{"id":23238,"date":"2018-04-01T17:00:40","date_gmt":"2018-04-01T20:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=23238"},"modified":"2018-03-13T10:56:47","modified_gmt":"2018-03-13T13:56:47","slug":"a-caatinga-ainda-espera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-caatinga-ainda-espera\/","title":{"rendered":"A caatinga ainda espera"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.dw.com\/image\/42751656_303.jpg\" alt=\"Boqueir\u00e3o da On\u00e7a: faixa mais longa da caatinga ainda preservada\" \/><em>Boqueir\u00e3o da On\u00e7a: faixa mais longa da caatinga ainda preservada<\/em><\/p>\n<p><strong>O mapa do Boqueir\u00e3o da On\u00e7a foi por muito tempo um vazio: o pa\u00eds ignorava detalhes da maior faixa do \u00fanico bioma exclusivamente brasileiro. Aos poucos, a ci\u00eancia a descobre, mas projeto de preserva\u00e7\u00e3o segue engavetado.<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo do trajeto que leva at\u00e9 a maior \u00e1rea de caatinga selvagem do pa\u00eds, no norte da Bahia, \u00e9 dif\u00edcil cruzar com outros ve\u00edculos na estrada. A mais de 100 km de Juazeiro, cidade mais pr\u00f3xima, a regi\u00e3o tem pequenos povoados \u00e0 margem das estradas de terra, casas abandonadas por antigos moradores que fugiram da seca, bodes soltos que circulam pela via.<\/p>\n<p>As horas de viagem levam ao Boqueir\u00e3o da On\u00e7a, regi\u00e3o formada por serras e vales estreitos cobertos pela vegeta\u00e7\u00e3o que s\u00f3 existe no Brasil, a caatinga. Faz dez anos que o decreto que cria uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o no local, do tamanho aproximado de 800 mil campos de futebol, est\u00e1 engavetado.<\/p>\n<p>&#8220;Essa extensa caatinga preservada s\u00f3 existe aqui. Aqui vivem on\u00e7as pintada e parda, e a pintada \u00e9 uma esp\u00e9cie extremamente amea\u00e7ada nesse bioma&#8221;, diz Rog\u00e9rio Cunha de Paula, do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMbio), \u00f3rg\u00e3o do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente.<\/p>\n<p>Ele fez parte das primeiras expedi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas \u00e0 regi\u00e3o para investigar a biodiversidade local. Nesse atual retorno, pouco mais de dez anos depois da primeira visita, Cunha notou diferen\u00e7as na paisagem: centenas de torres e\u00f3licas fincadas no meio da caatinga.<\/p>\n<p>&#8220;Isso trouxe um novo cap\u00edtulo de como a gente pode explorar essa matriz energ\u00e9tica a partir dos ventos, de forma a ter um impacto controlado na biodiversidade num ambiente t\u00e3o sens\u00edvel como a caatinga&#8221;, comenta.<\/p>\n<p><strong>Conserva\u00e7\u00e3o e interesses<\/strong><\/p>\n<p>A proposta de cria\u00e7\u00e3o de uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o no Boqueir\u00e3o da On\u00e7a circula em Bras\u00edlia h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. A aprova\u00e7\u00e3o depende agora da an\u00e1lise da Casa Civil. Na \u00faltima confer\u00eancia do clima, na Alemanha, o ministro Sarney Filho falava da reserva como se j\u00e1 tivesse sido aprovada.<\/p>\n<p>Segundo o Minist\u00e9rio de Meio Ambiente, a proposta atual \u00e9 um mosaico, uma esp\u00e9cie de quebra-cabe\u00e7a formado por um parque nacional \u2013 com regras mais r\u00edgidas de preserva\u00e7\u00e3o \u2013 e uma \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o ambiental (APA).