{"id":23584,"date":"2018-04-19T17:00:14","date_gmt":"2018-04-19T20:00:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=23584"},"modified":"2018-04-03T15:37:58","modified_gmt":"2018-04-03T18:37:58","slug":"a-ciencia-da-inquisicao-no-seculo-21-o-caso-da-africa-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-ciencia-da-inquisicao-no-seculo-21-o-caso-da-africa-do-sul\/","title":{"rendered":"A ci\u00eancia da inquisi\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo 21: o caso da \u00c1frica do Sul"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Noakes-correria.jpg\" width=\"790\" height=\"538\" \/><em>Foto 1: Tim Noakes\/Facebook<\/em><\/p>\n<p><strong>Persegui\u00e7\u00e3o ao cientista Tim Noakes \u00e9 exemplo do poder de orquestra\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar e da subservi\u00eancia das organiza\u00e7\u00f5es que a cercam por dinheiro<\/strong><em> \u00a0<\/em><\/p>\n<p>Quatrocentas e oitenta e oito p\u00e1ginas para exorcizar 140 caracteres. O africano Timothy David Noakes, cientista em fisiologia do esporte, precisou escrever o livro<em>\u00a0Lore of Nutrition<\/em>\u00a0(Ci\u00eancia da Nutri\u00e7\u00e3o, ainda sem tradu\u00e7\u00e3o no Brasil) para fechar as portas do inferno abertas com a seguinte tuitada: \u201cO beb\u00ea n\u00e3o precisa comer l\u00e1cteos (industrializados) e couve-flor. Apenas leite materno e manter a dieta de baixo carboidrato\u201d. Essas palavras eram apenas uma resposta a Pippa Styling, uma jovem m\u00e3e sul-africana com d\u00favidas sobre a dieta do filho, que come\u00e7ava a ingerir novos alimentos. Ela marcou Noakes na rede social. E o pesquisador, gentilmente, como era de praxe, respondeu. Eram 16h32 do dia 5 de fevereiro de 2014 e come\u00e7ava a persegui\u00e7\u00e3o ao homem nascido no Zimb\u00e1bue.<\/p>\n<p>Hoje com 68 anos de idade, o estudioso enfrentou 3 anos de inquisi\u00e7\u00e3o em plena segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 21. Uma a\u00e7\u00e3o obscura realizada por inimigos de peso. Muitos atores \u2013 de nutricionistas a cientistas defensores de interesses prioritariamente econ\u00f4micos\u00a0\u2013 interpretaram os pap\u00e9is de inquisidores. Todos dirigidos por uma m\u00e3o forte no cen\u00e1rio da ci\u00eancia da nutri\u00e7\u00e3o na \u00c1frica: a ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>A linha de pesquisa de Noakes, que aponta s\u00e9rios problemas de sa\u00fade como consequ\u00eancias do consumo de alimentos cheios de a\u00e7\u00facares e ingredientes n\u00e3o saud\u00e1veis, foi o limite para que as trevas viessem \u00e0 tona. At\u00e9 a University of Cape Town (Universidade da Cidade do Cabo), na \u00c1frica do Sul, onde trabalhava, se voltou contra ele. Colegas de academia passaram a olh\u00e1-lo como advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>O establishment m\u00e9dico cient\u00edfico acumulava ressentimentos, j\u00e1 que o fisiologista havia demolido dogmas em temas que interessavam a pesquisadores financiados pela ind\u00fastria. Objetos de estudo como hidrata\u00e7\u00e3o, algo que<em><strong>\u00a0O joio e o trigo<\/strong><\/em>\u00a0contou\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2018\/02\/o-gatorade-nao-e-um-oasis\/\">aqui,<\/a>\u00a0motiva\u00e7\u00e3o e fadiga nas competi\u00e7\u00f5es esportivas profissionais e amadoras tiveram os par\u00e2metros revistos no continente.<\/p>\n<p>Um inc\u00f4modo a quem quer manter lucros exorbitantes em preju\u00edzo da sa\u00fade, no pa\u00eds que \u00e9 o s\u00e9timo maior consumidor de refrigerantes do planeta e que tem \u00edndice de obesidade infantil em preocupantes 14,2%. A preval\u00eancia \u00e9 mais elevada entre as meninas que vivem nas \u00e1reas urbanas, na casa dos 30%.<\/p>\n<p>Vinte e oito por cento dos adultos est\u00e3o obesos ou com sobrepeso em solo sul-africano. Num \u00edndice que inclui todas as faixas et\u00e1rias e g\u00eaneros, chega o dado mais aterrador: a obesidade m\u00f3rbida acompanha e amea\u00e7a 15% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A diabetes, sozinha, matou mais de 25 mil pessoas em 2016, \u00faltimo ano com c\u00e1lculos dispon\u00edveis. E as instala\u00e7\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica do pa\u00eds registraram a m\u00e9dia 10 mil novos casos da doen\u00e7a por m\u00eas.<\/p>\n<p>Recebendo press\u00f5es nacionais e internacionais de institui\u00e7\u00f5es e ativistas pela alimenta\u00e7\u00e3o adequada e saud\u00e1vel, e seguidas recomenda\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), o pa\u00eds debatia, desde 2014, a cria\u00e7\u00e3o de um imposto sobre bebidas a\u00e7ucaradas, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o dos sucos de frutas.<\/p>\n<p>Finalmente, a taxa foi aprovada pelo parlamento em dezembro passado e entrar\u00e1 em vigor no dia 1\u00ba de abril. Fixado em 2,1 centavos por grama de teor de a\u00e7\u00facar superior a 4 gramas por 100 ml, o novo imposto deve elevar a arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria em, ao menos, 2 bilh\u00f5es de rands sul-africanos, o equivalente a mais de US$ 1,6 bilh\u00e3o ou R$ 5,2 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse ambiente, a ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar precisava mostrar for\u00e7a. Estava decidido. Tim Noakes deveria cair no inferno e ser demonizado publicamente.