{"id":23740,"date":"2021-10-26T11:00:32","date_gmt":"2021-10-26T14:00:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=23740"},"modified":"2021-10-26T09:06:58","modified_gmt":"2021-10-26T12:06:58","slug":"a-lenta-transicao-da-fecundidade-na-africa-subsaariana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-lenta-transicao-da-fecundidade-na-africa-subsaariana\/","title":{"rendered":"A lenta transi\u00e7\u00e3o da fecundidade na \u00c1frica Subsaariana"},"content":{"rendered":"<p>Por EcoDebate de 11 de abril de 2018<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o da fecundidade \u00e9 um dos fen\u00f4menos sociais de mudan\u00e7a de comportamento de massa mais importantes da hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p>Existe consenso na queda da mortalidade. Mas n\u00e3o existe a mesma unanimidade diante da queda da fecundidade, pois h\u00e1 muitas \u201cescoras culturais pronatalistas\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.ecodebate.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/20180411-180411a.png\" alt=\"taxas de fecundidade total para regi\u00c3\u00b5es do mundo: 1950-2100\" width=\"800\" height=\"529\" \/><\/p>\n<p>Mesmo assim, praticamente todos os pa\u00edses e regi\u00f5es do mundo (o N\u00edger \u00e9 uma grande exce\u00e7\u00e3o) j\u00e1 iniciaram o processo de transi\u00e7\u00e3o da fecundidade.<\/p>\n<p>Contudo, o n\u00edvel, o padr\u00e3o, o in\u00edcio, o ritmo de queda e o final do processo variam sobremaneira.<\/p>\n<p>De modo geral, pode-se dizer que a Europa (e pa\u00edses de forte influ\u00eancia europeia como EUA, Canad\u00e1 e Austr\u00e1lia) liderou a transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica, pois foi o continente que, ainda no s\u00e9culo XIX, experimentou a redu\u00e7\u00e3o do tamanho m\u00e9dio das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>O gr\u00e1fico acima mostra que a taxa de fecundidade total (TFT) dos pa\u00edses desenvolvidos j\u00e1 estava abaixo de 3 filhos por mulher em 1950. A \u00c1sia, a Am\u00e9rica Latina e Caribe (ALC) e a \u00c1frica Subsaariana tinham TFT acima de 6 filhos por mulher.<\/p>\n<p>Contudo, a \u00c1sia e a ALC iniciaram a transi\u00e7\u00e3o da fecundidade na d\u00e9cada de 1960 e devem ficar com TFT abaixo do n\u00edvel de reposi\u00e7\u00e3o (2,1 filhos por mulher) j\u00e1 na d\u00e9cada de 2020.<\/p>\n<p>Entretanto, a transi\u00e7\u00e3o da fecundidade da \u00c1frica Subsaariana s\u00f3 come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1980 e acontece de forma lenta, quando comparada com as outras regi\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p>O gr\u00e1fico abaixo mostra que o tempo gasto para a TFT passar de mais de 5 filhos para menos de 2,1 filhos por mulher foi de 50 anos na ALC e de 55 anos na \u00c1sia.<\/p>\n<p>Por\u00e9m vai gastar 100 anos na \u00c1frica Subsaariana. Como come\u00e7ou mais tarde e vai demorar mais tempo, a lenta transi\u00e7\u00e3o da \u00c1frica Subsaariana vai fazer com que a m\u00e9dia mundial gaste 110 anos para passar de 5 para 2,1 filhos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.ecodebate.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/20180411-180411b.png\" alt=\"tempo para a taxa de fecundidade total cair\" width=\"800\" height=\"542\" \/><\/p>\n<p>A tabela abaixo mostra o ultimo quinqu\u00eanio antes da TFT cair abaixo de 5 filhos por mulher e o primeiro quinqu\u00eanio com TFT abaixo do n\u00edvel de reposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nota-se que a \u00c1frica Subsaariana s\u00f3 ter\u00e1 fecundidade abaixo de 2,1 filhos por mulher no s\u00e9culo XXII. Isto tamb\u00e9m vai atrasar a redu\u00e7\u00e3o da fecundidade na m\u00e9dia mundial.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.ecodebate.