<\/p>\n<p>O governo estadual da Bahia estima que a maior parte, quase 60% da \u00e1rea, se transformaria numa APA. O mosaico de conserva\u00e7\u00e3o abrangeria os munic\u00edpios de Sento S\u00e9, Campo Formoso, Sobradinho, Juazeiro, Morro do Chap\u00e9u e Umburanas.<\/p>\n<p>&#8220;Apoiamos um mosaico que concilie preserva\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o de energia renov\u00e1vel, ecoturismo e as necessidades dos povos e comunidades tradicionais&#8221;, afirma Geraldo Reis, secret\u00e1rio estadual do Meio Ambiente.<\/p>\n<p>As empresas de energia e\u00f3lica, segundo Reis, participaram ativamente do debate de cria\u00e7\u00e3o da unidade. &#8220;Estavam muito preocupadas com a possibilidade de inviabilizar seus investimentos&#8221;, argumenta o secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>A estimativa do governo da Bahia \u00e9 que as torres e\u00f3licas ocupem cerca de 10% da \u00e1rea do Boqueir\u00e3o do On\u00e7a. &#8220;Certamente tais empresas fazem a compensa\u00e7\u00e3o definida nos processos de licenciamento, que poder\u00e3o ser direcionadas para otimizar a preserva\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o, considerando o baixo \u00edndice de ocupa\u00e7\u00e3o espacial da atividade&#8221;, adiciona Reis.<\/p>\n<p><strong>Novo no mapa<\/strong><\/p>\n<p>Para a ci\u00eancia nacional, o mapa do Boqueir\u00e3o da On\u00e7a foi por muito tempo um vazio: o pa\u00eds ignorava detalhes do bioma, da fauna e da flora, da hist\u00f3ria de ocupa\u00e7\u00e3o humana na faixa mais extensa de caatinga preservada que restou.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.dw.com\/image\/42751668_404.jpg\" alt=\"Brasilien Boqueirao da On\u00e7a in Bahia - Jaguar (CENAP\/ICMBio)\" width=\"815\" height=\"458\" \/><em>Estima-se que a regi\u00e3o ainda tenha cerca de 30 on\u00e7as pintadas: esp\u00e9cie est\u00e1 amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o na caatinga<\/em><\/p>\n<p>Neto, de 45 anos, j\u00e1 conhecia boa parte da regi\u00e3o como a palma da m\u00e3o. Morador do povoado Queixo D&#8217;Antas, que tem cerca de 80 fam\u00edlias, ele passava seis meses acampado no mato com o pai, que era garimpeiro, e desbravava a caatinga em busca de min\u00e9rios.<\/p>\n<p>&#8220;O meu neg\u00f3cio era destruir. Hoje eu j\u00e1 penso em preservar. Se eu visse uma ca\u00e7a, o meu neg\u00f3cio era matar: uma, duas, dez. Era pra comer&#8221;, afirma Mariano Neto Ferreira de Jesus.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a veio depois de um novo conv\u00edvio. Neto virou uma esp\u00e9cie de guia e foi um dos que mostraram o territ\u00f3rio aos pesquisadores: a arte rupestre nos pared\u00f5es de pedra que conhecia desde a inf\u00e2ncia, vest\u00edgios de on\u00e7a pintada.<\/p>\n<p>De ca\u00e7ador, passou a parceiro do Programa Amigos da On\u00e7a, do Instituto Pr\u00f3-Carn\u00edvoros, que atua na regi\u00e3o desde 2012. &#8220;O objetivo \u00e9 conservar on\u00e7as parda e pintada, estudar a ecologia, trabalhar em parceria com moradores e reduzir os conflitos entre homens e on\u00e7as na caatinga&#8221;, resume Cl\u00e1udia Bueno de Campo, bi\u00f3loga que coordena o programa.<\/p>\n<p><strong>O que vem com as on\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p>Segundo os pesquisadores, a cria\u00e7\u00e3o de uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o no local \u00e9 uma estrat\u00e9gia para beneficiar muitas esp\u00e9cies do semi\u00e1rido.