{"id":24366,"date":"2018-06-06T17:00:29","date_gmt":"2018-06-06T20:00:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=24366"},"modified":"2018-05-28T13:23:56","modified_gmt":"2018-05-28T16:23:56","slug":"controle-biologico-como-alternativa-ao-consumo-excessivo-de-agrotoxicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/controle-biologico-como-alternativa-ao-consumo-excessivo-de-agrotoxicos\/","title":{"rendered":"Controle biol\u00f3gico como alternativa ao consumo excessivo de agrot\u00f3xicos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.agron.com.br\/imagens\/publicacoes\/2014\/11\/07\/topico_41763_www-agron-com-br_0554_18-curso-de-controle-biologico-de-pragas.jpg\" alt=\"Resultado de imagem para controle biologico de pragas\" \/><\/p>\n<p>Para reduzir a aplica\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos\u00a0na\u00a0agricultura brasileira, o\u00a0Brasil\u00a0precisa avan\u00e7ar no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/552166-brasil-tera-que-desenvolver-modelo-proprio-de-controle-biologico-de-pragas-agricolas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">controle biol\u00f3gico das culturas agr\u00edcolas<\/a>\u00a0e um dos seus principais desafios consiste em criar um modelo de controle biol\u00f3gico que seja adequado para a agricultura brasileira, diz o engenheiro agr\u00f4nomo\u00a0Jos\u00e9 Roberto Postali Parra. Na entrevista a seguir, concedida por telefone \u00e0\u00a0IHU On-Line, o pesquisador explica que o \u201ccontrole biol\u00f3gico \u00e9 um fen\u00f4meno natural que consiste na regula\u00e7\u00e3o de plantas e animais por agentes de\u00a0mortalidade bi\u00f3tica\u201d, ou seja, um tipo de produto seletivo que mata pragas, mas preserva os inimigos naturais das culturas agr\u00edcolas, evitando o desequil\u00edbrio biol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Entre os principais desafios do\u00a0Brasil\u00a0na expans\u00e3o da aplica\u00e7\u00e3o de\u00a0controle biol\u00f3gicona agricultura, o primeiro deles, segundo\u00a0Parra, \u201c\u00e9 a cultura do agricultor, porque o agricultor brasileiro tem uma cultura de qu\u00edmicos. Isso \u00e9 algo que passou de pai para filho, o agricultor est\u00e1 acostumado a utilizar\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/575241-agricultores-nao-associam-uso-inadequado-de-agrotoxicos-ao-seu-estado-de-saude\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">produtos qu\u00edmicos<\/a>\u00a0e, obviamente, utiliza muito mais\u00a0controle qu\u00edmico\u00a0do que biol\u00f3gico\u201d. De acordo com o pesquisador, embora o\u00a0Brasil\u00a0tenha \u201cexpertise\u201d no\u00a0manejo de controle biol\u00f3gico, que j\u00e1 tem sido aplicado \u00e0s culturas de cana-de-a\u00e7\u00facar, o pa\u00eds disp\u00f5e de um n\u00famero muito pequeno de \u201cinimigos naturais\u201d, que s\u00e3o micro e macrorganismos respons\u00e1veis pelo processo biol\u00f3gico. Parra informa ainda que enquanto alguns pa\u00edses t\u00eam cerca de 350 esp\u00e9cies, no\u00a0Brasil\u00a0o n\u00famero \u00e9 de aproximadamente 30. O baixo n\u00famero de esp\u00e9cies dispon\u00edveis, explica, gera outro problema: a falta de insetos dispon\u00edveis para todos que querem aplicar esse tipo de manejo.<\/p>\n<p>Defensor da aplica\u00e7\u00e3o desses produtos na agricultura,\u00a0Parra\u00a0adverte que \u201co\u00a0controle biol\u00f3gico\u00a0n\u00e3o ir\u00e1 substituir os produtos qu\u00edmicos na totalidade. Ent\u00e3o, preconizamos, de modo geral, que ele seja parte do manejo integrado de pragas. Entretanto, existem situa\u00e7\u00f5es em que ele pode ser utilizado, como no caso da cana-de- a\u00e7\u00facar\u201d.