<\/p>\n<p><strong>Primeiro c\u00edrculo: a chantagem do limbo<\/strong><\/p>\n<p>A partir da superf\u00edcie, algu\u00e9m teria de fazer a fun\u00e7\u00e3o de abrir os c\u00edrculos do inferno a Tim Noakes. Foi a esse papel que Claire Julsing Strydom, presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Diet\u00e9tica da \u00c1frica do Sul (ADSA) \u00e0 \u00e9poca, se prestou. Ela denunciou o professor por \u201cconduta n\u00e3o profissional\u201d junto ao Comit\u00ea de Conduta Profissional do Conselho de Profissionais de Sa\u00fade da \u00c1frica do Sul (HPCSA) ap\u00f3s a troca de tu\u00edtes com Pippa Styling.<\/p>\n<p>Apenas um\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ProfTimNoakes\/status\/431133258466611200\">tu\u00edte\u00a0<\/a>como fundamento e o fogo estava aberto. O fisiologista passaria pelo limbo, o lugar destinado a todas as \u201calmas\u201d n\u00e3o \u201cbatizadas\u201d pela ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar. O objetivo de quem o tratava como pag\u00e3o era come\u00e7ar o caminho deixando-o na geladeira por um tempo, com a amea\u00e7a de cassar-lhe a licen\u00e7a m\u00e9dica e conden\u00e1-lo ao esquecimento. Uma chantagem. Se houvesse um pedido de desculpas p\u00fablico, a den\u00fancia poderia ser retirada.<\/p>\n<p>No entanto, Noakes escolheu lutar e defender a posi\u00e7\u00e3o que havia manifestado no Twitter e, principalmente, a linha de pesquisa em que trabalhava. Estava disposto a enfrentar o processo no conselho para dizer que n\u00e3o merecia ter a licen\u00e7a cassada e descortinar os interesses subterr\u00e2neos daquela disputa.<\/p>\n<p>\u201cMeu primeiro argumento foi apontar como as dietas com altos teores de carboidratos s\u00e3o biologicamente baseadas. A maioria dos humanos \u00e9 resistente \u00e0 insulina. Alimentar dietas com alto teor de carboidratos resistentes \u00e0 insulina produz obesidade e diabetes tipo 2, mais outras condi\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 s\u00edndrome de resist\u00eancia \u00e0 insulina, que incluem press\u00e3o alta, c\u00e2ncer e dem\u00eancia\u201d, diz Tim Noakes, em entrevista exclusiva para a nossa reportagem.<\/p>\n<p>Por experi\u00eancia do pr\u00f3prio corpo, Noakes sabe do que fala. Descobriu-se diab\u00e9tico. Al\u00e9m disso, viu o pai morrer v\u00edtima de diabetes tipo 2. \u201cMinha fam\u00edlia seguia as diretrizes diet\u00e9ticas dos EUA. Acredit\u00e1vamos que tudo iria bem\u201d, conta o fisiologista africano.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia Noakes seguia o que a maioria faz: o \u201crem\u00e9dio do fracasso\u201d, segundo o pesquisador. M\u00e9dicos dizem aos pacientes que diabetes e obesidade s\u00e3o doen\u00e7as complexas, gen\u00e9ticas, cr\u00f4nicas, progressivas e incur\u00e1veis. A ind\u00fastria patrocina pesquisas que refor\u00e7am esse discurso, num\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2017\/12\/os-bolsos-gordos-da-ciencia-da-obesidade\/\">movimento circular vicioso<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cIsso absolve-os de qualquer necessidade de resolver a causa real, ou seja, os produtos que causam esses problemas de sa\u00fade e outros relacionados, em primeiro lugar\u201d, afirma Tim.<\/p>\n<p>Uma argumenta\u00e7\u00e3o s\u00f3lida de defesa surgia na mente do professor. Ele devia descer ao circuito sombrio constru\u00eddo pela ind\u00fastria para desmontar o ataque. O que mais lhe chamava a aten\u00e7\u00e3o no jogo das corpora\u00e7\u00f5es era inspirado numa cita\u00e7\u00e3o do poeta e ambientalista estadunidense Wendell Berry: \u201cAs pessoas s\u00e3o alimentadas pela ind\u00fastria alimentar, que n\u00e3o presta aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade, e s\u00e3o tratadas pela ind\u00fastria da sa\u00fade, que n\u00e3o presta aten\u00e7\u00e3o aos alimentos.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com Noakes, os medicamentos modernos tratam obesidade, diabetes e hipertens\u00e3o como se fossem doen\u00e7as separadas.\u00a0\u201cTudo est\u00e1 ligado. H\u00e1 uma \u00fanica condi\u00e7\u00e3o subjacente: resist\u00eancia \u00e0 insulina.\u00a0Meus pacientes n\u00e3o t\u00eam press\u00e3o alta ou obesidade, por exemplo. A condi\u00e7\u00e3o subjacente \u00e9 a resist\u00eancia \u00e0 insulina e, se n\u00e3o tratamos a condi\u00e7\u00e3o subjacente, simplesmente tratamos sintomas, n\u00e3o a doen\u00e7a\u201d, explica o cientista.<\/p>\n<p><strong>Segundo c\u00edrculo: o \u201cpecador\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A postura combativa de Noakes o libertou do congelamento, mas ainda havia muito a enfrentar. O palco dos julgamentos dos \u201cpecadores contra a ind\u00fastria\u201d era a pr\u00f3xima etapa. Nele, o m\u00e9dico confrontaria o come\u00e7o de uma longa jornada.<\/p>\n<p>\u201cA persegui\u00e7\u00e3o a mim foi orquestrada pelas for\u00e7as que controlam as diretrizes diet\u00e9ticas em todo o mundo. Aqueles que trouxeram as acusa\u00e7\u00f5es estavam atuando como representantes de organiza\u00e7\u00f5es privadas\u201d, revela o fisiologista africano.<\/p>\n<p>Especificamente na \u00c1frica do Sul, as principais organiza\u00e7\u00f5es de \u201cfinanciamento\u201d dos conselhos diet\u00e9ticos s\u00e3o a Associa\u00e7\u00e3o do A\u00e7\u00facar Sul-Africano e empresas de comercializa\u00e7\u00e3o de cereais, gr\u00e3os processados \u200b\u200be \u00f3leos vegetais. Nessa conjuntura, o<a href=\"http:\/\/ilsi.org\/\">\u00a0International Life Sciences Institute<\/a>(ILSI), uma institui\u00e7\u00e3o aparentemente cient\u00edfica, comp\u00f5e a linha de frente \u2013\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2017\/11\/industria-de-alimentos-ocupa-espacos-da-universidade-na-anvisa\/\">contamos sobre a atua\u00e7\u00e3o do ILSI<\/a>\u00a0no Brasil em v\u00e1rias reportagens.