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/20180411-180411c.png\" alt=\"tempo de passagem de mais de 5 filho para menos de 2,1 filhos por mulher\" width=\"804\" height=\"231\" \/><\/p>\n<p>O efeito de uma transi\u00e7\u00e3o da fecundidade tardia \u00e9 o r\u00e1pido crescimento demogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Segundo a Divis\u00e3o de Popula\u00e7\u00e3o da ONU, em 1950, a popula\u00e7\u00e3o da Europa era de 549 milh\u00f5es de habitantes, de 544 milh\u00f5es na China, de 376 milh\u00f5es na \u00cdndia, 179 milh\u00f5es na \u00c1frica Subsaariana e 169 milh\u00f5es na Am\u00e9rica Latina e Caribe (ALC).<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o somada de Europa, China, \u00cdndia e ALC era de 1,6 bilh\u00e3o de habitantes, sendo que a popula\u00e7\u00e3o da \u00c1frica Subsaariana naquela \u00e9poca representava cerca de 10% deste total.<\/p>\n<p>Mas como o ritmo da transi\u00e7\u00e3o da fecundidade foi diferente em termos nacionais e regionais a distribui\u00e7\u00e3o espacial e o ritmo de crescimento populacional mudou a configura\u00e7\u00e3o entre os continentes.<\/p>\n<p>Em 2016, a Europa j\u00e1 apresentava o segundo menor contingente de habitantes (641 milh\u00f5es) a China e a \u00cdndia ficavam com primeiro e segundo lugar e a \u00c1frica Subsaariana, com 1 bilh\u00e3o de habitantes ficava em terceiro lugar.<\/p>\n<p>Para 2046, a situa\u00e7\u00e3o vai mudar bastante conforme as proje\u00e7\u00f5es m\u00e9dias da ONU.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o da \u00c1frica Subsaariana deve atingir 2 bilh\u00f5es de habitantes, ficando em primeiro lugar. Em seguida vem a \u00cdndia com 1,7 bilh\u00e3o de habitantes, superando a China (com 1,36 bilh\u00e3o), a ALC com 779 milh\u00f5es de habitantes, superando a Europa com 711 milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>Na segunda metade do s\u00e9culo XXI, a popula\u00e7\u00e3o vai decrescer na maior parte do mundo, mas vai continuar crescendo na \u00c1frica Subsaariana e deve atingir 3 bilh\u00f5es de habitantes em 2072 e 4 bilh\u00f5es de habitantes em 2100.<\/p>\n<p>Ou seja, no final do s\u00e9culo, a popula\u00e7\u00e3o da \u00c1frica Subsaariana ser\u00e1 equivalente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de \u00cdndia, China, Europa e ALC tamb\u00e9m com 4 bilh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>Portanto, entre 2016 e 2100 a popula\u00e7\u00e3o da \u00c1frica Subsaariana vai passar de 1 bilh\u00e3o para 4 bilh\u00f5es de habitantes, colocando um grande desafio para a redu\u00e7\u00e3o da pobreza, a melhoria da qualidade de vida e a sustentabilidade ambiental.<\/p>\n<p>H\u00e1 que destacar que o Norte da \u00c1frica j\u00e1 est\u00e1 em uma fase mais adiantada da transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica e deve apresentar estabilidade do crescimento at\u00e9 o final do s\u00e9culo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.ecodebate.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/20180411-180411d.png\" alt=\"popula\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o da \u00c3\u00a1frica subsaariana, europa, alc, china e \u00c3\u00adndia\" width=\"800\" height=\"548\" \/><\/p>\n<p>Para entender a lenta transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica da \u00c1frica Subsaariana vale a pena ler o trabalho Africa\u2019s unique fertility transition, do dem\u00f3grafo John Bongaarts, publicado na prestigiosa revista acad\u00eamica<\/p>\n<p>Population and Development Review (PDR), em 2017. Segundo o autor, a diferen\u00e7a da \u00c1frica Subsaariana em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 outros pa\u00edses e regi\u00f5es \u00e9 que a transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica acontece de maneira tardia (later), em ritmo mais lento (slower), teve in\u00edcio em um limiar de desenvolvimento mais baixo (Earlier) e o n\u00edvel da fecundidade \u00e9 elevado (higher) do que em outras regi\u00f5es do mundo, assim como \u00e9 menor o uso de m\u00e9todos contraceptivos. Segue abaixo as conclus\u00f5es do artigo de J. Bongaarts:<\/p>\n<p>\u201c<em>The slow pace of the African transitions and the occasional stalling of fertility declines can therefore be attributed to several factors. First, the pace of African development has been slow and, other things being equal, this alone would lead to slower transitions. Second, the pronatalist nature of African societies implies a resistance to fertility decline that is absent or weaker in non-African countries. Finally, although I have not examined the role of family planning programs in Africa, the fact that these programs remain weak in many African countries undoubtedly contributes to slow transitions in much of the continent. By contrast, in the few countries where governments have made family planning programs a priority (e.g., Ethiopia, Malawi, and Rwanda), rapid uptake of contraception and fertility decline have followed<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Artigo de David Shapiro, Andrew Hinde (N\u2019IUSSP, 18\/12\/2017) discute as implica\u00e7\u00f5es da lenta transi\u00e7\u00e3o da fecundidade na \u00c1frica Subsaariana. Eles dizem:<\/p>\n<p>\u201c<em>Why might this be? One clue is the lower level of variability within sub-Saharan Africa in the pace of fertility decline than was experienced in the other regions. This suggests that there may be pan-African (or at least pan-sub-Saharan African) cultural factors which act as a drag on fertility decline. Two possibilities are the continuing importance of the extended family and child fostering, both of which may be associated with a high demand for children who \u2018belong\u2019 to the extended family, rather than their biological parents. Besides, the solidarity associated with the extended family reduces the costs of children to their biological parents<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que a lenta transi\u00e7\u00e3o da fecundidade na \u00c1frica Subsaariana \u2013 ao manter alto crescimento populacional e uma alta raz\u00e3o de depend\u00eancia de jovens \u2013 retarda o aproveitamento do b\u00f4nus demogr\u00e1fico, agrava a situa\u00e7\u00e3o da \u201carmadilha da pobreza\u201d e compromete um futuro de bem-estar populacional.<\/p>\n<p>Segundo Costa Azariadis, no artigo \u201cThe theory of poverty traps: What have we learned?\u201d (2004), um pa\u00eds encontra-se em c\u00edrculo vicioso quando a situa\u00e7\u00e3o de pobreza convive com baixos n\u00edveis de investimento em educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade p\u00fablica, quando existem altas taxas de mortalidade infantil, grande inseguran\u00e7a p\u00fablica, baixa esperan\u00e7a de vida, reduzido tempo de vida dedicado ao trabalho produtivo, baixo investimento em infraestrutura e baixos investimentos em setores produtivos, ci\u00eancia e tecnologia, etc. A armadilha da pobreza seria uma situa\u00e7\u00e3o em que o alto crescimento do n\u00famero de pessoas pobres dificultaria a redu\u00e7\u00e3o da percentagem da popula\u00e7\u00e3o pobre do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Azariadis considera que para sair da armadilha da pobreza \u00e9 preciso garantir uma boa governan\u00e7a, manter a estabilidade institucional, combater os governos cleptoman\u00edacos, aumentar os investimentos em pol\u00edticas p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e habita\u00e7\u00e3o, reduzir as taxas de mortalidade infantil e de fecundidade, aumentar o percentual da popula\u00e7\u00e3o em idade ativa, aumentar a esperan\u00e7a de vida, aumentar as taxas de poupan\u00e7a e investimentos, aprofundar a base t\u00e9cnica para a produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os e para a maior gera\u00e7\u00e3o de empregos e prote\u00e7\u00e3o social, etc.