{"id":24517,"date":"2018-06-01T16:00:38","date_gmt":"2018-06-01T19:00:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=24517"},"modified":"2018-06-01T16:05:59","modified_gmt":"2018-06-01T19:05:59","slug":"um-quilometro-quadrado-desmatado-na-amazonia-equivale-a-27-novos-casos-de-malaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/um-quilometro-quadrado-desmatado-na-amazonia-equivale-a-27-novos-casos-de-malaria\/","title":{"rendered":"Um quil\u00f4metro quadrado desmatado na Amaz\u00f4nia equivale a 27 novos casos de mal\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/20180528_00_charcoalamazon.png\" \/><em>Pesquisa buscou demonstrar a correla\u00e7\u00e3o entre incid\u00eancia de mal\u00e1ria e o padr\u00e3o de fragmenta\u00e7\u00e3o da mata nativa causado pela cria\u00e7\u00e3o de assentamentos rurais e extra\u00e7\u00e3o de produtos da floresta. Na imagem, produ\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o vegetal pela queima lenta de madeira \u2013 Foto: Leonardo Suveges Moreira Chaves \/ FSP<\/em><\/p>\n<p><strong>Incid\u00eancia da doen\u00e7a \u00e9 maior em pequenos focos de desmatamento pr\u00f3ximos a assentamentos rurais<\/strong><\/p>\n<p>Cada quil\u00f4metro quadrado de floresta tropical nativa derrubado na Amaz\u00f4nia est\u00e1 associado a 27 novos casos de mal\u00e1ria por ano, no per\u00edodo entre 2009 e 2015, revela pesquisa da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica (FSP) da USP. A compara\u00e7\u00e3o da incid\u00eancia da doen\u00e7a com dados sobre \u00e1reas impactadas pelo homem tamb\u00e9m mostra que a ocorr\u00eancia \u00e9 maior quando h\u00e1 abund\u00e2ncia de pequenas \u00e1reas devastadas, detectadas por imagens de sat\u00e9lite. O risco \u00e9 aumentado pela capacidade do mosquito vetor da mal\u00e1ria se adaptar \u00e0s \u00e1reas impactadas, aliada \u00e0 maior presen\u00e7a tanto de pessoas suscet\u00edveis como infectadas pelo parasita que causa a doen\u00e7a. A essa situa\u00e7\u00e3o podem se somar as condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de vida da popula\u00e7\u00e3o, baixo n\u00edvel educacional, desconhecimento sobre a transmiss\u00e3o da infec\u00e7\u00e3o e dif\u00edcil acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/20180528_00_Malaria1.jpg\" \/><em>Maior incid\u00eancia de mal\u00e1ria est\u00e1 associada a \u00e1reas de floresta nativa devastadas com menos de 5 km2 de extens\u00e3o \u2013 Foto: cedida pela pesquisadora<\/em><\/p>\n<p>\u201cA pesquisa buscou demonstrar a correla\u00e7\u00e3o entre incid\u00eancia de mal\u00e1ria e o padr\u00e3o de fragmenta\u00e7\u00e3o da mata nativa causado pela cria\u00e7\u00e3o de assentamentos rurais e extra\u00e7\u00e3o de produtos da floresta\u201d, afirma a professora Maria Anice Mureb Sallum, da FSP, que supervisionou a pesquisa. \u201cPara isso, foi feito um cruzamento dos dados de casos de mal\u00e1ria notificados de 2009 a 2015 nos nove Estados da Amaz\u00f4nia (Acre, Amap\u00e1, Amazonas, Maranh\u00e3o, Mato Grosso, Par\u00e1, Rond\u00f4nia e Roraima), fornecidos pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, com os dados de desmatamento ao longo dos anos, disponibilizados na plataforma digital do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amaz\u00f4nia (Imazon)\u201d.<\/p>\n<p>Os pesquisadores demonstraram que h\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o positiva entre o tamanho da \u00e1rea desmatada e o aumento de casos de mal\u00e1ria. \u201cO impacto \u00e9 maior quando o desmatamento acontece em extens\u00f5es menores que cinco quil\u00f4metros quadrados (km\u00b2), pois em v\u00e1rios casos a derrubada \u00e9 feita por pessoas ligadas \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o e alta rotatividade da m\u00e3o de obra, em total desacordo com a legisla\u00e7\u00e3o\u201d, relata a professora. \u201cA forma\u00e7\u00e3o dos assentamentos movimenta pessoas que muitas vezes residiram em \u00e1reas com transmiss\u00e3o de mal\u00e1ria e podem abrigar o parasita sem ter a doen\u00e7a, atuando na sua dispers\u00e3o. Para cada quil\u00f4metro quadrado (km\u00b2) de desmatamento, acontecem 27 novos casos de mal\u00e1ria.