{"id":23055,"date":"2018-02-28T17:00:01","date_gmt":"2018-02-28T20:00:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=23055"},"modified":"2018-02-26T09:29:04","modified_gmt":"2018-02-26T12:29:04","slug":"industria-da-seca-aflige-a-populacao-nordestina-e-irriga-os-bolsos-dos-empreiteiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/industria-da-seca-aflige-a-populacao-nordestina-e-irriga-os-bolsos-dos-empreiteiros\/","title":{"rendered":"Ind\u00fastria da seca aflige a popula\u00e7\u00e3o nordestina e irriga os bolsos dos empreiteiros"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ind\u00fastria da seca aflige a popula\u00e7\u00e3o nordestina e irriga os bolsos dos empreiteiros. Entrevista especial com Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es J\u00fanior<\/strong><\/p>\n<p>Pelo s\u00e9timo ano consecutivo a\u00a0estiagem no Nordeste\u00a0d\u00e1 as caras. Apesar de o\u00a0<strong>per\u00edodo de chuvas<\/strong>\u00a0ter iniciado regionalmente na \u00faltima semana, durante o carnaval, os volumes de precipita\u00e7\u00e3o ainda s\u00e3o insuficientes. De acordo com o professor e pesquisador\u00a0Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es J\u00fanior, em entrevista por telefone \u00e0\u00a0<strong>IHU On-Line<\/strong>, a\u00a0<strong>barragem Armando Ribeiro Gon\u00e7alves<\/strong>, no\u00a0<strong>Rio Grande do Norte<\/strong>, que tem capacidade para 260 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos de \u00e1gua, recebeu apenas 3 milh\u00f5es nesta \u00faltima semana, isto \u00e9, 20 vezes menos do que o volume acumulado em fevereiro de 2017. O problema, contudo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de capta\u00e7\u00e3o, afinal a esta\u00e7\u00e3o chuvosa est\u00e1 rec\u00e9m no in\u00edcio, mas de\u00a0gest\u00e3o da \u00e1gua. \u201cTrabalha-se com\u00a0<strong>gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos<\/strong>\u00a0para abastecimento urbano h\u00e1 mais ou menos 100 anos e com irriga\u00e7\u00e3o h\u00e1 mais ou menos 20 anos. Esses dados nos mostram que a primeira coisa de que precisamos \u00e9 gest\u00e3o. O problema \u00e9 que se ficar oferecendo \u00e1gua para irriga\u00e7\u00e3o, o n\u00edvel dos reservat\u00f3rios vai cair, e isso acontece em um per\u00edodo em que ocorre a maior seca em cem anos\u201d, critica o pesquisador.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, pol\u00edticas isoladas de\u00a0<strong>combate \u00e0 seca<\/strong>\u00a0se mostram ineficientes. \u201c\u00c9 preciso conectar isso tudo em um grande\u00a0<strong>sistema integrado de abastecimento<\/strong>, como \u00e9 o de energia. Se j\u00e1 tiv\u00e9ssemos esse sistema integrado funcionando, nenhuma das cidades estaria com problemas no abastecimento de \u00e1gua\u201d, sugere. Os erros do passado se repetem em pol\u00edticas viciadas, que transformam um fen\u00f4meno clim\u00e1tico em ind\u00fastria da seca. \u201c\u00c9 uma quest\u00e3o de \u2018obrismo\u2019 em que, apesar de todos esses problemas de den\u00fancias que estamos vendo no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0com rela\u00e7\u00e3o a grandes obras de empreiteiras, vemos que a\u00a0ind\u00fastria da seca\u00a0no\u00a0<strong>Nordeste<\/strong>\u00a0continua a todo vapor. A gente discute absurdos enquanto se est\u00e1 atravessando a maior seca da hist\u00f3ria e em nenhum momento h\u00e1 uma discuss\u00e3o\u00a0aprofundada desse\u00a0assunto aqui na regi\u00e3o. N\u00e3o vemos nenhuma universidade discutindo essa quest\u00e3o aqui, vemos que essa quest\u00e3o da<strong>\u00a0ind\u00fastria da seca<\/strong>\u00a0est\u00e1 entranhada