{"id":23307,"date":"2018-03-13T11:00:40","date_gmt":"2018-03-13T14:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=23307"},"modified":"2018-03-12T09:08:49","modified_gmt":"2018-03-12T12:08:49","slug":"fim-da-megafauna-reduziu-a-distancia-de-dispersao-de-sementes-grandes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/fim-da-megafauna-reduziu-a-distancia-de-dispersao-de-sementes-grandes\/","title":{"rendered":"Fim da megafauna reduziu a dist\u00e2ncia de dispers\u00e3o de sementes grandes"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/agencia.fapesp.br\/agencia-novo\/imagens\/noticia\/27284.jpg\" alt=\"Resultado de imagem\" width=\"703\" height=\"266\" \/><em>Pesquisa alerta para poss\u00edvel preju\u00edzo \u00e0 regenera\u00e7\u00e3o de florestas e ao equil\u00edbrio de esp\u00e9cies vegetais diante da amea\u00e7a de extin\u00e7\u00e3o dos grandes mam\u00edferos atuais (dist\u00e2ncias m\u00e9dia de dispers\u00e3o de sementes, megat\u00e9rio e pequi \/ imagens: Ecography, Wikipedia e Embrapa)<\/em><\/p>\n<p>Mastodontes, pregui\u00e7as-gigantes e tatus do tamanho de fuscas. A extin\u00e7\u00e3o da megafauna da mais recente era do gelo foi uma trag\u00e9dia biol\u00f3gica que repercute na ecologia da Am\u00e9rica do Sul mais de 10 mil anos depois.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de mam\u00edferos gigantes nos ecossistemas do continente se faz sentir na din\u00e2mica de dispers\u00e3o das maiores sementes, como, por exemplo, do pequi. Poucos dos frug\u00edvoros viventes consegue engolir uma semente desse tamanho e transport\u00e1-la em seu trato digestivo para dispers\u00e1-la no meio ambiente. Pregui\u00e7as-gigantes e gonfot\u00e9rios (parentes dos elefantes) faziam isso.<\/p>\n<p>N\u00e3o foram somente as maiores sementes que perderam o seu meio de transporte. A extin\u00e7\u00e3o da megafauna tamb\u00e9m reduziu o raio de dispers\u00e3o de sementes quando comparado \u00e0 dispers\u00e3o feita pelos maiores mam\u00edferos viventes, como a anta.<\/p>\n<p>Um novo estudo calculou a dist\u00e2ncia que pregui\u00e7as-gigantes (megat\u00e9rios) ou mastodontes (gonfot\u00e9rios) percorriam transportando sementes em seu trato digest\u00f3rio antes de defec\u00e1-las no meio ambiente. \u201cConseguimos dar n\u00fameros aos argumentos verbais sobre a import\u00e2ncia desses grandes animais\u201d, disse o bi\u00f3logo\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/71857\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mathias Mistretta Pires<\/a><\/b>, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), primeiro autor de um estudo que quantifica as dist\u00e2ncias de dispers\u00e3o de sementes pela megafauna.<\/p>\n<p>O estudo foi feito em coautoria com os professores\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/965\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mauro Galetti<\/a><\/b>, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro, e\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/32360\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Paulo Roberto Guimar\u00e3es<\/a><\/b>, do Instituto de Bioci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo (IB-USP). Publicado na revista\u00a0<b><a href=\"http:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/ecog.03163\/full\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><i>Ecography<\/i><\/a><\/b>, o trabalho foi realizado no \u00e2mbito do Projeto Tem\u00e1tico\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/88130\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cConsequ\u00eancias ecol\u00f3gicas da defauna\u00e7\u00e3o na Mata Atl\u00e2ntica\u201d<\/a><\/b>, coordenado por Galetti.