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/20180528_00_Malaria_CasaLabrea_ColetaMosq.jpg\" \/><em>Expans\u00e3o da \u00e1rea de transmiss\u00e3o da mal\u00e1ria dificulta o controle da doen\u00e7a; na foto, rede para coleta de mosquitos ao redor de casa em L\u00e1brea \u2013 Foto: cedida pela pesquisadora<\/em><\/p>\n<p>Maria Anice explica que quando a floresta \u00e9 cont\u00ednua e \u00edntegra, sem \u00e1reas de desmatamento, o mosquito anofelino, transmissor do protozo\u00e1rio causador da doen\u00e7a (<em>Plasmodium<\/em>), quando est\u00e1 presente, \u00e9 em baixa densidade e somente onde as condi\u00e7\u00f5es ambientais s\u00e3o adequadas. \u201cMas com o desmatamento, ocorrem mudan\u00e7as ecol\u00f3gicas importantes que favorecem o mosquito vetor\u201d, ressalta. \u201cPor ser uma esp\u00e9cie oportunista e generalista, ela se adapta com facilidade ao ambiente modificado, e se dispersa rapidamente.\u201d<\/p>\n<p><strong>Habita\u00e7\u00f5es inadequadas<\/strong><\/p>\n<p>Como o mosquito tem afinidade por \u00e1reas pr\u00f3ximas \u00e0 margem da mata, onde ficam os domic\u00edlios das comunidades rurais, ele passa a viver pr\u00f3ximo do ambiente humano, que oferece muitas fontes de sangue para os insetos. \u201cAl\u00e9m de picar as pessoas, os mosquitos tamb\u00e9m se alimentam do sangue de animais dom\u00e9sticos como c\u00e3es, gatos, cabras, porcos, galinhas, papagaios e macacos\u201d, destaca a professora. \u201cAs habita\u00e7\u00f5es em geral s\u00e3o inadequadas, feitas com peda\u00e7os de madeira, folhas secas de palmeiras ou at\u00e9 uma simples lona apoiada em troncos de \u00e1rvores derrubadas. Os abrigos dos animais s\u00e3o t\u00e3o prec\u00e1rios que n\u00e3o impedem o contato dos mosquitos com fontes de sangue, fato que favorece o aumento da popula\u00e7\u00e3o do vetor e a exposi\u00e7\u00e3o do homem \u00e0s picadas.\u201d<\/p>\n<p>Segundo Maria Anice, o modelo de ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia nem sempre permite a melhoria da qualidade de vida das comunidades rurais, entretanto facilita a maior transmiss\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o da mal\u00e1ria. \u201cNormalmente, s\u00e3o popula\u00e7\u00f5es muito pobres, com n\u00edvel educacional baixo, que vivem em processo cont\u00ednuo de migra\u00e7\u00e3o, devido \u00e0 mal\u00e1ria, condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de vida e falta de recursos financeiros para se estabelecerem\u201d, diz. \u201cA migra\u00e7\u00e3o gera novos assentamentos em \u00e1reas de floresta, causando mais altera\u00e7\u00f5es nos ambientes naturais e a expans\u00e3o da mal\u00e1ria.\u201d<\/p>\n<p>Com as migra\u00e7\u00f5es constantes, as pessoas infectadas levam o parasita, muitas vezes sem ter sintomas de mal\u00e1ria, para novas \u00e1reas desmatadas, expandindo a \u00e1rea de transmiss\u00e3o da doen\u00e7a e dificultando o controle. \u201cQuando v\u00e1rias pessoas passam a conviver em uma mesma regi\u00e3o, com a presen\u00e7a do mosquito vetor, em geral a maioria \u00e9 suscet\u00edvel\u201d, destaca a professora. \u201cPortanto, ao mesmo tempo em que o agente \u00e9 introduzido no novo ambiente, ocorrem surtos da doen\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/20180528_00_Malaria1-800x486.jpg\" \/><em>Maior incid\u00eancia de mal\u00e1ria est\u00e1 associada a \u00e1reas de floresta nativa devastadas com menos de 5 mk2 de extens\u00e3o &#8211; Foto: cedida pela pesquisadora<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/20180528_00_Malaria2-800x486.jpg\" \/><em>Mosquito transmissor da mal\u00e1ria tem afinidade por \u00e1reas na margem da mata, pr\u00f3ximas a assentamentos rurais em \u00e1reas devastadas; na foto, criadouro do mosquito em S\u00e3o Gabriel da Cachoeira, Amazonas &#8211; Foto: cedida pela pesquisadora<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/20180528_00_Malaria_CriadouroVetorSGC-800x486.jpg\" \/><em>Proximidade de pessoas e animais dos domic\u00edlios das comunidades rurais proporciona fontes de sangue aos mosquitos, ajudando no aumento da sua popula\u00e7\u00e3o; na foto, criadouro em S\u00e3o Gabriel da Cachoeira &#8211; Foto: cedida