na sociedade nordestina\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es J\u00fanior\u00a0\u00e9 doutor em Engenharia Hidr\u00e1ulica e Saneamento e professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte \u2013 UFRN. Sobre a transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco, publicou diversos artigos, tais como<strong>\u00a0A transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco e o Rio Grande do Norte<\/strong>,\u00a0O lobby da transposi\u00e7\u00e3o\u00a0e\u00a0O mito da transposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Algumas previs\u00f5es apontavam chuva para o Nordeste no ver\u00e3o de 2018. Passados dois meses da esta\u00e7\u00e3o mais quente do ano, qual a situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es J\u00fanior \u2013<\/strong>\u00a0Estamos no in\u00edcio do<strong>\u00a0per\u00edodo chuvoso<\/strong>. Desde o carnaval as precipita\u00e7\u00f5es come\u00e7aram em uma abrang\u00eancia regional. Isso quer dizer que os fen\u00f4menos globais est\u00e3o atuando na regi\u00e3o, o que \u00e9 um quadro de certa normalidade, mas que s\u00f3 ocorreu nesta \u00faltima semana. Para caracterizar um cen\u00e1rio de normalidade \u00e9 preciso uma abrang\u00eancia regional e isso \u00e9 poss\u00edvel de perceber em um olhar mais amplo, como, por exemplo, a partir da zona de converg\u00eancia tropical, com\u00a0<strong>chuvas na Amaz\u00f4nia<\/strong>. No que diz respeito ao\u00a0<strong>Nordeste<\/strong>, as primeiras\u00a0chuvas\u00a0come\u00e7am a ocorrer no\u00a0<strong>Piau\u00ed<\/strong>, depois elas v\u00e3o para o\u00a0<strong>Cear\u00e1<\/strong>, tudo isso antes da esta\u00e7\u00e3o chuvosa. S\u00f3 que nada disso aconteceu, este ano a pr\u00e9-esta\u00e7\u00e3o foi de seca.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Este ano pode ser o s\u00e9timo seguido de estiagem no Nordeste. Quais s\u00e3o os principais desafios a serem enfrentados neste momento?<\/strong><\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\"><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es J\u00fanior \u2013<\/strong>\u00a0O principal problema s\u00e3o as\u00a0\u00e1reas urbanas. O quadro, nesses locais, n\u00e3o mudou nada apesar das recentes chuvas, porque os reservat\u00f3rios permanecem vazios. Na\u00a0<strong>Para\u00edba<\/strong>, por exemplo, em que as barragens estavam bem abaixo de um n\u00edvel de seguran\u00e7a, n\u00e3o mudou nada. Esse quadro extremamente cr\u00edtico se repete no\u00a0<strong>Cear\u00e1<\/strong>, onde as precipita\u00e7\u00f5es da \u00faltima semana n\u00e3o deram nenhuma resposta. No<strong>\u00a0Rio Grande do Norte<\/strong>\u00a0a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 id\u00eantica.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Segundo a Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas \u2013 ANA, dos 436 reservat\u00f3rios de \u00e1gua existentes no Nordeste, 240 t\u00eam menos de 10% da capacidade com \u00e1gua e outros 143 est\u00e3o completamente secos. Como fica a popula\u00e7\u00e3o diante deste cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es J\u00fanior \u2013<\/strong>\u00a0A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito cr\u00edtica. A\u00a0<strong>popula\u00e7\u00e3o rural<\/strong>que convive com esse quadro h\u00e1 d\u00e9cadas estava sendo atendida com caminh\u00f5es-pipa, o que acabou se tornando o maior programa de atendimento com carros-pipas da hist\u00f3ria do Nordeste. Agora as cidades realmente est\u00e3o em um n\u00edvel de criticidade absurda. No caso do\u00a0<strong>Cear\u00e1<\/strong>, a\u00a0<strong>represa do Castanh\u00e3o<\/strong>\u00a0est\u00e1 quase vazia, e a popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o de\u00a0<strong>Fortaleza<\/strong>\u00a0\u00e9 de mais de quatro milh\u00f5es de pessoas. No\u00a0<strong>Rio Grande do Norte<\/strong>, o maior reservat\u00f3rio da regi\u00e3o, o\u00a0<strong>Armando Ribeiro Gon\u00e7alves<\/strong>, atingiu um volume baix\u00edssimo e a \u00e1gua s\u00f3 pode ser tirada com bombas.