{"id":23680,"date":"2018-04-26T09:00:47","date_gmt":"2018-04-26T12:00:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=23680"},"modified":"2025-11-03T09:35:26","modified_gmt":"2025-11-03T12:35:26","slug":"alguns-efeitos-dos-alimentos-fabricados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/alguns-efeitos-dos-alimentos-fabricados\/","title":{"rendered":"Alguns efeitos dos alimentos fabricados"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/020_alimentos_265-784x1024.jpg\" \/><em>Tratamentos f\u00edsicos e qu\u00edmicos alteram propriedades e aumentam dura\u00e7\u00e3o dos alimentos<\/em><\/p>\n<p><strong>Maior consumo de ultraprocessados eleva risco de desenvolver obesidade, hipertens\u00e3o e c\u00e2ncer; ainda s\u00e3o necess\u00e1rios estudos com mais participantes para confirmar os achados<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos vem se acirrando uma pol\u00eamica em torno dos alimentos industrializados, em especial aqueles ricos em a\u00e7\u00facares, gorduras, sal e compostos qu\u00edmicos que aumentam a sua durabilidade ou lhe conferem mais aroma, cor e sabor. De um lado, alguns grupos de nutricionistas e especialistas em sa\u00fade p\u00fablica atribuem a esses alimentos um papel importante, que come\u00e7a a ser quantificado, no aumento do risco de desenvolver obesidade e diabetes, dois problemas de sa\u00fade cada vez mais comuns no mundo. O consumo desses alimentos, classificados como ultraprocessados em 2009 pelo epidemiologista Carlos Augusto Monteiro, professor da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de S\u00e3o Paulo (FSP-USP), \u00e9 elevado em v\u00e1rios pa\u00edses ricos, nos quais a propor\u00e7\u00e3o de pessoas com peso acima do considerado saud\u00e1vel \u00e9 alta, e vem crescendo de modo acelerado nos pa\u00edses com popula\u00e7\u00e3o de renda m\u00e9dia e baixa. De outro lado, pesquisadores da \u00e1rea de ci\u00eancia e tecnologia de alimentos consideram a classifica\u00e7\u00e3o imprecisa. Tamb\u00e9m afirmam que o consumo desse tipo de alimento, que permite a parte da popula\u00e7\u00e3o mundial ter acesso ao m\u00ednimo de energia necess\u00e1ria para se manter viva, \u00e9 apenas um dos muitos fatores a serem ponderados na explica\u00e7\u00e3o desses problemas.<\/p>\n<p>Estudos recentes alimentam esse debate ao apresentar evid\u00eancias iniciais de que um consumo maior desse tipo de alimento industrializado pode ter um impacto nocivo sobre a sa\u00fade. Em fevereiro deste ano, a revista\u00a0<em>British Medical Journal<\/em>\u00a0apresentou o resultado de uma pesquisa conduzida na Fran\u00e7a que, pela primeira vez, sugeriu existir uma associa\u00e7\u00e3o entre um maior consumo de alimentos ultraprocessados e o aumento no risco de c\u00e2ncer. O trabalho do grupo franc\u00eas se baseou na avalia\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre 104.980 pessoas com idade entre 18 e 72 anos que integram o projeto NutriNet-Sant\u00e9. Os pesquisadores separaram os volunt\u00e1rios, inicialmente todos sem c\u00e2ncer, em quatro grupos, que diferiam apenas com rela\u00e7\u00e3o ao consumo de ultraprocessados. (<a href=\"https:\/\/sapatariadocarmo.com\/purchase-ultram-50mg-via-the-web\/\">https:\/\/sapatariadocarmo.com<\/a>)  Os produtos industrializados e prontos para o consumo correspondiam a 8,5% das calorias ingeridas diariamente entre os participantes que menos consumiam esses alimentos e representavam 32,3% da energia ingerida pelo grupo mais adepto dos ultraprocessados \u2013 em geral, doces, bebidas ado\u00e7adas e cereais matinais.