{"id":24278,"date":"2018-05-30T15:00:42","date_gmt":"2018-05-30T18:00:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=24278"},"modified":"2018-05-22T10:19:37","modified_gmt":"2018-05-22T13:19:37","slug":"o-mundo-precisa-de-adultos-responsaveis-nao-de-otimismo-infantilizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-mundo-precisa-de-adultos-responsaveis-nao-de-otimismo-infantilizado\/","title":{"rendered":"O mundo precisa de adultos respons\u00e1veis, n\u00e3o de otimismo infantilizado"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/05\/21\/politica\/1526914514_866691_1526915118_noticia_normal.jpg\" alt=\"Crise da \u00c3\u00a1gua em S\u00c3\u00a3o Paulo\" \/><em><span class=\"foto-texto\">Carro abandonado em Atibainha, que integra o sistema Cantareira, em 2015<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">ANDR\u00c9 PENNER<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">AP<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p><strong>Como fazer para que as pessoas acordem para a mudan\u00e7a clim\u00e1tica na \u00e9poca do entretenimento?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, a maior cidade do Brasil, pode enfrentar mais uma vez uma crise da \u00e1gua em ano eleitoral. E n\u00e3o em qualquer elei\u00e7\u00e3o, mas nesta que se anuncia como uma das mais duras e truculentas da hist\u00f3ria recente, agravada ainda pelas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/bulos_internet\/a\">\u201c<em>fake news<\/em>\u201d<\/a>. Na primeira crise da \u00e1gua, em 2014, o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/10\/27\/opinion\/1414418707_927989.html\">governador Geraldo Alckmin (PSDB)<\/a>\u00a0reelegeu-se no primeiro turno afirmando que estava \u201ctudo sob controle\u201d. Apesar das evid\u00eancias cotidianas de que algo muito grave estava acontecendo, a maioria da popula\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo preferiu acreditar que tudo ia ficar bem e a vida poderia ser retomada sem maiores altera\u00e7\u00f5es. A descoberta mais importante revelada pela crise foi o n\u00edvel de desconex\u00e3o com a realidade a que as pessoas podem chegar para n\u00e3o serem obrigadas a enfrentar as dificuldades, fazer mudan\u00e7as permanentes na vida e pressionar os governantes e legisladores por pol\u00edticas p\u00fablicas. E como est\u00e3o dispostas a acreditar em qualquer um que pronuncie a express\u00e3o \u201csob controle\u201d. O problema \u00e9 que qualquer pessoa que diga, em tempos de mudan\u00e7a clim\u00e1tica, que algo est\u00e1 \u201csob controle\u201d ou \u00e9 mentiroso ou \u00e9 maluco. Mas de novo estamos voltando a esse tipo de irresponsabilidade alimentada pela incapacidade de se responsabilizar de adultos infantilizados que preferem acreditar em qualquer estupidez a ter que enfrentar o mal-estar que sentem nos ossos.<\/p>\n<p>No evento que marcou os 15 anos do\u00a0<a href=\"http:\/\/pactoglobal.org.br\/confira-programacao-do-forum-pacto-global-2018\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">F\u00f3rum Pacto Global<\/a>, da Rede Brasil das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em 16 de maio, Vicente Andreu, ex-presidente da Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (ANA), fez uma interven\u00e7\u00e3o contundente no palco do audit\u00f3rio do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/masp_museo_arte_sao_paulo_assis_chateubriand\/a\">Museu de Arte de S\u00e3o Paulo (MASP)<\/a>: \u201cN\u00e3o \u00e9 justo vir a um evento desses e n\u00e3o falar o que (a pessoa) realmente sente. A \u00e1gua no Brasil \u00e9 uma agenda pol\u00edtica rebaixada. O tema da \u00e1gua s\u00f3 aparece na elei\u00e7\u00e3o como trag\u00e9dia e den\u00fancia, sem propostas\u201d, afirmou.