<\/p>\n<p>O grande problema do\u00a0<strong>Nordeste<\/strong>, e das adutoras em geral, \u00e9 que os pontos de capta\u00e7\u00e3o est\u00e3o localizados em locais rasos, distantes das \u00e1reas adequadas nas barragens, e a\u00ed precisa sair correndo atr\u00e1s da \u00e1gua. Isso tem um custo enorme de energia.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Estamos diante de um d\u00e9ficit hist\u00f3rico ou a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 recorrente?<\/strong><\/p>\n<div class=\"news-citacao\"><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es J\u00fanior \u2013<\/strong>\u00a0\u00c9 necess\u00e1rio, como venho dizendo, no m\u00e9dio prazo uma mudan\u00e7a de paradigma, uma mudan\u00e7a de receitas destinadas \u00e0 quest\u00e3o da\u00a0<strong>\u00e1gua<\/strong>, algo que v\u00e1 al\u00e9m do drama do\u00a0<strong>sertanejo<\/strong>\u00a0que vive na\u00a0<strong>seca<\/strong>, o que ilustra o quadro cr\u00f4nico da seca. Isso se trata de um problema mais complexo e estrutural que precisa ser modificado.<\/div>\n<p>Agora, a parte que tem solu\u00e7\u00e3o, comprovada empiricamente e cientificamente, diz respeito ao\u00a0abastecimento urbano das cidades. Trabalha-se com\u00a0gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos\u00a0para abastecimento urbano h\u00e1 mais ou menos 100 anos e com\u00a0<strong>irriga\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0h\u00e1 mais ou menos 20 anos. Esses dados nos mostram que a primeira coisa de que precisamos \u00e9 gest\u00e3o. Vejamos o caso do\u00a0<strong>Cear\u00e1<\/strong>, que tem uma\u00a0<strong>pol\u00edtica de recursos h\u00eddricos<\/strong>\u00a0baseada em sua maior seca hist\u00f3rica, que durou dez anos, e cujas estimativas preveem a repeti\u00e7\u00e3o do ciclo, tamb\u00e9m, a cada dez anos. Sabendo disso, o\u00a0<strong>plano de gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos<\/strong>\u00a0previa o racionamento de \u00e1gua para esse per\u00edodo, mas mesmo assim o Estado ofereceu\u00a0<strong>\u00e1gua para irriga\u00e7\u00e3o<\/strong>. Isso deveria ter parado no terceiro ano de seca. O problema \u00e9 que se ficar oferecendo \u00e1gua para irriga\u00e7\u00e3o, o n\u00edvel dos reservat\u00f3rios vai cair, e isso acontece em um per\u00edodo em que ocorre a maior seca em cem anos. Soa estranho que isso ocorra justamente quando o\u00a0<strong>Nordeste<\/strong>\u00a0bate recorde hist\u00f3rico na\u00a0produ\u00e7\u00e3o de frutas.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o costuma ser relativizado. Se\u00a0<strong>60% da \u00e1gua vai para irriga\u00e7\u00e3o<\/strong>, sendo que eles deveriam ter parado a distribui\u00e7\u00e3o no terceiro ano de seca, beneficiando empresas de fora, s\u00f3 pode haver duas situa\u00e7\u00f5es: primeira, na verdade, tem \u00e1gua; segunda, n\u00e3o tem gest\u00e3o. Se o\u00a0<strong>Cear\u00e1<\/strong>\u00a0tivesse aplicado a sua lei, parado com a irriga\u00e7\u00e3o na \u00e9poca certa e feito uma gest\u00e3o adequada, esse problema de abastecimento n\u00e3o estaria acontecendo. Apesar de todo esse descontrole, ainda assim, h\u00e1 \u00e1gua. Ent\u00e3o, o que h\u00e1 s\u00e3o os problemas de infraestrutura e aloca\u00e7\u00e3o de \u00e1gua com sistemas mal projetados e com capta\u00e7\u00e3o em pontos inadequados.