<\/p>\n<p>Em cinco anos de acompanhamento, uma pequena propor\u00e7\u00e3o de cada grupo desenvolveu c\u00e2ncer. Quando descontaram os efeitos protetores do risco de surgir um tumor (ser mais jovem ou praticar atividade f\u00edsica) e os agravadores (fumar ou ter hist\u00f3rico de c\u00e2ncer na fam\u00edlia, entre outros), os pesquisadores verificaram que um aumento de 10 pontos percentuais na participa\u00e7\u00e3o dos ultraprocessados na dieta elevou em 12% a probabilidade de desenvolver c\u00e2ncer.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/020-027_alimentos_265-1-588x1024.jpg\" \/><\/p>\n<p>Os autores evitam afirmar que os ultraprocessados provocam c\u00e2ncer. Um motivo \u00e9 que ainda n\u00e3o se sabe o que na composi\u00e7\u00e3o desses alimentos poderia levar ao desenvolvimento de tumores. \u201cAl\u00e9m de apresentarem n\u00edveis mais altos de sal, a\u00e7\u00facar e gordura, os ultraprocessados cont\u00eam aditivos e compostos que se formam durante o processamento industrial e podem ter impacto na sa\u00fade\u201d, explica a epidemiologista Chantal Julia, pesquisadora da Universidade Paris 13 e uma das autoras do estudo, do qual participou Monteiro.<\/p>\n<p>\u201cOs ultraprocessados s\u00e3o uma inven\u00e7\u00e3o recente da ind\u00fastria, que usa ingredientes baratos para reduzir a quantidade de alimentos\u00a0<em>in natura<\/em>\u00a0e diminuir o pre\u00e7o dos produtos\u201d, afirma Monteiro, m\u00e9dico epidemiologista especializado em nutri\u00e7\u00e3o. \u201cEm um ultraprocessado, muitas vezes, resta pouco ou nada dos alimentos a partir dos quais foi produzido.\u201d Foi ele que em 2009 prop\u00f4s reclassificar os alimentos com base no grau de processamento, e n\u00e3o mais a partir de macronutrientes (prote\u00ednas, carboidratos e gorduras). Sua expectativa \u00e9 de que essa forma de ver os alimentos, a que deu o nome de Nova, ajude a explicar melhor o aumento de problemas de sa\u00fade associados ao desequil\u00edbrio nutricional. \u00c9 o caso da obesidade, que dobrou em 70 pa\u00edses entre 1980 e 2015 e hoje atinge 604 milh\u00f5es de adultos e 108 milh\u00f5es de crian\u00e7as no mundo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desse estudo realizado na Fran\u00e7a, poucas pesquisas j\u00e1 conseguiram estabelecer uma associa\u00e7\u00e3o direta entre a ocorr\u00eancia de problemas de sa\u00fade e o consumo de ultraprocessados. Antes desses trabalhos, outras pesquisas j\u00e1 haviam identificado uma conex\u00e3o entre o consumo de refrigerantes e bebidas ado\u00e7adas ou de comidas ricas em a\u00e7\u00facar ou gorduras e o risco maior de desenvolver problemas metab\u00f3licos e cardiovasculares. Nenhuma delas, no entanto, agrupava esses alimentos em uma mesma categoria, o que, segundo alguns nutricionistas, eliminaria distor\u00e7\u00f5es. \u201cEssa classifica\u00e7\u00e3o permite enxergar atributos dos alimentos que v\u00e3o al\u00e9m da composi\u00e7\u00e3o nutricional, como a hiperpalatabilidade, que leva as pessoas a comerem al\u00e9m do ponto em que estariam satisfeitas\u201d, afirma In\u00eas Rugani Ribeiro de Castro, professora do Instituto de Nutri\u00e7\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e membro do grupo de alimenta\u00e7\u00e3o e nutri\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva (Abrasco).