<\/p>\n<p><em>\u201cA normalidade agora \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o\u201d<\/em><\/p>\n<p>As s\u00e9ries hist\u00f3ricas, algo t\u00e3o mencionado na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/crisis_hidrica\/a\">crise de 2014<\/a>, j\u00e1 n\u00e3o fazem sentido num planeta alterado pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica. \u201cAs nossas s\u00e9ries hist\u00f3ricas, aquele mecanismo que a gente sempre utilizou, de olhar pra tr\u00e1s para projetar o futuro, acabou. N\u00e3o tem mais condi\u00e7\u00f5es de se fazer absolutamente nada com as s\u00e9ries brasileiras. Eu sou estat\u00edstico de forma\u00e7\u00e3o&#8230; Quem tentar fazer alguma correla\u00e7\u00e3o com as s\u00e9ries hist\u00f3ricas nos \u00faltimos dez anos no Brasil aqui no Cantareira (principal sistema de abastecimento de \u00e1gua de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sao_paulo\/a\">S\u00e3o Paulo<\/a>) matematicamente faz, mas pra que serve?\u201d, questionou Andreu, um dos principais articuladores do F\u00f3rum Mundial da \u00c1gua, que se realizou pela primeira vez no Brasil em mar\u00e7o. \u201cA variabilidade do per\u00edodo do ciclo hidrol\u00f3gico em fun\u00e7\u00e3o das\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cambio_climatico\/a\">mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a>\u00a0est\u00e1 completamente alterada no Brasil e no mundo. E ainda se tenta explicar o amanh\u00e3 por uma m\u00e9dia&#8230;. Fica mais ou menos assim: n\u00e3o t\u00e1 na m\u00e9dia nunca. A\u00ed, no ano que d\u00e1 na m\u00e9dia, algu\u00e9m corre l\u00e1 e diz: \u2018\u00d3, voltou ao normal, voltou pra m\u00e9dia\u2019. Mas a normalidade agora \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Segundo Vicente Andreu, existe a possibilidade de uma crise da \u00e1gua em S\u00e3o Paulo ainda pior do que a de 2014. Ele afirma tamb\u00e9m que, apesar de o Cantareira ter deixado de abastecer 1,6 milh\u00e3o de pessoas, o consumo seria hoje de 300 litros por habitante ao dia, o mesmo que antes da crise. \u201cO gr\u00e1fico de abril no Cantareira bateu em 2014. Se n\u00e3o chover em maio vai ser pior do que 2014. Ent\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 mais pra tentar vender para as pessoas uma seguran\u00e7a que n\u00e3o tem. N\u00f3s temos que afirmar, sem vergonha: \u2018N\u00e3o sei, n\u00e3o sabemos\u2019\u201d, diz. \u201cTemos que trabalhar com o princ\u00edpio da precau\u00e7\u00e3o. E o princ\u00edpio da precau\u00e7\u00e3o \u00e9, por natureza, pessimista. Essas coisas precisam ser tratadas de maneira verdadeira, com a complexidade, com as incertezas que as coisas t\u00eam, para que as pessoas acreditem. Se elas n\u00e3o acreditarem, n\u00e3o adianta nada.\u201d<\/p>\n<p><em>Ser respons\u00e1vel hoje \u00e9 afirmar que a situa\u00e7\u00e3o N\u00c3O est\u00e1 sob controle<\/em><\/p>\n<p>Ser respons\u00e1vel hoje \u00e9 afirmar que a situa\u00e7\u00e3o N\u00c3O est\u00e1 sob controle. Por irresponsabilidade geral, a crise de 2014 n\u00e3o provocou mudan\u00e7as significativas e permanentes nos padr\u00f5es de consumo. H\u00e1 muito o que fazer na ind\u00fastria e na agricultura, que t\u00eam muito mais impacto, assim como nas casas das pessoas. Nem foram feitos os investimentos necess\u00e1rios em reflorestamento e recupera\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o do entorno do Cantareira, uma medida mais do que urgente. A\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/mata_atlantica\/a\">Mata Atl\u00e2ntica<\/a>\u00a0\u00e9 uma floresta arrasada. \u00c9 preciso recuper\u00e1-la. Quem se agarra a s\u00e9ries hist\u00f3ricas est\u00e1, de fato, se agarrando a seus empregos num planeta que j\u00e1 mudou.