<\/p>\n<p>Os maiores frug\u00edvoros viventes do continente sul-americano s\u00e3o as antas (<i>Tapirus<\/i>), os guanacos (<i>Lama guanicoe<\/i>), as alpacas (<i>Vicugna pacos<\/i>), os catetos (<i>Pecari tajacu<\/i>) e o veado-mateiro (<i>Mazama americana<\/i>). Mas mesmo o maior, a anta, com cerca de 200 quilos, \u00e9 cerca de 10 vezes menor do que as pregui\u00e7as-gigantes e cerca de 30 vezes menor do que os gonfot\u00e9rios.<\/p>\n<p>A dist\u00e2ncia de dispers\u00e3o de sementes observada entre os maiores frug\u00edvoros viventes raramente ultrapassa 3,5 mil metros. O novo estudo concluiu que, no passado, a megafauna ia muito al\u00e9m. O raio de dispers\u00e3o de sementes das pregui\u00e7as e dos gonfot\u00e9rios podia superar os 6 mil metros.<\/p>\n<p>\u201cNosso objetivo foi criar um modelo que permitisse quantificar o papel desses animais extintos na dispers\u00e3o de sementes. Constru\u00edmos um modelo matem\u00e1tico onde as v\u00e1rias fases do processo de dispers\u00e3o de sementes s\u00e3o simuladas, de modo a gerar previs\u00f5es quantitativas de como seria esse servi\u00e7o de dispers\u00e3o no passado\u201d, explicou Pires.<\/p>\n<p>Para estimar a capacidade de dispers\u00e3o de sementes entre a megafauna, em primeiro lugar foi preciso determinar tr\u00eas conjuntos de dados b\u00e1sicos entre as maiores esp\u00e9cies viventes de dispersores de sementes. Foi necess\u00e1rio saber: o quanto de alimento, em m\u00e9dia, as diversas esp\u00e9cies comem; quanto tempo o alimento fica retido no sistema digest\u00f3rio; e qual a dist\u00e2ncia percorrida pelo animal antes de defecar as sementes.<\/p>\n<p>\u201cEsses tr\u00eas atributos est\u00e3o relacionados ao tamanho do animal. Temos os dados de elefantes, antas, veados-mateiros e catetos ou porcos-do-mato\u201d, disse Pires. A anta pode reter alimento no trato digest\u00f3rio por mais de 30 horas antes de defecar. \u201cNos elefantes, s\u00e3o mais de 40 horas. Em outras esp\u00e9cies, o tempo pode ultrapassar 50 horas, ou mesmo 100 horas.\u201d<\/p>\n<p>O passo seguinte foi extrapolar as estimativas de cada um dos tr\u00eas atributos (quantidade de comida, tempo de reten\u00e7\u00e3o e dist\u00e2ncia percorrida) para algumas esp\u00e9cies da megafauna extinta que habitaram a Am\u00e9rica do Sul durante o per\u00edodo Pleistoceno \u2013 os \u00faltimos 2,5 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>O conjunto de dados utilizado para a extrapola\u00e7\u00e3o se refere aos tamanhos corp\u00f3reos estimados que aqueles bichos tinham. Estima-se, por exemplo, que os gonfot\u00e9rios tinham de 5 a 6 toneladas, dependendo da esp\u00e9cie, e que as maiores pregui\u00e7as tinham entre 3,5 toneladas, no caso do eremot\u00e9rio, e mais de 6 toneladas, no caso do megat\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u201cDeduzimos o volume de alimento que uma pregui\u00e7a terrestre deveria consumir, assim como o tempo que o alimento ficaria em seu intestino e a dist\u00e2ncia percorrida pelo animal\u201d, disse Pires.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas atributos foram igualmente estimados para gonfot\u00e9rios, paleolhamas (lhamas gigantes), grandes quadr\u00fapedes ungulados chamados macrauqu\u00eanias e cerv\u00eddeos. Foram selecionados apenas animais fol\u00edvoros e frug\u00edvoros. Pastadores que se alimentavam principalmente de gram\u00edneas, como os robustos toxodontes, n\u00e3o entraram no estudo.