<\/p>\n<p>Antes do artigo no\u00a0<em>British Medical Journal<\/em>, a nutricionista Raquel Mendon\u00e7a, que hoje faz est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), j\u00e1 havia publicado dois outros estudos ligando o consumo mais elevado de ultraprocessados a problemas de sa\u00fade. Durante seu doutorado, feito em parte na Espanha, Raquel trabalhou com a equipe do epidemiologista Miguel \u00c1ngel Mart\u00ednez-Gonz\u00e1lez, professor da Universidade de Navarra e da Escola de Sa\u00fade P\u00fablica de Harvard, nos Estados Unidos. Mart\u00ednez-Gonz\u00e1lez coordena um estudo de acompanhamento da sa\u00fade de 22,5 mil adultos jovens que investiga as causas da obesidade e de doen\u00e7as cardiovasculares e metab\u00f3licas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/020-027_alimentos_265-2-503x1024.jpg\" width=\"818\" height=\"1665\" \/><\/p>\n<p>Em um trabalho, Raquel analisou o padr\u00e3o alimentar de 8.451 participantes com idade entre 27 e 49 anos e peso considerado saud\u00e1vel no in\u00edcio do projeto \u2013 eles tinham \u00edndice de massa corporal (IMC) entre 18,5 e 25. Os volunt\u00e1rios foram separados em quatro grupos, segundo o n\u00famero de por\u00e7\u00f5es de ultraprocessados que consumiam. Quem menos comia esse tipo de alimento ingeria, em m\u00e9dia, uma por\u00e7\u00e3o e meia por dia, o correspondente a um pequeno peda\u00e7o de hamb\u00farguer. No outro extremo, as pessoas consumiam seis por\u00e7\u00f5es \u2013 em geral, carne industrializada, embutidos, biscoitos, chocolates, rosquinhas e outros confeitos, al\u00e9m de refrigerantes e bebidas ado\u00e7adas. Este grupo ingeria 40% mais calorias e 6% mais gorduras, mas 10% menos prote\u00ednas e 18% menos fibras alimentares.<\/p>\n<p>Nove anos ap\u00f3s ingressar no estudo, uma parte significativa de cada grupo estava com sobrepeso (IMC entre 25 e 30) ou com obesidade (IMC superior a 30). Mesmo ap\u00f3s descontar o consumo extra de calorias e outros fatores associados \u00e0 obesidade, o grupo que consumia mais ultraprocessados apresentou um risco 26% maior de ter peso acima do saud\u00e1vel do que o grupo que menos ingeria esse tipo de alimento, segundo artigo publicado em 2016 no\u00a0<em>American Journal of Clinical Nutrition<\/em>. Em um terceiro trabalho, Raquel observou que o consumo de mais ultraprocessados eleva a probabilidade de desenvolver hipertens\u00e3o, fator de risco para doen\u00e7as cardiovasculares, associado a 10,4 milh\u00f5es de mortes por ano no mundo.<\/p>\n<p>Esses estudos fornecem, por ora, os ind\u00edcios mais robustos da poss\u00edvel a\u00e7\u00e3o nociva dos ultraprocessados sobre a sa\u00fade. \u201cEles s\u00e3o, de fato, os \u00fanicos testes verdadeiros da hip\u00f3tese de que os ultraprocessados poderiam causar doen\u00e7as\u201d, afirma Barry Popkin, professor da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. Economista de forma\u00e7\u00e3o, Popkin se especializou em epidemiologia e nutri\u00e7\u00e3o e h\u00e1 quase 40 anos estuda em diversos pa\u00edses \u2013 inclusive no Brasil \u2013 a influ\u00eancia da mudan\u00e7a no padr\u00e3o de alimenta\u00e7\u00e3o e de atividade f\u00edsica sobre a obesidade e outros problemas de sa\u00fade. Em sua opini\u00e3o, ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber qual a contribui\u00e7\u00e3o dos ultraprocessados para a obesidade.<\/p>\n<p>O que falta? Mais pesquisas como essas, capazes de estabelecer se h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito entre o consumo desses alimentos e o desenvolvimento da obesidade. \u201cOs tr\u00eas estudos s\u00e3o pequenos diante da complexidade da pergunta que tentam responder\u201d, comenta o m\u00e9dico L\u00edcio Velloso, professor da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades, um dos Centros de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (Cepid) financiados pela FAPESP. Velloso, que investiga os mecanismos bioqu\u00edmicos da obesidade e do diabetes, afirma: \u201c\u00c9 preciso fazer estudos com um n\u00famero maior de pessoas, que tenham composi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica variada\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/020-027_alimentos_265-4a-300x290.jpg\" width=\"900\" height=\"870\" \/><\/p>\n<p>Comprovar uma rela\u00e7\u00e3o de causalidade n\u00e3o \u00e9 simples. E fica mais dif\u00edcil no caso da obesidade, um problema que pode ter causas gen\u00e9ticas e ambientais. Um dos requisitos para a identifica\u00e7\u00e3o da causalidade \u00e9 mostrar que a suposta causa antecede regularmente o fen\u00f4meno estudado. Isso \u00e9 poss\u00edvel em estudos longitudinais ou de acompanhamento, como os da Espanha e da Fran\u00e7a. Nesse modelo, os pesquisadores seguem uma popula\u00e7\u00e3o inicialmente sem o problema e, periodicamente, registram as mudan\u00e7as ocorridas ap\u00f3s uma interven\u00e7\u00e3o ou exposi\u00e7\u00e3o a um fator de risco. No entanto, a maior parte dos trabalhos que tenta associar o consumo de ultraprocessados aos problemas de sa\u00fade \u00e9 de estudos transversais. Neles, os pesquisadores coletam os dados do desfecho e da exposi\u00e7\u00e3o em um s\u00f3 momento, tornando mais dif\u00edcil confirmar que o resultado decorre da exposi\u00e7\u00e3o ao fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Desde que prop\u00f4s essa classifica\u00e7\u00e3o dos alimentos, Monteiro e sua equipe verificaram que a participa\u00e7\u00e3o dos ultraprocessados no prato dos brasileiros aumentou 22% na d\u00e9cada passada (<em><a title=\"\" href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/alimentos-5.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-rel=\"lightbox-4\">ver tabela<\/a><\/em>) e que a disponibilidade desses alimentos \u00e9 maior na casa de pessoas com sobrepeso ou obesidade. Tamb\u00e9m constataram que quem consome mais deles (mais de 35% das calorias di\u00e1rias) ingere n\u00edveis altos de a\u00e7\u00facares livres e baixos de fibras, o que reduz a saciedade.<\/p>\n<p>O consumo de ultraprocessados \u00e9 historicamente elevado em pa\u00edses ricos, como Estados Unidos, Canad\u00e1 e Inglaterra, onde respondem por mais da metade das calorias ingeridas por dia. As vendas nessas na\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, parecem ter atingido um ponto de satura\u00e7\u00e3o e estagnado na \u00faltima d\u00e9cada, segundo an\u00e1lise das vendas entre 1998 e 2012 em 79 pa\u00edses, feita por Popkin, Monteiro e Jean-Claude Moubarac, do Canad\u00e1. No estudo, publicado em 2013 na\u00a0<em>Obesity Review<\/em>, eles identificaram o avan\u00e7o da ind\u00fastria transnacional de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o desses alimentos em na\u00e7\u00f5es com popula\u00e7\u00e3o de m\u00e9dia e baixa renda. No per\u00edodo, as vendas aumentaram, em m\u00e9dia, 2,8% ao ano no Peru, no M\u00e9xico, no Brasil e na Turquia e 5,5% ao ano na China, na Bol\u00edvia e na Indon\u00e9sia, entre outros. \u201cEssa ind\u00fastria \u00e9 a for\u00e7a que agora molda o sistema alimentar mundial\u201d, escreveram os pesquisadores.<\/p>\n<p>Nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas cresce entre pesquisadores, entidades m\u00e9dicas e \u00f3rg\u00e3os de defesa do consumidor a convic\u00e7\u00e3o de que existe um lado nocivo nos alimentos ricos em sal, gordura, a\u00e7\u00facar e compostos sint\u00e9ticos, agrupados por Monteiro sob o termo ultraprocessados. Em 2012, a revista\u00a0<em>PLOS Medicine<\/em>\u00a0publicou uma s\u00e9rie de artigos intitulada \u201cBig food\u201d, na qual avaliava o papel da ind\u00fastria global de alimentos sobre a sa\u00fade. Em um deles, o economista e soci\u00f3logo David Suckler, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e a nutricionista Marion Nestle, da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, lembram que o mercado mundial de alimentos e bebidas est\u00e1 concentrado na m\u00e3o de poucas multinacionais. Na \u00e9poca, as 10 maiores, as Big food, como chamam, detinham metade das vendas nos Estados Unidos e 15% no resto do mundo. Segundo Stuckler e Marion, havia evid\u00eancias de que usavam estrat\u00e9gias semelhantes \u00e0 ind\u00fastria do tabaco para escapar de regula\u00e7\u00f5es e taxa\u00e7\u00f5es. \u201cO aumento do consumo dos produtos das Big food acompanha de perto os n\u00edveis crescentes de obesidade e diabetes\u201d, afirmaram.