pela pesquisadora<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/20180528_00_Malaria_abrigoanimaiscasa-800x486.jpg\" \/><em>Formados por meio de migra\u00e7\u00f5es, assentamentos rurais atraem pessoas que residiram em \u00e1reas de transmiss\u00e3o de mal\u00e1ria e podem abrigar o parasita sem ter a doen\u00e7a; na foto, abrigo de animais e casa de assentamento rural &#8211; Foto: cedida pela pesquisadora<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/20180528_00_Malaria_abrigoanimais-800x486.jpg\" \/><em>Habita\u00e7\u00f5es e abrigos de animais constru\u00eddas de forma prec\u00e1ria favorecem o contato do mosquito com as fontes de alimento; na foto, casa de farinha em L\u00e1brea, Amazonas &#8211; Foto: cedida pela pesquisadora<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/20180528_00_Malaria_CasaMadeira-800x486.jpg\" \/><em>Migra\u00e7\u00f5es constantes levam o parasita para novas \u00e1reas desmatadas; na foto, casa de madeira em Machadinho do Oeste, Rond\u00f4nia &#8211; Foto: cedida pela pesquisadora<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/20180528_00_Malaria_CasaLabrea_ColetaMosq-800x486.jpg\" \/><em>Expans\u00e3o da \u00e1rea de transmiss\u00e3o da mal\u00e1ria dificulta o controle da doen\u00e7a; na foto, rede para coleta de mosquitos ao redor de casa em L\u00e1brea &#8211; Foto: cedida pela pesquisadora<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/20180528_00_Malaria_casa-800x486.jpg\" \/><em>Rede em frente de resid\u00eancia de uma das comunidades rurais colocada para interceptar mosquitos que queiram entrar no domic\u00edlio &#8211; Foto: cedida pela pesquisadora<\/em><\/p>\n<p>Maria Anice enfatiza que os programas de controle da mal\u00e1ria deveriam levar em conta fatores da ecologia humana que atuam na din\u00e2mica de transmiss\u00e3o, como atividades de trabalho, condi\u00e7\u00f5es de moradia e migra\u00e7\u00e3o. \u201cPor exemplo, \u00e9 necess\u00e1rio melhorar a condi\u00e7\u00e3o de vida e as moradias, para diminuir o contato do homem com o mosquito\u201d, aponta. \u201cTamb\u00e9m \u00e9 preciso ampliar o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de qualidade e voltada para as necessidades locais, intensificar programas de controle, facilitar o acesso aos testes diagn\u00f3sticos e ao tratamento e fortalecer pesquisas sobre a ecologia da transmiss\u00e3o, que poderiam gerar novos conhecimentos e auxiliar no delineamento de programas para o controle de vetores.\u201d<\/p>\n<p>A pesquisa \u00e9 descrita na tese de Leonardo Suveges Moreira Chaves, doutorando do Departamento de Epidemiologia da FSP. As conclus\u00f5es do estudo tamb\u00e9m foram relatadas no artigo \u201c<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-018-25344-5\">Abundance of impacted forest patches less than 5 km\u00b2 is a key driver of the incidence of malaria in Amazonian Brazil<\/a>\u201d, publicado no site Scientific Reports em 4 de maio. O trabalho integra um projeto tem\u00e1tico da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp) intitulado\u00a0<em>Gen\u00f4mica de paisagens em gradientes latitudinais e ecologia de\u00a0<\/em>Anopheles darlingi<em>.<\/em><\/p>\n<p><strong>Mais informa\u00e7\u00f5es: e-mail masallum@usp.br, com a professora Maria Anice Mureb Sallum<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/20180528_00_Malaria_mapa_malaria.jpg\" \/><\/p>\n<p>Em vermelho no mapa est\u00e3o indicados os focos de desmatamento com menos de 5 km2 de extens\u00e3o; os munic\u00edpios com mais casos de mal\u00e1ria s\u00e3o marcados com as cores mais claras<\/p>\n<p>Fonte &#8211; <span class=\"vcard author author_name\"><a title=\"Posts de J\u00falio Bernardes\" href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/author\/jubern\/\" rel=\"author\">J\u00falio Bernardes<\/a>, Jornal da USP de 28 de maio de 2018<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa buscou demonstrar a correla\u00e7\u00e3o entre incid\u00eancia de mal\u00e1ria e o padr\u00e3o de fragmenta\u00e7\u00e3o da mata nativa causado pela cria\u00e7\u00e3o de assentamentos rurais e extra\u00e7\u00e3o de produtos da floresta. 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