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Roberto Parra\u00a0\u00e9 graduado em Engenharia Agron\u00f4mica pela Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP, mestre e doutor em Entomologia tamb\u00e9m pela USP. Atualmente \u00e9 professor s\u00eanior do Departamento de Entomologia e Acarologia da ESALQ\/USP. \u00c9 membro da Academia Brasileira de Ci\u00eancias desde 2000 e membro da Academy of Science for the Developing World \u2013 TWAS desde 2002. Recebeu a Comenda da Ordem Nacional do M\u00e9rito Cient\u00edfico em 2002 e pertence \u00e0 Classe da Gr\u00e3-Cruz da Ordem Nacional do M\u00e9rito Cient\u00edfico em 2010.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 O que \u00e9 o controle biol\u00f3gico e como ele pode contribuir para evitar os desequil\u00edbrios biol\u00f3gicos causados pelo uso de agrot\u00f3xicos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Roberto Postali Parra \u2014<\/strong>\u00a0Vou explicar primeiro o que \u00e9\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/eventos\/559198-estudo-da-fitotecnia-revela-alternativas-ao-agrotoxico-no-controle-de-pragas-do-coqueiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">controle biol\u00f3gico<\/a>\u00a0para depois falar sobre desequil\u00edbrios. O controle biol\u00f3gico \u00e9 um fen\u00f4meno natural que consiste na regula\u00e7\u00e3o de plantas e animais por agentes de\u00a0mortalidade bi\u00f3tica. Ent\u00e3o, em toda planta e em todo animal t\u00eam seus\u00a0inimigos naturais. No caso da\u00a0agricultura,\u00a0esse equil\u00edbrio foi quebrado pela necessidade de se ter alimentos. Assim, hoje temos grandes \u00e1reas plantadas como algodoeiro, soja etc. e, portanto, o equil\u00edbrio natural foi quebrado. Desse modo, o objetivo do\u00a0controle biol\u00f3gico\u00a0\u00e9 restituir o equil\u00edbrio que no in\u00edcio existia \u2014 \u00e9 um controle biol\u00f3gico aplicado.<\/p>\n<p>O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/571317-pivo-da-crise-dos-ovos-na-europa-pesticida-fipronil-e-utilizado-em-larga-escala-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">uso de inseticida<\/a>\u00a0gera um controle imediato das pragas, mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel fazer esse controle r\u00e1pido quando falamos de\u00a0controle biol\u00f3gico aplicado, que \u00e9 a libera\u00e7\u00e3o de grande quantidade de\u00a0inimigos naturais\u00a0na agricultura. Pode-se, tamb\u00e9m, aplicar um tipo de controle a longo prazo, que se chama controle biol\u00f3gico cl\u00e1ssico, isto \u00e9, ao se liberar pequenas quantidades de inimigos naturais, com o tempo esses inimigos v\u00e3o aumentando e geram um controle a longo prazo. Isso \u00e9 seletivo porque serve s\u00f3 para culturas que permanecem sempre no campo, ou seja, culturas perenes ou semiperenes. Existe ainda a forma conservativa, que \u00e9 uma alternativa em que se conserva o que j\u00e1 existe na natureza, evitando a aplica\u00e7\u00e3o de inseticidas. Ent\u00e3o, existe o controle biol\u00f3gico aplicado, o controle biol\u00f3gico cl\u00e1ssico e controle biol\u00f3gico conservativo. Para utilizar esse controle biol\u00f3gico tem que ter o m\u00ednimo de inseticidas poss\u00edvel. Entretanto, existem produtos seletivos, que matam as pragas e n\u00e3o matam os inimigos naturais. Ent\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel conciliar a utiliza\u00e7\u00e3o de produtos qu\u00edmicos com controle biol\u00f3gico desde que se usem produtos seletivos.