<\/p>\n<p>Pode chover mais ou menos neste ano. A crise da \u00e1gua pode ser maior ou menor. O que \u00e9 preciso compreender \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 uma crise e outra crise l\u00e1 n\u00e3o sei quando, mas uma cat\u00e1strofe em curso, uma realidade deste momento hist\u00f3rico com a qual temos que lidar, na qual haver\u00e1 um n\u00famero maior e mais frequente de eventos extremos. N\u00e3o \u00e9 opcional. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica est\u00e1 a\u00ed. E n\u00e3o vai embora porque enfiamos a cabe\u00e7a dentro de um frasco de Rivotril.<\/p>\n<p><em>Os adultos de hoje t\u00eam mentalidade de s\u00e9culo 20 e criam filhos com mentalidade de s\u00e9culo 20<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias barreiras travando o enfrentamento desse momento de urg\u00eancia. A primeira delas \u00e9 que os adultos dessa \u00e9poca carregam uma mentalidade de s\u00e9culo 20 e est\u00e3o criando filhos com uma mentalidade de s\u00e9culo 20. Ainda com a convic\u00e7\u00e3o de que bastam obras e tecnologia que tudo se resolver\u00e1, na cren\u00e7a absoluta da pot\u00eancia humana. Seguidamente sem perceber que esse \u201cpode tudo\u201d causou uma mudan\u00e7a na Terra. Tanto que cientistas respeitados defendem a altera\u00e7\u00e3o do nome desse intervalo de tempo geol\u00f3gico do planeta, que passaria a se chamar de Antropoceno \u2013 ou o per\u00edodo em que a esp\u00e9cie humana se tornou uma for\u00e7a capaz de deformar a paisagem global.<\/p>\n<p>Outra barreira \u00e9 o momento geopol\u00edtico,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/06\/01\/internacional\/1496334641_201201.html\">com um pesadelo como Donald Trump liderando a maior pot\u00eancia mundial<\/a>\u00a0e as democracias em crise existencial profunda. No Brasil, que abriga a maior por\u00e7\u00e3o da maior floresta tropical do mundo e deveria estar dando exemplo, mas n\u00e3o est\u00e1, perdeu-se a chance de fazer uma grande mudan\u00e7a de paradigma quando S\u00e3o Paulo viveu a crise da \u00e1gua. Os interesses eleitoreiros se impuseram, e a popula\u00e7\u00e3o, j\u00e1 esgotada por tantas dificuldades econ\u00f4micas e decep\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, se deixou alienar mais uma vez.<\/p>\n<p>O debate s\u00e9rio sobre a \u00e1gua e a mudan\u00e7a clim\u00e1tica s\u00f3 entrar\u00e1 na pauta das elei\u00e7\u00f5es deste ano se houver muita press\u00e3o dos eleitores. Sem pol\u00edticas p\u00fablicas para enfrentar os desafios do aquecimento global e outras altera\u00e7\u00f5es provocadas pelo humano, o que inclui desde zerar o desmatamento na Amaz\u00f4nia at\u00e9 ampliar o saneamento b\u00e1sico para toda a popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 enfrentamento de fato. Mas o contexto \u00e9 de rebaixamento da pol\u00edtica, de um modo geral, e de baixa credibilidade dos pol\u00edticos tradicionais. Para agravar, Jair Bolsonaro, que j\u00e1 se revelou incans\u00e1vel no ato de proclamar sua ignor\u00e2ncia sobre todos os temas,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/05\/14\/politica\/1526313397_289889.html\">lidera as inten\u00e7\u00f5es de voto em cen\u00e1rios sem Lula.