<\/p>\n<p>\u201cO ILSI representa a Coca-Cola, a ind\u00fastria farmac\u00eautica e empresas como a Monsanto, e desempenhou um papel central (no julgamento), uma vez que v\u00e1rias testemunhas especializadas que se colocaram contra mim t\u00eam fortes liga\u00e7\u00f5es com o instituto\u201d, conta.<\/p>\n<p>Pudera. O ILSI \u00e9, literalmente, filho da Coca-Cola. Nasceu em 1978, fundado pela corpora\u00e7\u00e3o que vende o refrigerante mais conhecido do planeta. Rhona Applebaum, diretora mundial de Ci\u00eancia e Sa\u00fade da Coca at\u00e9 2015, quando se \u201caposentou\u201d ap\u00f3s se ver envolvida<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/01\/22\/ciencia\/1453463272_213070.html\">\u00a0em den\u00fancias<\/a>de financiamento para direcionar estudos, foi presidente do instituto at\u00e9 o final do mesmo ano. Um hist\u00f3rico resumido desenha com clareza o perfil da entidade: na OMS, representantes do ILSI interferiram nas pol\u00edticas antitabaco, nos esfor\u00e7os contra doen\u00e7as cr\u00f4nicas, e, mais recentemente, nas orienta\u00e7\u00f5es diet\u00e9ticas que limitam a ingest\u00e3o de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia do ILSI se mostra tentacular no caso Noakes. A Universidade da Cidade do Cabo, ex-empregadora de Tim, e a ADSA, representada pela denunciante Claire Strydom, andavam de bra\u00e7os dados no intuito de condenar o pesquisador.<\/p>\n<p>As evid\u00eancias de envolvimento conjunto dessas organiza\u00e7\u00f5es nos bastidores s\u00e3o diversas. Em 2015, quando o julgamento atravessava momento crucial, o ILSI financiou um estudo de ingest\u00e3o de micronutrientes em crian\u00e7as sul-africanas, conduzido por membros do Departamento de Nutri\u00e7\u00e3o da Universidade do Cabo. Uma \u201cpesquisa fraudulenta\u201d, segundo Noakes, feita para comprovar que o a\u00e7\u00facar n\u00e3o seria o respons\u00e1vel pelo crescimento de doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O departamento acad\u00eamico, por sua vez, prestou apoio significativo \u00e0 equipe de acusa\u00e7\u00e3o, bancando trabalhos da professora Marjanne Senekal, na mesma linha do estudo financiado pelo ILSI.<\/p>\n<p>Para completar, a dire\u00e7\u00e3o da universidade articulou e foi coautora de uma carta escrita por quatro professores, publicada em jornal local, num texto extremamente agressivo contra Tim Noakes.<\/p>\n<p>Bombardeado por ex-companheiros, o fisiologista necessitava, al\u00e9m de se defender cientificamente, desnudar as rela\u00e7\u00f5es detr\u00e1s dos ataques e as finalidades econ\u00f4micas que os dirigiam.<\/p>\n<p>\u201cSim, eles (ex-colegas de universidade) fizeram tudo isso, incluindo o decano da Faculdade de Medicina e professores de medicina, que escreveram ao jornal local da Cidade do Cabo dizendo que eu promovia uma revolu\u00e7\u00e3o; que eu falava de curas imposs\u00edveis, quando eu apenas relatava o que os pacientes me diziam sobre diabetes, por exemplo\u201d, ressalta o pesquisador.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, ele era acusado por \u201cpares\u201d de promover \u201cum debate acad\u00eamico sufocante\u201d e de realizar trabalhos que n\u00e3o eram compat\u00edveis com \u201cos altos padr\u00f5es\u201d da universidade. Isso, apesar de ser um dos 13 cientistas classificados pela Universidade do Cabo como A1 (a classifica\u00e7\u00e3o m\u00e1xima), num ranking que foi novamente oferecido em novembro de 2016, quando o julgamento se aproximava do fim e os argumentos de Noakes se fortaleciam.<\/p>\n<p>\u201cEu acredito que as a\u00e7\u00f5es anti\u00e9ticas contra mim indicam at\u00e9 que ponto a universidade, assim como a maioria, foi capturada pelos interesses das grandes empresas, incluindo as corpora\u00e7\u00f5es farmac\u00eauticas e de alimentos\u201d, avalia o professor.<\/p>\n<p><strong>Terceiro c\u00edrculo: a lama<\/strong><\/p>\n<p>Hora de nadar no \u201clago da lama\u201d, espa\u00e7o reservado aos que sucumbiram ao pecado da gula. No caso em quest\u00e3o, a gulodice possui dois sentidos, que se encontram no fim de uma bifurca\u00e7\u00e3o: 1 \u2013 apetite desmedido por dinheiro. 2 \u2013 uma popula\u00e7\u00e3o que se enche de a\u00e7\u00facar \u201corientada\u201d por uma esp\u00e9cie de \u201cmarketing cient\u00edfico\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a den\u00fancia de Claire Strydom, a Comiss\u00e3o de Inqu\u00e9rito Preliminar do Conselho de Profissionais de Sa\u00fade se reuniu em 22 de maio de 2014 para resolver se Noakes seria ou n\u00e3o julgado. Foram dois dias de reuni\u00f5es e nada conclu\u00eddo. A decis\u00e3o ficou para um novo encontro, marcado para 10 de setembro.<\/p>\n<p>Nesse meio tempo, a comiss\u00e3o encomendou um relat\u00f3rio secreto para \u201cnortear a decis\u00e3o\u201d. A encomenda foi pedida \u00e0 m\u00e9dica Est\u00e9 Vorster, ex-presidente do ILSI na \u00c1frica do Sul. Pedido feito e prontamente acatado, o documento produzido por Vorster mencionava uma nova an\u00e1lise que, supostamente, refutava a posi\u00e7\u00e3o de Noakes, que s\u00f3 teria a oportunidade de ler o conte\u00fado quando um funcion\u00e1rio do conselho o enviou, por engano, aos advogados de defesa.<\/p>\n<p><strong>\u201cNo meu julgamento, apresentamos 12 dias de evid\u00eancia cient\u00edfica. Em contraste, a acusa\u00e7\u00e3o baseou-se em um \u00fanico estudo\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O texto citado por Vorster recebera o apelido de \u201cNaude Review\u201d (Revis\u00e3o Naude), em refer\u00eancia \u00e0 autora principal, Celeste Naude. O estudo \u00e9 aquele apoiado pelo ILSI e considerado uma fraude por Tim Noakes.