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/020-027_alimentos_265-4b-929x1024.jpg\" width=\"912\" height=\"1005\" \/><\/p>\n<p>Em geral, formulados para serem apetitosos, baratos e durar muito, esses alimentos podem ser transportados por longas dist\u00e2ncias. \u201cO alimento industrializado \u00e9 o que permite \u00e0 boa parte das pessoas no mundo comer\u201d, ressalta a bioqu\u00edmica Bernadette Dora Gombossy de Melo Franco, professora do Departamento de Alimentos e Nutri\u00e7\u00e3o da Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas (FCF) da USP e coordenadora do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC), outro Cepid apoiado pela FAPESP. \u201cAlgumas d\u00e9cadas atr\u00e1s n\u00e3o se conseguia fazer os alimentos chegarem a regi\u00f5es distantes em pa\u00edses como o Brasil porque eram muito perec\u00edveis\u201d, conta Eduardo Purgatto, professor da FCF-USP e integrante do FoRC. \u201cO processamento mudou esse cen\u00e1rio.\u201d<\/p>\n<p>Para Velloso, da Unicamp, \u00e9 preciso compreender o papel da ind\u00fastria de duas formas. \u201cPor um lado, ela torna poss\u00edvel que parte da popula\u00e7\u00e3o em regi\u00f5es do planeta dependentes de uma produ\u00e7\u00e3o local, que pode flutuar muito, tenha certa garantia de acesso a alimentos; por outro, o consumo excessivo desses alimentos, como ocorre com a popula\u00e7\u00e3o mais pobre dos centros urbanos, pode interferir na sa\u00fade.\u201d<\/p>\n<p>Ainda que Monteiro demonstre em que grau os ultraprocessados contribuem para a obesidade, \u00e9 quase certo que esses alimentos, por si, n\u00e3o expliquem tudo. S\u00e3o conhecidos uns poucos genes que, alterados, s\u00e3o suficientes para levar uma pessoa a engordar, mas existem mais de 300 que regulam o ac\u00famulo e o consumo de energia. A complexidade biol\u00f3gica foi amplificada nas \u00faltimas d\u00e9cadas pelo aumento na oferta mundial de alimentos e por mudan\u00e7as no modo de cozinhar. Com mais disponibilidade de industrializados e o barateamento dos \u00f3leos vegetais comest\u00edveis, a ingest\u00e3o cal\u00f3rica m\u00e9dia passou de 2,4 mil quilocalorias por pessoa por dia em 1970 para 3 mil em 2015, segundo dados do Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO). Tamb\u00e9m houve uma redu\u00e7\u00e3o na atividade f\u00edsica e mudan\u00e7as no modo de preparo de alimentos. \u201cMetade dos chineses tem sobrepeso porque deixou de assar os alimentos ou prepar\u00e1-los no vapor e passou a frit\u00e1-los\u201d, conta Popkin. \u201cEm outros pa\u00edses, as pessoas engordaram por comer muito p\u00e3o, tortilhas e frituras, e n\u00e3o ultraprocessados.\u201d Bernadette concorda: \u201cColocar a culpa em uma s\u00f3 causa, sem considerar a redu\u00e7\u00e3o na atividade f\u00edsica e a forma como as pessoas cozinham, no caso brasileiro acrescentando muito sal e a\u00e7\u00facar, explica uma parte pequena do problema\u201d.