<\/a><\/p>\n<p>Quem trabalha com as quest\u00f5es da mudan\u00e7a clim\u00e1tica tem se feito uma pergunta recorrente: como fazer com que as pessoas compreendam o que acontece hoje no planeta e passem a agir, o que significa tanto pressionar o poder p\u00fablico para tomar as medidas necess\u00e1rias quanto mudar padr\u00f5es arraigados e se adaptar a uma vida que ser\u00e1 diferente? Havia a expectativa de que S\u00e3o Paulo, pelo tamanho e import\u00e2ncia que tem no cen\u00e1rio brasileiro, pudesse ser um laborat\u00f3rio de conscientiza\u00e7\u00e3o e propostas criativas durante\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/02\/02\/opinion\/1422883484_909975.html\">a crise da \u00e1gua que come\u00e7ou em 2014<\/a>. Mas a oportunidade foi perdida. E a crise da \u00e1gua logo foi esquecida pelos que ainda t\u00eam o privil\u00e9gio de poder esquec\u00ea-la, como se tivesse sido apenas um solu\u00e7o.<\/p>\n<p>Com os \u00edndices do Cantareira se revelando mais uma vez perigosos, as falsifica\u00e7\u00f5es e mascaramentos j\u00e1 come\u00e7aram. Nesta segunda-feira, 21 de maio, o Cantareira estava com 47,8% da capacidade. Em 2012 e 2013, anos que antecederam \u00e0 crise, o Cantareira operava com 73,5% e 61,5%,\u00a0<a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/cotidiano\/ultimas-noticias\/2018\/05\/12\/reservatorio-do-cantareira-tem-nivel-mais-baixo-do-que-o-da-pre-crise-de-2014.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">segundo reportagem do UOL<\/a>. Mas a Sabesp (empresa de saneamento do estado de S\u00e3o Paulo) j\u00e1 afirmou que \u201cn\u00e3o h\u00e1 motivo para preocupa\u00e7\u00e3o\u201d. A irresponsabilidade do \u201csob controle\u201d j\u00e1 come\u00e7a a ecoar. Afinal, Geraldo Alckmin deixou o cargo de governador de S\u00e3o Paulo para disputar a presid\u00eancia da Rep\u00fablica pelo PSDB.<\/p>\n<p><em>A neurose do otimismo converte os pessimistas em traidores<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 ainda uma outra barreira impedindo que as pessoas despertem. E esta pode ser a mais dif\u00edcil de transpor. Esse momento da hist\u00f3ria, no qual a mudan\u00e7a clim\u00e1tica se torna o maior desafio, encontra um tipo de humano que foi moldado pela ind\u00fastria do entretenimento. Homens e mulheres se tornaram adultos infantilizados esperando que lhes digam o que est\u00e1 acontecendo, o que pensar e como reagir, e o que t\u00eam de consumir a cada vez, de produtos materiais a conceitos. \u00c9 nessa chave que entra a atual neurose do \u201cotimismo\u201d, que faz com que os \u201cpessimistas\u201d se tornem uma esp\u00e9cie de traidores que n\u00e3o querem que o mundo melhore.<\/p>\n<p>J\u00e1 escrevi neste espa\u00e7o e n\u00e3o me canso de repetir: acusar o mal-estar dessa \u00e9poca \u00e9 um sinal de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/salud_mental\/a\">sa\u00fade mental.<\/a>\u00a0Agir como carneiros saltitantes de desenho animado enquanto a Amaz\u00f4nia \u00e9 destru\u00edda, a falta de \u00e1gua amea\u00e7a S\u00e3o Paulo, o \u00c1rtico degela aceleradamente, os eventos clim\u00e1ticos extremos se sucedem e as popula\u00e7\u00f5es mais fr\u00e1geis come\u00e7am a se deslocar pode demonstrar dificuldade para se conectar com a realidade. Com essa nega\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso se preocupar.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 para esse tipo de comportamento que a ind\u00fastria de entretenimento preparou a gera\u00e7\u00e3o de consumidores de emo\u00e7\u00f5es que a\u00ed est\u00e1. E est\u00e1 preparando a nova que vai assumir essa encrenca. As carinhas sorridentes, a raivinha e os cora\u00e7\u00f5ezinhos das redes sociais s\u00e3o um est\u00e1gio a mais na infantiliza\u00e7\u00e3o da humanidade. Somos adultos botando desenhos fofos em posts o dia inteiro.