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o havia base cient\u00edfica para os ataques. No meu julgamento, apresentamos 12 dias de evid\u00eancia cient\u00edfica, incluindo o contra-interrogat\u00f3rio. Em contraste, a acusa\u00e7\u00e3o baseou-se em um \u00fanico estudo, o Naude Rewiew, que \u00e9 irremediavelmente falho e at\u00e9 fraudulento. Os argumentos cient\u00edficos produzidos pela acusa\u00e7\u00e3o eram facilmente destru\u00eddos por nossos advogados de defesa\u201d, enfatiza Noakes.<\/p>\n<p>Realmente, uma boa pesquisa mapearia a situa\u00e7\u00e3o sem muitas dificuldades. Celeste Naude, no ano de 2014, palestrou no \u201cSimp\u00f3sio A\u00e7\u00facar e Sa\u00fade\u201d, evento da Associa\u00e7\u00e3o do A\u00e7\u00facar, a mesma entidade que pagou os gastos com a pesquisa liderada por ela em 2015.<\/p>\n<p>Em linhas gerais, a \u201cNaude Review\u201d classifica as dietas de baixo carboidrato (glic\u00eddios e a\u00e7\u00facares) num patamar de consumo de 45% di\u00e1rios desses nutrientes. E descreve como \u201cequilibrada\u201d uma dieta com base de at\u00e9 65% ao dia.<\/p>\n<p>Quando a revis\u00e3o foi publicada, em julho de 2016, as organiza\u00e7\u00f5es de sa\u00fade financiadas pela ind\u00fastria de\u00a0<em>junk food<\/em>\u00a0da \u00c1frica do Sul entraram em a\u00e7\u00e3o, usando a an\u00e1lise para tentar desacreditar Noakes. O material de divulga\u00e7\u00e3o da pesquisa recomendava entrar em contato com representantes da ADSA e HPCSA para mais informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Com ar triunfante, a Associa\u00e7\u00e3o do A\u00e7\u00facar informou, nas redes sociais, \u201cque novas descobertas desmascararam as alega\u00e7\u00f5es de que dietas pobres em carboidratos resultam em mais perda de peso\u201d.<\/p>\n<p>S\u00f3 em dezembro de 2016 Tim Noakes conseguiu espa\u00e7o e tempo para responder cientificamente. Em dupla com a pesquisadora estadunidense Zo\u00eb Harcombe, publicou a cr\u00edtica \u201c<a href=\"http:\/\/foodmed.net\/2017\/03\/mistakes-mischief-naude-review-noakes\/\">The universities of Stellenbosch\/Cape Town low-carbohydrate diet review: mistake or mischief?\u201d\u00a0<\/a>(As universidades de Stellenbosch\/Cape Town na revis\u00e3o da dieta de baixos carboidratos: erro ou preju\u00edzo?), a respeito da \u201cNaude Review\u201d, mostrando que nem mesmo os padr\u00f5es relatados na sele\u00e7\u00e3o de estudos para a revis\u00e3o foram seguidos.<\/p>\n<p><strong>Quarto c\u00edrculo: os avarentos<\/strong><\/p>\n<p>A \u201cmiss\u00e3o\u201d da ind\u00fastria \u00e9 acumular riquezas materiais acima de preocupa\u00e7\u00f5es com direitos fundamentais, como sa\u00fade, alimenta\u00e7\u00e3o adequada e informa\u00e7\u00f5es seguras. E algumas entidades ditas cient\u00edficas fazem de tudo para engordar o caixa.<\/p>\n<p>\u201cNenhuma unidade do ILSI no mundo \u00e9 institui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. O que se tem, no ILSI, \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o funcionando para a Coca-Cola e<a href=\"http:\/\/ilsi.org\/about\/leadership-support\/\">\u00a0muitas outras organiza\u00e7\u00f5es com reputa\u00e7\u00e3o duvidosa,<\/a>\u00a0como a Monsanto\u201d, sentencia Tim Noakes.<\/p>\n<p>De acordo com ele, financiamentos de empresas como a Coca-Cola s\u00e3o chamados na \u00c1frica de \u201cfruta baixa\u201d. Ou seja, s\u00e3o f\u00e1ceis de alcan\u00e7ar. As corpora\u00e7\u00f5es, sempre espertas, t\u00eam consci\u00eancia de onde e com quem deixar essas frutas.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 cientistas que s\u00e3o atra\u00eddos para esse tipo de financiamento. Eles s\u00e3o mais narcisistas e mais f\u00e1ceis de ser controlados pelos financiadores, pois s\u00e3o criticamente dependentes desses recursos\u201d, analisa.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar, portanto, sabia a quem procurar com o objetivo de atacar o pesquisador. Nomes mais facilmente influenci\u00e1veis para encontrar o que as corpora\u00e7\u00f5es queriam mostrar estavam \u00e0 m\u00e3o, no ILSI.<\/p>\n<p>N\u00e3o mais que um decoreba \u00e9 a resposta t\u00edpica das organiza\u00e7\u00f5es financiadas pelas corpora\u00e7\u00f5es quando se fala em doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis e obesidade. Os altos e crescentes \u00edndices desses males seriam responsabilidade de pessoas que n\u00e3o se cuidam por \u201cpregui\u00e7a\u201d. Dessa forma, uma quest\u00e3o difusa, de sa\u00fade p\u00fablica, \u00e9 individualizada. Os maus h\u00e1bitos dos consumidores se tornam o centro do debate, numa manobra de desvio de foco.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 \u00f3timo \u00e0 economia das corpora\u00e7\u00f5es, que produzem itens de baixa qualidade nutricional em larga escala e os vendem em ritmo acelerado. E p\u00e9ssimo ao bolso dos cidad\u00e3os, do qual sai dinheiro para comprar comida porcaria e, depois, rem\u00e9dios. Duplamente p\u00e9ssimo: porque o preju\u00edzo, muitas vezes, estoura no sistema p\u00fablico de sa\u00fade, nos tributos recolhidos, e s\u00e3o usados para reparar problemas causados pelo trilhard\u00e1rio setor privado da ind\u00fastria alimentar. A \u00c1frica do Sul \u00e9 um retrato fiel dessa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ser ex-presidente do ILSI, Est\u00e9 Vorster manteve la\u00e7os com a Associa\u00e7\u00e3o do A\u00e7\u00facar Sul-Africano, que lhe financiou pesquisas por anos. Ela, inclusive, \u00e9 integrante do painel