e9m usada por Fernando Chacel.\u00a0Foto Eduardo Barra \u201cSeria ideal plantarem-se apenas as esp\u00e9cies nativas, mas isso, em certas \u00e1reas, talvez n\u00e3o produzisse um jardim\u201d.\u00a0Roberto Burle Marx,\u00a0Roberto Burle Marx: arte &amp; paisagem\u00a0(1) Descobrimento do Brasil Ap\u00f3s s\u00e9culos de predom\u00ednio das esp\u00e9cies vegetais ex\u00f3ticas em nossos jardins, em que copiamos&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[33],"post_series":[],"class_list":["post-22873","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-educacao-ambiental","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Abaixo a fitoxenofobia! 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