<\/p>\n<p>Por raz\u00f5es profissionais, costumo frequentar eventos sobre temas s\u00e9rios. Tenho percebido que, de forma acelerada, parte desses encontros t\u00eam se tornado, nos \u00faltimos anos, cada vez mais parecidos com programas de TV que os americanos adoram e que parte do mundo imita. Ou seja: temas do momento com divers\u00e3o e muitas piadinhas. De prefer\u00eancia, o palestrante ou debatedor deve se comportar como um artista de\u00a0<em>stand up<\/em>. A plateia, gente adulta, claramente espera ser entretida. Diga que o mundo est\u00e1 acabando, mas de um jeito palat\u00e1vel. Em seguida, fa\u00e7a uma gra\u00e7a. A plateia ri. \u00c0s vezes faz uhuhuhu. Tudo \u00e9 performance. N\u00e3o se trata de condenar o riso, pelo contr\u00e1rio. O que me refiro \u00e9 ao espanto de que isso seja necess\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 algo casual, isso molda a est\u00e9tica e a \u00e9tica.<\/p>\n<p><em>O \u201cotimismo\u201d foi al\u00e7ado a uma esp\u00e9cie de superioridade moral<\/em><\/p>\n<p>Assim, quem apenas diz o que precisa ser dito \u00e9 um chato. E o chato ganhou outro nome: \u201cpessimista\u201d. Nesse contexto, o \u201cotimismo\u201d foi al\u00e7ado a um tipo de superioridade moral. \u00c9 preciso ter pensamento \u201cpositivo\u201d para ser um bom consumidor, tamb\u00e9m de conceitos. \u00c9 preciso ser divertido, leve, bem humorado. Se n\u00e3o provocar divers\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio produzir algum sentimento que seja consum\u00edvel, como enlevar o p\u00fablico. Dar \u00e0 plateia algo que ela sinta que ganhou naquele momento, mas que n\u00e3o a perturbe al\u00e9m daquele momento. Algo que n\u00e3o a deixe chateada nem estrague o seu dia. A ideia n\u00e3o \u00e9 produzir movimento, mas oferecer ao consumo do p\u00fablico um produto que venda a sensa\u00e7\u00e3o de movimento.<\/p>\n<p>No dia 18 de maio, o ambientalista americano Paul Hawken lan\u00e7ou a edi\u00e7\u00e3o brasileira de\u00a0<em>Drawdown \u2013 100 iniciativas pra resolver a crise clim\u00e1tica<\/em>\u00a0(Manole), traduzido por Fernando Gomes do Nascimento. Num evento no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/mam_museo_arte_moderno_sao_paulo\/a\">Museu de Arte Moderna (MAM)<\/a>, no Parque do Ibirapuera, em S\u00e3o Paulo, ele falou sobre como \u00e9 preciso encontrar uma linguagem para que as pessoas possam alcan\u00e7ar os conceitos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica e terem a chance de mudar a si mesmas.<\/p>\n<p>E exemplifica. Se ele chegasse em qualquer lugar de S\u00e3o Paulo e perguntasse sobre o que fazer a respeito dos 2 graus Celsius, ningu\u00e9m teria qualquer ideia ou interesse no assunto. Mas esse \u00e9 o limite de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/calentamiento_global\/a\">aquecimento global<\/a>\u00a0que n\u00e3o pode ser ultrapassado, embora tudo indique que ser\u00e1. \u00c9 talvez o n\u00famero mais importante desse momento hist\u00f3rico para todas as pessoas. Mas, segundo Hawken, e ele tem raz\u00e3o, \u00e9 preciso encontrar outra maneira de conversar sobre isso, porque a forma como os cientistas \u2013 e tamb\u00e9m os jornalistas \u2013 falam n\u00e3o est\u00e1 alcan\u00e7ando o p\u00fablico. Ele acredita ser preciso dar informa\u00e7\u00f5es \u00e0s pessoas, para que elas fa\u00e7am suas pr\u00f3prias escolhas \u2013 e n\u00e3o impor a elas o que tem de ser feito.