cient\u00edfico da entidade, o que a OMS definiu \u201ccomo um\u00a0<a href=\"https:\/\/translate.google.com.br\/translate?hl=pt-BR&amp;sl=en&amp;u=https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/books\/NBK285526\/&amp;prev=search\">conflito de interesses<\/a>\u201c, recomendando que a m\u00e9dica \u201cse abstivesse de participar dos debates espec\u00edficos e do processo de tomada de decis\u00f5es para o desenvolvimento de recomenda\u00e7\u00f5es e orienta\u00e7\u00f5es sobre os a\u00e7\u00facares em \u00e2mbito mundial\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, na \u00c1frica do Sul, ela ainda goza de um status de pesquisadora respeitada quando se fala em qualquer t\u00f3pico relacionado a\u00a0<em>junk food<\/em>. Enquanto presidia o ILSI, desenvolveu e foi coautora das primeiras orienta\u00e7\u00f5es diet\u00e9ticas do pa\u00eds, sempre par e passo com a Associa\u00e7\u00e3o do A\u00e7\u00facar, a financiadora do primeiro workshop que balizou as diretrizes, realizado no Zimb\u00e1bue.<\/p>\n<p>Nesse evento, o ILSI pagou passagens e estadias a delegados que compactuavam com as orienta\u00e7\u00f5es para \u201cpartilhar a experi\u00eancia sul-africana com 11 outros pa\u00edses africanos.\u201d A presidente do grupo de trabalho era Penny Love, que foi consultora da Associa\u00e7\u00e3o do A\u00e7\u00facar, o que inclu\u00eda organizar simp\u00f3sios sobre \u201ca\u00e7\u00facar e sa\u00fade\u201d.<\/p>\n<p>Vorster e outro integrante do ILSI, o irland\u00eas Michael Gibney (o mesmo que, em 2017, encabe\u00e7ou um\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2017\/11\/ultra-ataque-pesquisador-brasileiro-e-alvo-de-transnacionais-de-alimentos\/\">ataque\u00a0<\/a>\u00e0 classifica\u00e7\u00e3o NOVA, base do Guia Alimentar para a Popula\u00e7\u00e3o Brasileira, criada pelo N\u00facleo de Pesquisas Epidemiol\u00f3gicas em Nutri\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade, liderado pelo professor da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP Carlos Monteiro), publicaram as primeiras diretrizes alimentares da \u00c1frica do Sul em 2001, no\u00a0<em>Journal of Clinical Nutrition<\/em>. A publica\u00e7\u00e3o incluiu um artigo intitulado \u201cDesenvolvimento de orienta\u00e7\u00f5es alimentares diet\u00e9ticas para a \u00c1frica do Sul \u2013 o processo\u201d. Carol Browne, diretora da Associa\u00e7\u00e3o do A\u00e7\u00facar, assinou como coautora, declarando a afilia\u00e7\u00e3o profissional como \u201crela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas\u201d da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo assim, a express\u00e3o \u201cconflito de interesses\u201d n\u00e3o aparece em nenhum dos materiais publicados sobre as diretrizes. Por\u00e9m, os documentos as manifestam por outras palavras: \u201cos alimentos ricos em a\u00e7\u00facares evitam doen\u00e7as cr\u00f4nicas por v\u00e1rios efeitos e mecanismos\u201d, garante uma parte do texto. Outro trecho traz a afirma\u00e7\u00e3o de que \u201ca ingest\u00e3o moderada de a\u00e7\u00facar e alimentos ricos em a\u00e7\u00facar tamb\u00e9m pode fornecer uma dieta saborosa e nutritiva\u201d. De outro lado, inexistem recomenda\u00e7\u00f5es para limitar a ingest\u00e3o de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>O Departamento de Sa\u00fade da \u00c1frica do Sul aceitou as orienta\u00e7\u00f5es para 2001. Provisoriamente, mas aceitou. Depois de press\u00f5es da sociedade civil e de alguns poucos cientistas, entre eles, Tim Noakes, a reparti\u00e7\u00e3o decidiu cobrar dos \u201cespecialistas\u201d que as diretrizes abordassem limita\u00e7\u00f5es ao consumo de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>O governo adotou oficialmente as primeiras diretrizes em 2003, com a pequena advert\u00eancia de \u201cingerir alimentos e bebidas que cont\u00eam a\u00e7\u00facar com modera\u00e7\u00e3o e evitar o ingrediente entre as refei\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Nove anos depois, em 2012, o governo sul-africano lan\u00e7ava a segunda edi\u00e7\u00e3o das diretrizes diet\u00e9ticas. E l\u00e1 estava Est\u00e9 Vorster, dessa vez como autora principal. O show de aberra\u00e7\u00f5es estava garantido. Apesar de a equipe dedicada ao \u201csuporte t\u00e9cnico do a\u00e7\u00facar\u201d observar que \u201co consumo de a\u00e7\u00facar adicionado parece estar aumentando constantemente em toda a popula\u00e7\u00e3o sul-africana\u201d, as novas orienta\u00e7\u00f5es foram ainda mais favor\u00e1veis \u00e0 ind\u00fastria a\u00e7ucareira. A advert\u00eancia de n\u00e3o ingerir a\u00e7\u00facares entre as refei\u00e7\u00f5es foi removida e substitu\u00edda por uma frase pouco enf\u00e1tica \u201cusar a\u00e7\u00facar e alimentos e bebidas ricas em a\u00e7\u00facar com modera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Vorster, a ADSA pediu a participa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria na cria\u00e7\u00e3o das diretrizes de 2012. A indicada foi Sue Cloran, gerente de nutri\u00e7\u00e3o e marketing da Kellogg\u2019s, e membro da for\u00e7a-tarefa do ILSI na Europa.<\/p>\n<p><strong>Tr\u00eas em um: ira + \u201cheresia\u201d = ci\u00eancia violentada<\/strong><\/p>\n<p>Pode-se dizer que, durante o processo, Noakes viveu um conflito em v\u00e1rias trincheiras. Confrontou a ira da ind\u00fastria e daqueles que a defendem fielmente, ainda que precisem \u201cpecar\u201d contra a ci\u00eancia. E at\u00e9 violent\u00e1-la para proteger interesses privados.