<\/p>\n<p>Em outros pa\u00edses existem tabelas indicando quais s\u00e3o esses produtos seletivos, que podem ser utilizados em determinadas esp\u00e9cies vegetais, n\u00e3o matando certos inimigos naturais que ser\u00e3o preservados. Isso ir\u00e1 reduzir a aplica\u00e7\u00e3o de produtos qu\u00edmicos. Por exemplo, os\u00a0piretroides, que s\u00e3o uma categoria de inseticidas que matam as pragas e os inimigos naturais, o que causa problemas de\u00a0desequil\u00edbrios biol\u00f3gicos\u00a0com explos\u00f5es populacionais de insetos e \u00e1caros. Como se causa o desequil\u00edbrio natural? O inseticida, uma vez aplicado, vai matar a praga e os inimigos naturais, e com isso surgem os desequil\u00edbrios. Por este motivo, em determinadas culturas, como na soja e no algodoeiro, n\u00e3o \u00e9 recomendada a aplica\u00e7\u00e3o de piretroides, justamente para permitir que cres\u00e7a a popula\u00e7\u00e3o de\u00a0inimigos naturais. Ent\u00e3o, os desequil\u00edbrios s\u00e3o fruto dessa morte dos agentes de controle biol\u00f3gico, aumentando assim a popula\u00e7\u00e3o de praga, que se v\u00ea livre dos inimigos naturais.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 \u00c9 poss\u00edvel fazer o controle de pragas somente com o controle biol\u00f3gico sem o uso de pesticidas?<\/strong><\/p>\n<p><em>No Brasil s\u00e3o plantados nove milh\u00f5es de hectares de cana-de-a\u00e7\u00facar e quase metade da \u00e1rea plantada \u00e9 controlada biologicamente \u2013 Jos\u00e9 Parra<\/em><\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p><strong>Jos\u00e9 Roberto Postali Parra \u2014<\/strong>\u00a0O\u00a0controle biol\u00f3gico\u00a0n\u00e3o ir\u00e1 substituir os\u00a0produtos qu\u00edmicos\u00a0na totalidade. Ent\u00e3o, preconizamos, de modo geral, que ele seja parte do\u00a0manejo integrado de pragas. Entretanto, existem situa\u00e7\u00f5es em que ele pode ser utilizado, como no caso da cana-de- a\u00e7\u00facar. No\u00a0Brasil\u00a0s\u00e3o plantados nove milh\u00f5es de hectares de cana-de-a\u00e7\u00facar e quase metade da \u00e1rea plantada \u00e9 controlada biologicamente \u2014 a broca da cana \u00e9 controlada por uma vespinha importada de\u00a0Trinidad e Tobago, chamada\u00a0<em>Cotesia flavipes<\/em>, e por um parasitoide de ovos chamado\u00a0<em>Trichogramma galloi<\/em>. E, al\u00e9m disso, \u00e9 utilizado um fungo chamado m<em>etarhizium anisopliae<\/em>, que \u00e9 usado para controlar a cigarrinha-das-ra\u00edzes, que ocorre em\u00a0S\u00e3o Paulo\u00a0e em outras regi\u00f5es, mas principalmente ela se tornou mais problem\u00e1tica quando se deixou de queimar a cana-de-a\u00e7\u00facar. Com isso formou-se um microclima muito favor\u00e1vel e essa popula\u00e7\u00e3o de insetos explodiu. Para termos uma ideia, nos \u00faltimos anos a vespinha\u00a0<em>Cotesia flavipes<\/em>\u00a0foi liberada em 3,5 milh\u00f5es de hectares, o\u00a0<em>Trichogramma galloi<\/em>\u00a0em 500 mil hectares e o fungo foi aplicado em \u00e1reas maiores que dois milh\u00f5es de hectares.