<\/p>\n<p><strong>Infraestrutura<\/strong><\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\">Al\u00e9m da quest\u00e3o da\u00a0<strong>gest\u00e3o<\/strong>, \u00e9 preciso\u00a0<strong>infraestrutura de distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua<\/strong>. A \u00e1gua tamb\u00e9m tem que ser fonte de energia e tudo precisa estar de forma integrada. No\u00a0Nordeste, antigamente, n\u00f3s t\u00ednhamos sistema de energia el\u00e9trica desintegrado, ou seja, cada cidadezinha tinha seu sistema. Quando chegou a energia, de\u00a0<strong>Paulo Afonso<\/strong>, do<strong>\u00a0Rio S\u00e3o Francisco<\/strong>, tudo passou a fazer parte de um grande sistema e a realidade da energia mudou. Como tudo mudou, depois vieram as estradas, toda essa quest\u00e3o de\u00a0<strong>infraestrutura no Nordeste<\/strong>\u00a0se deu em fun\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, de forma integrada.<\/div>\n<p>Mas\u00a0<strong>\u00e1gua<\/strong>\u00a0n\u00e3o tem uma\u00a0<strong>gest\u00e3o integrada<\/strong>\u00a0no\u00a0<strong>Nordeste<\/strong>, ao contr\u00e1rio, possui sistemas concentrados, isolados, em que as cidades v\u00e3o sendo abastecidas por seus pr\u00f3prios reservat\u00f3rios. O\u00a0<strong>Cear\u00e1<\/strong>\u00a0tem um \u00fanico grande reservat\u00f3rio de \u00e1gua e que \u00e9 posto a servi\u00e7o do\u00a0<strong>agroneg\u00f3cio<\/strong>\u00a0enquanto as pequenas e m\u00e9dias cidades s\u00e3o abastecidas por reservat\u00f3rios menores. S\u00e3o v\u00e1rios sistemas fr\u00e1geis que cercam a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso conectar isso tudo em um grande sistema integrado de abastecimento, como \u00e9 o de energia. Se j\u00e1 tiv\u00e9ssemos esse sistema integrado funcionando, nenhuma das cidades estaria com problemas no abastecimento de \u00e1gua. Esse \u00e9 um grande projeto, o projeto de integra\u00e7\u00e3o. Mas integra\u00e7\u00e3o interna, n\u00e3o \u00e9 trazer \u00e1gua do\u00a0<strong>Rio S\u00e3o Francisco<\/strong>. \u00c9<strong>integrar as reservas de \u00e1gua<\/strong>\u00a0que j\u00e1 t\u00eam, juntas, as reservas subterr\u00e2neas e todas as outras fontes. \u00c9 preciso consertar os erros desse projeto e fazer essa integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013Durante muito tempo se vendeu a ideia de que a\u00a0transposi\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco\u00a0resolveria o problema da estiagem no Nordeste. Mas parece que n\u00e3o resolveu. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es J\u00fanior \u2013<\/strong>\u00a0N\u00e3o resolveu dessa forma [integrada]. Essa \u00e9 uma regi\u00e3o muito grande, esse cora\u00e7\u00e3o da seca tem mais de 300 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados. E esse \u00e9 justamente o problema: \u00e9 uma regi\u00e3o muito grande e n\u00e3o se resolve o problema como um todo. Voc\u00ea tem o estado da\u00a0<strong>Para\u00edba<\/strong>\u00a0com 92% de \u00e1gua em um s\u00f3 local, e toda a regi\u00e3o \u00e9 um percentual muito grande concentrado. \u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o pontual, mas n\u00e3o existem solu\u00e7\u00f5es pontuais que v\u00e3o resolver esse problema. Essa \u00e9 uma primeira quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois, n\u00e3o h\u00e1\u00a0<strong>\u00e1gua<\/strong>\u00a0para todo mundo. Isso j\u00e1 est\u00e1 provado. H\u00e1 um problema de\u00a0d\u00e9ficit de \u00e1gua no S\u00e3o Francisco. Precisamos de um projeto regional, mas