<\/p>\n<p>&#8220;Existe uma classifica\u00e7\u00e3o para algumas esp\u00e9cies que s\u00e3o chamadas guarda-chuva. Se for feito esfor\u00e7o importante, consegue-se conservar tudo o que est\u00e1 abaixo dela. N\u00e3o s\u00f3 os animais: o bioma, os pontos de \u00e1gua que s\u00e3o importantes para caatinga, para seres humanos. \u00c9 um conjunto que vem com a preserva\u00e7\u00e3o da on\u00e7a&#8221;, afirma Campos.<\/p>\n<p>Estima-se que 30 on\u00e7as pintadas ainda circulem pela regi\u00e3o. As pardas est\u00e3o em maior n\u00famero, s\u00e3o cerca de 200. Algumas j\u00e1 foram avistadas por Neto, que ainda passa dias acampado na caatinga \u2013 mas, desta vez, para ajudar no avan\u00e7o da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Se sa\u00edsse hoje, era melhor&#8221;, responde Neto quando indagado sobre a cria\u00e7\u00e3o da unidade de conserva\u00e7\u00e3o do Boqueir\u00e3o da On\u00e7a. &#8220;Pra ver se o pessoal parava de desmatar, se tem como evitar um monte de estrada que est\u00e1 tendo a\u00ed. Pelo o que eu estou vendo, daqui a tr\u00eas, ou quatro anos, as on\u00e7as que a gente est\u00e1 vendo nas fotos um neto meu n\u00e3o vai ver, \u00a0algu\u00e9m que vier de fora n\u00e3o vai conhecer. N\u00e3o vai sobrar nem as pegadas&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p><strong>A caatinga selvagem no semi\u00e1rido baiano<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.dw.com\/image\/42751761_303.jpg\" alt=\"Brasilien Boqueir\u00e3o da On\u00e7a in Bahia (DW\/N. Pontes)\" \/><\/p>\n<p>S\u00f3 existe no Brasil &#8211; Maior \u00e1rea de caatinga selvagem do pa\u00eds, a regi\u00e3o do Boqueir\u00e3o do On\u00e7a tem o tamanho de cerca de 800 mil campos de futebol. A topografia e tipo de solo permitem que a \u00e1gua, escassa no semi\u00e1rido, se acumule em alguns pontos e garanta o abastecimento por mais tempo. Quando chove, a caatinga, \u201cmata branca\u201d, fica tomada pelo verde.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.dw.com\/image\/42751751_303.jpg\" alt=\"Brasilien Boqueir\u00e3o da On\u00e7a in Bahia (DW\/N. Pontes)\" \/><\/p>\n<p>Arte rupestre &#8211;\u00a0Nos pared\u00f5es de rocha pr\u00f3ximos \u00e0 comunidade Queixo D\u2019Antas, inscri\u00e7\u00f5es deixadas por antigos moradores ainda precisam ser desvendadas pela ci\u00eancia. O acesso at\u00e9 o s\u00edtio arqueol\u00f3gico \u00e9 livre, mas \u00e9 dif\u00edcil chegar sem um guia local. Estima-se que as inscri\u00e7\u00f5es tenham sido feitas h\u00e1 10 mil anos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.dw.com\/image\/42751741_303.jpg\" alt=\"Brasilien Boqueir\u00e3o da On\u00e7a in Bahia (Programa Amigos da On\u00e7a)\" \/><\/p>\n<p>On\u00e7a em perigo &#8211;\u00a0No \u00faltimo ano, a bi\u00f3loga Cl\u00e1udia Bueno de Campo, coordenadora do Programa Amigos da On\u00e7a, recolheu seis on\u00e7as mortas na regi\u00e3o: duas pintadas e quatro pardas. Elas foram abatidas por armas de fogo usadas por moradores locais, onde a cultura da ca\u00e7a ainda \u00e9 forte. Atua\u00e7\u00e3o do Instituto Pr\u00f3-Carn\u00edvoros na regi\u00e3o tenta diminuir os conflitos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.dw.com\/image\/42751733_303.jpg\" alt=\"Brasilien Boqueir\u00e3o da On\u00e7a in Bahia (DW\/N. Pontes)\" \/><\/p>\n<p>Vida selvagem &#8211;\u00a0Uma cobra caninana cruza a estrada na \u00e1rea que pode virar uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o. A esp\u00e9cie n\u00e3o \u00e9 venenosa, mas os moradores contam que a picada \u00e9 muito dolorida. Nessa faixa de caatinga selvagem vivem ainda veados, raposas, araras vermelhas e azuis, tatu-bola, tamandu\u00e1 bandeira, entre outros.