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Em outras culturas o\u00a0controle biol\u00f3gico\u00a0deveria ser incorporado em programas de manejo, e existem casos em que individualmente ele pode funcionar. Mas a inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 substituir o qu\u00edmico totalmente por controle biol\u00f3gico, mesmo porque isso seria imposs\u00edvel em fun\u00e7\u00e3o da grande \u00e1rea plantada no Brasil, pelo menos a curto prazo, n\u00e3o havendo disponibilidade de agentes de controle biol\u00f3gico para toda essa \u00e1rea plantada.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 O manejo integrado com o controle biol\u00f3gico e agrot\u00f3xicos reduziria em que percentual o uso de agrot\u00f3xico na agricultura?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Roberto Postali Parra \u2014<\/strong> A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/170-noticias\/noticias-2014\/528640-brasil-consome-14-agrotoxicos-proibidos-no-mundo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">agricultura brasileira<\/a>\u00a0\u00e9 muito grande, e o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/185-noticias\/noticias-2016\/554285-brasil-lider-mundial-no-uso-de-agrotoxicos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Brasil usa muito inseticida<\/a>, sem d\u00favida alguma, mas existem pa\u00edses desenvolvidos que usam mais do que o\u00a0Brasil\u00a0por unidade de \u00e1rea, como a\u00a0Holanda\u00a0e o\u00a0Jap\u00e3o\u00a0\u2014 o\u00a0Brasil\u00a0fica na quinta posi\u00e7\u00e3o em termos de utiliza\u00e7\u00e3o por unidade de \u00e1rea.<\/p>\n<p>N\u00f3s somos favor\u00e1veis \u00e0 racionaliza\u00e7\u00e3o do\u00a0uso de inseticidas, que seria essa integra\u00e7\u00e3o diminuindo a aplica\u00e7\u00e3o exagerada que se faz de forma irracional. O\u00a0controle biol\u00f3gicopode dar controles \u00f3timos, at\u00e9 superiores a 80%, como vem ocorrendo nas planta\u00e7\u00f5es de cana. A vantagem do controle biol\u00f3gico \u00e9 que n\u00e3o traz problemas ao ambiente, \u00e0 \u00e1gua, ao solo, ao homem, aos animais, n\u00e3o causa os\u00a0desequil\u00edbrios biol\u00f3gicos, e n\u00e3o h\u00e1 resist\u00eancia a determinados produtos, como frequentemente ocorre com os qu\u00edmicos, e n\u00e3o deixa res\u00edduos nos alimentos. Tudo isso faz com que pensemos nessa possibilidade, que \u00e9 muito boa. Eu, logicamente, trabalhando no controle biol\u00f3gico, sou extremamente favor\u00e1vel \u00e0 sua utiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas hoje tamb\u00e9m existem fatores que dificultam muito a\u00a0utiliza\u00e7\u00e3o de qu\u00edmicos, por exemplo: para sintetizar um produto qu\u00edmico, o custo \u00e9 de entre 300 e 350 milh\u00f5es de d\u00f3lares e o\u00a0Brasil, hoje, \u00e9 um grande exportador de commodities e frutas. E como os mercados exigem cada vez mais produtos sem res\u00edduos, existe grande press\u00e3o para que se use cada vez menos produtos qu\u00edmicos. Al\u00e9m disso, no\u00a0Brasil\u00a0s\u00e3o utilizados produtos qu\u00edmicos que j\u00e1 foram\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/574164-europa-compra-do-brasil-comida-produzida-com-agrotoxicos-que-ela-proibe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">banidos do mercado internacional<\/a>\u00a0h\u00e1 muitos anos, logo, eles t\u00eam que sair do mercado. Ent\u00e3o, alguns problemas favorecem pensarmos na utiliza\u00e7\u00e3o do controle biol\u00f3gico.