<\/p>\n<p>A proposta de que os ultraprocessados formem uma categoria \u00e0 parte, reunindo o que h\u00e1 de pouco saud\u00e1vel nos alimentos, gerou um debate polarizado. Quem discorda n\u00e3o v\u00ea fundamento. Para Bernadette, falta uma defini\u00e7\u00e3o clara sobre o que \u00e9 um ultraprocessado. Michael Gibney, da University College Dublin, Irlanda, diz que seria preciso estabelecer limites de sal, a\u00e7\u00facar, gordura e aditivos para definir esses alimentos. Membro do comit\u00ea cient\u00edfico da Nestl\u00e9, Gibney publicou um coment\u00e1rio em 2017 no\u00a0<em>American Journal of Clinical Nutrition<\/em>\u00a0no qual diz ainda faltarem evid\u00eancias de que os ultraprocessados s\u00e3o quase viciantes.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/020-027_alimentos_265-3-736x1024.jpg\" width=\"784\" height=\"1091\" \/><\/p>\n<p>Em outro coment\u00e1rio, publicado em 2017 na revista\u00a0<em>EC Nutrition<\/em>, o engenheiro de alimentos Raul Amaral Rego e o bi\u00f3logo Airton Vialta, pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), vinculado \u00e0 Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de S\u00e3o Paulo e \u00e0 Ag\u00eancia Paulista de Tecnologia dos Agroneg\u00f3cios, dizem que o sistema de Monteiro \u00e9 fr\u00e1gil e conflita com classifica\u00e7\u00f5es bem estabelecidas. \u201cN\u00e3o h\u00e1 sentido pr\u00e1tico em tentar classificar os alimentos com base no grau de processamento, j\u00e1 que o mesmo alimento pode ser processado de diferentes maneiras, dependendo do produto que se quer alcan\u00e7ar\u201d, escreveram. Rego e Vialta n\u00e3o quiseram se manifestar nesta reportagem.<\/p>\n<p>J\u00e1 os apoiadores afirmam que a nova classifica\u00e7\u00e3o pode orientar medidas que beneficiem a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o. \u201cAo reunir um grupo variado de alimentos na categoria de ultraprocessados, criou-se um indicador-s\u00edntese, que permite conhecer melhor a qualidade da dieta das pessoas\u201d, afirma In\u00eas Rugani Ribeiro de Castro, da Uerj.<\/p>\n<p>Com base na nova classifica\u00e7\u00e3o, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade elaborou em 2014 o\u00a0<em>Guia alimentar para a popula\u00e7\u00e3o brasileira<\/em>. Distribu\u00eddo a 60 mil profissionais da sa\u00fade e educadores, o documento recomenda o consumo abundante de alimentos\u00a0<em>in natura<\/em>, reduzido dos processados e que se evitem os ultraprocessados. Ainda que n\u00e3o use o termo ultraprocessado, a Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa), \u00f3rg\u00e3o federal que controla o registro de medicamentos e alimentos, tenta h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada regular a publicidade de alimentos e bebidas ricos em a\u00e7\u00facares, sal e gorduras e calorias para crian\u00e7as e proibir sua comercializa\u00e7\u00e3o em escolas, como ocorre em munic\u00edpios de alguns estados. \u00c9 um esfor\u00e7o para combater os \u00edndices de sobrepeso e obesidade crescentes no pa\u00eds \u2013 hoje 15% das crian\u00e7as e 58% dos adultos est\u00e3o com peso superior ao saud\u00e1vel. Ap\u00f3s discutir por quatro anos com a sociedade e a ind\u00fastria uma proposta rigorosa de controle, a Anvisa publicou em 2010 uma resolu\u00e7\u00e3o branda, suspensa depois por a\u00e7\u00f5es judiciais interpostas pelo setor publicit\u00e1rio e de alimentos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/alimentos-5-470x1024.jpg\" width=\"794\" height=\"1730\" \/><\/p>\n<p>Com o alarmante \u00edndice de 75% da popula\u00e7\u00e3o com peso superior ao saud\u00e1vel, o Chile, de modo pioneiro, proibiu em novembro de 2017 a veicula\u00e7\u00e3o de comerciais de alimentos com excesso de calorias, sal, a\u00e7\u00facar e gorduras na televis\u00e3o aberta e fechada das 6h \u00e0s 22h. Uma lei de 2016 j\u00e1 obrigara a ind\u00fastria a alterar as embalagens dos produtos, retirando personagens ic\u00f4nicos, como o tigre que ilustrava a caixa de cerais matinais a\u00e7ucarados, e exibindo alertas sobre os n\u00edveis dos ingredientes considerados pouco saud\u00e1veis, medida que se discute atualmente no Brasil.