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.dw.com\/image\/42751723_303.jpg\" alt=\"Brasilien Boqueir\u00e3o da On\u00e7a in Bahia (DW\/N. Pontes)\" \/><\/p>\n<p>Vida de sertanejo &#8211;\u00a0Nas proximidades da unidade de conserva\u00e7\u00e3o proposta, seu Cl\u00e1udio e dona Nininha plantam abacaxi, feij\u00e3o, milho e mandioca na comunidade Cercadinho. Eles fabricam farinha, tiram \u00f3leo do licuri &#8211; um tipo de palmeira -, vivem sem energia el\u00e9trica e precisam trazer toda a \u00e1gua que usam do povoado mais pr\u00f3ximo, Gameleira, que fica a 3 horas de jegue.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.dw.com\/image\/42751783_303.jpg\" alt=\"Brasilien Boqueir\u00e3o da On\u00e7a in Bahia (DW\/N. Pontes)\" \/><\/p>\n<p>Livre, mas identificados &#8211;\u00a0Nas estradas de terra que circundam o Boqueir\u00e3o da On\u00e7a, \u00e9 normal cruzar com cabras e bodes soltos. A cria\u00e7\u00e3o de caprinos \u00e9 a mais comum entre as fam\u00edlias que vivem no semi\u00e1rido do Nordeste, marcado por longos per\u00edodos de estiagem. Cada animal recebe uma pequena marca na orelha para que sejam reconhecidos pelos propriet\u00e1rios.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.dw.com\/image\/42751773_303.jpg\" alt=\"Brasilien Boqueir\u00e3o da On\u00e7a in Bahia (DW\/N. Pontes)\" \/><\/p>\n<p>Hist\u00f3ria de seca e abandono &#8211;\u00a0Entre os povoados rurais dessa regi\u00e3o no norte da Bahia, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil avistar casas abandonadas. A seca extrema dos \u00faltimos anos no semi\u00e1rido fez com que a\u00e7udes e po\u00e7os secassem. A falta de \u00e1gua levou funcion\u00e1rios de uma antiga fazenda que cultivava frutas no local a deixarem as terras (foto), a cerca de 100 km de Juazeiro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.dw.com\/image\/42751715_303.jpg\" alt=\"Brasilien Boqueir\u00e3o da On\u00e7a in Bahia (DW\/N. Pontes)\" \/><\/p>\n<p>Agricultura irrigada &#8211;\u00a0A colheita de tomate mobiliza toda a fam\u00edlia nessa pequena propriedade rural, no munic\u00edpio de Campo Formoso, Bahia, na regi\u00e3o do Boqueir\u00e3o da On\u00e7a. Faz quatro meses que o produtor conseguiu furar um po\u00e7o para manter a planta\u00e7\u00e3o irrigada. \u201cSem irriga\u00e7\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil. As chuvas n\u00e3o s\u00e3o mais como antes\u201d, disse o produtor.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.dw.com\/image\/42751705_303.jpg\" alt=\"Brasilien Boqueir\u00e3o da On\u00e7a in Bahia (DW\/N. Pontes)\" \/><\/p>\n<p>Energia e\u00f3lica &#8211;\u00a0A regi\u00e3o do Boqueir\u00e3o da On\u00e7a foi recentemente descoberta pela ind\u00fastria de energia e\u00f3lica. O potencial dos ventos que sopram no alto das serras atraiu diversas empresas internacionais. Segundo o governo do estado da Bahia, as negocia\u00e7\u00f5es para cria\u00e7\u00e3o de uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o tentam conciliar todos esses interesses.<\/p>\n<p class=\"author\">Fonte &#8211; N\u00e1dia Pontes, DW de 01 de mar\u00e7o de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boqueir\u00e3o da On\u00e7a: faixa mais longa da caatinga ainda preservada O mapa do Boqueir\u00e3o da On\u00e7a foi por muito tempo um vazio: o pa\u00eds ignorava detalhes da maior faixa do \u00fanico bioma exclusivamente brasileiro. Aos poucos, a ci\u00eancia a descobre, mas projeto de preserva\u00e7\u00e3o segue engavetado. 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