<\/p>\n<p>O\u00a0Brasil\u00a0tem expertise, tem muitos profissionais se formando nos \u00faltimos anos, as pesquisas s\u00e3o grandes na \u00e1rea de controle biol\u00f3gico, mas n\u00f3s temos desafios, a come\u00e7ar pelo fato de que o Brasil faz agricultura em campos abertos. Por isso, n\u00e3o raro temos\u00a0planta\u00e7\u00f5es de soja\u00a0em 20 ou 50 mil hectares e at\u00e9 100 mil hectares, o que \u00e9 completamente diferente da forma de produzir de um produtor na\u00a0Europa, como na\u00a0Holanda\u00a0e na\u00a0Espanha, que usam muitos produtos biol\u00f3gicos, mas na grande maioria em casas de vegeta\u00e7\u00e3o. N\u00f3s temos que desenvolver um modelo de\u00a0controle biol\u00f3gicopara regi\u00f5es tropicais e para isso h\u00e1 alguns desafios a serem vencidos. N\u00e3o adianta falarmos que somos l\u00edderes em\u00a0agricultura tropical\u00a0\u2014 e n\u00f3s somos realmente l\u00edderes \u2014, mas para\u00a0controle biol\u00f3gico\u00a0temos que desenvolver um modelo adequado \u00e0 nossa agricultura.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 O que seria um modelo de controle biol\u00f3gico adequado para a agricultura brasileira?<\/strong><\/p>\n<p><em>O\u00a0agricultor brasileiro tem uma cultura de qu\u00edmicos \u2013 Jos\u00e9 Parra<\/em><\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p><strong>Jos\u00e9 Roberto Postali Parra \u2014<\/strong>\u00a0Tem um grande n\u00famero de desafios nesse sentido. O primeiro deles \u00e9 a\u00a0cultura do agricultor, porque o\u00a0agricultor brasileiro\u00a0tem uma <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570936-pesquisador-explica-por-que-agrotoxicos-sao-principais-culpados-por-desaparecimento-de-abelhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">cultura de qu\u00edmicos<\/a>. Isso \u00e9 algo que passou de pai para filho, o agricultor est\u00e1 acostumado a utilizar produtos qu\u00edmicos e, obviamente, utiliza muito mais controle qu\u00edmico do que biol\u00f3gico. O\u00a0controle biol\u00f3gico\u00a0\u00e9, ainda, algo muito pequeno, mas nos \u00faltimos anos estamos avan\u00e7ando mais do que o resto do mundo nesse sentido. Quando falo em \u00faltimos anos eu me refiro aos \u201c\u00faltimos anos\u201d mesmo. Em 2013 apareceu um inseto no pa\u00eds e foi registrado como\u00a0<em>Helicoverpa armigera<\/em>. Ele ocorre no mundo inteiro e apareceu no\u00a0Brasil Central, na regi\u00e3o de\u00a0Goi\u00e1s. N\u00e3o tinha controle para ele, e s\u00f3 oproduto biol\u00f3gico\u00a0poderia salvar a situa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, tinha um v\u00edrus\u00a0<em>Trichogramma<\/em>, que \u00e9 um parasitoide que controla os ovos. O pessoal come\u00e7ou a mudar a sua vis\u00e3o, por\u00e9m \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o havia disponibilidade de inimigos naturais para todos os produtores. Isso acontece hoje ainda, pois n\u00f3s temos poucas empresas de controle biol\u00f3gico em rela\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Se formos olhar os trabalhos mais modernos, veremos que no mundo h\u00e1 grande disponibilidade de inimigos naturais, cerca de 350 esp\u00e9cies. No\u00a0Brasil\u00a0temos, incluindo macro e microrganismos,\u00a0cerca de 30 agentes de controle biol\u00f3gico. Isso tudo \u00e9 bastante limitante. Existem, comercializando hoje, 26 empresas de micro e 21 de macro \u2014 microrganismos s\u00e3o as coisas que n\u00e3o vemos, como v\u00edrus, bact\u00e9rias, fungos, e os macrorganismos s\u00e3o aqueles controles que vemos, como um inseto controlando outro inseto, um \u00e1caro controlando outro \u00e1caro ou