<\/p>\n<p>No evento de lan\u00e7amento, apresentado pelo jornalista Paulo Lima, com a participa\u00e7\u00e3o do cientista do clima Carlos Nobre e da modelo\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/gisele_bundchen\/a\">Gisele B\u00fcndchen<\/a>, a linguagem parece ter agradado \u00e0 plateia, que reagia com anima\u00e7\u00e3o. O livro \u00e9 importante e faz um esfor\u00e7o de apresentar solu\u00e7\u00f5es que a maioria das pessoas pode compreender. E qualquer esfor\u00e7o nesse sentido deve ser bem recebido.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 interessante observar como a \u201cvenda\u201d do livro aposta no pensamento positivo, no respeito \u00e0 escolha do indiv\u00edduo e na ideia da superioridade moral do otimismo. Aposta tamb\u00e9m na \u201coportunidade\u201d representada pela crise clim\u00e1tica de uma mudan\u00e7a para melhor na humanidade. O aquecimento global como uma \u201cben\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o como uma \u201cmaldi\u00e7\u00e3o\u201d, como chegou a ser dito. \u201cConsideramos o aquecimento global n\u00e3o como um fato inevit\u00e1vel, mas como um convite para construir, inovar e efetuar mudan\u00e7as, um caminho que desperta a nossa criatividade, compaix\u00e3o e inventividade. Esta n\u00e3o \u00e9 uma agenda liberal, nem uma agenda conservadora: essa \u00e9 a agenda humana\u201d, escreve Paul Hawken.<\/p>\n<p>Na abertura do evento, Pedro Paulo Diniz destacou que essa abordagem da mudan\u00e7a clim\u00e1tica pelo pensamento positivo e pelas solu\u00e7\u00f5es, em contraposi\u00e7\u00e3o ao discurso do apocalipse clim\u00e1tico, \u00e9 o que o atraiu nas ideias de Paul Hawken. Herdeiro de uma das fam\u00edlias mais ricas do Brasil, Diniz tem se dedicado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de produtos org\u00e2nicos em sua fazenda e \u00e9 um dos fundadores do\u00a0<em>Believe.Earth<\/em>, movimento de hist\u00f3rias positivas por um desenvolvimento sustent\u00e1vel lan\u00e7ado em 2017 no RockInRio.<\/p>\n<p><em>Se a mudan\u00e7a clim\u00e1tica lan\u00e7a a humanidade no mesmo barco, n\u00e3o \u00e9 permitido esquecer que h\u00e1 barquinhos de papel e h\u00e1 iates de luxo<\/em><\/p>\n<section id=\"sumario_6|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\"><\/div>\n<\/section>\n<p>A ideia de uma \u201cagenda humana\u201d \u00e9 bonita \u2013 e os \u201c<em>believers<\/em>\u201d, como se apresentam, s\u00e3o bem intencionados. Mas \u00e9 necess\u00e1rio observar que essa ideia tem sido usada por diferentes for\u00e7as pol\u00edticas para borrar algo que atravessa a mudan\u00e7a clim\u00e1tica: a desigualdade social e racial. Se a mudan\u00e7a clim\u00e1tica lan\u00e7a todos no mesmo barco, como esp\u00e9cie humana habitando o mesmo planeta, a realidade \u00e9 que h\u00e1 barcos que afundam primeiro, h\u00e1 barcos que j\u00e1 est\u00e3o afundando, e nesses barcos inseguros est\u00e3o os mais fr\u00e1geis. H\u00e1 barquinhos de papel e h\u00e1 iates de luxo e ultratecnol\u00f3gicos. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica explicita a desigualdade do Brasil e do mundo.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/03\/19\/internacional\/1521482051_011788.html\">Basta ver quem est\u00e1 se deslocando de suas casas,<\/a>\u00a0regi\u00f5es e pa\u00edses, fugindo dos eventos extremos.