{"id":23041,"date":"2018-02-26T17:00:09","date_gmt":"2018-02-26T20:00:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=23041"},"modified":"2018-02-26T08:54:57","modified_gmt":"2018-02-26T11:54:57","slug":"uma-vez-degradado-o-cerrado-nao-se-regenera-naturalmente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/uma-vez-degradado-o-cerrado-nao-se-regenera-naturalmente\/","title":{"rendered":"Uma vez degradado, o Cerrado n\u00e3o se regenera naturalmente"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"lb-image\" src=\"http:\/\/agencia.fapesp.br\/agencia-novo\/imagens\/noticia\/27156.jpg\" width=\"699\" height=\"275\" \/><em>Abandonadas, \u00e1reas do bioma convertidas em pastagens se transformam em cerrad\u00e3o, uma forma\u00e7\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o adensada mas pobre em biodiversidade, indica pesquisa feita na Unesp (fotos: divulga\u00e7\u00e3o)<\/em><\/p>\n<p>Alguns dos mais importantes rios do Brasil \u2013 Xingu, Tocantins, Araguaia, S\u00e3o Francisco, Parna\u00edba, Gurupi, Jequitinhonha, Paran\u00e1 e Paraguai, entre outros \u2013 nascem no Cerrado. Trata-se da \u00fanica savana do planeta dotada de rios perenes. A r\u00e1pida convers\u00e3o do Cerrado em pastagens e lavouras e o manejo inadequado das \u00e1reas preservadas colocam em risco esse formid\u00e1vel recurso natural, em um pa\u00eds com o terceiro maior potencial hidrel\u00e9trico tecnicamente aproveit\u00e1vel do mundo, e em que 77,2% da matriz el\u00e9trica \u00e9 suprida pela hidroeletricidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a destrui\u00e7\u00e3o do Cerrado constitui uma perda inestim\u00e1vel em termos de biodiversidade, pois, na microescala, esse bioma, que pode apresentar 35 esp\u00e9cies diferentes de plantas por metro quadrado, \u00e9 mais rico em flora e fauna do que a floresta tropical (<i>leia em:\u00a0<b><a href=\"http:\/\/agencia.fapesp.br\/25865\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/agencia.fapesp.br\/25865<\/a><\/b>).<\/i><\/p>\n<p>Sabe-se que o Cerrado tem um potencial de regenera\u00e7\u00e3o natural muito alto. Mas at\u00e9 que ponto vai sua resili\u00eancia? O que \u00e9 necess\u00e1rio para que, uma vez convertido em pastagens, o Cerrado recupere sua configura\u00e7\u00e3o natural? Quanto tempo seria necess\u00e1rio para isso?<\/p>\n<p>Um novo estudo, feito na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e com resultados publicados no\u00a0<i><b><a href=\"http:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/1365-2664.13046\/full\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Journal of Applied Ecology<\/a><\/b><\/i>, procurou responder a essas perguntas.<\/p>\n<p>\u201cNosso esfor\u00e7o inicial foi localizar, no Estado de S\u00e3o Paulo, as \u00e1reas de antigas pastagens que agora se encontram em regenera\u00e7\u00e3o natural na condi\u00e7\u00e3o de \u2018reserva legal\u2019\u201d, disse a coordenadora do estudo\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/8008\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Giselda Durigan<\/a><\/b>, professora da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia Florestal da Unesp e pesquisadora do Instituto Florestal do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O trabalho foi realizado no \u00e2mbito do doutorado de\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/687276\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">M\u00e1rio Guilherme de Biagi Cava<\/a><\/b>, com Bolsa da FAPESP e orienta\u00e7\u00e3o de Durigan, e tamb\u00e9m apoiado por meio de um Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa concedido ao professor\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/176172\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Milton Cezar Ribeiro<\/a><\/b>\u00a0e de uma Bolsa de Doutorado a\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/176254\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Natashi Aparecida Lima Pilon<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>\u201cForam encontradas mais de 80 \u00e1reas, o que pareceu de sa\u00edda um dado bastante promissor. Mas o entusiasmo inicial de meu orientando foi arrefecido pela resist\u00eancia dos propriet\u00e1rios em permitir o acesso \u00e0s \u00e1reas para amostragem. E isso nos levou a uma primeira constata\u00e7\u00e3o: a de que o rigor das leis de preserva\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem sido acompanhado da necess\u00e1ria assist\u00eancia que deveria ser prestada pelo poder p\u00fablico aos particulares para a restaura\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o\u201d, disse.