<\/p>\n<p>Como resultado das simula\u00e7\u00f5es, estimou-se entre os gonfot\u00e9rios que eles dispersavam sementes a dist\u00e2ncias entre 500 metros e 3,5 mil metros da planta-m\u00e3e que produziu as sementes. S\u00e3o valores m\u00e9dios. Em 5% das simula\u00e7\u00f5es, o raio de dispers\u00e3o se estendeu, chegando mesmo em alguns casos a ultrapassar 6 mil metros.<\/p>\n<p>J\u00e1 animais do porte das pregui\u00e7as terrestres dispersavam sementes, em m\u00e9dia, entre 300 metros e 2,5 mil metros de dist\u00e2ncia da planta-m\u00e3e. Em alguns casos, contudo, a dist\u00e2ncia se estendeu at\u00e9 os 6 mil metros. Entre as antas, a m\u00e9dia fica entre 200 metros e 1,4 mil metros.<\/p>\n<p>\u201cHoje, segundo nossas simula\u00e7\u00f5es, um cateto [<i>Pecari tajacu<\/i>] carrega o alimento por cerca de 800 metros, em m\u00e9dia. O potencial de dispers\u00e3o de sementes diminuiu muito. As dist\u00e2ncias que hoje s\u00e3o consideradas longas, no passado eram relativamente curtas. Os maiores animais da megafauna n\u00e3o s\u00f3 tinham um tempo de reten\u00e7\u00e3o de alimento 60% maior como dispersavam sementes em dist\u00e2ncias muito maiores. Hoje, \u00e9 mais dif\u00edcil os animais dispersarem sementes a mais de 1 mil metros\u201d, disse Pires.<\/p>\n<p><b>Diversidade gen\u00e9tica<\/b><\/p>\n<p>No estudo, os pesquisadores compararam os valores obtidos pelas simula\u00e7\u00f5es com os dados conhecidos de animais em um ecossistema rico e ainda relativamente preservado, no caso o Pantanal Mato-Grossense. \u201cVerificamos que a capacidade de dispers\u00e3o de sementes caiu a um ter\u00e7o do que era antes\u201d, disse Pires.<\/p>\n<p>A queda na dist\u00e2ncia de dispers\u00e3o de sementes experimentada nos \u00faltimos 10 mil anos tem v\u00e1rias consequ\u00eancias para a forma\u00e7\u00e3o e diversidade de plantas nas matas e para a diversidade gen\u00e9tica das esp\u00e9cies. As maiores dist\u00e2ncias de dispers\u00e3o de sementes da megafauna permitiam que aumentasse a distribui\u00e7\u00e3o espacial das esp\u00e9cies de plantas.<\/p>\n<p>Sem os dispersores, as popula\u00e7\u00f5es de plantas n\u00e3o trocam material gen\u00e9tico e essa separa\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduos da mesma esp\u00e9cie resulta em baixa variabilidade gen\u00e9tica, o que pode diminuir as chances de sobreviv\u00eancia dessas plantas em longo prazo.<\/p>\n<p>A extin\u00e7\u00e3o dos frug\u00edvoros gigantes reduziu as chances de dispers\u00e3o das esp\u00e9cies de plantas com maiores sementes, como o abacateiro. Por consequ\u00eancia, as sementes que caem da planta-m\u00e3e t\u00eam menos chances de germinar e crescer. Se n\u00e3o podem ser engolidas e transportadas intactas, as sementes no solo ficam \u00e0 merc\u00ea de predadores de sementes, como os roedores, que mastigam as sementes, matando o embri\u00e3o. Ao mesmo tempo, sementes que caem ao solo e l\u00e1 permanecem t\u00eam menos chance de germinar e crescer, dado que as plantas jovens competem por luz solar, \u00e1gua e nutrientes do solo com a planta-m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u201cAs plantas que mais perderam com a extin\u00e7\u00e3o da megafauna foram aquelas esp\u00e9cies que outrora eram muito usadas por paleo\u00edndios, mas que hoje n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o usadas\u201d, disse Galetti.<\/p>\n<p>Haveria algum meio para tentar expandir o raio de dispers\u00e3o de sementes nos biomas sul-americanos atuais? \u201cUma proposta seria reintroduzir antas, grandes primatas e outros frug\u00edvoros nas \u00e1reas defaunadas. O problema \u00e9 que a causa da extin\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi resolvida. Muitas \u00e1reas ainda t\u00eam forte press\u00e3o de ca\u00e7a\u201d, disse Galetti.