<\/p>\n<p>Est\u00e9 Voster chegou a esse ponto. Um problema para julgar e condenar Tim Noakes era a fragilidade da den\u00fancia original de Claire Strydom, baseada no Twitter. A defesa do acusado dizia que \u201cn\u00e3o havia base em evid\u00eancias cient\u00edficas\u201d.<\/p>\n<p>Na tr\u00e9plica, n\u00e3o foi Strydom quem teve destaque, mas, sim, Vorster. Ela respondeu que n\u00e3o havia necessidade de apoiar a den\u00fancia com \u201cevid\u00eancia experimental\u201d e \u201cque as refer\u00eancias das orienta\u00e7\u00f5es diet\u00e9ticas baseadas em alimentos pedi\u00e1tricos sul-africanos seriam suficientes\u201d.<\/p>\n<p>A partir dessas premissas nada confi\u00e1veis, a m\u00e9dica conclu\u00eda que Noakes \u201cou n\u00e3o est\u00e1 familiarizado ou n\u00e3o confia nas atuais orienta\u00e7\u00f5es diet\u00e9ticas da \u00c1frica do Sul, e, portanto, n\u00e3o \u00e9 qualificado para aconselhar sobre quest\u00f5es alimentares\u201d. Claro que, em nenhum momento, ela falou sobre o fato de ser uma das principais autoras das orienta\u00e7\u00f5es financiadas pela ind\u00fastria a\u00e7ucareira.<\/p>\n<p>Apesar de todos os problemas apresentados, o relat\u00f3rio de Vorster foi bem-sucedido no prop\u00f3sito inicial: a comiss\u00e3o responsabilizou Noakes em 10 de setembro de 2014. A senten\u00e7a, chocante para ele e os advogados de defesa, alegava que o pesquisador teve \u201ccomportamento ou conduta n\u00e3o profissional, agindo contra a conformidade das normas e padr\u00f5es de sua profiss\u00e3o e fornecendo conselhos n\u00e3o convencionais sobre amamenta\u00e7\u00e3o de beb\u00eas em redes sociais\u201d.<\/p>\n<p><strong>Oitavo c\u00edrculo: hipocrisia<\/strong><\/p>\n<p>Perspectivas jornal\u00edsticas superficiais do julgamento de Tim Noakes eram publicadas aqui e ali na \u00c1frica do Sul. Rep\u00f3rteres que compareceram a uma audi\u00eancia viram Claire Strydom desabar em l\u00e1grimas. Parecia dif\u00edcil crer que aquele rosto delicado tomado pelo choro fosse parte de uma articula\u00e7\u00e3o pr\u00f3-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Strydom, contudo, era apenas a parte mais vis\u00edvel da investida contra o pesquisador. Havia pe\u00e7as muito mais poderosas atr\u00e1s das cortinas. Quando apresentou a den\u00fancia, Claire, al\u00e9m de presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Diet\u00e9tica da \u00c1frica do Sul, era consultora nutricional da Kellogg\u2019s.<\/p>\n<p>Com o julgamento iniciado, ela apagou a maioria da documenta\u00e7\u00e3o on-line que expunha o relacionamento com a corpora\u00e7\u00e3o. No entanto, n\u00e3o deu para esconder tudo. Ainda hoje \u00e9 poss\u00edvel ver rastros. No site da empresa \u201cpara solu\u00e7\u00f5es nutricionais\u201d pertencente a Strydom est\u00e3o as experi\u00eancias como consultora de muitas megaempresas, Kellogg\u2019s inclusa.<\/p>\n<p>Dentro da ADSA, Claire n\u00e3o est\u00e1 sozinha. A diretora Linda Drummond \u00e9 \u201cmanager\u201d de nutri\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da Kellogg\u2019s. Cheryl Meyer, respons\u00e1vel pela comunica\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o, e Leanne Kiezer, tesoureira, eram, respectivamente, consultora e assistente nutricional da transnacional.<\/p>\n<p>Os textos institucionais da ADSA procuram a isen\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00f3s n\u00e3o acreditamos no endosso de marcas para as comunidades para que trabalhamos\u201d \u00e9 a t\u00f4nica do falat\u00f3rio, o que n\u00e3o combina com o mais de 1\/3 da receita da entidade sa\u00eddo de patrocinadores corporativos, incluindo Nestl\u00e9 e Unilever.<\/p>\n<p>Tem mais. Em parceria com a Sociedade de Nutri\u00e7\u00e3o da \u00c1frica do Sul (NSSA), a ADSA organiza um congresso anual de nutri\u00e7\u00e3o. Os patroc\u00ednios s\u00e3o os \u00f3bvios. Gigantes das ind\u00fastrias alimentar e farmac\u00eautica; Associa\u00e7\u00e3o do A\u00e7\u00facar Sul-Africano, Unilever, Nestl\u00e9 Nutrition Institute, Kellogg\u2019s, Glaxo Smith Kline e Discovery Vitality.<\/p>\n<p>Em maio de 2014, as sociedades de nutri\u00e7\u00e3o locais ainda receberiam refor\u00e7o institucional do ILSI, com o primeiro encontro sobre nutri\u00e7\u00e3o do instituto em territ\u00f3rio sul-africano. Dele, foi extra\u00eddo um grupo de trabalho para o pa\u00eds. Isso ocorreu nove dias antes da primeira reuni\u00e3o da comiss\u00e3o da HPCSA que decidiria se Noakes seria julgado. A decis\u00e3o foi adiada, mas a linha de frente a servi\u00e7o do a\u00e7\u00facar n\u00e3o perdeu tempo.<\/p>\n<p>Nunca uma for\u00e7a-tarefa do ILSI havia sido criada com a especificidade de se dedicar \u00e0 nutri\u00e7\u00e3o na \u00c1frica do Sul. E, logo, surgiria mais uma \u201ccoincid\u00eancia\u201d. A primeira atividade oficial do grupo foi a apresenta\u00e7\u00e3o no congresso de nutri\u00e7\u00e3o da ADSA de 2014, com foco em construir \u201cparcerias de colabora\u00e7\u00e3o entre academia, governo e ind\u00fastria\u201d.<\/p>\n<p>Era setembro daquele ano, justamente quando Noakes recebia a not\u00edcia da confirma\u00e7\u00e3o do julgamento no conselho federal.<\/p>\n<p>Tr\u00eas diretores do Departamento de Sa\u00fade da \u00c1frica do Sul falaram na sess\u00e3o, representando as dire\u00e7\u00f5es Nutricional, de Promo\u00e7\u00e3o da Sa\u00fade e Nutri\u00e7\u00e3o e de Doen\u00e7as N\u00e3o Transmiss\u00edveis, o que ajuda a dimensionar o poder da ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar no pa\u00eds, que Tim Noakes enfrentava.