<\/p>\n<p>Apesar do interesse social de uma pesquisa como essa, a oposi\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios fez com que a amostragem fosse reduzida para 29 \u00e1reas, que haviam sido convertidas de Cerrado em pastagens, e foram posteriormente incorporadas como unidades de conserva\u00e7\u00e3o ou reservas legais de empresas de reflorestamento, usinas e propriedades agropecu\u00e1rias.<\/p>\n<p>Nelas, foi feito o levantamento da vegeta\u00e7\u00e3o, tanto das \u00e1rvores quanto das plantas pequenas que comp\u00f5em o estrato herb\u00e1ceo-arbustivo e que constituem a maior riqueza da flora do Cerrado. Apesar de estarem localizadas em regi\u00f5es diferentes, essas 29 \u00e1reas, com idades variando de quatro a 25 anos, puderam ser ordenadas em uma sequ\u00eancia cronol\u00f3gica no que se refere ao est\u00e1gio de regenera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPara resumir nossos resultados, de maneira bastante simplificada, descobrimos que o estrato arb\u00f3reo se recupera, at\u00e9 mesmo com muita facilidade. Mas, uma vez eliminada, a vegeta\u00e7\u00e3o rasteira ou de pequeno porte, que comp\u00f5e o estrato herb\u00e1ceo-arbustivo e que cont\u00e9m a maior parte das esp\u00e9cies end\u00eamicas, n\u00e3o se regenera. Ent\u00e3o, quando a pastagem \u00e9 simplesmente abandonada, ela se transforma, depois de algum tempo, em um cerrad\u00e3o, que \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o caracterizada por vegeta\u00e7\u00e3o muito adensada, com grande predom\u00ednio de \u00e1rvores e pobre em biodiversidade\u201d, afirmou Durigan.<\/p>\n<p>As \u00e1rvores se recuperam por possu\u00edrem ra\u00edzes muito profundas e terem evolu\u00eddo, ao longo de milh\u00f5es de anos, desenvolvendo a capacidade de rebrotar in\u00fameras vezes.<\/p>\n<p>\u201cQuem tenta implantar pastagens no Cerrado sabe que o custo maior de manuten\u00e7\u00e3o \u00e9 a ro\u00e7ada. Sem que seja ro\u00e7ada pelo menos de dois em dois anos, a vegeta\u00e7\u00e3o arb\u00f3rea volta a se impor. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel elimin\u00e1-la nem aplicando herbicida\u201d, disse Durigan.<\/p>\n<p>Por\u00e9m o estrato herb\u00e1ceo-arbustivo, que \u00e9 removido para a implanta\u00e7\u00e3o das pastagens, n\u00e3o se recomp\u00f5e, devido \u00e0 invas\u00e3o dos terrenos por gram\u00edneas ex\u00f3ticas muito resistentes e agressivas: as braqui\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u201cEssas s\u00f3 desaparecem com o sombreamento, causado pelo adensamento das \u00e1rvores. Mas, quando desaparecem as gram\u00edneas ex\u00f3ticas, as plantas originais de pequeno porte, que foram completamente erradicadas pelos herbicidas, pelas ro\u00e7adas e pela competi\u00e7\u00e3o com as braqui\u00e1rias e que n\u00e3o toleram a sombra, tamb\u00e9m n\u00e3o voltam mais\u201d, continuou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Para fazer com que a \u00e1rea voltasse a abrigar um cerrado t\u00edpico, seria necess\u00e1rio eliminar as gram\u00edneas ex\u00f3ticas, com manejo por meio de fogo associado a herbicida, e, depois, reintroduzir as esp\u00e9cies nativas. Mas isso constitui uma opera\u00e7\u00e3o dif\u00edcil e cara, que, com os recursos atuais, n\u00e3o pode ser realizada em larga escala.<\/p>\n<p>\u201cTemos pesquisado diferentes t\u00e9cnicas para promover a recupera\u00e7\u00e3o. Com sementes, \u00e9 necess\u00e1ria uma quantidade gigantesca, que n\u00e3o h\u00e1 nem de onde tirar. O que deu muito certo, em escala experimental, foi o transplante do estrato herb\u00e1ceo-arbustivo: a camada superficial do solo, acompanhada das touceiras de capim e das pequenas plantas\u201d, disse Durigan.<\/p>\n<p>\u201cO grande problema \u00e9 que, no Estado de S\u00e3o Paulo, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais \u00e1reas-fonte para isso. O que sobrou de Cerrado aberto est\u00e1 invadido por gram\u00edneas ex\u00f3ticas. Ent\u00e3o, quando se transplanta a camada superficial do solo, a braqui\u00e1ria vai junto. Isso acontece inclusive nas \u00e1reas protegidas\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"lb-image\" src=\"http:\/\/agencia.fapesp.br\/agencia-novo\/lib\/photo.php?src=\/agencia-novo\/Control\/..