<\/p>\n<p>Segundo ele, se por um lado a perda da megafauna reduziu as possibilidades de dispers\u00e3o de sementes, a introdu\u00e7\u00e3o do fator humano serviu, em alguns casos, de contrapeso.<\/p>\n<p>\u201cA \u2018sorte\u2019 das plantas que eram dispersadas pela megafauna foi que elas tiveram outros dispersores de sementes, como humanos, cutias e a \u00e1gua, no caso do Pantanal. Mas, com a simplifica\u00e7\u00e3o dos ecossistemas, muito mais plantas ficar\u00e3o \u00f3rf\u00e3s\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cSe por um lado perdemos aqueles grandes dispersores, por outro lado, o javaporco, uma esp\u00e9cie invasora, est\u00e1 dispersando alguns desses megafrutos. N\u00e3o sabemos se essa esp\u00e9cie invasora substituir\u00e1 o papel das antas e macacos, mas, pelo menos para alguns frutos, achamos que sim\u201d, disse Galetti.<\/p>\n<p>Segundo Galetti, especialista no estudo da retirada de esp\u00e9cies animais nos ecossistemas modernos, a chamada defauna\u00e7\u00e3o, a Am\u00e9rica do Sul foi o continente que mais perdeu em termos de dispers\u00e3o de sementes com o fim da megafauna.<\/p>\n<p>\u201cA Am\u00e9rica do Norte perdeu v\u00e1rios mam\u00edferos, e tamb\u00e9m possui alguns frutos que eram dispersados pela megafauna, mas n\u00e3o se compara \u00e0 Am\u00e9rica do Sul, porque aqui a diversidade do Cerrado e das florestas tropicais \u00e9 muito alta. O mesmo n\u00e3o se observa na savana africana, onde a diversidade vegetal \u00e9 baixa e a maioria dos frutos de megafauna est\u00e1 nas florestas do Gab\u00e3o. Por outro lado, a extin\u00e7\u00e3o dos elefantes que vivem nas florestas africanas ir\u00e1 acarretar o mesmo padr\u00e3o de perda de dispers\u00e3o de sementes que propusemos em nosso artigo\u201d, disse.<\/p>\n<p>A megafauna era fundamental para a regenera\u00e7\u00e3o da floresta e a manuten\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio entre as v\u00e1rias esp\u00e9cies de plantas. \u201cOs grandes animais que executavam este servi\u00e7o de dispers\u00e3o se perderam. Nosso trabalho \u00e9 o primeiro que permitiu quantificar esta perda\u201d, disse Pires.<\/p>\n<p>\u201cAgora, temos modelos matem\u00e1ticos e programas de computador que permitem a obten\u00e7\u00e3o de estimativas de como era aquele processo de dispers\u00e3o de sementes\u201d, disse Pires.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0<i>Pleistocene megafaunal extinctions and the functional loss of long-distance seed-dispersal services<\/i>\u00a0(doi: 10.1111\/ecog.03163), de Mathias M. Pires, Paulo R. Guimar\u00e3es, Mauro Galetti e Pedro Jordano, est\u00e1 publicado em\u00a0<b><a href=\"http:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/ecog.03163\/full\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/ecog.03163\/full<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Peter Moon, Ag\u00eancia FAPESP de 08 de mar\u00e7o de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa alerta para poss\u00edvel preju\u00edzo \u00e0 regenera\u00e7\u00e3o de florestas e ao equil\u00edbrio de esp\u00e9cies vegetais diante da amea\u00e7a de extin\u00e7\u00e3o dos grandes mam\u00edferos atuais (dist\u00e2ncias m\u00e9dia de dispers\u00e3o de sementes, megat\u00e9rio e pequi \/ imagens: Ecography, Wikipedia e Embrapa) Mastodontes, pregui\u00e7as-gigantes e tatus do tamanho de fuscas. 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