<\/p>\n<p>Essa ideia da \u201cagenda humana\u201d, se por um lado \u00e9 bonita e verdadeira, precisa ser vista com cautela, para n\u00e3o ser usada para apagar a desigualdade, que \u00e9 agenda urgente tamb\u00e9m no tema da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Esse discurso se alinha \u00e0quele que busca borrar as diferen\u00e7as fundamentais entre direita e esquerda. Assim como \u00e9 preciso olhar com cautela para esse exacerbamento da ideia da mudan\u00e7a individual.<\/p>\n<p>Se \u00e9 necess\u00e1rio que cada um mude seus padr\u00f5es de consumo e se responsabilize por sua pegada no planeta, as medidas efetivas, urgentes e importantes para enfrentar os desafios do aquecimento global s\u00e3o medidas constru\u00eddas no espa\u00e7o p\u00fablico. \u00c9 no campo da pol\u00edtica que esse debate tem que ser travado. \u00c9 tamb\u00e9m por medidas p\u00fablicas que os mais fr\u00e1geis s\u00e3o protegidos e a desigualdade \u00e9 combatida.<\/p>\n<p>Gisele B\u00fcndchen, a modelo mais bem sucedida da hist\u00f3ria, assina um dos pref\u00e1cios do livro e apoia o projeto. Ela \u00e9 uma mulher interessante, que tem feito muito para divulgar a causa ambiental quando tantos na sua posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o fazem nada a n\u00e3o ser gastar o dinheiro acumulado. E seu poder de alcance \u00e9 imenso. Gisele come\u00e7ou a se tornar uma voz em defesa do meio ambiente quando, anos atr\u00e1s, foi ao Parque Nacional do Xingu. Esperava uma Amaz\u00f4nia m\u00edtica, no g\u00eanero\u00a0<em>Avatar<\/em>, blockbuster de James Cameron, e se deparou com a realidade de uma floresta corro\u00edda junto com seus povos.<\/p>\n<p>H\u00e1 um depoimento de Gisele B\u00fcndchen durante o debate que pode ajudar alguns pais nesse momento em que \u00e9 t\u00e3o necess\u00e1rio educar um filho para o mundo que a\u00ed est\u00e1. Na pr\u00e1tica, Gisele parece escolher uma linguagem mais dura do que fofa para tratar da destrui\u00e7\u00e3o do planeta com suas crian\u00e7as:<\/p>\n<p><em>\u201cSeu brinquedo vai parar na barriga da baleia\u201d, diz Gisele B\u00fcndchen ao filho<\/em><\/p>\n<p>\u2013 Todos n\u00f3s temos que tomar responsabilidade sobre como vivemos a nossa vida, porque todos temos impacto. Claro que, quando empresas grandes mudam, o impacto \u00e9 muito maior do que uma casa e outra casa. Mas acho que a consci\u00eancia come\u00e7a em cada ser humano. Qual \u00e9 a minha responsabilidade aqui? Em casa n\u00f3s temos nosso jardim,\u00a0<em>solar panels<\/em>\u00a0(pain\u00e9is solares), a gente usa filtro. Se entra uma garrafa de pl\u00e1stico na minha casa eu viro monstro, entendeu? Eu mostrei um v\u00eddeo pros meus filhos esses dias, em que abriram uma baleia, e era puro pl\u00e1stico dentro da baleia. As minhas crian\u00e7as falam que s\u00e3o os protetores da natureza. Eu t\u00f4 sempre mostrando pra eles, porque eles t\u00eam que saber qual \u00e9 o impacto. Meu filho tem 8 anos, e nos \u00faltimos dois ele n\u00e3o quis mais presente. Eu falei pra ele que o presente pode acabar na barriga de uma baleia no mar. (risadas da plateia). Antes de dormir leio um livrinho pros meus filhos, e \u00e0s vezes eles querem ver fotos. Teve o momento em que eu mostrei as fotos dos \u00f3rf\u00e3os elefantes, e ele ficou muito emocionado com aquilo. A\u00ed, no anivers\u00e1rio de 6 anos ele pediu pros amiguinhos: \u201cDoe pra essa funda\u00e7\u00e3o que eles protegem os elefantes\u201d. Trinta crian\u00e7as chegaram l\u00e1 em casa e estavam ajudando ele a ajudar os elefantes. Ele fala pra irm\u00e3zinha dele agora: \u201cVivi, escuta aqui, deixa eu te falar uma coisa: Voc\u00ea quer matar os bichos no mar?