\/imagens\/galeria\/27156\/1.jpg&amp;h=700\" width=\"720\" height=\"1143\" \/><em>Vistas da estrutura da vegeta\u00e7\u00e3o (esquerda) e da camada do solo (direita) de alguns locais de estudo. Savana secund\u00e1ria quatro anos ap\u00f3s o abandono da pastagem (a e b); savana secund\u00e1ria 25 anos ap\u00f3s o abandono da pastagem (c e d); cerrado original (e e f); cerrad\u00e3o (g e h)<\/em><\/p>\n<p>O estudo feito na Unesp permitiu fechar um diagn\u00f3stico e fazer predi\u00e7\u00f5es. Espontaneamente, uma vez degradado, o cerrado t\u00edpico n\u00e3o se recomp\u00f5e totalmente. Para que uma \u00e1rea de pastagem volte a ser um cerrado t\u00edpico, com riqueza de biodiversidade, com a flora caracter\u00edstica, com\u00a0<i>habitats<\/i>\u00a0para fauna especializada em savana, \u00e9 necess\u00e1rio manejo humano: n\u00e3o se pode deixar que o adensamento das \u00e1rvores passe do limiar de 15 metros quadrados por hectare; \u00e9 preciso erradicar o capim ex\u00f3tico; e deve-se reintroduzir o estrato herb\u00e1ceo-arbustivo nativo.<\/p>\n<p>Evoluindo espontaneamente, sem manejo, em 49 anos a vegeta\u00e7\u00e3o arb\u00f3rea nas antigas \u00e1reas de pastagem ir\u00e1 se transformar em cerrad\u00e3o. A cobertura esparsa de solo caracter\u00edstica do cerrad\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ada em quatro anos e a biodiversidade pobre do estrato herb\u00e1ceo \u00e9 obtida em 19 anos. \u201cO processo \u00e9 r\u00e1pido, mas os resultados n\u00e3o s\u00e3o os que procuramos. O cerrad\u00e3o n\u00e3o se distingue de uma floresta degradada\u201d, disse Durigan.<\/p>\n<p>Dois anos depois do levantamento, j\u00e1 na segunda fase do doutorado de Cava, os pesquisadores v\u00e3o voltar \u00e0s mesmas \u00e1reas em fevereiro e mar\u00e7o de 2018, e medir tudo novamente, para obter a taxa precisa de aumento de cobertura, densidade e biodiversidade.<\/p>\n<p>\u201cEsses valores precisos nos permitir\u00e3o saber com exatid\u00e3o qual \u00e9 o potencial de regenera\u00e7\u00e3o das diferentes \u00e1reas e quais s\u00e3o os fatores favor\u00e1veis. \u00c9 o tipo de solo? \u00c9 a dist\u00e2ncia a uma fonte de sementes? \u00c9 a proximidade de recursos h\u00eddricos? Todos esses par\u00e2metros ser\u00e3o considerados\u201d, disse Durigan.<\/p>\n<p>Conforme afirmou, o artigo publicado por seu grupo \u00e9 muito inovador porque n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m em outros pa\u00edses tratando de recupera\u00e7\u00e3o de savanas.<\/p>\n<p>\u201cIsto porque ainda n\u00e3o ocorreu na \u00c1frica nem na Austr\u00e1lia um processo similar ao que estamos vivendo aqui, de convers\u00e3o da savana em pastagens extensivas e em grandes lavouras de soja, cana ou milho. Na \u00c1frica, as savanas est\u00e3o bem degradadas, mas devido ao sobrepastoreio, \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de lenha e a outras a\u00e7\u00f5es cujos impactos s\u00e3o menos vis\u00edveis no curto prazo. No Brasil, estamos presenciando transforma\u00e7\u00f5es que ocorrem de um dia para o outro\u201d, comentou a pesquisadora.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0<i>Abandoned pastures cannot spontaneously recover the attributes of old-growth savanas<\/i>\u00a0(doi: 10.1111\/1365-2664.13046), de M\u00e1rio G. B. Cava, Natashi A. L. Pilon, Milton Cezar Ribeiro e Giselda Durigan, est\u00e1 publicado em\u00a0<b><a href=\"http:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/1365-2664.13046\/full\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/1365-2664.13046\/full<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>Fonte &#8211;\u00a0Jos\u00e9 Tadeu Arantes, Ag\u00eancia FAPESP de 20 de fevereiro de 2017<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abandonadas, \u00e1reas do bioma convertidas em pastagens se transformam em cerrad\u00e3o, uma forma\u00e7\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o adensada mas pobre em biodiversidade, indica pesquisa feita na Unesp (fotos: divulga\u00e7\u00e3o) Alguns dos mais importantes rios do Brasil \u2013 Xingu, Tocantins, Araguaia, S\u00e3o Francisco, Parna\u00edba, Gurupi, Jequitinhonha, Paran\u00e1 e Paraguai, entre outros \u2013 nascem no Cerrado. 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