a maneira como pensaram a transposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de abrang\u00eancia regional, e sim de apenas 5% da \u00e1rea. Na pr\u00e1tica o que se pretendia fazer era bombear a<strong>\u00a0\u00e1gua do S\u00e3o Francisco<\/strong>\u00a0para os maiores reservat\u00f3rios de \u00e1gua. Contudo, se houvesse uma gest\u00e3o eficiente no\u00a0<strong>Cear\u00e1<\/strong>\u00a0seria muito mais pr\u00e1tico do que essa pouca \u00e1gua que vai chegar at\u00e9 l\u00e1. Al\u00e9m disso tem o custo elevad\u00edssimo dessa \u00e1gua, sem contar a pertin\u00eancia de cr\u00edticas que foram feitas na \u00e9poca da execu\u00e7\u00e3o da obra e que, agora comprovadas, mostram a\u00a0<strong>inviabilidade do projeto<\/strong>. Temos a experi\u00eancia do que est\u00e1 acontecendo agora e que j\u00e1 antecipamos, mas que s\u00f3 n\u00e3o via quem n\u00e3o estava querendo. A diferen\u00e7a do\u00a0<strong>eixo leste<\/strong>, por exemplo, comprova as cr\u00edticas e as teses que apresentamos na \u00e9poca da discuss\u00e3o do\u00a0<strong>projeto de transposi\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais os desafios da popula\u00e7\u00e3o nordestina para viver sob essas condi\u00e7\u00f5es de extrema falta de \u00e1gua?<\/strong><\/p>\n<div class=\"news-citacao\"><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es J\u00fanior \u2013<\/strong>\u00a0Temos que trabalhar essa quest\u00e3o com enfoque nas cidades. A imagem que se tem do\u00a0semi\u00e1rido do Nordeste\u00a0\u00e9 de luta com o meio, com o lugar, de estar l\u00e1 abandonado, entregue \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Hoje, acho que esse sujeito, que j\u00e1 foi o retrato da regi\u00e3o, representa a minoria da\u00a0<strong>realidade nordestina<\/strong>. A maioria da popula\u00e7\u00e3o, mais de 80%, encontra-se nas cidades. Das atividades da agricultura e do peso que tinha na economia local, a renda agora vem tamb\u00e9m das atividades nas cidades. Por isso \u00e9 preciso um projeto urbano para a regi\u00e3o, para que se possa desenvolver a ind\u00fastria. E \u00e9 preciso pensar isso descolado da \u00e1gua, n\u00e3o podemos s\u00f3 pensar no<strong>desenvolvimento do Nordeste<\/strong>\u00a0\u00e0 base da \u00e1gua.<\/div>\n<p>\u00c1gua tem que se ser pensada com a quest\u00e3o da\u00a0<strong>sustentabilidade<\/strong>. Para as cidades, por exemplo, \u00e9 necess\u00e1rio pensar a quest\u00e3o do\u00a0saneamento b\u00e1sico. H\u00e1 uma constata\u00e7\u00e3o de que tem \u00e1gua para abastecer toda a popula\u00e7\u00e3o do Nordeste por igual, mas \u00e9 preciso um programa de gest\u00e3o que desenvolva sistemas de infraestrutura e distribui\u00e7\u00e3o adequados. A prioridade \u00e9 quest\u00e3o urbana de \u00e1gua, de saneamento, pensar em resolver esse problema de forma que n\u00e3o seja contaminado pelo\u00a0<strong>lobby da constru\u00e7\u00e3o civil<\/strong>, como foi o eixo da\u00a0<strong>transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco<\/strong>. A \u00e1gua n\u00e3o pode parar s\u00f3 numa \u00e1rea.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Cear\u00e1<\/strong>\u00a0est\u00e1 desenvolvendo o sistema das \u00e1guas, a\u00a0<strong>Para\u00edba<\/strong>\u00a0est\u00e1 fazendo um projeto de levar a \u00e1gua da transposi\u00e7\u00e3o para o litoral. Aqui no\u00a0<strong>Rio Grande do Norte<\/strong>\u00a0h\u00e1 um grande<strong>\u00a0projeto de irriga\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0que est\u00e1 parado. Tem ainda um novo eixo de\u00a0<strong>transposi\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco<\/strong>\u00a0de