<\/p>\n<p>Artigo publicado na prestigiosa revista Nature (OSGOOD-ZIMMERMAN, 2018) mostra que nenhum pa\u00eds africano conseguir\u00e1 alcan\u00e7ar o objetivo da ONU de acabar com a desnutri\u00e7\u00e3o infantil at\u00e9 2030. O estudo descobriu que os indicadores de desnutri\u00e7\u00e3o permaneceram \u201cpersistentemente elevados\u201d em 14 pa\u00edses, estendendo por todo o Sahel africano, do Senegal na costa oeste \u00e0 Eritr\u00e9ia na costa leste.<\/p>\n<p>Para piorar a situa\u00e7\u00e3o, existe uma grande degrada\u00e7\u00e3o dos solos e das \u00e1guas, al\u00e9m do aumento da desertifica\u00e7\u00e3o. Estudo da Universidade de Maryland (2018) mostra que o Deserto do Saara se expandiu em cerca de 10% desde 1920. A pesquisa \u00e9 a primeira a avaliar mudan\u00e7as em escala de um s\u00e9culo nas fronteiras do maior deserto do mundo e sugere que outros desertos poderiam estar se expandindo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Desta forma, somente com mudan\u00e7as sociais, econ\u00f4micas, pol\u00edticas e culturais se pode passar do c\u00edrculo vicioso da pobreza para o c\u00edrculo virtuoso do desenvolvimento humano e ambientalmente sustent\u00e1vel. Muita coisa precisa ser feita. Mas, indubitavelmente, a acelera\u00e7\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o da fecundidade \u00e9 uma das pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es para a supera\u00e7\u00e3o da pobreza e a defesa do meio ambiente na \u00c1frica Subsaariana.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>JOHN BONGAARTS. Africa\u2019s Unique FertilityTransition. PDR, Volume 43, Issue Supplement S1, May 2017<br \/>\n<a href=\"http:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1728-4457.2016.00164.x\/epdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1728-4457.2016.00164.x\/epdf<\/a><\/p>\n<p>David Shapiro, Andrew Hinde. The pace of fertility decline in Sub-Saharan Africa, N\u2019IUSSP, 18\/12\/2017<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.niussp.org\/article\/the-pace-of-fertility-decline-in-sub-saharan-africa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.niussp.org\/article\/the-pace-of-fertility-decline-in-sub-saharan-africa\/<\/a><\/p>\n<p>OSGOOD-ZIMMERMAN, A, et. al. Mapping child growth failure in Africa between 2000 and 2015, Nature volume 555, pages 41\u201347 (01 March 2018)<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/nature25760\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.nature.com\/articles\/nature25760<\/a><\/p>\n<p>University of Maryland. The Sahara Desert is expanding\u2014world\u2019s largest desert grew by 10 percent since 1920, March 29, 2018<br \/>\n<a href=\"https:\/\/phys.org\/news\/2018-03-sahara-expandingworld-largest-grew-percent.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/phys.org\/news\/2018-03-sahara-expandingworld-largest-grew-percent.html<\/a><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Eust\u00e1quio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, \u00e9 Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em Popula\u00e7\u00e3o, Territ\u00f3rio e Estat\u00edsticas P\u00fablicas da Escola Nacional de Ci\u00eancias Estat\u00edsticas \u2013 ENCE\/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em car\u00e1ter pessoal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por EcoDebate de 11 de abril de 2018 &nbsp; A transi\u00e7\u00e3o da fecundidade \u00e9 um dos fen\u00f4menos sociais de mudan\u00e7a de comportamento de massa mais importantes da hist\u00f3ria da humanidade. 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