inseto. Existe hoje uma tend\u00eancia maior de usar microrganismos. As multinacionais est\u00e3o comprando firmas menores de\u00a0controle biol\u00f3gico\u00a0e muitas delas est\u00e3o investindo em microrganismos, que s\u00e3o mais facilmente aceitos pelos agricultores, porque um microrganismo \u00e9 como se fosse um inseticida, \u00e9 misturado com \u00e1gua e aplicado. Um\u00a0macrorganismo\u00a0exige mais tecnologia, \u00e9 preciso saber quando vai nascer, e ele morre logo; al\u00e9m disso, \u00e9 preciso uma log\u00edstica de armazenamento e transporte. Hoje est\u00e3o usando bastante microrganismos, e podemos encontrar milh\u00f5es de hectares sendo tratados com v\u00e1rios desses microrganismos.<\/p>\n<p>No entanto, hoje um dos grandes problemas \u00e9 que n\u00e3o existem insetos dispon\u00edveis para todos que queiram utiliz\u00e1-los para\u00a0controle biol\u00f3gico. Novas empresas est\u00e3o entrando nesse mercado, entre elas a\u00a0Koppert Brasil, da\u00a0Holanda, que recentemente comprou uma pequena empresa que tinha sido origin\u00e1ria do meu laborat\u00f3rio, a\u00a0BUG Agentes Biol\u00f3gicos. Est\u00e1 acontecendo muito isto: as grandes empresas comprando as pequenas empresas. Por que, ent\u00e3o, n\u00e3o avan\u00e7amos tanto? Porque tem um n\u00famero pequeno de empresas no\u00a0Brasil\u00a0com apenas\u00a0sete macrorganismos e 22 microrganismos registrados, com grande n\u00famero de agentes de controle biol\u00f3gicos aguardando registro.<\/p>\n<p>O segundo desafio \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 amostragem, pois quando vamos controlar uma praga, \u00e9 preciso saber quanto dela existe numa\u00a0cultura\u00a0para aplicar um <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/574142-no-brasil-um-continente-de-monoculturas-banhado-em-agrotoxicos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">produto qu\u00edmico<\/a>, por exemplo. Como as \u00e1reas s\u00e3o muito grandes, \u00e9 dif\u00edcil saber isso no momento em que se vai aplicar o inimigo natural. Por isso est\u00e3o propondo coisas novas, como o levantamento com ferom\u00f4nios sexuais, sensoriamento remoto, ou seja, \u00e9 preciso aparatos mais sofisticados do que os que existem hoje. Um problema nesse sentido \u00e9 que o\u00a0Brasil\u00a0\u00e9 muito pobre em transfer\u00eancia de tecnologia; \u00e0s vezes tem a tecnologia, mas ela n\u00e3o chega ao agricultor.<\/p>\n<p>Outra dificuldade \u00e9 sobre a disponibilidade do insumo; ser\u00e1 que ter\u00e1 para todo mundo? Est\u00e3o falando agora em uma vespinha para controlar o percevejo-marrom-da-soja; isso funciona muito bem, mas tem limites de disponibilidade. Por exemplo, temos mais de 34 milh\u00f5es de hectares de soja plantados no pa\u00eds, e para fornecer para todo mundo, tem que se ter enormes f\u00e1bricas e mais f\u00e1bricas do que se tem hoje. E, muitas vezes, esse\u00a0controle biol\u00f3gico\u00a0n\u00e3o \u00e9 trivial, demanda tecnologia, mas como o pessoal se entusiasma rapidamente, podem surgir empresas que nem sempre ser\u00e3o de boa qualidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, temos a quest\u00e3o da log\u00edstica de armazenamento e transporte; como ser\u00e1 liberado esse inimigo natural? Tem pessoas liberando com drones e, logicamente, se for usar um inimigo natural, temos que usar produtos seletivos e n\u00f3s ainda somos muito iniciantes em termos de legisla\u00e7\u00e3o para\u00a0agentes de controle biol\u00f3gico. Tudo isso atrapalha um pouco, mas com o tempo a situa\u00e7\u00e3o vai melhorando.