<\/p>\n<p><strong>Nono c\u00edrculo: a derrota da trai\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Depois de cumprir um longo e tormentoso caminho, ficou mais f\u00e1cil para Noakes compreender que n\u00e3o eram Claire Strydom ou Est\u00e9 Vorster as grandes respons\u00e1veis pelo julgamento. Cada movimento deixava mais evidente quem estava mexendo as pe\u00e7as. Vieram as audi\u00eancias e, em novembro de 2015, o conselho convocou \u201cperitos\u201d para formar o grupo de acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fora a previs\u00edvel convoca\u00e7\u00e3o de Vorster, vieram Ali Dhansay, Salom\u00e9 Kruger e Willie Pienaar. Dhansay e Kruger possuem registros de rela\u00e7\u00f5es com a ind\u00fastria de comida porcaria.<\/p>\n<p>Dhansay, que \u00e9 pediatra, tamb\u00e9m presidiu o ILSI da \u00c1frica do Sul, em 2013, quando trabalhou em coopera\u00e7\u00e3o com representantes das megaempresas Coca-Cola, Mars, Nestl\u00e9 e Bayer. Atualmente, \u00e9 presidente da Sociedade de Nutri\u00e7\u00e3o da \u00c1frica do Sul, entidade de longeva proximidade com a ind\u00fastria. Mais grave: chefia o South Africa Medical Research Council (Conselho de Pesquisa M\u00e9dica da \u00c1frica do Sul). O homem que lidera a produ\u00e7\u00e3o de pesquisas de interven\u00e7\u00e3o nutricional para o governo sul-africano \u00e9 o mesmo que mant\u00e9m la\u00e7os apertados com as corpora\u00e7\u00f5es do a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias de financiamentos pelo dinheiro do a\u00e7\u00facar tamb\u00e9m n\u00e3o faltam a Salom\u00e9 Kruger. Ela, que se apresenta como cientista da nutri\u00e7\u00e3o, teve pesquisa bancada pela Associa\u00e7\u00e3o do A\u00e7\u00facar Sul-Africano. O trabalho atenua os efeitos da alimenta\u00e7\u00e3o excessiva e de m\u00e1 qualidade e coloca o sedentarismo como o \u201cprincipal determinante da obesidade em mulheres negras na prov\u00edncia do Noroeste do pa\u00eds\u201d. O estudo segue o padr\u00e3o adotado pelo Global Energy Balance Network, da Coca-Cola, que patrocinou pesquisadores de v\u00e1rios pa\u00edses para comprovar que o problema n\u00e3o est\u00e1 no refrigerante, mas nas pessoas pregui\u00e7osas e sedent\u00e1rias.<\/p>\n<p>Noakes enfrentava um batalh\u00e3o, mas a narrativa que mantinha era consistente. As audi\u00eancias se arrastaram at\u00e9 2017 e o pesquisador teve a oportunidade de responder uma a uma \u00e0s cr\u00edticas dos que o tinham como alvo. Dentre a estrat\u00e9gia de acusa\u00e7\u00e3o, o \u00fanico documento pretensamente cient\u00edfico usado contra ele (a an\u00e1lise de autoria de Celeste Naude e defendida por Est\u00e9 Vorster) foi dissecado.<\/p>\n<p>\u201cNa verdade, fornecemos provas de que o documento \u00e9 fraudulento. Os autores ainda precisam explicar como o artigo pode ter tantos erros. E as universidades em que trabalham n\u00e3o conseguiram completar avalia\u00e7\u00f5es cr\u00edveis desses documentos para mostrar que os erros podem ser explicados por falha humana em vez de inten\u00e7\u00e3o deliberada de prejudicar a minha posi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d, desabafa o professor.<\/p>\n<p>Tim precisava contra-atacar de maneira fulminante. Para n\u00e3o deixar d\u00favidas, a defesa mostrou o quanto a ado\u00e7\u00e3o da dieta industrial moderna, \u00e0 base de alimentos ultraprocessados, coincide com o aumento de doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis. Tamb\u00e9m se concentrou na resist\u00eancia \u00e0 insulina como o principal motor das chamadas \u201cdoen\u00e7as do estilo de vida\u201d, que, na concep\u00e7\u00e3o de Noakes, s\u00e3o dist\u00farbios nutricionais.<\/p>\n<p>Em 21 de abril de 2017, o cientista foi absolvido do \u201ccrime\u201d que n\u00e3o cometeu pelo comit\u00ea do HPCSA, por 4 votos a 1. Sequelas chegaram, por\u00e9m. Se n\u00e3o materiais, j\u00e1 que os dois advogados principais, Mike van der Nest e Ravin Ramdass, trabalharam de gra\u00e7a, as consequ\u00eancias emocionais foram inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p>O desafio, ent\u00e3o, era sair do estado depressivo ap\u00f3s o trauma a que ele e familiares foram submetidos.<\/p>\n<p>\u201cMinha esposa e eu ficamos incrivelmente estressados \u200b\u200bdurante todo o julgamento. N\u00e3o pod\u00edamos pensar em nada al\u00e9m do julgamento e eu estava bastante deprimido, o que \u00e9 o oposto do meu estado normal. Quando terminou, comecei a me curar, mas a depress\u00e3o amea\u00e7ava voltar quando me lembrava do que passamos. Agora, esse po\u00e7o de depress\u00e3o parece ter sido esvaziado\u201d, confessa o professor.<\/p>\n<p>Talvez, uma das mais importantes sa\u00eddas terap\u00eauticas para Noakes combater a depress\u00e3o e o estresse tenha sido perceber, depois de passada a tormenta, o que representou o resultado do processo: uma contundente derrota para todos os que promovem e se beneficiam das atuais diretrizes diet\u00e9ticas sul-africanas.<\/p>\n<p>\u201cEles nunca esperaram as consequ\u00eancias de suas a\u00e7\u00f5es imorais. Eles nunca imaginaram que escrever\u00edamos um livro sobre tudo o que aconteceu comigo nos \u00faltimos anos. Agora, suas a\u00e7\u00f5es est\u00e3o registradas para o mundo ver. Eles n\u00e3o conseguem se esconder das consequ\u00eancias do que fizeram\u201d, diz Noakes.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa parte que entra o segundo mecanismo terap\u00eautico usado por Timothy David Noakes. O livro\u00a0<em>Lore of Nutrition<\/em>, escrito em parceria com a jornalista sul-africana Marika Sboros, fornece respostas cient\u00edficas a todos os ataques sofridos pelo pesquisador, que, na obra, n\u00e3o foge de nenhum tema. Traz, inclusive, a publica\u00e7\u00e3o dos argumentos de acusa\u00e7\u00e3o na \u00edntegra.