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da restri\u00e7\u00e3o da publicidade e da mudan\u00e7a na rotulagem, Popkin, Monteiro e outros especialistas defendem o aumento da carga de impostos sobre esses alimentos. \u201cRemover os ultraprocessados da dieta \u00e9 o primeiro passo para promover h\u00e1bitos alimentares saud\u00e1veis\u201d, afirma Popkin.<\/p>\n<p>Purgatto, do FoRC, prop\u00f5e outra sa\u00edda: que setores do governo e da sociedade trabalhem com a ind\u00fastria de alimentos. \u201cS\u00f3 a ind\u00fastria\u201d, afirma, \u201cser\u00e1 capaz de produzir alimentos processados e ultraprocessados de melhor qualidade, talvez com mais fibras e prote\u00ednas, e faz\u00ea-los chegar a pre\u00e7os acess\u00edveis a boa parte da popula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Projeto<\/strong><\/p>\n<p>Consumo de alimentos ultraprocessados, perfil nutricional da dieta e obesidade em sete pa\u00edses (<a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/92613\/consumo-de-alimentos-ultraprocessados-perfil-nutricional-da-dieta-e-obesidade-em-sete-paises\/?q=15\/14900-9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">n\u00ba 15\/14900-9<\/a>);\u00a0<strong>Modalidade\u00a0<\/strong>Projeto Tem\u00e1tico;\u00a0<strong>Pesquisador respons\u00e1vel<\/strong>\u00a0Carlos Augusto Monteiro (USP);\u00a0<strong>Investimento\u00a0<\/strong>R$ 1.506.407,84.<\/p>\n<p><strong>Artigos cient\u00edficos<\/strong><\/p>\n<p>FIOLET, T.\u00a0<em>et al.<\/em>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bmj.com\/content\/360\/bmj.k322\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Consumption of\u00a0ultra-processed\u00a0foods and cancer risk: Results from NutriNet-Sant\u00e9 prospective cohort<\/a>.\u00a0<strong>British Medical Journal<\/strong>. 14 fev. 2018.<br \/>\nMENDON\u00c7A, R. D.\u00a0<em>et al.<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/27733404\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ultra-processed\u00a0food\u00a0consumption\u00a0and\u00a0risk of\u00a0overweight\u00a0and\u00a0obesity: The\u00a0University\u00a0of\u00a0Navarra follow-up (SUN)\u00a0cohort study<\/a>.\u00a0<strong>American Journal of Clinical Nutrition<\/strong>. v. 104, 5, p. 1433-40. nov. 2016.<br \/>\nMENDON\u00c7A, R. D<em>. et al.<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/27927627\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ultra-processed food consumption and the incidence of hypertension in a Mediterranean cohort: The seguimiento Universidad de Navarra project<\/a>.\u00a0<strong>American Journal of Hypertension<\/strong>. v. 30, n. 4, p. 358-66. 1\u00ba abr. 2017.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Ricardo Zorzetto, FAPESP de mar\u00e7o de\u00a02018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tratamentos f\u00edsicos e qu\u00edmicos alteram propriedades e aumentam dura\u00e7\u00e3o dos alimentos Maior consumo de ultraprocessados eleva risco de desenvolver obesidade, hipertens\u00e3o e c\u00e2ncer; ainda s\u00e3o necess\u00e1rios estudos com mais participantes para confirmar os achados Nos \u00faltimos anos vem se acirrando uma pol\u00eamica em torno dos alimentos industrializados, em especial aqueles ricos em a\u00e7\u00facares, gorduras, sal&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-23680","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - 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