<\/p>\n<p>Sou muito esperan\u00e7oso com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade do\u00a0avan\u00e7o do controle biol\u00f3gicoa m\u00e9dio e longo prazos. De todo modo, o uso do controle biol\u00f3gico n\u00e3o pode ser muito precipitado, porque se tentarmos fazer tudo de forma corrida, surgir\u00e3o produtos de m\u00e1 qualidade e o controle biol\u00f3gico cair\u00e1 no descr\u00e9dito, que \u00e9 justamente o que n\u00e3o queremos que aconte\u00e7a. Preferimos que seu desenvolvimento seja devagar, mas com firmeza, por isso n\u00e3o podemos querer que isso ocorra na pr\u00f3xima safra; isso n\u00e3o acontecer\u00e1. \u00c9 preciso ir mudando a mentalidade aos poucos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 Qual \u00e9 a receptividade desse manejo integrado, para al\u00e9m do cultivo de cana-de-a\u00e7\u00facar?<\/strong><\/p>\n<p><em>A Espanha \u00e9 o maior produtor de piment\u00e3o do mundo e s\u00f3 usa o controle biol\u00f3gico porque o pessoal tem extremo rigor com rela\u00e7\u00e3o a res\u00edduos de produtos qu\u00edmicos \u2013 Jos\u00e9 Parra<\/em><\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p><strong>Jos\u00e9 Roberto Postali Parra \u2014<\/strong>\u00a0\u00c9 dif\u00edcil, mas o pessoal vai aderir. Isso \u00e9 fruto de necessidade. Falei anteriormente que na\u00a0Espanha\u00a0e na\u00a0Holanda\u00a0se usa muito\u00a0produto biol\u00f3gico, mas por que se usa? A\u00a0Espanha\u00a0\u00e9 o maior produtor de piment\u00e3o do mundo e s\u00f3 usa o\u00a0controle biol\u00f3gicoporque o pessoal tem extremo rigor com rela\u00e7\u00e3o a res\u00edduos de produtos qu\u00edmicos e proibiu a aplica\u00e7\u00e3o de produtos qu\u00edmicos em piment\u00e3o. Ent\u00e3o, o produtor tem que fazer controle biol\u00f3gico. Mas para fazer algo assim \u00e9 preciso ter disponibilidade de insumo, n\u00e3o adianta falar que n\u00e3o deve mais usar o produto qu\u00edmico se o produtor n\u00e3o tem alternativa.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>N\u00f3s temos uma\u00a0biodiversidade\u00a0fant\u00e1stica, mal explorada e pouco conhecida, mas tem muitas pessoas e empresas, tanto de macro quanto de microrganismos, interessadas nesse campo, e elas est\u00e3o come\u00e7ando a trabalhar. Se tivermos um pouco de paci\u00eancia, acredito que vai melhorar muito esse mercado e surgir\u00e3o grandes oportunidades. Tem v\u00e1rios agentes potenciais que ser\u00e3o utilizados nos pr\u00f3ximos anos. Come\u00e7aram a surgir empresas e\u00a0<em>startups<\/em>. Por exemplo, a\u00a0Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo \u2013 Fapesp\u00a0financia projetos de incentivo \u00e0s pequenas empresas, com isso j\u00e1 foram criadas 12 startups em controle biol\u00f3gico, e h\u00e1 novas empresas surgindo. Al\u00e9m disso, as grandes multinacionais est\u00e3o adquirindo empresas. Sem d\u00favida precisa haver essa disponibilidade de insumo para que a coisa venha a funcionar.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2014 Qual \u00e9 a atual situa\u00e7\u00e3o das pesquisas sobre controle biol\u00f3gico no pa\u00eds? As pesquisas s\u00e3o feitas em que dire\u00e7\u00e3o? Como parcerias entre universidade, empresas e agricultores podem favorecer o desenvolvimento das pesquisas sobre controle biol\u00f3gico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Roberto Postali Parra \u2014<\/strong>\u00a0O grande avan\u00e7o dessa \u00e1rea foi a cria\u00e7\u00e3o, na d\u00e9cada de 1960, de cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Houve \u00e9pocas em que de 20% a 25% dos pesquisadores eram formados em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579084-sociedade-se-mobiliza-contra-farra-dos-agrotoxicos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">controle biol\u00f3gico<\/a>.