mais de R$ 1 bilh\u00e3o. A Para\u00edba est\u00e1 tamb\u00e9m fazendo um canal para levar as \u00e1guas para outras regi\u00f5es etc. \u00c9 uma quest\u00e3o de \u201cobrismo\u201d em que, apesar de todos esses problemas de den\u00fancias que estamos vendo no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0com rela\u00e7\u00e3o a grandes obras de empreiteiras, vemos que a<strong>\u00a0ind\u00fastria da seca no Nordeste<\/strong>\u00a0continua a todo vapor. A gente discute absurdos enquanto se est\u00e1 atravessando a\u00a0<strong>maior seca da hist\u00f3ria<\/strong>\u00a0e em nenhum momento h\u00e1 uma discuss\u00e3o aprofundada desse\u00a0assunto aqui na regi\u00e3o. N\u00e3o vemos nenhuma universidade discutindo essa quest\u00e3o aqui, vemos que essa quest\u00e3o da ind\u00fastria da seca est\u00e1 entranhada na sociedade nordestina.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Os progn\u00f3sticos clim\u00e1ticos s\u00e3o esperan\u00e7osos ou catastr\u00f3ficos?<\/strong><\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\"><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es J\u00fanior \u2013<\/strong>\u00a0Os progn\u00f3sticos clim\u00e1ticos devem caminhar para uma quase normalidade. O problema \u00e9 de\u00a0<strong>gest\u00e3o dos recursos<\/strong>. Para mudarmos o quadro atual relacionado a armazenamento, precisamos muito mais do que temos feito, porque quando chove acima da m\u00e9dia os reservat\u00f3rios enchem, quando chove abaixo da m\u00e9dia os reservat\u00f3rios secam e quando chove na m\u00e9dia o armazenamento fica muito t\u00eanue. Trocando em mi\u00fados, em condi\u00e7\u00f5es normais de armazenamento podemos chegar ao estado atual. Ou seja, normalidade n\u00e3o muda o quadro da\u00a0<strong>seca<\/strong>, n\u00e3o temos condi\u00e7\u00f5es adequadas de\u00a0<strong>armazenamento de \u00e1gua<\/strong>\u00a0suficiente. Precisar\u00edamos bem mais do que isso.<\/div>\n<p>Neste ano tivemos uma precipita\u00e7\u00e3o que ficou na m\u00e9dia, o que n\u00e3o gera grandes condi\u00e7\u00f5es de armazenamento. No m\u00eas de fevereiro, tivemos chuvas normais e deve come\u00e7ar uma intensifica\u00e7\u00e3o daqui para frente. Para se ter uma ideia, a nossa barragem [no\u00a0<strong>Rio Grande do Norte<\/strong>], a\u00a0<strong>Armando Ribeiro Gon\u00e7alves<\/strong>, que tem 260 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos de capacidade, recebeu, no ano passado, pouca \u00e1gua, cerca de 120 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos nos meses de fevereiro e mar\u00e7o. Na primeira metade de fevereiro de 2017 a barragem recebeu 60 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos de \u00e1gua e, em 2018, at\u00e9 agora foram somente 3 milh\u00f5es. Apenas comparando esses dados j\u00e1 temos ideia da\u00a0seca\u00a0pela qual estamos passando. Podemos at\u00e9 dizer que choveu dentro da normalidade, mas para armazenamento de \u00e1gua podemos dizer que n\u00e3o choveu praticamente nada.<\/p>\n<p>Fontes &#8211; IHU \/ EcoDebate de\u00a020 de fevereiro de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ind\u00fastria da seca aflige a popula\u00e7\u00e3o nordestina e irriga os bolsos dos empreiteiros. Entrevista especial com Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es J\u00fanior Pelo s\u00e9timo ano consecutivo a\u00a0estiagem no Nordeste\u00a0d\u00e1 as caras. Apesar de o\u00a0per\u00edodo de chuvas\u00a0ter iniciado regionalmente na \u00faltima semana, durante o carnaval, os volumes de precipita\u00e7\u00e3o ainda s\u00e3o insuficientes. 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