\u201d. \u00c9 muito importante a gente ter no\u00e7\u00e3o de que a forma que a gente escolhe viver tem um impacto no mundo inteiro. A gente tem que ter no\u00e7\u00e3o disso, a gente tem que ver qual \u00e9 o impacto e como a gente pode melhorar as nossas a\u00e7\u00f5es. Essa \u00e9 a nossa casa, a \u00fanica que temos. N\u00e3o vai descer um santo aqui e resolver o nosso problema. N\u00f3s vamos ter que resolver.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante que Gisele B\u00fcndchen conversa com os filhos sem fazer pirotecnias verbais ou acrobacias psicol\u00f3gicas. Demonstra respeitar a intelig\u00eancia dos filhos e sua\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/15\/opinion\/1518709564_202107.html\">capacidade emocional de lidar com fatos dif\u00edceis<\/a>, assim como apostar na forma\u00e7\u00e3o de discernimento. Mostra a baleia morta com pl\u00e1stico dentro e diz: \u201c\u00c9 pra l\u00e1 que seu brinquedo pode ir. O que voc\u00ea vai fazer a respeito?\u201d. As crian\u00e7as, filhas de um dos casais mais famosos e ricos do mundo, escutam o que muitos adultos parecem n\u00e3o estar conseguindo escutar. E est\u00e3o sendo ensinadas a se responsabilizar pelo seu impacto no planeta.<\/p>\n<p>Encontrar uma linguagem para que as pessoas sejam capazes de nomear o seu mal-estar e pressionar por medidas de revers\u00e3o do aquecimento global \u00e9 ainda um desafio. Mas n\u00e3o h\u00e1 tempo para esperar que os adultos infantilizados de hoje sejam emancipados. Mudar padr\u00f5es de consumo n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de escolha do indiv\u00edduo, j\u00e1 que a maioria dos mais atingidos hoje pelos efeitos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica s\u00e3o os que n\u00e3o t\u00eam escolha, os mais pobres e os mais fr\u00e1geis. Basta lembrar quem sofreu mais na crise da \u00e1gua de 2014 em S\u00e3o Paulo. Mudar padr\u00f5es de consumo \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o \u00e9tica, compromisso com o coletivo, princ\u00edpio b\u00e1sico da vida em comunidade.<\/p>\n<p>A chave desse momento hist\u00f3rico n\u00e3o est\u00e1 entre o otimismo e o pessimismo \u2013 ou entre o pensamento positivo e o negativo. N\u00e3o h\u00e1 tempo para esses truques de audit\u00f3rio. A crise clim\u00e1tica \u00e9 grav\u00edssima e seus efeitos s\u00f3 est\u00e3o come\u00e7ando. Adultos precisam ser capazes de escutar. E de reagir com algo mais do que carinhas sorridentes ou vermelhas de raiva. \u00c9 preciso romper a est\u00e9tica do entretenimento porque ela n\u00e3o \u00e9 \u00e9tica. Nada est\u00e1 \u201csob controle\u201d. \u00c9 exatamente isso que precisa ser dito.<\/p>\n<p class=\"nota_pie\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/eliane_brum\/a\/\">Eliane Brum<\/a>\u00a0\u00e9 escritora, rep\u00f3rter e documentarista. Autora dos livros de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Coluna Prestes &#8211; o Avesso da Lenda, A Vida Que Ningu\u00e9m v\u00ea, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos,<\/em>\u00a0e do romance\u00a0<em>Uma Duas<\/em>. Site:\u00a0desacontecimentos.com\u00a0Email:\u00a0elianebrum.coluna@gmail.com\u00a0Twitter:\u00a0@brumelianebrum\/ Facebook:\u00a0@brumelianebrum<\/p>\n<p class=\"nota_pie\">Fonte &#8211; El Pa\u00eds de 21 de maio de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carro abandonado em Atibainha, que integra o sistema Cantareira, em 2015\u00a0ANDR\u00c9 PENNER\u00a0AP Como fazer para que as pessoas acordem para a mudan\u00e7a clim\u00e1tica na \u00e9poca do entretenimento? S\u00e3o Paulo, a maior cidade do Brasil, pode enfrentar mais uma vez uma crise da \u00e1gua em ano eleitoral. 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