\u00a0N\u00f3s temos uma massa cr\u00edtica razo\u00e1vel e hoje j\u00e1 existem n\u00facleos no\u00a0Brasil\u00a0que trabalham com controle biol\u00f3gico, todos sa\u00eddos de centros mais avan\u00e7ados. Por exemplo, temos grupos trabalhando no\u00a0Esp\u00edrito Santo, no\u00a0Nordeste\u00a0e no\u00a0Sul\u00a0do pa\u00eds. Em\u00a0S\u00e3o Paulo\u00a0existe uma concentra\u00e7\u00e3o maior, mas existem grupos muito importantes. No\u00a0Rio Grande do Sultem grupos fortes trabalhando com controle biol\u00f3gico na\u00a0Embrapa.<\/p>\n<p>Como tudo na vida, esse projeto exige investimentos em pesquisa, e como vivemos um per\u00edodo ruim na economia, n\u00e3o h\u00e1 tanto investimento, n\u00e3o tem dinheiro, mas existem possibilidades futuras. Vejo como possibilidades o financiamento de \u00f3rg\u00e3os como a\u00a0Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pesquisa e Inova\u00e7\u00e3o Industrial \u2013 Embrapii, que financia um grande projeto nosso, os biocontroladores, que se referem a macro e a microrganismos. Tamb\u00e9m existem outras possibilidades via\u00a0Fapesp, que est\u00e1 abrindo portas para que se forme um centro de controle biol\u00f3gico. Assim, os recursos come\u00e7am a aparecer especificamente para isso. A\u00a0Embrapii, a\u00a0Fapesp\u00a0e o\u00a0CNPq\u00a0est\u00e3o financiando esse tipo de pesquisa e a\u00a0Finep\u00a0[Financiadora de Estudos e Projetos] tamb\u00e9m est\u00e1 interessada em financiar programas de controle biol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Nesta semana haver\u00e1 uma reuni\u00e3o no\u00a0Rio de Janeiro, no\u00a0Minist\u00e9rio de Ci\u00eancia e Tecnologia, com o governo alem\u00e3o para firmar um conv\u00eanio sobre controle biol\u00f3gico. Os recursos come\u00e7am a aparecer e, onde existem recursos, os processos come\u00e7am a funcionar, logicamente se forem feitos de forma correta. Eu sou professor aposentado da\u00a0USP, mas continuo em atividade normal porque trabalhei a vida inteira para chegar num bom momento, e hoje nos encontramos neste bom momento. O movimento para o uso de\u00a0controle biol\u00f3gico\u00a0\u00e9 mundial. A\u00a0China, por exemplo, neste ano est\u00e1 investindo 350 milh\u00f5es de d\u00f3lares em sustentabilidade, ent\u00e3o o controle biol\u00f3gico, em \u00faltima an\u00e1lise, implica em sustentabilidade e \u201cest\u00e1 caindo cada vez mais no gosto da popula\u00e7\u00e3o brasileira\u201d.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Patricia Fachin, IHU de 24 de maio de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para reduzir a aplica\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos\u00a0na\u00a0agricultura brasileira, o\u00a0Brasil\u00a0precisa avan\u00e7ar no\u00a0controle biol\u00f3gico das culturas agr\u00edcolas\u00a0e um dos seus principais desafios consiste em criar um modelo de controle biol\u00f3gico que seja adequado para a agricultura brasileira, diz o engenheiro agr\u00f4nomo\u00a0Jos\u00e9 Roberto Postali Parra. 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