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um livro de ci\u00eancia, mas apresentado como se fosse um romance. N\u00e3o poder\u00edamos ter um ve\u00edculo melhor para levar nossa mensagem para a \u00c1frica do Sul e, depois, para o mundo\u201d, reflete o cientista, que agora aguarda o resultado do julgamento de uma apela\u00e7\u00e3o da acusa\u00e7\u00e3o junto ao HPCSA, que deve sair ainda neste m\u00eas.<\/p>\n<p>Mais de 36 mil pessoas, principalmente profissionais de sa\u00fade de v\u00e1rias partes do planeta, tinham assinado, at\u00e9 o fechamento desta reportagem, uma peti\u00e7\u00e3o criada por um grupo de m\u00e9dicos independentes dos Estados Unidos reivindicando que o processo contra o pesquisador seja extinto.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Noakes segue trabalhando e afirma que a miss\u00e3o \u00e9 levar o mais longe poss\u00edvel a mensagem de uma alimenta\u00e7\u00e3o realmente equilibrada, com \u201ccomida de verdade\u201d e baixa quantidade de carboidratos\/a\u00e7\u00facares, principalmente para os resistentes \u00e0 insulina. Ele est\u00e1 perto de iniciar um teste de uma dieta econ\u00f4mica e baixa em ultraprocessados e carboidratos nas comunidades mais pobres da \u00c1frica do Sul.<\/p>\n<p>O cientista conta que, ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do livro, se emocionou ao receber mensagens de \u201cum grande n\u00famero de colegas m\u00e9dicos\u201d, que escreveram para anunciar mudan\u00e7as de pr\u00e1ticas, se concentrando no papel da nutri\u00e7\u00e3o nas doen\u00e7as cr\u00f4nicas.<\/p>\n<p>\u201cEsperamos que o livro tamb\u00e9m ajude o p\u00fablico a perceber at\u00e9 que ponto sofremos lavagem cerebral para acreditar numa s\u00e9rie de mitos alimentares promovidos para o benef\u00edcio financeiro das ind\u00fastrias farmac\u00eautica e alimentar. Que as pessoas percebam que o que acreditamos sobre alimentos e o que escolhemos comer como resultado ser\u00e3o os principais determinantes de como vivemos. E, igualmente importante, de como morremos\u201d, finaliza Tim Noakes.<\/p>\n<p><strong>De quem conhece<\/strong><\/p>\n<p>Se Tim Noakes \u00e9 refer\u00eancia h\u00e1 tempos no Continente Africano e ganhou proje\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos e Europa, na Am\u00e9rica Latina o trabalho dele ainda \u00e9 pouco conhecido. Mesmo o caso do julgamento bancado pela ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar foi quase negligenciado pelos notici\u00e1rios daqui.<\/p>\n<p>Um dos poucos que acompanha sistematicamente a pesquisa do cientista africano e que tem conhecimento profundo sobre as circunst\u00e2ncias da \u201cguerra nutricional\u201d travada na \u00c1frica do Sul \u00e9 o m\u00e9dico Jos\u00e9 Carlos Brasil Peixoto, de Porto Alegre.<\/p>\n<p>\u201cO que a ind\u00fastria e as associa\u00e7\u00f5es financiadas por ela fizeram ao Tim Noakes foi uma demonstra\u00e7\u00e3o do poder financeiro das corpora\u00e7\u00f5es. Foi uma exibi\u00e7\u00e3o que levou um recado a pesquisadores do mundo todo: \u2018Quem se posicionar contra a ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar e dos ultraprocessados vai sentir o nosso poder\u2019\u201d, destaca Peixoto.<\/p>\n<p>Para ele, a postura de Noakes colocou \u201cem alerta m\u00e1ximo\u201d os interesses da grande ind\u00fastria alimentar. Por isso, a rea\u00e7\u00e3o veio com um exemplo de for\u00e7a e coer\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNaturalmente, as for\u00e7as do poder est\u00e3o totalmente infiltradas em institui\u00e7\u00f5es oficiais, na educa\u00e7\u00e3o, entidades de regulamenta\u00e7\u00e3o e v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os de governo. H\u00e1 nomes pomposos que representam e, ao mesmo tempo, encobrem esses interesses. Aparentemente, na \u00c1frica do Sul, assim como no Brasil, a justi\u00e7a \u00e9 o bra\u00e7o forte do rei. Obviamente, a ci\u00eancia de verdade n\u00e3o existe para garantir interesses. No entanto, se os financiadores das pesquisas s\u00e3o os mesmos que lucram com seus resultados, quem pode chamar isso de ci\u00eancia?\u201d, questiona o m\u00e9dico ga\u00facho.<\/p>\n<p><strong>Nota de Rodap\u00e9:\u00a0<\/strong>as pequenas descri\u00e7\u00f5es dos c\u00edrculos do inferno presentes no texto n\u00e3o expressam nenhum tipo de posi\u00e7\u00e3o religiosa do autor ou de\u00a0<strong><em>O joio e o trigo<\/em><\/strong>. S\u00e3o, na verdade, refer\u00eancias liter\u00e1rias e remetem \u00e0 obra\u00a0<em>A\u00a0Divina Com\u00e9dia<\/em>, escrita pelo autor florentino Dante Alighieri, no s\u00e9culo 14.<\/p>\n<p><strong>Nota de Rodap\u00e9 2:\u00a0<\/strong>saiba mais sobre a atua\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es como o ILSI no Brasil\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2017\/12\/os-bolsos-gordos-da-ciencia-da-obesidade\/\">aqui\u00a0<\/a>e\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2018\/02\/transparente-nos-eua-coca-cola-adota-segredo-sobre-relacao-com-pesquisadores-no-brasil\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Moriti Neto, O Joio e o Trigo de 06 de mar\u00e7o de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto 1: Tim Noakes\/Facebook Persegui\u00e7\u00e3o ao cientista Tim Noakes \u00e9 exemplo do poder de orquestra\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar e da subservi\u00eancia das organiza\u00e7\u00f5es que a cercam por dinheiro \u00a0 Quatrocentas e oitenta e oito p\u00e1ginas para exorcizar 140 caracteres. 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